O africanismo escapista da universidade de cotas do Brasil

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Nem todo negro é mandinga nem toda crioula tem ginga

Africanismos de boutique a Branquitude curte de montão

Falar em Afrocentrismo sem papas na língua ou sem babados tergiversativos no Brasil, costuma azedar um debate. A teoria do “Afrocentrismo” (em politicorretês se deve dizer “Afrocentricidade“, logo revelaremos porque) se transformou, rapidamente num modismo negro-acadêmico bombadíssimo entre membros de coletivos negro-estudantis integrados, em sua maioria, por cotistas de universidades federais.

Teoriza-se muito também nesses meios sobre o velho “Pan-Africanismo“, a emergência dessas duas correntes indicando uma tendência avassaladora (e natural, inevitável) dos estudos sobre a presença africana no Brasil serem inseridos na mui branca seara acadêmica brasileira, por bem ou por mal. Uma demanda irreprimível, confusa ainda, mas sob qualquer aspecto que se a observe, muito alvissareira.

Confesso, contudo, que às reações tensas, impregnadas de um tom serioso, quase religioso, nas respostas ou indagações de alguns leitores, diante da simples menção crítica a conceitos como “Afrocentricidade” e “Panafricanismo” me exasperam, pois demonstram uma tendência a tratar de modo distorcido e intolerante, ideias fundamentais à formação de um pensamento antirracista brasileiro objetivo e legítimo, eficiente.

Será que essas pessoas tão jovens sabem mesmo o verdadeiro sentido desses conceitos (Pan-africanismo e Afrocentrismo), historicamente inclusive, conhecem e estudaram o contexto em que eles fizeram sentido (embrionários no pós-escravidão no século 19 e muito ativos no bojo dos programas de descolonização nos anos 1960/70, nos debates diplomáticos paralelos às lutas de libertação nacional em ÁFRICA)?

Será que sabem que estes processos e movimentos (principalmente o Pan-africanismo) em muitos pontos se confundem e se referiam EXCLUSIVAMENTE às realidades de uma parte específica do continente africano?

Será que sabem que esses movimentos foram mais intensos em países ex-colônias francesas e inglesas, a maioria delas, a esta altura, religiosa e ideologicamente já envolvidas com o islamismo, que se expandiu muito África negra a dentro no século 19?

Um tanto de alienação, não seria?

E diversionismo, proselitismo também, pois, abordam de forma precipitada, conceitos complexos como africanidade, negritude, etnicidade, a partir de uma bibliografia africana restrita e nesta afoiteza, se arvorando de seguidores de uma doutrina superior, embaralhando culturas e etnologias absolutamente estranhas (e arcaicas) àquela África que nos diz respeito enquanto negros do Brasil

(E aí percebe-se uma certa tendência escapista, em relação aos estudos da Diáspora, a nosso ver, o conceito chave na luta contra o racismo no Brasil). E não é por falta de orientação. Existem simples definições historiológicas que podem ajudar muito. Basta querer estudar com mais rigor e método o assunto.

O Pan-Africanismo, por exemplo é/foi um movimento político e ideológico CONTINENTAL, velho desejo dos líderes africanos nos tempos coloniais, sonhado nos pesados esforços da descolonização africana (por injunção de intelectuais residentes nas metrópoles, inclusive) visando a criação no futuro de uma federação de países, como um bloco coeso, inclusive culturalmente, mas principalmente economicamente, NA ÁFRICA!

(Se você curte referências e citações canônicas, norma culta, essas coisas, estes parágrafos acima e abaixo, estão cheios de dicas e pistas)

O Pan-Africanismo original, mostrou-se por fim uma utopia em muitos sentidos, afogado pela exacerbação expansionista do imperialismo norte americano nos anos 1970, que inundou a África (e as Américas) de ditaduras, sendo atropelado enfim pela Globalização econômica dos nossos dias (neo-neo-colonialismo para os íntimos) cujo drama vivemos agora mesmo, com nuvens de populismo e intolerância se anunciando no céu global.

