O Arrego. Crônica do Coletivo do pavor

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Foi assim: Eu cochilando, na onda das cervejas bebidas no centro. Ônibus lotado, mas eu sentado no banco amarelo dos idosos, meu trono imperial.

De repente um reboliço explodindo. Ouvi, ainda meio cochilando uma ou duas rajadas de fuzil. Só aí me dei conta de que todos os passageiros (menos eu) estavam estirados no chão, uns sobre os outros, imóveis como mortos. Tentei deitar também, mas não havia espaço e, além disso meus velhos joelhos não dobram mais sem doer. Fiquei assim, ajoelhado, o medo dissipado pela visão inusitada, a cena surreal.

Cismei de fotografar. Porque não? _Rezar ou fotografar?_ cheguei a pensar. Mas que besteira! Nem sei direito como é rezar, entregar meu medo à deus? Isto não sei fazer. Se um tiro me pegasse, o que poderia de pior acontecer? Morrer? Ah…

O celular, dispositivo sensorial indispensável, memória portátil, caixa dois, auxiliar de pensamentos super indeléveis, logo percebi, é personagem importante nessas situações. Parece mórbido, puro sadomasoquismo, só que não.

Uns narram aos parentes, esposas e namoradas, o pânico em tempo real, em vídeo, outros tentam o consolo de dividir esse pânico com alguém de fora, numa conversa tensa de WhatsApp, o medo compartilhado numa rede social pirada e imensa, espalhando pela cidade num pânico sem sentido, pois, jogados no chão do ônibus, nenhum de nós, os narradores, vê nada do que se passa lá fora, além do som das rajadas dos fuzis automáticos.

A qualquer momento, uma ou mais balas disparadas, com direção ou à êsmo (como saber?) pode atingir o ônibus, matar alguém. _”Quem sabe flagrar um ferido agonizante e postar na página, ganhar mil curtidas?”_ Deviam pensar os mais sádicos…

_”Que não seja eu” _ pensei eu, contraditoriamente com o celular fotografando meus colegas reféns, aquele tapete de gente, cabeças e bundas largadas ao destino apavorante de, no prosaico e rotineiro desejo de voltar do trabalho para casa, chegar vivo ou, morto, nunca mais chegar.

O motorista, adrenalina á mil, como um pilôto de avião em queda livre, tentando comandar o terror dos passageiros, ali, diante do para brisa, tela panorâmica, de cara para a guerra suposta que as rajadas nos sugeriam. O pobre abria as portas para os que quisessem sair, mas logo, no meio de uma ensurdecedora gritaria, as fechava, rápido. É que havia em todos o pavor do ônibus ser invadido por garotos vândalos, com garrafas pet cheias de gazolina, saídos do nada que era o escuro e difuso interior da favela.

Mas não. Diante da gritaria dos deitados, uns pedindo que seguisse, outros pedindo que desse ré, o motorista percebeu que atrás dele, os carros todos haviam manobrado e fugido na contramão em desabalada carreira. Deu ré.

Escapamos por vielas e ruas desconhecidas, até que localizei a favela do Jacarezinho, nesse momento, tranquila. Me causava espanto também a entrada dos novos passageiros, do mesmo modo tranquilos, alheios, ignorantes do que havia acabado de ocorrer ali, no “coletivo”.

Só em casa pude me inteirar sobre o que havia, realmente ocorrido.

Deu em O GLOBO, a notícia oficial:

“…intenso tiroteio no Morro da Mangueira, na Zona Norte do Rio, assusta moradores da comunidade e arredores, na noite desta sexta-feira.

De acordo com a polícia militar, há uma operação em curso, comandada pelo Batalhão de Polícia de Choque (BPChq), e criminosos armados estariam resistindo à incursão policial. Pelo menos um deles já foi preso e teve sua arma apreendida. Estas são as informações preliminares divulgadas pela corporação.

Em meio ao confronto, os agentes vão contar com a ajuda de carros blindados.

O Centro de Operações da prefeitura do Rio informou que pode haver interdições na Rua Visconde de Niterói devido à operação policial.”
Logo desconfiei, na hora: “_Operação policial às 8 da noite, com o trânsito congestionado ainda, as pessoas voltando do trabalho? Não bate bem esta versão”

Até que deu numa conversa de whatsapp a notícia que me pareceu mais verosímil, a mais real e convincente.

“Sexta feira: Dia do “Arrego do Baile”, traduzindo: Dia no qual policiais militares incumbidos pelo comando do batalhão local, vão pegar a propina regular, cobrada pelo batalhão para liberar o Baile Funk.

Algum desentendimento ocorreu entre as partes e o conflito se generalizou. Segundo as mesmas fontes, blindados foram acionados para resgatar os policiais acuados na favela.”

Ah…Nem preciso comentar. Vocês sabem muito bem como contextualizar  esta narrativa, a moral dessa história.

Melhor assumirmos logo o nosso banditismo. Ele é, de cima a baixo, o modelo natural de nossa “Democracia”, nosso modelo de Governo.  O Brasil se embandidou de vez, “arregou”, a Constituição, o Poder e o Governo, são dos bandidos.

Que o piso do ônibus nos seja macio.

Spirito Santo
Maio 2017

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~ por Spirito Santo em 27/05/2017.

Uma resposta to “O Arrego. Crônica do Coletivo do pavor”

  1. Dá pra “viver” o evento com a tua narrativa.. queria ser boa artista pra desenhar canos de plástico saindo do corpo dessas pessoas, por onde o sangue é drenado, com os nomes das instituições que extraem de nós nosso sangue financeiro: políticos, bancos, grandes empresários.. todos mancomunados como ladrões de marmita, fracos, sujos. É isso que devolvem a título de proteção paga com muito imposto!
    Mas… é uma pancada de realidade na lata da gente!

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