“A Patrulha”. Meu sangue escrito na neve da segunda guerra mundial


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Quem tem esta glória familiar que à mantenha viva, para sempre.

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Imaginem! Meu pai herói, teve um combate do qual fez parte no norte da Itália em 1945 registrado num jornal.

Fico aqui, chapado de emoção imaginando o quanto de orgulho meus irmãos e filhos sentirão de seu pai e avô, agora herói mesmo, sacramentado e juramentado.

A notícia eletrizante saiu no jornal (ou periódico) “O Cruzeiro do Sul” do dia 1° de março de 1945, pag 4. A crônica, assinada por aquele que é considerado o maior correspondente de guerra brasileiro, Joel Silveira se chamava “A Patrulha”. Quem garimpa e encontra é, de novo a dileta amiga Bete Scg que me pergunta:

“_.. Vê se pode ser ele”

Sim! Não só pode ser ele.p, como É ELE! Que coisa impressionante!

(Clique na imagem para ler a matéria)

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Seu nome era muito incomum para ser um homônimo. Seria muita coincidência haver um homônimo no mesmo exército, na mesma guerra. Quando convocado estava morando aqui no Rio de Janeiro há muito tempo. Fugiu de casa, em Diamantina, MG com cerca de 14 anos, nunca soubemos, exatamente porque e, sabe-se lá como, fixou-se no Rio de Janeiro desde então.

José Cyrilo chegou no Rio de Janeiro (na época Distrito Federal) sozinho passando, segundo contou para minha mãe, por São Paulo ali por volta de 1932. No ensejo de sua convocação para a guerra na Europa, já estava aqui, portanto por cerca de 13 anos e deve ter sido identificado no quartel, por alguma razão, como natural daqui do então Distrito Federal.

O “Ceará” ao qual a crônica se refere, pode ser o amigo mais chegado dele, morto numa barraca de campanha num inesperado bombardeio alemão. Ele contou este incidente para minha mãe Geny, se referindo a um nordestino (tinha na memória que minha mãe falara num “Paraíba“, mas pode muito bem ter sido um “Ceará”).

Ele, Cyrilo, saiu da barraca com uma caneca de café recém feito, justo na hora em que o morteiro caiu. Por segundos não morreu neste incidente e eu, seu filho não teria existido para contar sua formidável história.

Talvez tenha sido um dos muitos gaúchos da bem sucedida patrulha, aquele amigo presenteou Cyrilo com uma bela cuia de chimarrão, com borda e bomba de prata, que guardo carinhosamente comigo até hoje

(…Eu sei. Preciso limpar a prata, mas é que gosto do óxido do tempo)

Num doc. de 1967, já publicado aqui, minha mãe solicita ao exército a correção do nome de José Cyrilo no certificado de sua medalha de campanha, grafado sempre equivocadamente sem o “y”.

Acordei há pouco e esta foi a primeira notícia do dia. Estou aqui emocionado, tomando o meu cafézinho matinal. Um bomba boa acabou de explodir aqui no meu cafofo.

José Cyrilo do Espírito Santo, meu pai herói

http://www.defesanet.com.br/ecos/noticia/2786/15-de-setembro-de-1944—–A-cobra-esta-Fumando—-Brasileiros-entram-em-combate-na-Italia/

(O jornal “Cruzeiro do Sul” onde a crônica foi publicada tem como fundador e principal colunista, a interessante figura de Félix de Araújo, paraibano, pracinha voluntário (veja a foto) correspondente de guerra, poeta que se tornou comunista e político muito bem sucedido, assassinado em 1953 com um tiro pelas costas, desferido por um desafeto político.

Existe uma controvérsia sobre a fundação do jornal, atribuída, oficialmente à FEB, segundo o link que obtive, em matéria onde o nome de Félix de Araújo, sequer é citado.

Agradeço comovido a este outro herói de guerra que foi Félix de Araújo, ou quem quer que seja o autor da crônica, por ter registrado para a eternidade o heroísmo de meu pai.

Aguenta coração!

Spírito Santo

Junho 2015

Auto do Manoel Kongo/ AMK. Mané Kongo: Tição botô fogo na mata


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Arcozelo 30

Equipe deflagra projeto de montagem do Auto do Manoel Kongo no Vale do Café

Velho Caxambuzeiro:

_”O ambiente tá pesado por aqui nesta fazenda da Freguesia. O capitão-mor, o dono…mandou feitor fazê guarda na frente da senzala dia e noite…Inda mês passado mataram um feitor por aqui…As coisa são falada a boca pequena que é pra guarda nacional não saber…O capitão-mor tem medo que o Werneck, chefe da Guarda Nacioná, de Valença, mancomunado com os Avellar, o Correa e Castro, o Leite e todos os seus inimigos, arranjem um jeito de ferrar ele. Vão querer botá tropa nas terras dele. Vão ter um prato feito para arruinar Manoel Francisco Xavier…”

(Velho segue)

_”…E o que ele fez? Botou polícia interna, falou com os capanga e com os feitor que daqui não sai negro nenhum, nem vivo nem morto, pra fazê quilombo…O Werneck da guarda nacioná já tá inteirado. Investigou que lá pros lado do Pilar, a polícia prendeu um mascate sabe com o que? Uns tres barril de pórvora encomendado pelos preto daqui…Num se sabe com que dinhêro, nem com que intenção. Pórvora, sô! Só pode ser pra fazê furdunço!..Botar nas espingarda e matá branco…Virge Nossa Senhora!..Mas…tá bom. A gente sabe mais que eles, né? Só que vamos ficar como diz João Angola…de boca lacrada!”

                                   (Auto do Manoel Kongo de Spirito Santo, fragmento)

Foi muito mais do que eletrizante conhecer a antiga Fazenda da Freguesia, atual Aldeia Arcozelo, em Paty de Alferes, núcleo do qual se originou toda a ocupação e o fausto do chamado Vale do Café (Vale do rio Paraíba do Sul) no século 19.

Por uma destas coincidências mágicas da vida, destino escrito sei lá, ali por volta de 1966, aí com os meus 18, 19 anos e já mexendo com estas coisas de teatro e por conta de um prêmio que o meu grupo suburbano (o MOCA) recebeu, havia visitado a Aldeia Arcozelo.

