O Cavaleiro Negro de Alfama


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O Cavaleiro negro de Alfama

Vocês se lembram. Encontrei a tela denominada “Chafariz Del Rey”, numa pesquisa musical sobre o gênero afro-lusitano o “Rasga”, segundo o pesquisador José Ramos Tinhorão, provavelmente criado por angolanos de Cabinda e seus descendentes nas ruas de Lisboa colonial.

Sempre nesses casos, de pesquisa cabeluda, sobre temas sobre as quais as fontes rareiam, na metodologia  de pesquisa do Titio, sigo como um cão farejador, uma ou outra via das muitas encruzilhadas que se abrem. Dessa vez decidi enveredar (como sempre por intuição) pelas entranhas da história do quadro, no qual Tinhorão e outros pesquisadores pinçaram diversos exemplos de negros, escravos e libertos (muitos libertos) dançando, portando instrumentos musicais, vivendo enfim.

A minha metodologia não é convencional, nem um pouco. É autodidata, inventada, intuitiva, mimética, semiológica, holística, pouco me importa o nome que se dê a ela (costumo chamá-la de “estratégia da aranha”)

Posso tentar explicar: Nela , todo tema em foco está ligado, necessariamente a um contexto que lhe é próprio (como um enorme quebra cabeças), formado por outros sub sistemas, por sua vez portando temas outros que, à medida em que vão sendo vislumbrados e entendidos, se articulam, aleatoriamente a outros temas, antes desconhecidos

É formada assim uma rede gigantesca, na qual os elos se intercomunicam, uns explicando os outros, criando outras e mais outras questões ou dúvidas, de modo que ao final (simbólico, pois nesse caso nunca se chega, realmente a um fim) obtemos uma conclusão satisfatória, muito próxima do cabal, até, portanto, que alguma coisa parecida com a verdade – a dúvida alarmada – se esclareça.

(A verdade é a aranha, certo)

Entenderam? Não? Pouco importa. O fato é que foi assim que esbarrei no nobre negro da tela do chafariz de Alfama.

Um Cavaleiro Negro em Alfama?

Já tenho essa imagem comigo há tempos. Outros, penso eu que até já a publicaram. Mas por mais que pesquisasse não encontrava a descrição detalhada, que a impressionante imagem merecia.

Imaginem: em 1570 as relações de Portugal com a África, bem sabemos, mal haviam começado. A escravidão não era ainda o negócio de proporções continentais em que se transformou. Mas havia – é o que esta imagem revela – já intensa presença de africanos em Lisboa, muitos desses negros, inclusive, livres leves e soltos.

Há também à direita, abaixo, atrás de dois homens brancos – pasmem! – num aspecto que a meticulosa descrição abaixo não menciona, um nobre negro (quem seria?), perfeitamente trajado à portuguesa e á cavalo (!), seguido por dois pagens, talvez em visita à Corte lisboeta, quem sabe se é alguém do Reino do Kongo ou do Nsoyo, regiões com as quais Portugal logo estabeleceu relações após a chegada falsamente amistosa de Diogo Cão, pouco mais de 70 anos antes e de onde, provavelmente veio a maioria dos negros da imagem.

(Sobre o negro a cavalo, muito ainda hei de falar, pois, pude observar que ele usa na toga, bem à vista, o símbolo da ordem eclesiástica-militar de Santiago, sendo um mistério ainda absoluto a presença de um nobre negro em ordem tão restrita, tão importante nas Cruzadas)

Comecei por opção óbvia a estudar a tela no geral, principalmente no que diz respeito á datação, que variava, entre os diversos sites de arte medieval que consultei como tendo sido feita entre 1540 e 1620.

