Sobre Spirito Santo

Musico, pesquisador e escritor

Kisangi, Chizanji. Os muitos sons de nossa história soterrada


O olhar vai se apurando nos blowups da lupa:6

Esses três lamelofones das fotos, recolhidos em museus europeus, foram, logicamente surrupiados, ou mesmo comprados por preços irrisórios, por exploradores europeus, muitas vezes antropólogos, turistas, como saber? Costumam ser encontrados também em museus europeus ou em sites de leilões espalhados pela rede.

Geralmente foram obtidos nos séculos 18/19, além dos modos citados, como butim de guerras coloniais e invasões predatórias, no período de desenfreada depredação colonialista da rica cultura material africana.

O fato é que, nesses delicados instrumentos, os detalhes de sua forma podem nos ajudar a determinar o local exato onde foram construídos, bem como – quando encontrados em países da Diáspora africana nas Américas, – também a origem geográfica de seus músicos*, o que nos abre uma janela enorme para pesquisas menos simplistas sobre nós mesmos.

(Ando caminhando por essa seara aí)

Os pinos com cabecinhas esculpidas, por exemplo, são típicos dos lamelofones da região da Lunda, Angola, ocupada em boa medida por gente de etnia Chokwe. Eles são genericamente denominados “Kisangi” (Chizanji) e em alguns casos, “Likembe”**.

Existem nas áreas vizinhas aos Chokwe uma gama enorme de outros tipos, com forma diversa, o que faz dessa região, certamente um pólo fundamental da ocorrência desse instrumento musical, típicamente africano.

(O segundo ponto nuclear dos lamelofones africanos, talvez mais importante ainda, localiza-se no sudeste do continente, localizado no eixo Zimbabwe/Moçambique, área do emblemático “Mbira/Mbila”.)

Esse simples insight investigativo, pode atestar, por exemplo, à luz dos modelos mais recorrentes de lamelofones registrados no Brasil que, em determinada época no processo da escravidão, efetivamente vieram dessa grande região africana, do nordeste de Angola***, envolvendo parte da Zâmbia e partes do Kongo, a grande maioria dos escravizados chegados ao sudeste do país.

Infelizmente, os estudos mais oficiais, acadêmicos no Brasil, prosseguem induzindo estudantes e estudiosos em geral a ignorar essa metodologia tão óbvia, tão profusa de evidências, em nome de pseudo-teorias místicas, esotéricas, escapistas (no fundo racistas) que apontam para uma África bem divergente, exótica á nossa Diáspora brasileira real.

Precisamos nos aprofundar bastante nisso – vivo repetindo – tirar os pés dessa areia movediça da alienação cultural, quase patológica que nos foi introjetada pelas sutilezas, pelo canto de sereia do racismo estrutural.

Negacionismo, palavra da moda, caracteriza bem esse comportamento que, presumo ser deliberado, esse equívoco epistemológico tão raso praticado em nossas Ciências Sociais.

Spirito Santo

* via de regra, todo músico africano tradicional, é ele mesmo um especialista na fabricação do instrumento que utiliza, logo seu instrumento é uma espécie de prova de sua origem.

**Os nomes locais de um instrumento musical, a rigor não têm, necessariamente nada a ver com sua forma ou fisiologia. As pessoas costumam se esquecer desse detalhe.

***Também nos chegaram lamelofones, da área, exatamente vizinha ao sudeste, a zona dita centro africana, bem como, em menor medida, do noroeste de Angola.

Nota: No corte da aquarela de Joaquim Cândido Guillobel de 1814, visto na Corte Imperial do Rio de Janeiro, um lamelofone que identifico como sendo um legítimo modelo Chokwe.

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(Pesquisa privada em curso, parcialmente descrita em https://www.academia.edu/45681774/M%C3%BAsica_Africana_na_Corte_Imperial_do_Bras


Black Music remota: (1900- Banda D.Pedro II, Campanha, Minas Gerais.)



Black Music remota:

(1900- Banda D.Pedro II, Campanha, Minas Gerais.)

Muito crioulo na parada? Instrumentos de sopro? Centenas de bandas como esta espalhadas por aí, no mínimo uma por cidade? E, que incrível: Em certos lugares do interior até hoje é assim.

Nada de estranho (eu mesmo vivo contando essa história por aí) Uma resposta bem prosaica até:

É uma longa história que se agudiza em meados do século 19 (na verdade começa na África, com a natural predisposição dos africanos para a utilização da linguagem musical de forma socializada.).

Esta nouvelle vague noir segue nas guerras de Secessão e do Paraguai, e envereda pela I guerra mundial na Europa, com milhares de soldados-músicos trazidos das colônias em África (do Congo francês ou Belga, principalmente)

Bandas musicais de negros!

Por aqui, durante muito tempo – notadamente nos anos finais da escravidão – donos de fazendas (de café, principalmente) estimularam a formação de conjuntos musicais com escravos em suas propriedades. Quem não sabe disso?

Muitos importavam professores de música da Europa e havia até muitos conjuntos de câmara nas maiores fazendas, formados apenas por jovens escravos, lendo e tocando música clássica, erudita da Europa, para o deleite afetado das visitas.

Sinhozim legal, não é não?…Que nada! Era um mero dispositivo de ostentação de brancos nababos.

A rigor, na escravidão (até bem pouco tempo na verdade, já no Brasil racista) música – e o trabalho manual ou braçal, em geral – era uma atividade considerada reles, subalterna, logo, exclusiva para negros. Era por isso!

Praticamente só os pretos tocavam instrumentos de música. Muitos dos nossos músicos, orquestradores e maestros de música popular mais importantes eram negros…Sabia não?

Este fenômeno foi comum nas províncias economicamente mais desenvolvidas, onde obviamente o regime de trabalho escravo era mais…sofisticado (RJ, MG, SP, BA, PE, no caso)

Só na virada do século 19 para o 20, músicos brancos começaram a aparecer nos teatros e cabarés dessas cidades. Eram, contudo emigrantes estranjeiros, notadamente europeus, onde pontificavam os italianos.

Parece mentira, certo? Mas não. É tudo verdade.

Por isso, quando alguém vier com aquela conversa de que músico negro é sempre batuqueiro (perdi a conta de quantas vezes já fui tratado assim) dê “pause” e corrija, com aquela cara de sonso: _”Anh?…Como assim?”

