A violenta – e justa – alma das ruas

Creative Commons LicenseAtenção: Todo o conteúdo deste blog esta assegurado por uma licença Criative Commons.


A intervenção militar agrava as sequelas da fratura social persistente.

“…A polícia arrebanhava a torto e a direito pessoas que encontrava na rua. Recolhia-as às delegacias, depois juntavam na Polícia Central. Aí, violentamente, humilhantemente, arrebatava-lhes os cós das calças e as empurrava num grande pátio. Juntadas que fossem algumas dezenas, remetia-as à Ilha das Cobras, onde eram surradas desapiedadamente. […]”

                       (Lima Barreto em 1904, sobre a repressão policial após a Revolta da Vacina)

Qualquer ginasiano sabe que a raiz dos problemas de segurança pública no Rio de Janeiro, reside na falta aguda e histórica de políticas públicas de natureza social. Sim, é claro que as autoridades civis e militares, os doutores em Ciências Sociais, os especialistas em segurança pública, os habitantes das áreas nobres das cidades do Brasil, também sabem disso.

A grave crise na segurança pública no Brasil, é pois, fruto de uma clara opção do Estado brasileiro – com o beneplácito dos privilegiados com a situação – pela exclusão social da maioria da população, um modelo de gestão resiliente, porém falido, em voga desde os tempos da escravidão.

Óbvio ululante, portanto, que o modelo de gestão social é o principal vetor da violência urbana. Em última análise, por esta razão, diversos tipos de atividades laborais – comerciais no caso – ilegais e clandestinas se tornaram as únicas alternativas de sobrevivência física desta maioria da população, escorraçada do processo.

Chama-se instinto de sobrevivência esta reação atávica, natural, irresistível a qualquer ser vivo na natureza. Se o ambiente oferece dificuldades, em algum grau intransponíveis de acesso à meios de sobrevivência, o ser vivo busca meios alternativos, geralmente predatórios, não raro violentos, utilizados contra os elementos do meio, responsáveis por suas privações.

Legítima defesa instintiva, animal, poderíamos considerar.

Entre essas atividades de auto defesa social, no Brasil, a principal, como prática generalizada por ser a mais lucrativa, é o tráfico de drogas e suas ramificações.

As estratégias de distribuição do produto (droga ilícita), obedece a uma geopolítica determinada pela proximidade e a facilidade de acesso ao consumidor (cujo perfil majoritário é o cidadão branco, de classe média), ao produto ou aos bairros nobres, onde residem esses consumidores.

A logística da distribuição de drogas ilícitas, determinada como ideal no Brasil, se caracteriza pela acumulação (e parte do processamento) do produto em paióis localizados no interior dos guetos e “comunidades” criados pelo modelo de gestão social, como dito acima, de responsabilidade do Estado.

(A questão das armas, seu uso e sua comercialização, é uma redundância. É redundante também o fato dessas armas atualmente serem tão pesadas, modelos propriamente de guerra, uma consequência óbvia, ligada, diretamente à logística do negócio e à leniência das autoridades e dos consumidores.)

Convêm ressaltar, portanto, que as armas se tornaram necessárias, por questões táticas, para defender os estoques do produto, valiosíssimo, dos ataques armados dos concorrentes ou da repressão pontual dos órgãos oficiais de segurança, atualmente tão corrompidos que se transformaram também em estruturas cúmplices do negócio.

As armas dos traficantes não estão nos morros e “comunidades” para atacar a população. Estão, como dissemos acima, para proteger os estoques do produto. O mesmo não se pode dizer das armas das polícias e forças de intervenção que, sob o pretexto de caçar traficantes, atiram a esmo, assumindo o risco de matar inocentes, o que ocorre com trágica frequência.

Na prática, pela lógica militar dessas “forças da ordem”, portanto, não existe população civil nesses ambientes de gente excluída. Todos que habitam comunidades “carentes”, são bandidos em potencial, logo, destituídos de todos os direitos civis, mesmo os mais elementares (como o direito à vida, por exemplo).

Logo, há uma relação estreita, direta – embora ambígua – entre o Estado e as consequências sociais resultantes de sua opção pela exclusão social da maioria. Quanto mais repressão às quadrilhas de traficantes, cada vez mais bem armadas e treinadas elas ficarão.

É fácil perceber assim que, entre outras mazelas deliberadas, as táticas de exclusão social por meio da gentrificação aleatória, por exemplo, é que geraram guetos/”comunidades”(morros e favelas) no entorno dos bairros nobres, guetos esses, cuja população, por conta desse seu instinto de sobrevivência acima descrito, mantêm uma relação de dependência parasitária com a população branca, de classe média.

No âmbito desta relação doentia, se precisou inventar uma rede semi clandestina de serviços precários, bem semelhantes ao dos escravos domésticos do passado (cozinheiras, babás, passadeiras, pedreiros, faxineiros, carregadores, bombeiros hidráulicos, etc), uma espécie de escravidão reciclada, cuja resiliência parece baseada num vício entranhado na alma da população incluída no Brasil: Uma queda para o exercício do escravismo cínico, dissimulado.

