“Batizado de quilombolas de Palmares

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Algumas controvérsias na legenda dessa imagem abaixo.

O chamado “acordo de Cucaú”, incidente decisivo na  história do Quilombo de Palmares, numa análise pente fino dos relatos na verdade, pelo menos para mim, foi um acordo de rendição.

Com toda a família de Ganga Zumba capturada e presa, os convertidos e batizados na imagem, segundo afirmam o cruzamento dos relatos, são entre outros, os filhos de Ganga Zona, cunhado de Ganga Zumba tornado aliado dos portugueses e traidor do Quilombo.

Nunca teria havido uma rendição voluntária de Palmares ao tempo de Ganga Zumba. Alguém da cúpula denunciou aos portugueses o local onde TODA a família de Ganga Zumba foi capturada, inclusive todas as mulheres e crianças.

Dois desses filhos de Zona, aliás cuja mãe, dizem, era holandesa, chegaram a ser batizados um deles com o nome exato do governador de Pernambuco Ayres de Souza e Castro. O próprio Ganga Zona, segundo Décio Freitas, célebre especialista no tema Palmares, teria mudado seu nome para Pedro Aires de Souza e Castro.

Detalhe: Ganga Zumba, um líder já idoso nessa época, parece não constar como presente a esses eventos em nenhum desses relatos. Como o último registro documental de sua presença na região dos conflitos é uma carta do governador Aires de Souza Castro à Coroa, dando-o como morto (no que é desmentido por Décio Freitas, sem contudo apresentar evidências) alguém da cúpula palmaria articulou os termos da rendição de parte dos quilombolas, travestida de “acordo”.

As evidências de que este traídos-articulador era Ganga Zona são candentes, incrivelmente constam em todos os títulos da bibliografia sobre o tema, mas são sempre subestimadas ou mesmo omitidas nas conclusões da maioria dos historiadores.

Versåo difícil de engolir. Fere de morte a história oficial. Desagrada negros e brancos. Por ela a chamada “República” de Palmares teria sido traída por um membro da cúpula quilombola que se bandeou para o lado dos colonizadores.

Pensemos melhor no cruzamento dos detahes, constantes nos próprios documentos oficiais.

Expliquem, por exemplo o fato de, no mínimo um dos filhos de Ganga Zona, logo em seguida aos eventos da suposta rendição ter sido apadrinhado pelo governador “português”* e, após ser batizado (seria um dos  personagens da gravura) receber o nome deste (segundo Décio Freitas, o pai, Ganga Zona também) num ato de sujeição evidente.

Expliquem Ganga Zona ter sido o emissário autorizado pelo governador Aires de Souza para ir ao encontro de Zumbi (o novo, livre na mata) afim de propor sua rendição.

Expliquem como toda a família de Ganga Zumba foi surpreendida em seu mais secreto esconderijo.

Expliquem como Ganga Zona não consta entre os presos que chegam à Recife como

Expliquem a ausência de Ganga Zumba nos incidentes da prisão da família e nemnmesmo nas solenidades do suposto acordo.

Expliquem a vida confortável de Ganga Zona como eminência da aristocracia de Recife depois do suposto acordo de Cucaú.

Pois bem, todos esses dados estão descritos em relatórios portugueses e holandeses. Quando os cruzamos, esse é o quadro que se forma.

O envenenamento de Ganga Zumba é um evento controverso. O fato de haver um grupo divergente, contudo, corrobora a tese da traição. Contudo, o desaparecimento total de Ganga Zumba durante todos os eventos do suposto “acordo” de Cucaú, no qual ele só é citado como tendo sido morto envenenado, abre a suspeita de que sua morte pode ter se dado antes desses incidentes, no ato da tomada do kilombo do Amaro pela milícia enviada pelo governador.

Quando Ganga Zona é alçado pelo governador português como comandante do “acampamento” de Cucaú (uma reserva, claro!)a traição passa a ser óbvia.

(Utilizo o termo “reserva” como foi usado pelo estado norte americano para definir  os Campos de concentração de indígenas comanvhes e cheyenes no século 19

Expliquem porque um dos filhos de Ganga Zona, logo em seguida aos eventos da suposta rendição, segundo citado acima, apadrinhado pelo governador português e recebendo o nome deste, num ato de sujeição evidente.

Expliquem Ganga Zona ter sido o emissário autorizado pelo governador Aires de Souza para ir ao encontro de Zumbi (o novo, livre na mata) afim de propor sua rendição.

Expliquem como, se toda a família de Ganga Zumba foi surpreendida em seu mais secreto esconderijo, como Ganga Zona não consta entre os presos.

Expliquem a ausência jamaus citada dedm Ganga Zumba, o velho, nos incidentes da prisão da família e das solenidades do suposto acordo.

Expliquem a vida de Ganga Zona como eminência da aristocracia de Recife depois do suposto acordo de Cucaú.

E mais: Na descrição da chegada dos palmarinos aprisionados ou rendidos, há um jovem ferido na perna, único montado á cavalo. Atentem que Zumbi (o jovem) é descrito como ferido na perna num doc. que descreve o combate antes de Cucaú.

Este jovem manco, tudo indica, escapado da reserva de Cucaú, comandada (reparem bem) por Ganga Zona, seria oo Zumbi clássico.

Se não acredita nessa possibilidade, se acha esta versão inverosímil, pesquise  mais um pouco. Liberte-se do lugar comum.

Spirito Santo/ 2018/2019

(Cortesia na sugestão da imagem: Daniel Jorge Marques Filho)

Legenda questionada da imagem que ilustra esta matéria in:

“Ganga Zumba, Rei dos Negros de Palmares e seus filhos recebendo a bênção do Bispo de Olinda para o tratado de paz oferecido pelo Governador Pedro de Almeida em 1678.” Gravura do Livro “História da Guerra do Reino do Brasil” escrita pelo carmelita português João José de Santa Teresa, publicada em Roma, em 1698.

* Segundo um artigo acadêmico sobre a participação de indígenas assimilados, alçados à nobreza por serviços prestados à Coroa portuguesa no século 17, aparece em destaque uma certa família Souza e Castro, a qual pertence o governador Aires de Souza e Castro que, por esta hipótese não seria português.

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