KILOMBOLOKO! Grupo Vissungo, 40 anos de praia, grava VINIL/CD histórico!

•01/12/2017 • Deixe um comentário

 KILOMBOLOKO!

Grupo Vissungo, 40 anos de praia, grava VINIL/CD histórico!

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O Grupo Vissungo é um projeto musical, uma banda que concebe seu som, seu produto, a partir de muita pesquisa, de campo e de estúdio, como você verá por aqui, em muitos links abaixo, caso nunca tenha ouvido falar de nós.

O curioso é que fazemos isto, acredite, desde…1975!

Somos especializados na música africana que mais diz respeito á cultura brasileira geral – a música da Diáspora africana no Brasil, melhor dizendo – fazendo sempre uma releitura que torne esta música adequada á realidade dos sons do que chamamos de música popular, moderna, urbana, a música das mídias do mundo inteiro ou seja: sem folclorismos vãos.

O resultado, na linguagem de rótulos simples do Mercado, pode ser caracterizado como algo entre o Afro-beat e a Black Music, só que no nosso caso avançamos sem grandes compromissos com os modismos do mercado, construindo uma música muito particular e original, que nunca coube nos caixotinhos desse shopping center de bugigangas em que se transformou à indústria fonográfica do Brasil.

Entre outras, esta talvez seja a razão de, por mais incrível que pareça, com uma carreira que já dura 42 anos (!) com uma rica estada na Europa, nunca tenhamos tido a oportunidade de gravar o nosso som de carreira, a nossa proposta real.

É que gravamos bastante, fizemos muitas turnês por várias partes do Brasil e do exterior, mas sempre tivemos este nosso som real, ignorado pelo mercado fonográfico brasileiro, que não quis, ou nunca conseguiu nos inserir em nenhum de seus escaninhos estético-comerciais, nos convidando sempre para gravar apenas aquela música negra mais próxima dos chavões da MPB ou do mais tradicional, dos sons “negros” mais subalternos e convencionais enfim, como se este fosse o lugar a nós destinado e pronto. Mas não.

Os tempos mudaram. o mercado fonográfico tradicional, desmilinguiu-se no emaranhado de possibilidades das redes virtuais. Este projeto visa, portanto, nessa oportunidade, acabar de vez com essa dicotomia entre nossa música e as pessoas que querem nos ouvir aqui, ali, no mundo inteiro.

Com KILOMBOLOKO pretendemos gravar 12 exemplos da nossa extensa e impressionante trajetória musical, provando o quão moderna e interessante esta nossa música sempre foi e, agora registrada, sempre será.

Você, com seu apoio, será nosso precioso parceiro nessa caminhada infinita.

KILOMBOLOKO vem aí!

 

 

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A Faxina de Zumbi sem Palmares

•20/11/2017 • 1 Comentário

Foto: Guilherme Pinto/ Agência O Globo

                                                   Máscara-retrato do Rei  (Oba) Oni

Salvando as aparencias

Nem todas as anuais lavagens simbólicas das baianas do reciclado Bloco Filhos de Ghandi local, poderiam dar conta da limpeza desta mistificação tão bem intencionada que foi a criação do Monumento à Zumbi de Palmares na Praça Onze, centro do Rio de Janeiro.

Nenhuma orquestra de ogans de Candomblé, toques de batás, de runs, de rumpis, de lés, de ilus, de nenhum tambor yoruba, nenhum banquete de ebós–iguarias em alguidadares de puro barro, ofertados piamente à todos os orixás do panteão. Nenhum ponto para Ogum, Xangô, Oxossi, limparia a barra-karma de uma estátua de um negro rei jêje-yoruba, condenado a ser na terra do racismo sem palmeiras, o símbolo mais pomposo e equivocado da negritude nacional.

Nada adiantará. Nem Bopes, nem UPPs, câmeras de segurança, caveirões. A horda de jovens e velhos racistas-nazistas de plantão estará sempre, anualmente a postos para, na calada da noite, emporcalhar a cabeça de bronze do homem de suásticas ou pintá-la de branco como máscara de carnaval, simbolizando a hedionda recorrência do nosso racismo covarde e abjeto na busca nostálgica pela hegemonia do mal, amém.

Limpeza eterna parece ser a sina dos faxineiros de Zumbi.

