Sempre Viva – Em nome do Pai

Notas de pesquisa para argumento cinematográfico

A ideia básica é a realização de uma pesquisa que, preenchendo lacunas da biografia de meu próprio pai, subsidie o roteiro de um filme denominado ‘Sempre Viva – O mistério do nome” versando, entre outras coisas, sobre o conceito genealogia perdida, drama coletivo ao qual foi submetida a maioria dos descendentes de escravos no Brasil.

A história estará centralizada nas peculiares origens deste homem que se chamava José Cyrilo do Espírito Santo, cuja misteriosa vida pregressa, dispersa em fragmentos na memória de seus familiares, se tentará desvendar e organizar, com os hiatos e pontos impossíveis de serem resgatados, substituídos por inserções de dados ficcionais, sugeridos como probabilidades na pesquisa.

Cabe-nos enfatizar, portanto – como deve ficar suficientemente claro no corpo desta narrativa – que todos os nomes e fatos citados neste estudo, estão inseridos no contexto de um projeto de finalidades meramente artísticas. A maioria dos dados abordados, a despeito de sua eventual plausibilidade, não contém – nem pretendem conter- embasamento documental que possa servir para quaisquer outras finalidades que não a eventual realização de uma obra de ficção, que se estruturará a partir do seguinte story line:

Jovem descendente de escravos, homônimo de jovem branco, de rica e influente família do interior, foge para a cidade grande, vai á guerra na Europa e, de volta ao seu país, constitui família, mantendo sempre obscuros, fatos cruciais de seu passado, confundindo-os, por alguma estranha razão, com episódios vividos na verdade por seu homônimo. Após sua morte, um dos filhos decide averiguar a história, descobrindo antigas relações de parentesco e herança entre seu pai e a família branca.

Vida pregressa do pai
Fragmentos de dados reais que deflagram a narrativa:

José Cyrilo do Espírito Santo, nascido em 1918 em Diamantina, Minas Gerais, fugiu com 16 anos do interior para a cidade do Rio de Janeiro, por motivos que nunca revelou, nem para a esposa. N

fuga alega ter participado de escaramuças ligadas á revolução de 1932, até parar no Rio de Janeiro, onde ingressa no exército em 1934, ficando ali engajado até 1939, quando aos 22 anos, por razões também desconhecidas, decide desertar.

Reincluído no exército em 1942 é condenado em 1943 a 10 meses e 15 dias de prisão pela deserção de 1939. Em novembro de 1944, praticamente, com um curto tempo de liberdade, saindo da cadeia direto para o convés de um navio, embarca para a guerra na Itália onde fica até julho de 1945. Casado em 1946, tem um filho em 1947 e, quase imediatamente mais dois outros, mas morre em 1951, com pouco mais de 30 anos, provavelmente por conta dos tormentos que sofreu na guerra, na qual foi um dos combatentes na sangrenta batalha pela tomada do Monte Castelo.

Muito reservado com relação aos fatos de seu passado em Diamantina, principalmente os que motivaram a sua fuga de casa ainda tão novo, ele deixou poucas informações sobre sua atribulada vida. Curiosamente, restaram embaralhados em sua fragmentada história, fatos que, depois de verificados em pesquisa no local, se mostraram estranhamente inverossímeis porque haviam sido vividos, na verdade, por um homônimo seu chamado José Cyrilo dos Santos Neto (‘Júnior’), herdeiro de uma rica e influente família – os ‘Cyrillo Dos Santos’-, tradicionalíssima em Diamantina, cujos varões, pelo menos desde o século 19, eram batizados com o nome de José Cyrilo, mais ou menos como uma marca dinástica, de clã.

Com efeito dados obtidos numa pesquisa posterior (2009), confirmando o levantamento preliminar (1981), dão conta que a família Cyrilo dos Santos é ainda hoje muito importante em Diamantina tendo se dedicado, pelo menos até alguns anos atrás, à exportação de flores ornamentais conhecidas como ‘Sempre-vivas’ (Paepalanthus Polyanthus) além de ser segundo dizem, proprietária da maior imobiliária da região e de possuirem uma concorrida loja de artesanato no centro histórico da cidade, a ‘Boutique Cyrilo’.

