Spirito Santo e o Carnaval no “Stad di Min’s”. Estrevista para o Jornal Estado de Minas

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Entrevista para o jornal Estado de Minas, publicada no caderno “Pensar” de hoje, 24 de Fevereiro de 2017, em edição especial de Carnaval.

Spírito Santo
Músico, escritor e pesquisador

Por Pablo Pires Fernandes*

Músico, pesquisador e escritor de 69 anos, Spirito Santo é autor de Do samba do unk do Jorjão (http://rosasespiritos.wixsite.com/vendas) e profundo conhecedor da história do carnaval e das raízes africanas e cantos vissungos. O livro busca refletir sobre as origens do samba e sua evolução. Foi professor em Viena, na Áustria, e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), onde criou e coordenou o projeto de extensão Musikfabrik, de criação de instrumentos para jovens. Compositor e instrumentista, já gravou com Milton Nascimento, Wagner Tiso, Tetê Espíndola e Clementina de Jesus e produziu trilhas de filmes. Nesta entrevista, Spirito Santo aborda alguns temas sobre o carnaval e suas transformações.

Como se distingue a imagem do Brasil como o país do carnaval e o que a festa de fato representa para o imaginário nacional?

O carnaval brasileiro tem sim um certo grau de simbolismo na for- mação de uma imagem de Brasil no exterior e é, digamos assim, um “símbolo nacional” por excelência. Mas isso, além de óbvio, dado ao gigantismo do espetáculo e seu grande impacto na mídia in- ternacional, não é exclusivo do Brasil, pois existem carnavais em outros lugares do mundo que, do mesmo modo, desempenham mais ou menos este mesmo papel.

E penso que nós, brasileiros (o “imaginário coletivo da nação”) exageramos um pouco esta nossa projeção como povo supercarnavalesco diante do mundo. Algo a ver com a nossa autoestima em baixa, que precisa desse tipo de afirmação nacionalista? Assim, no que diz respeito à nossa necessidade compulsiva de ter alguma projeção no exterior, no mundo “civilizado”, seja de que modo for (reflexo do chamado “complexo do vira-latas” que nos caracteriza), em se tratando de carnaval (e mantendo o espetáculo no campo da nossa cultura), ao abusar da espetacularização exacerbada, utilizando elementos fake de uma suposta cultura popular – mal copiada –, optamos por mostrar o nosso pior lado, embora altamente comercializável.

Como o carnaval reflete a sociedade brasileira?

Uma manifestação cultural desse porte sempre refletirá o ethos de quem a pratica. Mas devemos combinar logo de saída o que a nossa sociedade é, o que um espelho franco refletirá sobre nós quando nos colocamos diante dele, nus. Somos uma sociedade altamente excludente, do ponto de vista social, muito dividida e, esse rosto pintado um lado de branco outro de preto não consegue nos mascarar, esconder o que somos, mesmo no carnaval.

O carnaval é uma das manifestações culturais mais antigas da humanidade. Historicamente, pode-se dizer – sem exagerar, é claro – que tem a vocação para ser uma das festas mais democráticas. Mas como dissemos acima, é uma festa que, por suas dimensões, tende a refletir as idiossincrasias da sociedade que a pratica. O carnaval é, enfim, a democracia expressa como farsa.

Então o carnaval mascara esta divisão e o racismo?

O exemplo está bem diante de nós. No Brasil, a história do carnaval sempre foi muito marcada pela nossa cruel estratificação social. Começamos o carnaval de rua ainda no século 19, com escravidão rolando. Era um carnaval de rua estritamente africano, do qual os brancos, pobres ou da elite, participavam apenas praticamente lambuzando-se uns aos outros com as brincadeiras quase domésticas do entrudo, enquanto as “bandas de pretos” passavam.

Nas ruas, o que rolava mesmo eram, portanto, os cacumbis carnavalescos, numa linha de tempo que avançou para os ranchos, trazidos por ex-escravos da Bahia, até chegarmos nas escolas de samba, nascidas nos morros e comunidades periféricas mais remotas.

Ora, são todas elas, manifestações seminais do carnaval carioca, festas de pretos. Fazer o quê?

Importante frisar também que a elite, a classe média “branca”, sempre se manteve afastada deste processo festeiro mais democrático, o das ruas e calçadas sujas, ora promovendo desfiles de carros alegóricos na Zona Sul (“grandes sociedades”) ora se emperiquitando nos seus nababescos carnavais privados em grandes clubes ou teatros. Logo, o carnaval sempre foi de todos sim, mas no Brasil sempre foi na base do “cada um no seu quadrado”, um carnaval apartado, elitizado.

Nesse processo, como vê as ideias de “contaminação” e “apropriação”?

Há sim, também no nosso carnaval – o que me parece o seu aspecto mais significativo, enquanto representação do que seríamos como sociedade – o aspecto da “apropriação”. Não há como um grupo de elite não cair na tentação de subtrair a cultura do outro, seu antípoda social, quando lhe falta uma outra cultura, própria, originalmente nacional, para mostrar ao mundo.

É como o retrato de Dorian Gray.