Vivo dizendo: A representação iconográfica falseada do negro tem sido desde que o Brasil existe, um comportamento de natureza quase psicótica dos nossos artistas. Como ocorre, aliás, em todos os setores de nossa cultura envolvidos com a representação imagética, historiográfica, etc. do povo do Brasil, o racismo impregnado profundamente na alma de nossa elite intelectual (formada, por motivos óbvios por pessoas majoritariamente auto-identificadas como ‘brancas’) tem cumprido com fidelidade canina a sua missão de ser mecanismo de omissão, mascaramento, invisibilização ou ocultação de tudo que se refere à herança cultural dos africanos no Brasil, numa relação de baixa-estima anti-nacionalista (o ‘complexo de vira-latas’ que Nelson Rodrigues propôs), realmente patológica.

Lavagem cerebral?

Parece incrível, mas neste Brasil Fake tropical a negação de uma parte de nós mesmos, de forma renitente é sempre o que predomina. Somos um projeto imagético de uma nação sem negros – ou com negros fashion que só podem ser mostrados enquanto portadores passivos de uma cultura negra tutelada, exótica, embranquecida, idealizada, mistificada enfim, totalmente afastada de nossa real formação de nação constituída de povos diversos, como se fosse possível a um país ser representado sem a face real de parcela tão esmagadora de sua população.

Foi o que aconteceu – como não podia deixar de ocorrer – com a ‘cara’ de Zumbi.

Faxina étnica?

Mas há sim uma faxina possível, cada vez mais plausível que é a luta pelo restabelecimento da verdade histórica sobre Zumbi e seu Palmares real.

Muitos já se deram conta, por exemplo, de que a estátua da cabeça que representa Zumbi de Palmares na Praça Onze no Rio de Janeiro, na verdade não passa de uma réplica muito ampliada de uma cabeça de bronze da cidade de Ife, Nigéria, aproximadamente do século 12, representando a cabeça do Rei Oni (Oba Oni). Oba Oni?

Algum orixá desconhecido? Claro que não! Você sabia disto? Pois fique logo sabendo:

“…Na estátua de Brasília, Zumbi aparece como homem comum, sem quaisquer adereços ou símbolos, apenas um rosto humano, sem grandes idealizações. No centro do Rio de Janeiro, o mesmo Zumbi aparece representado de forma totalmente diferente. Sem os traços que caracterizam o homem comum e real da estátua de Brasília, o Zumbi do Rio se aproxima das formas ideais de uma entidade africana, e aparece despido de personalidade num rosto que evoca nobreza real, com sua coroa de contas de vidro.. “

Revista ‘História” 09/09/2007

Curiosamente como se viu – na verdade, como já disse e apesar das exceções, este é um equívoco recorrente no Brasil quando se trata da representação da cultura do negro – esta cabeça e Ifé foi mesmo usada como modelo para a estátua de Zumbi de Palmares, líder quilombola de ascendencia, muito provavelmente angola-conguesa e não yoruba-nigeriana como a imagem sugere. O professor-doutor da Uerj e artista plástico Roberto Conduru escreveu a respeito na revista África um insinuante texto, atribuindo ao sociólogo Darcy Ribeiro a ‘culpa’ por esta equivocada homenagem a Zumbi representado aqui pela cabeça de Oba Oni.

…”Idealizado por políticos locais e representantes do movimento negro (o vereador José Miguel foi o autor do projeto de lei e grande batalhador pela construção do monumento  (nota minha), o monumento a Zumbi dos Palmares deveria ocupar inicialmente um espaço no Largo da Carioca, no centro do Rio de Janeiro, onde chegou a ter a pedra fundamental lançada em 1982.

No ano seguinte, os organizadores da homenagem decidiram transferir o projeto para o Parque do Flamengo, mas o monumento acabou finalmente erigido, em 1986, perto da antiga Praça Onze, um dos berços do samba e local emblemático da cultura afro-descendente no Rio de Janeiro. Na visão da historiadora Mariza Soares, essa homenagem a Zumbi feita de concreto armado e metal é o “símbolo maior” de uma “tentativa de monumentalização da negritude” empreendida pela administração de Leonel Brizola, que governou o estado do Rio de Janeiro entre 1983 e 1987.

Junto com o Sambódromo e a escola Tia Ciata, o monumento forma um complexo que visa, em seu conjunto – segundo Mariza Soares –, à “comemoração da negritude”.