…”O movimento era intenso e muitas as desordens. As regateiras negras eram acusadas de serem «desarrazoadas» e insultuosas, os vendedores de palha e carvão, de viciarem as medidas e, no chafariz de el‑rei, o principal da cidade, com seis bicas mas escasso de água, travavam‑se de razões os aguadeiros na confusão de encher o cântaro. O chafariz de el‑rei era, de entre todos, o mais concorrido como já o atesta a Relação […] dos arredores mais chegados à cidade de Lisboa e seus arrabaldes, pondo em evidência a diversidade dos aguadeiros que o frequentavam:

«[…] chafariz de El‑Rei

Com tantas bocas abertas.

Onde tantos aguadeiros

Tantos negros, tantas negras

Galegos, cabras, ratinho

A quarta de água sustenta»

Os confrontos iam até às últimas consequências, de tal modo que, em 1551, o município determinou que a primeira bica só podia ser usada por homens escravos e libertos de todas as raças, que também podiam beneficiar da segunda, depois dos condenados às galés aí terem enchido os barris necessários às frotas; a terceira e a quarta bica destinavam‑se aos brancos livres; a quinta, às mulheres negras, escravas e libertas; e, finalmente, a sexta era utilizada pelas mulheres brancas.

A quem infringisse a postura aplicava‑se a multa de 2 mil reis e três dias de cadeia, se fossem brancos; sendo de cor, seriam logo açoitados com baraço e pregão junto ao chafariz. Ainda no século XIX, a poesia popular regista referências a mortes que indiciam desordens junto ao chafariz:

«Já não quero ir à praia

Nem ao chafariz de El‑Re

Que ‘stá lá um homem morto.

E dirão que eu o matei».

http://www.buala.org/pt/a-ler/ser-escravo-quadros-de-um-quotidiano-dos-trabalhos-e-dos-dias

Era indispensável também confirmar a identidade, ou pelo menos a nacionalidade do pintor, ficando por fim confirmada a definição mais recorrente de que era mesmo um pintor holandês, entre os muitos que se estabeleceram em Portugal nessa época.

Curiosamente, conseguimos encontrar uma segunda tela, pela identidade e estilo, com alguma certeza do mesmo pintor, um dístico retratando, do mesmo modo que o Chafariz de Alfama, a Praça dos Mercadores em Lisboa.

Foi uma constatação rápida. Pelo que se pôde, rapidamente  investigar e confirmar, só os holandeses se arvoraram na época a abandonar a sacralidade explícita dos temas pictóricos da renascença, para ingressar num barroco que os encaminharia para o verismo e a utilização da pintura mais como a arte do registro da realidade e menos mera representação ou exaltação idealizada das virtudes morais do catolicismo.

.A ordem dos Espadários

Até que num elo da rede, um dos mais evidentes, consegui desvendar numa das resenhas um dado crucial do mistério. Uma ligação fortuita do cavaleiro negro com o contexto da imagem:

Como mais um enigma entre tantos, este muito promissor, descubro então que o insigne cavaleiro negro usa em sua capa ou toga, um curioso símbolo heráldico, logo revelado como sendo  a marca de uma ordem eclesiástica-militar, a ordem de Santiago também conhecida como Ordem dos Espadários.

A marca era uma referência a um misto de cruz e espada esboçado como símbolo (a ordem era semelhante a dos Templários entre outras, tantas criadas pelo Vaticano no contexto da luta dos reis católicos europeus contra os muçulmanos)

(A Ordem de Santiago, também conhecida como “A Ordem de Santiago da Espada”, foi fundada no século XII e deve o seu nome ao Patrono nacional da Galiza E Espanha, Santiago (São Tiago Maior). Seu objetivo inicial era proteger os peregrinos do Caminho de Santiago e defender a Cristandade

Após a morte do Grão-Mestre Alfonso de Cárdenas em 1493, os Reis Católicos incorporaram a Ordem à Coroa Espanhola eo papa Adriano VI uniu para sempre o cargo de grande mestre de Santiago à coroa em 1523.)

