DO SAMBA AO FUNK DO JORJÃO Livro do pesquisador SPIRITO SANTO tem segunda edição


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DO SAMBA AO FUNK DO JORJÃO

Livro do pesquisador SPIRITO SANTO tem segunda edição revista e aumentada!

Resenha não

Engana-se o leitor que acreditar que DO SAMBA AO FUNK DO JORJÃO — Ritmos, mitos e ledos enganos no enredo de um Samba chamado Brasil é um livro somente sobre música. É muito mais. O Spirito é outro. Descemos (ou subimos) as ladeiras da história/histórias dos Brasis, seu interior, cidades, encontros e desencontros de sons, silêncios, vozes roucas, compassos e gingas.

Spirito Santo é um dos mais criativos pesquisadores da cultura brasileira, aquela da diáspora e suas dimensões crioulas. Não ficou em laboratórios e nunca preocupado com explicações fáceis – e seus essencialismos — e de enredos românticos. Seu andamento foi pesquisa-experimentação-erudição. Conferiu bibliografia clássica, aquela acadêmica, a literatura e os registros da memória. Foi ouvir os velhos e os jovens. Uma acuidade atenta às várias perspectivas teóricas e metodológicas.

Suas jornadas já tem longa data, iniciada nos anos 70. Aqui ou acolá emergiam vozes, sons e ritmos. Experimentava muitos. Inventava outros tantos. Não fabricava só instrumentos. Mas fundamentalmente sentidos-sons. Procurava autorias, transformações, permanências e personagens.

Spirito Santo fez escola com uma metodologia própria de pensar/criar/executar ritmos alinhando percursos diaspóricos e suas entranças atlânticas. Sua persistência lhe garantiu um acervo extraordinário com entrevistas, discos, partituras e gravações desde os anos 70 com músicos, artistas, instrumentistas e personagens da musicalidade negra.

O Vissungo – conjunto criado por ele – produziu uma original trilha sonora para uma geração negra que aliou protesto, mobilização política e vontade de conhecer incontáveis afro-brasis, pertos ou distantes. O silêncio sobre este som soa estrondoso para a história do tempo-presente da diáspora, com a centralidade no Rio de Janeiro.

Spirito foi também solo e acompanhamento da sua trajetória. É reconhecido por muitos como um dos mais destacados intelectuais da sua geração. Parte da qual esquecida, posto não submissa. Não esperou aplausos e pedidos de bis, mas foi à luta. Considerado estudioso brilhante que juntou pesquisa, erudição, inquietude e criatividade nos oferece uma viagem sonora única para entender o Brasil. O de ontem e o de hoje.

É possível localizar nela – entre outras coisas – outras faces e fases do atlântico negro e das identidades culturais na melhor tradição analítica de Stuart Hall a Paul Gilroy. Desfilam partituras, cosmogramas, caxambus, jongos e congadas.

Reencontramos heróis anônimos da sua própria história. Somfos conduzidos tanto a passeios pelas Minas Gerais e seus ritmos como convidados a invadir morros e seus ruídos. Caramba, aumenta o volume!

Flávio Gomes
historiador UFRJ

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O BECO – Roteiro de cinema


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"Gafieira" - Di Cavalcante

"Gafieira" - Di Cavalcante

O BECO – Roteiro de cinema

Me animei. Livro publicado já nas livrarias do Brasil a enorme gaveta do eu escritor, que eu mantinha empanturrada de escritos se abriu prazeirosa. Desempoeirada cuidadosamente ela vai me revelando então coisas feitas muito antigamente, sobre as quais eu nem tinha mais lembrança. O texto a seguir é um roteiro cinematográfico escrito ali por volta de 1993. Não sei se daria bom cinema, presumo que sim, mas gosto mesmo – e muito – é da história, uma tentativa de…Bem fiz uma resenha aí, especialmente para animá-los também a ler um calhamaço que, completo, deve ter bem umas 75 páginas. Dividido nesta pílula de 8 páginas apenas, acho que vocês aguentam pelo menos conhecer uma palinha da trama. Quem não gostar que mude de canal ou de esquina. Quem gostar pode ler o roteiro completo num link que estará abaixo deste post.

Com vocês então, “O BECO”

Uma resenha:

Em 1955 o Brasil começava a se preparar para o chamado ‘desenvolvimentismo’ que já se anunciava com a onda de otimismo que redundou, um ano depois, no governo Juscelino Kubitschek e sua bombástica meta dos ‘cinquenta anos em cinco’. Não temos ainda um cinema digno de nota nesta época mas, em Hollywood ‘bomba’ a nossa ‘brazilian bomb shell’ Carmen Miranda.

O produto mais estranho da cinematografia ufanista dos EEUU nesta época, foi o chamado ‘Cinema Noir’, estilo formado por filmes soturnos, com muito mistério diluído em intrincadas tramas policiais nas quais personagens torturados por problemas existenciais, viviam grandes dramas morais que, geralmente, acabavam de forma trágica ou melancólica. Ao que parece uma invenção tipicamente européia, o ‘Film Noir‘ com efeito, reproduzia de forma perfeita todo aquele ambiente de intriga e clandestinidade vivido pelos partisans da resistência francesa na recém finda segunda guerra mundial.

Enquanto isto, aqui na América do Sul, com a a guerrilha de Fidel Castro fustigando o charme ‘caliente’ do grande balneário que era a Cuba de Fulgencio Batista, a Copacabana em 1955 já se firmava como destino para os endinheirados do mundo inteiro. Luxo boêmio, escândalos de bons vivants, embalados por Boleros e tristes sambas canções de Dolores Duram.

Talvez por conta deste ensolarado cenário, o cinema do Brasil não embarcou muito neste campo da estética ‘Noir’. Quando houve algum impulso para o nosso cinema, a onda já era outra. Mergulhou-se numa ‘Nouvelle Vague‘ dividida entre o realismo italiano do pós guerra e o ‘existencialismo‘ Sartriano, ou algo assim.

No entanto, há talvez qualquer coisa deste clima ‘Noir’ nos primeiros filmes de Nelson Pereira dos Santos ( ‘Rio Zona Norte’ e ‘Rio 40 graus’). O mesmo clima parece estar também presente em ‘O assalto ao Trem pagador’, filme clássico de Roberto Farias.

É por aí, pelas referências acima enumeradas, que ‘O Beco’, roteiro que escrevi para um filme de longa metragem, tenta trafegar nestas esquinas ainda mal iluminadas, numa tentativa de conhecer os meandros deste gênero instigante – e, é claro, o charme de sua época -, seus aspectos estilísticos mais evidentes (como a trama detetivesca e o jornalismo investigativo, por exemplo) e até seus chavões e cacoetes mais recorrentes (como o gangterismo e o crime passional).

‘O Beco’ se dedica também e, principalmente, a estimular um improvável diálogo entre as classes sociais no Rio de Janeiro que, naquela época, já era uma cidade quase irremediavelmente ‘partida‘, diálogo este que, de forma simbólica acaba no filme (como na vida real) produzindo fatalidade, drama e morte.

Lapa de 1955: Metáfora de um Brasil tornado beco sem saída.

Bem leia o roteiro a seguir  (como é um longa metragem o dividi em várias partes) e depois me retorna aí com a alguma opinião sincera:

O BECO

By Spírito Santo -1993

Roteiro para filme de ficção Longa metragem

Interiores:

Salão de Dancing

Redação e gráfica de jornal

Delegacia de polícia

Salão de sinuca

Interior de avião anos 50

Escritório de advocacia

Interior de adega

Sala de mansão

Exteriores:

Favela  ( platô, birosca, barracos, etc. )

Bairro Boêmio ( Lapa) / ( cabarés, largo, ruas, ladeiras, arcos e adega )

Centro do Rio / ( bar, relógio do Largo da Carioca)

Copacabana ( entrada de hotel, fachada de delegacia, ruas e calçadão )

Fuselagem de avião anos 50

Saguão e pista do aeroporto anos 50

Praia do Caribe

Rua de Havana, Cuba

Personagens, coadjuvantes e figurantes

1-  Juvenal King Kong / O fotógrafo gordo

2-  Dr. Mário Sarione / O  delegado

3-  Aníbal Maciel / O Senador

4-  Cândido Menezes da Silva, “Candinho” / O chofer de  táxi

5-  Satã  / O homossexual

6-  Dona Clarinda Belfant Maciel / A madame morta

7-  Carlito Pimenta  / O Jornalista

8-  Herrera / O matador de aluguel

9-   Dr. João Beckmam  / O advogado

10- Janeth / A amiga da madame

11- Nézinha / Amante de Candinho

12- Menino Goleiro

13- Joaquim Polaco / receptador

14- Secretária

15- Chisnove

16- Velha

17- Barrigudo da piteira

18- Leão de Chácara

19- Misses e mães de misses.

20- Meninos favelados

21- Moradores e freqüentadores da Lapa.

22- Homens e mulheres da alta sociedade

23- Motoristas de táxi

25- Netos da velha

26- Policiais civis

————-

Exterior/Noite                                                                                           

Beco na Lapa

Largo da Lapa.

Piso de  paralelepípedos imundo.

Beco deserto iluminado por luminária de rua.

Vozes em off, ao telefone:

Clarinda

Ah…vamos sim! Afinal…não vai te custar nada não é? O lugar é tão simpático.

Janeth

O que está havendo com você, heim? Nunca foi disso…andar na noite, na boêmia, nesse submundo?

Clarinda

E a Lapa é submundo por acaso? Você não viu ontem? Até Edith Piaf estava lá. Ali é a  nossa Monmartre, querida e, além do mais…bem, num ponto você tem razão. Ando meio deprimida  mesmo.

Janeth

Desiludida da vida?.. É o desquite não é?…

Clarinda

Pois é. Este assunto de novo…Pedi a separação de corpos, sabia? Não dava mais pra suportar…sabe? A pressão, as ameaças…depois de tudo que eu relevei…

Janeth

Tá bom, não se fala mais nisso. Te pego aí em dez minutos. Ah…quase esqueço. Posso levar alguém…assim, pra te fazer companhia?…Não? Ih…mas que chata que você está, meu Deus! Tá. Esquece….Não, não. Deixa estar. Eu pego um táxi.

Poste da luminária iluminando letreiro de bar ao fundo:

A Capela

Chão de paralelepípedos e poças d’água, fazendo fundo para legenda:

3 de Maio de 1955

Lapa, Rio de Janeiro

Som de gritos inflamados.

Briga de rua.

Pés da assistência, na soleira do bar.

Pés dos contendores, rápidos, indo para o meio da rua, em luta.

Golpe de um no ventre do outro, que cai.

Rosto do homem que caiu, um negro de bigode fino, aparado.

Olhos se revirando.

Rosto do outro, também negro, com um chapéu, olhando para o adversário assustado.

Turba se aproxima do homem caído, agitada.

Agressor em fuga, desaparece numa esquina.

Rosto do homem caído no meio-fio.

Poça de sangue próxima ao rosto, cresce e  se mistura a uma poça d’água.

Chuva fina começa a cair.

Poça de água e sangue, salpicada pela chuva.

Letreiros de apresentação rolam no quadro.

Exterior / noite                                                                                       

Largo da Lapa.

Letreiros de cabarés e bares com pessoas paradas ou andando nas esquinas.

Ponto de  táxi ao fundo.

Candinho, o motorista, se aproxima do carro.

Meio-fio com longa poça d’água em perspectiva.

Pés de um grupo de  homens e pneus de táxis parados em fila.

Grupo de taxistas conversando animadamente, com Candinho chegando ao fundo.

Chofer barrigudo, apontando para Candinho com uma piteira.

Chofer 1(Barrigudo):

Falando no diabo… ele logo aparece. Não morre tão cedo esse aí!

Candinho (com enfado)

Ih…Pronto! Já sei…É aquele papo da francesa.

Faz menção de ligar o rádio, sendo impedido pelo Barrigudo

Candinho( ríspido: )

Larga meu rádio, rapaz. Não tem mais o que fazer não?

Página de revista com uma foto montagem de Edith Piaf em frente aos arcos da Lapa.

Grupo rindo de Candinho.

Chofer 2:(mostrando uma revista aberta)

Tá aqui a tua francesa. Ah, mas que michuruca! Que desmilingüida a  tadinha!

Candinho:

Ah…vão se danar!

Chofer 2, sacode a revista insistente, sempre  rindo.

Chofer 2:

Se fosse coisa que prestasse, ia tirar retrato nos Arcos da Lapa assim, como uma doidivana qualquer? Que nada! Botava um maiô, vestia uma sainha, um shortinho e fazia pose, empinava a bundinha na Vista Chinesa, não é mesmo?

Candinho:

É a rainha do romantismo, seu bocó! Deu na revista. Ah…Tu lá entende o que é isso?

Chofer 2:

Romantismo?! E tu gasta tua grana toda com jornaleiro, só pra ver isso?…Romance?! Tu tá é ‘tan tan’, maluco!

Candinho:

E você? Que fica aí, gastando féria com vadia…Quero ver é ter amor de graça, paixão mesmo, de fé, assim que nem eu tenho.

Barrigudo:

Até parece! Quanto tempo faz que tu não vai no morro ver aquela, como é que chama?…Nézinha, né mesmo? Me diz! Já deve ter te trocado por um ferrabrás, daqueles lá da favela. Quer apostar? Dor de corno, rapaz! Teu mal é esse. É por isso que gosta destas musiquinhas de tristeza, queixume de puta arrependida. É ou não é?

Candinho se afasta do grupo, aborrecido.

Barrigudo imita a pose e a elegância de Candinho sumindo numa esquina.

Grupo de motoristas às gargalhadas.

Som de sirene de ambulância.

Ambulância chegando em disparada, passando em frente ao grupo de motoristas .

Interior, noite

Dancing na Lapa

Som da pequena orquestra do Dancing.

Som da sirene da ambulância passando lá fora.

Boca do trombone em close.

Pequeno palco com os músicos e um letreiro aceso ao fundo.

Cabaret NOVO MÉXICO

Dancing

Salão cheio de gente  rodopiando, muita agitação, fumaça.

Mesas com pessoas alegres.

Burburinho de vozes gritadas, misturadas à música.

Entrada do dancing.

Candinho entra, cumprimentando o Leão de Chácara com um sorriso de intimidade.

Exterior, noite

Beco na Lapa.

Vista através da janela de um sobrado no beco.

Ambulância do “Socorro Urgente” estacionando na esquina.

Médico saindo da ambulância apressado.

Roda de gente se formando, multidão portando guarda-chuvas pretos.

Médico abrindo a roda de guarda-chuvas.

Homem da briga caído no centro da roda.

Janela do sobrado com a silhueta de homem alto e gordo de costas.

King Kong vestindo pijamas, olhando para cena lá em baixo. .

Visto ainda do sobrado, médico examina o homem caído em meio à poça de sangue.

Rosto do homem, ainda vivo, procura algo com os olhos, sem entender o que se passa.

Olhos do homem ferido em close parecem encarar alguém.

Rosto de King Kong no alto do sobrado, impressionado com o olhar do ferido.

King Kong pega uma máquina fotográfica na escrivaninha,

Segue até a escada, corre para porta e desce para a rua descalço.

Médico chama o enfermeiro e motorista com um gesto para que tragam a maca.

Ferido é carregado para a ambulância que sai depressa, com a sirene ligada.

King Kong aparece na porta do prédio com a máquina fotográfica.

Ambulância passa na frente do prédio, lançando lama sobre King Kong.

King Kong sacode o pijama enlameado, com a máquina apertada contra si.

Balança a cabeça, lamentando o flagrante perdido.

Interior, noite 

Dancing na Lapa

Música da pequena orquestra seguindo.

Janeth, dança com homem engravatado, preocupada, circulando o olhar pelo ambiente.

Fixa o olhar na mesa onde está Clarinda.

Clarinda observa o ambiente com um sorriso vago.

Candinho olha em direção a Clarinda que percebe, desvia o olhar e constrangida.

Decote de Clarinda em close, destacando um broche de ouro: Uma pequena serpente enroscada em si mesma.

Janeth e o acompanhante se encaminham para a mesa onde está Clarinda, eufóricos.

Exterior, noite                                                                                             

Beco na Lapa.

Música do Dancing soando na rua.

King Kong volta para a entrada do prédio e sem querer chutando algo no chão.

Objeto pequeno rolando como uma pedra.

King Kong se abaixa e pega o objeto.

Broche dourado, idêntico ao de Clarinda na palma da mão de King Kong.

Rosto de King Kong intrigado com o broche, lembrando algo.

Flash muito rápido de rosto de uma mulher mulata rindo, num ambiente enfumaçado.

King Kong guarda o broche no bolso, pensativo.

Interior, noite                                                                                         

Dancing na Lapa.

Som da orquestra do Dancing prosseguindo.

Janeth e o acompanhante sentados na mesa com Clarinda.

Candinho se aproxima e convida Clarinda para dançar, conduzindo-a  para o centro do salão.

Acorde da orquestra, concluindo  a música.

Vozerio inflamado.

Casais se dispersando, todos no salão sorrindo e soltando gargalhadas, excitados.

Clarinda com os amigos bebendo e rindo na mesa, eufóricos.

Candinho num dos cantos do salão, confidencia algo para amigos que observam discretamente a mesa de Clarinda.

Orquestra retomando com um Mambo.

Clarinda volta ao salão com Candinho.

Os dois dançam com rosto colado,

Clarinda  ri descontraída, de algo que Candinho fala ao seu ouvido.

Janeth olha para o casal de forma estranha, incomodada.

Espaço do dancing, do ponto de vista de Clarinda.

Som confuso de vozes e  risos misturados à música.

Todo o ambiente do salão enfumaçado, girando vertiginosamente, até imagens ficarem totalmente borradas.

————–

(Você vai poder ler o roteiro completo aqui neste link bem perto de você)

Spírito Santo

Outubro 2011

EXUCHIBATA, a peça (texto integral)


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“…Qual cisne Branco em noite de lua

Peça Teatral de Spirito Santo /1994


Guarnição do encouraçado ‘Minas Gerais’, como a esquadra dominanda, armada para o que desse e viesse.

(Leia resenha da peça neste link)

Cena 01
Kizumba
Exu Tranca Rua

Platéia entrando. No palco, a cena inteiramente montada está “congelada”.