…A iconografia de Zumbi não proveio de Alagoas, estado no qual estão localizados os remanescentes do Quilombo de Palmares, ou de outra parte do Brasil. Darcy Ribeiro se apropriou da forma de uma escultura pertencente ao acervo do Museu Britânico, deslocou-a para outro continente, mandou ampliá-la de 36 centímetros para três metros, fundiu-a em 800 quilos de bronze e a instalou numa das principais vias públicas da cidade do Rio de Janeiro.”

Roberto Conduru – Revista História n°20   

Na verdade já se sabe hoje em dia que não era nada impossível a missão de descobrir senão a verdadeira fisionomia, pelo menos uma imagem bem aproximada de Zumbi de Palmares. E convenhamos que não se soube disto antes por pura incúria e descaso de nossa historiografia acadêmica no trato do tema ‘O negro no Brasil’.

Aliás, a iconografia sobre Palmares de certo modo, considerando-se o caráter remoto da época (sec.17) é até bastante profusa. Em grande parte ela foi brilhantemente realizada pelos pintores holandeses trazidos para o Brasil por Maurício de Nassau, exatamente para este fim: produzir uma iconografia do chamado Brasil holandês

Entre estes artistas destacou-se Albert Eckhout , a quem são atribuídas muitas imagens de negros não-escravos em Pernambuco, entre elas um guerreiro negro estilizado e uma impressionante retrato de um misterioso e arrogante negro rebelde, armado de espada, pintura ainda sem identificação do autor, mas com todos os elementos de ter sido pintada por Eckhout  no Brasil  (veja mais posts sobre o assunto neste mesmo blog)

Máscara de cobre de Oba lufan com 36 cm de altura (tamanho de uma cabeça humana normal) da coleção do Ife Museum.

Além das aparencias

Entre estas cabeças encontradas, atualmente expostas no Ife Museun (depois de resgatadas do Museu Britânico que durante muitos anos teve em seu acervo peças saqueadas durante a invasão britânica à Nigéria no século 19), existe esta outra, sem o elmo (cujas incisões de encaixe aparecem nitidamente na foto) que os especialistas afirmam ser do Rei Lufan.

Oba Lufan (‘Oba’ em yoruba significa, literalmente, ‘rei’,’ chefe’), curiosa e provavelmente é o mesmo personagem venerado no candomblé brasileiro sob o nome de  ‘OxaLufan, corroborando, pelo menos em parte, a tese atribuída a Pierre Verger de que muitos – senão todos – os orixás do panteão do candomblé brasileiro, foram na verdade reis e figuras importantes de povos da região de Ife e Oyó (onde reinou ‘Sangò’/Xangô’) que se tornaram célebres a ponto de serem eternizados, ou venerados pela história oral das pessoas de sua nação, sob a forma de  orixás (palavra da língua yoruba ‘orisa’ que significa, literalmente ‘imagem’, ícone’, por extensão‘santo’)

As incisões na peça, muito comuns na arte escultórica de Ife (cuja função parece ter sido a de perpetuar a memória dos reis por meio de retratos tridimensionais e bastante fiéis deles (como ocorreu com os quadros de pintores da renascença européia) podem  denotar  que o personagem usava barba e bigode (da mesma forma que o Rei Oni-‘Zumbi’) além de portar na cabeça, provavelmente uma espécie de elmo ou capacete cerimonial.

Oba Lufan, como se comprova após a identificação desta sua cabeça-retrato (leia mais em “African Art’ de Frank Willet) foi um dos mais importantes reis do Reino de Ife. A ele é atribuída inclusive a introdução deste estilo escultórico naturalista pouco comum no resto da África, onde estilos inquietantemente ‘modernistas’, estilizados enfim, predominam até hoje em dia.

O estilo naturalista de Ifé – que, a se julgar pelos estudos do ‘pai da história’ Heródoto pode ter tido a mesma origem do naturalismo escultórico grego:  o  antigo Egito. parece ter evoluído de origens bastante remotas, quem sabe no âmbito de sucessivas migrações para o oeste de povos que formaram muitas outras civilizações pelo caminho – entre estas o Reino de Ifé, – povos estes oriundos de regiões mais ao leste do continente como a Núbia e o Egito talvez.). Nesta mesma provável rota migratória encontraremos também a impressionante arte escultórica em bronze do Benin (ex Dahomey)

Um estudo evolutivo desta técnica escultórica pode ser feito em parte, com a comparação meticulosa entre peças de épocas mais remotas, sempre caracterizadas pela representação naturalista de reis e rainhas, em terracota, bronze, cobre, e às vezes em épocas mais recentes, em madeira.