A ordem foi criada em 1175 para defender os reinos católicos de Espanha e Portugal, entre outras coisas, escoltando peregrinos. Assim depois de várias demandas e lutas em defesa das monarquias espanhola (e portuguesa em tempo do fim das cruzadas ela depois de ter tido por séculos grãos mestres indicados pelos reis e Vaticano, passa a ter como grão-mestres os póprios reis

“…Manuel morreu em 1521, e foi sucedido por seu filho João III de Portugal, que manteve o esforço para corroer a Ordem de Santiago. Quando Jorge de Lencastre morreu em julho de 1550, João III recebeu um touro do Papa Júlio III algumas semanas depois nomeando-o pessoalmente como mestre da Ordem de Santiago e da Ordem de Aviz praeclara cahrissimi, título emitido pelo papa sob grande pressão diplomática por João III em dezembro de 1551, nomeando os Reis de Portugal como senhores a perpetuidade das três ordens militares, Cristo, Santiago e Aviz, trazendo assim Um fim à independência das ordens militares em Portugal.”https://en.m.wikipedia.org/wiki/Military_Order_of_Saint_James_of_the_Sword.

Enquanto isso, ele continuava  lá. Altivo e misterioso. Impossível não vê-lo, a figura mais estranha das centenas de figuras da tela. Como explicar um negro africano, fidalgo na Lisboa do pleno século 16?

“Africano negro cavaleiro (da ordem) de Santiago com servos. Último quarto do século 16. Lisboa. 1540 (Beatriz Aluares, no Printrest)

O que descobri:

Ele não era só um nobre, é um membro da ordem eclesistica-militar de Santiago (a marca da ordem está na toga que veste). A ordem é chamada também de ordem dos Espadários, sendo semelhante à dos cavaleiros templários.

“Resumo:

“Este artigo estuda os casos de vinte e sete homens agraciados com o título de Cavaleiro das Ordens Militares Portuguesas do Cristo, Santiago e de Avis, do início do século XVII até 1731, nos quais testemunhas da investigação sobre antecedentes haviam atestado que os pais ou avós desses homens haviam sido descritos como “mulatos” e/ou descendentes de escravos africanos.”

Embora este estudo tenha como foco os mulatos, vale a pena mencionar que se tem conhecimento de que sete negros se tornaram cavaleiros nas ordens militares portuguesas. Três na Ordem de Santiago (no século XVI), três na Ordem de Cristo (todos em 1609), e um na Ordem de Avis (1580). Mas só um dos sete – João de Sá Panasco, o bobo da corte durante o reinado do Rei João III (r. 1521-1557) – descendia de escravos.

Quatro outros negros – todos eles militares nascidos no Brasil, descendentes de escravos – foram agraciados com títulos de cavaleiro nas ordens militares portuguesas no século XVII mas nunca os receberam.

Quase todos os casos envolviam pessoas que viviam em Portugal. Com apenas uma exceção, a dispensa exigida foi por “falta de qualidade” e não por “pureza de sangue”. Mais de 80% dessas pessoas receberam dispensas por serem “mulatos”, e se tornaram membros da Ordem de Cristo (a maioria) ou da Ordem de Santiago.”

…” A maioria dos nomes na lista de Leitão Aranha que receberam dispensa por causa de impedimentos por serem mulatos se tornaram cavaleiros de ordens militares no final do século XVII e no início do século XVIII. Mas diversos casos interessantes ocorreram antes de 1660.

“…Alguns negros aproveitaram as oportunidades disponíveis na corte para avançar-se, seja através da educação ou atividades militares. João de Sá Panasco (fl.1524-1567), que começou como um bobo da corte em Lisboa, passou a se tornar um cavalheiro da família, manobrista do rei, um soldado que participou junto com o irmão do rei na campanha de Charles V na África do Norte em 1535, sendo por estes serviços feito membro da prestigiosa Ordem de Santiago.

João era,  portanto um  africano legítimo e descendia de escravos.