Spirito Santo
Quarentena Agosto 2020
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A Literatura negra do Brasil e suas páginas em branco


 

Alexandre Dumas_by_Nadar,_1855

Alexandre Dumas_by_Nadar,_1855


Literatura Negra e suas páginas em Branco

Entre a luz e a Sombra, as contradições das entrelinhas”Os adeptos da literatura e do cinema dificilmente dirão que desconhecem a história dos três mosqueteiros, D’Artagnan ou do Conde de Monte Cristo…Grande parte daqueles que confirmam conhecer tais obras sabem que elas pertencem ao a Alexandre Dumas, mas uma aposta é quase certa: a grande maioria desconhece que ele era um negro.

…O que muitos não sabem é que, apesar dos romances de aventura, Dumas também escreveu contra o colonialismo e sobre questões raciais, mas sofreu com o racismo e com o preconceito até depois de sua morte.”

(Luis Vinicius Belizário, especialista em Cultura Afro-indígena)

Contudo, em “Os Irmãos Corsos”,”A Máscara de ferro”, o “Conde de Monte Cristo” e “Os três mosqueteiros”, clássicos de Dumas não havia, salvo engano, nenhum personagem importante que fosse… negro – nem mesmo o excêntrico D’Artagnan. As temáticas, do mesmo modo pouco se referiam, diretamente à condição dos negros ou afrodescendentes da França ou da Europa do século 19.

Alexandre Dumas só entra na lista dos autores de uma alentada Literatura Negra, depois de ter a sua condição de negro revelada, e isto nos faz propor a seguinte questão: Literatura negra (ou “Afro descendente”) seria mesmo apenas qualquer literatura cujo autor seja negro (ou afrodescendente) ou seria algo mais complexo?

Existem outros argumentos que podem nos ajudar a conceituar de modo mais convincente esta literatura feita por ou sobre negros, mesmo ressalvando que as razões de ser dessa segregação, dessa invisibilização são comuns também à outras áreas (como o Cinema, o Teatro entre outras). Mas, não se enganem: todas essas razões nos conduzem à perguntas complexas e a respostas ambíguas.

Antes do enorme sucesso literário de “Cidade de Deus’ de Paulo Lins (1997) e “Quarto de despejo”(1958)de Carolina Maria de Jesus, o último exemplo, ampla e publicamente citado de literatos negros bem sucedidos foi aquele que envolvia a pungente dicotomia entre a Luz e a Escuridão, representada pelo simbólico conflito ideológico latente, na obra de dois de nossos escritores negros mais famosos, ambos ainda no distante século 19 e início do século 20 (1881, primeiro livro de Machado de Assis, 1915 o primeiro de Lima Barreto).

Machado de Assis, foi aquele que ascendeu na sociedade branca ocultando, tornando literariamente invisível, de forma brilhante, sua própria negritude, e Lima Barreto, aquele que, ao contrário, invisibilizado por toda a vida, morreu louco tentando iluminar, de forma não menos brilhante, a sua (e a nossa) própria condição racial e suburbana, em emocionados romances é contos.

Outro aspecto importante a ser considerado neste particular é que, apesar do otimismo atualmente reinante, é bastante tímida a evolução no tempo entre a publicação de livros escritos por negros que obtiveram grande projeção nacional e sucesso no meio editorial.

1-Machado de Assis – 1881- ‘Memórias Póstumas de Braz Cubas”
2-Lima Barreto – 1915 – ‘O triste fim de Policarpo Quaresma”
3-Carolina Maria de Jesus – 1958 – Quarto de Despejo”
4-Nei Lopes -1990 –‘Lapa-Irajá, Casos e enredos de Samba”
5-Paulo Lins – 1997 – Cidade de Deus”
6-Ana Maria Gonçalves- 2006 – “Um defeito de Cor”
7- Conceição Evaristo -2003/2014 –“Ponciá Vicencio” /”Olhos D’Água
8- Djamila Ribeiro- 2017 –“Quem tem medo do feminismo negro”

No exemplo de Paulo Lins, algo similar ao de Lima Barreto no que diz respeito à radicalidade das temáticas, é bom que observemos que sua visibilidade se deu também por conta de um fenômeno extemporâneo: O sucesso explosivo de um filme e algumas séries de TV cujos roteiros foram baseados em seu excelente romance.

Há, nesse mesmo sentido o exemplo também muito bem sucedido de Carolina Maria de Jesus cuja única obra conhecida do mesmo modo tornou-se visível por conta de fenômeno semelhante: a grande repercussão jornalística na época do incrível paradoxo entre a sua condição social miserável, incompatível, no entender dessa imprensa, com o exercício tão excelente de sua literatura.

Há também – este bastante polêmico – o exemplo de Djamila Ribeiro cujo sucesso de best-seller, pode estar ligado muito mais ao apelo do feminismo puro e simples, do que à pauta de uma militância antirracista sugerida pela adjetivação “negro” inserida no título, tema que não tem, convenhamos, a rigor nenhuma relação direta com questões de gênero.

Friso estes exemplos porque eles não devem nunca ser utilizados como atenuadores da evidência da prática do racismo em nossa sociedade, neste como em outros campos.
(Importante ressaltar também que o principal fator do sucesso desses autores se deveu, principalmente à qualidade surpreendente e inquestionável de seus textos.)

Sugiro, portanto, que, logo de início nos perguntemos, bem objetivamente: Porque aceitamos, no âmbito do mercado literário brasileiro ocupar o nicho restrito, por nós mesmos denominado Literatura negra? Em que que isto nos ajuda a combater o racismo ou a contornar as restrições que barram o acesso a este mercado?

Com a definição do conceito travada entre essas duas posições ambíguas (o “ser negro” ou o “usar temáticas negras”), o professor Eduardo de Assis Duarte em seu texto “Literatura e afrodescendência no Brasil antologia que reúne uma série de ensaios e referências biográficas e bibliográficas sobre 100 escritores, dos tempos coloniais até hoje, diz o seguinte a respeito ” (citando Domício Proença Filho) :

…Será negra, em sentido restrito, uma literatura feita por negros ou descendentes assumidos de negros, e, como tal, reveladora de visões de mundo, de ideologias que…por força de condições atávicas, sociais e históricas, se caracteriza por uma certa especificidade, ligada a um intuito claro de singularização cultural.
Lato sensu, será a arte literária feita por quem quer que seja, desde que reveladora de dimensões peculiares aos negros ou aos descendentes de negros.