A tentativa de ressignificar o conceito Pan-Africanismo, inserindo a Diáspora (a África deslocada) na amplitude dessa “panorâmica”, teoricamente faz sentido, mas o intento jamais será atingido sem um estudo profundo da cultura, do pensamento africano gestado NO BRASIL em séculos de experiência por aqui de culturas como as da África central ou do Sudeste oriental, notadamente Angola e Moçambique.

O ” Pan”, o prefixo em seu sentido de amplitude de experiências, precisa ser entendido como leque, DIVERSIDADE de culturas afins, sem escapismo, sem fuga da realidade imediata.

Por outro lado, o Afrocentrismo é/foi um movimento de inspiração histórico-culturalista, surgido nos anos 1950, já no Caribe (e um pouco nos EUA), como oposição ao chamado Eurocentrismo, ideia maquiavélica que, como se sabe, propunha a existência de uma supremacia da “raça” branca na construção e evolução de nossa humanidade, fundamento ideológico do Racismo “científico”, do pós colonialismo, como se viu, uma estupidez em todos os termos.

É óbvio que seguir uma ideia de conteúdo e propósitos tão semelhantes àquela que intentamos combater é um equívoco crasso. O Afrocentrismo nasce assim como uma ideia simplista, maniqueísta, tão sem fundamento quanto seu falecido antípoda, o Eurocentrismo.

Nem mesmo a tentativa de ressemantização nesse caso seria aceitável. De tão óbvia, a ideia expressa claramente pelo sentido do termo “A África É o centro do mundo” nasce inconsequente.

(A propósito, grupos de ativistas  forjaram até uma alteração etimológica do termo, tentando esconder seu estigma semântico, impondo a denominação “Afrocentricidade“, num jogo de sufixos – trocando o  “ismo” (que, entre outros sentidos sugere uma ideia ou ideologia, visto como pejorativo por também definir doenças) por “dade” – sufixo definidor de estado, condição), exatamente como fazem outros controversos movimentos sociais por aí.

(Esta é a parte mais infantil das tentativas de legitimar esta ideologia caquética da supremacia cultural de uns seres humanos sobre os outros: O Etnocentrismo. Pueril também porque tenta impor como verdade absoluta uma ideia instigante, mas altamente discutível).

África mística e África de fancaria

O preço dessa alienação etnológica de nossos movimentos negros (que não é recente, diga-se)  repetidos pelas novas gerações de universitários negros em suas equivocadas  doutrinas  Afro-chics, tem sido alto. Esta alienação sofisticadamente aculturada vai se tornando um impasse preocupante para o avanço da luta antirracista no país.

Enfim, muito a se debater sobre este caos ideológico implantado pelas intenções academicistas, elitistas (ou quem sabe apenas confusas) de alguns desses grupos de militantes calouros.

O que é certo é que, negros numa sociedade estruturada para excluir negros, dentro ou fora da universidade, temos diante de nós dois caminhos ou tarefas díspares ou contraditórias a seguir, posto que só uma vingará.

1- Lutar contra o racismo em prol de TODOS os negros do Brasil (e, de posse de direitos civis conquistados graduar, doutorar muitos, estimular carreiras profissionais solidárias, enfim)

2- Ou tentar criar e amamentar uma ELITE negra minoritária, petulante e aculturada, a partir da propagação autofágica de doutrinas negras exóticas, no âmbito de uma negritude tanto de aparências, quanto inofensiva ao status quo racista que dela se nutre.

Enfim, a escravidão e o racismo parecem ser instituições eternas. Só que não. Alguns negros, não interessados em mudar isto, como sempre ocorreu, tentam o caminho do assimilacionismo mascarado, a saída individual dissimulada, um caminho mais do que recorrente em sistemas coloniais tardios, como o Brasil.

A questão é que, provavelmente nesse caminho se tornarão “brancos” de segunda, aliados da manutenção do racismo, da exclusão da maioria, escravos finos, pois pessoas libertas nunca serão.

Spirito Santo
Agosto 2017 (quase nos meus 70

~ por Spirito Santo em 17/08/2017.

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