Faroeste Cafuso. Mocinhos brancos, bandidos negros


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A única fotografia conhecida da gangue Rufus Buck, tirada no verão de 1895 em território indígena, na véspera de sua execução. Buck é o jovem do meio. Em fotos mais antigas, percebe-se as cordas que atam os jovens pelos pés. Aparentemente, em reproduções mais recentes, essas cordas foram apagadas, camufladas por grama. Fotografia cortesia de Leonce Gaiter e Ras Adauto)

A história quase vira farsa no velho oeste dos EUA

1895. Rufus Buck era um adolescente negro, filho de um ex escravo casado com uma índia da etnia Creek, cujo território era vizinho ao dos Cherokee (veja o mapa). Os dois territórios, que hoje abrangem os estados de Arkansas e Oklahoma, eram a esta altura muito cobiçados pelos colonos brancos e um processo de invasão que se temia irrefreável, estimulado pelas vistas grossas do governo, estava se avizinhando.

I

Haviam desde os tempos da escravidão, abolida em 1862/3, muitos negros fugidos, homens e mulheres habitando estes territórios indígenas, completamente integrados, casados com indígenas. Presume-se que houvesse, portanto, uma grande integração étnica – e genética –  entre índios e negros nessa região, evidência pouco estudada ou mesmo desprezada pela história oficial.

(Bom ressaltar a possibilidade de fenômeno similar, qual seja, a simbiose étnico-genética entre descendentes de africanos e indígenas, também vagamente estudado por aqui, ter se dado no Brasil, notadamente no litoral do Nordeste e do Sudeste, em proporções semelhantes. As evidências costumam ser encontradas apenas em textos focados na mitologia afro-brasileira, no folclore religioso, pouco material sendo encontrado em fontes acadêmicas mais convencionais, mesmo em áreas óbvias como a antropologia e a etnologia.)

É nesse ambiente e contexto, contudo, que podemos tentar compreender a incrível história de Rufus Buck e sua (segundo o jargão branco oficial) gang.

(Spirito Santo)

Um roteiro de filme de Faroeste muito inusitado

“Em 28 de julho de 1895 um grupo de 5 adolescentes índios de etnia Creek, alguns mestiços com africanos, começou a montar um pequeno estoque de armas em Okmulgee, Oklahoma, com intenções aparentes de se rebelar contra uma aguardada invasão de terras indígenas por parte de colonos brancos.

A história oficial os classifica até hoje como simples bandidos, “Outlaws”, no jargão do Velho Oeste, motivados por uma fúria aleatória, omitindo as verdadeiras razões de seus atos. O grupo de jovens era formado (pela ordem da foto) por Maoma July, Sam Sampson, Rufus Buck, Lucky Davis e Lewis Davis. Por incrível que pareça, suas estrepolias duraram 13 dias apenas, mais ou menos de 28 de Julho à 10 de Agosto de 1895. A lista de seus crimes, contudo é extensa:

Em 30 de julho de 1895 assassinaram o vice-marechal John Garrett (um negro). Em 31 de julho: Ao cruzar com um homem branco e sua filha em uma carroça, a gangue deteve o homem sob a mira de uma arma e levou a garota. Mataram um outro negro e bateram em Ben Callahan, seu patrão, até acreditarem erroneamente que ele estava morto, depois pegaram as botas, o dinheiro e a sela de Callahan.

Roubaram lojas da região, inclusive a de J. Norrberg em Orket, Oklahoma. Assassinaram duas mulheres brancas e uma menina de 14 anos. Em 4 de agosto estupraram a sra. Hassan perto de Sapulpa, Oklahoma, outras duas mulheres foram vítimas da gangue. A senhorita Ayres e uma garota índia, perto de Sapulpa. Uma quarta vítima, a Sra. Wilson, foi salva e foi relatado que, após a sua libertação, a gangue foi quase linchada.

Ben Callahan contou que, como conseguiu escapar com vida, a gangue, em vingança matou o negro, seu assistente. Conta-se também que, ao menos duas mulheres foram estupradas pela gang e morreram por conta dos ferimentos. O grupo, contudo, foi oficialmente condenado à morte e enforcado, provavelmente em 10 de Julho de 1896, por conta da morte de apenas uma dessas mulheres, que era branca.

O reinado de terror do grupo durou pouco, mas suas ações ensejaram, como motivação e justificativa, uma invasão violenta, já planejada pelos colonos brancos da área, provocando o fim do território Indígena dos povos Creek e Cherokee.”