A discussão envolve outras variantes. Luiza Lobo, por exemplo, confere um perfil mais incisivo ao conceito: defendendo que o conceito (Literatura Negra) não deve incluir a produção de autores brancos, e… entende ser tal literatura apenas aquela “escrita por negros”.

Ambos os enunciados me parecem controversos, claramente retóricos, não justificando uma razão objetiva para que se utilize a expressão “Literatura Negra” (e este parece ser também o pensamento de Eduardo de Assis. Nada impede que um branco, exposto ás mesmas condições “atávicas”, etc. de um negro possa escrever literatura idêntica (citar Simas) . Do mesmo modo, um negro que viva em condições e meio social idênticos aos de um branco será, do mesmo modo capaz de realizar uma literatura “branca” (caso evidente Machado de Assis), tornando a classificação “literatura negra”, uma incongruência em vários termos.

Convenhamos: esta circunstância de, eventualmente estarmos sendo “negros juntos” é compulsória, imposta que foi pela estratificação social determinada pelo colonialismo.

Não existe, a rigor um determinismo biológico definindo o perfil cultural de uma comunidade negra, índia, cigana ou lá o que seja. Razões sociais de toda ordem (por exemplo a criação de guetos, espaços de exclusão (uma técnica inventada pelo racismo) é que determina o Ethos, a cultura de um grupo. Seriam necessárias as muitas outras condições, para que esta caracterização “negra” se impusesse.

Eduardo de Assis é quem diz:

“…Também é certo que não há, sobretudo no Brasil, uma literatura 100% negra, tomada aqui a palavra como sinônimo de africana.

Nem a África é uma só, nem o romance, o conto ou o poema são construções provindas unicamente do Atlântico Negro….Assim, já por esse pequeno sumário da questão, pode-se deduzir que, da militância e celebração identitária ao negrismo descomprometido e tendente ao exótico, passando por escritos distantes tanto de uma postura como de outra, literatura negra são muitas, o que, no mínimo, enfraquece e limita a eficácia do conceito…”

(Eduardo de Assis Duarte em “Por um conceito de literatura afro-brasileira”)

Com efeito, a princípio, não há meios de saber se um autor é negro apenas lendo a sua obra. A maioria de nós passou a maior parte da vida desconhecendo a negritude de, por exemplo, os citados Machado de Assis e Alexandre Dumas, entre tantos outros. O fato de ser negro também nesse caso, não explica porque literatos negros quase nunca chegam ao mercado.

É óbvio que, do ponto de vista do racismo, há uma intenção sutil nesta circunstância, pois, ao ocultar a origem ‘racial’ de um artista numa sociedade, se nega à todas as pessoas negras como ele, subestimadas ou tratadas como ignorantes e incultas, a elevação de sua auto estima, ancorada nos atributos de genialidade da obra deste autor e de sua negritude, o que seria libertador para todos os demais segregados. Mas como impedir que esta ocultação, esta invisibilização deliberada ocorra?

São várias as supostas razões, mas ao que parece, no bojo dessas restrições a textos produzidos por ou sobre negros, paira uma questão que seria a “mãe de todas “: O caráter oportunista do Racismo tal como ele é praticado no Brasil, qual seja, um racismo da “farinha pouca meu pirão primeiro”, um “Racismo de resultados”. Criar meios de impedir que a condição “racial” seja ocultada seja lá por qual motivo, seria uma ação bastante pertinente, escreva o literato negro sobre o tema que bem entender.

Há sim, é inegável uma espécie de surdo conluio entre produtores, editores, críticos literários especializados, jornalistas e formadores de opinião em geral, uma classe dominada, exclusivamente, como sabemos por gente branca (ou que se imagina branca), gente que, todos nós sabemos, em grande parte age como se negros não soubessem escrever e – o que é pior – como se sequer soubessem ler.

Mas vejam, não é sincero, tampouco fundamental este sentimento. A intenção final é impedir, afastar, excluir concorrentes. Em linhas gerais, portanto, restrições de natureza sutilmente racista, com certeza explicam algo, mas apenas parte do problema. A questão mais intrigante, no entanto, é saber porque autores negros, isolada ou coletivamente aceitam isso, se isolando e colaborando assim com as restrições de acesso ao mercado a nós imposta desde os tempos coloniais. Pode ser por conta de um ressentimento muito recorrente em vítimas de racimo, mas a tendência mais evidente adotada pelos envolvidos no setor “Literatura Negra”, parece ser ignorar o mercado literário convencional para criar um mundo literário negro…à parte.

Tenho mais de 7 décadas de vida e já li inúmeras resenhas e entrevistas idênticas, sem tirar nem por, todas versando sobre este mesmo assunto, com doutores e acadêmicos do mesmo modo especialistas no tema, discorrendo uma lista dos mesmos autores de sempre, como a chover no molhado.

A supostamente pífia participação de autores e temáticas negras na literatura do Brasil é um assunto daqueles sobre os quais quase nunca se tem novidades a acrescentar. Há uma certa acomodação, um discurso recorrente que repete os nomes chancelados pelo meio oficial – que é branco – em Antologias tuteladas.

Quem lê esta Literatura Negra no Brasil? A quem ela se destina? A contradição entre estes dois fatores – se liguem bastante neste ponto – pode ser chave nesta discussão.
Se o perfil médio do leitor de livros no Brasil, for mesmo aquele dos que, sendo brancos não querem ou evitam ler esta literatura, por se sentirem constrangidos, por indiferença para com o racismo, sei lá, desinteressados enfim pelo que esta literatura negra tem a dizer, uma questão mercadológica se imporia: Os livreiros e os editores não se sentiriam motivados a investir numa literatura com tão poucos leitores potenciais interessados neste setor.

O grande entrave para a inserção de uma literatura feita por ou sobre negros no mercado, muito provavelmente é o fato de as pessoas, potencialmente interessadas nesta ‘literatura negra’ ser um pequeno grupo formado por alguns poucos letrados negros mas, principalmente por leitores brancos, universitários, ditos intelectuais.