Irmã da cabeça do Rei (Oba) Lufan é linda a estátua do rei Rei (Oba) Oni. Ela é altiva e impressionante como uma esfinge ou um faraó, mas ela evoca uma majestade, uma realeza exageradamente fantástica, irreal.  Esta verdade que não quer calar é que me inquieta: No fundo no fundo o que temos tanto a ver assim com a nobreza orgulhosa de Ifé?

ObaOni não é Zumbi, ObaLufan não é uma entidade mística. A cosmogonia de uma única seita religiosa – o Candomblé – não dá conta de explicar e representar a cultura de um país inteiro, de origens e influências tão diversas, tão diferentes desta Nigéria-fake que impinjiram a nós, mesmo que fosse apenas no âmbito desta nossa negritude tão fugidia quanto relativa.

De que nos vale uma imagem que como uma cortina de seda branca, ora tolda a visão da selva úmida de onde vieram os africanos que habitam em nós, ora revela uma quantidade enorme de pirâmides de papel e mistificações grosseiras? De que nos vale acreditar nas mentiras cordiais ditas sobre estes mesmos quase africanos em que nos tornamos, ao longo desta nossa história ainda tão obscurecida pelas sombras do racismo de aparências e desaparecimentos que nos governa? De que nos adianta assim, cordatos, submissos – ainda hoje escravos de nós mesmos – aceitarmos estas belas fantasias enganosas, no fundo no fundo inventadas pelos ‘brancos’?

De que nos adianta, enfim mentirmos sobre nós mesmos (e digo nós TODOS, pretos e brancos assumidos deste Brasil)?

Afinal, tanto como o triste alferes mineiro (na verdade um português), Zumbi de Palmares (na verdade um angolano) é um herói brasileiro d’a gema’ não é mesmo…ou não?

Vergonha na cara e faxina na alma é do que precisamos. Uma lavagem nacional sem senhor algum a nos ditar onde está o nosso destino ou qual será o nosso bom fim.

Deixarmos de ser falsos brancos para sermos francos, isto sim.

Spírito Santo

Junho 2011

KILOMBOLOKO! Crowdfunding para o VINIL do Grupo Vissungo!

•25/10/2017 • Deixe um comentário

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Que vengan los Setenta!

•26/08/2017 • Deixe um comentário

O africanismo escapista da universidade de cotas do Brasil

•17/08/2017 • Deixe um comentário

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Nem todo negro é mandinga nem toda crioula tem ginga

Africanismos de boutique a Branquitude curte de montão

Falar em Afrocentrismo sem papas na língua ou sem babados tergiversativos no Brasil, costuma azedar um debate. A teoria do “Afrocentrismo” (em politicorretês se deve dizer “Afrocentricidade“, logo revelaremos porque) se transformou, rapidamente num modismo negro-acadêmico bombadíssimo entre membros de coletivos negro-estudantis integrados, em sua maioria, por cotistas de universidades federais.

Teoriza-se muito também nesses meios sobre o velho “Pan-Africanismo“, a emergência dessas duas correntes indicando uma tendência avassaladora (e natural, inevitável) dos estudos sobre a presença africana no Brasil serem inseridos na mui branca seara acadêmica brasileira, por bem ou por mal. Uma demanda irreprimível, confusa ainda, mas sob qualquer aspecto que se a observe, muito alvissareira.

Confesso, contudo, que às reações tensas, impregnadas de um tom serioso, quase religioso, nas respostas ou indagações de alguns leitores, diante da simples menção crítica a conceitos como “Afrocentricidade” e “Panafricanismo” me exasperam, pois demonstram uma tendência a tratar de modo distorcido e intolerante, ideias fundamentais à formação de um pensamento antirracista brasileiro objetivo e legítimo, eficiente.

Será que essas pessoas tão jovens sabem mesmo o verdadeiro sentido desses conceitos (Pan-africanismo e Afrocentrismo), historicamente inclusive, conhecem e estudaram o contexto em que eles fizeram sentido (embrionários no pós-escravidão no século 19 e muito ativos no bojo dos programas de descolonização nos anos 1960/70, nos debates diplomáticos paralelos às lutas de libertação nacional em ÁFRICA)?

