O Ensejo:

Meu trabalho como escritor está associado á questões ligadas à cultura africana na Diáspora brasileira. Não por obrigação de nenhum estudo convencional, formal nem por ideologia, exatamente, mas por uma espécie de vocação mesmo, ligada à minha vida, às conclusões a que cheguei sobre o meio em que vivi, a sociedade em torno e à uma vocação irresistível para expressão pública dessas conclusões tão subestimadas no Brasil.

O meu primeiro livro  (“Do Samba ao Funk do Jorjão”) hoje já em segunda edição, concluído quando tinha já perto dos 60 anos, estava sendo escrito, sem que eu o planejasse, desde os 25.

Eram centenas de anotações sobre pesquisas de campo realizadas nas décadas de 1970/80/90, conclusões meticulosas sobre estas investigações e descrições gráficas, fotográficas, musicológicas, que utilizava, quase que exclusivamente para fazer música, inclusive promovendo cursos devfabricação de instrumentos musicais, conjunto de habilidades que acabou me transformando numa espécie de etnomusicólogo, um pesquisador independente.

De acompanhar a vida de pessoas como eu (do meu “meio” quero dizer) planejava, alimentava esperanças de publicar um livro uma dia.

Sempre foi claro para mim, entanto, que haviam barreiras misteriosas no mercado literário brasileiro, dificultando esse tipo de iniciativa para autores com o meu perfil, um problema crônico no Brasil.

Quem me estimulou, tornando essa vontade irresistivel, foi o pesquisador e escritor Nei Lopes (uma pessoa do meu meio) que conseguiu vencer essas barreiras todas e se tornou um exemplo bem sucedido e indispensável ao meu plano que se concretiza em 2011 com a primeira edição.

Com o livro publicado muitos outros incentivadores surgiram, tornando esta segunda edição, hoje, uma inusitada referência acadêmica no Brasil e no exterior.

O espírito do livro #02

O tema deste segundo livro – a sua essência, o seu ethos – será um mergulho mais incisivo em aspectos que apenas pincelei no anterior, voltados para a tentativa de esclarecer as razões que tornaram o estudo da cultura negra do Brasil tão travado por impedimentos de natureza ideológica, sociológica, filosófica, epistemológica, etc. todos estes entraves assentados quase como uma metodologia, no caráter arraigadamente excludente de nossa sociedade, que insiste em separar a cultura de “Uns” da cultura dos “Outros”.

Trata-se de uma dicotomia ignorante, se poderia dizer, pois criou, deliberadamente lacunas importantes no conjunto de nosso conhecimento sobre nós mesmos, brasileiros que somos, apesar de tudo.

O corpo do Livro #02

A gênese dos problemas que atormentam a alma dos estudos da cultura africana no Brasil é provocado, imaginamos, exatamente esta dicotomia entre “Uns”e “o Outros”, os aqui chegados por bem e os trazidos à força, por mal.

Só chamamos de “cultura africana” no Brasil esses estudos sobre africanos no Brasil (uma expressão controversa, inconveniente às vezes), porque os estudiosos teimam em entender que estão tratando de uma cultura “á parte”, nunca “brasileira”.

As razões de ser desse separatismo, no fundo de grande pobreza metodológica criou,  por exemplo, uma rejeição ao estudo das relações dessa cultura de negros do Brasil com suas origens transcontinentais remotas ou mesmo atuais, como se a travessia do Atlântico tivesse tido o condão de deletar a memória dos transladados, que teriam sofrido aqui, na chegada um apagão, um reset mal sucedido que lhes apagou toda a cultura anterior. Uma “alienação parental” inexplicável.

Ora, a cultura deles – que somos nós – está por aqui, por aí, tratada como exótica, ausente em grande parte dos livros e, completamente desprovida de sentido, pois a maioria de seus aspectos só podem ser explicados por meio de estudos paralelos, desenvolvidos do outro lado do Atlântico, como vimos ainda hoje quase que inteiramente desprezados no Brasil.

Todas estas especificidades do problema, precisam ser debatidas em termos claros e profundos, sem intelectualismos estéreis ou tergiversações.

Boa parte  dessas especificidades esmiucei em posts e papers que andei lendo ou publicando nesses últimos anos, expostos também oralmente, instigando discussões em mesas, aulas inaugurais, debates, seminários acadêmicos, etc.

No geral, o livro seria, enfim, constituído por uma série desses artigos, revistos, atualizados, articulados em torno de uma explicação possível para a renitência dessa dicotomia, com a pretensão de juntar, como num infográfico animado, as duas partes rasgadas dos dois continentes do nosso Oceano Atlântico comum – O KALUNGA líquido-filosófico que, talvez, possa nos explicar. a partir dos fios revelados dessa meada, quase tudo.