Que misteriosa razão teria induzido Antônio, pai de José Cyrilo, o negro, a atribuir a seu primogênito, um nome tão diretamente associado à esta importante família? Algum tipode homenagem a um padrinho?

Teria sido autorizada uma homenagem assim tão íntima e particular, como a atribuição deste nome, a alguém não pertencente ao clã? Que relação poderia ter havido entre o pai de José Cyrilo negro, e a família de José Cyrillo dos Santos, o patriarca branco, rico proprietário de escravos no século 19?

Na história de José Cyrilo, o negro, contada por ele mesmo, há muitos episódios ocorridos dentro do seminário da Mitra Diocesana de Diamantina de onde ele afirmou ter sido aluno. Na verdade, se conseguiu averiguar em 1981 com um padre do local que o seminário não aceitava alunos negros naquela época (por volta da década de 20 do século passado). Com efeito, o nome de José Cyrilo do Espírito Santo não consta no livro de registros do seminário onde consta sim o de José Cyrillo dos Santos Neto (’júnior’), seu homônimo branco.

Contudo, são verossímeis vários episódios da história contada por José Cyrilo, o negro, sobre a rotina e o interior do seminário. Dois deste detalhes são até muito significativos.

Um, por exemplo, conta um incidente num quarto escuro, onde ele teria ficado de castigo, junto do esqueleto da aula de anatomia, que foi desmontado e remontado, segundo dizia orgulhoso, para passar o tempo. Há também o episódio da lavadeira que prestava serviço para os seminaristas, o acolhendo e protegendo, a ponto de ter emprestado as roupas ‘civis’ com que ele, se livrando da batina, fugiu da cidade. É de se supor, portanto, que José Cyrillo, o negro, realmente conhecia o seminário podendo mesmo, de algum modo, ter ali residido.

Considerando remota a possibilidade de um menino de 16 anos além disto, negro, residir sozinho num ambiente de costumes tão severos como os de um seminário, a hipótese mais plausível é a de que ele morava com alguém que trabalhava, ou tinha amplo acesso ás dependências do seminário. A

hipótese mais evidente neste caso é a de que a pessoa com quem morava, era mesmo a tal lavadeira. Não é menos improvável inclusive que esta lavadeira tivesse sido a sua própria mãe ou, no caso dele ter ficado órfão, alguém com fortes laços de parentesco, uma tia ou mesmo uma avó.

A possibilidade de conviverem no seminário dois meninos tão diferentes entre si, com o nome de José Cyrilo, deve ter dado com certeza muito que falar na época. Teriam se imaginado parentes? Teriam sido amigos? O que teriam pensado sobre o fato algo insólito de terem exatamente o mesmo nome. O

que é certo é que, todos os segredos contidos na história de Cyrillo, o negro, parecem nos remeter à questões de parentesco. É provável até que a razão de sua fuga esteja relacionada a isto.

Sobre sua mãe Maria Josephina (ou uma pessoa que o criara ou com quem vivera durante certo tempo) em descrição atribuída a ele por sua esposa, José Cyrilo, o negro, dizia que ela era ‘uma africana, que não falava português e comia com as mãos, agachada no chão, caçada a laço á beira de um rio, por um tropeiro branco’ .

Esta estranha descrição, muito improvável se protagonizada por seus pais, nascidos no fim do século 19, já após a abolição da escravatura, nos sugere fortemente, contudo que, alguém da família, muito provavelmente sua avó, teria sido mesmo uma africana capturada e levada para Minas Gerais. A relação carnal entre a africana com o tropeiro seu captor – ou comprador- fica também, fortemente sugerida como óbvia nas entrelinhas do relato.

Por este raciocínio, Antônio, o pai de José Cyrillo, o negro, teria sido um filho bastardo de José Cyrilo dos Santos (que teria sido tropeiro e foi, comprovadamente, dono de escravos em 1878), com a escrava africana a qual, a julgar pelo indícios do mesmo relato, José Cyrillo, o negro, conheceu bem, chegando com ela a conviver, quem sabe até mesmo como uma ‘segunda mãe’.

Entre os mesmos fragmentos de memória deixados por ele, há a descrição de dois tios, irmãos de seu pai, que teriam tido carreiras bem sucedidas no Rio de Janeiro, ele, Nilton do Espírito Santo, como delegado de polícia e ela, Marieta do Espírito Santo, como pianista clássica.