Ou seja: antes de ser racista, o mercado editorial brasileiro talvez sofra também de outro anacronismo, não menos agudo e penetrante, caracterizado por uma cena literária pífia (no sentido comercial do termo, inclusive), composta por escritores, jornalistas, livreiros e leitores ‘brancos’ (além dos poucos negros citados) conservadores, a maioria gente elitista e preconceituosa, ‘diferenciada’ que, eventualmente consome certa literatura “negra”, muito parcimoniosamente.

Um mercado restrito por conta de seu elitismo ainda colonial. Um mercado que vê com muita má vontade a sua própria popularização, tornando o seu produto (o livro) inacessível para muitos de seus leitores potenciais, os quais despreza por puro elitismo. Estes leitores ‘diferenciados’ (a clientela atual) seriam por sua vez tutelados em seu gosto literário por uma casta corporativista formada por acadêmicos e críticos especializados do mesmo modo… brancos.

O que os interessados na fruição de uma literatura feita por ou sobre negros precisam enxergar, é que do outro lado do muro editorial convencional, sem acesso a ele, alijado, desprezado está o tal público potencial, composto por uma massa impressionante de consumidores. Ocorre que os interesses literários e a cultura dessa massa de leitores potenciais, não se encontra, necessariamente expressa nesta literatura dita negra que é às vezes tão arrogante quanto academicista, no sentido estético da expressão.

A conclusão é que existe uma contradição instalada entre esta dita Literatura Negra e aquele que deveria ser o seu público preferencial: os negros comuns, uma contradição de natureza estética, temática, mas ideológica também, se bem me entendem.

O nosso público potencial é, pois, paradoxalmente em sua esmagadora maioria gente que não lê o que essa Literatura Negra pretende que ele leia (afinal, convenhamos negros comuns, em geral, mal leem jornais populares). Trata-se de uma contradição de classe entre certa literatura e determinado leitor, portanto. Considerando ser ínfimo o universo de pessoas letradas no Brasil – e falo apenas daquelas que consomem livros- é de se supor que o processo de aferição desta produção literária negra – no aspecto da crítica especializada mesmo, tão sintomaticamente omissa – tenha problemas importantes no que diz respeito à sua validade e pertinência.

Imagino que já se contem às centenas as teses acadêmicas, dissertações e artigos, versando sobre o assunto Literatura Negra. Não há, contudo, livreiros ou editores negros controlando, contudo, a natureza do processo que seleciona monitora e legitima os nomes e as temáticas votados para integrar estas listas e antologias. Talvez seja necessário lutar, isto sim, pelo controle desse processo de aferição da produção literária do setor no momento realizado, exclusivamente pelo meio literário hegemônico (branco)

Esta repercussão destes textos fortuitos se dá, geralmente por meio da divulgação em resenhas e matérias de jornal, etc. sabe-se lá por conta de que critérios. Isto sem nos esquecermos de ressaltar o meio de divulgação principal para a fruição de textos deste tipo que são (ou foram, principalmente nas décadas de 1970/80) as iniciativas voltadas para um mercado alternativo, edições caseiras, venda de mão em mão, etc. como foi caso do luminoso grupo “QuilombHoje”, plataforma inicial de muitos autores destas listas periódicas.

Enfim, um universo de amplitude um tanto restrita, infelizmente no qual os agentes, os responsáveis pela escolha e a legitimação dos nomes que constam nestas listas, os juízes desta ‘canonização’ afro descendente, aqueles que decidem o que é ou não é  ‘negro’ do ponto de vista literário, são uns poucos doutores e editores que exercem um papel decisivo, que mais restringe do que deixa fluir textos desse segmento (até porque, muitas vezes são, eles próprios, apesar de brancos, também autores de textos deste setor)

Estou sugerindo, portanto – e ouso afirmar, diretamente – que a instância que legitima ou que torna, de certo modo canônica certa literatura produzida por negros (ou relativa a temáticas ligadas a questões da negritude) não é, de modo algum, a que chamado “Movimento Negro” necessita dar apoio e fruição, mas sim a mesma instancia que legitima toda a produção literária nacional ou seja: É o Meio Literário…”branco” e a Academia… ’branca’ qe determinam o que é Literatura Negra, uma contradição – permitam-me dizer – de natureza colonial.

Esta é a grande contradição, o paradoxo no qual por sua própria conta o setor denominado “Literatura Negra” está envolvido, ao tentar criar um mundo literário negro á parte.

Estou propondo que a legitimidade destas listas e antologias precisa ter a sua relevância relativizada – ou mesmo questionada – porque existe um caráter claro de legitimidade tutelada, caracterizado por sugestões subalternizadas, uma contradição instalada aí que faz com que seja o ‘agente’ desta cultura hegemônica –  supostamente racista e excludente – a mesma instancia que decide QUEM – e o que– é Literatura Negra.

Dizendo em português claro: Ao se isolar num gueto literário e mal definido chamado “Literatura Negra”, estamos autorizando que o mercado literário geral, …branco”, decida O QUE desta produção vai ser posto no mercado (bem entendido que não existe um Mercado Literário negro significativo, á parte!)

Há que se considerar também (e este é o cerne da minha proposta de debate) outros problemas ligados ao conceito ‘Literatura Negra’ como, por exemplo: Porque não se fazer uma crítica menos complacente dos conteúdos e estéticas que costumam predominar?

É compreensível que, na falta de um mercado para o escoamento desta literatura afro descendente quase sempre emergente e amadora ela – seus autores – se feche e se volte para dentro de si mesma, assumindo esta tendência para a criação de um público leitor exclusivamente negro, idealizado, cliente de um mercado ‘a parte’, sonhado.

Mas é preciso encarar que isto é uma utopia em todos os termos, pois vivemos num país com a estratificação sócio racial arraigadamente excludente, o que sugere que a auto exclusão jamais será solução para se mudar o status quo algum, muito pelo contrário (a não ser que, mudar o status quo não seja o objetivo dos envolvidos no setor )

Aceitar, pois, a separação do mercado entre leitores negros e brancos como sendo uma fatalidade incontornável, uma contingência irreparável de nossa sociedade, a ponto de se almejar a criação de uma literatura, uma cultura exclusiva para negros, não me parece que seja uma solução, uma possibilidade plausível de jeito nenhum para um mercado potencial tão pleno de oportunidades represadas.

