A Sinfonia na Polirritmia do Negro Batuqueiro

 

Organologia africana e deculturação musicológica no Rio de Janeiro.

Qualquer pessoa de algum modo interessada em música hoje, sabe que são utilizadas formações instrumentais as mais diversas para o exercício de apresentações e espetáculos pelo mundo afora.

A Música é entre todas as artes, talvez a mais gregária, a que mais depende da interação total entre os participantes de um grupo no ato de uma performance.

Com uma humanidade formada por diversos modelos de cultura ou tipos de sociedade, o grau de diversidade dessas formações musicais inventadas pelo homem é enorme e maravilhoso.

Mas, ninguém gosta de assumir, mas existe, um preconceito sutil, e recorrente no Brasil, segundo a qual formações musicais organizadas com instrumentos melódicos ou harmônicos (tendo a música da Europa como parâmetro), seriam, consideradas…superiores.

Ora, podemos afiançar que a existência de formações instrumentais de tipo mais “sinfônico” ou “complexo”, é comum, praticamente em culturas de todo o planeta, não sendo de modo algum, uma prerrogativa das culturas europeias. De onde teria vindo então essa ideia tão incongruente?

A existência de formações musicais complexas em outras partes do mundo que não a Europa, se deu por razões objetiv aas, dentre as quais a principal foi a antiguidade dessas “outras” culturas.

Nos referindo especialmente à África, podemos afirmar que toda a rotina existencial das sociedades,Tempo e Espaço na vida comunitária são e serão, eternamente transcorridos e demarcados sob o signo da Música.

Este é o conceito filosófico fundamental da Música africana, vocês sabiam?

2007- Orquestra de marimbas “Timbila”, do povo Chopi de Mozambique

Ocorre que numa espécie de maniqueísmo interesseiro surgido com o fim dos tempos da escravidão, algumas peculiaridades das culturas musicais de “outras” culturas, passaram a ser subestimadas, em detrimento de outras. E isto, infelizmente se dá de forma muito intensa no Brasil.

Foi com certeza daí que surgiu o mito tão brasileiro do “negro batuqueiro”, a ideia simplista de que os negros em geral só possuem habilidades musicais muito básicas, ligadas em geral á chamada música de percussão.

Este preconceito é usado até hoje como presuposto teórico chave, nos estudos e teses sobre a música dos africanos e, por extensão a música do negro brasileiro, justificando-se assim esta suposta predileção destes pela percussão, pelo batuque.

Mas esta premissa nunca foi verdadeira. Jamais existiu uma pré disposição dos africanos ou dos negros para à percussão, para o “batuque”.

Esta subestimação visava, é claro desqualificar a cultura dos povos das colônias. Passou-se deste modo a opor, de um lado, a suposta excelência da música “sinfônica” da Europa (a “Metrópole”, “branca”, colonialista) em relação a música, quiçá exclusivamente “rítmica”, rude, dita “primitiva” dos povos “não brancos” (das “colônias” africanas, asiáticas, etc.)

1830 (circa) Desenho de Debret com dueto de Sanzas

Afinal, como habitantes de um país nascido da ocupação por europeus de um território selvagem, além dos nativos aqui residentes, povoado logo a seguir por um contingente imenso de gente sequestrada, trazida à força de outro continente também dito exótico e selvagem (isto tudo do ponto de vista europeu) como fazer uma cultura “Nacional” sem considerar a música praticada por essas pessoas, índios e africanos? Ignorar sua música?

Isto criou, logo que deixamos de ser, pelo menos oficialmente colônia da Europa, um paradoxo interessante no processo de formação de uma Música Nacional, representativa da excelência de uma cultura original, brasileira.

Teria sido necessário – ou melhor, teria sido natural – que a música dessas culturas tão diversas, se influenciassem umas às outras, o que nos tornaria, aí sim, originais. Mas não. Optou-se no campo dessa “Música de Excelência” pela exclusão, pelo desprezo desses elementos musicais considerados exóticos, no afã de continuarmos Europeus o que, é lógico, jamais voltaremos a ser.

Este paradoxo, por ser constrangedor é até hoje, um dos pontos de nossos programas de educação musical, mais solenemente ignorados.

 A verdade é que, este desprezo quase patológico pela cultura do “outro”, só nos restou no campo da invenção de uma “Música de Excelência Nacional”, dita Erudita, senão reproduzir, de modo subalterno a música da antiga metrópole. com algumas pitadas do que chamamos de música… folclórica, assimilada de modo apressado, tratada quase sempre como elementos de uma música simplória, infantil, o que a música dos africanos, vocês poderão ver mais adiante, absolutamente nunca foi.

O mais curioso é que alguns poucos compositores eruditos geniais, afirmaram pretender dar algum sabor “popular”, “africano” à música erudita no Brasil, como nessa peça de Luciano Gallet denominada “Batuque” coincidentemente na maravilhosa performance da própria orquestra que sedia esse nosso evento:

2012- Música erudita brasileira- “Batuque” de Luciano Gallet, com a orquestra da OSN- UFF

A inserção da música africana no Brasil

O acidentado e forçado processo de inserção da música africana no mundo colonial têm, portanto um grau de complexidade bem menos simplista do que imaginamos.

Pode-se ressaltar logo de saída, que esta ligação estreita dos africanos com a linguagem musical acima citada, não poderia jamais se resumir apenas, à percussão e aos “selvagens” batuques com tambores e ruídos idiofônicos primais que os preconceitos dominantes apregoam. Bastaria aos nossos musicólogos domarem a sua ignorância racista e estudarem com interesse e afinco essa música.
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É por isso surpreendente que ainda hoje se ignore nos meios musicais brasileiros mais acadêmicos, que havia grande quantidade de instrumentos musicais melódicos e harmônicos africanos, de todos os tipos, visíveis e audíveis nas ruas da Corte do Rio de Janeiro entre os séculos 18 e a parte inicial do 19, um campo vastíssimo de estudos, notadamente no que diz respeito ao que poderíamos chamar de “organologia histórica”, e também como um campo mais vasto ainda para o estudo de escalas emocionalmente complexas, timbres inusitados, valores musicais que melhor nos caracterizariam como povo.

1840 (circa) A dança dos Maiambáias” (Momçambicanos) Esboço á lápis de Regis-François Moreaux

O fato é que ocorreu na Corte do Rio de Janeiro, nos tempos mais intensos do tráfico negreiro (entre os séculos 18 e 19), a presença de uma organologia africana muito rica e diversificada, constando de instrumentos de corda, sopro, de todos os tipos, inclusive xilofones (“Marimbas”), Sanzas (Kisangi), Harpas, Alaúdes,  “Violinos”(“Cacoche”), entre outros, (com a presença pouco relevante ou mesmo inexistente de tambores, no caso da Corte do Rio, o que é curioso) existindo como estamos vendo aqui, razoável iconografia sobre o tema.

O fenômeno curioso e, muito emblemático, praticamente desmonta estas teorias musicológicas maniqueístas espalhadas por aí, que afirmam, haver aquela certa pobreza melódico-harmônica na música africana trazida para as Américas.

É mais surpreendente ainda que, estes instrumentos musicais trazidos para cá e há séculos, vistos em uma ou outra gravura colonial, ainda estejam vivíssimos na música africana de nossos dias, prontos a serem estudados e recuperados como exemplos da nossa originalidade instrumental e musical perdida.

O fenômeno da proliferação inicial de uma inusitada e exuberante África sinfônica em plena Corte escravista, pode estar ligado, diretamente a alta rotatividade de escravos na Corte do Rio, ponto de concentração e baldeação – às vezes caótica – de escravos para as províncias vizinhas, situação que enseja a fixação de alguns desses escravos aqui mesmo, na Corte, utilizados em serviços típicos das grandes cidades da época, tarefas que permitiam algum lazer ou fruição artística para a prática de artesanatos e manufaturas, por parte de alguns artesãos ou músico-artesãos especialistas.

1845-Sanza- Gravura de Thomas Ewbank

“…Hoje de manhã passou por aqui um escravo com um fardo na cabeça e as duas mãos metidas dentro de uma grande cabaça, na qual fazia soar a melodia de uma valsa que está na moda. Aproveitei a oportunidade para examinar a popular ‘marimba’.

“Cada nação africana tem seu tipo de marimba, podendo se reconhecer se é do Congo, de Angola, dos Minas, dos Achantis ou Maçambiques, embora não sejam grandes as diferenças…

…Raspando as varetas com os dedos por baixo, e acionando as claves com polegares, o instrumentista, ao flexionar as varinhas numa de suas extremidades e depois soltá-las, produz um som suave, semelhante à harpa judaica. A cidade é como um teatro abissínio e a marimba é o instrumento preferido da orquestra.”(Ewbank, Thomas “A Vida no Brasil. Diário de uma viagem ao país do Cacau e das Palmeiras”- Editora Conquista- Rio de Janeiro- 1978)

Em conversa com o etnomusicólogo colombiano Carlos Miñana Blasco, confirmamos a incidência de marimbas na Colômbia. Instrumento africano muito conhecido de todos nós, as marimbas são até hoje de uso corrente na Colômbia, onde, segundo Blasco, são promovidos, regularmente concursos e desafios de habilidades entre inúmeros músicos especialistas, por todo país.

Com know how trazido para cá da África do mesmo modo como chegaram à Colômbia, as marimbas e toda uma gama de instrumentos tradicionais africanos, na verdade foram, muito populares, praticamente em todo o sudeste do Brasil, até mesmo em Minas Gerais, onde aparecem no século 19 como instrumentos essenciais de ternos de congadas, segundo alguns registros, entre os quais um, memorável, do fotógrafo Augusto Riedel, em 1868, quando a serviço do Imperador D.Pedro II.

1868. Marimba em Congada de Morro Velho, Minas Gerais. Foto de Augusto Ridel.

A Deculturação

O etnomusicólogo colombiano, contudo, logo se mostrou surpreso – e desolado – quando lhe informamos, que as marimbas haviam desaparecido, misteriosa e completamente da Corte e do resto do Brasil no fim do século 19. E não só elas, mas toda aquela gama de instrumentos tradicionais africanos, de todos os tipos e “famílias”, num corte brusco, radical, uma tão súbita extinção de tecnologias culturais, talvez jamais vista no mundo colonial.

Ou seja, a deculturação ou o processo de desaparecimento gradual de quase todas as técnicas de fabricação de tudo que era conhecimento tecnológico das culturas africanas originais – notadamente dos instrumentos de música – ocorreu de forma deliberada e brusca, fato que se deu por razões as mais dramáticas no Brasil, já que as principais razões, estão ligadas ao desprezo e ao preconceito ignorante de nossa elite
 branca, em seu anseio de parecer “europeia”, ou seja: ao seu racismo enfim.

Por sorte, teimosia ou destino, o povo, os descendentes de africanos, de índios, a ralé, enfim, pelo menos no campo de nossa música popular, se adaptaram, rapidamente aos instrumentos ditos europeus e continuaram a encher a música urbana de do Brasil e do mundo com a singularidade e a criatividade dos sons com sabores da nossa exuberante Diáspora brasileira.

Quando a nossa Música Erudita fará o mesmo?

Orquestra de música “Adungu” de Uganda gravada em 2012

  1. Spirito Santo
    Abril 2019

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