Segundo afirmou a sua esposa Geny, José Cyrillo, o negro, não mantinha boas relações com os tios oriundos de Diamantina, havendo visitado apenas Marieta, no bairro do Flamengo, uma ou duas vezes. De todo modo, a boa situação social desses tios era bastante incompatível com o que ele deixou sugerido sobre a vida modesta de seus pais.

A impressão que fica é a de que, seriam ao menos três (na verdafde foram cinco) os filhos bastardos do senhor branco com a escrava, sendo que, pelo menos dois receberam algum tipo de apoio paterno, tendo sido por algum forte motivo o terceiro (supostamente o pai de Cyrilo, o negro), largado á própria sorte. Depois de deserdado do nome, deserdado de tudo.

São muito elucidativos também alguns aspectos relacionados ao perfil étnico ou ‘racial’ da família de José Cyrilo, o negro. Segundo seu relato, os tios tinham o tipo ‘acaboclado’, morenos não muito escuros, com cabelos quase lisos, perfil que, pode ser estendido a Antônio, seu pai. Ocorre que José Cyrillo, o negro, nasceu preto quase retinto, aspecto que sugere um perfil semelhante para sua mãe, Maria Josephina, a quem ele teria ‘puxado’.

Este fator, embora reforce a tese da africana capturada (que poderia ter sido a avó, mãe de Antônio) e a tese do filho bastardo, insere na história a possibilidade algo remota de sua própria mãe ter sido também uma ‘quase’ africana (neste caso uma filha de escravos).

Dois outros mistérios podem acentuar ainda mais a tendência de José Cyrillo, o negro, para se envolver, voluntariamente ou não, em mistérios ligados a nome e identidade. Um é o fato de sua coleção das revistas “Seleções do Reader’s Digest’ (variedades e anti-comunismo) e ‘O Pensamento’ (ocultismo e esoterismo), ambas muito populares no pós guerra (1945) serem assinadas por um tal de Carlos Christóbal Rocha, codinome que ele utilizava na época associado talvez a algum tipo de atividade secreta, sugerida também, quem sabe, pela longa vara de bambu com uma antena de rádio amador (’de Galena’ ) que ele mantinha pendente no teto de sua casa no bairro de Mal Hermes, Rio de Janeiro.

Outro mistério familiar é o aparecimento de uma certidão dando conta do nascimento em 1951, meses antes de sua morte, de mais uma filha, Célia Regina, cuja real existência jamais foi realmente confirmada pela família (nem mesmo por Geny, a suposta mãe da menina).

Cheia de mistérios como se viu, a história precisará preencher os seguintes hiatos:

– Quem seriam os avós paternos e maternos de José Cyrilo, o negro?

– Na região de Diamantina, em que bairro ou nas terras de quem viviam seus pais Antônio e Maria Josephina?

– Quando, como e como viveram e morreram os pais dele?

– Como, porque e com quem ele viveu no seminário?

– Quem era a lavadeira do Seminário?

– Porque ele fugiu aos 14 anos de Diamantina?

– Como e com a ajuda de quem chegou ao Rio de Janeiro?

– Porque desertou em 1939?

– Onde e como sobreviveu entre 1939 e 1942, procurado como desertor pela Polícia do Exército?

– Sua filha Célia Regina existiu mesmo? Senão, porque foi forjada uma certidão com seu nome?

Questões conceituais principais, a serem desenvolvidos na pesquisa:
A expropriação do nome

No passado remanescente de José Cyrillo, o negro, o nome da avó africana, tornada escrava no Brasil, foi arbitrariamente substituído por um nome português e por um sobrenome católico (ambos talvez impossíveis de serem descobertos pela pesquisa). Toda a memória contida no nome africano, original dela, que poderia servir de referência para a afirmação da identidade pessoal de todos os seus descendentes (onde nasceu, a que cultura estava afeita, que papel poderia ter desempenhado em seu grupo ou sociedade), ficou reduzida a fragmentos desconexos de memória, repassados por José Cyrilo, o negro, para sua esposa Geny, assim mesmo, de forma muito cifrada e confusa.