É por isto, penso eu, que para que este problema específico da penetração de obras de autores negros no mercado literário brasileiro se resolva, para que cesse esta inaceitável ausência de literatos negros na praça será preciso que esta literatura feita por negros, emergente, pulsante (toda ela e não apenas àquela chancelada por bancas acadêmicas ou militantes), seja lida, revista e avaliada por todos, exercitada, testada, comentada, resenhada amplamente, retirada para fora do gueto enfim, por meio de ações amplas, abertas para todo o meio literário do país.

Por outro lado, acho que – com as exceções de praxe – falta também a esta Literatura dita ‘Negra’ – às suas temáticas bem entendido – um comportamento mais ostensivo de enfrentamento social, contra cultural mesmo, mais ousadia para partir ‘para cima’ das editoras e livrarias, como se diz, para o desafio, o confronto, para a disputa invasiva de espaço no mercado literário (uma disputa estética, inclusive), apostando no valor estratégico da qualidade em vez de insistir nesse retraimento auto imposto, esta autoexclusão envergonhada tão ineficiente e inoportuna.

É preciso sair, pois, deste armário temático, do gueto cômodo da expressão de uma negritude recorrente, previsível, supostamente étnica, baseada na exaltação de mistificações e mitologias banais, religiozistas, num universo temático folclórico no mau sentido, que acaba obtendo projeção apenas nas teses acadêmicas mais solidárias com a ‘causa negra’, ou em círculos afro-militantes mais fechados, os quais, por conta deste isolamento compulsório, acabam sendo temáticas por demais autorreferentes, autorreverentes, auto complacentes enfim.

Machado de Assis, Lima Barreto, Paulo Lins, Nei Lopes, Carolina Maria de Jesus, Djamila Ribeiro e Conceição Evaristo (a novata na lista, com mais de 70 anos) para falar apenas nos mais conhecidos ou festejados e tantos outros mais ou menos afro-centrados, não deveriam ser lidos, resenhados, criticados, categorizados apenas como ‘literatos negros’, ‘escritores afro descendentes’ como se diz por aí, com certo mal disfarçado e rançoso paternalismo.

O que se precisa avaliar de verdade e com isenção é quem entre estes literatos negros , são realmente excelentes.

Machado de Assis e Lima Barreto – e o velho exemplo de Alexandre Dumas que usei lá em cima – cada um a seu modo, são exemplos evidentes de que a qualidade se sobrepõe a tudo, mais cedo ou mais tarde se houver mobilização e ação.

Eles extrapolaram os limites – e a tutela – que foram impostos à literatura deles e são hoje o que são: Grandes escritores negros, de algum modo voltados para expressar a sua condição de negros sim, mas, antes de tudo grandes escritores da humanidade. De toda a humanidade.

Como? Não sei. Editores, livreiros, críticos, pessoas do ramo, negros ou brancos por favor, manifestem-se.

Spirito Santo
6 de Novembro 2018.

AMK – O Auto do Manoel Kongo – Spirito Santo



Resenha


História, Teatro e Turismo cultural
Uma experiência


Originalmente, o projeto de encenação do Auto do Manoel Kongo, foi concebido no contexto de um trabalho de ação cultural, desenvolvido junto com animadores culturais da Secretaria Especial de Programas Especiais do Estado do Rio de Janeiro, (Cieps), no âmbito dos municípios do Sul Fluminense (Vale do Rio Paraíba do Sul). Sob a orientação geral da musicóloga Cecília Conde e a inspiração do antropólogo Darcy Ribeiro, o programa de Animação cultural em Cieps, foi um formidável esforço de arte educação que abrangeu uma rede de centenas de escolas, entre os anos de 1982 e 1996.

Proposto pela coordenação de animação cultural da área (função que o autor desempenhava na ocasião) pretendeu-se com esta ação unir os esforços de diversas instituições oficiais, municipais, estaduais e federais, num amplo esforço, que servisse para estimular estratégias de turismo cultural (a exemplo do que ocorre em cidades como Nova Jerusalém, no nordeste), talvez uma das poucas alternativas para a (na época) combalida economia desta região fluminense.

Assim, constatando-se ser o passado histórico, representado, entre outras coisas, pela bem preservada cultura tradicional da população local, a única herança pública deixada pela decadência em que o Vale mergulhou com o fim dos áureos tempos do café, buscou-se um tema que, conjugando o rico patrimônio histórico e arquitetônico das cidades do local, servisse de subsídio para a elaboração de um texto para um auto teatral, que pudesse ser encenado nas ruas de uma cidade da região.

Sem muita dificuldade, o coletivo de animadores culturais optou pela história do Quilombo de Manoel Kongo e pela cidade de Vassouras, palco deste que é, sem dúvida, o evento histórico mais importante e abrangente, ocorrido naquela região quando de seu apogeu e, talvez em todos os modorrentos tempos que se seguiram.

Por conta de diversos fatores e percalços, as circunstâncias da época (1996) acabaram por tornar inviável a primeira tentativa de montagem do espetáculo que, do ponto de vista artístico, já estava em fase bastante adiantada (ensaio geral)

Dentre estes percalços, além dos problemas apresentados, à última hora, pela empresa que produzia o evento, foram também significativos (embora não determinantes), os problemas encontrados para se sensibilizar os empresários e fazendeiros da região quanto à pertinência do conceito de ‘Turismo Cultural’ que defendíamos, que não omitia alusões óbvias ao passado escravocrata da cidade, que, não podendo ser omitidas da trama do espetáculo, por serem a sua chave dramatúrgica, de certo modo constrangiam a estratificação social da região, como no tempo de Manoel Kongo, ainda hoje quase que inalterada, com muito nomes de tradicionais famílias da aristocracia cafeeira, citados no texto do auto como escravocratas empedernidos no passado, figurando ainda no quadro de poder local em prefeituras, câmaras e secretarias.

Tendo o seu texto baseado nos autos de condenação de Manoel Congo, reproduzidos no livro ’Insurreição negra e Justiça’ de João Luiz Duboc Pinaud e outros autores, a encenação abortada, contou também com o inestimável apoio do pesquisador vassourense Paulo Mandaro, da arquiteta Isabel Rocha (diretora do Iphan da área), da direção do Ciep de Vassouras na época, além dos cerca de 30 animadores culturais da região que envolvia, além de Vassouras e entre outras, as cidades de Paraíba do Sul, Rio das Flores, Paracambi, Paty do Alferes, Barra do Piraí, Valença e Pinheiral.

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A Forma

O Auto do Manoel Kongo foi escrito em 1996, especialmente para ser apresentado em cenários naturais, originalmente o perímetro urbano de Vassouras ou de outra cidade histórica qualquer, localizada no Vale do rio Paraíba do Sul, no estado do Rio de Janeiro.

O roteiro do espetáculo obedece às condições gerais do espaço previsto para a encenação: Ruínas, sacadas de prédios históricos, trechos de rua, chafarizes ou quaisquer outros pedaços de passado preservado, que possam compor a cenografia (ou a geografia) do espetáculo.

O roteiro original propõe também a participação de grupos culturais da periferia da cidade (música e dança tradicionais) tanto no contexto dramático do espetáculo, quanto em eventos paralelos, à cargo de instituições e agentes culturais locais.

No elenco proposto, parcialmente, integrado por atores profissionais, está prevista também a participação de um número considerável de figurantes (não atores), recrutados entre a população local.

Como peça de divulgação (folder e programa) do espetáculo, o programa propõe a edição especial do tablóide fictício ‘ A Voz da Comarca’, a ser amplamente distribuído na região,a partir da semana que antecede ao espetáculo. Desta edição do tablóide (que reproduz um jornal do século 19), constará além da ficha técnica e demais informações sobre o espetáculo, peças de publicidade dos patrocinadores.

Para a véspera do espetáculo, também como estratégia para a divulgação do evento, o roteiro prevê a encenação de diversas situações do cotidiano de uma cidade do Vale, no século 19, com figurantes espalhados por ruas e espaços onde o auto será encenado .

Do mesmo modo, o programa sugere aos agentes culturais locais, a promoção de passeios de charrete (com cocheiros vestidos a caráter) e visitas guiadas às fazendas da região (com a possível realização de saraus de música popular ou erudita)

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A História

Com o esgotamento do ouro nas Minas Gerais, a economia brasileira se deslocou para o Vale do Paraíba do Sul, no Rio de Janeiro. O posterior esplendor da região, com seu eixo localizado na Vila de Paty do Alferes e, logo em seguida, na Vila de Vassouras, alavancou o desenvolvimento do Brasil por quase todo o século 19.

O signo principal deste ciclo de desenvolvimento era o café, mercadoria com enorme importância no mercado internacional do período, do qual o Brasil foi, durante muito tempo, o maior produtor.

Brasil e sua economia dependiam, no entanto, de outra mercadoria, ainda mais essencial do que o café; A força de trabalho do escravo africano.

Ambos negros, escravo e café, fizeram algumas das maiores fortunas do mundo da época, fortunas estas que, concentradas quase todas na região do Vale do Paraíba do Sul, geraram a sociedade dos chamados ‘barões do café’, nababesca e prepotente, assentada numa estrutura social sem povo, composta, basicamente, por aristocratas e escravos.

Seqüestrados de Angola, Congo, Moçambique e trazidos a partir, principalmente, do porto de Luanda para serem vendidos no mercado do Valongo, próximo ao porto do Rio de Janeiro, os africanos que, depois de longa jornada a pé, chegavam à plantações de café do Vale do Paraíba, acabaram se tornando, não só um elemento essencial para a economia local mas também, como se pôde concluir mais tarde, num elemento capaz de ameaçar a própria segurança física daquela sociedade.

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A Trama

Em 6 de novembro de 1838, o africano Camilo Sapateiro, escravo da fazenda freguesia foi morto a tiros, quando se dirigia, clandestinamente, à fazenda Maravilha, ambas pertencentes ao maior proprietário de escravos e principal autoridade da comarca: o Capitão-Mor Manoel Francisco Xavier. O assassino, um capataz da fazenda, quase foi linchado pelos escravos.

O que pretendia fazer Camilo Sapateiro na fazenda vizinha quando foi morto? Teria sido a sua morte, pelo capataz (um incidente algo corriqueiro na rotina escravista), a verdadeira razão da insurreição de escravos de tão grandes proporções, que se seguiu?

De roldão, os escravos rebelados, divididos em dois grupos, saquearam as duas fazendas do Capitão-Mor e fugiram para a mata próxima. Num ponto, ao que tudo indica, previamente combinando desta mata, um dos grupos se encontrou com um número indeterminado de escravos de outras fazendas, além das duas de propriedade do Capitão-Mor.

A imediata adesão de escravos de outras fazendas chama, fortemente, a atenção para a possibilidade de ter havido algum tipo de articulação prévia entre os rebelados.

O fato é que, um grande grupo se embrenha na mata, rumo a alto da Serra da Estrela, montando um arranchamento para pernoite, á cada fim de tarde do trajeto da fuga.

Perseguida por tropas da Guarda Nacional e homens recrutados pelo juiz de paz da comarca, uma parte deste grupo é atacada e dominada, quando ainda dormia, no quarto dia de fuga. Tropas do Exército Imperial, convocadas às pressas, comandadas pelo então Capitão Luiz Alves de Lima e Silva, futuro Duque de Caxias, só chegam na área do conflito quando tudo já havia terminado.

No grupo de escravos derrotados, está o suposto chefe da insurreição, denominado ‘Rei’, Manoel Congo, ferreiro da fazenda Maravilha e uma mulher, denominada ‘Rainha’, a costureira Marianna Crioula, escrava de confiança da senhora dos escravos das fazendas Maravilha e Freguesia, Dona Elisa Xavier. A um escravo morto na refrega, mas, não identificado nos autos, é atribuída a função de ‘Vice-rei’ da insurreição e do futuro suposto quilombo. Este escravo pode ser identificado, nas entrelinhas dos autos, como sendo o africano de nação Munhambane Epifânio Moçambique.

Um número indeterminado de negros do grupo atacado consegue se embrenhar na mata, serra acima e dele não se tem mais notícias. Não se tem notícias também do segundo grupo, comandado por um escravo chamado João Angola que, não estando presente no ponto de encontro com o ‘Rei’, nem presente no momento do ataque, foi visto no dia anterior prestes a assaltar a fábrica de pólvora da região, desaparecendo por outro caminho, rumo á Serra do Couto, próxima à Serra a Estrela, aparentemente, o destino final de todos os rebelados.

Pode-se, por estas evidências, entre outras surgidas na pesquisa, supor que os relatos que dão conta da existência de um quilombo na região, jamais desbaratado, são factíveis.

A despeito destas evidências, a maioria dos proprietários alegou que seus escravos retornaram, espontaneamente, à suas fazendas, mas, não existem registros seguros dando conta de quantos, efetivamente, fugiram e retornaram. A alegação livrava os fazendeiros das pesadas custas processuais, caso tivessem negros de sua propriedade (e responsabilidade) arrolados como rebeldes. O peso total destas custas processuais acabou recaindo sobre o Capitão-Mor Manoel Francisco Xavier, que, depois dos escravos presos e condenados, passa a ser a principal vítima dos incidentes.

De um total de cerca de trezentos escravos fugidos e rebelados, apenas vinte e três (todos pertencentes a Manoel Francisco Xavier) são aprisionados (sete haviam sido mortos na refrega). Destes vinte e três presos, sete são mulheres (é significativo, do ponto de vista logístico, o fato deste grupo de presos, a maioria feridos na refrega, ser aquele onde estavam a maioria das mulheres e, provavelmente, os homens mais velhos e as crianças).

Cerca de dezesseis presos deste grupo são, efetivamente, julgados. A maioria é condenada, com uma única exceção: o escravo Adão Benguela que, apesar de estar tão envolvido quanto todos os outros nos conflitos, é estranhamente absolvido.

O suposto ‘Rei’ Manoel Congo’, é condenado à forca e executado em 1839 em Vassouras.

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Os Antecedentes

A observação acurada – e crítica – de fatos descritos em documentos da época, principalmente os autos do processo montado na ocasião, contendo os depoimentos dos escravos presos, pequenos indícios ou omissões aparentemente deliberadas, contradições entre os depoimentos, etc., formam a base principal utilizada para a elaboração deste texto teatral. Formam também a base de dados da pesquisa, textos esparsos, de outras fontes e um raro e inestimável relato, ao vivo, extraído pelo autor de uma entrevista (veja neste link) por ele realizada em 1975, com uma ex-escrava de uma das fazendas da região, que ali viveu, alguns anos após os incidentes descritos pelos autos.

A intenção foi, portanto, construir a trama, mais ou menos como uma reportagem (‘Teatro-Verdade’, talvez fosse o conceito mais apropriado) sempre que possível, a partir de dados verídicos, mais ou menos à maneira de uma reconstituição policial.

Com efeito, coisas muito inusitadas ocorriam naquela região nesta época de grande efervescência social.

Segundo dados descritos na crônica da cidade de Vassouras, um ano antes da fundação da vila, ocorrida em 1833, um grupo de proprietários criava a Sociedade Promotora da Civilização e da Indústria, de verniz positivista, e dedicada, entre outras coisas, à formação de artífices escravos, como mão de obra especializada, com o fim de possibilitar a manutenção de equipamentos, até então, feita por engenheiros vindos da Inglaterra e até – suprema ousadia – iniciar talvez a própria substituição da importação de máquinas e ferramentas agrícolas que, oriundas da Europa, obviamente com a mão de obra dos escravos-operários especializados, formados pela SCPI, passariam a ser fabricadas por aqui mesmo.

Ferreiros e marceneiros eram as principais especialidades indispensáveis à incrível proposta desenvolvimentista da SCPI. Os artífices a serem treinados, seriam recrutados, por seus proprietários, entre os seus escravos mais hábeis e inteligentes.

A mais incrível das coincidências era que o ofício de ferreiro era, ainda nesta época, a partir de uma tradição africana que remonta o século 15, uma ocupação exclusiva de reis e nobres, um status de poder hierárquico superior na cultura dos Kimbundos, grupo étnico angolano que, em grande maioria, contribuiu com escravos para as plantações de café do vale do Paraíba do Sul.

Sabe-se pelas mesmas fontes que, um ano depois (por volta de 1834), uma curiosa sociedade secreta, composta por negros escravos e libertos, com uma elaborada estrutura, havia surgido em Vassouras, quatro anos, portanto, antes da insurreição de Manoel Congo. Esta ‘insidiosa’ organização, segundo foi descrito por esta mesma crônica da Cidade de vassouras, andava ruminando um levante que pretendia libertar todos os escravos da área.

Somente nove anos depois, ou seja, em 1847, a tal organização secreta pode ser desbaratada. Os registros policiais da ocasião, afirmaram que ela se autodenominava Elbanda (Embanda, mais propriamente talvez, por ser a expressão o mesmo que sacerdote ou médico no idioma de origem) e era formada por núcleos ou células clandestinas, dirigidas, obrigatoriamente, por escravos ferreiros e marceneiros, chamados pelos outros escravos de ‘Pais’ (ou ‘Tatas’) Korongos.

Também curiosamente, pesquisas bem recentes sobre a cultura dos Kimbundos, nos dão conta que era por demais comum na sociedade angolana do século 19, a proliferação de seitas e sociedades secretas, por diversas motivações, prática que pode ter sido seguida pelos escravos de Vassouras.

Esta emocionante reconstituição nos dá conta, enfim, de uma malha de estranhas relações, interesses e contradições, bastante incomuns na história oficial do escravismo brasileiro, estabelecidas entre proprietários e escravos, escravos entre si, além de proprietários, do mesmo modo entre si. Um impressionante conflito humano sacudindo os alicerces daquela sociedade imperial, questionando o seu anacronismo. Matéria pura para teatro. Drama.

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Você vai poder ler num próximo momento, neste mesmo site, o texto completo deste emocionante Auto do Manoel Kongo, cuja extensa resenha disponibilizamos aqui.

Saiba desde já, contudo, que para a felicidade geral da nação (mesmo que incomode a alguns poucos) toda história que precisa ser contada, mais cedo ou mais tarde o será.

O Quilombo do Manoel Kongo vive!


Spírito Santo
Agosto de 2007

A Rota dos Rebelados – As quatro estações da fuga dos quilombolas do Vale do Café


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TATA KORONGO – A Rota dos Rebelados

(Pré-Roteiro para cinemaRegistro Licença internacional Criative Commons)

Os caminhos da fuga para o Quilombo do Manoel Kongo

O filme conta, com riqueza de detalhes, a história da rebelião liderada por Manoel Kongo e Marianna Crioula, entre outros,  ocorrida em 1838, na região do Vale do Paraíba do Sul, sob o ponto de vista da estratégia da rebelião, possivelmente já planejada com antecedência. 

