Candombe, Ndombe, Candomblé


1845. Juan Manoel Rosas, governador da província de Buenos Aires, Argentina, (sentado à esquerda) assiste a uma exibição de Candombe. O autor da imagem é desconhecido.

O Candombe clássico, recorrente, é o do Uruguai. Mas o gênero – pelo menos o título – está relacionado a muitas manifestações musicais ou religiosas da Diáspora africana nas Américas, principalmente, além do Uruguai citado, no Sudeste do Brasil e na Argentina.

O termo, não é de difícil tradução (ka-ndombe, “ka” um prefixo diminutivo do kimbundo, sendo “Ndombe”, entre outros sentidos, um lugar no Benguela, Angola) mas o sentido é fugidio, provavelmente seria ou teria passado a significar uma expressão genérica para definir “dança de negros” (como “Batuque”), com alguma certeza relacionando-se à danças oriundas da área Congo-Angola.

(A palavra”Candomblé”, aliás, que se diga, vem de “Candombe”.)

Em Minas Gerais o Candombe, sob a forma antiga de ritual de casa-terreiro, é tido como um ancestral de ternos de Moçambique, ou mesmo de algumas Congadas. É possível até hoje se encontrar algumas formas de Candombe em Minas Gerais.

O Candombe na Argentina, pode ser encontrado em Buenos Aires, Santa Fé, Paraná, Salta e Corrientes.

(Se você, assim de relance, tiver um insight ligando essa conversa à Milonga e ao Tango, saiba: saiba que é um insight luminoso)

Spirito Santo

Setembro 2018

Memória Nacional, seus esqueletos e seus armários


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Memória Nacional, seus esqueletos e seus armários

(Esta entrevista, com perguntas elaboradas pelo jornalista Leonardo Lichote para o jornal O Globo, é distribuída para um grupo de pensadores da cultura brasileira, teve algumas partes de cada convidado – entre os quais este autor- utilizadas numa excelente matéria publicada em 08/09/2018 no segundo caderno do jornal.

Publico aqui a íntegra das minhas respostas no intuito de expor o sentido geral do que penso sobre o candente assunto

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– Existe a célebre frase “O Brasil é um país sem memória”. Gostaria de desdobrá-la, ir um pouco mais fundo nisso, entender essa premissa. Isso é verdade?

Não. Não é verdade. Todo país tem memória. Ao usar esta expressão, provavelmente estamos nos referindo àquela parcela da população do Brasil com poder para manipular os registros dessas nossas memórias, retê-los, omiti-los ou mesmo falseá-los em seu proveito.

Estamos falando, suponho do uso político da História – da memória coletiva – por parte de uma arcaica aristocracia, de um país rachado em partes desiguais. Estamos admitindo enfim, muito timidamente ainda, a existência de uma classe de odiadores da memória de nosso país, disfarçados de guardiões oficiais de nossas lembranças.

Como o país lida com sua memória?

Cada sociedade lida com sua memória de variadas maneiras, mas em geral dispositivos diversos de registro e difusão, vulgarmente conhecidos, em seu conjunto, como Cultura, são, naturalmente criados para gerir e cuidar da memória, da história de um país.

Óbvio constatar, contudo que em sociedades tão radicalmente divididas como a nossa, esses dispositivos estão em estado de permanente e exacerbado conflito. Somos, portanto, do ponto de vista de nossa cultura entre outros, uma sociedade perigosamente conflagrada.

Por que isso se dá?

Provavelmente isto se dá porque os mecanismos de exclusão sócio racial – o racismo tornado aqui eixo do conflito por conta do modelo escravista que nos ligou umbelicalmente à África negra – desde os tempos coloniais são mecanismos muito resilientes.

Por razões ainda não suficientemente aprofundadadas o colonialismo no Brasil gerou uma “elite” extremamente ignorante, inepta e incapaz de encarnar o espírito de liderança de uma nação, comportando-se até hoje, tanto tempo depois da nossa independência de Portugal como europeus de segunda classe, ressentidos de sua suposta condição de asilados, degredados, piratas sem navio para fugir de uma ilha estranha, já saqueada.

– Porque a memória é importante?

A resposta é óbvia. O que configura, consubstancia um indivíduo, um ser vivo em geral são suas memórias, desde as genéticas, biológicas até as memórias sociais, a história de sua comunidade, memórias estas retidas nos registros trabalhados ou criados por seus sábios, seus artistas e educadores, impressos ou grafados em suportes diversos, desde os materiais tangíveis da ordem da arte, até os intangíveis, filosóficos, religiosos, etc. grafados no conjunto de cérebros de seus indivíduos.

Uma sociedadade – ou um indivíduo – sem memória é uma entidade morta, um ex-organismo em decomposição.

– Porque é tão difícil de se convencer a sociedade do valor da memória?

Antes de mais nada, é muito importante que se diga, de modo enfático até, que o desprezo pela memória nacional – tratando-se em especial do Brasil – não é uma característica da maioria de nossa população. Seria uma afirmação equivocada e injusta.

A grande maioria dos brasileiros cuida de forma exemplar de nossa memória por meio de inúmeras manifestações culturais, nas quais de forma artisticamente simbólica, cifrada; fatos, eventos, saberes morais e científicos tradicionais, materiais e imateriais são expressos de forma ativa, vivos, disponíveis à atenção das instituições destinadas a organizá-los, metodizá-los, sistematizá-los e conservá-los, como é o caso das universidades, dos centros culturais, dos museus ou instituiçaões similares.

Mas o que fazer quando essas instituições, espaços de poder político que são, assumem a condição também de espaços exclusivos de ascenção social para uma certa casta (que se sente estrangeira), que exerce este poder por meio de arcaicos mecanismos de exclusão social de parte considerável, majoritária até de nossa população, mecanismos tornados sistemáticos, apesar de terem sido supostamente abolidos, por lei, no século passado: a escravidão rediviva e sua resiliência inexplicável.

Trata-se então de um problema ideológico de grande complexidade no qual aos odiadores da ideia de um país livre e original, exatamente a estes é que destinamos a função de cuidar de nossa memória.

A Democracia, a igualdade total entre os indivíduos, a liberdade de opinião, além do acesso de todos à Educação, portanto são essenciais à consciência de uma sociedade sobre o valor de suas memórias.

– A memória é um espaço de disputa política, social, simbólica? Como isso se dá?

A Memória (ou a cultura, enquanto conjunto de memórias de uma sociedade) é, deve ser um espaço de conflito na medida em que sem tensão e conflito nada se move.

Mas ocorre que este conceito de conflito ao qual me refiro, naturalmente é apenas simbólico.

O Brasil – quem não sabe? – segue sendo, ao longo dos séculos, uma das sociedades mais desiguais do planeta. Convivemos aqui com armários largados ao relento, onde os odiadores do país escondem certas memórias incômodas à sua utopia de país europeu fora de lugar, memórias como esqueletos de parentes bastardos, largados ao relento para que apodreçam ao sol.

Não devia ser surpresa para ninguém que os acervos de nossa memória material vivam queimando por aí enquanto suas carcaças permanecem de pé, álibis dos crimes cometidos, geladeiras de memórias mortas pelo desprezo ou pela omissão.

Precisamos ser nós mesmos os guardiões dos museus e das memórias mais caras do país, os acervos em nossas cabeças retidos, pois só as memórias intangíveis, expressas em nossa cultura popular à prova de fogo, pode nos salvar da sanha dos odiadores.

Precisamos, de algum modo nos libertar deles e só assim voltar a guardar nossas relíquias materiais mais amadas em armários seguros.

Spirito Santo
Setembro 2018.