Cena reproduz um motim popular numa rua do Rio em 1904. Barricada com pedaços de móveis velhos, caixotes, etc., está formada Em parte destacada da cena, dois negros capoeiristas, em posição de comando, ao lado de partes de um bonde virado. Fincada no bonde, uma vara com um trapo de pano vermelho simulando uma bandeira.

Á frente desta cena, ocultando-a parcialmente, a reprodução do quadro ampliado da capa de um Jornal segundo descrição a seguir.

Manchete está escrita numa longa faixa, sui

spensa por dois atores em pernas de pau, tomando todo o comprimento superior do palco :

JORNAL DO COMMÉRCIO

12 de Novembro de 1904
EXPLODE A REVOLTA DA VACINA!
Populacho em fúria faz quebra-quebra na cidade!

Abaixo da faixa, atores ou figurantes seguram alguns painéis quadrangulares, ficando ocultos atrás deles. Painéis reproduzem detalhes diversos da diagramação da capa do jornal (blocos de textos, charges, anúncios, etc.)

A composição com os painéis e a faixa, deve cobrir quase que, inteiramente a boca de cena, inclusive na sua altura, deixando vazia apenas um trecho quadrangular, onde se poderá ver enquadrado como uma foto, o pedaço da cena com os dois capoeiristas e parte do bonde com a
bandeira.

Inteiramente silenciosa e imóvel, a cena deve permanecer assim o tempo suficiente para criar um tensão inicial na platéia.

Após este tempo, som de um apito da polícia.

Grupo de policiais irrompe na cena com estardalhaço. Um deles carrega um cartaz onde se lê:

CENSURADO PELO GOVERNO !

Elementos cenográficos da “capa” se dissolvem, sendo desmontados desordenadamente e com rapidez. Cena atrás deles explode em gritos.

Fumaça e correria. Alguns policiais entram em cena portando espadas e dando tiros de  mosquete nos manifestantes. Pequenos objetos como rolhas, são lançados no chão por estes manifestantes. Policiais caem, tropeçando nos objetos. Em todas as situações, os dois  capoeiristas estão em posições de destaque, comandando o motim. Outros manifestantes também lutam com passes de capoeira.

Manifestantes vão sendo dominados. Muitos estão caídos como se feridos.

Gritos, ruídos e fumaça vão se dissipando até cena se congelar de novo.

Figurante vestido como um esfarrapado profeta louco, cruza lentamente a cena congelada, portando duas tabuletas seguras como “tábuas da lei”. Nelas se lê:

Tabuleta 01
Este país da Bruzundanga
parece de Deus deslembrado
Nele o povo anda na canga
amarelo, pobre, esfaimado

Tabuleta 02
No ano que tem dois sete
Ele por força voltará
e oito ninguém sofrerá
pois castigos já são sete
e oito ninguém sofrerá

Cena ainda congelada. Som de tambores e berimbaus vem surgindo ao fundo, crescendo, de fora da cena.

Os dois capoeiristas – Manduka e Pata Preta- separam-se dos demais e simulam jogar capoeira na frente da cena que, vai se descongelando lentamente.

Policiais orientam rudemente ações de “limpeza” do palco, realizadas pelos atores e figurantes. Feridos são retirados. Cena se prolonga com o retorno gradativo daqueles que vão saindo para as coxias, de forma que sempre haja o movimento de limpeza do palco durante toda a cena a seguir.

Capoeiristas durante as falas, interrompem o jogo. Cena atrás deles se congela nestes momentos. Quando voltam a jogar, após cada fala, cena atrás deles se descongela.

Sempre alternando movimentos e falas, capoeiristas se dirigem à platéia:)

Manduka: (olhando para os policiais)

_Pulhas! Na pernada não vem cá. Mandaro meu pai pra guerra do Paraguai. O véio caiu lá mesmo…um magote de capoeiras caiu por lá, adefendendo o Brasil. Agora eles falam que nós é da arruaça e do motim. Queriam o quê? Eles vem de espada e mosquetão. Queriam o quê? Que nós aceitasse morar na rua, no tempo? Derrubaram um muro aqui, na Praça da Harmonia, em cima de gente viva! Pulhas! Pra matar índio no Paraguai nós serve. Aqui, se nós se adefende deles, eles atacam e… tome chibata!

(Volta o jogo até congelar )

Pata Preta:

_ De primeiro eu até ria. Meganha correndo, com a espada calada na bunda, entre as pernas, igualzinho a um rabo…eu gozava! Chegava rolar no chão de tanto rir. Depois, foi me dando raiva. Fiquei dez dias no hospício, sabem porque? Tava descalço, andando no Rossio, cheio de parati. O meganha chegou e me deu umas três porretadas. Pronto! Dei banda nele…Ah,ah,ah! Caiu sentado na lama, o desgraçado. Daí corri.

Me pegaram. Fiquei lá no meio dos malucos, comendo o maior fubá. Quer dizer…Andar descalço é crime, né? agora…dar porretada na cabeça de negro é o que? Se agente fica na rua, sem casa…já tá descalço, né?…Pra agüentar, ora…só tomando muito parati. Quer dizer…nós tá no crime sem querer. Pegam a gente e botam adonde? No hospício, na casa de correção, na Presiganga, mandam nós pro Acre, pros bichos comer. De modos que comigo é assim: Chegou, bateu? Eu também dou porrada! E…tome chibata!

(Volta o jogo até congelar )

Manduka:

_A verdade eu falo agora. Querem derrubar nossa casa. Eles falam que é pr´uma tal de saúde pública. Pública de quem? Sem casa como é que a gente pode ter saúde? Meu avô foi escravo. Carregava na cabeça um barril de merda da família do sinhō, da Rua Direita até o cais Pharoux. O senhor morreu duma febre que deu lá, naquele tempo. A casa do finado, do sinhō do meu avô foi derrubada? Que nada. Tá lá até hoje…podre, fedida.

Não tô aqui por que quero.  Trouxeram meu avô pra cá. A gente se adefende com o pé, com a mão, com um pedaço de pau, com o que for. Me dá casa nova, me dá sapato, me dá camisa que eu bato palma pra saúde pública. Se me der bordoada, eu devolvo, eu pago, dou porrada também! E…tome chibata!

(Palco neste momento deve estar totalmente limpo. Ouve-se novamente o som de histéricos apitos da polícia. Capoeiristas correm para fora de cena, perseguidos por policiais.)

Cena 02
MUSEKE
Exu Marabô

(Penumbra. Novas partes do cenário, transferidas dos bastidores para o palco, fazem com que ele tenha agora dois níveis, sendo o superior composto por um praticável ou jirau móvel, dividido de alguma forma em dois espaços distintos, acessados por intermédio de escadas também móveis.

Metade deste jirau, reproduz um coreto tradicional, em cuja parte central bem no topo, um figurante coloca um letreiro. )

BATALHA DAS FLORES
GOVERNO PEREIRA PASSOS
1906

Música de bandinha, surge dos bastidores, crescendo. Parte do lado do palco, o mesmo onde está o coreto, mantém o bonde da cena anterior recomposto, ao lado da mesma coxia onde estava, sendo acessível aos atores através dos bastidores.

Saindo da coxia e atravessando o bonde, como se dele desembarcassem, muitas pessoas entram e cena, todas com os rostos pintados de branco. Algumas delas ficam por um tempo, dependuradas nos balaustres do bonde que, assim como tudo neste lado da cena, está ornamentado com flores. As pessoas estão muito bem vestidas (roupas de domingo), portando chapéus, bengalas, guarda-sóis, bambolês e bicicletas, tudo enfeitado. Músicos de uma bandinha também entram por ali.

O fluxo constante de pessoas pode ser conseguido através da circulação delas do palco para os bastidores, de onde retornam de novo ao palco, com ligeiras alterações de figurinos e adereços. As pessoas vão se aglomerando em torno do coreto, fazendo grande alarido. Luz neste ambiente é feérica Sob luz mortiça e no outro lado do palco simetricamente dividido, a parte inferior do jirau representa o pátio de uma casa de cômodos, no qual deve estar à vista algo que se assemelhe à fachada de um cortiço.

Um pequeno chafariz, algumas tinas de roupa, cadeiras, além de varais de roupas cruzados pelo espaço mas ainda vazios, podem completar o cenário.  Focos nos participantes da festa no coreto. Um grupo de autoridades se aproxima, vindo detrás da platéia. Grupo de policiais faz escolta.

Participantes da festa, do palco, aplaudem e dão vivas entusiásticas. Participante grita:

Participante:

_ Viva o Prefeito Pereira Passos!

Todos respondem em coro.

Grupo de autoridades sobe ao palco e se fixa no centro do coreto. Fotógrafo com máquina “lambe-lambe” assume boca de cena. Autoridades se imobilizam diante do fotógrafo, esperando a foto. Explosão do flash fotográfico sinaliza inversão da luz nos ambientes. Na penumbra, cena do coreto prossegue com movimentos normais mas, sem ruídos.

Luz da casa de cômodos cresce. Pátio da casa de cômodos começa a ser ocupado por homens vestidos com roupas sujas, trazendo alguns dos adereços citados que vão sendo largados pelo pátio. Alguns destes homens são marinheiros. Outros homens entram trazendo carrinhos de mão tipo “burro-sem-rabo” e grandes sacos de carvão.

Ruídos da cena são apenas os produzidos pelas ações descritas. Alguns homens entram na casa e desaparecem nos bastidores. A maioria senta ao lado do chafariz, fumando lentamente. Todos parecem cansados. Mulheres começam a sair da casa e estendem roupas nos varais. Num dos cantos uma mulher lava roupa numa tina.

Homens e mulheres vão se recolhendo para o interior da casa até que toda o pátio fique vazio.

Nova explosão de flash fotográfico. Nova inversão de luz nos cenários.

Burburinho na cena do coreto volta forte. Luz forte se concentra no centro do coreto onde se destaca uma autoridade de barbicha.

Prefeito faz discurso inflamado:

Pereira Passos:

_ A população do Rio que, na sua quase unanimidade, felizmente ama o asseio e a compostura, espera ansiosa pela terminação desse hábito selvagem e abjeto, que nos impunham as sovaqueiras suadas, apenas defendida por uma camisa de meia rota e enojante de suja, do vexame de uma súcia de cafajestes, em pés no chão, quando um calçado está hoje a 5 mil réis o par e há tamancos por todos os preços. Na Europa, ninguém tem a insolência e o despudor de vir às ruas de Paris, Berlim, de Roma, de Lisboa, etc. …em pés no chão e desavergonhadamente em mangas de camisa!

Aplausos frenéticos de novo. Participantes ficam agitados. Prefeito prossegue:

Prefeito Pereira Passos:

_O Rio de Janeiro principalmente vai passar e…já está passando por uma transformação radical. A velha cidade, feia, suja, tem os seus dias contados! Não é outro, tenho-lhes dito, o verdadeiro sentido de civilização e progresso do que nossos detratores tem chamado, levianamente de “bota a baixo”!

Coro de participantes (gritando) :

_ Bota a baixo! Bota a baixo! Bota a baixo! Bota a baixo!

Participantes vão ficando agressivos e começam a ocupar o cenário da casa de cômodos,  depredando-o. Policiais tentam impedir, sem muita convicção e não conseguem. Platéia começa desmontar todo o pátio da casa. Policiais resolvem também a ajudar no vandalismo.

Participantes da batalha das flores vão ocupando toda a cena, Luz acompanha este movimento de expansão da cena e vai tomando também todo o espaço cênico. Prefeito é carregado em júbilo pelos participantes, que vão saindo com ele pelo lado onde estava o pátio da casa.

Alarido da saída dos participantes da batalha da flores prossegue ainda um pouco, mesmo depois da cena estar vazia.

Com o silêncio, homens e mulheres que moravam na casa de cômodos, voltam à cena como garis da época, limpam os restos de adereços que sobraram no palco e recolhem as partes do jirau.

Luz vai caindo até o black out.

Cena 03
ZUNGA
Pomba Gira

Música de Ragtime em piano comum e percussão típica. Fundo da cena simula linha do mar e parte do convés de um navio do início do século.

Predominância de preto e branco nas cores em todo cenário e figurino. Personagens brancos, têm os rostos pintados nesta cor.

Todos os movimentos das personagens são esquemáticos, quase mímicos.

Cena simula uma seqüência de cinema mudo.

Português bigodudo entra em cena de ceroulas, boné característico e tamancos. Caminha até o centro da cena de forma cômica. Só aí demonstra perceber que está de ceroulas. Cobre a bunda e púbis com as mãos e foge para uma das coxias. Antes de sumir faz sinal para que a platéia o aguarde.

Português volta com o corpo coberto por dois painéis de anúncio de cinema. No painel da frente se lê:

“Cinematógrapho Avenida e Pathè Films Apresentam A sensacional película!!

KALUNGA, O MARUJO DO BARULHO”

Português vira de costas. Segundo painel é lido:

Hoje:

KALUNGA E OS TENENTES DO DIABO

Português sai de cena mas voltará sempre com novos letreiros que formarão as legendas do filme mudo.

Grupo de tenentes da marinha entra desajeitadamente no palco, um deles faz soar um apito característico, chamando alguém que está oculto na coxia, do lado oposto ao que entrara o  português. Um dos tenentes faz a mímica como se falasse. Português mostra letreiro:

MARUJO, APRESENTE-SE!

Pessoa chamada não se apresenta. Um dos tenentes agita no ar uma chibata. Apito soa  novamente. Tenente repete o chamado, com mais ênfase.

Português mostra de novo o letreiro:

MARUJO, APRESENTE-SE!

Entra em cena o marujo Kalunga. Negro, baixinho, fazendo graça para a platéia. Tropeça, finge que está com medo dos tenentes, Perfila-se e faz desajeitada continência para eles. Um dos tenentes faz mímica de grito, dirigindo-se aos outros.

Português mostra letreiro:

A BARRICA! A BARRICA!

Dois tenentes vão até a coxia e retornam com uma grande barrica posta sobre um chassi com rodinhas. Viram para a platéia um lado da barrica onde se vê um orifício. Tenentes apontam o orifício para a platéia. Ordenam a Kalunga que se aproxime. Letreiro anuncia a ordem:

ENTRE NA BARRICA, MARUJO! É UMA ORDEM!

Kalunga reluta. É pego por um dos tenentes, se desvencilha, corre pelo palco. Muita comicidade na perseguição. Corre em torno da barrica até ser pego pelos os tenentes. É posto à força dentro da barrica que é levada com ele dentro para fora do palco. Tenentes saem com a barrica, rindo e indicando com gestos, que vão sodomizar o marujo . Letreiro anuncia:

ORDENS…SÃO ORDENS!

Breve momento de cena deserta. Kalunga coloca a cabeça para fora dos bastidores, do lado oposto ao do que está a barrica. Kalunga assume o palco e faz sinal para que platéia fique em silêncio. Eufórico, faz suspense, aponta para o lado onde está a barrica. Pede a platéia que espere atenta.

Luz na direção da coxia onde está a barrica. Gemidos lascivos são ouvidos, vindos do lado onde está a barrica. Logo após os gemidos, um grito desesperado de dor.

Kalunga simula riso divertido, cobrindo boca para não ser ouvido, insinuando sempre com mímica o que está ocorrendo na coxia. Gritos de desespero de todos os tenentes.

Kalunga solta gargalhadas (sem som) Tenentes entram, perseguindo Kalunga com raiva. Kalunga foge, dá uma volta completa pelos bastidores e volta à cena. Tenentes, ao atravessar o palco, deixam que se veja enormes lagostas vermelhas, balançando, presas nas braguilhas como se tivessem sido mordidos.

Atrás do grupo que sai finalmente de cena, entra o português com letreiro :

É O FIM!

Luz caindo até curto black out.

Luz volta. Placa do filme postada num canto, indica a saída do cinematógrafo.

Político e mulher elegantes, entram em cena como se estivessem saindo do cinema mas, apenas simulam estar andando pela rua enquanto conversam.

Detalhes da rua – placas, letreiros, postes, quiosque, etc.- são adereços carregados por atores e figurantes que desfilam com eles pelo palco, como se a rua girasse num ciclorama.

Mendigos abordam o casal mas são repelidos com elegância. Carroceiros cortam a cena com carrinhos “burro-sem-rabo” cheios de tralhas. Quiosque se imobiliza e grupo de populares entram em cena para ocupar o balcão.

Bebem, comem e conversam. Vão ficando bêbados. Palco vai se enchendo de figurantes caracterizados como prostitutas, marinheiros, vendedores ambulantes, etc.

Burburinho se reduz para a fala do político.

Político: (Irritado)

_ Achei a película execrável!

Mulher:

_ O que, Chèrie?

Político:

_ Detestável! Uma bodega! É o que digo sempre…É assim que
nossos ideais de progresso dão sempre com os burros n’agua!

Mulher:

_ Mas era só uma sátira, chèrie!! Até que bem hilariante…Um  pouco grosseira talvez  mas…divertida. Muito divertida!

Político:

_ Existem temas mais apropriados. Zombam das instituições, isto sim. A armada devia coibir estes excessos!

Mulher:

_Não seja tolo, chèrie! É uma película norte-americana. Aquela armada não é a nossa. Deve ser a inglesa…sei lá!

Político:

_ Mas é como se fosse. A vida dos marujos, afinal não é tão dura assim. Ainda ontem estes homens não eram mais que escravos. Hoje têm soldo, trabalho digno, viajam o mundo e…

Grupo de bêbados irrompe numa sonora gargalhada. Casal olha para o quiosque surpreso, como se achasse que riram deles.

Mulher:

_ Oui, mon amour! Você está certo. São abusos sim mas, você não relaxa nunca? Detesto este teu fanatismo pelo trabalho na Câmara, esses debates. Você se acha a palmatória do mundo. Um dia você vai e o Brasil fica por aí, oh…belo e faceiro. Viu como todo mundo se divertiu lá no cinematógrafo? Até os velhos mais caquéticos riram à larga. Você devia deixar a política na escrivaninha da câmara, isto sim. O importante, chèrie, é o…savoir vivre!

Homem:

_ Vocês, mulheres…acham que tudo se resolve com savoir vivre e art nouveau. Pensam que isto vai…colorir as mazelas do país? Isto aqui, minha cara, não é a França não. Olhe para esta gente (apontando para o quiosque ) Não se civiliza nunca, viu? Se a gente dorme, é capaz de acordar com os excrementos deles em nossa própria porta. Nossa art nouveau, nossa belle époque, hum…só se for com muita água e sabão!