Não fazia a menor ideia até então de que aquele lugar havia sido a maior fazenda de escravos da primeira metade do século 19 na qual foi deflagrada uma das maiores insurreições de escravos da Diáspora americana.

Cheguei a conhecer Pascoal Carlos Magno o dono e principal incentivador daquilo que era uma formidável iniciativa de fomento do teatro brasileiro. Tenho uma vaga lembrança da exuberância e do bom estado de conservação do complexo, tanto que me deu uma certa tristeza revoltada, ver a degradação do local, principalmente a velha casa grande, com partes desabadas e ameaçadas de ruir.

Arcozelo 7Na entrada do complexo vimos uma grande placa da Funarte, atual administradora da Aldeia de Arcozelo, mas no interior nenhum sinal de obras de manutenção ou restauração do que se trata de um dos complexos arquitetônicos do século 19 (as construções iniciais remontam o século 18) mais importantes das Américas.

Os funcionários e contatos locais nos informaram que um presidente e outras autoridades da Funarte já estiveram por lá em solenidades e vistosas visitas, mas nada de concreto ainda ocorreu. Fala-se em verbas emendas parlamentares e recursos de um novo PAC, mas nada realmente conclusivo.

Não compreendi, enfim como está sendo encaminhada a questão da salvação deste patrimônio inestimável, seriamente ameaçado, por parte do Iphan, do governo brasileiro enfim, já que a Funarte, embora sendo uma herdeira natural do sonho teatral de Pascoal Carlos Magno – um dos aspectos relevantes do valor do espaço como bem cultural imaterial – não tem, absolutamente nenhuma relação com a preservação de patrimônio arquitetônico e histórico, da cultural material deste importante lugar.

Tampouco jamais poderia imaginar que tantos anos depois me veria envolvido com a pesquisa e a criação de um espetáculo teatral que narra, em minúcias historicamente bem realistas os incidentes principais da revolta. Afinal foi ali que estes tumultuosos incidentes ocorreram. Exatamente ali os personagens todos do Auto do Manoel Kongo viveram conspiraram, se rebelaram e morreram no calor da refrega numa mata próxima ou mais tarde, cansados de cativeiro, moídos de velhos ali pela fazenda mesmo, onde muitos estão enterrados.

Dá bem para vocês entenderem a emoção indescritível que senti caminhando pelos espaços, pátios, alpendres e cômodos onde os personagens da história que escrevi, efetivamente existiram.

“…O tenente-coronel Gil Francisco Xavier herdou a fazenda Freguesia com a morte de sua mãe adotiva, Francisca Elisa Xavier, primeira baronesa da Soledade, viúva de Manuel Francisco Xavier. Endividado pelo jogo, Gil Francisco Xavier cedeu ou vendou a fazenda para o médico português Joaquim Teixeira de Castro que mudou o seu nome para fazenda Arcozelo, que era onde ficava a quinta de sua família em Portugal (freguesia de São Miguel de Arcozelo, concelho de Vila Nova de Gaia). Joaquim Teixeira de Castro recebeu do rei D. Luís I de Portugal, em 1874, o título de visconde do Arcozelo.

“…A partir da década de 1930, o excelente clima da região passou a ser conhecido nacionalmente com a propaganda feita grande médico infectologista Miguel da Silva Pereira. Isto atraiu muitos turistas de veraneio procedentes da cidade do Rio de Janeiro e, assim, a fazenda foi transformada em hospedaria em 1945.

Finalmente, a fazenda foi loteada e a parte com as edificações tornou-se propriedade de João Pinheiro Filho, que, em 1958, a doou ao embaixador Pascoal Carlos Magno com o propósito de ali criar uma escola de teatro e local de retiro de artistas.

O centro cultural Aldeia de Arcozelo foi inaugurado em 1965.”

                           (Wikipedia)

Arcozelo 15

A impactante emoção influenciou então fortemente o plano da montagem, já que o complexo arquitetônico tipicamente do século 19, de maneira incrível se presta maravilhosamente à encenação do Auto, contendo em seu contexto todos os cenários constantes da itinerância do formato que eu, o autor estou propondo, com cenas ocorrendo num curto trajeto percorrido pela plateia.

O fato de serem cenários absolutamente reais, torna a ideia de montar o espetáculo na antiga fazenda da Freguesia, absolutamente irrecorrível.

Assim, depois de uma animada e bem sucedida rodada de encontros com secretários de cultura e pessoas representativas da região saímos de lá decididos a promover uma série de espetáculos em, pelo menos duas ou três cidades do Vale do Café.

Uma conspiração virtuosa foi deflagrada e os quilombolas buscam as armas para subir e ocupar a Serra.

O Quilombo de Manoel Kongo, vive!

“…Mané Kongo botô Paty pra queimá…
….Matou, incendiou, fez tudo pra fugir
do cativêro de Paty…”

_Tição botô

(coro) Fogo na mata

_Vagalume alumiou

(Coro)Toda a mata…”

(Jongo do Mané Kongo, música tema do Auto)

Spirito Santo
Fevereiro 2014

Arcozelo 39E a equipe é:

Spirito Santo (autor)

José Luiz Menezes Júnior (Secretario de Cultura de Vassouras)

Samba, Futebol e Congada mineira: Tudo a ver!


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Zuzuca, o esperto rei negro flanando por aí

Meu amigo Julio Barroso, aqui no Facebook, todo animado, exalta:

(Comece abrindo este link):

(Agora siga a onda):

Julio Barroso:

“_E a torcida do Barça canta; Olê lê, olá lá, pega no ganzê, pega no ganzá! Esse samba virou patrimônio universal da humanidade…Valeu Salgueiro!”

Titio iconoclasta consciente, questionando, veemente:

“…Valeu, Salgueiro, o cacete! Tá no livro do Titio: Este refrão foi plagiado de um ponto de congada da cidade de Oliveira, MG. O samba inteiro, aliás. Zuzuca só mudou a letra do estribilho. Rs rs rs rs…Titio tem a prova.

        Valeu, isto sim, congadeiros de Oliveira!”

O samba “do” Zuzuca não é samba. É um ponto de Catupé*!

