Titio Congadeiro. O Objeto de Estudo no espelho

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A Pesquisa de Campo é a pesquisa de nós mesmos

 Nem me lembro a data exata. Final dos anos 1970, presumo, início dos 1980, no máximo, um ano remoto destes.Titio congadeiro em campo

Somos aí, na foto, parte do Grupo Vissungo, realizando pesquisa de campo sobre as congadas da região da cidade de Machado, Minas Gerais. Este já era o quinto ou sexto ano que eu frequentava esta “escola”.

Pesquisa de campo? Sim. Exatamente. A metodologia que o Titio e seus colegas, aplicava, por pura intuição era a da investigação, digamos assim…orgânica, uma emersão profunda, absoluta. Entrávamos, ano após anos, gradualmente dentro da intimidade dos grupos, do que se chama hoje em dia de “objeto de estudo” até nos transformarmos, nós mesmos, também em parte integrante desse objeto. Metamorfose cultural, algo assim.

Pesquisar congada para nós não podia ser de outro jeito, enfim, que não fosse virarmos congadeiros reais. Dançar na festa, cantar e tocar no terno, beber a mesma cachaça, comer a mesma comida, viver a mesmo vida, tudo por tudo enfim

(Aí!…Saudades do torresmo)

Afinal, descendentes de gente igual àquelas que pesquisávamos, estávamos mesmo, no fundo, pesquisando a nós próprios, cumprindo nossa sina. Bem sei que os pesquisadores de hoje em dia – principalmente os doutorandos ou doutorados – abominam, subestimam – desprezam até – este método (o folclorismo) considerado empírico, impreciso. Devem ter até um nome bem depreciativo para definir esta técnica.

(Nem se tocavam – ou se tocam – que, necessariamente usávamos, como usamos até hoje muitas referências bibliográficas e que,  de empíricas as nossas coletas não tinham nada.) Geraram conclusões diferentes sim, é claro, tão divergentes que eram as metodologias.

Ah os preconceitos elitistas! Quanta ignorância!

Existe por aí até uma conversa – bem fiada para mim, aliás – acerca de um tal de “distanciamento crítico” que sempre me intrigou por sua impertinência. Ora, afinal gente normal interage, vive de intercâmbios, se relaciona de forma absolutamente natural e atávica, irreprimível, numa simbiose que está na própria essência (ops!) de nossa natureza.

Afinal não se trata de estudar uma colônia de larvas ou de formigas, ou mesmo estrangeiros “nativos” (como alguns antropólogos -ou etnólogos, difícil diferenciá-los- têm a coragem de denominar seus “informantes”). Somos gente investigando gente para nos tornarmos gente melhor

Deste modo presunçoso deles, quaisquer relações entre pessoas em pesquisas etnológicas presenciais, só fariam sentido se fossem distanciadas, olhadas de cima para baixo.

Ora, trata-se de uma metodologia dos primórdios da antropologia colonial (à época,  ainda sem nome), no tempo daquele colonialismo abjeto, do viajante cronista, “homem branco” eurocentrado – muitas vezes um naturalista, um padre catequista – estudando a alma do “bom” selvagem, do Ser nativo, para melhor dominá-lo.

Me ocorre também no contexto desta crítica, convenhamos hoje bem recorrente, que nem nos passava pela cabeça na época, refletir sobre isto, sobre este preconceito acadêmico tão esnobe e ignorante que grassa as ciências sociais de lá até agora.

É que nestes luminosos anos 1970, esta prática de músicos pesquisadores era a coisa mais comum do mundo (toda a nossa MPB dos anos 1960/70, foi baseada nesse conceito). Ninguém teria a pachorra nesta época de patrulhar, questionar a legitimidade de pesquisas independentes, subestimá-las, tentando enquadrá-las no caixotinho mofado da “norma culta”.

Havia também muitos pesquisadores independentes, conhecidos como “folcloristas”, uma técnica de pesquisa antropológica hoje abominada, desprezada pelos doutores mais convencionais, na qual a meticulosa coleta, o registro apurado das características dos eventos ocorridos no campo, a fisiologia da coisa mesmo, registrada ocorrendo ali, ao vivo, servia de base para todas conclusões futuras (inclusive às dos antropólogos esnobes de hoje.).

(Hoje – pasmem! – uma rápida visitinha de três, quatro dias num “sítio etnológico” qualquer, serve de embasamento para uma tese de mestrado inteira, algumas com quase mil páginas de texto)

Embora a antropologia brasileira tenha sido fundada nos anos 1930/40, por aí, a área estava ainda dominada nos anos 1970 por um bolorento beletrismo, ambiente no qual a chamada “pesquisa de campo” passara a representar um elemento de apreensão e construção do conhecimento, secundário, quase desprezível (um comportamento, aliás, que infelizmente predomina até hoje).

Prioriza-se isto sim, uma estranha proeminência do esoterismo da Filosofia europeia do século 20, a escrita de alguma sumidade da moda, cujas elocubrações, viram panaceia metodológica, ferramenta analítica preferencial, bula, para  todas as abordagens, todas as petulantes epistemologias a partir daí criadas.

Mas não éramos assim. Éramos  livres. Nenhum compromisso com os cânones nos mobilizava. Eles que se danassem.

Os seminários rolavam na Roça

Convidados pelos Capitães José Caixeta e Benedito Lourenço, saudosos mestres do terno de congada de São Benedito, levei neste ano para Machado os outros músicos do grupo Leninha Codó (à direita na foto) e Carlinhos Codó (á esquerda). Samuka de Jesuss, ao meu lado ao centro já desfilava desde de anos anteriores

Os instrumentos (dois alaúdes de cabaça, uma cuíca de tonel de cachaça e a minha primeira marimba) foi o Titio mesmo quem construiu. Muito me divertia ver o pessoal na rua ouvindo aquele instrumento tão africano e inusitado que era a minha marimba, terçando harmonias com os acordeões do terno de José caixeta.

Anos depois, pesquisando, descobri que marimbas, exatamente iguais à minha, haviam sido muito comuns nos ternos de congada da área do Vale do Jequitinhonha, MG, no século 19 (vejam a imagem)

1868. Congadeiros de Morro Velho, MG, com marimba. Foto de Augusto Riedel

Seriam insights de memória genética, cintilando em nós?

Sei lá. Só sei que ando agora compartilhando com os interessados o tanto que aprendi e registrei destas viagens memoráveis ao fundo de mim mesmo (meu livro “Do Samba ao Funk do Jorjão” foi cimentado com estas memórias amarradas por uma bibliografia possível.)

(Compre o livro em http://rosasespiritos.wixsite.com/vendas)

Auê, Zambi!

Spirito Santo

Abril 2014/2017

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~ por Spirito Santo em 12/04/2017.

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