Negros versus touros na Lisboa do século 19 – Touradas ou negradas?

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Ser escravo. Quadros de um quotidiano dos trabalhos e dos dias

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O texto completo (no link) é IMPERDÍVEL. Poucas são as descrições tão minuciosas sobre a vida dos escravos no Brasil. Penso que nem mesmo no excessivamente ideologizado Gilberto Freire tenhamos tão minucioso – e isento, transparente – relato.
As razões deste desconhecimento são sabidas e controversas, mas não vamos perer nosso tempo com elas agora. Pelo fato de não termos um documento de tão grande relevância por aqui, no Brasil, é mais recomendável ainda que se leia este, de Portugal. É que em muitos aspectos – senão todos – a vida dos escravos por aqui no século 18, na Corte do Rio, principalmente, devia ser idêntica ao que era na Corte portuguesa.
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“…Os negros também ocuparam um lugar de destaque nas praças de touros, onde, para além de encarregados da limpeza da arena e dos curros, foram utilizados como figuras de séquito, elementos indicadores de grandeza e artistas de entretenimento.

“…Sobretudo desde os inícios do séc. XVIII, passaram a exercer uma função recreativa, representando quadros cómicos destinados a divertir o público durante os intervalos do espectáculo. O italiano José Baretti descreveu um desses espectáculos, realizado em Portugal em 1760:

«Um preto com uma capa na mão esperou intrepidamente um dos touros, e, quando ele abaixou as hastes para o ferir, o preto, leve como um pássaro, atirou‑se de um pulo à cabeça do bicho e, dando uma imperfeita cabriola sobre o dorso, saltou em baixo são e escorreito. Outro preto agarrou um touro pela ponta do lado esquerdo com a mão esquerda, e, arrastando com fúria pelo feroz animal, segurou a presa muito firme, ao passo que lhe ia dando com a direita muitas punhaladas na testa e nas ventas, e depois deixou‑se cair suavemente num canto da praça, sem receber o mínimo dano».

Dada a grande adesão do público, a participação dos negros tornou‑se um número praticamente obrigatório nas corridas de toiros realizadas na capital, cujos programas reservavam pelo menos duas entradas para cada dia de espectáculo. A folha volante que propagandeava a corrida realizada na Praça do Salitre, a 17 de Setembro de 1820, informava que a arena seria limpa «pela Companhia da cor Tostada» e destacava a atracção reservada para o primeiro intervalo:

«[…] para descanso dos Bandarilheiros, e recriar, e satisfazer a expectação pública, a quem muito se deseja agradar, aparecerá o inimitável, intrépido, valoroso, o denodado Herói Africano, com desmedida filáucia, e nunca vista intrepidez, montado em um insignificante e misérrimo jumento, mostrando pela ridícula cavalgadura, a indiferença com que trata o bravio e ferocíssimo touro, que tem a combater de farpa. Virá acompanhado pelos seus colegas patrícios, e companheiros, torradas produções da conquista da Guiné, este novo e assombroso Jarbas, e espera nesta tarde juntar mais um louro, aos muitos com que tem enramado a sua negríssima fronte, em iguais e desmedidos combates, e fará todos os sacrifícios para não ofuscar o bem merecido nome de Pai Maranhão».

(Maria do Rosário Pimentel em http://www.buala.org/pt/a-ler/ser-escravo-quadros-de-um-quotidiano-dos-trabalhos-e-dos-dias)

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~ por Spirito Santo em 19/01/2017.

2 Respostas to “Negros versus touros na Lisboa do século 19 – Touradas ou negradas?”

  1. Pelo que li na matéria, eram como esses palhaços de rodeio de hoje em dia. Contudo, em Portugal existiram toureiros negros, pelo menos um ficou muito famoso (não me lembro o nome ele agora)

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  2. Seriam estes “tostados” precursores dos atuais toureiros?
    Ou simplesmente “bobos” da corte?

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