Sobre a congada de Ilha Bela/ São Paulo


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Congada da Ilha Bela

Formas de Olhar / 6 episódios

Resenha

Excelente série de documentários sobre a festa de São Benedito em Ilha Bela, litoral norte de São Paulo, suas origens e (talvez involuntárias) referências sobre a deculturação da organologia local, notadamente a perda total do know-how da fabricação da famosa “Marimba de Ilha Bela”, um xilofone tradicional levado para a ilha, presumo por escravos moçambicanos (embora a origem angolana não possa ser descartada.)

A “Marimba de Ilha Bela” é hoje um objeto meramente copiado na forma, decorativo em certa medida, sem nenhum traço das propriedades físico acústicas originais, tais como afinação e ressonância, fatores organológicos complexos, cujo expertise se perdeu por razões as mais diversas, carentes de mais estudo ao qual tenho me dedicado bastante, ultimamente.

Embora pareça paradoxal, contudo, o som da tosca marimba de meras ripas de pau percutidas, já está incorporado à tessitura musical da festa.

É significativa também a progressiva redução da participação pública negros no âmbito geral da festa, cuja manutenção, estimulada por seu grande potencial turístico é hoje realizada com um número menos significativo de negros ou descendentes e um número maior de caiçaras e brancos, populares comuns.

Esses novos participantes, muito dedicados e fervorosos à festa, principalmente por sua grande devoção religiosa, possuem, contudo, pouco ou nenhum vínculo ancestral com os elementos de transmissão oral que, antes eram preservados, firmemente pela coesão comunitária dos negros remanescentes, em sua orgulhosa etnogênese de africanos sequestrados para a Ilha há mais de 200 anos.

Curioso o depoimento num dos episódios, de um velho preto, outrora ativo participante da festa como músico, hoje um crítico amargo, discreto, porém incisivo do processo de deculturação sofrido pela congada, principalmente em seu aspecto musical, segundo ele, descaracterizado profundamente.

As razões da aparente e progressiva redução de negros e da deculturação relativa da festa (um fator resultado de múltiplas razões) aparentemente são a exacerbação da espetacularização turística (veementemente rejeitada pela geração de congadeiros mais antigos) e a intromissão de agentes estranhos à congada, fatores que, nesse aspecto estritamente cultural aparecem identificados em entrevistas na série.

Aparece, bem claramente também nesta interferência – quase ingerência, diria – na estrutura do auto teatral que caracteriza a congada, a atuação de uma folclorista e escritora, titular por um tempo da secretaria de cultura local, que de certo modo impôs mudanças cruciais nesta estrutura e na gestão da manifestação, apoiada por uma dissidência existente entre congadeiros.

Estas mudanças, na prática diluíram ou mesmo quase extirparam, os aspectos mais africanos da congada, típicos de sua origem de cultura de escravos levados para a ilha há cerca de 200 anos atrás.

Este processo velado de ingerência, com seu traço aparente de conspiração, produziu um racha entre os congadeiros, com o afastamento de muitos da cúpula familiar original, que geria a manifestação, rompidos assim os laços de etnogênese acima citados.

Enfim são muitos os aspectos e contradições instigantes para uma análise da conturbada e resiliente inserção da cultura africana na Diáspora no Brasil nesse caso de Ilha Bela, tão paradigmático.

Bem interessante e denso o traballho, uma série de 6 episódios, numa produção da TV USP.)

  1. (Siga a série à partir deste link: https://youtu.be/

“Batizado de quilombolas de Palmares


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Algumas controvérsias na legenda dessa imagem abaixo.

O chamado “acordo de Cucaú”, incidente decisivo na  história do Quilombo de Palmares, numa análise pente fino dos relatos na verdade, pelo menos para mim, foi um acordo de rendição.

Com toda a família de Ganga Zumba capturada e presa, os convertidos e batizados na imagem, segundo afirmam o cruzamento dos relatos, são entre outros, os filhos de Ganga Zona, cunhado de Ganga Zumba tornado aliado dos portugueses e traidor do Quilombo.

Nunca teria havido uma rendição voluntária de Palmares ao tempo de Ganga Zumba. Alguém da cúpula denunciou aos portugueses o local onde TODA a família de Ganga Zumba foi capturada, inclusive todas as mulheres e crianças.

Dois desses filhos de Zona, aliás cuja mãe, dizem, era holandesa, chegaram a ser batizados um deles com o nome exato do governador de Pernambuco Ayres de Souza e Castro. O próprio Ganga Zona, segundo Décio Freitas, célebre especialista no tema Palmares, teria mudado seu nome para Pedro Aires de Souza e Castro.

Detalhe: Ganga Zumba, um líder já idoso nessa época, parece não constar como presente a esses eventos em nenhum desses relatos. Como o último registro documental de sua presença na região dos conflitos é uma carta do governador Aires de Souza Castro à Coroa, dando-o como morto (no que é desmentido por Décio Freitas, sem contudo apresentar evidências) alguém da cúpula palmaria articulou os termos da rendição de parte dos quilombolas, travestida de “acordo”.

As evidências de que este traídos-articulador era Ganga Zona são candentes, incrivelmente constam em todos os títulos da bibliografia sobre o tema, mas são sempre subestimadas ou mesmo omitidas nas conclusões da maioria dos historiadores.

Versåo difícil de engolir. Fere de morte a história oficial. Desagrada negros e brancos. Por ela a chamada “República” de Palmares teria sido traída por um membro da cúpula quilombola que se bandeou para o lado dos colonizadores.

Pensemos melhor no cruzamento dos detahes, constantes nos próprios documentos oficiais.

Expliquem, por exemplo o fato de, no mínimo um dos filhos de Ganga Zona, logo em seguida aos eventos da suposta rendição ter sido apadrinhado pelo governador “português”* e, após ser batizado (seria um dos  personagens da gravura) receber o nome deste (segundo Décio Freitas, o pai, Ganga Zona também) num ato de sujeição evidente.

Expliquem Ganga Zona ter sido o emissário autorizado pelo governador Aires de Souza para ir ao encontro de Zumbi (o novo, livre na mata) afim de propor sua rendição.

Expliquem como toda a família de Ganga Zumba foi surpreendida em seu mais secreto esconderijo.

Expliquem como Ganga Zona não consta entre os presos que chegam à Recife como

Expliquem a ausência de Ganga Zumba nos incidentes da prisão da família e nemnmesmo nas solenidades do suposto acordo.

Expliquem a vida confortável de Ganga Zona como eminência da aristocracia de Recife depois do suposto acordo de Cucaú.

Pois bem, todos esses dados estão descritos em relatórios portugueses e holandeses. Quando os cruzamos, esse é o quadro que se forma.

O envenenamento de Ganga Zumba é um evento controverso. O fato de haver um grupo divergente, contudo, corrobora a tese da traição. Contudo, o desaparecimento total de Ganga Zumba durante todos os eventos do suposto “acordo” de Cucaú, no qual ele só é citado como tendo sido morto envenenado, abre a suspeita de que sua morte pode ter se dado antes desses incidentes, no ato da tomada do kilombo do Amaro pela milícia enviada pelo governador.

Quando Ganga Zona é alçado pelo governador português como comandante do “acampamento” de Cucaú (uma reserva, claro!)a traição passa a ser óbvia.

(Utilizo o termo “reserva” como foi usado pelo estado norte americano para definir  os Campos de concentração de indígenas comanvhes e cheyenes no século 19

Expliquem porque um dos filhos de Ganga Zona, logo em seguida aos eventos da suposta rendição, segundo citado acima, apadrinhado pelo governador português e recebendo o nome deste, num ato de sujeição evidente.

Expliquem Ganga Zona ter sido o emissário autorizado pelo governador Aires de Souza para ir ao encontro de Zumbi (o novo, livre na mata) afim de propor sua rendição.

Expliquem como, se toda a família de Ganga Zumba foi surpreendida em seu mais secreto esconderijo, como Ganga Zona não consta entre os presos.

Expliquem a ausência jamaus citada dedm Ganga Zumba, o velho, nos incidentes da prisão da família e das solenidades do suposto acordo.

Expliquem a vida de Ganga Zona como eminência da aristocracia de Recife depois do suposto acordo de Cucaú.

E mais: Na descrição da chegada dos palmarinos aprisionados ou rendidos, há um jovem ferido na perna, único montado á cavalo. Atentem que Zumbi (o jovem) é descrito como ferido na perna num doc. que descreve o combate antes de Cucaú.

Este jovem manco, tudo indica, escapado da reserva de Cucaú, comandada (reparem bem) por Ganga Zona, seria oo Zumbi clássico.

Se não acredita nessa possibilidade, se acha esta versão inverosímil, pesquise  mais um pouco. Liberte-se do lugar comum.

Spirito Santo/ 2018/2019

(Cortesia na sugestão da imagem: Daniel Jorge Marques Filho)

Legenda questionada da imagem que ilustra esta matéria in:

“Ganga Zumba, Rei dos Negros de Palmares e seus filhos recebendo a bênção do Bispo de Olinda para o tratado de paz oferecido pelo Governador Pedro de Almeida em 1678.” Gravura do Livro “História da Guerra do Reino do Brasil” escrita pelo carmelita português João José de Santa Teresa, publicada em Roma, em 1698.

* Segundo um artigo acadêmico sobre a participação de indígenas assimilados, alçados à nobreza por serviços prestados à Coroa portuguesa no século 17, aparece em destaque uma certa família Souza e Castro, a qual pertence o governador Aires de Souza e Castro que, por esta hipótese não seria português.