Uma indiferença oportunista revoltante.

No bojo dessas relações patológicas, obviamente surgiram atividades ligadas aos modos de ser e hábitos consumistas dessa aristocracia colonial tardia, atividades ilícitas as mais degradantes como a prostituição (inclusive aquela ligada à pedofilia), os assaltos, o roubo, o furto, até as mais “honrosas” e “machas” como o tráfico de drogas, sempre alimentadas pelos vícios de ostentação dessa população branca e “bem nascida”, caracterizada como adepta de um comportamento moral e ético, socialmente muito questionável, se não irresponsável.

Reflitamos: Na prática, polícias civis e militares, traficantes armados e agora o Exército, estão envolvidos numa guerra sem sentido que, no fundo, serve apenas para dar uma ilusão de segurança à classe média, mantendo o negócio da droga intocado, a um custo em vidas humanas inocentes, imprevisível, com níveis estatísticos de guerras no Oriente Médio, por exemplo. Um paradoxo total e absoluto. Uma loucura.

Com certa razão, a parte excluída da sociedade (gente negra ou não branca) grande maioria da população, nutre um ódio surdo, enrustido, pela classe média branca da qual, para sobreviver, depende e vice versa. Não por acaso a parte mais aparente desse ódio recíproco, é o racismo, por isto mesmo, dito estrutural.

Desnecessário se faria enfatizar que esta relação maniqueísta contêm níveis de esquizofrenia social profundos, os quais, como uma doença ácida, autoimune, se transformou no principal vetor da eclosão de surtos frequentes de violência. Os responsáveis, contudo, parecem ignorar, rejeitar, veementemente, conceitos óbvios como Responsabilidade, por exemplo.

Por outro lado, é importante que se perceba também que existem inúmeras outras atividades laborais semi clandestinas, de menor virulência que o tráfico de drogas, utilizadas por essa enorme população excluída. Nas favelas ou “comunidades”, por exemplo (mais de mil localizadas só no perímetro urbano da cidade do Rio), o conjunto dessas atividades está organizado num complexo sistema econômico, paralelo ao da sociedade “normal” – vista aqui como uma verdadeira “Matrix”, uma voraz “Urbe do Mal“. 

A repressão policial ou militar, ao tentar estancar, pontualmente o concurso da violência explícita no mercado das drogas (e não o tráfico em si) mexe, perigosamente  com todo esse sistema econômico financeiro paralelo, espécie de viga mestre de toda a estrutura social.

Ė como mexer numa “casa de marimbondos“, a ultra sensível rede de sobrevivência dessas “comunidades”, já que o dinheiro que faz girar a economia comunitária (o chamado micro empreendedorismo local, pequenas lojas, comércio ligeiro, rede de vendedores ambulantes, etc.) é, majoritariamente extraído do negócio da droga, praticamente a única fonte de capital disponível.

É bastante provável que a desestruturação dessa rede de economia paralela, que ocupa, fornece a subsistência de parte importantíssima da população, tende a produzir reações violentas dos prejudicados, que já vivem no limite, à beira do precipício.

Desobediência Civil!

Os sinais dessas reações, em surtos, já começam a ser sentidos em explosões de violência, arrastões, saques e depredações de transportes públicos – notadamente o sistema BRT – meio vital de distribuição e comercialização de produtos piratas diversos, operado, geralmente por jovens que não optaram (ainda) pelo mercado de trabalho oferecido pelo tráfico de drogas e suas ramificações.

Esses jovens podem se organizar – na verdade já parecem estar organizados – em bandos agressivos de desafiadores da ordem pública, depredadores, saqueadores, odiadores do Estado o qual, com seu avanço rumo a uma espécie de ditadura militar seletiva, sufoca, como vimos, os limitados meios de vida dessas pessoas, atiçando sua justa ira.

Enfim, ao que se pode deduzir, as decisões erráticas das autoridades, adotando medidas e políticas tão equivocadas (deliberadamente elitoreiras, convenhamos) na verdade autofágicas, voltadas, como modelo nacional, para a repressão violenta de parte significativa de nossa própria população, a rigor já privada de todos os direitos, é uma fórmula perfeita para o caos social e a eclosão de formas inusitadas de intolerância, fermentadoras de governos autoritários, fascistas em médio prazo.

Ruas desalmadas, sem joões do Rio que as decifrem, jovens zumbis promovendo emboscadas e arrastões nas esquinas, antes de serem abatidos a tiros. Quem pariu Mateus? É a pergunta que ninguém quer responder. Um filme de terror ao vivo, previsível demais, é a dedução mais à vista.

Assim, o futuro do Brasil – eleitoral inclusive – torna-se então, imprevisível.

Spirito Santo

Março 2018


~ por Spirito Santo em 09/03/2018.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: