O Cavaleiro Negro de Alfama

O Cavaleiro negro de Alfama

Vocês se lembram. Encontrei a tela denominada “Chafariz Del Rey”, numa pesquisa musical sobre o gênero afro-lusitano o “Rasga”, segundo o pesquisador José Ramos Tinhorão, provavelmente criado por angolanos de Cabinda e seus descendentes nas ruas de Lisboa colonial.

Sempre nesses casos, de pesquisa cabeluda, sobre temas sobre as quais as fontes rareiam, na metodologia  de pesquisa do Titio, sigo como um cão farejador, uma ou outra via das muitas encruzilhadas que se abrem. Dessa vez decidi enveredar (como sempre por intuição) pelas entranhas da história do quadro, no qual Tinhorão e outros pesquisadores pinçaram diversos exemplos de negros, escravos e libertos (muitos libertos) dançando, portando instrumentos musicais, vivendo enfim.

A metodologia do Titio não é convencional, nem um pouco. É autodidata, inventada por mim, intuitiva, mimética, semiológica, holística, pouco me importa o nome que se dê a ela (costumo chamá-la de “estratégia da aranha”)

Posso tentar explicar: Nela , todo tema em foco está ligado, necessariamente a um contexto que lhe é próprio (como um enorme quebra cabeças), formado por outros sub sistemas, por sua vez portando temas outros que, à medida em que vão sendo vislumbrados e entendidos, se articulam, aleatoriamente a outros temas, antes desconhecidos, formando uma rede gigantesca, na qual os elos se intercomunicam, uns explicando os outros, criando outras e mais outras questões ou dúvidas, de modo que ao final (simbólico, pois nesse caso nunca se chega, realmente a um fim, a uma conclusão satisfatória, muito próxima do cabal) até, portanto, que alguma coisa parecida com a verdade – a dúvida alarmada – se esclareça.

(A verdade é a aranha, certo)

Entenderam? Não? Pouco importa. O fato é que foi assim que esbarrei no nobre negro da tela do chafariz de Alfama.

Comecei por opção óbvia a estudar a tela no geral, principalmente no que diz respeito á datação, que variava, entre os diversos sites de arte medieval que consultei como tendo sido feita entre 1540 e 1620.

…”O movimento era intenso e muitas as desordens. As regateiras negras eram acusadas de serem «desarrazoadas» e insultuosas, os vendedores de palha e carvão, de viciarem as medidas e, no chafariz de el‑rei, o principal da cidade, com seis bicas mas escasso de água, travavam‑se de razões os aguadeiros na confusão de encher o cântaro. O chafariz de el‑rei era, de entre todos, o mais concorrido como já o atesta a Relação […] dos arredores mais chegados à cidade de Lisboa e seus arrabaldes, pondo em evidência a diversidade dos aguadeiros que o frequentavam:

«[…] chafariz de El‑Rei

Com tantas bocas abertas.

Onde tantos aguadeiros
Tantos negros, tantas negras
Galegos, cabras, ratinho
A quarta de água sustenta»

Os confrontos iam até às últimas consequências, de tal modo que, em 1551, o município determinou que a primeira bica só podia ser usada por homens escravos e libertos de todas as raças, que também podiam beneficiar da segunda, depois dos condenados às galés aí terem enchido os barris necessários às frotas; a terceira e a quarta bica destinavam‑se aos brancos livres; a quinta, às mulheres negras, escravas e libertas; e, finalmente, a sexta era utilizada pelas mulheres brancas. A quem infringisse a postura aplicava‑se a multa de 2 mil reis e três dias de cadeia, se fossem brancos; sendo de cor, seriam logo açoitados com baraço e pregão junto ao chafariz. Ainda no século XIX, a poesia popular regista referências a mortes que indiciam desordens junto ao chafariz:

«Já não quero ir à praia

Nem ao chafariz de El‑Re
Que ‘stá lá um homem morto.
E dirão que eu o matei».

http://www.buala.org/pt/a-ler/ser-escravo-quadros-de-um-quotidiano-dos-trabalhos-e-dos-dias

Era indispensável também confirmar a identidade, ou pelo menos a nacionalidade do pintor, ficando por fim confirmada a definição mais recorrente de que era mesmo um pintor holandês, entre os muitos que se estabeleceram em Portugal nessa época.

Curiosamente, consegui encontrar uma segunda tela, pela identidade e estilo, com alguma certeza do mesmo pintor, um dístico retratando, do mesmo modo que o Chafariz de Alfama, a Praça dos Mercadores em Lisboa.

Foi uma constatação rápida. Pelo que se pôde, rapidamente  investigar e confirmar, só os holandeses se arvoraram na época a abandonar a sacralidade explícita dos temas pictóricos da renascença, para ingressar num barroco que os encaminharia para o verismo e a utilização da pintura mais como a arte do registro da realidade e menos mera representação ou exaltação idealizada das virtudes morais do catolicismo.

A ordem dos Espadários

Até que num elo da rede, um dos mais evidentes, consegui desvendar numa das resenhas um dado crucial do mistério. Uma ligação fortuita do cavaleiro com o contexto da imagem: Como mais um enigma entre tantos, este muito promissor, descubro então que o insigne cavaleiro negro usa em sua capa ou toga, um curioso símbolo heráldico, logo revelado como sendo  a marca de uma ordem eclesiástica-militar, a ordem de Santiago também conhecida como Ordem dos Espadários.

A marca era uma referência a um misto de cruz e espada esboçado como símbolo (a ordem era semelhante a dos Templários entre outras, tantas criadas pelo Vaticano no contexto da luta dos reis católicos europeus contra os muçulmanos)

(A Ordem de Santiago, também conhecida como “A Ordem de Santiago da Espada”, foi fundada no século XII e deve o seu nome ao Patrono nacional da Galiza E Espanha, Santiago (São Tiago Maior). Seu objetivo inicial era proteger os peregrinos do Caminho de Santiago e defender a Cristandade.

 

Após a morte do Grão-Mestre Alfonso de Cárdenas em 1493, os Reis Católicos incorporaram a Ordem à Coroa Espanhola eo papa Adriano VI uniu para sempre o cargo de grande mestre de Santiago à coroa em 1523.)”

A ordem foi criada em 1175 para defender os reinos católicos de Espanha e Portugal, entre outras coisas, escoltando peregrinos. Assim depois de várias demandas e lutas em defesa das monarquias espanhola (e portuguesa em tempo do fim das cruzadas ela depois de ter tido por séculos grãos mestres indicados pelos reis e Vaticano, passa a ter como grão-mestres os póprios reis

“…Manuel morreu em 1521, e foi sucedido por seu filho João III de Portugal, que manteve o esforço para corroer a Ordem de Santiago. Quando Jorge de Lencastre morreu em julho de 1550, João III recebeu um touro do Papa Júlio III algumas semanas depois nomeando-o pessoalmente como mestre da Ordem de Santiago e da Ordem de Aviz praeclara cahrissimi,

emitido pelo papa sob grande pressão diplomática por João III em dezembro de 1551, nomeando os Reis de Portugal como senhores a perpetuidade das três ordens militares, Cristo, Santiago e Aviz, trazendo assim Um fim à independência das ordens militares em Portugal.”https://en.m.wikipedia.org/wiki/Military_Order_of_Saint_James_of_the_Sword.

Enquanto isso, ele continuava  lá. Altivo e misterioso. Impossível não vê-lo, a figura mais estranha das centenas de figuras da tela. Como explicar um negro africano, fidalgo na Lisboa do pleno século 16?

“Africano negro cavaleiro (da ordem) de Santiago com servos. Último quarto do século 16. Lisboa. 1540/k

(Beatriz Aluares, no Printrest)

O que descobri:

Ele não é só um nobre, é um membro da ordem eclesistica-militar de Santiago (a marca da ordem está na toga que veste). A ordem é chamada também de ordem dos Espadários, sendo semelhante à dos cavaleiros templários.

“Resumo:
Este artigo estuda os casos de vinte e sete homens agraciados com o título de Cavaleiro das Ordens Militares Portuguesas do Cristo, Santiago e de Avis, do início do século XVII até 1731, nos quais testemunhas da investigação sobre antecedentes haviam atestado que os pais ou avós desses homens haviam sido descritos como “mulatos” e/ou descendentes de escravos africanos.

Embora este estudo tenha como foco os mulatos, vale a pena mencionar que se tem conhecimento de que sete negros se tornaram cavaleiros nas ordens militares portuguesas. Três na Ordem de Santiago (no século XVI), três na Ordem de Cristo (todos em 1609), e um na Ordem de Avis (1580). Mas só um dos sete – João de Sá Panasco, o bobo da corte durante o reinado do Rei João III (r. 1521-1557) – descendia de escravos.

Quatro outros negros – todos eles militares nascidos no Brasil, descendentes de escravos – foram agraciados com títulos de cavaleiro nas ordens militares portuguesas no século XVII mas nunca os receberam.

Quase todos os casos envolviam pessoas que viviam em Portugal. Com apenas uma exceção, a dispensa exigida foi por “falta de qualidade” e não por “pureza de sangue”. Mais de 80% dessas pessoas receberam dispensas por serem “mulatos”, e se tornaram membros da Ordem de Cristo (a maioria) ou da Ordem de Santiago.”

…” A maioria dos nomes na lista de Leitão Aranha que receberam dispensa por causa de impedimentos por serem mulatos se tornaram cavaleiros de ordens militares no final do século XVII e no início do século XVIII. Mas diversos casos interessantes ocorreram antes de 1660.

Houve dois casos importantes na Ordem de Santiago. Ambos envolveram homens nascidos fora de Portugal. O pardo nascido na Bahia e herói de guerra, Manuel Gonçalves Doria, cujo avô materno foi identificado como um mulato da Madeira, foi cuidadosamente pesquisado.22 O outro era o africano Francisco da Mata Falcão, Capitão da Gente Preta do Reino de Angola, que foi mencionado diversas vezes na História Geral das Guerras Angolanas de António de Oliveira de Cadornega.23 Antes de se tornar cavaleiro da Ordem de Santiago, em 1648, Francisco precisou de diversas dispensas.

Primeiro, D. João IV o dispensou do “defeito” de ser um mulato e permitiu que ele tivesse sua investigação de antecedentes feita em Lisboa em vez de Angola. Embora não se soubesse em que lugar da África tinham nascido sua mãe e seus avós maternos, testemunhas afirmaram que Francisco e a mãe eram considerados “Christãos velhos sem outra mistura”.

Entretanto, algumas testemunhas acharam que seus avós maternos eram gentios. O pai de Francisco era Antão da Mata Falcão, embora não esteja claro se Francisco era meio-irmão ou filho do médico da Corte, que tinha este mesmo nome. Francisco foi finalmente dispensado (aceito) porque ele era um mulato nascido fora do casamento – um adulterino, já que o pai dele era casado – e seus avós maternos eram pagãos ou gentios.24

De forma geral, o impedimento de ser descendente de gentios, embora listado nos Estatutos da Ordem junto com aqueles que eram descendentes de muçulmanos e judeus, não afetava a limpeza de sangue e, portanto, era uma dispensa relativamente fácil de receber do Rei.

“Alguns negros aproveitaram as oportunidades disponíveis na corte para avançar-se, seja através da educação ou atividades militares. João de Sá Panasco (fl.1524-1567), que começou como um bobo da corte em Lisboa, passou a se tornar um cavalheiro da família, manobrista do rei, um soldado que participou junto com o irmão do rei na campanha de Charles V na África do Norte em 1535, sendo por estes serviços feito membro da prestigiosa Ordem de Santiago.

João era,  portanto um  africano legítimo e descendia de escravos.

“Muitos mouros (negros) se converteram ao cristianismo na península ibérica nos anos 1500, se tornando importantes figuras na sociedade, como é mostrado na pintura abaixo que descreve uma cena no Porto lisboeta de Alfama.

O homem montado no cavalo em  primeiro plano, aparenta ter uma alta posição na sociedade, alguém importante na cena.A cruz vermelha em sua capa provavelmente representa que ele é um membro  da ordem de Santiago, uma ordem militar eclesiástica da península ibérica criada no século 12.

É fato que muitos africanos foram admitidos  na ordem, incluindo Luis Peres, (1550), D. Pedro da Silva (1579), e João de Sá Panasco que é citado num documento real de 1547 como “o homem preto cavaleiro de minha casa”

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http://www.buala.org/pt/a-ler/ser-escravo-quadros-de-um-quotidiano-dos-trabalhos-e-dos-dias

“…Entre os bobos evidenciaram‑se alguns escravos. João de Sá, mais conhecido por Panasco, «preto crioulo» nascido escravo já em Portugal, foi uma dessas figuras a quem D. João III concedeu alforria e privilegiou com o hábito da Ordem de Santiago. Foi considerado um dos homens mais espirituosos do seu tempo; alvo de constantes zombarias por causa da sua cor, respondia em tom de mordaz ironia que «a felicidade de um cavaleiro português consistia em chamar‑se Vasconcelos, ter uma quinta, seiscentos mil reis de renda, ser parvo e não prestar para nada».