Pessoal do quiosque passa a olhar o casal com hostilidade. Casal se assusta e vai se retirando.

Mulher:

_A propósito, mon amour…Podíamos ir à tua garçonière! O que achas? Tomamos um banho de sais e…Você não sairá cedo amanhã, não?

Homem:

_ Infelizmente sim!

Mulher:

_Oh, non!

Homem:

_ Sim, sim! Irei agora contigo mas, pela manhã…Imagine que o jornalista João do Rio nos aprontou mais uma. Desafiou-nos, a todos nós da Câmara e, pelos jornais, a acompanhá-lo numa inspeção sanitária, a uma destas espeluncas da cidade. Disse ele que se chamam…Zungas. São lugares fétidos, imundos, nem queira saber o quanto. De modos que terei que ir ao beco dos ferreiros amanhã. Não posso medrar. Só espero que…os sais de hoje, me livrem de um impaludismo amanhã!

Mulher:

_Oh…oui, oui! Os sais de França fazem milagres, chèrie!

InBêbados fazem algazarra. Xingam o casal que sai rápido de cena. Dono do quiosque fecha as janelas, expulsa os bêbados que saem protestando.

Último bêbado mostra um letreiro:

DIA SEGUINTE. NO ZUNGA

Penumbra. Jiraus retornam. Reproduzem agora o interior de uma hospedaria barata, tipo “cabeça de porco”. O espaço cênico, está agora totalmente ocupado pelos atores com esteiras, redes e camas improvisadas. O nível superior, dividido, de alguma forma em planos ou espaços distintos, é acessado por intermédio de escadas.

A maioria dos atores e figurantes, vestidos com trapos imundos ou seminus, vão entrando lentamente e ocupando os dois níveis do espaço, deitando-se silenciosamente, demonstrando cansaço. Alguns se deitam simplesmente no chão. Entre eles estão alguns marinheiros.

Brigam entre si por melhores espaços. São brigas surdas, com movimentos bruscos e tensos. Burburinho contido de vozes tossindo, e reclamando e depois, respirando ou roncando, prosseguem até o silêncio.

Penumbra é rompida por luz forte e súbita. Grupo de policiais, vindos dos bastidores, irrompe no recinto seguido por homens engravatados. Policiais afastam rudemente com cassetetes, as pessoas que estão no caminho.

Alguns fingem dormir, outros envergonhados, sentam-se cabisbaixos. Só se ouvem as vozes dos policiais e inspetores. Entre eles está o cronista João do Rio que fala:

João do Rio:

_ Eis aí, senhores, o vosso século 20! Nosso alentado progresso. Não lhes disse que o Brasil escondia a idade média em suas entranhas?

Alguns inspetores puxam lenços para tapar os narizes, com nojo. Outros  hesitam em avançar. Político do cinematógrafo fala para os demais:

Político:

_ Vamos senhores! É preciso não ter pejo. Vejam a realidade crua, nojenta. Sintam o seu cheiro, seu miasma infecto. Como vêem, não exageramos em nossos discursos na câmara. Urge ou não urge acabar logo com estes antros? Pois venham Srs.! Avancem!

Polca “Rato, rato” em compasso bem lento, soa no ambiente. Grupo circula pelos corpos caídos, desviando de uns e de outros, Na subida da escada, alguns hóspedes estão apoiados, fingindo dormir num corrimão. Mulheres, sentadas nos degraus da escada, escondem as pernas, cuidadosamente.

No andar superior, muitos homens deitados estão quase nus, enquanto que longo banco de madeira, um grupo cochila sentado, com os antebraços apoiados numa corda esticada, cujo nó é rompido bruscamente, por um dos policiais. Pessoas que cochilam na corda despencam no chão. Os despertos ficam de pé num salto, assustados.

Inspetores vão se retirando em silêncio. Policiais abrem caminho com os cassetetes. A esta altura todos já estão acordados e se comportam entre envergonhados e assustados. Cena vai voltando à penumbra lentamente.

Pessoas vão voltando a seus lugares, lenta e silenciosamente. Polca prossegue mais um pouco e vai descendo com a luz até o black out.

Cena 04
KURIMBA!
Exu Veludo

Luz volta. No palco uma mesa, em cima dela uma moringa, um lampião, um cinzeiro com um cigarro aceso, alguns papéis e uma garrafa de cachaça.

Sentado na mesa o marinheiro João Cândido, com a túnica da farda desabotoada e descalço. Som de batidas na porta. A batida é ritmada, como um senha. João responde:

João Cândido:

_ Pode chegar! Tô aqui!

Três outros marujos entram e sobem uma das escadas do jirau. Cumprimentam-se efusivamente e se sentam. Bebem cachaça e conversam com João, preocupados.

Líder marujo 01:

_ Uma coisa é certa. A marinha sabe, gente. Desde que a gente voltou da Inglaterra que ela sabe.

Líder marujo 02: _ Pois é. Eles devem ter mandado a gente pra lá, só pra ver se arrefecia a idéia do motim. É isso. Só pode ser. Olha…É melhor adiar isso.

João Cândido:

_ Que é isso, gente! Que adiar o quê…Calma. ´Cês lembram daquele sindicalista inglês, lá no estaleiro de New Castle…O Laughton, lembram? Pois ele já tinha me dito que a Marinha andava meio ressabiada mas…não com a gente. Se nos mandaram p´ra Inglaterra é porque botaram esperança na gente, claro! Que desconfiança o que, ora! É só a gente fazer tudo direito, sem apavoramento, com paciência!

Líder marujo 01:

_ Mas João…é arriscado, homem. A inglesada foi amiga, muito solidária e tal e coisa mas…eles estão lá, né ? E nós aqui! A gente pode ser preso, condenado…Pode até ser morto, fuzilado! Tua
casa já tá vigiada, tu sabia? A gente espera outra chance. É melhor adiar a revolução, né mesmo?

João Cândido:

_ Que nada! E se a Marinha souber? E daí? Eles devem estar achando que é fogo de palha nosso, homem. Acham que a gente não tem capacidade pra organizar, comandar a tropa. Olha só…eu já marquei com o Marcolino. Marquei pra hoje, lá naquele candomblé do Santo Cristo. A gente pode conversar todo mundo lá. Toma umas cachaça, pede proteção pra oxalá, pra Exu, sei lá? Vamo em frente que eu sei que vai dar… Calma, gente.

Líder marujo 03:

_ Tá certo, tá certo! Mas nós vamos ter que mudar o endereço do comitê. Tua casa tá mesmo vigiada. Aqui na Saúde não dá não…Não dá mais.

João Cândido:

_ Papo furado…Mas ´cês não tem imaginação mesmo, heim! Eles acham que nós somos um bando de pés lascados. Fica calmo, homem. Já temos plano, já temos data…o que vocês querem mais? ´Cês tem que confiar aqui no timoneiro, ora! Vão, vão logo. Lá no Marcolino a gente se vê, tá bom?

Marujos se levantam e descem. Um deles volta e pega a garrafa de cachaça. João apaga o lampião e desce com eles, deixando a cena às escuras.

Ruído de sereia de navio. Alguém bate numa porta. Voz responde:

Voz: (Em off ) _ De quem se trata? Apresente-se!

Ninguém responde ou se apresenta. Oficial da Marinha aparece se aproximando de uma porta. iluminada. Abre a porta e não vê ninguém. Algo chama a sua atenção no chão. Encontra um bilhete na soleira da porta.

Oficial pega papel e fixa o olhar nele, como se lesse.

Voz (lendo bilhete, em off ):

_”Venho por meio desta linhas, pedir não maltratar mais a guarnição
deste navio que tanto se esforça para trazê-lo limpo. Aqui ninguém é
salteador nem ladrão. Desejamos paz e amor. Ninguém é escravo de
oficiais e …chega de chibata. Cuidado.
Assinado:
Mão Negra “

Oficial tem reação preocupada. Black out.

Tambores de candomblé tocam forte para Exu, ocultos da cena. Luz
crescendo.

Mulheres, participantes do culto – Ekedis – montam ritualísticamente o cenário com a instalação de um peji (oratório). Nele velas são acesas, vasilhas de comida para os orixás- ebós – são colocadas , etc. Logo após a montagem, Ekedis saem e retornam junto a um grupo maior de Yaôs, dançando e cantando ao som dos atabaques. Cena deve reproduzir elementos essenciais do ritual de uma “saída de Exu”.

Algumas pessoas estão “possuídas” e dançam em transe. Pessoa que está sendo iniciada entra em cena paramentada como Exu. Não se consegue ver quem está sob os paramentos. Ritual vai assumindo clima de grande êxtase. Grito de sacerdote-ogã – interrompe o ritual. Grupo de Ekedis e Yaôs, vai se retirando da cena dançando.

Pessoa vestida de Exu vai se despindo dos paramentos. Sob eles vai aparecendo uma farda de marinheiro. Já totalmente despido dos paramentos, se percebe que o iniciando é João Cândido.

João Cândido: (para a platéia )

_ Meu nome é João Cândido Felisberto, gaúcho, marinheiro de primeira classe da gloriosa Marinha do Brasil.

Estive na guerra do Paraguai e sobrevivi. Quando o Brasil mandou construir na Inglaterra os três encouraçados mais modernos do mundo, eu estava lá, na guarnição. O meu navio é o Minas Gerais, sou o timoneiro do melhor navio do mundo. É por isso que eu digo. Não sou nenhum desqualificado não. O que eu não sou e nunca fui mesmo é Pai João. Tá tudo aí pra todo mundo ver. Tratam a gente feito cachorro. Não dá mais. Chega de chibata! Se o governo não vê ou finge que não vê, eu vejo e, tenho nojo do que vejo.

Black out. João Cândido desce para a platéia e se junta ao público, para assistir a cena a seguir.

Som dos tambores vai crescendo. Parte do Jirau, deslocada para o palco por figurantes vestidos de marinheiros, representa de novo o convés de um navio do início do século. Há no conjunto um grande mastro de navio bem à vista.

Grande grupo de marujos entra em cena, assumindo posições no navio, sob o comando de oficiais. Ordens gritadas pelos oficiais são ouvidos. Oficial comandante, em posição de destaque, grita, apontando para uma coxia:

Oficial Comandante:

_ Aos ferros! Acorrentem o negro no mastro ! Aos ferros com ele, já! Dois cabos entram em cena com um marujo amarrado. Oficial comandante ordena para os demais oficiais:

Oficial Comandante:

_ Em formatura!

Oficial repete a ordem. Marinheiros formam. Silêncio na cena. Marujo é preso ao mastro e  começam a açoitá-lo com chibatas. Tambores de candomblé marcam o ritmo das chibatadas .Oficial ordena que a tropa dê as costas para o marujo açoitado.

Oficial Comandante:

_ Meia Volta…Volver!

Tropa não obedece a ordem e fica imóvel. Oficial insiste em vão. Demais oficiais se agitam tensos.

Líder Marujo: (gritando)

_ É agora!

Tropa desfaz a formatura e cerca oficiais que puxam pistolas e espadas. Marinheiros gritam:

Marinheiros:

_ Liberdade! Abaixo a chibata! Abaixo a chibata!

Música de tambores. Tumulto no convés. Oficial corre para a boca de cena e grita para o público:

Oficial Comandante:

_ Motim! Motim!

Silêncio. Oficiais são dominados. Alguns estão caídos, feridos ou mortos.

Foco de luz segue João Cândido que volta ao convés-palco. Marinheiros formam para ele, perfilados reverentemente. João Cândido amarra um lenço vermelho no pescoço e, com um gesto, manda que desfaçam a reverencia e a formatura. Marinheiros começam a desmontar o cenário da luta, saindo de cena, onde somente João Cândido permanece.

Tambores soam mais fortes. Ekedis e Yaôs voltando à cena dançando, cercam João Cândido e vestem nele de novo os paramentos rituais. Grupo dança freneticamente. Marujos voltam à cena
Ogã lança pipocas sobre alguns marujos que entram em imediatamente êxtase, como se  incorporados. Todo o grupo parece estar incorporado. João Cândido, vestido de Exu, dança no meio deles.

Som brusco de um apito da polícia. Policiais entram em cena. Tambores cessam.

Policiais chutam ebós e peji. Cena é evacuada pelos policiais com violência.

Black out.

Cena 05
KALUNGA!
Exu Rei

Ainda no black out, som de batidas numa porta. Homem vestido de mordomo entra, iluminando a cena, com um candelabro. Candelabro mostra outro homem que chega. Ele se veste elegantemente, de casaca e está cansado mas, eufórico como se tivesse chegando de uma festa.
Homem se senta numa poltrona, retira os sapatos e as calças, ficando só de casaca, ceroulas e meias. Mordomo se dirige a ele, ansioso:

Mordomo: ( sotaque francês, apreensivo )

_ Monsieur Presidente, por favor!

Hermes da Fonseca:

_ Ora bolas, Jean Claude! Não vês que estou exausto?

Mordomo: (esbaforido)

_ Pardon, Monsieur Hermès..Pardon! Ces très important. A armada…A Marinha…

Hermes da Fonseca: (Desatento, irritado )

_ Vá, homem! Desembucha, sô!

Mordomo: (Trêmulo)

_ Passarram um rádio, excelência!..Mon dieu! A Armada…a Armada se rebelou! Os marrujos dizem que querrem…o fim das torturras, ou algo assim. Ameaçam bombardear a cidade, excelência! Bombarrdear a cidade!

Hermes da Fonseca: ( se levantando assustado )

_ Com os diabos! Bombardear a cidade! Mas o que pensam? Acabo de tomar posse. Ficaram loucos? Cambada de insolentes, corja! (andando de uma lado para o outro) Anda Jean Claude! Vá, anda! Me traz o automóvel…Me chama todo o ministério, o Estado Maior…(notando o candelabro ) A luz, que foi feito da luz do Palácio?

Mordomo:

_Por Dieu, Monsieur! Tivemos que apagar tudo. O palácio é o alvo principal dos bandidos!

Hermes da Fonseca: ( aturdido )

_ Vai, homem! Me traz também o…Rui Barbosa! Ave Maria, vá! Traga todos…Não…Deixe estar. Eu vou junto até eles. Depressa, homem…Diabos!

Mordomo sai na frente afobado, levando o candelabro e seguido pelo presidente.

Hermes da Fonseca: (Puxando o mordomo para trás)

_Volte.! Volte aqui, homem! Preciso vestir minhas calças!

Os dois saem, deixando a cena às escuras.

Luz sobre o fundo branco da cena, reproduz céu avermelhado. Vindas de lados opostos, das duas coxias, as partes separadas do jirau entram forradas com longos panos, de forma que se assemelhem à proas de dois grandes navios que, avançam lentamente em sentido transversal ao palco, até quase se tocarem. A caracterizar os navios, o nome das embarcações (“Bahia” e “São Paulo”), simulações de âncoras e canhões, etc. As proas avançam um pouco à frente do céu e na parte superior delas, no nível do que seriam os conveses, marinheiros gritam e acenam eufóricos, lançando os bonéscaxangás para o alto.

Todos os marujos trazem lenços ou trapos vermelhos no pescoço ou nos bolsos das túnicas. Os navios têm flâmulas vermelhas desfraldadas.

Na parte baixa da cena – o palco – cenário reproduz também detalhes de um outro convés, contendo bem visível o nome do navio (“Minas Gerais”), da mesma forma ocupado por marinheiros eufóricos. O conjunto cenográfico simula o encontro de três navios de guerra. No centro do convés-palco, um marujo negro saúda os marinheiros dos navios de cima, acenado a espada levantada. A maioria dos marujos são negros mulatos ou morenos. Todos portam fuzis ou espadas.

Dos dois navios do fundo são lançadas escadas de cordas. Por elas descem dois marinheiros, líderes dos navios. Marinheiros que desceram abraçam o do convés do palco que usa um uniforme surrado e está descalço.

Marujo descalço – João Cândido – fala para os que desceram.

João Cândido:

_ A oficialidade teve algumas baixas aqui no Minas Gerais. Se defenderam como puderam. Amanhã mandamos os corpos para a terra. Agora não tem mais jeito…O governo vai ter que ceder. Mão Negra! Cadê o manifesto? Tá pronto? Deixa eu ler.

Mão Negra: (passando um rolo de papel para João)

_ É bom ler mesmo, pra todo mundo ouvir. Vai valer o escrito. Quem quiser desertar da luta, a hora é esta. Agora é ganhar ou morrer!

Silêncio. João Cândido olha o papel com se o lesse. Grande estandarte com o texto ampliado do manifesto, é lançado de cima de um dos navios:

“Rio de Janeiro, 22 de novembro de 1910
Il.mo. Ex.mo. Sr. Presidente da República Brasileira.
Cumpre-nos informar a V.Excia., como Chefe da Nação Brasileira:

Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podendo mais suportar a escravidão na Marinha Brasileira, a falta de proteção que a Pátria nos dá; e até então não nos chegou; rompemos o negro véu que nos cobria os olhos de patriótico e enganado povo.

Achando-se todos os navios em nosso poder, mandamos esta honrada mensagem para que V.Excia. faça aos Marinheiros Brasileiros possuirmos os direitos sagrados que as leis da República nos facultam, acabando com a desordem e nos dando outros gozos que venham engrandecer a Marinha Brasileira; bem assim como: retirar os oficiais incompetentes e indignos de servir a Nação Brasileira.

Reformar o código Imoral e Vergonhoso que nos rege, afim de que desapareça a chibata, o bolo, e outros castigos  semelhantes; aumentar nosso soldo, educar os marinheiros que não tem competência para vestir a orgulhosa farda, mandar por em vigor a tabela de serviço que a acompanha.

Tem V.Excia. o prazo de 12 horas para mandar-nos resposta satisfatória, sob pena de ver a pátria aniquilada.

22 de novembro de 1910
Nota: Não poderá ser interrompida ida e volta do mensageiro.
Marinheiros

Marinheiros aplaudem. Desfaz-se a formação dos navios, com o recolhimento das partes do jirau que carregam suas tripulações que, saem de cena eufóricas com entraram.

Fundo da cena está agora azulado. Silhueta do pão de açúcar é projetada sobre este fundo. Num dos cantos da boca de cena, são colocadas peças de um cais.