Será que sabem que estes processos e movimentos (principalmente o Pan-africanismo) em muitos pontos se confundem e se referiam EXCLUSIVAMENTE às realidades de uma parte específica do continente africano?

Será que sabem que esses movimentos foram mais intensos em países ex-colônias francesas e inglesas, a maioria delas, a esta altura, religiosa e ideologicamente já envolvidas com o islamismo, que se expandiu muito África negra a dentro no século 19?

Um tanto de alienação, não seria?

E diversionismo, proselitismo também, pois, abordam de forma precipitada, conceitos complexos como africanidade, negritude, etnicidade, a partir de uma bibliografia africana restrita e nesta afoiteza, se arvorando de seguidores de uma doutrina superior, embaralhando culturas e etnologias absolutamente estranhas (e arcaicas) àquela África que nos diz respeito enquanto negros do Brasil

(E aí percebe-se uma certa tendência escapista, em relação aos estudos da Diáspora, a nosso ver, o conceito chave na luta contra o racismo no Brasil). E não é por falta de orientação. Existem simples definições historiológicas que podem ajudar muito. Basta querer estudar com mais rigor e método o assunto.

O Pan-Africanismo, por exemplo é/foi um movimento político e ideológico CONTINENTAL, velho desejo dos líderes africanos nos tempos coloniais, sonhado nos pesados esforços da descolonização africana (por injunção de intelectuais residentes nas metrópoles, inclusive) visando a criação no futuro de uma federação de países, como um bloco coeso, inclusive culturalmente, mas principalmente economicamente, NA ÁFRICA!

(Se você curte referências e citações canônicas, norma culta, essas coisas, estes parágrafos acima e abaixo, estão cheios de dicas e pistas)

O Pan-Africanismo original, mostrou-se por fim uma utopia em muitos sentidos, afogado pela exacerbação expansionista do imperialismo norte americano nos anos 1970, que inundou a África (e as Américas) de ditaduras, sendo atropelado enfim pela Globalização econômica dos nossos dias (neo-neo-colonialismo para os íntimos) cujo drama vivemos agora mesmo, com nuvens de populismo e intolerância se anunciando no céu global.

A tentativa de ressignificar o conceito Pan-Africanismo, inserindo a Diáspora (a África deslocada) na amplitude dessa “panorâmica”, teoricamente faz sentido, mas o intento jamais será atingido sem um estudo profundo da cultura, do pensamento africano gestado NO BRASIL em séculos de experiência por aqui de culturas como as da África central ou do Sudeste oriental, notadamente Angola e Moçambique.

O ” Pan”, o prefixo em seu sentido de amplitude de experiências, precisa ser entendido como leque, DIVERSIDADE de culturas afins, sem escapismo, sem fuga da realidade imediata.

Por outro lado, o Afrocentrismo é/foi um movimento de inspiração histórico-culturalista, surgido nos anos 1950, já no Caribe (e um pouco nos EUA), como oposição ao chamado Eurocentrismo, ideia maquiavélica que, como se sabe, propunha a existência de uma supremacia da “raça” branca na construção e evolução de nossa humanidade, fundamento ideológico do Racismo “científico”, do pós colonialismo, como se viu, uma estupidez em todos os termos.

É óbvio que seguir uma ideia de conteúdo e propósitos tão semelhantes àquela que intentamos combater é um equívoco craso. O Afrocentrismo nasce assim como uma ideia simplista, maniqueísta, tão sem fundamento quanto seu falecido antípoda, o Eurocentrismo.

Nem mesmo a tentativa de ressemantização nesse caso seria aceitável. De tão óbvia, a ideia expressa claramente pelo sentido do termo “A África É o centro do mundo” nasce inconsequente.

(A propósito, grupos de ativistas  forjaram até uma alteração etimológica do termo, tentando esconder seu estigma semântico, impondo a denominação “Afrocentricidade“, num jogo de sufixos – trocando o  “ismo” (que, entre outros sentidos sugere uma ideia ou ideologia, visto como pejorativo por também definir doenças) por “dade” – sufixo definidor de estado, condição), exatamente como fazem outros controversos movimentos sociais por aí.

(Esta é a parte mais infantil das tentativas de legitimar esta ideologia caquética da supremacia cultural de uns seres humanos sobre os outros: O Etnocentrismo. Pueril também porque tenta impor como verdade absoluta uma ideia instigante, mas altamente discutível).

África mística e África de fancaria

O preço dessa alienação etnológica de nossos movimentos negros (que não é recente, diga-se)  repetidos pelas novas gerações de universitários negros em suas equivocadas  doutrinas  Afro-chics, tem sido alto. Esta alienação sofisticadamente aculturada vai se tornando um impasse preocupante para o avanço da luta anti racista no país.

Enfim, muito a se debater sobre este caos ideológico implantado pelas intenções academicistas, elitistas (ou quem sabe apenas confusas) de alguns desses grupos de militantes calouros.

O que é certo é que, negros numa sociedade estruturada para excluir negros, dentro ou fora da universidade, temos diante de nós dois caminhos ou tarefas díspares ou contraditórias a seguir, posto que só uma vingará.

1- Lutar contra o racismo em prol de TODOS os negros do Brasil (e, de posse de direitos civis conquistados graduar, doutorar muitos, estimular carreiras profissionais solidárias, enfim)

2- Ou tentar criar e amamentar uma ELITE negra minoritária, petulante e aculturada, a partir da propagação autofágica de doutrinas negras exóticas, no âmbito de uma negritude tanto de aparências, quanto inofensiva ao status quo racista que dela se nutre.

Enfim, a escravidão e o racismo parecem ser instituições eternas. Só que não. Alguns negros, não interessados em mudar isto, como sempre ocorreu, tentam o caminho do assimilacionismo mascarado, a saída individual dissimulada, um caminho mais do que recorrente em sistemas coloniais tardios, como o Brasil.

A questão é que, provavelmente nesse caminho se tornarão “brancos” de segunda, aliados da manutenção do racismo, da exclusão da maioria, escravos finos, pois pessoas libertas nunca serão.

Spirito Santo
Agosto 2017 (quase nos meus 70

VISSUNGO, a Saga: Avaliando K I L O M B O L O K O!

•09/07/2017 • Deixe um comentário

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A carreira do Vissungo em revista

(Nota: Este post está sendo recompartilhado -2017 – em virtude de estarmos  preparando a campanha de crowd funding para o antológico VINIL DO Grupo Vissungo.

Com produção de Luiz Filipe Cavalieri, inteiro (12 faixas) em partes, partículas, em nacos de bits, nosso som chocante vai enfim cair na rede. Todo mundo será convidado a participar.

High landers da música da Diáspora, queremos os ouvidos do planeta. E teremos.

Este longo post conta TUDO sobre nossa história: leiam please.)

—————

No fim desta sensacional turnê do Vissungo (40 anos de praia!) pela rede de lonas e arenas culturais da Secretaria Municipal de Cultura do Rio, muitas reflexões ocorrem ao Titio. Algumas, das mais ácidas, já esbocei num post anterior.

No fim do último show, eufóricos com o resultado artístico maravilhoso, fica a vontade de manter a azeitada máquina do Vissungo em moto contínuo, forever.

Um tanto surpreso e feliz com a nossa excelente forma de curtido vinho antigo, reflito sobre as perguntas de sempre, que nos invadem toda vez que terminamos uma jornada dessas, mais uma de nossa longa, longa, longa trajetória. Entre as perguntas surgidas aqui e ali da plateia ou de fãs curtidores das notícias da turnê, duas são chave:

_ “O CD! Cadê o CD!”_ Nos perguntou um grupo de ávidos novos fãs no final do penúltimo show desta turnê.

_ “Quando o Vissungo virá à minha cidade?”_ Nos perguntam outros fãs mais distantes, um pergunta que envolve questões muito mais instigantes e dubiosas.

Afinal, porque com um trabalho considerado artisticamente tão moderno e consistente, numa cancha que envolve trabalhos emblemáticos e premiados internacionalmente em trilhas sonoras para TV e cinema, com incursões tipo saga, por lugares e remotos do país (a pesquisa) ou em excursões por lugares europeus musicalmente importantes como a Itália e Áustria, carece tanto de visibilidade e projeção em seu próprio país?

Pois é.

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Estas perguntas sempre me inquietaram. Sempre reluto também em tentar respondê-las porque, fatalmente caio no lodo escuro da dúvida.

Será que o Mercado, o mainstream nos recusa espaço por alguma razão misteriosa? E esta é uma pergunta com resposta óbvia. Fôssemos atraentes ao mainstream e teríamos tido nesses 40 anos de carreira a nossa chance de gravar muitos LPs, CDs e estourar na praça, lógico!