Está lá, no meu livro “Do Samba ao Funk do Jorjão“, primeira edição, na página 225:

“…Voltando à ligação entre o catupé e a Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro, tivemos certa feita, pesquisando congada na região (Minas Gerais) , a grande surpresa de nos depararmos, numa noite em Oliveira — na década de 1970 —, com um desses ternos de catupé (*dança típica do ciclo das congadas) cantando algo que, segundo informações dos mais velhos do lugar, era “um dos pontos mais populares e antigos da festa, remontando talvez ao tempo da escravidão”.

O intrigante era que o refrão do ponto nos era muito familiar, pois, tinha exatamente a mesma letra e melodia do conhecidíssimo Samba da Acadêmidos do Salgueiro — “Festa para um Rei Negro”, “de” Zuzuca — no carnaval de 1971: “Oi lelê/ Oi lalá/ Pega no ganzê/ Pega no ganzá”.

Versando sobre a caminhada de um terno de congo rumo à coroação de Nossa Senhora do Rosário — um tema muito comum nas congadas em geral por ser a santa reconhecida pelos congadeiros como solidária com o sofrimento dos escravos — o resto da letra do ponto de catupé era inteiramente diferente dos versos de Zuzuca; a melodia, no entanto, era rigorosamente igual à do Samba.

Oh, Senhora do Rosário
que vem nos abençoar…

…………

…que beleza!
inté manhã
que noutro dia eu vou voltar.

Oi lelê
Oi lalá
Pega no ganzê
Pega no ganzá,

A despeito da possibilidade de termos aí uma evidência de plágio de um tema folclórico, coisa infelizmente muito comum em nossa música popular, o fato tinha uma explicação marota, proposta por um velho Mestre de Catupé da cidade com um sorrisinho “mineiro” nos canto dos lábios:

Zuzuca, o pitoresco salgueirense autor do samba, antes de ser um mero plagiador seria na verdade um conterrâneo, mineiro de Oliveira como todos os outros catupezeiros locais; seria, isso sim, um grande apaixonado pela cultura de sua terra natal, da qual havia decidido se tornar o difusor.

Como o incidente foi presenciado por este autor in loco em época ligeiramente posterior ao sucesso do Samba atribuído a Zuzuca, alguém poderia considerar que o ponto de catupé é que foi, ele sim, plagiado do célebre “Pega no ganzê”.

A possibilidade, no entanto, convenhamos: é bastante remota. A paródia não é, de modo algum, prática usual em manifestações folclóricas, pelo menos no Brasil.”

(Spirito Santo in Do Samba ao Funk do Jorjão“)

————

Na matéria deste link abaixo, há uma explicação algo equivocada da história:

“…A música foi uma das responsáveis pelo título do Salgueiro naquele ano. Ganzá é o nome de um instrumento de percussão parecido com o chocalho e a palavra ganzê foi inventada pelo compositor para rimar. Após o sucesso no Carnaval, a letra foi adaptada de acordo com o interesse de cada torcida, mas a melodia não foi modificada”

Mero chute do articulista, mal informado: Chama-se hoje, por aí, chocalho de ganzá. No interior de Minas Gerais contudo, “Ganzá” é como o pessoal desta região de Oliveira até Montes Claros, chama o pequeno reco-reco usado na dança do catupé. O nome vem, seguramente de “DiKanza” um tradicional e muito popular reco-reco angolano.

Com certeza é este o “Ganzá” da música apropriada pelo esperto Zuzuca.

Na mesma matéria Zuzuca dá a sua marota versão para a estupenda internacionalização do “seu” samba::

“…Tudo começou no Maracanã. Daqui, saiu espalhando para o mundo afora. A torcida brasileira lá na Copa do Mundo, América do Sul toda, eu gravei samba no mundo inteiro, mais de 40 países.”

(Esqueceu de agradecer à Nsa. Senhora do Rosário, a quem a música foi devotada talvez ainda no tempo do cativeiro. Zuzuca ganhou muita grana com este samba.

Titio sabe. Titio diz.

———–

Aviso final aos incrédulos: Titio guarda consigo até hoje, mais de 40 anos depois, a fita K7 gravada in loco, numa rua de Oliveira, MG, coalhada de ternos de congada, um deles cantando o “Pega no Ganzê” original.

Ahá!

Spirito Santo

Junho 2015

As chaves da alma abrem, escancaram mais uma porta do passado…e já nem sangra.


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Ruínas dos fundos da velha cadeia do presídio da Ilha Grande, Rio de Janeiro

Eu na hemeroteca da BN: Quase um anti superstar

(E não vivo dizendo? Titio tem história.)

Emocionado aqui. Bastante, coração apertado e tudo. A amiga pesquisadora Bete Scg me socorre e encontra na hemeroteca da BN dados jornalísticos sobre a minha orgulhosa prisão como subversivo em 1969.

Gratidão eterna.

Habeas Data 3

habeas Data 2

A casa na verdade – o policiazinha inapta – na verdade era outra, que não consta no inquérito e era um aparelho da Var Palmares. Nenhum de nós três morava lá.

Havia muito material no aparelho, inclusive, que eu tenha visto, pelo menos um velho fuzil e o tal mimeógrafo. Cruzamos uma vez com pessoas estranhas lá, deviam ser figurões da organização. Me lembro que eram muito brancos e se vestiam como europeus ou gente rica da zona sul, algo assim muito ” bandeira” num subúrbio, para quem faz coisas perigosamente clandestinas.

Na minha casa mesmo só havia “documentos” (textos de estudo marxista ou manuais de luta armada) escondidos no baú de um velho sofá cama e meus livros. Cercaram o quarteirão. Levaram e destruiram tudo. Como não conseguiram arrancar nada de nós no Exército, onde foi o “interrogatório” (e nem foi assim tão  insuportável a tortura), nada disso, da Var Palmares, pode constar nos inquéritos…uffa! (num dos docs. que li do inquérito, diz que esqueceram de separar o que apreenderam de outras apreensões e contamiram, melecaram todas as provas. )

(Cliquem nas imagens para ampliá-las)

Abaixo, eu, Spirito Santo tal como estava em Agosto de 1968, em foto para a revista do Festival Estudantil da TV Globo, apenas quatro meses antes da prisão. Como se vê, pareço mesmo um perigosíssimo terrorista subversivo.

 

Habeas data corrigido 1

O curioso é que a polícia ignorou, solenemente esta decisão judicial noticiada pelo jornal Tribuna da Imprensa 5/6 de julho de 1969 e não me libertaram de jeito nenhum.

Me lembro que estava na Ilha Grande nesta época, transferido para lá na madrugada do dia 12 de junho de 1969 e nem cheguei a ficar sabendo que a II Auditoria da Marinha, tão “boazinha”, havia acatado este recurso de forma assim tão meiga, como se houvesse lei na ditadura.

Habeas data corrigido 2

Como se vê, a minha prisão preventiva foi prorrogada por mais seis meses e segui preso por quase dois anos, sem nenhuma acusação formal apresentada.

Era uma justiça de fancaria aquela. As vezes podiam absolver presos que já estavam mortos. A cada recurso legal concedido, havia sempre um novo pedido de prisão preventiva interposto e decretado. Além de torpes eram ineptos em sua opressão desmedida.

O fato é que nem me lembro direito quando saí de lá, da Ilha Grande.

Não achei nenhum doc. de minha saída de lá, nenhum memorando, nada. Só sei que não foi dessa vez que saí. É como se, oficialmente eu ainda estivesse lá, fantasma entre as ruínas do presídio, hoje demolido.

Sei apenas que voltei para a prisão da Dops e lá fiquei e estava ainda lá em setembro de 1969, quando do rumoroso sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrik. Me lembro bem até de um dos libertados que estava comigo nesta prisão da DOPS: Ricardo Vilas, o de mais baixa estatura entre os libertados, algemados em frente ao avião Hércules que partiria para o México (veja na famosa foto)

Ricardo é músico. Integrava o grupo vocal Momento Quatro que apresentara com Edu Lobo a música Ponteio, no III Festival Música Brasileira de 1967. Mostrei a ele uma música que havia composto pouco antes da prisão, se não engano, uma parceria interrompida que fazia com o Carlos Dafé. 

(Por acaso, depois de tanto tempo, me encontrei dia desses, não tem nem um mês, com o Ricardo Vilas na UFRJ – ele, claro nem se lembrava mais de mim – por força de um ensejo para-acadêmico que talvez nos reúna (e e do tão pequenininho que este nosso mundo é.)

Habeas data 4

O MOITA citado na matéria ao lado, na verdade era um grupo de teatro do Méier, recém criado por influencia do MOCA (Movimento Cultural e Artístico) este sim a tal “célula comunista” segundo a polícia, de onde saímos todos os presos, que, por acaso, faziam teatro mesmo. Muito Brecht. Eu, por exemplo dirigia a música do grupo.

Éramos, portanto, subversivos bem novatos. Havíamos, os três presos naquele janeiro, feito apenas dois treinamentos com arma de fogo, no alto da Serra de Bangu (um deles com uma velha garrucha enferrujada)

O fato é que nunca soube, exatamente quanto tempo fiquei preso. Presumo que tenha sido entre um e quase dois anos. O único doc. oficial que consegui do fim desta saga foi o memorando desta mesma II Auditoria da Marinha comunicando à DOPS o arquivamento do meu processo em 1970 (no print)

Habeas Data 6Não tinha a menor ideia sobre a existência dessas matérias de jornal sobre o trâmites do meu processo. Me senti importante guerrilheiro, juro.

Estas matérias de 1970 provam, cabalmente que não me soltaram mesmo em julho coisíssima alguma. De abril de 1970, provavelmente (me lembro vagamente) prorrogaram a prisão preventiva por mais seis meses.

Devo ter sido solto, ali pelo final de 1970, cumprindo uma cadeia, como sempre imaginei, cerca de 2 anos.

Enviei todos estes docs. recentes à Brasília onde corre um interminável processo no MJ/Comissão de Anistia, visando a reparação dos crimes da ditadura cometidos contra este plácido ex pós adolescente.

Só me falta agora achar os prints das matérias imediatas à prisão, para o ex quse terrorista ficar, completamente famosão.

Habeas Data 8——-

As matérias gentilmente encontradas pela amiga Bete Scg – nem sei como agradecer – são das seguintes datas e jornais:

Diário de Notícias 12 de Janeiro de 1969
Tribuna da Imprensa, 5/6 de Julho 1969,
Diário da Tarde, Curitiba, 1 de Abril de 1970,
Jornal do Brasil, Rj, 1 de Abril de 1970,
Tribuna da Imprensa, RJ – 1 de Abril de 1970,

Spírito Santo

Junho 2015

O Crioulo e a língua do Crioulo. Lorenzo Dow Turner no Brasil.


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Lorenzo Dow Turner, brilhante etnolinguísta é, tardiamente ‘descoberto” pela academia (e pela imprensa) do Brasil.

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 Parece coisa de crioulo doido, só que não.

Passei boa parte do dia e a noite desta última sexta feira devorando informações sobre Lorenzo Dow Turner, etnolinguísta norte americano, praticamente desconhecido no Brasil até recentemente, descoberto entre outros pelo acadêmico francês Xavier Vatin, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Li – lemos – uma matéria esclarecedora sobre isto dia desses, cuja fonte, o instituto de linguística IPOL, foi reproduzida por alguns blogs, entre os quais o Geledés, especializado em ativismo e cultura negra.

Já havia tocado de leve na figura de Lorenzo Dow Turner , citando-o num post como um dos personagens do boom de estudos sobre os africanos no Brasil ocorrido em Salvador, Bahia no início da década de 1940, por injunção do Congresso Afro Brasileiro de 1937, coordenado por Edison Carneiro, entre outros. Leia o post do Titio neste link: “A Guerra, Academia e a impureza a Nagô“.

Me instiga nesta busca por dados mais completos sobre Dow Turner as relações, eventualmente existentes entre a invisibilidade brasileira de seu trabalho e o mesmo fenômeno ocorrido com o trabalho do etnólogo baiano Antônio Joaquim de Souza Carneiro (para os que desconhecem, pai de Edison Carneiro), vítima de uma intensa campanha de difamação e desqualificação intelectual, por parte de ilustres acadêmicos da mesma época, o incensado Arthur Ramos à frente.