Música para dança. Grandes estandartes de pano, simulando cascos de navios, manipuladas por grupo de marujos-dançarinos, aparecem em cena representando o movimento de uma esquadra.  O sentido estético da dança deve ser bastante suave e lírico. Canhão cenográfico apontado para o alto é empurrado para o centro da cena, oculto pelos estandartes da dança.

Figurantes e atores, caracterizados como populares, policiais, soldados, mulheres elegantes, homens engravatados, trabalhadores, etc., vão ocupando os dois cantos da cena, principalmente ao lado do cais, como se tivessem sido atraídos pela dança da esquadra.

Quando a assistência do “cais” estiver bem embevecida, dançarinos abrem bruscamente um claro entre os estandartes, deixando a luz acentuar a existência do canhão.

Canhão atira com grande estrondo e todos, figurantes e dançarinos debandam da cena assustados. Luz pisca e fixa-se em black out.

Luz volta. Fundo da cena assume tom azulado. Junto com a silhueta do Pão de Açúcar aparecem agora silhuetas de navios de guerra ancorados ao largo. Grupo de autoridades civis e militares, seguindo um almirante vestido pomposamente e com chapéu característico, olha do cais para a esquadra ao fundo com alguns binóculos e lunetas. Um oficial cochicha algo no ouvido do almirante, apontando para uma das coxias. Almirante faz sinal para que alguém se aproxime.

Dois fuzileiros trazem um marujo aos solavancos. Almirante manda que o soltem. Marujo se perfila para o almirante e fala:

Marujo:

_Sou o emissário do marinheiro João Cândido Felisberto. Trago uma mensagem urgente da esquadra.

Fuzileiros seguram o marujo e o sacolejam de novo. Almirante de novo manda soltá-lo. Marujo olha com desdém para os fuzileiros.

Marujo retira um papel de um tubo e entrega ao almirante que o lê. Demais oficiais cercam o Almirante, curiosos. Almirante fica possesso.

Almirante:

_ Nunca! Jamais! Ah, mas…Esta gentalha não vai nos…

Antes que almirante conclua a frase, som de zumbido de um tiro de canhão  corta o ar. Estrondo de explosão do tiro, logo em seguida. Autoridades fogem para fora de cena. Black out.

Luz crescendo lentamente. Música. Cena vai sendo ocupada por populares,  homens elegantes conversando, policiais, senhoras com guarda-sóis,  melindrosas, todos passeando tranqüilamente. Alguns portam adereços que  caracterizem detalhes de uma grande avenida: tabuletas de lojas, fachadas  de quiosques, vitrines, postes, triciclos, bicicletas etc.. Fachada do bonde  pode ser reposta em cena.

Um homem portando um cartaz de propaganda circula entre os populares,  gritando pregão:

Homem do cartaz:

_ Não percam! Não percam! Estréia hoje! Benjamim de Oliveira no Circo Spinelli! A Vingança do marujo! A vingança do Marujo! Sensacional espetáculo teatral! Não percam, hoje!

Cartaz:

O Circo Spinelli orgulhosamente
apresenta o sensacional espetáculo teatral:


A VINGANÇA DO MARUJO

Com o fabuloso, o insuperável palhaço negro BENJAMIN DE OLIVEIRA.  Não percam!

Além da voz do homem-cartaz e da música, nenhum outro som é inteligível  na cena. O que se ouve é apenas o burburinho das conversas dos populares.

De repente, outro som do zumbido de tiro de canhão é ouvido. Black out  simultâneo a explosão de outro tiro. Gritos histéricos e correria dos populares. Cena é evacuada, ficando inteiramente vazia.

Luz geral. Dupla de palhaços entra em cena e desenha um grande círculo de  giz, tomando todo o diâmetro do palco, exceto um pequena área em torno, onde se acomodará uma claque de figurantes.

Música de banda circense. Foco ilumina mestre de cerimônias devidamente fardado,  anunciando:

Mestre de Cerimônias:

_Senhoras e senhores! Ladies and gentlemen! O meu cordiaaaal Boaaa noooite! O grande circo Spinelli tem a honra, o inenarrável orgulho de apresentar nesta memorável noite…(rufos de tarol )…O sensacional espetáculo…A vingança do Marujo! E para interpretá-lo, ele…o inigualável…o fabuloso…o insuperável ator e clown (banda ataca acorde de suspense) …Benjamim…de O..li..vei…raaaa!.

Bandinha segue com uma marcha bem alegre. Aplausos entusiasmados da claque.

Dupla de palhaços traz ao palco-picadeiro, o elenco em fila indiana formado pelos personagens do espetáculo: Ator-benjamim-Almirante Negro, com espada e chapéu próprio; ator-senador Rui Barbosa, vestindo casaca; ator- senador Pinheiro Machado, também de casaca; ator-senador Alfredo Ellis, vestindo terno bem justo; coro de marujos descalços; coro de senadores de chapéus coco e casacas.

Atores-senadores sentam em caixotes deixados no chão pelos palhaços. Cada caixote possui o nome do senador respectivo escrito em letras grandes. Os dois coros, em lados opostos, ficam em pé atrás dos senadores e do Almirante Negro .

Um dos palhaços, sob o rufar do tarol da bandinha, mostra para a platéia,  com um risinho de chacota, o seguinte letreiro:

Letreiro:

Numa sessão do Senado Federal,
um debate DECISIVO para o Brasil

Ficando em pé em seu caixote, diante dos outros senadores, dirigindo-se também à platéia real do espetáculo, Rui Barbosa discursa:

Rui Barbosa:

_Quero crer que o governo, único responsável pela constrangedora situação atual, onde a indefinição se fez a irmã mais legítima da covardia, compreenda que o que trouxemos aqui, para esta magna casa, nada mais foram que provas…fatos absolutamente concretos e científicos, que atestam, definitivamente que…as figuras divinas, celestiais e diáfanas a que chamamos anjos…nada mais são do que fêmeas! Virgens sublimes como a mãe de Deus! Fêmeas! Insofismavelmente eu digo! (esmurrando a própria mão, com ênfase) Digo e afirmo sim!…São fêmeas todos os anjos do céu!

Claque interrompe com gargalhadas, apupos e aplausos.

Pinheiro Machado:

_ Conceda-me o ilustre colega um aparte.

Rui Barbosa: ( com irritação)

_ Que não seja longo, Senador.

Pinheiro Machado:

_ Chamo a atenção dos presentes para o seguinte. A situação difícil que se criou, o foi pela teimosia de homens como o ilustre senador da Bahia. Poderia mesmo dizer que é a turronice do excelentíssimo senhor Rui Barbosa que nos leva a este tão grave impasse. (aplausos da claque o interrompem ) Machos, eu afirmo! São machos os anjos do céu. (exaltando-se) Posso prová-lo apenas com minhas convicções.

E os bigodes, senhoras e senhores? Os respeitáveis  cavanhaques dos arcanjos, valorosos guardiões do céu? E as espadas longuíssimas que alguns deles empunham, com a força de verdadeiros homens que são? Machos, volto a enfatizar! Que órgão reprodutor teria aquele que, cumprindo os desígnios de Deus, em nome da ordem no Paraíso, expulsou Adão e Eva para os castigos terrenos? Bagos, senhoras e senhores! Bagos como os que temos nós, ferrenhos defensores da ordem e das instituições.

(Claque aplaude e apupa freneticamente )

Rui Barbosa: (também se exaltando )

_ Respeito, senhor Senador! Exijo respeito nesta casa! As ofensas de um caudilho…de um oligarca…não me atingem. Não me rebaixarei diante de suas ignomínias!

Exaltação de ânimos se generaliza. Um dos palhaços entra no picadeiro e cochicha algo no ouvido do senador Alfredo Ellis que, tenta transmitir imediatamente aos colegas.

Alfredo Ellis:

_ Atenção senhores! Temos a nossa porta uma comissão de marinheiros que…

Burburinho na claque. Senador prossegue aos berros.

Alfredo Ellis:

_ Por favor! Silêncio, por favor! Os marinheiros querem denunciar supostos maltratos sofridos por eles na Armada.

Senadores protestam por terem sido interrompidos. Palhaço sai do picadeiro e retorna, cochichando agora no ouvido de Pinheiro Machado que fica subitamente histérico.

Pinheiro Machado:

_ É grave, senhores! Muito grave! Os marujos afirmam que tem… valha-nos Deus! toda a esquadra sob o seu poder! Questão de ordem!! Questão de Ordem!!

Claque e senadores: (Burburinho)

_Oh!

Banda toca acordes dissonantes e cessa a música. Rufos de caixa. Suspense. Clima de número de corda bamba. Grupo de marinheiros, comandados pelo Almirante Negro, com pistolas, espadas e mosquetes, invade o picadeiro. Almirante negro levanta a espada, assustando os senadores que caem por sobre o coro e a claque.

Almirante Negro: (tirando o chapéu)

_ Sei que não somos anjos, senhores! Peço desculpas por interromper vosso trabalho mas…é que temos importante mensagem para o Governo.

Coro de marujos se aproxima do centro do picadeiro, se posiciona, empunhando e acenando as armas:

Coro de marujos: ( Cantando)

Chega de morrer de trabalhar, yayá
chega de comer couve com fubá, yoyô
chibata bateu, doeu, sarou
sarou, doeu
doeu, sarou o ponta pegou em quem bateu

Coro prossegue, baixinho. Pinheiro Machado se aproxima do Almirante Negro, solícito.

Pinheiro Machado:

_ Poderiam os Srs. nos descrever o esse tal Castigo da Chibata que, tal como dizem, seria praticado em nossa armada?

Banda toca melodia de música anterior, como um fundo de anúncio comercial.

Narrador em off, descreve o castigo. Coro de marujos, distribuídos no picadeiro, reproduz numa pantomima, tudo que está sendo narrado, como se fosse um número de circo. Chibatas maiores, similares as descritas na narração, são usadas para ilustrar o número.

Narrador:

_ Pegue uma corda mediana, de linho e a atravesse em toda a extensão com agulhas de aço das mais resistentes. Deixe livre das agulhas apenas um espaço para a empunhadura. Para inchar a corda, deixe-a de molho, até que só apareçam as pontas das agulhas. O faltoso tratado à Chibata, fica assim… como uma tainha, lanhada para ser salgada. Civilize o seu marujo. Use Chi-ba-ta. Chibata! Não estraga, não quebra, não mata!

Claque faz algazarra, vaia o número, e se junta aos marinheiros, revoltada.

Parlamentares isolados, se afastam assustados, cochichando. Algazarra aumenta com tiros dos marujos dados para o alto. Parlamentares fogem para as coxias. Claque e marujos gritam:

Claque e marujos:

_ Anistia! Anistia!

Em meio a um grande tumulto, senadores voltam à cena, apavorados. Um deles traz na mão um documento. Passando de mão em mão, todas elas trêmulas, o documento chega até os marujos que o entregam ao Almirante Negro que lê em silêncio. Silêncio na cena também é total.

Rufos de caixa. Marujos se acercam do Almirante Negro . Breve momento de espera. Gritos de marujos e da claque explodem na cena:

Marujos e claque:

_ Viva a anistia! Viva a anistia!

Banda de música volta com a marchinha, agora bem mais vibrante. Claque aplaude de pé. Coro de marujos carregam o Almirante Negro nos ombros, aclamado e saem de cena comemorando. Dupla de palhaços retira os senadores e seu coro de cena com empurrões e gozações. Luz e música vão caindo. Black out.

Cena 06
PRESIGANGA
Pomba Gira das almas

Gravação do hino “Cisne Branco” tocado por banda militar. Luz somente na boca de cena. Grupo de sete marinheiros entra no palco em fila indiana, carregando estandartes enrolados. O tamanho destes estandartes é no comprimento, o da extensão dos braços levantados dos marinheiros até o limite do chão, tendo na largura, tamanho que permita que ,quando
desenrolados, cubram toda a cena atrás deles. Num dos lados os estandartes são inteiramente pretos. No outro, têm manchetes de jornal reproduzidas, uma em cada um. Os marinheiros desenrolam os estandartes em seqüência, da direita para a esquerda.

Manchetes:

27 de novembro de 1910
TERMINOU, DEFINITIVAMENTE
A SUBLEVAÇÃO DOS MARUJOS!

28 de Novembro de 1910
VASSOURADA NA ARMADA!
Governo decreta exclusão de marinheiros a bem
da disciplina na Esquadra.

10 e Dezembro de 1910
NOVA REBELIÃO NA ARMADA!
Batalhão Naval em armas!

10 de Dezembro de 1910
FORÇAS LEGAIS MASSACRAM REBELDES DO
BATALHÃO NAVAL!
Marujos da Chibata leais ao governo.

10 de Dezembro de 1910
MARUJOS DA CHIBATA DIZEM QUE A REVOLTA DOBATALHÃO NAVAL FOI UMA FARSA!

10 de Dezembro de 1910
ESTADO DE SÍTIO!
Exército e policiais prendem rebeldes e arruaceiros.

10 de Dezembro de 1910
PRESO AO DESEMBARCAR O MARINHEIRO JOÃO CÂNDIDO!
Todos os rebeldes da Chibata encarcerados!

Black out breve. Marinheiros viram os estandartes com os lados negros voltados para o público. Luz volta. Marinheiros exibem as tarjas negras por um instante e saem de cena da mesma forma como entraram, deixando á vista a cena seguinte, que foi inteiramente montada por figurantes e atores, enquanto esteve encoberta pelos estandartes das manchetes. Música cessa.

Ópera “Taunhauser” de Wagner soando na cena. Três mesas comuns, dispostas em pontos destacados do palco, com oficiais do exército sentados, atendendo a filas de prisioneiros. Duas destas filas são formadas por populares e outra, em ponto destacado da cena, só por marinheiros.

Os marujos estão com os uniformes incompletos e amarrotados. Alguns populares estão em trajes de dormir. Os presos não falam e só se ouvem os gritos dos soldados e oficiais organizando as filas.

Todo o elenco deve estar em cena. Grupos que já passaram pela triagem nas mesas, voltam às filas contornando os bastidores, demonstrando grande fluxo de prisioneiros.

Grupo heterogêneo de prisioneiros ruidosos, aparecem de repente. São prostitutas, mendigos, motorneiros de bonde, malandros e capoeiristas.

Guardas tentam por o grupo nas filas mas estes reagem com um tumulto.  Guardas batem em alguns do grupo, inclusive numa mulher que foge para a platéia. Guarda a persegue. Tumulto se agrava e oficial grita ameaças.

Oficial:

_É a Presiganga! É a Presiganga! Vocês vão embarcar…Não adianta! É tudo vagabundo aqui. A ordem é mandar vocês todos pra bem longe do mundo!

Guardas dominam a fila com a ameaça das armas. Outra mulher corre para a boca de cena.

Mulher 01:

_É governo de gente sem mãe. Se tivesse, a mãe devia era estar lá com gente, na zona. (falando com a outra que está na platéia: ) Não é Jerusa? Nem o diabo me põe nesta fila. Sente só…fede a defunto.(mostrando o braço) olha só a bordoada que me deram! Vão ter que explicar que crime político é este que eu fiz pra ser pega assim, pelo Estado de Sítio…Ou será que a gente se virar já é ameaça a segurança nacional? Eu tô dizendo. É tudo frouxo, Jerusa! É governo de merda!

Guarda desce à platéia e corre atrás da segunda mulher. Outro agarra a que falou na boca de cena. Mulher da platéia ao ser agarrada grita:

Mulher 02:

_ Larga, larga! Seu cachorro! Tu só é homem de mosquete na mão. Borra botas! Xibungo!

Guardas dominam as mulheres que são devolvidas para a fila, puxadas pelos cabelos. Prisioneiros se aquietam. Oficial da mesa dos marinheiros chama guardas.

Oficial:

_ Mais dois guardas aqui! (para dois guardas )Escoltem esta cambada pro cais. Cadê os marujos? (para outro guarda )Separa eles…Confere aí guarda. Traz as nove gracinhas até aqui!

Guarda traz os marinheiros amarrados com cordas nos pulsos. Marinheiros estão assustados. Oficial se dirige aos marujos com sarcasmo:

Oficial:

_ Vão passear de barquinho? Não sabiam? Pois vão sim, suas gracinhas Vão pro navio “Satélite”, sabem qual é? Hum…Pois se preparem. Quero ver vocês fazerem rebelião na boca de tubarão.

Luz caindo. Som de sereia de navio. Filas vão sendo encaminhadas pelos guardas para fora de cena. Alguns prisioneiros tentam reagir, xingam os guardas, se debatem. Os últimos tumultos vão se diluindo, encobertos pelo som insistente da sereia de um navio e pelo black out.

Som de sereia de navio prossegue no black out, espaçadamente. Coro de vozes afinadas canta “noite Feliz” em alemão.

“Heilligue nacht
Stile nacht
Alles schläft
Einsam wacht
Nur das traurigue
kindlein schläft
Rut gehrut
auf die wiglein schläft
Schlafe in himmlischer ruhn
schlafe in himmlischer ruhn”

Coro vai repetindo a canção, solfejando. Grande estandarte de pano, como o perfil do casco de um grande barco puxado por atores, avança lentamente em sentido longitudinal ao palco, quase na linha da boca de cena. Na superfície do pano-barco está escrito o seu nome: “Satélite”.

Atrás deste pano-barco, atores e figurantes iluminados por trás, formam silhuetas de um grupo de prisioneiros dominados por soldados armados de fuzis e espadas. Algumas sombras de soldados circulam pelo espaço como a montar guarda.

Com a canção ao fundo e os sons esparsos de tiros e gritos, as ações principais descritas pelo texto narrado a seguir, também serão reproduzidas por movimentos das silhuetas projetadas no pano-barco

Voz narra o texto sem nenhuma emoção particular:

Narrador: ( em off )

_ …”A partida do porto do Rio de Janeiro, foi a 25 de Dezembro, pelas onze horas da noite. A descarga do navio iniciou por volta da meia noite de 24 e terminou por volta das 22 horas do dia 25 e, ato contínuo se deu o embarque do pessoal para os porões que estavam imundos, devido ao carregamento de açúcar bruto…Nestas condições partimos, levando 105  ex-marinheiros, 292 vagabundos, quarenta e quatro
mulheres e cinqüenta praças do exército.

No dia 26, adoeceu um dos nossos foguistas. Fiz subir um dos
prisioneiros afim de substituir o doente. Este denunciou que nos porões se tramava uma revolta, comandada pelo ex-marinheiro Hernani Pereira dos Santos, vulgo “Sete”. No dia 27. Com os inquéritos, alguns marinheiros foram algemados.

No dia 1 de janeiro, quando entrava o ano de 1911, estávamos já fora da barra e me afastei da costa para serem fuzilados seis homens, o que fizeram às duas horas da manhã porém dois, sendo um o “Chaminé”, se atiraram ao mar, morrendo afogados, visto que estavam com os pés amarrados.

No dia 2 de janeiro, às 23 horas, foram fuzilados mais dois marinheiros.  Ao todo foram mortos 9 bandidos que conduzíamos…

No dia 3 de Fevereiro, foram entregues ao Capitão Rondon, duzentos homens, conforme ordem do governo. Os restantes, teriam que descer com eles, deixando-os pelas margens do rio. Os seringueiros, ao longo do rio, iam pedindo homens e assim, no mesmo dia, ficamos livres das garras de tão perversos bandidos.

Navio “Satélite”
Rio de Janeiro, 5 de Março de 1911
Diário de bordo do
Capitão Carlos Brandão Storry

Ao final da narração e suas ações respectivas, pano-barco sai de cena lentamente, junto com a luz e a canção, ficando o palco inteiramente às escuras.

Cena 7
Katumbi

Exu das sete encruzilhadas

Dois oficiais e alguns fuzileiros navais entram em cena iluminando-a com uma lanterna de navio. Trazem consigo 18 marinheiros presos. Os marujos estão todos amarrados, descalços e sujos. São empurrados através da grande porta de uma masmorra. Toda a cena é iluminada apenas pela lanterna.

Porta da masmorra é fechada. Fuzileiros batem nela com o cabo dos fuzis. Oficial fala:

Oficial 01:

_ Malta! Corja de rebeldes de merda! Deram sorte de não terem sido embarcados para o Amazonas. São protegidos, não é? Diz que até ministro inglês defendeu vocês. ´Tá certo. A gente não vai esquecer este detalhe.

Fuzileiro 01:

_ Agora é com vocês, cambada!

Fuzileiros riem.

Oficial 2:

_Vão apodrecer agora aí dentro! Quando estiver fedendo, cheirando mal, eu mando pegar vocês, tá certo?

Fuzileiro 02:

_ Vamos ver agora, né gente? A valentia dessa negrada. Vão jogar capoeira com o capeta!

Todos soltam gargalhadas.

Oficial 01: ( Aproximando o rosto da porta )

_ Tem muito João aí? Só tem um não é mesmo? Quando não tiver mais nenhuma raça de João aí dentro, a gente solta todo mundo, tá bom? Quero esse tal de João Cândido morto, acabado! Ele não diz que é almirante? Pois agora ele vai ser almirante é no céu ou…nos quintos dos infernos!

Oficial 02: ( chamando os outros para se retirarem )

_ Agora é com vocês, seus bostas!

Fuzileiros e oficiais saem com a lanterna.

Luz de cena sobe um pouco, revelando o interior da masmorra. A porta é grossa e pesada, parece ser de ferro, com uma pequena abertura. Os marinheiros presos, largados pelo chão, parecem dormir. Estão inertes, deitados ou agachados com as cabeças entre as pernas.

Som de vozes cantando e instrumentos de percussão, começa a soar como se viesse de longe. A música é a de um bloco de carnaval mas, a harmonia das vozes é lúgubre e o andamento do ritmo é arrastado e marcial.

Luz sobe mais, junto com o volume da música que se aproxima. Figuras fantasiadas vão surgindo, os rostos são pálidos, pintados de branco, como fantasmas. São pierrôs, colombinas, melindrosas, arlequins e outras figuras típicas de carnavais antigos. Comandando o bloco, que está dividido em dois grupos, duas figuras fantasiadas de militares, com roupas semelhantes as de oficiais da marinha.

Uma delas está com o rosto coberto com uma máscara de diabinho de carnaval, a outra da mesma forma usa uma máscara de morcego. As duas figuras que comandam o bloco, carregam longas tripas de pano preenchidas com areia e bexigas e com elas golpeiam o chão com violência.

Grupo chefiado pelo diabinho, carrega latas de talco com os quais vão enevoando a cena. O grupo do diabinho carrega também um estandarte onde se lê:

ALA DO CAL VIRGEM

O segundo grupo, com seringas de água, parecendo grandes frascos de lança-perfume, vão molhando o chão e os prisioneiros. No seu estandarte se lê:

ALA DO ÁCIDO FÊNICO

Luz adicional projeta sombras das figuras nas paredes. Com o barulho, João Cândido é o único a despertar. Levanta-se apavorado.

Figuras do bloco o assediam.

Desesperado, João corre de um lado para o outro. Foliões o perseguem, rindo debochados. João tenta se proteger encostando na parede. Foliões-fantasmas vão acuando João na parede, para assustá-lo ainda mais. João é cercado pelos dois grupos e desaparece no meio deles e da névoa de talco. João dá um grito de desespero.

Black out. Figuras desaparecem.

Luz voltando. João está estático, no mesmo lugar onde foi acuado. Olha para o vazio. Luz agora ilumina toda a masmorra enevoada. Tossindo, um dos presos-Pau da Lira-acorda olha para João que parece estar em choque. Circula o olhar pela masmorra. Sacode os outros presos  que não se movem porque estão mortos.

Pau da Lira, sempre tossindo se aproxima de João que parece não percebêlo. Abraça João e fala:

Pau de Lira:

_ Só tem nós, João! Só tem nós! Olha que tristeza! Tá tudo inchado que nem sapo. Morreu todo mundo, João! Que covardia! Vai até aporta, bate nela com força, grita:

Pau da Lira:

_ Acode aqui, gente! Misericórdia!(olha para João que está apático e não ajuda a gritar) Ai, João…me ajuda a gritar! A gente acaba morrendo também. Ai meu Deus!

João Cândido: (desorientado )

_ Ajudar pra quê? Eu já morri, Pau da Lira! Eu também tô morto, homem. É verdade! ´Cê não vê? (olhando os mortos, sacudindo um ou outro ) De que adianta viver agora? Me diz! Grita, grita! Pode gritar…Diz que o João Cândido já morreu!

Luz caindo até black out. Alguns segundos de silêncio e escuridão. Barulho de molho chaves. Barulho forte da porta de ferro se abrindo no Black out. Voz na cena às escuras.

Fuzileiro:

_Tenente! Corre aqui! Virge Maria! Cruz credo! Que fedor desgraçado!

Tenente:

_ Entra logo, anda! Ai meu Deus do céu! Vê se sobrou algum desgraçado vivo! O governo agora quer esse tal do João Cândido vivo! Tá o maior escândalo na imprensa. Vai! Rápido!

Música característica da década de 60. Luz voltando lentamente mostra o fundo da cena iluminado de azul, com a silhueta do pão de açúcar e o cais num dos cantos do palco.

Luz crescendo. Atores e figurantes entram na cena com pequenas barracas de feira  desmontáveis e grandes cestos de peixe. Entre eles está um peixeiro negro, velho parecendo ter mais de setenta anos.

Peixeiros montam a barracas no palco com grande alarido e em muitos gritos de pregão. A cada barraca montada e abastecida, os pregões vão se avolumando, até que toda a cena esteja tomada de barracas e vendedores de peixe gritando.

Alarido vai se reduzindo com a entrada de policiais à paisana que circulam pela feira, olhando desconfiadamente para todos os peixeiros.

Dois homens brancos, de terno e gravata, entram pela platéia, sempre perguntando algo a alguém do público. No palco, sua perguntas começam a ser ditas em voz alta. Burburinho da feira prossegue ao fundo em baixo volume. Música cessa.

Homens de terno -Jornalistas -perguntam a um peixeiro:

Jornalista 01:

_… João Cândido. O senhor conhece?

Peixeiro: (apontando a última barraca )

_ O João daqui é aquele ali, ó! Só não sei se é Cândido. Deve ser. Eu tô nessa feira de novo.. Sabe como é..

Jornalistas não esperam peixeiro acabar. Se aproximam rapidamente até a barraca apontada, ansiosos. João usa um chapéu de palha, um avental branco e longas luvas e botas de borracha.

Jornalista 02: ( para João )

_ Bom dia! O senhor não é o João Cândido Felisberto, o Almirante Negro?

João Cândido: (Sem levantar a cabeça, desconfiado)

_Almirante eu não sou não senhor mas…João Cândido, bom…sou eu mesmo.(encarando os homens ) Os senhores são da polícia, não é mesmo?

Jornalistas sorrindo sem graça.

Jornalista 01:

_ Não, não! O que é isso, seu Cândido? Nós somos é da imprensa. Do “Correio da Manhã”, sabe? É que a gente queria entrevistar o senhor e…mostrar uma coisa ( tirando um jornal dobrado do bolso de trás da calça ) Bom…é que…

Jornalista 02: (pegando o jornal do outro e dando a João )

_ Não sei se o senhor já sabe mas…

João pega o jornal e olha. Fica triste com o que lê.

Jornalista 01:

_ Sinto muito, seu Cândido. Muito mesmo! Vão desmontar o navio, o “Minas Gerais” vai virar ferro velho, sucata. Amanhã mesmo vão deslocar ele para o estaleiro. É por isso que a gente quer fazer uma matéria com o senhor. Como é que o senhor vive? Depois de tanto tempo…O que o senhor acha?

João não responde. Policiais a paisana se aproximaram do grupo e ficaram perto, fingindo escolher peixes na barraca. João olha para os policiais, tira o avental e as luvas e se retira de cena, seguido pelos jornalistas. Policiais vão atrás

Burburinho da feira cresce de novo. Luz vai caindo devagar. Barracas vão sendo desmontadas. Burburinho vai caindo durante o desmonte da feira. Luz se apaga totalmente quando o palco estiver limpo.

Música “O lago dos Cisnes”. Luz retornando. Fundo da cena com silhueta do pão de Açúcar é cortado pelo pano-barco bem esfarrapado. Trazido pelos atores ele avança em direção a uma das coxias. Encouraçado deve ter a maior altura possível e vai penetrando na cena lentamente. Nele se percebe o desenho de âncoras e a inscrição:

ENCOURAÇADO MINAS GERAIS

Ruído longo de sereia de navio. Figurantes esticam longas e estreitas tiras de tecido no sentido longitudinal ao palco e no nível do chão, fazendo com que elas tremulem, simulando ondas. João Cândido sentado, remando um bote azul e branco, como um” barquinho de Iemanjá”, é puxado da coxia oposta a que vem o navio, indo ao seu encontro.

João segue de braços abertos para encontrar o navio e no momento do encontro, faz como quem o abraça e acaricia.

Música cresce. Neblina. Pano-navio some de um lado. João segue remando para o outro, cabisbaixo, lentamente, seguido por um canhão de luz que vai se apagando. Música vai saindo também suavemente.

Fundo da cena agora é branco e sem silhuetas. Luz retorna bem forte. Vindos de trás da platéia e em grande reboliço, um grupo de “Clóvis” com fantasias vermelhas e brancas entra em cena com estardalhaço, batendo no chão com bexigas e soprando apitos estridentes.

Já no palco, organizam-se numa pose, como se fosse para uma foto. Acima das cabeças dos demais, um dos “Clóvis” levanta uma tabuleta onde se lê:

RIO DE JANEIRO, SÃO JOÃO DE MERITI 1969
MORREU O ALMIRANTE NEGRO!

Som de sirene da polícia. “Clóvis” fogem em debandada de cena. Policiais entram, revistam o palco e as coxias e somem também.

Diabinho de carnaval, circula pelo palco batendo com a chibata no piso. Numa das coxias, traz pela mão um ator fantasiado de Morte. Morte apita para outra coxia e uma pequena bateria de escola de samba entra em cena. Na frente da escola, um abre-alas onde se lê:

O GRES EXU DE MERITI AGRADECE A IMPRENSA FALADA,
ESCRITA E TELEVISADA E PEDE PASSAGEM,
APRESENTANDO O SEU ENREDO:

O ALMIRANTE NEGRO.

Restante do elenco entra em cena dançando. Todos trazem na mão barquinhos em dobraduras de jornal. Estão vestidos com roupas do espetáculo, de forma que se tenha em cena representados, grande parte dos personagens das ruas e dos carnavais do Rio do início do século. Estão em cena colombinas, motorneiros de bonde, prostitutas, marinheiros, pierrôs,
arlequins, melindrosas e índios, além é claro do Diabinho, dos Clóvis e da Morte que já estavam em cena. Diabinho sai do palco por um instante.

Barquinho de Iemanjá, é trazido para a cena. No corpo do barco se lê:

C7
CRUZADOR JOÃO CÂNDIDO FELISBERTO
MARINHA FANTÁSTICA DO BRASIL

Diabinho reaparece vestindo uma túnica e um chapéu de almirante, tudo muito cintilante de lantejoulas e perfilando-se em frente ao barquinho de Iemanjá, deposita nele o chapéu e a túnica de almirante que vestia .

Elenco e bateria de samba, como num bloco de carnaval, acompanha o barquinho para fora de cena, sempre dançando e cantando. Barquinhos de jornal são largados no chão espalhados.
Elenco continua a cantar e tocar nos bastidores. Luz vai caindo. Música cessa.

Voz verdadeira de João Cândido, gravada em fita ecoa na cena:

João Cândido: ( off )

_ Eu, João Cândido Felisberto, por seis dias parei o Brasil!

Som gravado de tempestade e trovões. Som longo de sereia de navio. Canhão de luz vai se fechando, enquadrando um só dos barquinhos de papel deixados no palco.

Silêncio. Marujo Kalunga, seguido pelo canhão de luz, volta a cena, finge enxugar uma lágrima, pega o barquinho, coloca no bolso e mostra última tabuleta do filme mudo:

NO SÉTIMO DIA, JOÃO DESCANSOU.

Canhão de luz, enquadrando o marujo kalunga com a tabuleta, vai se fechando

FIM

Praça Seca, Rio de Janeiro
© Spírito Santo, Dezembro 1994

————–

Notas finais:

Exu Chibata, texto escrito em 1994,  tem como proposta principal o estabelecimento de um  diálogo estético ou dramatúrgico entre algumas das linguagens e mídias mais em voga na época em que se passa a ação do espetáculo (início do século 20, entre 1904 e 1910) dialogo estético este que,  de certo modo aproxima a proposta de um  ‘gênero’ teatral muito em voga na mesma ocasião: O  Circo-Teatro.

Época de grande efervescência cultural e artística contrapontuada por grandes conflitos sociais. O eixo dramático principal da peça envolve os incidentes ligados a chamada Revolta da Chibata, comandada por João Cândido Felisberto (o ‘Almirante Negro’) contextualizada neste conturbado período no qual, enquanto no Brasil se tentava afirmar a ferro e fogo o regime republicano recém proclamado, o mundo europeu começava a se agitar com as graves divergências que culminariam com a sangrenta primeira guerra mundial.

A epoca é também marcada fortemente pelo doloroso processo de transição das relações sociais na cidade do Rio de Janeiro, na qual uma imensa massa populacional negra, ainda mal refeita da escravidão abolida há apenas uma década, começava já a experimentar as insidiosas restrições do recém inventado racismo.

Os aspectos estéticos principais, referentes a proposta estética sugerida para o espetáculo, estão ligados também aos elementos mais aparentes da chamada Belle Époque, da Art Nouveaux, do Cinema Mudo, da Mímica e da Pantomima (linguagens que inserem o espetáculo no âmbito de um teatro essencialmente imagético  no qual as falas não são exatamente fundamentais).

Neste mesmo sentido primordialmente imagético, a proposta tenta se associar também a certas formas e maneirismos do popularíssimo Circo-Teatro – um ‘Circo-Teatro’  idealizado, diga-se – forma  implantada no Brasil por atores circenses geniais como Polydoro,  Benjamim de Oliveira e  Eduardo de Oliveira.

São importantes também a utilização de certas soluções cênicas baseadas nas estéticas mais evidentes do carnaval de rua do Rio de Janeiro, nos rituais do Candomblé e na obra do artista plástico e ex-marujo Arthur Bispo do Rosário.

Registro Biblioteca Nacional 2349087 / 1994Rio de Janeiro 1994Ficha técnicaTexto e concepção cênica :  Spírito SantoFontes bibliográficas consultadas: Tia Ciata e a pequena África do Rio de Janeiro – Roberto MouraCarnavais de Guerra – Dulce TupiLiteratura como missão- Nicolau SevcenkoA Revolta da Chibata – Edmar Morel

Lima Barreto –  Obras completasQuatro dias de Rebelião –  Joel RufinoO negro no Brasil. Da senzala à guerra do Paraguai – Júlio José ChiavenatoBenjamim de Oliveira, o palhaço negro – dados orais da Pesquisa de João Siqueira.O negro da Chibata – Fernando Granato-Fontes audiovisuais consultadas (para concepção estética e cenográfica )Áudio de depoimento de João Cândido – Museu da Imagem e do Som- Rio de Janeiro 1968Belle Èpoque e Art-Nouveaux – no Rio de Janeiro do início do século 20 – Iconografia / Obra de Arthur Bispo do Rosário – Museu do Inconsciente / Hospital Psiquiátrico Pedro Segundo/R JRitual de saída de Exu – Terreiro Axé Shangò Bomi, R.J -Arquivo Vissungo 1996Depoimento de Aniceto Menezes – Arquivo Vissungo 1982Escolas de Samba e Carnaval Carioca dos anos 60- Iconografia / DiversosFilmografia / O Cinema Mudo de Carlitos,  ‘Comedy Capers’, United Artists, etc.-EEUU O encouraçado Potenkim – Serguei Eisenstein, URSS-Filme

Apoio pesquisa: Néia Daniel de Alcântara

Parachoques do Fracasso



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Foto: Andres Bortnik

CONTO

_”Pera lá, mano! A guitarra quebrou, pô! Vou fazer o quê? Leva…Leva aí, aquele groove de baixo batera! Leva aí!”

O público se lixava. Nem se tocando para o meu drama. Já tava puto mesmo. Guitarra de merda, usada, comprada a 10 merréis ali na esquina. Queria o quê? Que funcionasse 10 anos? Tava puto sim. 15 anos de banda e ainda naquele ramerrão de showzinho em cidade de interior.