Na Colecção Política de Apotegmas, estão registados alguns dos ditos jocosos que lhe foram dirigidos e outros com que brindou os fidalgos. Aqui se destacam alguns desses ditos que a argúcia de João de Sá suscitou:

«Um dia apodando a todos, não fez caso de um filho decerto Desembargador do Passo, que também ali estava; o qual desconfiado de o não apodar como aos demais, lhe perguntou: E eu, Panasco, que vos pareço? Olhou‑o ele por cima do ombro e respondeu‑lhe: vós pareceis‑me Fidalgo dando a entender que o não era. Riram‑se todos e o apodado ficou de maneira que tomara antes não ter falado.»

«[…] Estava João de Sá diante de el‑Rei D. Sebastião, que então era menino de sete anos e querendo abrir a bolsa e não podendo, lhe disse el‑Rei: tirai‑a e ponde‑a na cinta a outrem e logo a abrireis.»

«Estando doente Panasco em uma cama com lençóis, cobertor e cortinas tudo branco, foi a vê‑lo o Conde de Redondo, D. Francisco Coutinho e disse para outros Fidalgos, que lhe parecia mosca em leite.»

«Vendo‑o com o hábito de Santiago dizia o Conde: não lhe[s] parece a vocês saco de carvão com a marca da cidade?.http://www.buala.org/pt/a-ler/ser-escravo-quadros-de-um-quotidiano-dos-trabalhos-e-dos-diasK

(João, dependendo da data do quadro, pode ser o cavaleiro, pois morreu em 1567. A cor do homem do quadro indica ser um africano sem mistura, o que não é o caso de Francisco Mata Falcão,além disso, Francisco só foi ordenado muitos anos depois.).

Relendo os bobos na corte do Conde de Sabugosa*…

«Gostava muito el-rei D.João III de um preto crioulo chamado João de Sá Panasco; fez-lhe muitas mercês e deu-lhe o Hábito de Santiago. Assistia sempre à mesa de el-rei diviertindo-o com a suas galanterias, e apodando os fidalgos com grande graça.

Um dia apodando a todos não fez caso de um filho de certo desembargador do Paço, que também ali estava, o qual de o não agradar como aos demais, lhe perguntou: E eu, Panasco, que vos pareço? Olhou-o ele por cima do ombro, e respondeu-lhe: Vós pareceis-me Fidalgo; dando a entender que o não era. Riram-se todos e o apodado ficou de maneira que antes não ter falado»

(*Citação de Pedro José Supico, Colecção Política de Apotegmos ou ditos apudos e sentenciosos, 1K

Sobre a pintura flamenga em Portugal no período em Wikipedia :

Ver artigo principal: Renascimento, Maneirismo, Renascimento em Portugal, Estilo manuelino, Maneirismo em Portugal
Como se disse na abertura deste artigo, a passagem do século XV para o XVI foi uma fase privilegiada para a cultura portuguesa. D. Manuel I leva o reino a uma fase de esplendor, e desenvolve um programa ideológico destinado a enaltecer a sua autoridade e a grandeza lusitana. Reformas institucionais são levadas a cabo, a cultura recebe grande estímulo, o país torna-se numa verdadeira potência naval, lidera as grandes navegações, funda lucrativas colónias na América, África e Ásiaque enriquecem a nação, estreita contactos culturais e comerciais com o resto da Europa e conhece o Humanismo. Neste período a pintura entra numa fase de grande prestígio e a importação de arte flamenga pelo rei, pelo clero e pela nobreza chega a grandes volumes, disputando entre si as melhores obras e os melhores artistas, cujo ritmo de produção é elevadíssimo[11]

Sobre o quadro minúcias de um especialista brasileiro em figurino, ignora, totalmente a presença do cavaleiro negro.http://www.arquiamigos.org.br/info/info27/i-estudos.htm

Raro exemplar de arte portuguesa, a tela denominada Chafariz d’El Rey (1570-1580)

A única pintura portuguesa que, de acordo com o nosso conhecimento, nos mostra objetivamente trajes populares em uso na Lisboa em meados do século XVI, constituindo-se por isso numa relevantíssima fonte documental iconográfica, é a tela denominada Chafariz d’El Rey (fig.5). De autoria anônima e atribuída a artista de origem flamenga, a obra pertence hoje à coleção de José Manuel Rodrigues Berardo (1944- ), bilionário madeirense mais conhecido como Joe Berardo.

Obra de intenso realismo ingênuo, o quadro fornece-nos uma infinidade de preciosas informações sobre diferentes aspectos da Lisboa quinhentista, na região do Cais de Santarém. O que mais chama a atenção dos pesquisadores portugueses é, sem dúvida, a aparência da notável fonte medieval depois das obras feitas ao tempo de D. Manuel I, fonte ainda hoje existente embora sob forma totalmente diversa.

Para nós é particularmente comovente observar o populacho lisboeta, com o qual se misturavam então muitos escravos negros trazidos da África. Uma multidão desordenada, maciçamente constituída de homens e escravas, invadia o recinto do chafariz, provocando decerto grande vozerio e alvoroço.

No quadro, é rara a presença de mulheres de condição livre. Nas janelas altas das casas, à distância segura da arraia miúda que inundava o espaço público, surpreendemos algumas damas com trajes de influência talvez francesa, dedução feita a partir do tipo de decote e toucado que usavam. Impressão que sai reforçada, quando observamos a senhora com traje parecido que é objeto da atenção de um rapaz, ambos ocupando um bote que flutua ao sabor das ondas do estuário, em primeiro plano.

Se a moda do elemento feminino pertencente às camadas superiores traía naquela altura a influência francesa, a indumentária masculina dessas mesmas camadas parecia estar já sob o influxo direto dos trajes espanhóis. Os homens de capa e espada que desfilavam ao longo do cais vestiam-se todos de negro, cor que se tornara quase universal durante aquele período na Europa ocidental.

As escravas, contudo, trajavam-se como as mulheres brancas mais humildes do povo (fig.6). Portando roupas parecidas, peixeiras portuguesas estariam, no inicio do século XVIII, atendendo em barracas no Mercado da Ribeira Velha em Lisboa, conforme painel de azulejos hoje exposto no Museu da Cidade (www.museudacidade.pt), numa época em que, aparentemente, as escravas negras já não eram assim tão numerosas em Portugal (fig.7 A). Na pintura ora analisada, as cativas trazem vestidos pardos, inteiriços, com a saia arregaçada na frente para facilitar os movimentos, deixando à mostra uma saia ou vestido interior cuja fímbria não atingia os tornozelos. Calçavam grosseiros sapatos camponeses que subiam até os tornozelos e envolviam a cabeça em panos brancos, as chamadas toalhas de toucar citadas nos inventários paulistas, hábito herdado da mulher medieval, ciosamente conservado pelas portuguesas e espanholas das camadas inferiores. Uma figura de mulher desse mesmo tipo aparece no fundo de um quadro do pintor espanhol Diego Velásquez(1599-1660), datado do inicio do século XVII (Cristo em casa de Marta e Maria, 1618), confirmando a universalidade, no mundo ibérico, desse modo de vestir próprio da mulher de baixa condição social. A única diferença que se nota era que o vestido do século XVII havia sofrido uma modificação de ordem estética, tendo suas formas, antes ajustadas, passado por um processo de amplificação (fig.7 B).

Quanto aos escravos, vestiam-se do mesmo modo que os rudes homens da plebe, os chamados peões, ralé infeliz sempre ameaçada e humilhada pelas Ordenações Reais portuguesas. Traziam o gibão (ou jubão) diretamente sobre a camisa (gibão segundo parece guarnecido com mangas avulsas de outra cor), antiquadas calças feitas de tecido, muito ajustadas às pernas, presas por atilhos na borda inferior dos gibões, e em geral sem pés, presas por meio de cabrestilhos (alças, fixadas nas bocas das pernas das calças, que se enfiavam nos pés, deixando–os descobertos), braguilhas salientes, e borzeguins ou, no caso, botas moles até os joelhos, além de carapuça e chapéu na cabeça (fig.8). Outros punham sobre o gibão uma veste exterior que ia até um palmo do joelho (que era, sem dúvida, a versão popular do pelote) (fig.9). Um dos escravos vistos na pintura usava roupa mais sumária, semelhante a dos cativos brasileiros. Ceroulas largas, pernas e pés desnudos e dorso coberto por camisa, cujas mangas estavam enroladas até os cotovelos. O rosto, ao que parece, vinha escondido por uma máscara de lata, provavelmente para que perdesse o mau hábito de ingerir terra (fig.10).

As cores dos trajes humildes eram sempre pardacentas ou acinzentadas, cores da lã e do linho sem tintura ou tingidos com corantes sem qualidade. Só os trajes dos ricos eram coloridos, às vezes exageradamente, por meio de pigmentos caros. Por influência da moda espanhola, a cor negra começava a predominar nos trajes das camadas superiores, algo que ia se prolongar até além da Restauração (1640), quando a Corte portuguesa independente da Espanha passaria a adotar a moda masculina francesa.

Tempo
Print version ISSN 1413-7704
Tempo vol.16 no.30 Niterói  2011
http://dx.doi.org/10.1590/S1413-77042011000100005

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“O cavaleiro Negro de Alfama”

O que descobri:

1- Ele não é só um nobre, é um membro da ordem eclesistica-militar de Santiago (a marca da ordem está na toga que veste). A ordem é chamada também de ordem dos Espadários, sendo semelhante à dos cavaleiros templários.

Kate {Beatriz Aluares} salvou em 1540-1600 Spanish
Black African Knight of Santiago, with servant, last quarter of the 16th century, Lisboa.

A ordem foi criada em 1175 para defender os reinos católicos de Espanha e Portugal, entre outras coisas, escoltando peregrinos. Assim depois de várias demandas e lutas em defesa das monarquias espanhola (e portuguesa em tempo do fim das cruzadas ela depois de ter tido por séculos grãos mestres indicados pelos reis e Vaticano, passa a ter como grão-mestres os póprios reis.

Em 1570, data da tela, com comando já direto dos Reis católicos, é  de se supor que o homem negro no cavalo, embora seja bem difícil estabelecer um vínculo direto nesse sentido. Um amigo africano questiona a data, dizendo que pode ser bem antes de 1580. De minha parte posso intuir que a data pode ser também posterior. Vou citar o amigo, nas vou tentar datar melhor a tela.

Abaixo copiei dados sob a conjuntura das relações entre Kongo e Vaticano e constatei que, em época compatível, o rei do Kongo mandou sim emissários ao Vaticano, contudo isto teria se dado um pouco depois de 1580. Nada achei ainda sobre a existência de um negro na ordem.

A prioridade da pesquisa é, pois, estudar mais a história da ordem e o contexto das relações entre Portugal, Kongo e o Vaticano na época.
É indispensável ler Pigafetta e Duarte Lopes.

Surpreendente descoberta!

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Contexto Kongo no período:

“…Em 1567, o Congo foi invadido pelos Jagas, uma tribo feroz vinda do leste, com fama de antropófagos. Na luta, morreu no mesmo ano o próprio Rei, Bernardo I. O mesmo aconteceu ao seu sucessor, Henrique I, no ano seguinte. Sucedeu-lhe seu filho, Álvaro I. A cidade de S. Salvador estava totalmente destruída e o Rei com uma parte da população do Reino fugiu para a Ilha dos Cavalos, no meio do Zaire. Fora, entretanto, pedida ajuda aos portugueses  Acorreu ao Congo Francisco de Gouveia Sotomaior com uma força de 400 soldados, que expulsou os Jagas em 1570, numa campanha que durou ano e meio.

Em 1580, Portugal perdeu a sua independência e começaram a ser enviados para o Congo missionários espanhóis. Em 1584, chegaram três Carmelitas Descalços que desembarcaram em Luanda e, no caminho para o Congo, baptizaram 3 000 pessoas.

Em 1589, depois de terem baptizado mais algumas dezenas de milhares, os Carmelitas Descalços voltaram a Espanha para recrutar mais companheiros, mas um novo Provincial tinha ideias diferentes do anterior e achava que ser missionários não era tarefa para os Carmelitas.

Por volta de 1578, D. Álvaro I enviou a Roma como seu embaixador o comerciante Eduardo Lopes, que vivia em S. Salvador há vários anos, com a missão de pedir o envio de sacerdotes. O navio que o transportava esteve quase a naufragar junto de Cabo Verde e foi à deriva, indo ter à América Central, à ilha de Cubágua, junto da Ilha Margarida. Eduardo Lopes conseguiu depois embarcar num navio português, chegar a Madrid e depois a Roma. Mas o Papa remeteu-o para o Rei de Espanha

Presentòssi al Papa, e li consegnò le lettere di credenza; gli narrò a sufficienza le sue commissioni, e fu graziosamente udito, ma poi fattogli intendere, che essendo il regno di Congo appartenente al Re di Spagna, à lui lo rimetteva.
Esta audiência terá sido em 1588, pois já tinha falecido o rei Álvaro I e era Papa Sisto V, falecido em 1590; e já em 14 de Dezembro de 1589, Duarte Lopes escrevia em Madrid um incisivo relatório sobre o comércio de escravos (MMA, IV, 514).

Em Roma, Duarte Lopes encontrou Filippo Pigafetta, um humanista, viajante experimentado e bom escritor a quem ditou um relatório acerca do Reino do Congo e da sua história após a chegada dos portugueses. Pigafetta escreveu naturalmente em italiano o livro, que foi publicado em 1591, embora não indique a data. Sendo embora provável que, aqui e ali, Pigafetta tenha usado a sua fantasia, o livro tem informações muito úteis acerca de século e meio da vida do Congo após a chegada de Diogo Cão à foz do Zaire.
A missão de Duarte Lopes (que era cristão-novo) não foi em vão, porque, daí em diante, os Reis do Congo passaram a corresponder-se directamente com o Papa.

——–

Este artigo é sobre a Ordem Espanhola de cavalaria. Para a Ordem Portuguesa, ver Ordem de S. Tiago da Espada.
Ordem de Santiago
Orden de Santiago
Cruz de Saint James.svg
A Cruz de Santiago usada pela Ordem
Prémio de Espanha
Tipo ordem religiosa de honra e anteriormente uma ordem militar
Religião Católica
Primeiro Grande Mestre Pedro Fernández de Castro
Grande Mestre Rei de Espanha
Estabelecido 1158
ESP Ordem de Santiago BAR.svg
Fita do pedido

Sinal de ordem, século XVII

A Ordem de Santiago, também conhecida como “A Ordem de Santiago da Espada”, foi fundada no século XII e deve o seu nome ao Patrono nacional da Galiza E Espanha, Santiago (São Tiago Maior). Seu objetivo inicial era proteger o peregrino do Caminho de Santiago e defender a Cristandade.

Após a morte do Grão-Mestre Alfonso de Cárdenas em 1493, os Reis Católicos incorporaram a Ordem à Coroa Espanhola eo papa Adrian VI uniu para sempre o cargo de grande mestre de Santiago à coroa em 1523.

A primeira República suprimiu a Ordem em 1873 e, embora a Restauração foi restabelecida, foi reduzida a um instituto nobilical de caráter honorável. Foi governado por um Conselho Superior dependente do Ministério da Guerra, que também se extinguiu após a proclamação da segunda República em 1931.

A Ordem de Santiago, juntamente com a Calatrava, Alcántara e Montesa, foi restaurada como uma associação civil com o reinado de Juan Carlos I com o caráter de uma organização nobiliária, honorável e religiosa que permanece como tal.

UMA PISTA MUI ESTRANHA:

Em 1482, a sede da Ordem transferiu-se para o Castelo de Palmela, que acabou por ficar associado à Ordem. O últimoMestre de Santigo antes da união dos mestrados à Coroa em 1551, no reinado de D. João III, foi D. Jorge de Lencastre, Duque de Coimbra, filho ilegítimo de D. João II, que reformulou a Ordem com novos estatutos e que ficou sepultado na Igreja do Castelo de Palmela.

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Sobre a pintura flamenga em Portugal no período em Wikipedia :

Ver artigo principal: Renascimento, Maneirismo, Renascimento em Portugal, Estilo manuelino, Maneirismo em Portugal

Como se disse na abertura deste artigo, a passagem do século XV para o XVI foi uma fase privilegiada para a cultura portuguesa. D. Manuel I leva o reino a uma fase de esplendor, e desenvolve um programa ideológico destinado a enaltecer a sua autoridade e a grandeza lusitana. Reformas institucionais são levadas a cabo, a cultura recebe grande estímulo, o país torna-se numa verdadeira potência naval, lidera as grandes navegações, funda lucrativas colónias na América, África e Ásiaque enriquecem a nação, estreita contactos culturais e comerciais com o resto da Europa e conhece o Humanismo. Neste período a pintura entra numa fase de grande prestígio e a importação de arte flamenga pelo rei, a grandes volumes, disputando entre si as melhores obras e os melhores artistas, cujo ritmo de produção é elevadíssimo.[11]

Spirito Santo
Entre 2017 e 2018

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