Claro está também que a razão de fundo é mesmo muito misteriosa. Me ajudem a refletir, por favor: Que razão misteriosa seria esta?

A qualidade artística, musical de nosso trabalho, foi uma razão descartada logo de início, até porque o mercado nunca foi muito criterioso quanto a isto. Com muita frequência se pode observar que o sucesso de um artista medíocre ou relevante se dá, fulgurante, a despeito da qualidade chinfrim ou supimpa de seu trabalho.

A baixa apreciação do público também é outro fator descartável. Qualquer um que já assistiu um show ou a um ou outro clip do Vissungo e que esteja lendo este post agora, pode dar aqui testemunho do seu apreço, do seu prazer.

O que seria então? Nas centenas de entrevistas que já demos descrevendo assim ou assado o nosso trabalho, nas reportagens que abordaram aspectos de nossa carreira, nenhum jornalista se atreveu a nos sugerir uma resposta válida sequer para este enigma.

Por que o mercado sempre nos ignorou, descartou ou desprezou, assim tão renitentemente?

Com certeza, o fato de termos uma proposta artística fora dos padrões engessados dos escaninhos, dos nichos recorrentes do mercado: Samba, Rock, Funk, Sertanejo, Forró, patati patatá, é um fator relevante. Sim. Nossa música contêm, de algum modo, elementos de todos esses gêneros, mas os mesclamos de uma forma original, na lógica da música da Diáspora africana, nosso eixo temático fundamental.

Mas vejam, somos cria fiel da riquíssima música popular dos anos 1970, quando a regra principal e irrevogável do sucesso artístico era ser diverso, inusitado, original. Era pecado mortal naquela época alguém parecer demais com o outro. Imediatamente seria tratado, pejorativamente como “papel carbono” como se dizia na época. Havia um impulso dos produtores para encaixar as propostas num quadradinho estilístico inicial, mas ser cover, cover mesmo, jamais. O cover, o reles imitador, quase sempre amargava o limbo do mercado.

Que eu me lembre agora, dois exemplos são emblemáticos: a semelhança, então inaceitável entre Jorge Ben – hoje Benjor – e Bebeto e o certo jeitão de Milton Nascimento/Gilberto Gil misturados que tinha o Djavan do início. Com efeito ambos tiveram alguma dificuldade para emplacar. Dos dois, apenas Djavan conseguiu virar emblema de sucesso total.

O Vissungo, orgulhosamente não parece com ninguém, mas isto, estranhamente não nos beneficiou nos anos 1970, quando o inusitado era desejável. Porque teria sido?

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Quando surgimos, por exemplo, o “Afro Beat” era uma tendência musical generalizada no continente africano, mas completamente desconhecida no Brasil. O gênero consistia na inserção de elementos “afro” da Black Music da Motow (o Funk-Soul de James Brown, basicamente) na música tradicional, tribal mesmo da África seminal, incrementada por linhas contrapontísticas de baixo e guitarra desta Black Music mais visceral. Este original estilo africano, não entrava no Brasil de jeito nenhum.

Nossa experiência na Europa nos mostrou que existe ainda hoje – e desde os anos 1970 talvez – uma rígida divisão do mercado fonográfico da música popular mundial entre Europa e EUA. Nada, rigorosamente NADA da música negra bombada na Europa, abastecida pela riquíssima cena musical das ex colônias escravistas, tocará nas áreas de mercado subordinadas aos EUA e vice versa e temos aí neste quadrado americano o mercado brasileiro.

(E vejam, se liguem no paradigma: A chamada música pop internacional é uma invenção, claramente africana, gestada nas grandes cidades das Américas, no imediato pós abolição)

O estilo do Vissungo, formatado como “MPB negra” na origem , a partir dos anos 1980 (O samba, gênero bem sucedido no mercado na ocasião, o era apenas como um gênero tradicional, quase folclórico) o Vissungo assumiu enfim, francamente um formato “Afro-Pop“. Era uma tendência clara do mercado mundial, refletindo o explosivo sucesso comercial da luminosa gravadora Motown, ocorrido ainda nos anos 1970.

Mas havia um perceptível torcer de narizes dos críticos da época no Brasil que, furibundos nacionalistas, não admitiam uma música “negra” que não fosse tradicional por um lado, ou por outro (oh, contradição!), mero sucedâneo da Black Music gringa. Havia, isto sim, é um esforço enrustido de não estimular um música negra pop original, moderna, feita por negros.

Vai explicar!

Com efeito, o mercado musical brasileiro a partir do final dos anos 1970, em sua ideologia capitalista exacerbada (inserida na lógica da divisão de território mercadológico citada acima), pressionado por uma forte cena black (o fenômeno “Black Rio”), forjou e estimulou um produto negro musical mais voltado para o sucedâneo, o similar ao original, o cover enfim, aqui carimbado, sintomaticanente de…”Black Music“, com Tim Maia e Banda Black Rio nas cabeças.

Ora, o Vissungo também sempre tocou música popular fusion Afro Americana, só que optou fazer isso a partir do som da África que, historicamente dizia mais respeito ao Brasil: Angola, Moçambique, Guiné Bissau, Cuba, etc. uma música mais fácil de ser fundida com a música afro brasileira tradicional mais disseminada por aqui, o Samba, as Congadas, o Jongo e vejam: fazemos esta nossa fusion, exatamente com o Funk/Soul do inesquecível James Brown.

Tivemos um incidente curioso ligado a este paradoxo, recentemente. Foi quando insinuamos á amigos músicos mais jovens, a criação de uma “frente Afro-Beat” no Rio, visando a formação de uma plateia específica, tipo de movimento muito comum nos anos 1970.

Hum, pra quê? Fomos sutil e educadamente ignorados. Soubemos depois, sondando por aí, que não éramos bem vistos na cena por não sermos considerados uma banda de “Afro Beat”…”legítima” porque, simplesmente este rótulo passou a significar apenas aquilo que era cover de Fela Kuti, da música popular fusion da África Ocidental (Nigéria basicamente) com o formato bandão de sopros.

Pagamos no início o preço de sermos precursores. Pagamos nos anos 1980 o preço de não termos aquele sotaque da música negra norte americana mais recorrente. Pagamos na volta da Europa o preço de não sermos suficientemente “brasileiros” e continuamos a pagar ainda hoje o mesmo preço pela nossa insistência em sermos independentes e originais, não nos rendendo à “modinha” do Afro Beat do Fela Kuti, por exemplo.

Mas seria isto mesmo? De relance, as vezes, achamos que estamos mesmo é envoltos no manto de invisibilidade que cobre toda manifestação artística e cultural de negros no Brasil, enredados nesse racismo nosso de cada dia.

Com efeito, na crônica da música popular do Brasil, tem sido muito recorrente o ostracismo a que são relegados artistas negros com propostas não conformistas ou submissas às leis rasas do mercado local. Quantos não raparam fora para deslancharem suas carreiras no exterior?

“_Vocês não são crioulos? Toquem Samba tradicional, ora!”_ Nos diziam alguns produtores e críticos dos anos 1970/1980.

“_ Vocês não são crioulos? Toquem Fela Kuti, ora!_” Nos diz hoje a garotada branca que controla a incipiente cena musical “africana” do Rio de Janeiro.

Será que sermos, enfim uma verdadeira banda de crioulos musicalmente insubmissos, rebeldes é o verdadeiro “xis” do problema?

_” Vocês não se dizem crioulos rebeldes? Toquem Funk, ora!”_ Penso ouvir gritar pra mim um MC de “Proibidão’ na saída de um show no Complexo da Maré.

(Já nos mandaram tocar Raggae music também, claro!)

Afinal, porque esta cisma misteriosa do mercado com o Vissungo véio de guerra? Alguma pista para vocês nesta resenha sobre o perfil, supostamente maldito de nossa proposta? Jamais saberemos e por isto seguimos empávidos e felizes. Alguém, algum biógrafo que descubra .

Fica, portanto um conselho óbvio para vocês, amados fãs empedernidos de nossa rebeldia.

Visitem nossa página do Facebook. Falem de nossa saga, ouçam, vejam, divulguem, comprem, sugiram que comprem shows do Vissungo por este país afora.

_Alô, Brasília! Alô, São Paulo! Alô Belo Horizonte! Alô Salvador! Alô, Brasil!

Estamos em ponto de bala e os senhores do mercado para nós são…vocês.

Somos o VISSUNGO do K I L O M B O L O K O, morou?

(Fotos de Caio Rosa na Arena Cultural Dicró, na Penha em 04/07/2015. Veja o álbum)

Spirito Santo.
06/97/2015

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