“Seu sonho (o de Rufus) era impossível e ele usou a mesma violência que viu ao seu redor para alcançá-lo. O grupo de Rufus Buck era infantil e cruel, inocente em sua ingenuidade e brutal em suas perspectivas ”, disse o romancista Leonce Gaiter em um blog do Huffington Post em 2012 por ocasião do Mês da História Negra. “O reinado de terror de 13 dias é historicamente impactante, pois, significou o fim do território indígena, logo engolido pelos colonos brancos dos Estados Unidos sedentos por terra.”

Rufus Buck

Gaiter queria, portanto, apresentar alguém que tinha sido esquecido pela história. Leia o resto do seu artigo a seguir:

“…Ninguém sabe o que deu início a esse tumulto no território indígena mas em consequência desses eventos, entre outros, os Creek e os Cherokee da costa leste da América foram forçados a marchar mais de 1.600 quilômetros durante a infame Trail of Tears (“Rastro de lágrimas”) junto com ex escravos fugitivos que haviam se casado com Índias e se integravam às tribos”, muitos morrendo pelo caminho.

“Os índios lutaram nesta região sombria por 50 anos, mas o governo acabou deixando os colonos brancos retomarem a terra. Alguns, entre os que estavam perdendo o pouco que tinham, responderam com raiva ”.

Após a morte de Buck, uma fotografia de sua mãe foi encontrada em sua cela. No verso, Buck havia escrito um poema:

“Eu sonhei que estava no paraíso
Entre anjos justos
Eu nunca tinha visto ninguém tão bonito
Aqueles fios de cabelo dourado
Eles (os anjos).
pareciam tão limpos e cantavam tão docemente
Tocavam a harpa dourada
Eu estava prestes a escolher um anjo
para trazê-lo comigo e levá-lo para o meu coração
Mas comecei a pensar em você, meu amor.
Não havia ninguém que eu tivesse visto
tão lindo na terra ou no céu.

Para minha querida esposa, mãe e todas as minhas irmãs”
(Rufus Buck. July 1896)

Uma resenha sobre a romance de Gainer.

“A fúria do bando de Rufus Buck
Um Western corajoso retrata uma breve e violenta cruzada.
Por Craig Labert, março de 2012
(Tradução livre de Spirito Santo)

“No verão de 1895, no Território Indígena que se transformou no estado de Oklahoma, uma gangue de cinco garotos adolescentes – todos negros, índios ou mestiços – iniciou uma violenta série de roubos, estupros e assassinatos que duraram cerca de duas semanas.

A violênjcia aparentemente aleatória aterrorizava não apenas os colonos brancos locais, mas também os índios vizinhos e libertos afro-americanos. Mas a violência não era aleatória. O líder da gangue, Rufus Buck de 18 anos filho de mãe negra e pai Creek, ardia de paixão como um fanático. Ele sonhava que as ações de sua gangue desencadeariam uma revolta indígena que expulsaria a maioria branca, que começava a ocupar ilegalmente a região, devolvendo o território para o seu povo.

Essa história verídica, forma a base para o romance de 2011 “Eu sonhei que eu estava no céu: A fúria do Rufus Buck Gang”, de Leonce Gaiter. Seu relato fictício da sangrenta atuação da gangue no território indígena empoeirado, teve suas sementes num recorte dado a ele 20 anos antes, que incluía a única fotografia conhecida dos cinco bandidos. “Eles pareciam tão jovens que foi bastante chocante”, diz ele. “Alguns deles pareciam crianças. Havia algo incrivelmente interessante nessa fotografia que imediatamente me afetou: “Meu Deus, adoraria escrever sobre isso.”

(Nota minha: Curiosamente o mesmo ocorreu comigo ao ver a foto publicada pelo amigo Ras Adauto dia desses no Facebook.)

No entanto, a escrita foi difícil, e Gaiter, cujo romance de 2005, “Bourbon Street”, é um conto noir ambientado em 1958 em Nova Orleans, fez várias falsas partidas. Ainda assim, ele fez uma extensa pesquisa histórica, extraindo minúsculos recortes de notícias e documentos judiciais. “Esta foi uma peça extraordinariamente difícil de entender”, explica ele. “Você tem pessoas que estão fazendo coisas horríveis, mas você deve entender por que elas estão fazendo isso.

Não estou pedindo a você que simpatize com as ações deles, mas quero que você descubra as razões pelas quais os motivos pessoais e sociopolíticos são convincentes. Eu queria criar uma história dramática – eu escrevo para entreter -, mas também queria uma história que desse as pessoas uma razão para lê-la. Não apenas algo que você lê e diz depois: “Bem, isso foi desagradável”.

A personagem fictícia Theodosia Swain é a filha loura, linda e fogosa de 13 anos de um viúvo burguês branco, um neófito do Mississippi cujo mundo desmoronou com o do velho sul depois da Guerra Civivil. A gangue de Buck a carrega e ela, inexplicavelmente os segue alegremente”. Os tons raciais e sexuais dessa realidade tanto ultrajaram quanto confundiram os cidadãos brancos após a prisão da gangue.”

O grupo de Rufus Buck incorpora uma combinação perigosa: uma mistura volátil e alta de testosterona, de energia masculina jovem sem canal significativo (ou futuro), armas letais e uma ideologia evangélica, simplista e dogmática. Tem muito em comum, em outras palavras, com as células terroristas de hoje em dia e grupos paramilitares extremistas. “A trajetória de Rufus, a mania quase religiosa que inspira sua missão, tem um modelo”, diz Gaiter, “e esse modelo se encaixa nos fanáticos religiosos, de “John Brown to Saint Paul”. Se você quiser considerá-los todos loucos, você pode, mas alguns desses loucos mudaram o mundo. ”

(John Philip Brown “to Saint Paul” (9 de maio de 1800 – 2 de dezembro de 1859) foi um abolicionista americano que acreditava e defendia a insurreição armada como única maneira de derrubar a instituição da escravidão nos Estados Unidos. Ele ganhou projeção quando liderou pequenos grupos de voluntários durante os distúrbios conhecidos como o “Kansas sangrento em 1856.

Brown estava insatisfeito com o pacifismo do movimento abolicionista organizado: “Esses homens estão apenas falando. O que precisamos é de ação, ação!” Em maio de 1856, Brown e seus partidários mataram cinco defensores da escravidão no massacre de Pottawatomie, em represália ao saque de Lawrence por forças pró-escravidão. Brown comandou também forças anti-escravidão na Batalha de Black Jack (2 de junho) e na Batalha de Osawatomie (30 de agosto de 1856). Brown foi preso e condenado à morte na forca em dezembro de 1859.

(Na imagem a tela “The Last Moments of John Brown
1882-84- Thomas Hovenden (1840-1895)
Oil on canvas; 77 3/8 x 66 1/4 in. (196.5 x 168.3 cm)

É bastante provável, portanto – nota de Spirito Santo – que a estratégia terrorista, de luta armada contra a escravidão de John Brown to Saint Paul, ocorrida 36 anos antes – e que, dizem, insuflou a Gùerra de Secessão poucos anos depois – , tenha influenciado sim, muitos homens e mulheres do território indígena Creek/ Cherokee, ameaçado em 1895 de invasão, influência esta que pode ter deflagrado a paixão de Rufus Buck e seu grupo, que sonharam, ingenuamente com a mobilização dos povos negro-Indígenas para uma sangrenta luta de libertação contra a volúpia branca.

“…Rufus Buck (o vulgo “Buck” ou “fanfarrão”, pode significar também “criminoso”, notas de Gaiter) não mudou o mundo. Mas o autor diz que ele “caiu lutando por sua identidade”. O que foi feito para os índios foi tão brutal quanto o que Rufus fez. ”As vítimas de Buck eram em sua maioria infelizes com quem o grupo se deparou acidentalmente (embora seu primeiro assassinato tenha sido o de um marechal negro americano), mas a opressão sofrida por seu povo era a razão final de sua indignação”- explica Gaiter. “As pessoas se iluminam com a ira justa, perseguem os símbolos de sua opressão”, explica Gaiter, “não são essas pessoas que causam o dano real”.

(E aqui o exemplo dos bandos de cangaceiros de Lampião no Nordeste do Brasil é candente – Nota de Spirito Santo)

Leonce Gaiter (ele próprio um homem negro), finalmente conseguiu captar o ritmo da história. Sendo um aficionado por jazz, ele diz: a música é minha principal metáfora para tudo” – expandindo sua visão para juntar a política do conflito dos brancos com a manutenção de um território Indígena, com personagens tão inusitados como mestiços de africanos, ex escravos fugidos com indígenas americanos, acossados pelo expansionismo da sociedade branca.

Cherokee Bill, um fora-da-lei (1876-1896), que foi preso em Fort Smith, Arkansas, quando Buck também estava encarcerado lá e o magistrado federal, profundamente religioso Isaac Parker (1838-1896), que governou o Judiciário na área por décadas e perseguiu a gangue de Buck, também desempenham papéis fundamentais na história.

O retrato cru e sem retoques do romance do Velho Oeste parece mais ousado e real do que, frequentemente é visto nos filmes de faroeste de Hollywood e na televisão. Quando a gangue embrionária de Buck começa a vender bebidas alcoólicas, por exemplo, eles recebem “três caixas de uísque marrom em garrafas comuns que foram misturadas com água do riacho e temperadas com pimenta malagueta, tabaco e um toque de estricnina para dar um sabor forte muito apreciado.

Os garotos do grupo não eram nem um pouco vilões românticos, mas almas perdidas, mal-humoradas e mal amadas, cambaleando desajeitadamente pelo mundo, criando o caos não a partir de planos malignos, mas impelidos por sua pura impetuosidade adolescente.

Quando a gangue rouba alguns cavalos de um estábulo, por exemplo, um dos meninos, descuidadamente joga um lampião em uma pilha de feno quando iam deixando a casa, queimando outros dois cavalos deixados para trás e, finalmente, incendiando metade da pequena cidade.

Refletindo sobre seu romance, Gainer diz: “A história da literatura afro-americana é, em grande parte, uma história de pessoas que tomam para si a condenação do mundo exterior e se destroem voltando-se para dentro de si mesmas. Filhos de nativos, homens invisíveis, mal amados – estas são as pessoas que pegam o ódio que é vomitado sobre elas e o internalizam.

Eu fiquei cansado de ler os livros comuns sobre o assunto, porque eles sugerem um povo passivo, patético, que eu sei que não somos. O fato desses adolescentes estarem reagindo, significava muito para mim como um homem negro. Ganhando ou perdendo, certos ou errados, eles caíram lutando e isso é que importa

Spirito Santo

Dezembro 2018

Academia Branca x Universidade Preta?


No academicismo negro a negação da Diáspora      

Há um que de esquizofrenia e histeria teoricista nas relações intelectuais, acadêmicas em setores ligados à positiva (apesar de relativa) ascensão de negros na universidade do Brasil.

Sigo de longe o processo, interessado, porém intrigado…as vezes assustado.

Como todos sabemos, a escravidão e o racismo geraram sequelas psicopatológicas, individuais e coletivas muito severas na população africana trazida como escrava para o Brasil. A perpetuação das condições e consequências da exclusão social dos descendentes desses africanos, quase tão severas quanto as do passado escravista, obviamente manteve em maior ou menor grau essas patologias ativas.

No aspecto social, geral estas mazelas psicopatológicas são gravíssimas, mas vamos no ater aos reflexos delas sobre aqueles que, escapando, em termos subjetivos do destino cruel da maioria, deveriam cuidar da redenção destes, seus “irmãos”. Trata-se, ao que me parece, de um intelectualismo deslocado da realidade social mais objetiva, dos problemas mais gerais e urgentes do negro brasileiro.

O que aparece é um discurso elitista calcado em jargões inintelegíveis para os leigos, coalhado de presunção e arrogância, esotérico mesmo, sugerindo o risco de um lamentável isolamento de seita para uma antes promissora leva de doutores negros.

Uma Academia Negra, apartada da velha academia branca seria factível no Brasil? Apartar e isolar não é exatamente o que o sistema de racismo à brasileira deseja. Parece tratar-se do surgimento de uma academia ainda de “alma branca”, só que agora em blackface, se bem me entendem.

Assimilacionismo! Conhecem o processo de gestão social colonial dos anos 1940/60 em África? Pois é…

Pode ser apenas uma fase, um acesso de auto estima exacerbada provisório, neste grupo precursor de “condenados da terra” que conseguiu escapar do gueto e que, com o tempo cairá na real.

Mas a rapidez inesperada com que essa tendência ideológica se articula nas universidades com negros por todo o país, tem para mim um sentido muito fundamentalista, aparentemente sociopatológico (daí chamá-lo de esquizofrênico) Uma lástima que preocupa ativistas mais velhos, ativistas eternos como este que vos fala

(Idosa negra frustraçåo, diria. Espero que passageira.)

O fato é que nos faltam Fanons e nos sobram Foucaults em blackface. As artimanhas e armadilhas psicológicas do colonialismo redivivo – e do racismo, sua ferramenta mais utilizada – são mesmo malignas, surpreendentes.

Pense bem.

Spirito Santo
Julho 2018