A expropriação do sobrenome

Ao que tudo indica a imposição ou a subtração de um nome – palavra que serve para identificar uma pessoa no âmbito restrito de seu grupo familiar ou clã – é menos traumática que a imposição (ou a subtração) de um sobrenome – palavra usada para identificar o grupo familiar num contexto mais amplo, social, tribal, cultural ao qual o indivíduo esteja ligado, podendo ser por este intermédio, reconhecido.

O sobrenome permite também que se trace uma linha clara entre uma pessoa e seus antepassados, configurando-lhe individualidade. Ao se suprimir o sobrenome de uma pessoa, se está na verdade lhe negando um passado, uma genealogia, uma história enfim (como é o caso evidente dos descendentes de José Cyrillo do Espírito Santo, objeto desta pesquisa).

Já se sabe que o sentido geral do batismo português durante a escravidão, era baseado na crença de que os negros africanos não tinham alma, individualidade, precisando, pois receber nomes ‘de gente’ para serem, supostamente ‘transformados em indivíduos’, pessoas de verdade. Na maior parte do tempo em que durou a escravidão, o mais comum era, logo após a imposição do nome português (geralmente um mesmo nome masculino e outro feminino para cada leva de escravos) se utilizar como sobrenome a origem geográfica de cada escravo, sua ‘nação’ (Maria Angola, Manoel Moçambique, Felipe Mina, etc.).

Era na Corte ou nas capitais de província, principalmente nos anos próximos á abolição, que o sobrenome tal como o conhecemos passou a ser aplicado aos escravos com uma função mais específica, usado ora para associar o escravo a um núcleo familiar determinado ou, o que era mais comum, para identificá-lo como pertencente a esta ou aquela paróquia, no perímetro desta ou daquela fazenda, sob o mando deste ou daquele senhor, seu proprietário.

O sobrenome católico cumpria, pois muito mais que a finalidade de identificar o indivíduo no seu grupo, a função de facilitar políticas de controle e repressão de escravos.

A expropriação dos direitos relacionados ao sobrenome..

Ao que se supõe também Antônio do Espírito Santo, pai de José Cyrillo, que vem a se casar com Maria Josephina, tem seu sobrenome extraído desta prática portuguesa muito recorrente, até mesmo depois da escravidão, de se atribuir aos escravos e seus descendentes, um sobrenome que associava o indivíduo a um evento católico qualquer ou mesmo a um santo em especial, geralmente como se disse, no contexto das paróquias.
Assim, são muitos os, ‘Das Virgens’, ‘das Mercês’, ‘De Jesus’ ou mesmo os ‘Dos Santos’ ou “Do Bonfim’, ‘Das Dores’, etc., existentes no Brasil. No caso de Diamantina, terra de Antônio, o santo mais popular, padroeiro da cidade era – e, ao que parece, é até hoje- o Divino Espírito Santo.

A estigmatização do nome
Por esta lógica, também Antônio, pai de José Cyrillo, o negro pode ter tido seu nome de família expropriado. As razões poderiam ser duas:

1- Ele era descendente direto de escravos dedicados em batismo ao Divino Espírito Santo ou,
2- Era filho ou neto bastardo de um homem branco, muito provavelmente de uma importante família no local, cujo sobrenome não poderia ser atribuído a ele sem provocar problemas morais na época – ou mesmo judiciais ou financeiros, de herança – no futuro, havendo sido a sua ascendência oculta por um sobrenome vago, que o dedicava ao santo padroeiro do local.

Assim sendo, ao ter as eventuais referências familiares contidas no sobrenome africano do ramo materno subtraídas e, do mesmo modo (embora por outras razões) sonegadas todas as informações referentes à suposta ascendência paterna, José Cyrillo teve cortados os vínculos com suas origens nos ramos materno e paterno, passando a ser um não-indivíduo, pessoa condenada a ter pouco ou nenhum acesso a sua história familiar (a genealogia perdida), herança que, involuntariamente, é passada para seus descendentes.

A atribuição de seu sobrenome talvez com o fim de ocultar o segredo de sua suposta origem, acabou se transformando num estigma, marca imposta de modo à nunca cicatrizar.

A apropriação do nome

Na hipótese de ter sido mesmo um bastardo, cujo direito ao sobrenome do pai natural lhe foi negado, a única alternativa que restaria a Antônio para que seus descendentes não tivessem o passado expropriado pela segunda vez, foi então se apropriar ele mesmo, senão do sobrenome, pelo menos do nome (na verdade um nome dinástico) de seu suposto pai.
Caso tenha mesmo ocorrido, este gesto, por mais ingênuo ou despropositado que possa parecer, acabaria sendo a única pista que restou da obscura história de sua família, um único fio da embaraçada meada. Tivesse José Cyrillo, o negro, outro nome qualquer e a eventual existência de segredos em sua história familiar jamais teria sido suspeitada.

A rejeição do nome e a negação de si mesmo
Que outra explicação plausível se poderia obter para José Cyrillo, o negro, cujo nome próprio é igual ao do jovem branco, ter embaralhado a sua própria história – a que conta para sua mulher – inserindo nela fatos que foram na verdade eventos vividos por seu homônimo?

A atitude fortuita pode significar também (caso ele já não soubesse a razão do nome), o sentimento de rejeição por sua história familiar, sua condição pessoal, sua revolta diante de ser, junto com seu pai, um renegado. Este tipo de motivação pode ter-lhe incutido a vontade inconsciente de ser o outro, trocar de lugar com o outro, o homônimo (que a esta altura já estava morto). A fuga da terra natal e da família como expressão da rejeição contra tudo isto.

A investigação do nome

Em 1981, o filho mais velho de José Cyrillo, o negro (Antônio José), viaja até Diamantina em busca da confirmação da estranha história relatada pelo pai. Já num primeiro passeio pela cidade encontra várias pessoas com o sobrenome Do Espírito Santo. Um dos supostos parentes se emociona e chora, ao se imaginar diante de um elo perdido de sua também dispersa família.

Refeito do susto e conformado, reflete: “Deve ser culpa do Divino Espírito Santo, padroeiro do lugar, esta proliferação de pessoas com sobrenomes iguais ao seu, a maioria, descendentes de escravos”, garante.

Seria quase impossível, portanto localizar parentes ou antepassados de José Cyrillo, o negro – ou mesmo qualquer negro -, partindo apenas de seu sobrenome.
Uma descoberta mais surpreendente ainda acontece logo em seguida, no centro comercial da cidade, quando Antônio José, o filho, se depara com inscrição ‘Boutique Cyrillo’, entalhada numa placa de madeira de uma loja de artesanato. No interior da loja há um livro de contabilidade muito antigo, pitoresca curiosidade para atrair fregueses.

No livro, nas anotações de ‘Dever’ e ‘Haver’ constam detalhes pormenorizados sobre a compra e venda de escravos, mulas, ferramentas e mantimentos. Abaixo, no fim da página a assinatura do patriarca proprietário: José Cyrillo dos Santos, 1878.

No seminário da Mitra Diocesana de Diamantina, na mesma linha da anterior, uma descoberta também surpreendente: Inquirido sobre a possibilidade de ter existido ali um aluno chamado José Cyrillo do Espírito Santo, o padre, a princípio reticente diante da evidência de efetivamente haver no livro de registro de algum aluno com este nome, acaba assumindo enfaticamente que sim, houve um aluno com este nome no seminário, mas ele jamais poderia ter sido pai de inquiridor. Mostra o nome do aluno no livro, da turma dos nascidos em 1922: José Cyrillo dos Santos Neto (‘Júnior’) um homem branco que, já como ex seminarista, morreu num acidente nos céus de Diamantina, ao que dizem, pilotando seu próprio avião.

As razões eram definitivas: O sobrenome não coincidia, e o José Cyrillo em questão, o ex seminarista aviador, não era o meu pai e pertencia mesmo àquela família branca e influente do local.

“_A família hoje cultiva Sempre-vivas…” – completou o padre_”…que são vendidas para o exterior”.

Quatro José Cyrillos haviam sido localizados. Três brancos e de uma mesma família (na verdade, descubro agora em 2009, um dos três supostos brancos era na verdade… mulato). O outro, o desgarrado, era o negro, o soldado.

O fato é que foi possível a Antônio José, o filho mais velho de José Cyrillo (o negro) voltar ao local em 2009, incríveis 28 depois das pesquisas preliminares acima narradas. O relato desta segunda viagem além de confirmar boa parte das suposições acima aventadas, lança a história para rumos ainda mais eletrizantes.