A forma, a estrutura do livro #02

No livro anterior – alguns leitores podem não ter percebido – mas utilizei, claramente a estrutura de um enredo de escola de Samba transcorrendo numa avenida de dúvidas.

Dividi o livro em alas, “partes”, vinhetando o desfile das “partes-capítulos” com “alegorias” (as ilustrações) e “adereços” (citações, letras de música, partituras, etc.). 

Nesse segundo, tratando-se do estudo das particularidades de uma Dicotomia, pretendo usar o grafismo filosófico do “Cosmograma Bakongo”, genial formulação da cosmovisão dos Bakongo, povo matriz da cultura angolana geral que muito informa à cultura brasileira de modo, muitas vezes inquestionável.

Os dois lados opositivos dessa cosmogonia: Ku-Nseke (o mundo material, tangível) e Ku-Mpemba (o mundo imaterial, intangível) – O “Mundo dos Vivos” e o ‘Mundo dos   Mortos”, como alguns, simplificadamente definem – seriam as duas partes da dicotomia (as duas partes do livro). 

Há nessa divisão, é bom que se diga, vista aqui em seu aspecto filosófico e não religioso, 4 subdivisões com um sentido de transcurso espacial (“horas”) que orientarão a narrativa do livro em seu sentido historiológico, mais ou menos como se a explicação dessa dicotomia estivesse, principalmente relacionada ao transcurso de nossa História, os artigos organizados em 4 blocos temáticos ou eventos (“Kala”, “Tukula”, “Luvemba”, Musoni”).

Assim, numa narrativa em sentido linear pretendo ajudar a explicar, de modo instigativo as razões de ser dessa nossa questão, desse nosso maniqueísmo tão estruturante, simplificadamente chamado de “Racismo Epistêmico”.
Os pontos-chave da temática geral abordada

Os artigos versam, de maneira geral sobre aspectos fundamentais da experiência social e cultural dos africanos no Brasil, que têm, é óbvio, estreita relação com alguns dos mesmos aspectos do outro lado do Atlântico (da região Kongo/Angola, especificamente)

Se pode observar nessas abordagens que, na historicização desses aspectos, os estudiosos brasileiros convencionais, acadêmicos ou não, têm criado explicações não raro displicentes, às vezes absurdas, gerando incongruências graves, fruto, simplesmente da recusa em estudar, mais seriamente as origens dessas manifestações do outro lado do Atlântico (as razões dessa recusa são um outro caso a se estudar) criando uma espécie de ignorância compulsória, um deliberado desconhecimento sobre este lado do problema, em muitos casos para eles tornado um tabu “nacionalista” (arcaicamente colonialista, melhor seria dizer)

Dediquei boa parte de meus estudos, expressos nos citados artigos, a flagrar essas incongruências na bibliografia, na iconografia acadêmica ou ensaística, cruzando-as com dados idênticos africanos, europeus, etc. descobrindo possíveis chaves para questões inusitadas, a maioria delas revelando a sobrevivência de um pensamento, como disse, ainda arraigadamente colonial em nosso meio “culto”, quando voltado para o trato da “Questão” – ou do “ Problema” – do Negro”. 

O eixo desses estudos – a sua fase aguda (a hora “Luvemba’ do cosmograma) – podem estar fundados em eventos antropológicos internacionais realizados no Brasil entre as décadas de 1930 e 1940 (Salvador, Bahia), sobre os quais existe algum material a ser desvelado para análise. 

Os eventos de 1930, exatamente parecem marcar a definição dos rumos (oficiais!) equivocados que a “antropologia do negro” no Brasil tomou, se desviando para a questionável ideologia do chamado “Reducionismo Nagõ” (por razões políticas bem definidas) e, logo em seguida, substituída pelo generalizante “Elogio à mestiçagem” ambas ideologias aparentadas com o que de pior se pensou na época (o “racismo científico” e outras insídias) que rejeitam – ou apartam – a herança africana em nossa cultura e que, como ideologias fundantes na academia, sobrevivem até hoje como fantasmas, com seus véus de tergiversações coloniais..  

Dada a natureza do tema, sua importância pública geral, o estilo empregado na narrativa deste livro, será o mesmo do primeiro, qual seja: Um estilo que congregue de maneira harmônica uma verve não acadêmica em diálogo permanente com a esotérica verve de jargões dos estudiosos especialistas, nesse caso, portanto, com um toque de coloquialidade que atenda ao interesse e ao prazer de qualquer tipo de leitor. 

O título terá, proponho algo a ver com KALUNGA, claro, a travessia deste como objetivo simbólico do tema central do projeto. Do ponto de vista gráfico receio que o projeto deva conter alguma iconografia, ilustrações, em muitos casos essenciais à argumentação geral, dada o antigo e longo manto de invisibilidade que cobre o assunto desde os tempos coloniais.

Enfim…Agradeço honrado a atenção.

Grande abraço

Spirito Santo
Dezembro  2019
  

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