Cadeia de memórias reparadas é um tenso fio

Creative Commons LicenseTodo o conteúdo deste blog está assegurado sob uma licença Criative Commons.

Paulo Gomes Neto e Eu, amigos de cadeia, amigos para sempre. Ao fundo, entre nós, o  secretario de Direitos Humanos Antonio Carlos Biscaia, grande batalhador da reparação e do reconhecimento do valor de nossas lutas modestas, agora sim cobertas com alguma glória.

E eu, arquivo vivo vou queimando aos poucos

 …”Quinze minutos depois do avião da Cruzeiro do Sul levantar vôo do Rio de Janeiro com destino a São Paulo, no dia primeiro de julho de 1970, quatro jovens deixaram seus lugares e se dirigiram à cabina de comando. Lá foram breves: era um sequestro. Armados, eles obrigaram o piloto a voltar para o aeroporto do Galeão…

Quem sabe deste incidente aventureiro? É filme? É teatro? Não, foi fato. Foi sim. É que memórias são fios que se desfiam de um rolo para se embaralharem irremediavelmente, até não serem jamais meada nem medida, até não poderem mais ser enrolados em rolo algum.

A Reparação do irreparável

Para nós os rebeldes, a encruzilhada radical

É que estive hoje cedo no Arquivo nacional.

É isto! Fui como um dos 160 ex-presos políticos da Ditadura que neste 27 de Abril – depois de mais de 8 anos de espera – fomos homenageados (e com uma quantia simbólica indenizados) como reparação e reconhecimento por parte do governo do Estado do Rio de Janeiro de que foi criminosa, desmedida e injusta a nossa detenção em cadeias e presídios do estado entre os anos de 1964 e 1979 por termos cometido o que eles julgavam ser ‘subversão da ordem pública’, ‘delitos de opinião’.

…”Em solo, o avião com cerca de 50 pessoas entre passageiros e tripulantes foi cercado por tropas militares. As exigências dos seqüestradores eram a libertação de 40 presos políticos e a saída deles do país. As negociações começaram às 9h da manhã e se estenderam por horas. Enquanto os estudantes aguardavam notícias, esguichos de espuma impediam que eles vissem o que acontecia do lado de fora.

Lembrei do pesado passado naquela hora, enquanto as autoridades discursaram para nós as suas empoladas homenagens, ora nos chamando de vítimas, ora de heróis.

A gente se sente assim, estranho nestas horas. Se sente velho arquivo nacional vivo, mas num prédio-cabeça fora do lugar. As memórias sessentonas todas vadiando por ali pelos jardins do Arquivo, ‘lelés’, vagando por dimensões estranhamente, umas límpidas outras confusas, entre o passado tenso e o presente encanecido, barrentas de todos os barros do caminho como as enxurradas.

(Barrentas sim, bolorentas não!)

As cenas, imagens de cantos de aparelhos entulhados de livros velhos, apostilas velhas, fuzis velhos e mimeógrafos velhos. Nós não. Apenas nós éramos jovenzinhos ali naquele cenário romãntico, como heróis dos filmes da nouvelle vague daquele tempo.

Agora não. No hoje não (é que o presente acachapa, enquadra a gente, sabem?).

A novidade do encontro com o passado é amarelada, esfiapada, estropiada. Haja photoshop emocional para processar em nós o que a memória enxerga já meio rateando, como um mimeógrafo seco, sem álcool. Um software que instantaneamente apaga as rugas e as marcas do tempo nas peles, empretece os cabelos dos conhecidos e nos devolve algum fiapo da memória deles, é coisa que simplesmente não existe em nosso arcaico hardware anos 60.

A voz e os rostos dos hoje velhos conhecidos acesos em nós num clarão emotivo – logo assim que os vemos – nos chegam com os nomes apagados, borrados em paralisadas brumas, ou preto ou branco (sem cinza) como as fotografias mais velhas de um fundo de baú com traças jovens, traças sórdidas, ativas e operantes agentes de um Dops de apagamento de flagrantes lembranças.

…Ai!Quem será aquele que me acena agora? Como se chama? Quem será, meu Deus?
João Belisario – que… olha que incrível! … conheci agora mesmo – asilou-se em Angola e vive ora lá, ora aqui até hoje. Cumpriu todas as etapas de uma revolução de sonho, da luta aqui à vitória certa lá, passando pelo ideal socialista conquistado, mas logo perdido no inescapável abraço–redemoinho do inevitável capitalismo hegemônico de nosso tempo.

Jessie Jane, a moça com aquele nome de bandoleira de faroeste (Jane Calamity mais Jesse James), aquela do sequestro do avião – que eu, ainda preso, conheci de longe como uma lenda revolucionaria – estava lá nos jardins. Ela é agora uma senhora como eu estou senhor, alegre e orgulhosa, sorrindo feliz de ter sido o que é até hoje: alguém que fez o que achou imperativo fazer, contra tudo e contra todos os nãos, até mesmo o não impositivo da morte no avião da qual, escapou.