O fato de Turner e Souza Carneiro serem ambos negros, intelectuais brilhantes e, do mesmo modo, terem tido suas pesquisas desprezadas e/ou ignoradas pela empáfia da academia tupiniquim da época, sempre me intrigou, intriga e tem me instigado a escrever vários inflamados artigos e posts (outros por certo se seguirão a este).

Recolhi neste intento, ontem, empolgado com a biografia de Lorenzo Dow Turner, que fui descobrindo pouco a pouco, a medida em que a noite avançava, muito material – muito mesmo – sobre as pesquisas e fontes de Lorenzo e já havia até começado um animado artigo sobre o etnolinguísta, quando, logo ao acordar, me deparo com esta excelente matéria no caderno Verso e Prosa de O Globo: “Gravações raras de linguísta americano revivem passado do candomblé

Bolívar Torres disse tudo!

Na verdade, a maioria destes dados, com exceção dos áudios, aos quais o jornalista de O Globo, sei lá como, teve acesso, já que publicou um exemplo (ouça a voz de Meninha do Gantois no link original da matéria, logo aí em cima) estão disponíveis a qualquer um no site do Arquivo de Musica Tradicional da Indiana University, fonte principal para quem gosta do tema.

Só achei impróprio na luminosa matéria de Bolívar Torres o uso da expressão “repatriada“, ao se referir á vinda de cópias do material de Turner para cá. Dispensável ufanismo.

Ora, afinal os registros de Lourenzo Dow Turner, como qualquer etnologia, são universais, os dados neles contidos, pertencem a toda a humanidade e só nos são tão desconhecidos até hoje, por conta talvez de nossa conhecida incúria acadêmica e o mal disfarçado pouco caso diante de tudo que se refere á presença de negros africanos por aqui.

(Lembrem-se que, ao que sabe, os pares de Lourenzo Turner na cidade de Salvador de 1941, notadamente Arthur Ramos e Edison Carneiro, testemunhas quase oculares das preciosas coletas de Turner, praticamente (salvo engano), nenhum uso ou citação fizeram sobre a existência deste precioso material, como se sabe, descoberto por acaso muito recentemente por um pesquisador estrangeiro.

E vejam, o mesmo ocorreu com as coletas do norte americano Stanley Stein em Vassouras, RJ, em 1949, descobertas do mesmo modo, recentemente e que continham preciosos registros de Jongo, Folias de Reis, Samba Rural e outras manifestações típicas dos ex escravos do Vale do Paraíba do Sul, RJ, solenemente ignoradas pelas sumidades do ramo até então)

Surpreendente e promissor, portanto, para os (supostos) modos algo racistas de ser desse grande jornal, que tão brilhante matéria seja publicada. Bons sinais também, devo admitir, a ascensão de jornalistas negros (as) (como Flavia de Oliveira, por exemplo) nas pautas recentes de O Globo – algumas marcadas até por um não dissimulado ativismo.

Estas coisas muito animam o Titio.

Brumas vão se dissipando e o que elas iam encobrindo, meio por  incúria ignorante, meio por tolo desprezo racista, começa a se revelar. O certo é que descartei meus escritos preliminares, bem genéricos, os que postaria hoje, por achar o assunto já bem claramente expresso na matéria de Bolívar Torres. Coloco ou reitero aqui apenas dados suplementares.

Outros dados, também preciosos tenho ainda aqui comigo, por elaborar, num novo artigo, para o deleite dos interessados. Os dados: Lorenzo Dow Turner – a matéria de O Globo já ressalta – é um dos precursores dos estudos linguísticos sobre o negro africano na Diáspora (sempre bom ressaltar as coletas em partituras, realizadas por Aires da Mata Machado Filho em 1928, em Diamantina, MG). 

Revisando a resenha sobre o acervo de Lorenzo Turner, aliás encontrei a inusitada citação “angolan funeral songs”, que corresponde, quase exatamente aos vissungos recolhidos por Aires da Mata em 1928. A resenha não enumera Minas Gerais no trajeto das viagens, mas sugere, fortemente a relação de Lorenzo Turner com os vissungos em 1940/41 numa coleta até hoje desconhecida, anterior, portanto,  a de Luiz Heitor Correa de Azevedo, esta em 1944.

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Africanos de Serra Leoa, presumo, ouvem divertidos a gravação de suas vozes por Lorenzo Dow Turner.

O material das coletas de Lorenzo Turner ao qual a matéria se refere, ao que parece, no caso do acervo do AMT da Indiana University, acabou não sendo considerado prioritário no âmbito geral do trabalho do etnolinguísta, talvez por esta razão não conste ainda do acervo da Indiana University a sua digitalização.

Presumo que estas digitalizações da Bahia já existam no Melville J. Herskovits Library of African Studies na Northwestern University Library ou outro acervo ao qual Bolívar Torres teve acesso (li qualquer coisa sobre o etnomusicólogo Carlos Sandroni estar trabalhando nisso aí.)

Sobressaíram mais, contudo as coletas de Turner na Costa Leste norte americana e coletas feitas no Caribe e na África ocidental. Aguardamos ansiosos.

Na resenha do AMF/UI sobre os arquivos de Turner diz-se o seguinte:

“Lorenzo Dow Turner Gullah Collection Fonte: Arquivos de Música Tradicional da Universidade de Indiana, EUA.

Registros de campo realizados por Lorenzo Dow Turner Na Georgia e Carolina do Sul e Sea Islands em 1932 e 1933, versando sobre o dialeto crioulo afro americano conhecido como “Gullah”, falado nesta região dos EUA. Formato: 154 discos de aluminio.

Lorenzo Dow Turner (1890-1972) foi um linguísta afro americano, que ficou conhecido como o pai dos estudos sobre o “Gullah” após publicação em 1949 dos africanismos contidos no dialeto Gullah, a primeira grande descrição científica deste dialeto.

Esta publicação da ATM/IU, (resenhada por este texto) um grande recurso para pesquisadores, contém diversas transcrições de gravações de Turner.

O trabalho de Lorenzo Dow Turner ajudou a construir uma fundação para estudos sobre a diáspora africana e contestou a noção que prevalecia há muito tempo de que a cultura afro-americano era simplesmente uma derivação da cultura norte americana branca. Turner mostrou que haviam retenções culturais significativas de culturas africanas entre os afro-americanos. Seu teabalho de campo adicional no Caribe, Brasil e África Ocidental fundamentou ainda mais estas ideias.

Os Arquivo de Música Tradicional da Indiana University contêm várias coleções de gravações etnográficas e linguísticas feitas por Turner, que foram gravadas em 836 discos de alumínio e laca. As gravações feitas nos verões de 1932 e 1933 compõem a coleção de discos de Gullah, compostas por 154 discos de alumínio e documentos de textos com cantos de trabalho, histórias, spirituals e contos de escravidão, recolhidos com 50 falantes de Gullah.

A ATM/IU possui também gravações das pesquisas de campo de Turner no Brasil (Salvador, Bahia em 1941: nota do Titio), África Ocidental, Louisiana do Sul, e várias outras partes dos Estados Unidos.

A coleção Gullah digital foi preservada como parte do Projeto Sound Directions Project.”

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Tema para muitas mangas. Me aguardem. Titio volta já

Spírito Santo  Junho 2015

Entre os números e a ideologia: a avaliação das UPPs em “Os donos do morro”


Blog da Boitempo

Marcos Barreira Maurílio Botelho_Os donos do morros_Numeros e ideologia[detalhe da capa do livro Os donos do morro, organizado por Ignacio Cano]

Por Marcos Barreira e Maurílio Lima Botelho.

O objetivo modesto da “avaliação exploratória” das UPPs proposto por Ignácio Cano e sua equipe de pesquisadores contrasta com o interesse que ela tem despertado na imprensa. Concluída em 2012, a pesquisa ganhou recentemente uma edição em livro.[1] Trata-se, segundo os autores, de uma análise “preliminar e incompleta” do “impacto inicial” das UPPs na criminalidade e na relação da polícia com os moradores das favelas ocupadas.[2] Há também uma preocupação em demarcar o campo metodológico, para dar ao tema um tratamento teórico que não se confunde com os debates midiáticos e as discussões políticas. Mais complicado é separar, no próprio objeto estudado, o que é midiático e o que é político. A “pacificação”, como se sabe, é um elemento central na produção de uma nova…

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Quem foi? Foi o Gurufin


Funeral-Balada. Quando morrer também quero um.

Afora a talvez excessiva euforia (quase derrubam o pobre do morto), ao contrário de alguns comentários de amigos angolanos, achei interessantíssimo e tudo a ver com a cultura africana que nos diz respeito este animado e nada mórbido vídeo.

 

>Fiquei Malaique</a>on Domingo,14 outubro de 2014</blockquote></div></div>

Aqui no Brasil sempre se soube e se acreditou que funerais de negros são e devem ser alegres e festivos, embora hoje em dia isto seja pouco usual. Historicamente, pensamos aqui que esta prática nos veio de Angola, da mesma forma e origem que foi, penso eu, para New Orleans.image

“Respeito”, “devoção”, “reverência” contrita, embora sejam sentimentos humanos naturais, com um tom de tristeza formal, compulsória é coisa de europeu católico, esta coisa de purgar culpas (deve ser culpa do frio da terrinha ou da alma colonial)
O certo é que existem no Brasil dois exemplos históricos candentes de funerais festivos:

Um são os antigos “Gurufins”, alegres eventos fúnebres (velórios) outrora praticados nas favelas e bairros de negros pobres do Rio, Minas Gerais, Bahia, etc. nos quais, com o morto presente, se canta, se bebe, se dança e se brinca, sendo a principal brincadeira um jogo de advinhas ligado a nome de peixes (entre os quais, o principal é o golfinho, dito em bom angolano “Gurufin”)

Outro são os ritos de enterrar defuntos praticados até bem recentemente na região de Diamantina, MG, nos quais também se canta (cantos chamados de “vissungos”) se bebe e se brinca, penso que as duas práticas vindas da mesma origem angolana.

A propósito, vejam como a gravura de Jean Baptiste Debret abaixo se assemelha, impressionantemente a esta festa fúnebre angolana do vídeo.

Spirito Santo

Maio 2015

Black 17th century. Na verdade barroca o ‘making of’ de nós mesmos


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Aleluia! Aleluia! A dissecação do nosso corpo brasileiro velho, redivivo, graças a Internet está nos livros.

Já disse e continuo a dizer cada vez mais animado: Ai de nós se não fosse a ‘Rede’ este espaço difuso, escorregadio e permeável, porém democrático, que nos governa como um Deus pirado, um Grande Irmão de teletela sem ideologia. Não fosse ela, a ‘Rede’ estaríamos ainda hoje aqui no Brasil na idade das trevas em certos temas que o nosso elitismo racista – que merece outros epítetos, cala-te boca – esconde aqui e ali, na sua pouca vergonha de fingir que há mais Europa na nossa alma do que outras plagas e latitudes mais morenas.

É vero!

É o que tenho descoberto aqui, fuçando por pura intuição e esperteza mais coisas holandesas (e inglesas) do que brasileiras, mais africanas do que portuguesas. Na contramão dos doutos de ocasião que ficam por aí arrotando saberes sem haveres e sem noção, naquela bolorenta prática de incensar cânones arcaicos.

Para ser claro: Fiquei cansado de ser enganado.

É mesmo muito impressionante – e alguns de vocês já tiveram até a chance de observar aqui mesmo – o enorme filão de informações relevantes que aparece diante de nossos olhos quando chutamos o pau da barraca das academicices.

Basta virarmos iconoclastas do pensamento discutível desta gente que elas, as novas fontes, nos aparecem, assim, profusamente como uma cachoeira de água limpa guardada há séculos e séculos em grutas do desconhecimento de nós mesmos, a que fomos relegados por ‘uns e outros’, que tendo a chave de certo saber pensam que sabem tudo e nos deixam trancados no desconhecimento, só porque entre os antepassados tivemos também negros ‘da Guiné’, ‘de Aruanda’, da África enfim, das selvas e das savanas de além mar.

Que mal haveria também sabermos tudo sobre este outro lado de onde viemos? Haveria mesmo algum mal nisto? Hum…

Que doença!