Detesto. Um bando de mauricinho brega. O filho do fazendeiro, o filho do advogado do fazendeiro, a filha do dentista do fazendeiro. Arghh! Uma carreira de toyotas enlameados de barro, na porta do clube, me afrontando. Nós, os artistas, naquele ônibus velho, de 1980, sei lá. Meio constrangedor, não é? Tava puto sim.

No começo até que foi legal. Todo mundo garotão, pai e mãe bancando aquela doce aventura, dando a maior força para o sonho dos pimpolhos, naquela conversa:

_ “…Na pior das hipóteses os meninos se divertem. Melhor do que ficar aí pela rua, se drogando”.

Papo furado de mãe. Lógico! Bullshit de pai e mãe. Vai acreditar.

————

_” Volta, porra! Volta pro palco, caralho!” – Gritava o Marcão, desesperado.

Que voltar que nada. A platéia estava odiando o som. Aquele esporro de PA de quinta categoria. De irritar surdo. Voltar para o palco? Eu? Qual é? Sem chance. Voltar é o cacete.

Dois marmanjos meio punks, meio bandidos, desses que curtem heavy metal mas que, na calada da noite, adoram mesmo é Leandro e Leonardo, começaram a jogar latinhas de red bull. Na trajetória do palco, uma bateu bem na minha testa. Ah! Não teve jeito, parti pra cima.

Algo espirrou em mim. A chuva de latas agora já era tempestade. O barulho delas, batendo no prato splash da bateria, era apenas mais um dos sons constrangedores daquele nosso espetáculo de erros.

Quem foi que enfiou na minha cabeça que eu era um músico talentoso? Quem? Meu pai? Minha mãe? Nem lembro mais. Maldita platéia de mauricinhos. As latinhas agora eram jogadas cheias. Batiam na cara do Marcão e do Pirulito, uma, duas, três. Parecia aquelas barracas de parquinho de subúrbio, com a cara do palhaço levando boladas que, se acertadas, valiam um prêmio michuruca qualquer. Um maço de cigarros, uma bolinha de plástico, um saco de jujuba. Que situação.

O supercílio do roadie abriu. Coitado. Sem ganhar um puto. Largou a faculdade pra seguir a banda, há 5 anos, por amor e pra quê? Pra levar latada na cara? As latas batiam e o líquido escorria na cara, na roupa da gente. Nem sei nem o que era. Cerveja? Podia ser mijo até, sei lá. Era como se eles cuspissem na gente. Cuspi também, com nojo.

————–

Eu, Júnior, Marcão e Pirulito. Éramos quatro.

Desde o início da banda, o mais lúcido dos nossos pais era o do Pirulito. Assistiu a três ensaios, caladão, num canto. Pirulito teve vergonha de dizer que ele tinha sido músico. Baterista de bossa Nova, algum troço brega aí, dos idos de 1960. Imagina. Eu nem sonhava em nascer. Mas não.

Agora, olhando a cara de ódio do Gordão Punk, em cima do palco, me chamando pra briga, eu tive que concordar. O pai do Pirulito tinha toda a razão.

_ “Meninos se divertindo …sem drogas”... Papo furado.

Bullshit de pai e mãe. Olha só pra nós. Quase trintões, trincadões de cocaína, cerveja, de cachaça com red bull. Bullshit de pai e mãe. As drogas éramos nós!

Aí, pronto. A porrada comeu solta. Os caras punks subiram no palco me carregando pelo cós das calças, como a um merda qualquer, dando porrada. Girei. Consegui jogar o cara para o lado da bateria, que toda desconjuntada, desabou. Plash!Splash!Prumcabragabum!

Júnior, o batera, se estabacou junto. Levantou e correu, fugiu para o camarim. Sumiu. Com o barulho, a platéia urrou feliz. Queriam mesmo é se divertir com a nossa desgraça.

Marcão, o mais sensível da banda, chorou. Tentou esconder mas eu vi, entre uma porrada e outra que o Gordão Punk dava na minha cara, eu vi, de relance, uma lágrima cortando o rosto dele.

Foi Marcão quem criou a banda, pensou a banda. O som.O visual. A proposta, tudo. Queria um lance assim, meio Seattle, de início. Punk Rock , cada vez vez mais Punk Rock, até se fixar numa coisa assim mais… ‘essência‘, como ele mesmo dizia, vago. Parece loucura, total, mas, no início da banda, o sonho era mesmo se mandar para os States.

Tocar em Seattle, Memphis! Maluquice, presunção, mania de grandeza. Mas no fundo, esse papo de ‘essência’ era concessão mesmo. A gente sabia. Um troço assim Rock Brasil, meio barro meio tijolo, tipo embrulha e manda, visando um pouco o público, mas, principalmente, o mercado, ‘nacional’, é claro. Sabe como é? Senão – enfatizava Marcão – morreríamos de fome.

_ ”Seattle? Que nada. Brazuca, cara! Cai na real. Você mal sabe pronunciar y love you.”

Marcão falava, falava, com toda a convicção do mundo, já no final de uma reunião da banda. O pai do Pirulito, quieto no seu canto, olhava para o lado, disfarçando o muxoxo.

No final era isto mesmo que a gente deduziu. Era o papo que algum empresário caído arriou em cima dele, para descolar um percentual qualquer em cima da gente. E foi assim que saímos tocando por aí.

————

Uma porrada do Gordão, mal dada, fechou o meu olho. Abri bem o outro e acordei das lembranças. O Gordão me largou ali, meio desfalecido e partiu pra cima, logo de quem? Do Pirulito. Gente de Deus! Ele é epilético! Se cair do palco e se machucar, o pai dele vai acabar com a banda. De vez. Foi isto que me fez acordar.

Ou foi o som do baixo do Marcão que parou? Será que foi a falta daquele barulho roufenho que me acordou? O Punk Magrão havia chutado o amp do Marcão, com tanta força, que a caixa tombou no palco, rachada de cima a baixo.

Com um estrondo, misturado com o esporro do feed back, o amp, que era nacional, é claro, pifou. Porra! Não falo nem a marca pra não queimar o filme do fabricante, mas, bem que merecia. Negou patrocínio pra banda mil vezes. Tivemos que comprar a merda do equipamento à prestação.

O pai do Marcão, gente boa, empresário no ramo de imóveis, foi quem deu a entrada. Suamos vinte e cinco shows para pagar. Mas, agora, que se dane. Acabou. Pronto. O amp quebrou. Nem sei se vai ter conserto.

———–

E a porrada comendo. Solta. Olhei para o lado e vi o Gordão Punk imprensando o Pirulito na coxia. O público, urrando, na farra, nem via que o Pirulito podia até ser morto ali, naquele canto escuro. Foda-se. Nem pensei. Peguei o extintor de incêndio e disparei na coxia. Na cara do Gordão Punk. Com raiva. Pirulito ali, como os olhos revirados, babando, aquela baba espessa, não sei se do extintor ou da epilepsia (engraçado. Pensei nisso agora. Será que me enganei? Foda-se).

A fumaça do extintor esguichando. Aquele chiado estridente e pronto: Pânico! A platéia maldita se desesperando. Olhei excitado, sádico. A casa estava lotada. Bombada. Estourada de gente. Foi a minha redenção. Vingança. Foda-se.

_”Incêndio! Incêndio!” – Gritaram as patricinhas histéricas e os mauricinhos cagões.

Meu celular tremeu no bolso. Como é que ia atender no meio da confusão? Pedia licença aos punks, às patricinhas histéricas e aos mauricinhos cagões? Pedia silêncio á turba maldita para poder atender ao celular? Não. Melhor olhar o display. Pra quê? Tremi. Ai meu Cristo! Minha mãe! Aí…Pum! Foi o tempo de desviar as costas.

O extintor, tomado de mim pelo Gordão Punk, bateu na minha cabeça em cheio e caiu no palco, esguichando, de novo, espuma pra todos os lados. Só que, de repente o chiado parou. Subitamente. Só me lembro de ficar ouvindo uma musiquinha. Longe.

Não vi. Dizem que depois que eu caí, o gordão pegou meu celular e pisou, pisou, com toda vontade. O bicho não quebrou assim, logo. Ainda ficou tocando aquele toquezinho fresco, uma musiquinha do Mozart, que eu escolhi, de bobeira, só por que me lembrava de quando eu era neném. Fiquei calminho de repente. Relax. Achei que era a musiquinha. De repente, nem Mozart nem nada. Silêncio.

Quando acordei de vez, olhei para o lado e vi o Marcão, sentado no palco, meio zonzo, olhando para o amp quebrado, desolado. Pirulito sumira. Ah, não! Logo me deparei como ele ali, sentado no chão do salão, atendido por um enfermeiro com o guarda pó ensebado, suadão. Que alívio. Não tinha tido ataque nenhum. A espuma na boca tinha sido do extintor mesmo.

O salão do clube vazio. Pra andar, tentando arrumar as idéias na cabeça e lembrar a história toda, tive que desviar das pilhas de latinhas, de copinhos de plástico, de seringas do pico dos punks, aqui e ali de umas camisinhas, calcinhas, um nojo só. Olhei pra cara do dono do clube, nosso contratante.

Gelei, desanimado. A cara dele estava tão feia, mas tão feia que logo vi. Nada, nem sombra de cachê à vista. Demorar muito por ali era até um risco. Ele podia ter a brilhante idéia de nos cobrar o prejuízo. Cobrar do meu pai ou, pior ainda, da minha mãe. Que sufôco.

O telefone do Marcão tocou. Achei que era o meu. Não era, mas, a ligação sim, era mesmo pra mim.

_” E aí mãe? O que foi?”

_” Nada, filho? Teu telefone só dá desligado ou fora de área… E o show? Como foi?”

_ ”É mãe. Maneiro. Deixamos nossa marca. Agora nós somos um sucesso por aqui”.

Não precisava nem falar, entrar em detalhes. Ela sabia entender a voz do filhão. 15 anos botando panos quentes nos meus fracassos. Me bancando. Até se divorciou do meu pai por causa de mim. A pensão alimentícia, o velho já parou de pagar faz um tempão. Sou quase um trintão, lembram? Na hora das dificuldades, nos mudamos pra Bangu. Mas ela segura minha onda. Sem reclamar. Sabe como é? Mãe é mãe, certo?

Spírito Santo
Rio de Janeiro, Maio 2007

Vampirinhos de Shangrilá



Creative Commons License

Imagem em negativo de um morango cravejado de pontas de lápis

Conto

Anna Maria, Mariana, Maria Anna. O nome ninguém sabia direito, quanto mais o sobrenome. Morava para lá da terceira porteira das terras dos Molevade. Bem pra lá. Certeza só se tinha uma: Era pobre, porém, pura. Toda a família jurava, todos diziam. Imagina se não?

Cidade de interior. São João Moreira de Shangrilá. A plaquinha na estátua dizia: ‘padre
capuchinho português morto nas montanhas do Nepal por soldados chineses em 1952′
.

Os beatos mais velhos rogavam pragas contra os ‘amarelos’, todos os dias e todas as noites, em ladainhas sem fim. Claro. Cidade católica apostólica romana, a mais não poder. Queriam o quê, que espumantes de raiva, esbravejassem contra os chineses, aos palavrões?

Todos os homens também eram puros – puros não, que isto por ali era coisa de invertidos, de duvidosos – honestos, corretos, beatos, por assim dizer, isto sim. O prefeito, por exemplo, era um santo homem, Dr. Luiz Santoza. Todos os vereadores, tanto os da família Santoza quanto os da família Molevade o eram, beatos todos.

Para encurtar a novela, ali eram filhos de Maria todos os políticos a partir de 1964, o ano da canonização de São João de Shangrilá, o tal santo padroeiro.

Antes disso ninguém conta como eram ou o que eram as pessoas. Só se sabe que a cidade, antigamente, se chamara Portão do Desterro. Nome triste, medonho que, por conta de ser coisa do passado, ninguém ousava explicar de onde vinha. Com que então, se o passado de São João de Shangrilá era um completo mistério antes daí, cuidemos, pois, do futuro, que é coisa certa, que a Deus pertence.

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O futuro é do Moço Bom, João Molevade Filho, que passeava por aí sem moto, sem carro e sem avião. Tinha isto tudo, mas não, curtia a rua de todo mundo, como se diz: como mais um entre os que têm o pé no chão. O melhor amigo dele era quem? Maculeba, o artesão da praça, um negão hippie, sujo, imundo, um carvoeiro de madeixas rastafári, um mendigo inteligente, por assim dizer. Falava com todo mundo, o Moço Bom, fazia festa para os meninos e os cachorros. Gente fina, este filho do senador João Molevade, o fazendeirão do lugar.

Ultimamente andara sumido, meses a fio. Cochichava-se, mas ninguém falava coisa que se pudesse acreditar. Gente pura não especula para o mal.

_’ Tá no Rio de Janeiro! ‘-

Diziam como única certeza vaga, porém, verdadeira. Voltou magrinho, de olhos fundos, esquisito como não sei o quê. Vestindo uma roupa preta, botas pretas, tudo preto. Tinha até umas riscas pretas, embaixo dos olhos, como rímel de mulher.

Todo mundo reparou, é claro, olhando de banda, a estranha reaparição do Moço Bom. Só as donzelas de Shangrilá falaram, condoídas. As mais afoitas afirmando, convictas:

_ ‘ Virou noites e noites, o coitadinho. Tentou de novo o vestibular!’

_ ‘Vai ser médico ‘- suspirava a outra

‘Médico não, Doutor! Diretor do Hospital!’ – Enfatizava a mesma, delirante.

Magro. Diferente demais do Joãozinho Molevade de antigamente. Andava agora como um
estrangeiro, sem falar com ninguém. Macambúzio, olhando para o chão ou para os lados, nunca para algum lugar. Procurando alguma coisa na própria cabeça. Maculeba, vivido, escolado, maldou logo de saída.

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Certo dia, aquela (a quem, por falta de uma certeza, vamos chamar a partir de agora, de
Marianinha) deu de emagrecer também, assim, a olhos vistos. As bochechas brilhosas sumiram. Ficaram só duas covas fundas, macabras, vazias como sepultura de desencarnado ressuscitado.

É por isto que ver os dois juntinhos, feito carne e unha, pra baixo e pra cima, pela rua afora, foi um pouco uma surpresa sim, mas, não tanta. Moço Bom com Moça Pura, afinal, é tudo que a sociedade de São João Shangrilá pode querer e merecer. É alvissareiro. É bonito. Serve para asseverar que a cidade também é pura.

Além do mais, isto de Moço Rico com Moça Pobre ser pecado mortal, já foi tempo. Isto foi na época do – cala-te boca – Portal do Desterro, naquele tempo em que o povo não sabia o seu lugar. Agora não. Nascendo bebê, a família da moça acoita. Não nascendo, melhor ainda porque, não haveria nenhum risco do Moço Rico ter que casar.

Mas não. Preocupação à toa. Não namoravam, não beijavam. Além das mãos dadas, os dois nem se tocavam. Andavam só, pra baixo e pra cima, dia e noite – principalmente noite – olhando para cá e para ali como doidinhos.

Duas caveiras ambulantes é o que pareciam. A mãe dela, o pai, as tias, todo mundo se remoendo. Puros que eram, conjecturavam, conjecturavam, mas, não entendiam nada. Seria alguma paixão destas de secar rio? Seria definhamento de amor? A juventude era mesmo de uma estupidez sem tamanho, concluíam.

O certo é que o apelido que Maculeba dera, naquele seu jeitão franco de ser, foi se espalhando, se espalhando, como fofoca num rastilho, até estourar um dia, na manchete do jornal ‘A folha do Vale’, o tablóide da cidade:

_ ‘Extra! Extra! Vampiros em Shangrilá!’

Maldade de Maculeba, se sentindo ignorado pelo amigo. Se o fossem, não passariam de vampirinhos lânguidos, românticos. Perigo nenhum. Imagina?

Quantos contos não inspirariam? Quantas redações de grupo escolar? Mentira grossa, claro, mas já se falava até numa minisérie na TV da capital, num filme francês, num best seller. Mas, não teve jeito. O caso, de rumoroso, se complicou e desembestou pela ladeira da tragédia abaixo.

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Primeiro foram as galinhas, que apareceram murchas, só ossos e penas, como sacolas de plástico vazias, porém, andantes. Depois um cabrito e um porco da fazenda, também definharam sem morrer. O cachorro do dono da farmácia da praça, pronto, também. Uma fauna enorme de bichos magrelos, chupados feito laranjas, bagaços circulando por aí.

_’É Chupa Cabras!’ –

Gritou Maculeba, maldoso. Mas, como se os seres continuavam vivos e, com as veinhas cheias de sangue, intactos?

_’ Lobisomem!’ –

Gritaram as tias da moça, desesperadas (Para elas, o Moço Bom já estava mesmo era passando da conta, cabendo mais na pele de um Coisa Ruim, de um Tinhoso)

Mas como, se os magrelinhos todos, bichos e gente, andavam no sol a pino, de dia, sem pelos nas ventas, sem dentes afiados, sem garras, sem nada de lobo, só a magreza de faminto aparecendo? Seria alguma doença, uma epidemia, talvez?

_’Isto. Uma doença! –

Dizia o dono da farmácia, olhando o fundo dos olhos do pobre do cachorro. Sim, mas, que doença seria esta, meu Deus?

———————-

Dez dias depois. O senador, pai do Moço, sumiu há dias. Saiu com a camionete, intempestivamente.

_’Foi à capital! ‘ – Disse o capataz, apreensivo com alguma coisa que não quis dizer.

Antes dele partir, na casa estivera a mãe do moço, uma mulher de meia idade com cara de sirigaita, bruxa, com o cabelo pintado de louro e a boca esticada como o bico de uma pata, os olhos tão apertados pelas cirurgias  que lembravam, imediatamente, os olhos dos tais chineses que mataram o pobre do padre João Moreira lá no alto do Nepal (a descrição maldosa, foi feita por Maculeba que odiava a madame mãe do Moço Bom, mas, em consideração ao amigo, se recusava dizer porque).

O capataz contou que ela revirou o quarto do garoto e achou o que já sabia: Umas pílulas verdes  que ele trouxera da cidade. Reviraram o quintal e acharam mais pílulas, espalhadas pelo chão, pelo cercado dos porcos, pela grama enfrente da casa, no fundo do açude.