O companheiro dela, o Colombo outro sobrevivente do sequestro sitiado, também estava lá. Foi ele o orador escolhido para falar em nome de nós todos. Falou bem. Saudou veementemente a memória dos que, certamente assassinados pela ditadura têm o paradeiro de seus corpos omitido por um complô dos covardes torturadores assassinos, aqueles crápulas boçais que, a cata da impunidade eterna, o sangue já seco de suas vítimas ainda remoem, torturando as famílias com o seu silêncio cretino, as almas dos mortos a pauladas e a tiros ainda penadas, mantidas num pau de arara intangível.

Colombo falou também, melhor ainda da arquitetura de nossas memórias ainda mais profundas. Evocou a lembrança da antiga Casa de Detenção da Capital Federal, prédio de estilo neo clássico segundo ele erigido em 1915, exclusivamente para ser o centro da repressão política do Brasil, soturno prédio da Rua da Relação, o famigerado Dops onde eu e tantos outros presos amargamos as experiências mais dilacerantes das nossas vidas.

O Dops da solitária principal chamada de ‘Ratão‘, engulindo os gemidos ocos dos seviciados (como Marco Antonio de Azevedo Meyr que ali ouvi gemer com um tiro na garganta) lançados após cada seção de tortura, alguns dali sendo retirados já quase cadáveres, na calada de alguma madrugada, com as celas todas trancadas como bocas amordaçadas, amaldiçoadas.

Todas estas memórias que se desvanecem já em nossos arruinados velhos prédios-cabeças, carecendo de um abrigo qualquer, um ‘aparelho’ legalizado, eternizante portal da posteridade que nos falta, como o Centro da Memória da Repressão Política no Brasil que Colombo efetivamente reivindicou ali, como destino mais que justo para o prédio da Rua da Relação, aquele mausoléu de tantos, quase em ruínas, mas ainda recuperável, um prédio que o estado reluta em assumir e reformar, acossado que está por um lobby de policiais que tenta, a todo custo,  evitar que a construção do centro se efetive.

Um museu-arquivo para as doídas e exemplares memórias de todos nós, as memórias dos combatentes da liberdade do Brasil, dos grandes doidos heróicos como João Cândido (que só não ficou preso ali porque ali a prisão não existia ainda), sobrevivente da tortura que foi assassinado em vida pela Marinha. Heróis-doidos como Gregório Bezerra (cujo neto Paulo Cesar dividiu comigo a minúscula cela na Ilha Grande) sim, o mesmo Gregório petulante arrastado pelos cavalos do Coronel Ibiapina no Recife.

Um museu-arquivo para outros tantos doidos heróicos como Marighela, abatido a tiros naquele fusca-arapuca, doidos-heróicos como aquele Capitão Lamarca esquálido fuzilado nos cafundós do Judas da Bahia. Sim, um museu-arquivo para a memória de todas as derrotas passadas de todos nós os pequenos loucos e nossas falsas derrotas de ontem que hoje, cada vez mais vivas de importancia para os nossos filhos e netos, se agigantam em fulgor, se afigurando como as brilhantes pequenas vitórias no tijolo a tijolo de nossa democracia que está aí, quase impávido colosso da pátria amada Brasil.

É que este Alzheimer político de nosso tempo precisa ser curado enfim com o sumo destas lembranças perpetuadas. Para que quando um de nós acenar com aquele olhar marejado de quem viu o galo cantar e sabia muito bem onde era, mas não lembra mais, alguém puder dizer, logo em seguida, consultando o nome do local ou da pessoa escrito junto à foto, ao filme, ao panfleto digitalizado:

_” É o Paulo Gomes Neto, gente! É o Jesus Gaúcho! É Lúcio Flávio! É o Paulo Cesar Bezerra! É o Antônio Barbeiro! É o Luiz ‘Padre’! É o Belisario! É o Colombo! É…é  a Jessie Jane, gente!

É um pássaro abatido? Não! É um avião seqüestrado sitiado? Não. Somos nós, os simples super-homens e as simples super-mulheres da vida, aqueles que arquitetaram este pequeno prediozinho inacabado da jovem democracia do Brasil! Sou eu bicho-falante, arquivo vivo que vou queimando aos poucos sim (mas só que agora com backup).

E sabem o que mais? É um pecado enorme nós, velhos-jovens termos à nossa disposição, como todo mundo, tantos dispositivos de registro de tudo hoje em dia, e termos que ficar por aí reivindicando que nos registrem as lembranças, convivendo com jovens-velhos que desconhecem, surpreendentemente o valor que os velhos conteúdos e as memórias registradas têm.

Se querem saber, a minha geração quando jovem, registrou a música de Cartola antes que ela se desvanecesse! Exista ou não Ele entre nós, comunistas unidos e convictos que seremos para sempre… Deus não dá mesmo asa á cobra.

Fosse eu um velho mimeógrafo avançava fácil e sozinho na execução desta tarefa: encharcava-me de álcool e saía esbravejando doidão por aí, em palavras-letras azuis caixa alta, garrafais:

“_ABAIXO A DITADURA DA MEMÓRIA SE APAGANDO… HASTA SIEMPRE!”

Spírito Santo

Abril 2011

Anúncios

~ por Spirito Santo em 29/05/2017.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: