Terça Gorda, Quarta Cinza


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O carnaval da branquitude está aí!

 

(Um post do carnaval de 2019. Nem uma vírgula a mudar para esse 2020. Posso até reposta-lo como premonição, antes do “Triduo Momesco”)

A conclusão mais anti carnavalesca que podia me ocorrer ontem, último dia de Carnaval, foi constrangedora.

(A música dos blocos na TV se misturava com as rajadas de fuzil lá fora. O espírito carnavalesco, se foi.)

A presença da cultura específica dos negros do Rio de Janeiro (dos negros pobres, é claro, portadores de vínculos culturais com seu passado africano) foi e é fundamental para a eclosão das festas e manifestações artístico musicais da cidade.

(Até os anos 1970, pelo menos, praticamente apenas negros produziam cultura popular, de rua, manifestações artísticas de caráter, verdadeiramente “nacional”, em bandas musicais e – como não – na volúpia dos carnavais)

Hoje, a música, as bandas, os blocos (cerca de 500 no Rio!) são maravilhosas, excepcionais. Geram Inclusive um mercado de trabalho para centenas, talvez milhares de pessoas. Um mercado promissor de milhões de reais. Uma adaptação formidável da cultura popular ao modelo capitalista de mundo que predominou. Alternativas de trabalho e entretenimento, contudo, acessíveis apenas para gente incluída no contexto (gente branca, por suposto)

Com efeito, a presença física dessas pessoas ditas pobres e negras, vai se tornando cada vez mais irrelevante. Ao que parece, não são mais necessárias para o exercício de manifestações culturais mais comuns, exceto em setores resilientes ou fundamentais das escolas de Samba como baterias, alas de baianas e alas de “comunidades”.

(“Comunidade”, vejam bem, é um eufemismo cínico para “favela”)

Essas pessoas desprezadas pelo sistema, quase não são, sequer vistas nas ruas da Zona sul, a não ser exercendo funções quase que de mendicância, recolhendo lixo reciclável, vendendo latas de cerveja, ou praticando ataques à propriedade pessoal dos brancos incluídos, cujo espaço urbano quase privado, esses “negros indesejáveis”, subrepticiamente invadem com seus arrastões, causando pavor urbano, como zumbis doidos, “lumpen proletariado” para os comunistas de botequim.

Criadoras dessa cultura que alimenta o Carnaval, pois sempre foram “o povo” real, alijadas do processo cultural atual por razões que a poucos interessa, além de outras tantas privações, têm mais essa provação: estão impedidas de exercer sua própria cultura…como os escravos inúteis, dispensáveis do pós abolição, preocupados mais com a fome e a sobrevivência física, do que com a arte. Despossuídos de tudo, enfim.


Chamei este fenômeno em 2004, num livro, de “Cultura negra sem negros”, mas confesso: preciso aprofundar o conceito. Na verdade, no Rio, parece mais correto dizer “Cultura popular brasileira sem negros”. É um fenômeno mais abrangente, do qual os negros são os protagonistas principais, deslocados de seu histórico papel.

O conceito pode indicar que, ao expressar sua total indiferença assim tão acintosamente, criando workshops para aprender a cultura antes alheia, as pessoas incluídas (no Brasil, em sua esmagadora maioria, gente branca), acham a exclusão um fenômeno normal, na verdade parecem almejar até, uma sociedade sem negros (um desses observadores mais cínicos afirmou que a miséria e a exclusão são problemas comuns, universais)

Sociedade sem negros, entenderam? Que nome você daria a isso?

Um país com mais de 50% de sua população negra (ou “não branca”, como queiram) segundo o IBGE, tem uma elite branca que dá claros sinais de tentar expulsar (ninguém parece saber, exatamente como isso se dá) uma maioria de seus concidadãos para o limbo de uma periferia inacessível, um processo de gentrificação, aliás, que teve o seu start no Rio, no início do século 20.

Para isso exigem que se crie um cinturão de defesa policial exclusivo (já cogitaram a construção de muros, há alguns anos atrás. Sério!)

A cidade do Rio parece hoje uma grande fazenda ou um campo de concentração enorme, dividido em múltiplos e miseráveis bolsões, não mais nos morros, mas espalhados, espremidos nas margens das avenidas e vias expressas, como remotos, porém tensos currais de gado humano, superlotados de carne viva, porém excedente, imprestável. Os mais jovens, magros novilhos, em grande parte são abatidos a tiros.

Onde vão esconder tanta gente? Por quanto tempo? Imaginam, porventura que esta maioria acossada em guetos sujos, vai se sujeitar, se submeter pacificamente a esta situação insustentável, eternamente? Acreditam mesmo que o paraíso é no Tuiuti?

(Na TV nessa manhã, já quarta de cinzas, as imagens inquietantes de uma turba negra saqueando um supermercado no Leblon, zona sul da cidade)

 

O que podemos prever como consequência desta indiferença social perpetuada, estúpida como os nazifascismos?

Eu tenho medo. Você não?

Spirito Santo

2019/2020