Brigaram, aos berros, os dois. Depois choraram. O capataz os viu saindo na camionete, ainda com a noite alta, sumindo de Shangrilá. O capataz, por via das dúvidas, sumiu também. Além dele, só Maculeba, o mais esperto de todos, também partira. Lógico. Já disse. Maculeba maldara tudo, desde o início, estão pensando o quê?

——————–

Ontem as luzes da cidade ficaram acesas durante toda a noite. Hoje também. Já eram muitos, centenas de magrelinhos zumbis. Primeiro todos os jovens da cidade, cinzentos, com os rostos encovados, foram aparecendo, saindo de suas casas, de cada canto de Shangrilá, até das fazendas mais distantes. Foram se amontoando na praça, em torno do Moço Bom e da Moça Pura, líderes aparentes daquela esdrúxula seita dos vampirinhos de Shangrilá.

Os bichos magrelos em volta deles, a cacarejar, a balir, a latir e a grunhir. Uma sujeira enorme, de tudo que é dejeto, largado, esparramado pelo chão. Os porcos, sem cerimônia, cercaram a estátua do coitado padre João Moreira, como se ela fosse um chiqueiro. Antes cagado só pelos pombos, o mártir ficou lá, embostalhado, mais martirizado e humilhado, do que o foi nas montanhas do Nepal.

Logo logo, a cidade inteira estava tomada por aquela mazela sem explicação. Pais, mães, tias, todos foram se tornando magros e cavernosos. Com a sabedoria das tias, da magreza, soube-se logo o motivo: É que, com a doença estranha, que a todos contaminara, ninguém comia, só perambulavam, atrás do Moço e da Moça, sabe-se lá por que.

O mercadinho ‘Que Barato’ já não funcionava. Não se comprava mais nada. O primeiro jornalista que chegou de uma cidade próxima, para cobrir o estranho incidente, sóbrio, percebeu que todos procuravam por pílulas, mas, não entendeu muito bem do se tratava. É que as pílulas haviam sumido. Ninguém sabia quem tinha, uma delas sequer, para vender.

Fanhão, o dono do mercadinho, tentou se aproveitar da situação e mudar de ramo. Quis entrar no negócio das pílulas, naquele empreendedorismo afoito dos espertalhões. Deduziu de pronto, que o Moço Gente Boa, devia saber onde encontrar tão ansiada mercadoria. Ah! Como se arrependeu, amargamente.

Logo no dia seguinte apareceram aqueles caras mal encarados, vestidos de preto, vindos não se sabe de que lugar. Deram uma carraspana tão bem dada em Fanhão que ele sumiu no espaço, se escafedeu do lugar.

Nem o mercadinho ele fechou. A loja ficou lá escancarada, as gôndolas cheias de ratos guinchando, únicas criaturas da cidade a quem as tais pílulas não interessaram, (ou não apeteceram, vai saber?).

O cheiro das mercadorias podres no mercadinho ‘Que Barato’ exalava, assim, por toda a pracinha, sem ninguém se importar ou se dar conta. Até que um dia a camionete dos mal encarados, de repente, partiu da cidade, sem quê nem porquê. (Esta Maculeba não podia perder, mas, Deus – ou Jah – sabe o que faz. No final das contas,veremos quem acabou ganhando.)

————–

Enlouquecido de anseios, fissurado, desesperado, o povo se estapeava pelas ruas. Uns querendo porque querendo, uma poeirinha que fosse, daquela maldita bolinha de felicidade. Daquela sanha foram saindo aos poucos, caindo num torpor de ex-bêbados na ressaca. Do torpor, caíram num sono pesado, quase igual à morte.

Acordaram aos poucos, uns tontos, outros pasmos. Foi aí que os menos tontos se deram conta de tudo: Não existia mais São João Moreira de Shangrilá!

Os ratos e os mal encarados haviam destruído, levado tudo de roldão. Os últimos a despertar foram os jovens, que vagaram ainda, por horas a fio, olhando desolados para o que Shangrilá havia se transformado. Cidade chupada, sugada, com covas fundas na geografia, suja e cinzenta, igualzinho ficara a cara dos vampirinhos. Cidade zumbi.

A Moça Pura e o Moço Bom haviam desaparecido também, misteriosamente. Alguém achou que os viu na camionete, partindo com os mal encarados sabe-se lá para que lugar. Achar que viu, contudo, não é ter certeza. Só se sabe que se esvaíram, como esvaíram-se suas carnes, quando emagreceram. Evaporam. Nem vampiros agora eles eram mais.

Muito menos de Shangrilá.

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No outro dia o pai do Moço Bom voltou á cidade. Trouxe o resultado da investigação sobre a origem das pílulas. Elas vinham de uma fábrica enorme, na capital. Estão sendo distribuídas por todo o país. Começam pelas grandes cidades, dando as pílulas para uns, que vão dando para os outros, até que todos, inebriados, dependendo delas para sobreviver, abrem mão de tudo, até mesmo ou quase, da própria vida. Os donos da fábrica são figuras notórias, mas, ninguém ousa proferir seus nomes. Não são Santoza nem Molevade, pelo menos é isto que se pode dizer. Os Santoza e os Molevade– relembrem – são todos… puros.

Como o nome Marianinha, o nome real da tal pílula também ninguém sabia. Se alguém descobriu, decidiu também omitir. Podemos dar-lhe qualquer nome então. Vamos chamá-la de Pílula Verde da Felicidade Geral da Nação: Pivefegena

—————-

Da cidade vizinha já chegam alguns rumores sobre a chegada de vampirinhos, mas, o povo de Shangrilá, irrecuperável, não vai alertar os vizinhos sobre o que virá depois. Afinal, o que virá depois eles também querem: Bolinhas da felicidade. Pivefegena.

A cidade vizinha é a minha. Rezem por mim. A me valer, talvez, só mesmo Deus ou, quem sabe, o bondoso e valoroso São João Moreira de Shangrilá!

Spírito Santo

Junho 2007

THE ALZHEIMER DAY


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Il Grande Dimenticare

Acordei no que parecia ser uma cidadezinha do interior. Havia um sol morno fazendo brilhar a grama cor de verde-novo, chovera a pouco e era de tardezinha. Estranho… Não conseguia atinar como é que eu havia ido parar ali?

Ouvia bem longe um relincho de um cavalo afoito, histérico. Um relincho incomum demais para um cavalo ao sol. Seguindo o relincho logo divisei já na risca do horizonte, um homem magricela, se abaixando e levantando do chão, ocupado na faina de plantar ou colher algo. Não dava bem para saber ao certo o que. Olhando melhor a cena, percebi que vez por outra, o homem espantava o cavalo de perto de si, como se o animal estivesse querendo também, ardentemente, aquilo que ele plantava… ou colhia, não conseguia ainda perceber o que.

Foi quando o vento, mudando de direção me trouxe aquele cheiro nauseabundo de coisa morta, um cheiro insuportável de carne podre ou algo assim. O homem cavava e enterrava um troço qualquer, era isto. Um bicho morto, concluí ainda intrigado. Com repulsa saí dali, tapando as narinas, afastando os olhos da cena e olhando para trás.

Atrás havia logo adiante uma casinha modesta, toda de adobe mal socado, com jeito de bem antigo. A casa estava um pouco destelhada e com um ar de abandonada há anos. Porta esbodegada, tombada para um lado, presa por uma única dobradiça, como um baú velho saqueado e abandonado por um ladrão decepcionado com o nada que havia dentro dele para roubar.

Incrível. Não conseguia mesmo atinar. Como é que eu havia ido parar ali? O pior é que isto eu jamais saberia por que, de repente acordei, completamente e me dei conta de que toda a bucólica paisagem da roça havia desaparecido, se desvanecido como por encanto, como se alguém tivesse mudado o canal da TV.

E foi daí que, aparvalhando-me mais ainda com a nova cena, ouvi aquele som sujo, um ruído, um chiado intermitente, um barulho familiar enfim. Incomodado, me dispus a acordar pulando da cama.

O que aconteceu? Onde estou? Quem sou eu? Que barulho seria este?

Olhos embaçados e um calafrio esquisito cortando o corpo, feito um choque elétrico fraquinho.

Claro! É que chovia muito. Dava pra ouvir aquilo que, mesmo sendo ainda indefinível para mim, evocava uma sensação assim-assim de coisa úmida, molhada, que logo associei à chuva. Sim, claro! Ainda sabia o que era aquilo. Uma enxurrada fustigando as paredes do prédio, uma lata velha largada sob uma grossa goteira, ou um teto de zinco chicoteado pelo vento. Isto! Feito uma cachoeirinha, um som de leve tempestade, isto! O zinco oxidado batido por lufadas de chuva. Ai que alívio! Ainda conseguia saber claramente o que era aquilo. Quase podia ver.

Um aliviozinho qualquer como estas furtivas lembranças valia ouro naquela altura dos acontecimentos. Tempos estranhos aqueles: A era do Alzheimer Day, o apagão geral das mentes, sensação igualzinha à daquelas vezes em que meu Dispositivo Pessoal de Raciocínio Virtual – a bem da verdade já meio superado – rateou rateou até pifar de vez.

Desesperador. Fiquei catatônico por vários dias. Sonado, abestalhado como um boxer que teve o cérebro sacudido na caixa craniana a vida inteira por milhares de upercuts, sparring do tempo e de si mesmo, se abobalhando. Fiz uma atualização do surrado DPRV sim, claro, mas sabem como é: Estas coisas recauchutadas…Ele voltou meio barro meio tijolo, como se diz, meia bomba.

Vez por outra eu não conseguia nem mesmo saber direito o que estava ouvindo, vendo, sentindo. Uma sensação terrível de desamparo, um desassossego só.

O terapeuta me disse na ocasião que o que eu sentia era idêntico ao que uma velhinha com mal de Alzheimer sofria, os neurônios se apagando um a um, num blackout seletivo, um córtex de cada vez. Sabem como é? Uma Las Vegas noturna sobrevoada por discos voadores, as luzes se apagando cassino a cassino, como naqueles filmes de Sci Fi de séculos atrás

(Discos voadores? Como assim, discos voando? Às vezes custo a me lembrar o que isto quer dizer).

Isto mesmo. A mente rateava da mesma forma como a das velhinhas só que, desta vez, não era só comigo. Viráramos todos velhinhas com Alzheimer numa pandemia de esquecimentos. Pelo menos era isto que diziam os mais safos, os que ainda conseguiam se lembrar do sentido de coisas assim tão complexas, conceitos tão abrangentes, descritivos deste sofrimento tão surpreendemente coletivo que era aquele apagão das mentes.

O que ocorreu só fomos entender mais de 10 anos depois, quando tudo se normalizou e assumimos a forma de inteligência que temos hoje, nem de longe parecida com a aguda perspicácia elétrica que tínhamos no passado, em meados do século 22 por aí, antes do Alzheimer Day.

Maravilhosos. Ultra civilizados. Super poderosos. Seres geniais e perfeitos o que éramos todos nós antes do acidente. As limitações intelectuais de alguns, dos mal educados, haviam sido suprimidas, quase que completamente banidas da população.

Inacreditável, mas, foi assim:

O estupendo grau de evolução tecnológica que atingimos permitiu que todo o conhecimento humano fosse transferido, gradualmente, para espaços virtuais de compartilhamento de dados, espécies de sites ‘de relacionamento‘, como se dizia antigamente. Não era de modo algum uma opção, meramente hedonista de nossa civilização. Era uma condição compulsória e imperativa de nossa evolução. O artificialismo total, a automatização absoluta de nossas maneiras de ser e viver em nome do bem estar, da felicidade geral da nação, de todas as nações: “It’s wonderful world”.

E esta era a mais pura das verdades – por mais absurda que pudesse parecer.

Estes espaços virtuais de compartilhamento de dados, estes sites antes ditos… ‘colaborativos‘, atraentes chamarizes de perfis e personalidades reais ou inventadas, passaram a acumular e guardar toda espécie de conteúdo (tudo que antes guardávamos em nossos cérebros primitivos), anseios, desejos, taras inconfessáveis, disponibilizando, a quem quer que fosse, rigorosamente tudo de bom ou de ruim que uma mente humana pudesse conter. A Droga Final, disseram os céticos apocalípticos.

Guardávamos aí, nestes espaços virtuais um pouco buracos negros, meio que armários guarda-volumes de aeroporto, inclusive os mais simples comandos e mecanismos de inteligência necessários a algumas de nossas ações mais triviais e cotidianas, tais como pensar e até mesmo amar, por exemplo.

Acumulávamos aí e assim – e intercambiávamos uns com os outros – até mesmo as mais falsas projeções que fazíamos de nós mesmos, personas mentidas, meras pavoneações de nossa alma ideal, projeções viciantes de como gostaríamos de ser vistos, que após certo tempo, confundiam-se com aquilo que realmente éramos, criando agora em muitos de nós, problemas de identidade muito próximos de uma psicopatia não diagnosticável, uma espécie de esquizofrenia virtual, absurda, irreal, que era como os psicólogos da época descreviam estas nossas novas maneiras de ser.

Rigorosamente toda a nossa memória enfim (exceto aquela utilizada para atos mecânicos como andar e comer), passou a ficar hospedada em HDs de supercomputadores gigantescos, depois que todas as mídias físicas foram sendo abandonadas por se tornarem antiquadas, anacrônicas e obsoletas e, principalmente, descartáveis em sua precária confiabilidade.

A fantástica evolução que representou passarmos a ter, rigorosamente tudo de nossas frágeis mentes guardado nestes supercomputadores, por sua vez, numa evolução natural da virtualidade quase total em que se transformou a vida humana, logo nos encaminhou para a criação de uma só grande máquina, capaz de centralizar os dados de todas as mentes do  universo.

Praticamente todo o pensamento humano passou a estar, umbelicalmente armazenado num gigantesco computador Provedor Universal, instalado na superfície da Lua, após a lenta maturação de um projeto multinacional que durou quase 50 anos para ser enfim, concluído no ano de 2398.

O lúgubre Deus virtual, batizado por seu inventor Joseph Von Spitzheim-Siegl com o nome de Home Welt Herzzentrum‘ (HWH), foi talvez o passo mais fabuloso – tanto quanto o mais estúpido – dado pela humanidade em todos os tempos, em prol de sua exclusiva e egoísta evolução.

HWH: Cabeça da grande rede da velha WWW que, acéfala como uma hidra mitológica no século 21, assumia agora a forma de um grande polvo adormecido, sabe-se lá por que razões ou intenções sugerindo perigos, como um perverso vilão enrustido.

E foi assim que, neste dia o mal também projetado sobreveio enfim.

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Um risco cadente cortando o negror do espaço. Um clarão de estilhaços brancos, como um espirro de cacos explodidos de um bloco de gelo golpeado por um furador. Foi assim que alguns poucos descreveram o que viram naquela noite. Eles, os mesmos vadios de sempre que, sabe-se lá porque arcaicos instintos estavam, sentimentalmente com os olhos voltados para a Lua naquele instante.

Eu não. Coisa alguma vi naquele torpor em que me encontrava, pobre de mim, com o meu DPRV rateando. Só senti mesmo o susto de um pensamento bom que se apagou de súbito. No visor lateral dos meus óculos de grau a tela azul piscava o aviso de uma failure desconhecida, antes da janela secundária da tela se abrir com a notícia alarmante:

“FATAL ERROR!”

Provedor HWH inoperante. Por favor, teclar F7 para acessar provedor alternativo de emergência de sua região ou teclar ESC para sair”

O Provedor Alternativo era um sistema de emergência online com mensagens de ajuda e notícias curtas, que ficava disponível por algumas poucas horas, até se esgotar sua limitada capacidade de processamento o que, logo pudemos perceber, no caso de um crash universal como aquele, significaria a duração de uns poucos minutos, antes do apagão total se estabelecer. Foi neste serviço de ajuda online (último vínculo que teríamos com algo parecido com uma realidade) que assisti a uma simulação do que ocorreu:

Um asteróide errante, de trajetória não totalmente prevista, havia entrado na órbita da Terra e se chocado com a Lua. O pessoal da base do HWH teve tempo de se afastar da área sinalizada para o choque que foi, em cheio, a central do HWH, O grande domo de aço onde o dispositivo-mãe, núcleo duro da grande máquina, havia sido hermeticamente acondicionado.

Foi assim:

A ‘alma’ do HWH, o local onde o Provedor Universal fora instalado, na vã expectativa de que ali fosse o lugar mais seguro do universo, foi instantaneamente pulverizada pelo impacto.

Conta-se que o prof. Spitzheim-Siegl chorou, copiosamente, durante uma entrevista, como se tivesse perdido o filho mais querido.

As alarmistas notícias repassadas pelo provedor alternativo descreveram o acidente como sendo uma espécie de Alzheimer Day, o dia fatal do apagamento das melhores lembranças da humanidade, bem como aquele terapeuta me havia dito.

O filósofo marx-holista Vitorio Doro Scazambone, crítico contumaz das idéias de Spitzheim-Siegl nos alertara poucos anos antes do que ele chamou de Il Grande Dimenticare, em seu arcaico blog sobre os riscos de não se ter mais nossos cérebros primitivos ativos e bem treinados, sempre disponíveis para esta eventualidade tão previsível quanto inevitável.

“Lo dico e lo dico, con enfasi che molti millenni di formazione primitiva forme di ragionamento, in base alla lenta assimilazione dei concetti stabiliti dalla ripetizione degli errori e successi, i nostri cervelli hanno accumulato un livello di esperienza per la gestione e la cura dell ‘universo, insostituibile. Anche l’imprevedibilità del nostro comportamento, suscettibile di diverse influenze dell’ambiente – che per gli appassionati di virtualità totali è stata la nostra grande colpa – a me, Vitorio Scazanbone sembra essere una ragione divina e insormontabili. “

(Vitorio Doro Scazanbone no artigo “Sotto il rischio di un blackout di mente” publicado em seu blog pessoal em 11 de abril de 2395)

Inútil. Nada do que Scazambone alertara adiantou. Ninguém lhe dera mesmo ouvidos até porque as nossas mentes em poucos decênios de escravidão voluntária, haviam embotado quase por completo, irremediavelmente dependentes que ficaram dos eflúvios do HWH lunar, expressos por periódicas tempestades lunares carregadas de downloads oníricos.