“Muitos mouros (negros) se converteram ao cristianismo na península ibérica nos anos 1500, se tornando importantes figuras na sociedade, como é mostrado na pintura abaixo que descreve uma cena no Porto lisboeta de Alfama.

“…É fato que muitos africanos foram admitidos  na ordem, incluindo Luis Peres, (1550), D. Pedro da Silva (1579), e João de Sá Panasco que é citado num documento real de 1547 como “o homem preto cavaleiro de minha casa”.

http://www.buala.org/pt/a-ler/ser-escravo-quadros-de-um-quotidiano-dos-trabalhos-e-dos-dias

“…Entre os bobos evidenciaram‑se alguns escravos. João de Sá, mais conhecido por Panasco, «preto crioulo» nascido escravo já em Portugal, foi uma dessas figuras a quem D. João III concedeu alforria e privilegiou com o hábito da Ordem de Santiago. Foi considerado um dos homens mais espirituosos do seu tempo; alvo de constantes zombarias por causa da sua cor, respondia em tom de mordaz ironia que «a felicidade de um cavaleiro português consistia em chamar‑se Vasconcelos, ter uma quinta, seiscentos mil reis de renda, ser parvo e não prestar para nada».

Na Colecção Política de Apotegmas, estão registados alguns dos ditos jocosos que lhe foram dirigidos e outros com que brindou os fidalgos. Aqui se destacam alguns desses ditos que a argúcia de João de Sá suscitou:

«Um dia apodando a todos, não fez caso de um filho decerto Desembargador do Passo, que também ali estava; o qual desconfiado de o não apodar como aos demais, lhe perguntou: E eu, Panasco, que vos pareço? Olhou‑o ele por cima do ombro e respondeu‑lhe: vós pareceis‑me Fidalgo dando a entender que o não era. Riram‑se todos e o apodado ficou de maneira que tomara antes não ter falado.»

«[…] Estava João de Sá diante de el‑Rei D. Sebastião, que então era menino de sete anos e querendo abrir a bolsa e não podendo, lhe disse el‑Rei: tirai‑a e ponde‑a na cinta a outrem e logo a abrireis.»

«Estando doente Panasco em uma cama com lençóis, cobertor e cortinas tudo branco, foi a vê‑lo o Conde de Redondo, D. Francisco Coutinho e disse para outros Fidalgos, que lhe parecia mosca em leite.»

«Vendo‑o com o hábito de Santiago dizia o Conde: não lhe[s] parece a vocês saco de carvão com a marca da cidade?.http://www.buala.org/pt/a-ler/ser-escravo-quadros-de-um-quotidiano-dos-trabalhos-e-dos-

(João, dependendo da data do quadro, pode ser o cavaleiro, pois morreu em 1567. A cor do homem do quadro indica ser um africano sem mistura, o que não é o caso de Francisco Mata Falcão,além disso, Francisco só foi ordenado muitos anos depois.).

“Relendo os bobos na corte do Conde de Sabugosa…

«Gostava muito el-rei D.João III de um preto crioulo chamado João de Sá Panasco; fez-lhe muitas mercês e deu-lhe o Hábito de Santiago. Assistia sempre à mesa de el-rei diviertindo-o com a suas galanterias, e apodando os fidalgos com grande graça.

Um dia apodando a todos não fez caso de um filho de certo desembargador do Paço, que também ali estava, o qual de o não agradar como aos demais, lhe perguntou: E eu, Panasco, que vos pareço? Olhou-o ele por cima do ombro, e respondeu-lhe: Vós pareceis-me Fidalgo; dando a entender que o não era. Riram-se todos e o apodado ficou de maneira que antes não ter falado»

(*Citação de Pedro José Supico, Colecção Política de Apotegmos ou ditos apudos e sentenciosos)

Surpreendente descoberta!

Spirito Santo

Entre 2017 e 2018