“Jurema, Juremá!”

•20/10/2016 • 1 Comentário

imageJurema, Juremá!”

Um filme de Clementino Júnior

 

<p><a href=”https://vimeo.com/105652622″>JUREMA</a&gt; from <a href=”https://vimeo.com/user6168839″>Cineclube Atl&acirc;ntico Negro</a> on <a href=”https://vimeo.com”>Vimeo</a&gt;.</p>

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Um filme belo e, principalmente raro, já que o que mais nos diz respeito, o que mais perto do que realmente somos e que, paradoxalmente mais invisível havia se tornado, no filme, enfim, maravilhosamente se revelou.

Umbanda linda!

Isto, que os outros filmes e livros sobre religiões africanas convencionais não mostram, aquela nossa afro-diversidade tão manifesta, nossa Umbanda medicina da alma, muitas vezes anda invisível por conta inclusive de nós mesmos, prisioneiros que viramos do auto engano, da ilusão de sermos, enquanto negros inventados por brancos, aquilo do que nos vestiram e que nos mandaram ser.

Emocionante me reconhecer e lembrar o que para minha mãe e para minha assustada infância suburbana, era a verdadeira e macumbeira África ancestral, a real, a que jamais reconheci nos ritos afro-fake “oficiais” que me atiçaram para ver e que andam, cada vez mais se “oficializando” por aí.

“Pureza africana”…ah…Quem deu a esta gente o direito de decidir o que é ou não é puro, legítimo ou autêntico na alma dos descendentes de africanos do Brasil?

O gosto de chá de jurema – que nunca bebi – me veio a boca, só de ver o que vi

Valeu, Clementino Junior! Um filme de irmão.

Spirito Santo
Outubro 2016

A Mina de Diamantes e os escravos do Sr Vidigal

•13/07/2016 • 4 Comentários

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1868-MG. Mina de Diamantes do Senhor Vidigal no Rio Jequitinhonha

A grande panorâmica mostra o serviço de tiragem do cascalho resultante do processo de extração de diamantes, a esta época ainda realizado totalmente por meio de serviço braçal de centenas de escravos, vistos organizados em turmas, com os tradicionais “caborés” na cabeça.

A imagem (que tive o cuidado de separar em cortes para vocês) mostra detalhadamente toda a organização da mina, inclusive hierárquica, com os grupos controlados por capatazes, coordenadores de turmas, feitores e as turmas separadas segundo trechos determinados das escavações.

Destaque para o Sr Vidigal, o proprietário de tudo e de todos, sozinho em pose arrogante ao centro da imagem e um menino bem novo, provavelmente filho de Vidigal, certamente sendo orientado por um capataz nas artes de ser no futuro o herdeiro dono de tudo e de todos.

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Ao fundo, no entorno do grande buraco, se pode ver alguns miseráveis casebres, provavelmente usados como moradia pelos escravos e paióis de ferramentas.

Mina vidigal 45
Os escravos, majoritariamente oriundos de Angola, notadamente gente de etnia ovimbundo e kimbundo, trouxeram para a região, entre outras memórias caras à nossa história, técnicas ancestrais de mineração de ouro e diamantes (razão mais provável de sua escolha para os trabalhos  forçados nas minas do Brasil).

Trouxeram também uma cultura musical muito rica e original, inestimável por ser genuinamente africana, na qual se destacam os cantos de trabalho e para marcar práticas comunais e funções sociais outras, denominados de forma genérica de vissungos (“Ovisungo“, palavra difusa do idioma mbundo, com o sentido vernacular provável de “repertório“, conjunto de cantos, geralmente de natureza religiosa, raiz provável dos cantos de catupés, das festas de congado e da música específica de tanta outras práticas africanas aqui reconstituídas, espalhadas por todo o sudeste do país.

As conclusões vastas (embora ainda esparsas em certos pontos), da pesquisa que realizo desde a década de 1970 sobre o tema tão crucial à real compreensão deste aspecto de nossa cultura brasileira, têm linhas cabais que já indicam a necessidade de uma coleta de campo em Angola, origem efetiva dessas tradições que nos chegaram íntegras, (embora partidas circunstancialmente ao meio pela travessia do Atlântico), carecem nesta fase do apoio concreto e efetivo de instituições de pesquisa oficiais ou particulares.

Mas tarda a descoberta – cujas razões precisam ser também estudadas – por parte da universidade brasileira do caráter crucial dos estudos profundos desta cultura africana que mais profundamente nos formou, para enfim nos revelarmos como uma sociedade integrada por negros, não brancos e brancos, destinada à prosperidade pela força hoje reprimida de nossa formidável diversidade.

Aguardemos que a ignorância dos que têm o poder de corrigir isto, arrefeça.

Spirito Santo
Julho 2016

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Nota:

“Augusto Riedel (o fotógrafo) cobriu a viagem de suas altezas reais D.Pedro II, mais seus parentes, o Duque de Saxe e seu irmão D. Luís Philippe ao Interior do Brazil no ano 1868. Tratou-se de uma expedição que visitou várias cidades mineiras. Esta fotografia, tirada por Riedel, mostra uma mina no Rio Jequitinhonha, no trajeto de uma viagem que começa em Serro, Minas Gerais e segue para o Atlântico.”

“A Coleção Thereza Christina Maria, da qual estas fotos de Riedel fazem parte, é composta por 21.742 fotografias, reunidas pelo Imperador Pedro II e por ele doadas à Biblioteca Nacional do Brasil.”

