Musikfabrik e múltiplas linguagens


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Musikfabrik e múltiplas linguagens

Tema: Palestra para Canal Futura realizada em Teresópolis 02/Julho 2010 

(O texto expresso na verdade pela exibição do filme do projeto (veja o link) e por um curto e delicioso papo com a platéia de educadores negros renidos pela Futura, obviamente, não foi este mas para efeito de uma eventual publicação foi este o texto que enviei para os organizadores)

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Sob o curioso nome de Musikfabrik (ou ‘Fábrica Livre de Construção Musical e Outros  Estranhos Produtos do Som’) o músico e arte educador Spírito Santo idealizou em 1995 na Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) uma oficina de arte que acabou virando um curso, o qual por conta do sucesso obtido, se transformou por fim numa espécie de projeto de extensão de fato, com inovadoras e especiais características, que já dura 15 anos (na verdade 20 anos neste ano Nota de 2015)

Aprendendo e ensinando, especializando-se na pesquisa e no exercício da linguagem musical aplicada como ferramenta pedagógica adaptada às mais variadas finalidades e circunstâncias o Musikfabrik a partir de então vem capacitando músicos, artesãos, musicoterapeutas, atores de teatro e circenses, arte educadores, educadores sociais, professores e diversos outros tipos de profissionais interessados na busca de novas maneiras de se inserir a música na educação, no trabalho, na inclusão de crianças e jovens, na vida social e cotidiana enfim. O método aplicado é a parte mais inusitada da pedagogia do Musikfabrik:

Aprende-se a partir do contato físico com a música, ou seja, todos os conteúdos (física  elementar – acústica, mecânica, etc. – além de história, etnologia, organologia, etc.) são  repassados durante o processo de criação e/ou recriação artesanal de instrumentos de música das mais variadas origens (alguns até mesmo inventados pelos alunos).

A partir de 1999 o projeto decidiu formar com alunos um grupo musical representativo de seu trabalho, mas que tivesse um perfil realmente artístico e não exatamente apenas ‘institucional’ como as bandas de projetos sociais mais convencionais.

Alexandre Gabeira formando do curso em Comunicação Social na Uerj em 2001, escolheu o Musikfabrik e as suas características acima descritas, como tema para o seu trabalho de fim de fim do curso de comunicação social na própria Uerj, flagrando um período especial desta fase do projeto.

Fábrica Livre de Construção Musical e outros estranhos Produtos do Som

Entreveros nas entrelinhas

Em 2001, mesmo ano da realização deste filme, a Uerj por intermédio de sua Sub-Reitoria de Extensão e Cultura (SR3) decidiu admitir o Musikfabrik oficialmente como um projeto de extensão de direito. Os detalhes inusitados desta experiência introduzida na universidade em 1995, iniciada, porém muito tempo antes, em meados da já distante década de 1970, pelo Grupo Musical Vissungo (do qual, como vimos o Musikfabrik é o legítimo sucessor) é especialmente emblemática neste momento quando, no ensejo da aplicação da lei 10.639 se admite enfim discutir, com alguma profundidade a intrínseca relação existente entre Cultura, Educação e exclusão sociorracial no Brasil.

Como se pode observar mais atentamente agora, grande parte dos enormes desafios estruturais que a Educação brasileira enfrenta hoje estão de algum modo relacionados à maneira como lidamos com questões ligadas à qualidade de nosso programas educacionais. Neste particular o papel de metodologias e tecnologias baseadas na inovação tem sido bastante ressaltado.

Há que se ressaltar do mesmo modo, contudo que no bojo destas inovações, o papel de dispositivos de linguagem ‘informais’, extraídos de nossa própria cultura – exatamente aqueles que foram, por tanto tempo, desqualificados e rejeitados pela academia convencional – deverão daqui para frente se tornar cruciais – ou mesmo decisivos.

A questão é antiga: Cultura e Educação são – ou deveriam ser – instancias aparentemente afins, uma quase reflexo da outra num curioso vice-versa, contudo, estranhamente (numa espécie de conflito de linguagem, falha de comunicação, um ‘problema de relação’, diríamos), costumam estar, completamente dissociadas entre si na prática.

O caso do Musikfabrik é particularmente significativo neste aspecto.

Até então uma vaga proposta, ainda sem nome na ocasião, com algum viés ‘construtivista’ (um modismo teórico na década de 1990), em condições normais e a princípio, o Musikfabrik poderia ter sido visto no momento de sua inserção na universidade, como uma ação cultural curiosa e inusitada, cheia de novidades interessantes no que diz respeito à oxigenação, ao lançamento de alguma luz sobre problemas socio-pedagógicos importantes, no campo do que se chama hoje de ‘múltiplas linguagens’ (na época falava-se em ‘múltiplas inteligências’, o que pode significar a mesma coisa). Uma experiência típica de extensão universitária propriamente dita (identificada, aliás com o espírito das correntes acadêmicas mais avançadas da época).

No entanto, mesmo observando a eventual índole progressista destas correntes acadêmicas na época, considerando-se que, nem mesmo a questão das Cotas Raciais na Educação havia ainda sido realmente posta em discussão, o fato é que, por razões de algum modo previsíveis, a proposta Musikfabrik não foi assimilada facilmente como uma inovação em si, não sendo nem mesmo associada, de algum modo à Arte Educação ou a questões educacionais mais recorrentes.

Para escapar desta armadilha do contexto a proposta tinha, portanto que contornar importantes e complicados entreveros:

Pra começar, num ambiente tipicamente elitista, o currículo da experiência carregava em si o ‘estigma’ de ser uma ação calcada na cultura ‘tradicional’ brasileira (categoria na qual, de forma reducionista, se classifica o artesanato e a música ‘popular’) e – o que é pior – profundamente voltada para a pesquisa e a difusão da chamada ‘Cultura Afro-Brasileira (aspecto que, só agora com uma lei específica o Estado brasileiro começa a admitir como sendo fundamental à evolução de nossa Educação)

Estes dois fatores, à luz da citada arrogância elitista e dos preconceitos ainda hoje típicos de certos setores de nossa academia, desqualificariam todas as eventuais qualidades metodológicas inovadoras da proposta, lançando-a no limbo, no gueto onde se costuma isolar manifestações culturais deste tipo: O lugar do negro, o ‘folclore’ residual e ‘primitivo’, o ‘objeto’ – e nunca o ‘sujeito’- de estudo’.

Foram estas algumas das sutis entrelinhas que envolveram o processo de inserção do Musikfabrik na Uerj de sua implantação acidental em 1995 até a sua aceitação como projeto de extensão de fato em 2001.

Musikfabrik graduando

Para começar, as experiências anteriores informavam que a entrada de uma proposta de semelhantes características num ambiente universitário, naturalmente – embora sub-repticiamente – racista, por mais hospitaleira que estivesse sendo a acolhida, atrairia algum tipo de reticência. Na verdade os preconceitos eram inúmeros e tiveram que ser meticulosamente identificados e avaliados um a um, passo a passo.

O desafio de ser assimilado por um contexto (a universidade) que era, ao mesmo tempo, hospitaleiro e hostil (receptivo ao conteúdo original e moderno da proposta, porém reticente quanto a determinados aspectos de sua estética, de sua forma, foi ironicamente o fator mais positivo, o mais estimulante de todo o processo, aquele que abriu de vez o caminho para que a experiência escapasse das travas do meio.

(É bastante provável que no curso da aplicação da lei 10.639, no ensejo da identificação de metodologias adequadas à presente realidade, as novas demandas político pedagógicas surgidas no processo tenham que se valer de experiências culturais menos convencionais como neste caso.)

O primeiro ‘insight’ – político estratégico pode-se dizer – do Musikfabrik foi de início não deixar transparecer, explicitamente, nada de ‘tradicional’, ‘popular’ ou ‘afro-negro’ na denominação do projeto. Vem daí, desta tática sutil a escolha do germânico e sonoro nome ‘Musikfabrik’ (fábrica de música).

Vem daí também a escolha de um dístico ambiguamente  ‘construtivista’ (‘fabrica livre de construção musical e outros estranhos produtos do som’), ao contrário de outras enfáticas – e neste caso ingênuas porque panfletárias – declarações de militância sócio racial.

Cuidava-se também neste caso, de ocultar um aspecto que, curiosamente também causava certa ojeriza na clientela universitária típica: A relaçao intrínseca da metodologia com técnicas de trabalho manual, artesanal, funções normalmente associadas ao trabalho de serviçais subalternos – negros no caso – o vício traumático e renitente da aversão ao trabalho físico, (‘desqualificado‘, ‘inferior‘) em relação ao trabalho intelectual (‘especializado’, ‘superior’), um resquício evidente de nossas relações sociais no tempo da escravidão.

Sem alterar em nada a ideologia e os seus conteúdos originais, a proposta ganhou assim trânsito mais fluente no ambiente universitário, já que passava a ser identificada – pelo menos no nome – como uma experiência culturalista não radical ou mesmo despolitizada, no sentido sócio racial do termo.

Musikfabrik doutorando

O segundo ‘insight’, mais político ainda, foi o empenho na arregimentação, no âmbito da própria universidade, de aliados estratégicos com os quais as características metodológicas mais importantes da proposta, puderam ser traduzidas, debatidas, minimamente sistematizadas e fundamentadas, de modo a poderem ser de algum modo compreendidas e reconhecidas do ponto de vista destes agentes acadêmicos (a rigor afinados com o pensamento hegemônico da academia convencional). Tentava-se cumprir deste modo a vocação precípua de um projeto de extensão de fato para conquistar território, reconhecimento e legitimidade nos campi.

É neste aspecto em especial que o caráter linguístico da estratégia do Musikfabrik pode ser mais bem compreendido, ressaltando-se que, sendo este fator estritamente metodológico, o que vale para uma linguagem – no caso a linguagem musical – guardadas as devidas proporções, vale rigorosamente para todas as outras. As analogias entre esta experiência linguística e outras experiências de arte educação, por estas constatações, podem ser bastante diretas.

Música – e mais estritamente – Música Afro Brasileira (marca indelével da proposta do Grupo Vissungo, antecessor do Musikfabrik) percebemos durante o processo, que era um conceito tratado de forma muito demarcada, quase dicotomizada em relação a outros tipos de ‘música’, quando saía do campo da Cultura (território supostamente livre da criação humana) para o da Educação (território restrito do saber ali constituído como norma culta).

Assim, os conservatórios e as faculdades de música de forma radical, passavam – e na verdade, segundo vários relatos de alunos universitários do Musikfabrik, ainda passam – a formular os seus programas e metodologias, a partir de um conceito de Música inteiramente decalcado, imitado, ‘macaqueado’ no que se convencionou julgar como sendo música… na Europa . Uma abordagem aculturada, elitista no mal sentido, envergonhada portanto e bastante impertinente.

Não é fortuito se observar também que isto ocorre, quase que da mesma maneira, com outras linguagens não sacralizadas, como a Literatura Oral e a Medicina Tradicional, por exemplo sugerindo que o ensejo de se aplicar conteúdos relacionados à cultura negra em nossa educação convencional, de forma sistematizada como a lei 10.639 preconiza, exigirá que muito esforço sócio pedagógico seja empreendido ainda.

E esta pode ser uma das chaves da questão porque a cultura – aqui entendida como sendo um sistema de linguagens interconectáveis – diz respeito, rigorosamente a saberes construídos e praticados por todas as pessoas, todos os seres humanos, independente de sua condição ‘racial’, social, ou qualquer outra instância ou classificação artificialmente construída. Tudo no âmbito vasto da cultura humana pode ser, portanto apreendido, sistematizado e posteriormente transformado em Ciência ou Norma Culta.

(É curioso – embora providencial – que no caso da referida lei 10.639, uma constatação tão óbvia como esta, tenha que ser implementada por força de um dispositivo federal.)

Quando nos damos conta de que na formação cultural da sociedade brasileira, inúmeras outras culturas que não as da Europa compareceram em grande – e, às vezes, imensa medida como no caso da cultura africana – o problema do anacronismo dos nossos processos de ensino-aprendizagem aparece mais nítido ainda: A dicotomia criada – um falso dilema, convenhamos entre Sabedoria Tradicional e Educação Formal – o foi como instrumento de exclusão social, uma forma de, ao desqualificar a cultura de uns (no caso a maioria) tornar hegemônica a cultura de outros (no caso a minoria mandante). Um problema colonial, anacrônico demais para uma sociedade que se pretende emergente, moderna.

Os detalhes deste inusitado processo aqui sucintamente descrito, sugerindo maneiras diferentes – e menos maniqueístas ou simplistas – de se abordar e transmitir as bases elementares de alguns conteúdos educacionais mais recorrentes (história, física elementar, educação ambiental, etc) por meio de metodologias tradicionais ou não, extraídas da herança cultural africana trazida para o Brasil, é enfim a modesta contribuição que o Musikfabrik pode dar a este debate sobre múltiplas linguagens aplicadas na educação.

“Cuide dos sentidos que os sons cuidarão de si mesmos”
(‘Duquesa em ‘Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll)

SpíritoSanto
(Músico e arte educador)
02 de Julho de 2002/ notas em Julho de 2010

DO SAMBA AO FUNK DO JORJÃO Livro do pesquisador SPIRITO SANTO tem segunda edição


no

DO SAMBA AO FUNK DO JORJÃO

Livro do pesquisador SPIRITO SANTO tem segunda edição revista e aumentada!

Resenha não

Engana-se o leitor que acreditar que DO SAMBA AO FUNK DO JORJÃO — Ritmos, mitos e ledos enganos no enredo de um Samba chamado Brasil é um livro somente sobre música. É muito mais. O Spirito é outro. Descemos (ou subimos) as ladeiras da história/histórias dos Brasis, seu interior, cidades, encontros e desencontros de sons, silêncios, vozes roucas, compassos e gingas.

Spirito Santo é um dos mais criativos pesquisadores da cultura brasileira, aquela da diáspora e suas dimensões crioulas. Não ficou em laboratórios e nunca preocupado com explicações fáceis – e seus essencialismos — e de enredos românticos. Seu andamento foi pesquisa-experimentação-erudição. Conferiu bibliografia clássica, aquela acadêmica, a literatura e os registros da memória. Foi ouvir os velhos e os jovens. Uma acuidade atenta às várias perspectivas teóricas e metodológicas.

Suas jornadas já tem longa data, iniciada nos anos 70. Aqui ou acolá emergiam vozes, sons e ritmos. Experimentava muitos. Inventava outros tantos. Não fabricava só instrumentos. Mas fundamentalmente sentidos-sons. Procurava autorias, transformações, permanências e personagens.

Spirito Santo fez escola com uma metodologia própria de pensar/criar/executar ritmos alinhando percursos diaspóricos e suas entranças atlânticas. Sua persistência lhe garantiu um acervo extraordinário com entrevistas, discos, partituras e gravações desde os anos 70 com músicos, artistas, instrumentistas e personagens da musicalidade negra.

O Vissungo – conjunto criado por ele – produziu uma original trilha sonora para uma geração negra que aliou protesto, mobilização política e vontade de conhecer incontáveis afro-brasis, pertos ou distantes. O silêncio sobre este som soa estrondoso para a história do tempo-presente da diáspora, com a centralidade no Rio de Janeiro.

Spirito foi também solo e acompanhamento da sua trajetória. É reconhecido por muitos como um dos mais destacados intelectuais da sua geração. Parte da qual esquecida, posto não submissa. Não esperou aplausos e pedidos de bis, mas foi à luta. Considerado estudioso brilhante que juntou pesquisa, erudição, inquietude e criatividade nos oferece uma viagem sonora única para entender o Brasil. O de ontem e o de hoje.

É possível localizar nela – entre outras coisas – outras faces e fases do atlântico negro e das identidades culturais na melhor tradição analítica de Stuart Hall a Paul Gilroy. Desfilam partituras, cosmogramas, caxambus, jongos e congadas.

Reencontramos heróis anônimos da sua própria história. Somfos conduzidos tanto a passeios pelas Minas Gerais e seus ritmos como convidados a invadir morros e seus ruídos. Caramba, aumenta o volume!

Flávio Gomes
historiador UFRJ

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Os Caras



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Um cara:

(Adrenalina a mil, trincadão, falando sem parar)

_ Aí, o seguinte: Perdeu, meu! Não levou fé e nem sentiu firmeza, né? Pensou que fosse esmola, foi? Tu tava era me achando assim um otário, um mané desses aí, qualquer nota, que estão sempre batendo cabeça, como se tu fosse um qualquer coisa dessas aí, assim, importante pra caramba, um doutor desses, das colunas de jornal. Percebeu o ferro? O cagaço prateado? O argumento frio do dedo no gatilho? E aí? Vai encarar? Quer sentir o cano duro na espinha? E agora? Gelou, não foi? Apertou o fiofó? Não passa nem agulha, certo? Dá pra ver pela tua cara de bundão, sem chão onde pisar. Seu merda.

Achou que eu era um cara bom, do bem, mas se danou, mermão. Eu sou mau, mau, mau, bem pior do que um pica pau, cheio daquelas picardias passadas pelas crueldades desta vida, sacumé? Muito pé descalço e sacanagem. Rodado. Sou o que sou. Vai fazer o que?

Abre! Abra a porra do vidro, anda! Achou que era um moleque desses de sinal, di menor ainda, inofensivo, só que meio grandão, não é? Algum sujinho, imundo, pacato malabarista de limão murcho? Errou no diagnóstico da parada, tu viu a situação, assim… de forma… cumé que tu diz?…equivocada, morou? Vacilou, doutor bobão. Já era.

Trabalhar é o caralho! Me arrepio só de dizer este nome feio, baixo calão, chulo, palavrão. Não sabia? Pois vira esta boca rota pra lá, rapá! Nem pensa. Li no teu olho. Deus que te livre e guarde. Nem pensa em pensar tal blasfêmia aqui, na minha frente, que eu posso até, de nervoso, raivoso, apertar o dedo em ti, e aí sim, tu babáu, morreu, seu língua solta. Vê se me tem respeito, tá legal?

Trabalho pra mim é chongas, palavra sem sentido. Pesadelo. Me dá ânsia de vômito só de me imaginar, cumprindo a maldita rotina de, cinco horas acordar, cinco e quinze sair, cinco horas acordar, cinco e quinze sair, cinco horas acordar, cinco e quinze sair…

Toda porra de dia.

Num meio tempo qualquer desses aí, aturar o mal humor da mulher caída, canhão, baranga, dragão, semi adormecida, que me acompanha na vida de cão cachorro sem vergonha que eu, se fosse um desses, relevaria, perdoando o mal humor dela, por que sei que ele vem daquelas bolhas ardentes que ela carrega no punho, feito um bracelete, bolhas e bolhas de óleo respingado da frigideira preta, de toda santa madrugada fritar aquele ovo mínimo e solitário, olhando, meio dormindo ainda, aquela porra de clara branca espalhada, aquele arroz branco empapado, achatado na marmita de tapeware esbranquiçada, aquela gema feito a coroa amarelo-dourada de algum rei de sonho, faminto rei torto do meio-dia, comendo sofregamente a sua comida, depois de cumprir metade de uma batalha de merda, sem glória nenhuma pra justificar a fome de leão.

Vomito só de pensar: Tomar um banho as cinco e as cinco quinze partir, pegar um ônibus cata-corno desses, lotado, empanturrado de otários e choacalhar pela Avenida Brasil, feito um côco ensacado, num saco mal amarrado, em tempo de rolar pelo asfalto e um carro atropelar, alguém chutar. Vê só. Olha pra mim… – não, não olha não, senão tu morre, mané! – Só pensa. Pára pra pensar: Dá pra eu me enquadrar neste perfil?

Detesto insufilm, não deixa eu ver tua cara. Abre! Abre logo a porra do vidro, caralho! Anda!

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_ Eu disse pra não olhar, pera lá…Que olhar de banda é este? Ai ai ai! Tá me esnobando, é, bebé? Tem grana aí? Já percebi. Filmei. Deu mole, mané. Ah, sim. Beleza! Então. Tanto melhor pra tu, seu babaca. Já tinha visto pela tua elegância de pato de galocha que tu é besta pra dedéu.

Ah, é? Não abaixa a crista não é? Então tá. Me dá, porra! Me dá logo este tablet! O celular também! Agora! Me irritou esta pachorra tua de levantar os olhos pra mim, tipo que nem é contigo, que não te interessa a vida do otário operário que eu te contei como é que era.

E se fosse mesmo eu, o tal do operário? E se fosse o meu passado que eu estivesse te contando assim, pra tu, na boa, na maior, confidentemente? Tu é frio, cara! Tu é sangue ruim, sangue de cazuza, logo se vê.

Tu não é um duro, certo? Não tivesses um qualquer aí, pra me dar, e ia ver só a merda em que estava se enfiando. Tiro na bunda, seu mofino filho da puta! E na cara. Duro tu seria um duro morto, agora mesmo – Foda-se! – Diria eu. Podes crer. Pra teu governo, por isto mesmo, não se esqueça e não se iluda com a parada.

Lembra que eu não sou, nem nunca fui e nem vou ser, jamais, este otário personagem bonzinho que trabalha duro. Destes que abaixam os olhos pra tu, arriam as calças pra tu, abrem a porta pra tu, servem cafezinho pra tu, que quase lambem o teu cú. Não.

Não sou. Sou de outra laia. Outra qualidade, morou? Sou o bicho solto, cão-raivoso-chupando-manga no meio da noite escura do teu destino de zé mané, que é o que tu é, bundão, bundão! Bundão! Mil vezes bundão!

Dou mais de mil graças ao céu de não ter sido nunca, nem de longe, um panaca assim triste e obediente como tu vai ter que ser agora, na hora de me dar tudo que tu tem aí, e que de hoje em diante será do malandro aqui, que sou eu, Euzinho da Silva.

Tá vendo os outros caras ali, de cobertura. São os meus ‘braços’? Pois é. É nóis. É eles e eu, o bam bam bam da parada, o dono de tudo aquilo que um dia foi teu. Ah, ah! Agora tu morou direitinho qual é a da parada. Morou ou não morou?

———————

_ Perdeu meu chapa! Passa o carro. A mala, a pasta, tudo! O quê? Que documento o caralho. Eu sei que tu tem uma grana preta aí, seu, mané! É ou não é? Tu acha que eu sou ladrãozinho de celular, é? Tira o terno. Sim é isto mesmo. É isto aí. Pelado no meio da rua. Humilde, uma mão na frente a outra atrás. O quê? A rua tá escura? Alguém pode te matar? Qualé, cumpádi? Tá cheio de cupincha teu aí, nos carros. Teu dia ainda não é hoje não. Se bem que, vivo ou morto tu já foi, mané! Tu já era. Agora é nóis!

Tchau. Te deixo vivo por que eu sou legal.

Fui!

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O outro cara:
(em pânico. No mesmo lance, pensando rápido num jeito de se safar)

Puta que pariu! Fudeu! É assalto. Só pode ser. Olha só jeitão do cara, me olhando. Parece até a porra um bicho armando o bote. Caralho de sinal que não abre. Olha só o tamanho do braço do negão, meu irmão! Forte pra caramba! Um armário, tirando esta onda de pedinte de rua? Sei não.

Escola, nem pensar. Não tem ânimo, não tem cara de ficar afim. Deve ter fugido da sala de aula de algum Ciep morfético desses aí, há mais de dez anos. Melhor fechar o vidro e fingir que não é comigo, que nem vi. Adianta o que pagar imposto? Me digam. Não tem um policial sequer na pista. A gente que é cidadão, fica assim, inteiramente, à mercê desses camaradas mal encarados. Nós, desamparados, sem ter em que se segurar, em que se valer.

O que ele está pensando? Que eu sou rico? Pô! Imagina. Técnico de contabilidade. Um ferrado, por assim dizer. E este Pálio, velho, caquético, é de rico, por acaso? Tá na prestação. Este mês nem deu pra pagar. E se eu dissesse que eu trabalho numa Ong que ajuda pra caramba esta garotada que, como ele, tá por aí ao Deus dará?

Será que cola? Tá legal. Mentira descarada. Minha mina é que trabalha nesta praia de Ong, trabalho que aliás ela detesta, coitada, mas, e daí? Quem é que vai saber?

Furada. Ele não está com nenhuma bolinha de tênis na mão. Nem limão. Nenhum nariz de palhaço, nenhuma flanelinha, nenhum rodinho de raspar sabão de parabrisa. O que é que ele tem ali? Parece um… é um… Ai meu Deus! Olha lá! Ele está portando um revólver, dá pra ver debaixo da camisa. Uma arma prateada. Caralho! Tô fudido!

_Tá doido! Abro! Abro, sim! Já abri, pronto!

Só mesmo dizendo pra mim mesmo: Controle-se! Segura a onda. Não faça nenhum gesto brusco. Ai que vontade de mijar. Puta que pariu. Pára de tremer, porra! Para de tremer, seu imbecil!

O problema da minha mina com estes caras é este aí. A verdade está aqui, na minha cara. A gente dá um montão de alternativas pra eles, dá aula de ética e cidadania, circo, teatro, música, o cacete a quatro. Explica o que é internet, word, excel, email, whatsapp. Tá certo, eles quase não têm computador em casa, mas, e daí? Televisão eles tem, não tem? Nós também não tínhamos computador, ninguém tinha.

A gente ensina como elevar a auto estima desses caras que, mal sabem ler e escrever e eles ficam marmanjos e acabavam se voltando contra a gente. Ingratos. Ora, que diabo. A gente faz o que pode. Se eles não tem trabalho a culpa é de quem? Nossa é que não é. A gente paga imposto pra ter tranquilidade e segurança. É ou não é?

Ai que vontade de mijar, caralho!

Trabalhar não quer, o vagabundo. Vai você, mesmo sem precisar, oferecer um biscatinho para um cara desses. Um serviço de pedreiro, um quintal pra capinar, umas sacolas de mercado para carregar. Pensam que ele aceita? Que nada. É soberbo. Se ofende. É o memso que xingar a mãe dele. Vai querer me bater, me matar. Afinal, alguém precisa dizer pra ele que todo trabalho é digno. A pessoa deve fazer o que pode para sustentar a família. A sociedade não pode ficar bancando vagabundo assim não. Onde é que a gente vai parar?

_Ai meu Deus! O que foi agora. Vai atirar? Vai me me matar? Calma! Calma! O que foi que eu fiz? Eu não falei. Eu só pensei. Fiz uma cara de que? Que cara?

Será que ele lê pensamento? Ai meu Deus! Mostra pra ele que eu não estou debochando de nada não. É o meu jeitão de ser. Fico assim quando estou em pânico. Pelo amor de Deus! Ai que vontade de mijar, caralho!

Ontem mesmo eu vi, de noitinha, uma mulher enfurnada num container de lixo catando papel, latinhas, garrafas Pet, o que pudesse. Deve vender o que arrecada à noite, pelos becos, pra poder comprar comida para levar para casa. É feio? É deprimente? Tá. É sim, mas, fazer o que? Aquele garimpo é o trabalho dela, ora. Trabalho honesto. Deus a recompensará um dia.

Eu mesmo, se tivesse uma situação melhor, se morasse numa Barra da Tijuca destas, da vida, pegava esta mulher e contratava como empregada doméstica. Já pensou? Honesta e trabalhadora como parecia ser. Um dia desses até carteira assinada ela ia ter. Depois, era só ir evoluindo, um aumentozinho aqui, outro ali, uma bolsa família para completar o orçamento. Ia longe a moça.

————–

_ Não! Não! Que é isto? Não atira não!

Ai me acuda, meu Deus! Ele tá puto! Deve estar drogado. Vai atirar! Vai atirar!…

_ Tá legal, toma o tablet, toma o celular, toma minha carteira, toma tudo logo!

Ladrão filho da puta. Ralei feito um corno pra comprar este celular de câmera. Este Tablet…

_ O que? Não! Isto não!

Não posso nem pensar. Ele pode desconfiar.

_ O que? Tá legal. Dou a pasta. Toma. O que? A mala não! A mala não!

Ai meu caralho. O dinheiro do caixa dois da empresa. Vai me fuder a vida! Vai me fuder de verde amarelo! Como é que vai ser? O patrão vai querer que eu dê conta. Vai pensar que eu armei com a porra deste ladrão.

_ Calma! Calma! Nada de pânico. Vou sair! Vou sair do carro! Calma!

Deus me ajude que ele não me mate.

_ O terno? As calças, toma! Toma o paletó, está bom assim? Ficar só de cuecas? Nem cuecas? Puta que pariu! Quer me desmoralizar de vez, me esculachar, cara? Quem são estes caras vindo aí?

Caralho! Lotaram o carro!

_…Ei! Já vou, já vou!…Tá bom, tá bom….Calma aí! Calma aí! Não vai não. Não vai não.

Pronto. Lá se foram. Fudeu.

—————

O que é? O que é vocês estão olhando. Nunca viram ninguém pelado não? Vão se fuder, vocês também. Vão todos pro caralho! Fizeram porra nenhuma para me ajudar. Ficaram aí, olhando, se cagando de medo. Mais de cem carros aí, parados, imóveis, no maior silêncio, assistindo eu me fuder, de camarote. Olha lá os ladrões filhos-da-puta com o meu carro. Liberou geral. Parece até que sinal abriu só pra eles. Alguém aí vai testemunhar a meu favor? O senhor? Não? A senhora? Também não? Seus escrotos! Eu sabia. Não precisava nem falar.

É por estas e outras que o Brasil não vai pra frente. Porra! Caralho! Cacete! Merda! Puta que pariu!

Spírito Santo
Setembro 2007 (com notas esparsas em 2016)

Salada Mista


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Foto de Tadeu Brunelli

Elogio á Mestiçagem, Democracia Racial e outros picantes ingredientes

“ O Neguinho gostou da filha da ‘madame’
Que nós tratamos de Sinhá.
Senhorita também gostou do Neguinho
Mas o Neguinho não tem dinheiro pra gastar
A ‘madame’ tem preconceito de cor
Não pode aceitar este amor.
Senhorita foi morar lá na ‘Colina’
Com o Neguinho
Que hoje é compositor.”

(Samba de Noel Rosa de Oliveira, e Abelardo da Silva, anos 60)

Existem várias analogias culinárias que podem ser feitas quando se fala das diferenças sócio culturais existentes na composição da população de um país e suas diversas possibilidades de mistura, amálgama, (no Brasil uma questão tornada particularmente complexa por conta de nossa peculiar estratificação sócio racial). Já foram tentadas várias receitas para tão ansiada refeição mas, até agora, nenhuma realmente apeteceu à clientela.

A primeira – e mais óbvia- analogia que me ocorre é a do Omelete, aquela que diz que para fazer um é preciso ‘quebrar os ovos’ . É a mais radical e cruel porque cria um problema terrível para a galinha, mãe eventual dos pobres pintinhos que nasceriam. A outra, mais ‘light’ é a da Vitamina, na qual um liquidificador mistura tudo numa pasta uniforme, fazendo os ingredientes originais, geralmente frutas ou legumes da estação, perderem inteiramente a, digamos assim, identidade.

Para mim, a mais pertinente é mesmo esta que uso agora, principalmente por causa da certa dose de ironia que ela contém: A Salada Mista. Nela os ingredientes se misturam, partilham algum tempero comum, mas mantêm-se íntegros, apesar de estarem picados em muitos pedacinhos. Acho a Salada Mista uma boa analogia para Diversidade Cultural.

Esta questão, a nosso ver, mãe de quase todas as contradições e conflitos brasileiros, está na discussão sobre as influências exercidas pelas culturas ditas ‘hegemônicas’ sobre culturas ditas mais frágeis (ingrediente principal da xenofobia). Neste ‘conversê’ sem fim sobre preservar ou não preservar a nossa ‘cultura popular’, ainda chamada por alguns de ‘Folclore (esta palavrinha tão vã que mais esconde do que explica o que quer mesmo dizer ‘Cultura do povo’). Está na violência urbana, na contagem de corpos e nas balas perdidas que animam nossos debates cotidianos (afinal, quem morre mais, o favelado trabalhador quiçá traficante ou a classe média trabalhadora quiçá consumidora de drogas?). Está até nas conversas sobre o futuro de nossas crianças (afinal, um negão de 13 anos, com um metro e oitenta de altura merece ou não ser tratado como uma criança?). Está, em suma, contaminando todos os espaços do nosso cada vez mais tenso dia a dia.

O tema, passeando cada vez mais pelas entrelinhas deste nosso site, talvez seja hoje a mais importante questão brasileira: Entender, timtim-por-timtim, a maneira como, dividindo o Brasil em castas raciais se construiu (e se mantêm até hoje) uma das sociedades mais desiguais do planeta e, de como agora, extremamente divididos, porém, perdidos no mesmo ‘mato sem cachorro’, vamos nos livrar da arapuca social na qual, por pura babaquice e egoísmo nos metemos.

A conversa passeia também – e principalmente até- pelas centenas de subterfúgios e ‘panos quentes’ que boa parte de nossa elite bem pensante, a nossa indefectível Academia (ou ‘inteligentsia’, para usar, na falta de outro melhor, um termo já bem arcaico) e mesmo a nossa sociedade como um todo, se utilizam para desconversar, tergiversar e manter as coisas exatamente como estão.

Como estamos falando de gente, de cultura humana, a esta altura deve caber bem a pergunta: Qual receita seria a mais recomendada para conseguirmos (em se tratando de Brasil, é claro), uma sociedade sem conflitos sócio culturais tão violentos? (O garçom mais próximo pode fazer a pergunta : )

_ ‘Omelete, Vitamina ou a Salada Mista, freguês?’

A VITAMINA
Descrevendo as receitas

...”Ao que parece o termo (Democracia racial) foi usado pela primeira vez por Arthur Ramos (1943), em 1941, durante um seminário de discussão sobre a democracia no mundo pós-fascista (Campos 2002). Roger Bastide, num artigo publicado no Diário de S. Paulo em 31 de março de 1944, no qual se reporta a uma visita feita a Gilberto Freyre, em Apipucos, Recife, também usa a expressão, o que indica que apenas nos 1940 ela começa a ser utilizada pelos intelectuais. Teriam Ramos ou Bastide cunhado a expressão ou a ouvido de Freyre? Provavelmente, trata-se de uma tradução livre das idéias de Freyre sobre a democracia brasileira. Este, como é sabido, desde o meados dos 1930, já falava em “democracia social” com o exato sentido que Ramos e Bastide emprestavam à “democracia racial”; ainda que, nos seus escritos, Gilberto utilize a expressão sinônima “democracia étnica” apenas a partir de suas conferências na Universidade da Bahia, em 1943.

(Texto-tese de Antonio Sérgio Alfredo Guimarães -Departamento de Sociologia /Universidade de São Paulo)

Dos anos mais efervescentes do movimento abolicionista no Brasil á década de 30 do século seguinte, uma nova iguaria apeteceu a certa bem apessoada rapaziada: Elegantes em seus librés (logo depois envergando vistosos fraques em conferências internacionais), estes jovens rapazes gritariam em coro para o garçom:

_ ‘A vitamina, senhor! Vitamina para todos!’

É que preconizavam com um empenho falsamente cívico o que de melhor se poderia fazer com os escravos: desaparecer com aquela ‘mancha negra’ transformando os africanos, progressivamente (num processo de cem anos, diziam os mais cartesianos), em seres mistos, nem brancos nem pretos, mestiços (as teorias não explicam se no preparo da receita desapareceriam também os brancos).

A história da tese que ficou conhecida como ‘elogio á mestiçagem’, irmã dileta desta outra tese controversa, a ‘Democracia Racial’ é antiga. Ela esteve muito em voga até os anos 30 do século passado (na verdade ainda hoje é defendida por alguns seguidores). Seus principais formuladores, de uma ponta á outra, foram intelectuais como Silvio Romero, Graça Aranha, Joaquim Nabuco e, já no século 20 também entre outros, o sociólogo oficial do Brasil Gilberto Freyre. Como se sabe, estas paradigmáticas teorias nasceram, pelo menos como conceito, como uma proposta que resolveria o problema gerado por aquela massa enorme de seres humanos negros que o sistema de trabalho escravo arrancou da África e espalhou pelo mundo, uma massa humana liberta por injunções muito mais econômicas do que humanitárias e, portanto a boca pequena considerada ainda pouco mais que escória.

Lentz, um dos personagens centrais do livro Canaã de Graça Aranha afirma a certa altura:

_”O homem brasileiro não é um factor do progresso: é um híbrido. E a civilização não se fará jamais nas raças inferiores” (…) “Não acredito que da fusão com espécies radicalmente incapazes resulte uma raça sobre que se possa desenvolver a civilização. Será sempre uma cultura inferior, civilização de mulatos, eternos escravos em revoltas e quedas. Enquanto não se eliminar a raça que é o produto de tal fusão, a civilização será sempre um mistério, o artificio (…) Até agora, não vejo probalidade da raça negra atingir a civilização dos brancos”.

Ao Milkau, o personagem antagonista contrapunha, fazendo o seu ‘elogio da mestiçagem’:

_”O tempo da África chegará. As raças civilizam-se pela fusão; é no encontro das raças adiantadas com as raças selvagens, que está o repouso conservador, o milagre do rejuvenescimento da civilização “(…) Eu tenho para mim que o progresso se fará num evolução constante e indefinida”

O mito do homem mestiço: Eis aqui o que parece ser enfim a chave de tudo para esta corrente de pensamento. A quem interessaria tamanha utopia? A inexistência total de diferenças biotipicas ou (‘estético-raciais’) seria cientificamente possível? A simples padronização ‘racial’ das pessoas removeria, num passe de mágica, as diferenças sociais? Se não, para que serviria então?

É preciso, contudo, situar a questão em seu devido contexto histórico porque, se no campo da precária biologia do século 19, se considerava cabal a existência de superioridade racial entre seres humanos (que justificaria a assimilação – ou a diluição – de uma raça pela outra), hoje até o próprio conceito absoluto sobre a existência de raças humanas está superado. Assim, propor ou sugerir a ‘mestiçagem’ como solução para tão candente problema social, não era naquela época, uma idéia tão absurda assim. Menos mal.

É nesse contexto que devem ser considerados, por exemplo, certos aspectos bem sucedidos da sociologia de Gilberto Freyre (o que não deve redimir, de forma alguma, a perniciosidade e os equívocos clássicos de sua ideologia)

O OMELETE
(Pobres dos pintinhos)

Assim, ali por volta de 1930, 40, alguns europeus de bigodinhos, reunidos numa mesa ao fundo, ao serem inquiridos pelo garçom responderiam excitados:

_’Omeletes, senhor!’ De sobremesa, Vitaminas!’

É que para uns não havia jeito melhor de melhorar a raça humana do que separar os espécimes ‘superiores’, os ‘puro sangue’, os de ‘pedigree’ e desaparecer com o resto, inclusive os ‘vira-latas’, transformando a ralé em torrada, num forno crematório qualquer.

Para outros contudo, o desaparecimento dos ‘inferiores’ deveria se dar por meio de métodos mais científicos ou ‘humanitários’: Um liquidificador genético resolveria o problema. Um projeto que, como veremos a seguir, não tinha mesmo nada de científico (e muito menos de humanitário).

(Aqui, antes de tudo, uma necessária afirmação de firme e ampla discordância diante dos partidários da Vitamina ou da Mestiçagem. É preciso – me permitam – fazer uso da ênfase nesta hora, á este ponto de uma questão que é por razões óbvias, crucial).

Frisemos que o contexto onde atuaram Gobineau, Lombroso, Chamberlain, Nina Rodrigues e, porque não dizer, Gilberto Freyre, foi o mesmo que gerou as teorias nazistas na década de 30. Não foram idéias apenas ‘simplificadoras’ ou ‘evolucionistas’. Foram idéias profunda e claramente interessadas em criar um novo paradigma de civilização, um método ‘científico’ para a classificação e a sujeição de pessoas, num novo ambiente geopolítico denominado Colonialismo.

Apenas para exemplificar o alto grau de assumida perniciosidade destas idéias, basta citar o trabalho militante do próprio Gilberto Freyre, no final da década de 30 do século 20, a serviço do governo ditatorial de Antonio de Oliveira Salazar, como um dos ideólogos que contribuiu para a criação e a implantação de um sistema institucional de controle e subjugação das populações das colônias de Angola, Moçambique e Guiné Bissau e Príncipe denominado ‘Lei do Indigenato’, código similar aquele engendrado pelos africâners, na África do Sul, que dispensa comentários: o insidioso ‘Apartheid’.

O antropólogo angolano José Maianga, em texto publicado pela Revista afro-lusitana África, a este respeito nos esclarece cabalmente o seguinte:

“O indigenato, institucionalizado pelo regime salazarista (‘Estatuto dos Indígenas Portugueses das Províncias da Guiné, Angola e Moçambique’) era um diploma aplicado apenas às situações jurídicas dos indígenas africanos num país que, constitucionalmente, se dizia subordinado ‘à moral ao direito e às garantias e liberdades individuais’. Este diploma traduzia, sem dúvida, a sujeição plena dos africanos ao colonizador e a uma prática assimiliacionista que se afundava no mar de contradições por onde navegava…”

…” repudiada a prática assimilacionista, Portugal engendrou, então, uma nova fórmula, o integracionismo, teoria baseada no luso-tropicalismo do sociólogo brasileiro Gilberto Freyre e que, não era mais do que a forma capciosa que o regime colonial usava para esconder o verdadeiro assimilacionismo.”

As afirmações não são de forma alguma novas. Alguns estudiosos estão no momento fazendo uma ampla revisão da obra de Freyre neste mesmo sentido. As idéias originais dele no entanto, impregnadas em quase tudo que se escreveu sobre o negro – e os pobres- do Brasil -, estão infelizmente, ainda em voga por aí e, o que é pior, defendidas por novas teorias e embasamentos que tentam afirmar Freyre como uma espécie de gênio mal lido e incompreendido.

Não é possível portanto, entender os processos de evolução da cultura brasileira, por exemplo, dissociando-os deste contexto sombrio que o cineasta Ingmar Bergmam, muito apropriadamente chamou num filme clássico de “O Ovo da Serpente

No Haiti não existem ‘brancos’. Lá, a classe média ‘mulâtre’ oprime os ‘mais’ negros. O nazismo separava pessoas absolutamente brancas e as mandava á morte, baseando-se em diferenças físicas cosméticas: um nariz mais adunco, olhos pretos, etc. Claro que racismo não tem nenhum fundamento ‘científico’ ou ‘biológico’. Se baseia em pretextos, desculpas esfarrapadas.’Mitos’ em suma. Um cuidado que deve ser observado por todos que se dedicam a este assunto.

Ingênuas, marcadas talvez por certa dose de crueldade e frieza sim mas, de modo algum absurdas para a época, as propostas que animaram os sociólogos da primeira metade do século perderam a força exatamente quando se soube o que de fato elas representavam: Grosseiros equívocos. É isto que torna mais surpreendente o fato de existirem ainda hoje correntes de pensamento defendendo propostas semelhantes no Brasil, em pleno século 21, quando a panela de pressão da nossa conturbada sociedade já apita o sinal óbvio que diz:

_‘Cuidado! Abra a válvula que estamos prestes a explodir’.

A SALADA MISTA
e a sabedoria dos gibis

Há também, pode se observar embutida na argumentação, uma forçada e esdrúxula associação entre ‘nacionalismo retrógrado’ (de novo a xenofobia) e a ‘admissão de que há racismo no Brasil’. Admitir ou sugerir com um pouco mais de ênfase a existência de racismo no Brasil seria um comportamento ‘ultrapassado’, ‘de modè, expediente muito usado como uma – muito eficiente inclusive- tática para se desqualificar discursos antagônicos.

Esta questão, aliás, traz á luz o que parece ser o segundo eixo da questão: Afinal, porque será que em certos setores de nossa ‘inteligentsia’, se nega tanto e de forma tão estranhamente peremptória (com argumentos tão mal fundamentados), a existência de racismo no Brasil? Existiriam intenções nessa negativa tão insistente?

Negar a existência do monstro, todo mundo sabe, não vai jamais matar o bicho.

É preciso aprofundar também outros aspectos cruciais do racismo brasileiro (na verdade de todos os racismos). O fato de cientificamente não existirem raças não significa que não exista racismo. Não é um argumento pertinente nem mesmo aceitável. Vamos combinar, francamente: Racismo é um estúpido instrumento de dominação social, uma praga da humanidade. A sociedade brasileira é altamente excludente, certo? Não é preciso ser uma sumidade acadêmica para identificar qual é o instrumento de exclusão mais eficiente utilizado por aqui. Bingo para quem disser Racismo.

E vamos acabar também com esta falsa dicotomia: Problema Racial e Problema Social não são conceitos opostos ou divergentes. Um é a carne, o outro é a unha. Um não poderia, de modo algum, existir sem o outro.

Para qualquer um que sofre racismo ‘na pele’ fica evidente que o racista usa apenas um pretexto covarde, para discriminar: É fácil: Basta destacar uma diferença biológica qualquer e subestimá-la, demonizá-la, impondo uma marca, um estigma para identificar os portadores daquela suposta ‘deficiência’. O fisicamente diferente é declarado inferior e pronto. Do ponto de vista de quem quer discriminar, dependendo de seu interesse, ‘negros’ serão portanto, todos aqueles que, visivelmente, não se parecerem com ‘brancos’. No exercício da discriminação não existem ‘mulatos’, ‘mestiços’, ‘pardos’, todos são’ marrons’, inferiores, não por terem este ou aquele tom de pele, mas porque ‘não são brancos’. Ponto

Quando em minoria, no entanto, diante de algum interesse, alguma vantagem a ser obtida junto aos ‘marrons’, a hierarquização das ‘cores’ passa a ser muito proveitosa para a ‘raça’ hegemônica (a que está no poder). Pura política. A história humana está cheia de estratagemas como estes, nos quais com a finalidade de obter vantagens junto a um grupo estranho, nos associamos a um amigo ‘nativo’. É uma prática recorrente demais para não ser notada. Até mesmo nos saudosos gibis da infância de alguns de nós o arquetípico estratagema aparece.

Quem não sacou isto na função dramática do índio ‘Tonto’, amigão do Zorro norte americano ou na fidelidade á toda prova do gigante ’Lotar’, guarda costas do Mandrake. Quem não notou esta solidariedade esperta, interessada, no olhar do Fantasma, ‘Espirito- Que- Anda’ para o pigmeu Guran, seu fiel aliado, do alto do seu trono na caverna da caveira?

Descontando a paranóia nacionalista de alguns, no âmbito de nossa cultura contemporânea isto pode estar ocorrendo também com alguma freqüência. Você louva, aprende, assimila e pratica a cultura que um dia foi exclusiva (não que o pobre coitado quisesse se isolar) do negro ou do índio, do nordestino – tanto faz- mas não se importa muito que ele permaneça ad infinitun socialmente excluído, lá ‘no morro’, na selva ou no sertão. No processo você aprende a fazer Samba, Maracatu, a tomar chá do Santo Daime e a ficar doidão sem culpa. É bom. É politicamente correto. Dá a você um certo charme democrático, uma espécie de certificado de ‘responsabilidade social’ mas, e daí?

O problema é que ‘Ele’, o ‘Outro’, continua lá no seu canto, estressado de carências, fazendo o seu Funk pesadão. Cria-se assim (colocando os não brancos todos no mesmo saco) uma espécie de ‘Cultura negra sem negros’ e a gente não sabe muito bem no que isto vai dar. Se o cara não ficar rico fazendo Hip Hop, pode um belo dia dar um tiro em você.

Se for mesmo, como julgamos, além de uma mistificação cultural, uma impossibilidade genética em termos (não existem raças humanas, lembram-se?), A Mestiçagem, como conceito democratizador não passa mesmo é de um cruel sofisma. E esta tem sido a lógica do Sistema de castas ‘raciais’ no Brasil.

Todas as receitas de democracia racial (com ou sem eufemismo) em voga atualmente contêm um mesmo e azedo ingrediente, um mal crônico que lhes tira todo o sabor: Redistribuem valores culturais, garantindo a um certo grupo certas vantagens deles advindas, sem mudar as pessoas de lugar na pirâmide. Os que possuem quase tudo passam a possuir mais ainda. É a lógica fria de nossa elite predadora. A lei do mais forte. Qual é a novidade nisto aí?

(Agora, sem maniqueísmos, por favor)

Todo mundo sabe que este comportamento não é uma coisa assim percebida, exercida individualmente mas, é um procedimento, praticado pela grande maioria dos ‘brancos’ do Brasil, diariamente, muitas vezes até de forma ingênua, um comportamento padrão, arraigado, especializado por séculos de prática.

E saibam também que não é uma coisa fácil de extirpar não. É exatamente este o conteúdo subreptício, a essência de conceitos como a chamada ‘democracia racial’ e seus sucedâneos: dar sustentação, argumentos, justificativa teórica para esta deslavada contradição.

(Cabe aqui inclusive duas perguntinhas pra lá de capciosas: Ao propor a miscigenação geral como panacéia para os males do Brasil, da mesma forma que o ‘negro’, o ‘branco’ também desapareceria? Propor assim, de forma tão efetiva o desaparecimento de uma ou de outra ‘raça’ não é, classicamente, o mesmo que exercer racismo?)

Teorias… Um perigo latente para qualquer democracia, ainda mais a nossa que está patinando em sua reconstrução.

Como sempre – e pra finalizar- o melhor é dizer isto tudo com um Samba.

“Todo mundo era bom
todo mundo era legal
lá só dava gente bem
madame e fulano de tal
quando no meio da festa
reclamei com o Samuel:
Você diz que esta gente é honesta?
Já roubaram meu chapéu!

Não fico mais
em sua casa ô Samuel
aqui só tem eu de preto
mas não faço este papel

Não fico mais
em sua casa ô Samuel.
Você vai pagar meu chapéu”.

(Samba muito popular nos anos 70)

Spírito Santo, 2007

http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/2.5/br/