Uma nova observação, agora mais meticulosa dos objetos que ornamentavam a loja de artesanato Boutique Cyrillo demonstra claramente que a família Cyrillo dos Santos teve efetivamente um ramo negro, originado evidentemente de uma relação interracial de um de seus membros, possivelmente José Cyrillo dos Santos Filho, primogênito do patriarca dono de escravos que assinava o livro de contabilidade que folhei na minha primeira visita á loja de artesanato.

Desta feita, se pode observar – e fotografar – o rosto de José Cyrillo dos Santos Júnior, o aviador morto que quem o padre da Mitra Diocesana me falara em 1981. A incrível descoberta deste retrato encerra de vez o enigma sobre este homônimo de meu pai, já que este José Cyrillo dito ‘Júnior’, aparece na foto incrivelmente vestido à caráter, de aviador confirmando, cabalmente toda a história contada pelo padre na Mitra Diocesana em 1981.

Mas não terminava aí a surpresa. Ao lado do retrato do aviador, Antônio José tinha também diante de si a imagem de um filho mulato do mesmo José Cyrillo (o velho). A insuspeitada figura daquele que poderia ser seu tio, contemporâneo que era de seu pai, aparece em vários retratos finamente emoldurados, como o bem sucedido herdeiro e proprietário de, pelo menos parte dos bens da família (a filha deste José Cyrillo dos Santos me falou, orgulhosamente sobre o quanto seu pai era querido por ela (sem desconfiar das suspeitas sobre a relação entre a família dela e José Cyrillo, o negro) acrescentando o curioso comentário:

_”Meu pai era moreninho assim igual a você!”

Assim a inusitada, porém não improvável história de meu pai ganhou, além de mais verossimilhança, um novo e mais completo contexto. Teria tido José Cyrillo, o negro algum ressentimento relacionado a seu suposto tio mulato? Este ressentimento seria semelhante ao que teve seu pai Antônio diante de seus demais irmãos bastardos, ao contrário dele, agregados à família do patriarca?

O fato inquestionável é que José Cyrillo dos Santos, o patriarca branco do seculo 19, tivera em seu casamento um filho primogênito a quem deu o nome de José Cyrillo dos Santos Filho. Este José Cyrillo dos Santos Filho seria o pai de ‘júnior’, o aviador morto, nascido de seu casamento ‘legítimo’.

Contudo, numa segunda relação ‘ilegítima’ com uma de suas escravas, José Cyrillo dos Santos Filho teria tido com ela mais alguns filhos, aos quais apesar de serem’ bastardos’ assumiu, agregando-os à família.

Entre estes ‘bastardos’ estaria José Cyrillo dos Santos, o mulato.
Meu avô, pai de meu pai José Cyrillo do Espírito Santo, teria sido, portanto, pela hipótese desenvolvida até aqui, irmão carnal de José Cyrillo dos Santos (o mulato) e meio irmão do José Cyrillo aviador. Por esta intrincada e impressionante história, reforçando mais ainda as minhas suspeitas iniciais a tal escrava, seguramente angolana e oriunda talvez do reino do Benguela (a julgar pelo perfil étnico predominante na região), efetivamente existiu e poderia ter sido, realmente minha bisavó.

Portanto, a mais angustiante das probabilidades é a mais impossível de ser constatada: A escrava africana que como existiu na história de José Cyrillo, o negro seria a mesma que está na história do José Cyrillo, o mulato?

Seriam todos os personagens citados nesta história descendentes da mesma africana do reino do Benguela?

O mistério da predestinação contida no nome
A implausível possibilidade do destino (ou do futuro) de um indivíduo estar contido, de alguma forma, em seu nome próprio é um caminho que pode ser também considerado na reconstituição da história de José Cyrillo, o negro (pelo menos no plano emocional, no âmbito da fantasia e da ficção). Afora os mistérios extraídos de fatos objetivos acima narrados, há com efeito na história deste homem, algumas curiosidades que poderiam muito bem ser atribuídas a desígnios do destino.

Resultados preliminares da pesquisa, por exemplo, associam a família Cyrillo dos Santos, como sendo originária de uma proeminente figura da igreja local, D. João Antônio Dos Santos, famoso abolicionista, titular do bispado de Diamantina, instituído pelo papa Pio IX em 1854. Pode haver, pois alguma ligação entre o nome Cyrillo e o catolicismo apostólico romano, o Vaticano, as coisas de Roma enfim.

O nome dos varões desta família (que se supõe, pelo ramos ‘Dos Santos’ estar ligada ao Bispo) talvez esteja relacionado á São Cyrillo, um santo muito popular na Itália. A hipótese do nome Cyrillo ser fruto do ingresso, por casamento, de algum emigrante italiano na árvore genealógica da família Dos Santos, também pode ser considerada.

O fato é que, desafortunadamente, é exatamente para a Itália que em 1944 José Cyrillo, o negro, vai, enfrentando lá, a guerra que acabou sendo o último grande evento de sua vida.
Em 1989, oito anos após ter conhecido detalhes da história de seu api em Diamantina, de novo por pura e afortunada obra do acaso, Antônio José, o filho mais velho de José Cyrillo, o negro, viaja como músico para esta mesma Itália.

Conferindo num mapa com um professor italiano, o trajeto onde se localizavam as cidades da turnê, todas numa região chamada Emília Romagna, Antônio se assusta com a coincidência apontada pelo italiano: Os shows se dariam nas mesmas cidades onde José Cyrillo e as tropas brasileiras transitaram e lutaram na segunda guerra mundial. Impossível para o filho não ficar intrigado com a coincidência extrema, enquanto olhava pela janela do trem os campos de abetos, os vinhedos e os morros que foram o campo de batalha definitivo do soldado que fora seu pai.

O mistério mais intrigante, no entanto, diz respeito ao fato de dois filhos de José Cyrilo (Antônio José e Luiz Antônio) , o negro,terem se envolvido, também ocasionalmente, em 1975, ainda sem saberem rigorosamente nada a respeito das origens do pai, com um trabalho de pesquisa musical ao qual deram o nome de Grupo Vissungo (transformado pelo filho mais velho, Antônio José, em projeto de vida).

A pesquisa, que resgatava cantos de trabalho africanos denominados Vissungos, ocorrentes, exclusivamente, no interior da região de Diamantina, Minas Gerais, trazidos para o Brasil por escravos angolanos de nação Benguela, estranhamente ligava os filhos de José Cyrillo, diretamente, ao seu mais remoto passado, como se tivessem sido atraídos por alguma inexplicável e irresistível razão.

Percalços de garimpo

Ainda em 1981, no cartório da cidade de Diamantina, Antônio José, descobre que os nomes de Antônio e Maria Josephina, seus avós, não constavam dos registros de nascimento daquela freguesia, Eles seriam, evidentemente, naturais de algum lugarejo da periferia. Os únicos registros possíveis neste caso eram as certidões de batismo (batistérios), que poderiam estar num canto empoeirado de alguma igrejinha de uma das muitas vilas remotas espalhadas pela Serra do Espinhaço e seus vales.

Informados de que se investigava uma história de família iniciada muitos e muitos anos atrás, alguns informantes se referiram a uma senhora muito idosa, centenária, chamada Maria do Espírito Santo, moradora numa dessas vilas, chamada Pinheiros, muito distante para ser visitado naquela ocasião. A informação dava conta inclusive de que vários destes lugarejos, haviam sido na verdade antigas lavras abandonadas ou velhos esconderijos de quilombolas, nos quais até hoje vive uma população de arredios descendentes. A pista sobre a origem dos pais de José Cyrillo, o negro, não estando no centro de Diamantina, deverão estar em algum ponto desta misteriosa periferia.

Entrando mais para o interior da região, montanha acima, Antônio José, chegou a São João da Chapada, vila importante no tempo da escravidão, porque abrigou Xica da Silva e o contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira, que ali mantinha um posto avançado da Contratação (voltando a São João da Chapada em 2009, Antônio não se esquece desta vez de fornecer dados sobre estes avós ao cartório local).

Nos bares de São João da Chapada em 1981 era ainda assunto corrente, junto com as lendas e manhas da Xica da Silva, as estrepolias e aventuras de famosos quilombolas, em luta com os soldados da Real Extração portuguesa. Entre estes, para a população local os mais famosos foram Dumba e Makemba. De Makemba se fala, com muita empolgação, dos assaltos que fazia contra a carga transportada em tropas de mulas, de onde ele surrupiava mantas de carne seca ou sacos de ouro, numa tática tão furtiva quanto curiosa, que se expressa numa máxima tornada popular na época: ‘A última mula é do Makemba’ (na verdade, na pesquisa de 2009 descubro que as histórias dos quilombolsa da região – e de Makemba em especial – estão ainda mais vivas hoje do que nunca).

(Estive lá e confirmei tudo no post lapa de Makemba)

Do outro falam da mística ‘Lapa do Dumba’ uma grande gruta que existiria ainda hoje, oculta na montanha, contendo inscrições e desenhos feitos por Dumba e seu grupo. Um ponto de vissungo, da região eterniza Dumba: ‘Muriquim piquenino/ Muriquim piquinino/Purugunta a donde vai /Purugunta adonde vai/ Pro quilombo do Dumbá/Pro quilombo do Dumbá.”

De São João da Chapada Antônio José desceu a pé os 30 quilômetros montanha abaixo que o levaram ao lugarejo denominado Quartel de Indaiá, evoluído em torno das ruínas de um dos antigos quartéis que a coroa portuguesa espalhou na área, na tentativa de controlar a agressividade dos quilombolas e garimpeiros da região.

Pouco antes de se divisar Quartel, se vê um grande conjunto de palmeiras de indaiá, que dão nome ao lugar. Quartel é um lugar ermo, isolado de tudo, composto apenas de umas poucas casas numa espécie de largo ou rua tomada pelo capim, com a pedregosa montanha ao lado. É provável que passem anos sem um estranho passar por lá. Igreja há, mas, um padre ali só comparece uma vez por ano. Ao fundo, oculto pelo matagal como uma espécie de templo proibido, as ruínas do velho quartel português.

Numa tensa e emocionada conversa com um velho informante local, foram registrados dois pontos de Vissungo, em Benguela, idioma mantido ainda vivo na memória de alguns poucos moradores que sabem ‘temperar a língua’. Foram registrados também um relato sobre antigas práticas folclóricas do local que talvez remontem o século 19 – e podem ter ligação direta com folguedos angolanos – além de uma longa descrição sobre técnicas de garimpo, atividade a qual os moradores de todos os lugarejos remotos da região, estão ainda hoje envolvidos, clandestinamente, quase como por vício. No caminho, é comum se ver ao longe, meio ocultas nas curvas de córregos, ao longo da estrada, as cabeças negras de famílias inteiras, garimpando em antigas lavras.

(A quem interessar possa, toda esta parte da história dos africanos escravos mineradores e quilombolas da região onde teria vivido a avó de José Cyrillo, o negro, está meticulosamente contada na surpreendente série ‘Na Lapa de Makemba’ escrita por este mesmo filho de José Cyrillo, recentemente, após o retorno à região em janeiro de 2009. A série está acessível aqui: http://portalliteral.com.br/artigos/na-lapa-de-makemba-03.

Mineração da Persona.

Como todos os indícios demonstram, portanto, algum parente próximo de José Cyrillo, o negro – sua avó talvez – veio da África, mais precisamente de Angola para Diamantina e, como todos os escravos das lavras da região, cantou Vissungos enquanto minerava ouro e diamante.

José Cyrillo, o negro, se direitos a alguma herança possuía, largou-os lá em Diamantina, como canga inútil, vidrilho ou pedra falsa. A grande herança que deixaria para os filhos e netos seria a vaga memória de sua forte personalidade, sua força de vontade, sua Pessoa enfim.

DNA, memória genética, síndrome da genealogia perdida, ou mera predisposição de um destino que, já estando traçado, indelevelmente, no nome próprio desta pessoa, acabou por eternizá-la.

Ao que parece, foi mesmo a linha do sangue – desprezado como bastardo- o veículo que, reconstituindo a linha do tempo, reuniu enfim – pelo menos no plano simbólico- os fragmentos da desgarrada família de José Cyrillo, o negro. Revelando um veio muito rico de lembranças, um veio puro e nítido, que a pesquisa – e o filme ao qual ela deve se referir- pretende cultivar e perpetuar… como uma ‘Sempre- viva’.

Spírito Santo
Rio, Janeiro 2006/ Maio 2009

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