Ultrassonografia da Mbira

•07/05/2016 • Deixe um comentário

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A Mbira das Almas
Mbira dza vadzimu
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Lamelofone é o nome dado a instrumentos musicais compostos por um conjunto de finas lâminas, geralmente metálicas (ou de bambu) tensionadas sobre alguma plataforma, geralmente de madeira e amplificadas por meio do contato com algum recipiente ressonador ou por meio de captadores de contato (microfones) eletrônicos.

Existem outros tipos de lamelofones com fisiologia um pouco diferente da descrita acima, um exemplo clássico é o idiofônico europeu “guimbarde” (uma lâmina de aço tensa num pequenino arco rígido) conhecido no Brasil também como “berimbau de boca”, um nome um tanto impróprio, pois o “berimbau” (“Hungo” em Angola) é, na verdade um arco musical.

São lamelofones também as gaitas de boca, as sanfonas, bandoneons e os acordeons em geral, Nesse caso as lâminas, de dimensões mínimas, oclusas num recipiente, são postas em vibração por meio do ar sob pressão, emitido por foles externos ou por nossos próprios pulmões.

Dito isso, podemos classificar a Mbira como um lamelofone manual clássico (“thumb piano” para os europeus), tocado com os polegares, geralmente, ou com a ajuda de um ou dois dedos indicadores, nos modelos mais sofisticados, entre os quais se destaca a Mbira. Importante ressaltar, que o nome Mbira não serve para denominar todos os lamelofones de seu tipo. Mbira denomina apenas e especialmente um lamelofone da cultura Shona, notadamente em sua localização no Zimbabwe, antiga Rodésia dos tempos coloniais.

Existem, portanto, na África, um sem número de lamelofones manuais, com outros nomes em línguas regionais e ligeiras variações fisiológicas. Entre esses encontramos o “Kissangi”, o “likembe” e o “mbuetete” angolanos, a “Kalimba”, também de origem Shona, mais ocorrente na África do Sul, além das “Sanzas” genéricas.

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O nome “Kalimba”, aliás (extraído do lamelofone tradicional “Karimba”, da mesma região), a partir dos anos 1990, tem servido para definir os lamelofones manuais no mundo inteiro, depois do sucesso obtido por um modelo semi industrializado produzido desde os anos 1970 por uma fábrica criada no gueto de Soweto, Johanesjburg por Andrew Tracey, filho do grande etnomusicólogo Hugh Tracey (o mais destacado pesquisador de lamelofones africanos de todos os tempos).

Foi Andrew quem registrou a marca “Kalimba”, rotulada em cada peça vendida mundo a fora, assim popularizando o nome, tornado genérico a partir daí.

O nome genérico mais correto para se definir todos os lamelofones africanos, contudo, talvez seja “Sanza”, extraído do nome de um dos muitos modelos de lamelofones da região sul da África.

Tudo isto exposto, não podemos escapar da constatação definitiva, de que a Mbira Shona é o mais complexo tipo de Sanza de toda a África. Com alguma certeza, a julgar, exatamente por sua complexidade fisiológica, a Mbira talvez seja o mais antigo instrumento de sua espécie, ancestral direto do mais antigo lamelofone criado pelo homem, ressaltando-se que nunca se conseguiu registrar a existência de lamelofones manuais ou sanzas, fora da África.

A história oral do povo Shona, nos dá conta do uso comum da Mbira desde tempos muito antigos, remontando ao século 10. Esta época bate com o período das grande migrações do norte para o sul do continente africano, que originaram o ramo etnolinguístico Bantu, contexto onde se insere o povo Shona e todos os povos da África central para baixo, um contexto cultural muito amplo e diverso que engloba desde os Ibo, povo do sul da Nigéria atual, os Bakongo do Sul do Congo e do norte de Angola, descendo até o extremo sul do continente com os Shosa da África so sul, passando, evidentemente pelos Shona, que também habitam mais para o leste do Zimbabwe, entrando por Moçambique a dentro.

É bastante provável que, ainda nos reportando à sua complexidade fisiológica e musical, a origem da Mbira se estenda para época bem mais remota, originária de algum povo em estágio tecnológico mais “avançado” que o dos caçadores-coletores da floresta do Mayombe, por exemplo, algum povo da idade do ferro, já que a fisiologia da Mbira exige expertise tecnológico como a fusão de ligas metálicas e a manipulação do metal em forjas.

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A hipótese mais provável que estamos sugerindo, indica a origem da Mbira ao contexto de uma civilização da área sudanesa mais à nordeste, Kemet (Egito), algo assim, muitos mil anos antes de nós, tendo o complexo know how necessário à criação do instrumento evoluído com o tempo, e migrado junto com os povos que desceram para o sul da África, se instalando na região do Zimbabwe, de onde o instrumento teria se espalhado pelo continente.

As grandes ruínas de muralhas existentes no Zimbabwe, com efeito, são testemunhas candentes de que em época imemorial, um povo em estágio tecnológico avançado, se instalou ali, vindo não se sabe ainda de onde, sendo lícito se admitir que veio do norte.

A Mbira é, pois, mais do que um instrumento musical, um documento arqueológico cheio de informações sobre a história do sul africano. Nada como um tempo após o outro.

O Papel da Mbira na Cultura Shona

A Mbira (nome tanto do instrumento quanto a música) é tocada há mais de mil anos em algumas tribos do povo Shona, como vimos, um grupo que constitui a grande maioria da população do Zimbabwe, estendendo-se até Moçambique.

A Mbira permeia todos os aspectos da cultura Shona, tanto sagrados quanto profanos. