RESENHA MANOEL KONGO AMK


História, Teatro e Turismo cultural/Uma experiência

A História
Com o esgotamento do ouro nas Minas Gerais, a economia brasileira se deslocou para o Vale do Paraíba do Sul, no Rio de Janeiro. O posterior esplendor da região, com seu eixo localizado na Vila de Paty do Alferes e, logo em seguida, na Vila de Vassouras, alavancou o desenvolvimento do Brasil por quase todo o século 19.

O signo principal deste ciclo de desenvolvimento era o café, mercadoria com enorme importância no mercado internacional do período, do qual o Brasil foi, durante muito tempo, o maior produtor.
Brasil e sua economia dependiam, no entanto, de outra mercadoria, ainda mais essencial do que o café; A força de trabalho do escravo africano.

Ambos negros, escravo e café, fizeram algumas das maiores fortunas do mundo da época, fortunas estas que, concentradas quase todas na região do Vale do Paraíba do Sul, geraram a sociedade dos chamados ‘barões do café’, nababesca e prepotente, assentada numa estrutura social sem povo, composta, basicamente, por aristocratas e escravos.

Sequestrados de Angola, Congo, Moçambique e trazidos a partir, principalmente, dos portos de Luanda e Benguela, para serem vendidos no Mercado do Valongo, próximo ao porto do Rio de Janeiro, os africanos que, depois de longa jornada a pé, chegavam à plantações de café do Vale do Paraíba, acabaram se tornando, não só um elemento essencial para a economia local mas também, como se pôde concluir mais tarde, num elemento capaz de ameaçar a própria segurança física daquela sociedade.

A Trama
Em 6 de novembro de 1838, o africano Camilo Sapateiro, escravo da fazenda Freguesia foi morto a tiros, quando se dirigia, clandestinamente, à fazenda Maravilha, ambas pertencentes ao maior proprietário de escravos e principal autoridade da comarca: o Capitão-Mor Manoel Francisco Xavier. O assassino, um capataz da fazenda, quase foi linchado pelos escravos.

O que pretendia fazer Camilo Sapateiro na fazenda vizinha quando foi morto? Teria sido a sua morte, pelo capataz (um incidente algo corriqueiro na rotina escravista), a verdadeira razão da insurreição de escravos de tão grandes proporções, que se seguiu?
De roldão, os escravos rebelados, divididos em dois grupos, saquearam as duas fazendas do Capitão-Mor e fugiram para a mata próxima. Num ponto, ao que tudo indica, previamente combinando desta mata, um dos grupos se encontrou com um número indeterminado de escravos de outras fazendas, além das duas de propriedade do Capitão-Mor.

A imediata adesão de escravos de outras fazendas chama, fortemente, a atenção para a possibilidade de ter havido algum tipo de articulação prévia entre os rebelados.

O fato é que, um grande grupo se embrenha na mata de Santa Catarina rumo a alto da Serra da Estrela, montando um arranchamento para pernoite, á cada fim de tarde do trajeto da fuga.

Perseguida por tropas da Guarda Nacional e homens recrutados pelo juiz de paz da comarca, uma parte deste grupo é atacada e dominada, quando ainda dormia, no quarto dia de fuga. Tropas do Exército Imperial, convocadas às pressas, comandadas pelo então Capitão Luiz Alves de Lima e Silva, futuro Duque de Caxias, só chegam na área do conflito quando tudo já havia terminado.

No grupo de escravos derrotados, está o suposto chefe da insurreição, denominado ‘Rei’, Manoel Congo, ferreiro da Fazenda Maravilha e uma mulher, denominada ‘Rainha’, a costureira Marianna Crioula, escrava de confiança da senhora dos escravos das fazendas Maravilha e Freguesia, Dona Elisa Xavier.

A um escravo morto na refrega, mas, não identificado nos autos, é atribuída a função de ‘Vice-rei’ da insurreição e do futuro suposto quilombo. Este escravo pode ser identificado, nas entrelinhas dos autos, como sendo o africano de nação Munhambane (moçambicano) Epifânio Moçambique.

Um número indeterminado de negros do grupo atacado consegue se embrenhar na mata, serra acima e dele não se tem mais notícias. Não se tem notícias também do segundo grupo, comandado por um escravo chamado João Angola que, embora não estando presente no ponto de encontro com o ‘Rei’, nem constando no rol dos presos no momento do ataque, foi visto no dia anterior prestes a assaltar a fábrica de pólvora da região, desaparecendo por outro caminho, rumo á Serra do Couto, próxima à Serra a Estrela, aparentemente, o destino final de todos os rebelados.

Pode-se, por estas evidências, entre outras surgidas na pesquisa, supor que os relatos que dão conta da existência de um quilombo na região, jamais desbaratado, são factíveis.

A despeito destas evidências, a maioria dos proprietários alegou que seus escravos retornaram, espontaneamente, à suas fazendas, mas, não existem registros seguros dando conta de quantos, efetivamente, fugiram e retornaram. A alegação livrava os fazendeiros das pesadas custas processuais, caso tivessem negros de sua propriedade (e responsabilidade) arrolados como rebeldes.

O peso total destas custas processuais acabou recaindo sobre o Capitão-Mor Manoel Francisco Xavier, que, depois dos escravos presos e condenados, passa a ser a principal vítima dos incidentes.

De um total de cerca de trezentos escravos fugidos e rebelados, apenas vinte e três (todos pertencentes a Manoel Francisco Xavier) são aprisionados (sete haviam sido mortos na refrega). Destes vinte e três presos, sete são mulheres (é significativo, do ponto de vista logístico, o fato deste grupo de presos, a maioria feridos na refrega, ser aquele onde estavam a maioria das mulheres e, provavelmente, os homens mais velhos e as crianças).

Cerca de dezesseis presos deste grupo são, efetivamente, julgados. A maioria é condenada, com uma única exceção: o escravo Adão Benguela que, apesar de estar tão envolvido quanto todos os outros nos conflitos, é estranhamente absolvido.

O suposto ‘Rei’ Manoel Congo’, é condenado à forca e executado em 1839 em Vassouras.

Os Antecedentes
A observação acurada – e crítica – de fatos descritos em documentos da época, principalmente os autos do processo montado na ocasião, contendo os depoimentos dos escravos presos, pequenos indícios ou omissões aparentemente deliberadas, contradições entre os depoimentos, etc., formam a base principal utilizada para a elaboração deste texto teatral.

Formam também a base de dados da pesquisa, textos esparsos, de outras fontes e um raro e inestimável relato, ao vivo, extraído pelo autor de uma entrevista (veja neste link) por ele realizada em 1973, com uma ex-escrava de uma das fazendas da região, que ali viveu, alguns anos após os incidentes descritos pelos autos.

Com efeito, coisas muito inusitadas ocorriam naquela região nesta época de grande efervescência social.

Segundo dados descritos na crônica da cidade de Vassouras, escrito por Ignacio Raposo, um ano antes da fundação da vila, ocorrida em 1833, um grupo de proprietários criava a Sociedade Promotora da Civilização e da Indústria, de verniz positivista, e dedicada, entre outras coisas, à formação de artífices escravos, como mão de obra especializada, com o fim de possibilitar a manutenção de equipamentos, até então, feita por engenheiros vindos da Inglaterra e até – suprema ousadia – iniciar talvez a própria substituição da importação de máquinas e ferramentas agrícolas que, oriundas da Europa, obviamente com a mão de obra dos escravos-operários especializados, formados pela SCPI, passariam a ser fabricadas por aqui mesmo.

Ferreiros e marceneiros eram as principais especialidades indispensáveis à incrível proposta desenvolvimentista da SCPI. Os artífices a serem treinados, seriam recrutados, por seus proprietários, entre os seus escravos mais hábeis e inteligentes.

A mais incrível das coincidências era que o ofício de ferreiro foi, ainda nesta época, a partir de uma tradição africana que remonta o século 10 (segundo alguns relatos, talvez até um pouco antes disto), uma ocupação exclusiva de reis e nobres, um status de poder hierárquico superior na cultura dos Kimbundo e Ovimbundo, grupos étnicos angolanos que, em grande maioria, contribuíram com escravos para as plantações de café do Vale do Paraíba do Sul.

Sabe-se pelas mesmas fontes (Ignacio Rapiso) que, um ano depois (por volta de 1834), uma curiosa sociedade secreta, composta por negros escravos e libertos, com uma elaborada estrutura, havia surgido em Vassouras, quatro anos, portanto, antes da insurreição de Manoel Congo. Esta ‘insidiosa’ organização, segundo foi descrito por esta mesma crônica da Cidade de vassouras, andava ruminando um levante que pretendia libertar todos os escravos da área.

Somente nove anos depois, ou seja, em 1847, a tal organização secreta pode ser desbaratada. Os registros policiais da ocasião, afirmaram que ela se autodenominava Elbanda (Embanda, mais propriamente talvez, por ser a expressão traduzida como “Curandeirismo” ou ” Medicina” a qual, quando acrescida do prefixo “Ki” – Kimbanda – significa o mesmo que “Médico” no idioma de origem (kimbundo) podendo se traduzir Embanda como “medicina” nesse contexto de seita ou sociedade secreta) e era formada por núcleos ou células clandestinas, dirigidas, obrigatoriamente, por escravos ferreiros e marceneiros, chamados pelos outros escravos de ‘Tata” (ou ‘pai’ ) Korongo.

Também curiosamente, pesquisas bem recentes sobre a cultura dos Kimbundo, nos dão conta que era por demais comum na sociedade angolana do século 19, a proliferação de seitas e sociedades secretas, por diversas motivações, prática que pode ter sido seguida pelos escravos de Vassouras.

A seita em questão, devotada à Santo Antônio, evocava, fortemente possível inspiração na remota seita existente no Reino do Kongo na virada do século 17 para o 18, criada e liderada por uma sacerdotisa chamada Kimpa Nvita (ou Vita), morta em 1702 numa fogueira da Inquisição. Importante frisar que a seita de Kimpa Nvita pregava uma guerra de libertação do reino contra os colonialistas portugueses.

Esta emocionante reconstituição nos dá conta, enfim, de uma malha de estranhas relações, interesses e contradições, bastante incomuns na história oficial do escravismo brasileiro, estabelecidas entre proprietários e escravos, escravos entre si, além de proprietários, do mesmo modo entre si. Um impressionante conflito humano sacudindo os alicerces daquela sociedade imperial, questionando o seu anacronismo. Matéria pura para teatro. Drama.

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