Os ABs (alternativs braims), cérebros humanos alternativos (espécie de PCs minúsculos como chips pós modernos) de altíssima capacidade de armazenamento, passaram a ser implantados então, diretamente em nossas próprias cabeças. ‘Espetados’ como aqueles pendrivers do século 21 em nosso sistema nervoso central, muitas vezes tinham que ser confiscados dos filhos adolescentes por mães briosas, para que estes não se viciassem na rodagem de programas-barbitúricos ou anabolizantes, baixados, facilmente de sites de prazer virtual online.

O fato mais dramático é que estes ABs acabaram por assumir o controle de tudo, inclusive da nossa individualidade. Nossas vontades mais íntimas por conta desta evolução, a partir de certa época passaram a estar, totalmente dependentes de um programa de inteligência artificial denominado Onirix (1.09 em sua versão da época), periódica e automaticamente, atualizado, por meio daqueles longos downloads que rodavam durante o nosso sono, descaradamente disfarçados de sonhos chamados de ‘Marés de barato’.

(Estes sonhos virtuais eram tão lúbricos e eróticos que, não raro, produziam poluções noturnas intensas, tanto em homens quanto em mulheres e eram por esta simples razão, ansiosamente esperados, estimulando o comercio desenfreado – e inutilmente proibido – de drogas voltadas para tornar o mais profundo – e prazeiroso – possível o sono das pessoas.)

Sim, claro. Sabemos que sobraram na Terra, como remotas possibilidades de recuper algo de nossa inteligência original, as velhas mídias do passado. Livros empoeirados, discos de vinil de vetustos colecionadores, CDs meio descascados, pilhas de Ipods danificados, HDs enferrujados, tudo jazendo em velhas oficinas de sucata de material de informática, a maioria amontoada em úmidas salas de museus de mídia, prédios que ninguém visitava mais.

A causa era o alto estágio alcançado pelas avançadíssimas condições que a vida virtual atingira, com tudo, literalmente tudo podendo ser acessado e realizado, vivido mesmo. Esta Vida Virtual podia ser facilmente acessível por meio de algumas rápidas piscadelas de olho (ação que substituiu os clicks de mouse do passado) dirigidas ao nosso Cérebro Total Alternativo, fisicamente separado de nós e guardado num armário remoto qualquer, como uma alma superpoderosa, eternamente jovem, eternamente online.

Como consequência do Apagão o pânico. Ocorria que os poucos técnicos remanescentes que se lembravam ainda de como funcionavam as máquinas pré históricas, capazes de ler aqueles dados remotos, debatiam-se sem sucesso com a incompatibilidade absoluta estabelecida entre elas, as mídias arcaicas, os dados disponíveis, dispersos em suportes incompatíveis, não conseguiam se configurar num sistema operacional que servisse para alguma coisa que não fosse processar informações, absolutamente banais, como ler um romance, por exemplo.

E para que nos serviria afinal ler um romance se nossa inteligência não se desenvolvia mais por meio do impacto e da forte impressão que nos causavam as emoções banais?

Nos transformáramos em seres de aspecto apoplético tanto que, se fôssemos observados por pessoas comuns das eras passadas, não seríamos reconhecidos como humanos, de modo algum, por causa do ar de insanos pálidos, obesos e abestalhados, olhando o nada dentro de nós mesmos como falsos cegos não querendo ver o que, mais cedo ou mais tarde haveria de conosco acontecer. Como de fato aconteceu.

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Era por isto que a evocação daquele sonho estranho com o cavalo me angustiava. Um pesadelo aterrorizante era o que parecia. De onde viera aquela cena tão rudimentar e arquetípica?

Se eu, como todos os demais habitantes do planeta não tinha mais memórias a evocar, angústia alguma para sofrer e remoer em pesadelos, se não podia mais acessar a mais prosaica das lembranças tristes ou felizes de meu passado após a explosão lunar que destruiu o HWH, de onde vinham aqueles lapsos de consciencia, aquelas angustiantes mentalizações tão realistas?

De onde vinha o cheiro nauseabundo de carne podre? Como eu poderia reconhecê-lo se o registro dos vapores dele não mais estava em mim?

Naquela mesma noite, ao dormir o que seria mais uma noite sem bons sonhos, trêmulo com a expectativa de sofrer angústia do que julgava ser outro pior pesadelo, me vi novamente dentro da casinha tosca, que agora aquecida pelo fogão de lenha, me parecia, acolhedoramente familiar.

Um chá ralo, muito quente me foi posto á boca e as narinas se arregalaram: Hortelã!

Como assim? Onde estou? Quem sou eu?

O homem magricela – que agora eu percebia ser louro como uma espiga de milho – ainda impregnado daquele cheiro de morte que trouxera lá de fora, me tranquilizou com um olhar sereno, enquanto apontava uma lua que aparecia branca no céu ainda azul:

_” Nada de pioggia domani!

E foi com aquele seu sotaque italiano que ele me contou que a febre me pegara de jeito logo que chegamos ao local. As alucinações tinham sido tão intensas que nos delírios, eu havia molhado várias vezes o lençol estrapeado que ele me dera.

No mesmo dia em que eu adoecera daquela gripe braba, um raio matara um potro bem novinho. A chuvarada durou uns três dias e só agora ele pudera enterrar o bichinho. Como? Quer dizer que aquilo tudo não havia sido sonho nem pesadelo. Uma égua desesperada, achando incompreensível a morte de seu potrinho, fora o que eu vira naquela tarde.

Com a febre indo embora fui me lembrando, lentamente da viagem à roça. O pessoal da equipe tinha ido à cidade comprar querosene e cachaça. Antes de voltar, deram um tempo na venda do local e aproveitaram para dar uma carga nas baterias da câmera já que, mal havia luz elétrica por ali. Voltaram já meio tocados de pinga.

O hortelã do chá que o magricela me dera, aos litros, estava ainda impregnado no meu bigode e eu ansiei também por uns bons goles de pinga com limão. O Hortelã mais a pinga me deram um baita de um suadouro. Ai que alívio!

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Pois foi mesmo assim, mais calado do que de costume, que fiquei ouvindo a entrevista que o magricela continuou a nos conceder, falando sobre seu avô, um anarquista italiano que se escondera por aquelas bandas e construíra aquela casinha no início do século 20, depois de matar um soldado do exército na Revolta da Vacina no Rio de Janeiro. Nome do anarquista carcamano: Vitorio Doro Scazambone.

Mama mia! Pesadelo invertido é fogo.

Só continuo não conseguindo atinar como é que aquelas histórias desvairadas foram parar dentro de minha tão febril cabeça. Malato di mente como diria o magricela, preciso me curar logo deste vício de computador, dar um tempo da internet, esfriar a cabeça, apagar. esquecer.

Una piccola dimenticanza.

Spírito Santo
Maio 2009

Ao Molho Pardo


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Conto

Me chamo Brasil. Sério. Justino Amaral do Amoroso Brasil, ao seu dispor.
Saí de casa hoje agoniado, com aquela sanha de matar uns dois ou três. Sem brutalidade, claro, que isto, podem crer, não é comigo.

Matar sim, mas sem sadismo. Matar simplesmente, como minha mãe matava as galinhas de
domingo. Uma torcida rápida no pescoço e, babáu!

As vezes uma boa faca, bem amolada também resolvia bem a situação.

Aliás, esta minha ojeriza a sadismo deve ter vindo daí, do dia em que a Velha, assoberbada com a salada de maionese, me pediu para fazer o serviço com a galinha. Servicinho, pensei. Nem pestanejei. Era só pegar a bicha, forçar a cabeça dela na tábua de carne e zás! Cortar. De um golpe só.

Mas fiz com piedade, me disse a Velha. E piedade não se pode ter na hora de matar uma galinha. Isto mesmo! Foi um amigo meu da vigésima DP, que é legista, quem me ensinou:

_”A galinha está na base de nossa cadeia alimentar, meu chapa. Fazer o quê?
Temos que viver, ora bolas! Vai desprezar a delícia que é uma moela
ensopada, uma asa assada, uma coxa empanada?”

Mas fiz com remorso. Fiz sim. Eu sei. Um remorso prévio, mal disfarçado, que, não sei como a pobrezinha sentiu, anteviu naquele seu piado assim, tremiiido como um apito de juiz engasgado, cheio de cuspe.

Foi de dar vertigem. O maior terror que eu já passei na minha vida.

O corpo da galinha tombou para um lado, tombou para o outro e logo começou a se debater, de pé. Não sei como ela conseguiu, gente. Ficar em pé? Como explicar? Fiquei embasbacado pensando como é que um corpo sem cabeça pode entender, raciocinar o que é ficar em pé? Foi aí que, para o meu alívio, o corpo dela caiu de novo, de vez, na tábua de carne, ficando só com aqueles tremeliques de curto circuito, aqueles espasmos de penosa moribunda, agonizante. Ah!Me aliviei.

Mas qual o quê. Foi aí que a coisa ficou ainda mais apavorante: Na cabeça dela, os olhos piscavam como a procurar alguma coisa que eu tinha certeza que era eu, o assassino frio e cruel. A bicha abria e fechava aquele bico pálido, como a querer exprimir algo transcendental, algum cacarejo acusatório, quem sabe alguma severa condenação ou uma praga, sei lá. Ai Deus meu! Aquele bico apontado para mim, inquisidor.

Fiquei num desespero tão sem tamanho que cheguei até a pensar em recolher de novo as partes e juntá-las uma a uma, como fez aquele tal de Doutor Frankenstein, mas era tarde demais. O  sangue da bicha já nem esguichava mais, se esvaía como um riachozinho calmo, me distraindo. Daí me lembrei, ali naquele mesmo instante, que tinha que recolher todo aquele caldo escuro e viscoso num copo – a matéria prima do tal do molho pardo, lógico –  senão a Velha me matava e me esfolava todinho…como a galinha.

O certo é que, talvez, esta minha sanha assassina tenha nascido ali mesmo, nos preparativos daquele rotineiro almoço de domingo, no tempo em que eu ainda só bebia guaraná.

Foi lembrando disto que saí assim, com aquela mesma sede de sangue que se apossava de mim nos velhos bons tempos, sempre que uma diligência era marcada rumo ao covil de algumas destas bandidagens que infestam a nossa cidade.

No noticiário da rádio Mayrink Veiga, ontem mesmo, estava dando uma notícia dessas que ainda me arrepiam todo, fazendo o meu sangue ferver nos tubos.

O indivíduo bateu na mulher com o cabo da enxada até deixar a bichinha desfalecida. Saiu, tomou umas três doses de ‘Pitú’ no botequim da esquina e voltou. Pegou a enxada propriamente dita, encaixou no cabo e, pronto, decepou o braço da coitadinha.  Deixou a pobre se esvaindo em sangue (como a galinha) e foi de novo para o botequim, acabar de encher as fuças de goró.

O guarda civil encontrou ele emborcado na sarjeta, com a cara enfiada numa destas poças de meio fio, quase afogado naquele caldo de esgoto e águas pluviais. Ah! Pra que!Já entrou na rádio patrulha tomando porrada, cachação, ‘telefone’, estas coisas. Na delegacia então…Ih! apanhou mais do que tarado de favela, muito mais do que um boi ladrão.

No início, anestesiado pelo glorioso goró que tomara, chegou a rir das bofetadas, às  gargalhadas, como um imbecil demente, masoquista. Depois sossegou. A dor foi
chegando meio ardida e por fim o paspalho amoleceu de vez. Confessou a sua missa sem nenhum amém.

Tinha sido despedido da firma. Servente de pedreiro que era, sem eira nem beira em que se segurar, purgou na hora uma ira fina e gosmenta contra o patrão, mas ainda no meio da surpresa do fracasso, humilde e medroso como são todos os serventes de pedreiro deste mundo, se acovardou, murchou, calou.

Daí saiu pela rua e de goró em goró só foi descontar a raiva que sentia, a humilhação que o patrão o submetera, de noitinha quando chegou em casa. Onde? Na carcaça da pobre da ‘patroa’, ora. Coitada.

Mas me digam vocês: Pode viver um ‘cabôco’ desses? Se pudesse, se estivesse ao alcance de minhas justiceiras mãos, vocês podem crer que eu não batia só não. Eu matava, esfolava e nem recolhia o sangue. Deixava o tipo A negativo dele esvaindo lá mesmo, no ladrilho (e minha mãezinha desta feita, havia com certeza de me perdoar). Afinal – pensem comigo –  assassino de mulher indefesa parece sim, mas não é galinha. Galinha presta gente. Galinha, tenho dito,  alimenta com louvor e delícias a fome domingueira da nossa sociedade.

————

Me chamo Brasil. Duvidam? Justino Amaral do Amoroso Brasil. Eu sei. Ninguém acredita. Vivo repetindo a toda hora.

Mês passado tirei serviço no Maracanã. Nem era meu plantão mas o delegado insistiu, quase me intimou o filho da puta. Juro que não queria ir. Futebol pra mim é baboseira. Se o cara me chuta a canela e dói eu quero arrancar o braço dele. Á unha e a dente. Ainda mais naquele dia da famigerada final da Copa da maior vergonha deste Mundo.

Lembram não? 2X1. Bola pra lá, Barbosa pra cá. Gooool! Goool! O corno do locutor gritando feito uma velha estrangulada. Gooool! Goooooool!… de Gigghia! Goooooooool do Uruguai!

Barbosa, crioulo miserável, filho da puta. A culpa foi dele. Frango de macumba. Um frango engolindo outro. Que horror.

(Claro que o rádio do qual eu falava é um novo porque o outro, no mesmo dia do jogo eu quebrei, matei ele, deixei mudo, para sempre).

A derrota do Brasil até que não foi nada. Pior foi ter que ouvir no rádio aquela notícia da  mancada terrívelque sabe quem tinha dado? Eu mesmo. Idiota! Idiota! Energúmeno! Um ato tresloucado, justo naquele dia, justo na porta do Maracanã. Vergonha quase mais desgraçada  que a do Barbosa frangueiro.

Foi assim:

Jogo acabado. Dois ‘Cosme-Damião’ vindo, espantando o povo com os seus cavalos. Era comoção geral, naquele desespero miserável, alguém bem que poderia cometer um desatino. Por isto mesmo é que eles vinham vindo. No trote. De repente um tiro. Outro tiro: Pôu! Pôu!. Quem deu? Adivinhem? Fui eu. Um dos cavalos tropeçou nas próprias pernas e caiu, babando, se estrebuchando. Foi nele que eu acertei.

Eu, que tinha saído do estádio como qualquer um daqueles milhares de arrasados na praça, que éramos todos nós, naquela hora. Primeiro tomei o esbarrão, acho que do cavalo. Quase que caí no chão. Logo em seguida ouvi, só de longe, a conversa:

_” Bem feito! Ficaram cantando vitória antes da hora, agora é essa choradeira.
È  esta merda de Brasil!”

“…MERDA DE BRASIL!” Peguei assim no ar.  Nem parei para pensar. Só podia ser comigo. Sangue quente é mesmo morte zanzando perto.

Puxei o revólver no instinto e apontei. Foi daí que vi a cara do soldado,  não sei se o “Cosme” ou se o “Damião”.  Puta que pariu! Acho que foi Deus que abaixou a minha mão, naquela hora quando naquele impulso maldito, atirei desviando: ‘Pôu! Pôu!’. Acertei o bucho do pobre do cavalo.

Ai! Foi pior até do que se eu tivesse acertado o  ‘Cosme’ (ou o Damião’) sei lá.

Zás trás. Tarde demais ! Naquele mesmo instante do tiro uma certeza a me gelar a espinha:

_ ‘Pronto. Fudeu! Perdi a porra do meu emprego.’_

E não deu outra. O delegado, que era um ferrabrás maldito e não ia mesmo com os meus cornos, prontamente me enquadrou no xilindró e me despachou daquela vida boa que eu levava pra os quintos mais torpes do inferno:

_”Exonerado, desgraçado! Tá exonerado a bem do serviço público! Onde já se
viu? Que destempero, atirar num colega…fardado?”
_

Ai! Querem saber? Eu era polícia civil, gente! papa fina. Autoridade competente. 25 anos de serviço!  Na boca de me aposentar. Não era brincadeira não. Burro que sou acabei onde estou: Há 5 meses sou capanga de bicheiro. Despachador de desafeto, matador de aluguel, fabricante de viúvas.

Fazer o quê?

————–

Foi por isto, por conta das neuroses todas destas lembranças que saí de casa hoje pensando em matar dois ou três. Saí sim. Confesso, mas jurei para a minha patroa que logo em seguida vou tomar prumo. 1950 é o ano em que saio desta rotina cachorra. Ela sempre me disse que esta vida de matador é coisa de gente abilolada, recalcada, sorumbática, psicopática, sei lá como se diz.

Os dois ou três últimos da lista eu já sei até quem são e onde estão. Um é gerente de um ponto de bicho do doutor Claudionor. Tá roubando o chefe. Vai espichar as canelas.

Os outros são cupinchas dele, do ladrão do chefe. Podem miar, piar, latir, ganir. Vão para o mesmo buraco também, sem dó nem perdão. Faço o serviço na sexta à noite, quase madrugada. No sábado durmo o sono dos justos. No domingo vou à feira, tomo umas cervejas com a rapaziada e pego aquele almoço especial da minha boa dona patroa.

Este domingo vai ser galinha ao molho pardo. Posso até apostar.

A danada da patroa cuida de tudo, igual à minha Velha. Escolhe lá no aviário uma bela penosa, bem rechonchuda, cochuda. A bicha já vem depenada na água fervente com os poros de onde sairam as peninhas, inchadinhos inchadinhos… como mulher arrepiada depois do banho, a pele limpinha, prontinha para a panela pelando lá no fogo, refogando o alho, a cebola, Dona patroa lambendo os beiços, conferindo todos os procedimentos…Ai! É de dar água na boca só de pensar.

Eu não. Nem devia pensar. Tô fora dos procedimentos. Não posso ver morte de penosa. Tenho trauma de matar galinha, vocês já sabem.

Mas neste ano eu já disse, me aposento. Aí, quem sabe, eu me destraumatizo e ainda destrincho um dia destes umas penosas gostosas por aí? Todo trauma pode ter cura, não é não? É como diz aquele meu amigo legista, distrinchando gente assassinada, pra desvendar crime de vivo:

_”Meu chapa…Já vi de tudo nesta vida. Neste mundo nada é impossível. Quem viver verá”.

Spírito Santo
29 de Abril 2007