O processo pode ser muito bem observado na evolução das escolas de samba que, ao longo de seus mais de 80 anos de existência, de manifestação popular dos extratos mais excluídos e desprezados da sociedade (negros pobres, a maioria descendentes de africanos escravos), à medida que foram obtendo mais projeção midiática, se tornando mais espetacularizáveis (no mau sentido), mais foram sendo “ocupadas” também pela classe média “branca”, processo que se agudiza na virada dos anos 1970 com a gradativa exclusão de muitos dos manifestantes originais, para os quais a participação foi se tornando, financeiramente, até proibitiva.

O conceito “apropriação cultural”, por isso mesmo, me parece estar sendo utilizado de forma muito superficial em certos contextos (de maneira até irresponsável, às vezes), criando falsas polêmicas. No geral, se “apropriar” da cultura alheia é uma impossibilidade em termos. A simbiose cultural é algo próprio da natureza humana. Por bem ou por mal, como por osmose, as culturas sempre se imiscuirão, desde que em contato umas com as outras, desde que estejam geograficamente próximas.

E isso nem depende das pessoas, além do que – é importante frisar – sem importar nem mesmo a “cor” delas, a sua suposta “raça”, pois cultura, a expressão dos modos de ser de grupos específicos de pessoas, é um fenômeno atávico, espontâneo – embora nunca seja da conta da genética.

No entanto, precisam estar presentes certas circunstâncias expressas acima para que se considere a cultura – o carnaval no caso – como um bem democrático e comum a todos numa sociedade, e essas circunstâncias, infelizmente, não estão presentes no Brasil. A ausência desses fatores muda – e muito – o sentido que se deve dar, de forma mais precisa, ao conceito “apropriação”.

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É possível falar de uma divisão de classes no carnaval?

A distinção de “cor” é, sim, um problema candente neste caso. As distinções de classe, permitam-me, não podem ser categorias separadas no caso do Brasil, pelas tantas razões que mencionei. O não reconhecimento dessa circunstância sociológica cabal faz desmoronar qualquer análise que se pretenda séria.

A exclusão social no Brasil está firmemente assentada na exclusão “racial”, pois o Brasil é, histórica e inegavelmente, uma sociedade racista. É fundamental reconhecer essa nossa incômoda característica de uma vez por todas.

O principal aspecto do aumento da participação da classe média “branca” – da ”elite” em si – no carnaval de rua no Brasil, notadamente nas grandes cidades – Rio, São Paulo, Salvador, Recife, Belo Horizonte –, tem crescido e se afirmado, infelizmente, por meio do afastamento exponencial dos antigos manifestantes (pobres, negros, habitantes de comunidades periféricas). Trata-se, claramente, da substituição de uns pelos outros, da “apropriação” com o sentido mais de “expropriação” mesmo, em que a chegada de uns afasta, necessariamente, a presença dos outros. É uma questão de mutação territorial, portanto, agravada pelos programas de reforma capitalista do espaço urbano, que geram gentrificação progressiva, fator que impacta fortemente a cultura de um local.

Como ocorreu isso no carnaval do Rio de Janeiro?

O boom dos blocos de rua no carnaval do Rio de Janeiro, cuja maioria esmagadora de foliões, hoje, são brancos, foi um fenômeno projetado, planejado e bancado por estruturas de renúncia fiscal via Ministério da Cultura, patrocínios de cervejarias etc., recursos de patrocínio aos quais os desestruturados  blocos de rua antigos, tradicionais, a maioria sediados nos subúrbios, jamais tiveram acesso. Nesse processo – do qual fui testemunha ocular – intenso, a partir dos anos 1990, ligado diretamente à recuperação das áreas degradadas do Bairro da Lapa, muitas incursões foram feitas, muitos mestres de samba, do Rio, e maracatu, de Olinda, por exemplo, foram con- tratados para promover workshops, até que se chegasse a estas megaestruturas atuais, numa verdadeira transferência de know-how.

A entrada do mercado, portanto, favorece esse tipo de exclusão?

São processos de mercantilização naturais, típicos do sistema sob o qual vivemos, mas é preciso discutir os aspectos ligados o alto grau exclusão sociorracial, perfeitamente visíveis, gerados por esses processos de espetacularização seletiva.

Como se dá esta evidente exclusão de “não brancos” nos blocos? Que filtros são utilizados? São, como todos os organizadores inquiridos afirmam, fruto de uma opção dos próprios negros de não participar? Estariam esses blocos de “brancos” preservando a “cultura negra” abandonada pelos negros, que “agora só querem saber do funk”, como um desses organizadores me afiançou?

Esse é aspecto crucial da questão, fulcro desse fenômeno, que é típico da sociedade que forjamos: A exclusão sociorracial, que vai se manifestar em todas as instâncias de nossas relações sociais e vem tomando, no campo da cultura, a forma de “apropriação” no sentido lato, com finalidades deliberadas, nada naturais. É uma patologia sociocultural, para a qual eu mesmo cunhei a expressão “cultura negra sem negros”.

Não se trata, portanto, de “negros” julgarem que o carnaval, o samba (os turbantes, ou seja lá o que for) sejam seu patrimônio cultural exclusivo. Trata-se de essas pessoas – que também, convenhamos, mal compreendem o que está acontecendo –, se sentindo usurpadas, protestarem contra o que, para elas, parece ser uma expulsão de “sua” própria festa, alijadas para uma periferia (geográfica ou simbólica) cada vez mais distante, barradas no baile.

*A entrevista contou com a consultoria do professor da Escola de Música da UFMG Carlos Palombini.
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~ por Spirito Santo em 24/02/2017.

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