TATA KORONGO, traduzido do Kikongo, faz referência à liderança partilhada entre as aves migratórias, uma alusão à fuga e ao sistema filosófico que a inspirou.

A história nos é contada pelo pesquisador Spirito Santo, que refaz o caminho percorrido pelos rebelados em sua fuga articulada de algumas fazendas,fuga esta que visava, segundo várias fontes, alcançar a Serra da Estrela para ali fundar um quilombo. 

TATA KORONGO – A Rota dos Rebelados

Os caminhos da fuga para o Quilombo do Manoel Kongo

A Trama

Em 6 de novembro de 1838, o africano Camilo Sapateiro, escravo da fazenda Freguesia foi morto a tiros, quando se dirigia, clandestinamente, à fazenda Maravilha, ambas pertencentes ao maior proprietário de escravizados e principal autoridade da comarca: o Capitão-Mor Manoel Francisco Xavier. O assassino, um capataz da fazenda, quase foi linchado pelos escravos.

Terria sido a morte de Camilo pelo capataz (um incidente, algo corriqueiro na rotina escravista), a verdadeira razão da insurreição de escravos de tão grandes proporções, que se seguiu?

De roldão, os escravos rebelados, divididos em dois grupos, saquearam as duas fazendas do Capitão-Mor e fugiram para a mata próxima. Num ponto, ao que tudo indica, previamente combinando desta mata, um dos grupos se encontrou com um número indeterminado de escravos de outras fazendas, além das duas de propriedade do Capitão-Mor.

A imediata adesão de escravos de outras fazendas chama, fortemente, a atenção para a possibilidade de ter havido algum tipo de articulação prévia entre os rebelados.

O fato é que, um grande grupo se embrenha na mata de Santa Catarina rumo ao alto da Serra da Taquara ou da Estrela, montando um arranchamento para pernoite, á cada fim de tarde do trajeto da fuga.

Perseguida por tropas da Guarda Nacional e homens recrutados pelo juiz de paz da comarca, uma parte deste grupo é atacada e dominada, quando ainda dormia, no quarto dia de fuga. 

Tropas do Exército Imperial, convocadas às pressas, comandadas pelo então Capitão Luiz Alves de Lima e Silva, futuro Duque de Caxias, só chegam na área do conflito quando tudo já havia terminado.

No grupo de escravos derrotados, está o suposto chefe da insurreição, denominado ‘Rei’, Manoel Kongo, ferreiro da Fazenda Maravilha e uma mulher, denominada ‘Rainha’, a costureira Marianna Crioula, escrava de confiança da senhora dos escravos das fazendas Maravilha e Freguesia, Dona Elisa Xavier.

A um escravo morto na refrega, mas, não identificado nos autos, é atribuída a função de ‘Vice-rei’ da insurreição e do futuro suposto quilombo. Este escravo pode ser identificado, nas entrelinhas dos autos, como sendo o africano de nação Munhambane (moçambicano) Epifânio Moçambique.

Um número indeterminado de negros do grupo atacado consegue se embrenhar na mata, serra acima e dele não se tem mais notícias. Não se tem notícias também do segundo grupo, comandado por um escravo chamado João Angola que, embora não estando presente no ponto de encontro com o ‘Rei’, nem constando no rol dos presos no momento do ataque, foi visto no dia anterior prestes a assaltar a fábrica de pólvora da região, desaparecendo por outro caminho, rumo á Serra do Couto, próxima à Serra a Estrela, aparentemente, o destino final de todos os rebelados.

Pode-se, por estas evidências, entre outras surgidas na pesquisa, supor que os relatos que dão conta da existência de um quilombo na região, jamais desbaratado, são factíveis.

Fases da história/Locações/Sinopses da narração.

1- Exterior, Noite / Vista aérea, noturna da Fazenda Freguesia 

Tomada aérea da região da fazenda da Freguesia, onde foi deflagrada a rebelião. Circula pela área da Casa Grande e vai descendo até ao narrador.

2- Exterior noite / Pátio da Fazenda da Freguesia

 

Narrador descreve o assassinato de Camilo Sapateiro, tumulto, interpelação do senhor por parte dos escravos. Fuga. 

Narrador começa a contar a história no pé da escada da Casa Grande, na qual os escravos subiram com o corpo de Camilo e admoestaram o Senhor. Trecho da narração se encerra com o narrador seguindo o caminho da estradinha até pórtico do portão de saída da fazenda.

3- Exterior Dia / Local onde foi a Fazenda da Maravilha (palmeiras) 

Saque e tentativa de assassinar o feitor. Fuga de dois grupos (frisar) 

Narrador no local exato onde ficava a casa grande caminha durante a narração

4- Exteriores Dia / Mata de Santa Catarina

Seriam três pontos principais das rotas: (Usar panorâmicas aéreas e zoom em pontos onde estará o narrador)

Um grupo precursor, com Manoel Congo, Marianna e Epifânio segue, com mulheres velhos e crianças direto para a Serra da Estrela. O outro grupo segue, ao mesmo tempo para a Serra do Couto, pretendendo depois seguir para a Serra da Estrela, ponto, provavelmente escolhido para o quilombo final. 

Parte do grupo de Manoel Congo foi capturado (Epifânio Moçambique, o “vice rei” morre aí) , mas a maior parte do grupo escapa e, em grande parte pode ter seguido para o destino final. 

5- Exteriores Dia / da Mata de Santa Catarina – 

Combate no último arranchamento, prisão e morte de dois Voluntários da guarda nacional e um escravizado.

6- Exterior Dia / Cadeia

Leitura do narrador de partes do processo, copiado em PDF do original. Inserts de trechos do PDF e flashs de enforcamentos de condenados escravizados.

7- Exterior Dia / Largo da Forca/ Memorial Manoel Congo – 

Enforcamento com descrição humanizada das reações da população, obtida em relatos atuais e opiniões dos senhores de escravos e/ou descendentes desses senhores. 

8- Exterior Dia / Serra do Couto 

Um ponto descoberto na matéria de Tim Lopes com flashs da matéria. Hipótese do quilombo perene com lista dos rebeldes que sumiram do processo é afirmada com citação de argumentos convergentes de fontes idôneas.

Spirito Santo

Outubro 2020