 (Antes algumas dicas bem primárias para quem estiver boiando na história:

…”as invasões holandesas (no caso do Brasil o domínio durou de 1637 a 1644) foram organizadas por uma empresa particular, a Companhia das Índias Ocidentais” (num prenúncio bem remoto do Capitalismo do século 20)

…”(Embora alguns românticos enfeitem o seu pavão)…”a Companhia das Índias Ocidentais também autorizava e apoiava o tráfico de escravos africanos. Esses escravos não eram trazidos apenas para o Brasil, mas também para o Caribe (inclusive a costa norte do a América do Sul) e para a então colônia inglesa da Virgínia, na América do Norte.”

“…”Pernambuco era para os holandeses um entreposto para o comércio de escravos. Num relatório enviado para a Companhia das Índias Ocidentais, o próprio Maurício de Nassau afirmava que no Brasil nada podia se fazer sem escravos. “

                           (Extraído de UOL Educação com grifos em parenteses do Titio)

A preciosa raridade de hoje – vou logo avisando – é impactante mesmo. Chocante até. Difícil nunca a termos visto por aí. Pelo grau de autenticidade da imagem, fotográfica quase – considerando inclusive o caráter remoto da época em que ela foi produzida – ouso dizer que é o mais importante documento sobre o assunto que já eu vi na vida.

O responsável de novo – neste caso em especial- é o inestimável parceiro virtual Daniel Jorge, estudante destas coisas que me repassa tudo que acha interessante de imagens sobre o tema. Nossa curiosa parceria começou assim, com ele comentando regularmente todos os posts que escrevi sobre este assunto, desde que passamos a fazer uso com mais intensidade – na falta de outros – de dados iconográficos.

“Faço pós-graduaçao em História da África e do Negro no Brasil na Universidade Candido Mendes, eu tenho milhares de fotos e gravuras sobre esse assunto. Se você quiser imagens relacionadas a África não-banto ou a escravidão no Brasil é só pedir.”

Grande Daniel!

Vamos lá em então. Instigadão como criança que sou, cavucando mais e mais na internet aprendi o seguinte que repasso para vocês:

(Em tempo me cabe ressaltar, contudo que o cenário da imagem não é o Brasil, exatamente, mas o Suriname (Guiana Holandesa). A ‘licença‘, contudo nem precisa ser classificada como ‘poética‘ porque a cena, protagonizada com toda certeza por africanos vindos de Angola (ou do que hoje é Angola, por suposto) poderia estar ocorrendo em qualquer parte da Diáspora latino americana.)

 “Esta pintura, que data de 1707, foi feita no Suriname por Dirk Valkenburg  que visitou a colônia holandesa entre 1706 e 1708. O trabalho, entre outros,  foi encomendado pelo comerciante de  Amsterdam Jonas Witsen, que possuía três fazendas no Suriname. As obras de Valkenburg são as primeiras pinturas conhecidas feitas na colônia holandesa.

“Valkenburg foi o talentoso filho de um professor. Ele foi educado pelo prefeito de Vollenhove, que pagou a sua formação e materiais de arte, em seguida, foi por dois anos aprendiz do pintor Jan Baptiste Weenix.

É veramente incredibile!

A representação naturalista da realidade é como se sabe uma característica da arte pictórica da renascença. Calcada em princípios filosóficos típicos da época, a escola pictórica a que se chamou ‘barroco‘ teve correntes muito distintas espalhadas pela Europa. Itália, Espanha, França, Portugal e Holanda. Se a gente pensar bem, estas escolas artísticas acabaram tendo as características mais evidentes da ideologia que motivava aquelas sociedades, claramente expressas na sua arte. ‘Papo-cabeça’ para entendidos, mas vejam a seguir onde quero chegar:

Os italianos chamavam este naturalismo de ‘Verismo’, associando o conceito, claramente a princípios da fidelidade à verdade, à representação objetiva, ao retrato fiel do que se via. ‘Veramente’, vamos combinar então – e este post provará isto – ao contrário da mentira (que um belo dia tropeça em si mesma e cai) a verdade tem mesmo pernas longas.

Estamos falando de história, da busca de ansiados traços e pistas sobre o passado de nós mesmos, certo? Pouco se escreveu, por exemplo, sobre o século 17 no Brasil. Façam comigo então esta simples pergunta analógica: Se os pintores ‘veristas’ holandeses não viessem para as Américas trazidos por Maurício de Nassau e se o ‘verismo’ característico deles não fosse impregnado daquele pragmatismo ideológico tão…calvinista, o que seria de nós e de nossa ansiada verdade histórica?

Comove e instiga este pensamento: Os quadros holandeses pintados nas Américas (a maioria no Brasil pernambucano) são filosoficamente mais humanistas que os das demais correntes. Se esforçam intensamente em representar africanos como seres humanos reais. É incrível, mas não se vê neles traço do nenhum daquele eurocentrismo renitente que marca a arte – e a historiografia – portuguesa, por exemplo, este colonialismo emocional arcaico que marca a cultura acadêmica brasileira até hoje. Isto em termos históricos faz toda a diferença em nossa pesquisa.

Alguém aí conhece algum quadro verista português ou’ brasileiro‘ do século 17? ‘Mentirista‘ eu conheço um montão.

Esta opinião, aliás, é mais um prato feito para os tolos românticos usarem quando quiserem afirmar que “seríamos um país melhor se tivéssemos sido colonizados pelos holandeses”. Besteira. Menos…menos. Colonizados não deveríamos ter sido por ninguém.

O exercício que proponho a vocês em suma é, portanto este mesmo: Seja um ‘verista’ holandês você também.

Além de simplesmente ler este post , de novo, exerça a observação acurada – fissurada mesmo, apaixonada – de todos os detalhes, até, e principalmente os mais prosaicos, com lupa mesmo, meticulosamente como um detetive de filme policial de TV.

Ocorreu-me também recortar o quadro – ‘esquartejá-lo’, melhor dizendo, para melhor analisá-lo como fazem os legistas de ocasião (que é no que eu sugiro que nos transformemos). Façam isto. Vão se surpreender maravilhados com as minúcias de ouro que encontrarão.

A incrível descontração dos escravos – sim, nem parece, mas eles são escravos! – totalmente envolvidos numa festa de arromba no que parece ser um fim de tarde, revela muita coisa sobre os hábitos destas pessoas, mas ao mesmo tempo instiga inquietantes questões e contradições.

”Ao voltar da Alemanha para a Holanda, Valkenburg trabalhou para William III no embelezamento do Palácio Real em Amsterdam. Logo depois decide aceitar uma oferta de Jonas Witsen um rico proprietário de terras no Suriname. Com 200 florins emprestados por Witsen (mediante três naturezas-mortas dadas como garantia) Dirk Valkenburg se fixa então no Suriname, exercendo funções administrativas e pintando a fauna, a flora e tipos humanos do Suriname, principalmente escravos.”

Daniel Jorge me informa, por exemplo que um dos livros que estudou ( Making of the new world slavery, the – from baroque to modern 1492-1800 ) afirma que ocorreu uma revolta e fuga de escravos neste mesmo local meses depois de Dirk Valkenburg pintar este seu impressionante quadro (cerca de 1706). Muito provavelmente  portanto, estes mesmos escravos são os kilombolas (‘maroons‘) que protagonizaram a fuga. Não é inquietante?

O mais incrível de tudo é que segundo estas fontes que encontrei, surpreendentemente “em 1706 a população rural do Suriname era composta apenas por três brancos – incluindo Dirk, o pintor –  e 148 escravos”, trabalhando em três fazendas (pelo menos uma delas na área onde Valkenburg fez este flagrante).

Dialogando sobre a pintura, Daniel também me sugeriu algo que eu já havia intuído assim que me deparei com a imagem: A cena pode representar com relativa perfeição o que seria um dia de festa num kilombo qualquer (como o nosso de Palmares, por exemplo, dominado pelos portugueses como se sabe, oficialmente, apenas 11 anos antes desta cena no Suriname). Eu faria a este respeito apenas pequenos reparos nas roupas dos kilombolas reais, os quais, por conta de gozarem de liberdade quase plena, deviam vestir roupas bem menos sumárias do que as dos personagens da tela do Suriname vestem.

Um reparo bobamente perfeccionista até porque, reparando melhor, o desenho meticuloso das tangas (na verdade ‘sungas‘ perfeitas) denota claramente que a peça do vestuário destes supostos escravos é sumária sim, mas de modo algum um dispositivo de vestuário displicente, mal desenhado (e caso vocês não saibam, a palavra ‘sunga‘ vem do verbo do kimbundo – ou seria do Umbundo? –  angolano  com o sentido de ‘levantar‘, ‘sustentar’.)

Retrato falado. Seção de ‘manjamento’ ao vivo.

Fiquei esquadrinhando em cada rosto, como disse quase fotograficamente pintado por Valkenburg, a cara quem sabe sisuda, daquele que seria o chefe do grupo, a face do tio ‘sekulo’ (quem sabe um conspirador), o rosto feliz da mulher do tio entre as poucas velhas ‘makotas’ que dançam, as tias de uns, as mulheres dos outros. Nenhum ‘wally‘, claro, mas quem seria ali o Zumbi deles?

E as casas detrás do rio, seriam dos escravos ou da fazenda? E aquela figura solitária que vem lá de longe, tão fora do clima, com água num cântaro? E o anão que dança? Que dança será aquela. Como parece o Jongo de Paraíba do Sul, Rio de Janeiro, gente!

E aquele batuqueiro mais claro, a quem uma diligente mulher – mãe, irmã, esposa, sei lá – dá na boca algo de comer, afim de que o batuque não cesse. Os tambores, aliás, me impressionaram mais que tudo. Sou um músico especialista destas coisas e sem modéstia posso afirmar, com absoluta certeza que Dirk viu um tambor bantu real.

Ampliei os tambores ao máximo, investiguei suas cordas trançadas, as cunhas de tração, a perfeita fisiologia (já tive um tambor idêntico a este). Posso afirmar também que a condição de escravo não é de modo algum propícia a que um músico-artesão consiga produzir tambores tão complexos. É preciso tempo, pesquisa e coleta de materiais, liberdade, ócio criativo, know how. A precisão descritiva, etnomusicológica de Valkenburg é mais um aspecto o que reforça credibilidade a todos os outros detalhes. Não por acaso penso eu,  é exatamente num destes tambores que ele insere a sua assinatura: ‘D.V”.

“…Ai que saudade da fazenda do sinhô!”

A descontração é tanta no ambiente (parece até que é ‘…domingo lá na casa do Vavá”) que a pergunta que não quer calar viram muitas outras, um turbilhão. Reparei emocionado, por exemplo, que um casal de jovens supostos escravos se beija, sofregamente como nós mesmos, quando apaixonados nos beijamos hoje em dia por aí.

É por estas e outras que eu e Daniel nos perguntamos: Será que os personagens são mesmo, ainda, escravos ou Valkenburg fez o quadro depois da tal fuga? Nenhuma semelhança daquele pátio com um cantão de fazenda. Não há senzala á vista. A construção atrás da cena é enorme. Nenhum sinal de ferramentas de trabalho, nenhum monjolo, nada. Que estranha fazenda libertária seria esta?

Afinal a fuga historiada no livro que Daniel leu, ocorreu apenas poucos meses depois. Quem pode garantir que o quadro não tenta representar, exatamente o cantão feliz no qual a pequena escravaria de 148 escravos de Jonas Witsen se homiziou?

Quem for são e com noção pode crer: Destas, muitas outras pistas virão. A cortina que lançaram (nem nos interessa mais saber porque) sobre este tema vai se abrindo como numa janela batida pelo vento.  A cortina é portuguesa e brasileira. A janela, holandesa.

Os textos escritos mentem ou rareiam? Usamos – como ‘sãotomés’ – as imagens que não sabem enganar. Se as imagens rarearem, usaremos as canções dos mais velhos, que cifram segredos milenares, as pulsações das batucadas imemoriais.

A mentira – vocês já sabem – tem perna curta. A verdade– como o rabo do cachorro – está sempre além de nós, sempre à frente e o sentido da vida é mesmo este aqui: persegui-la obsessivamente até a morte.

Então – já que outro jeito não há- vamos que vamos!

Spírito Santo

Julho 2011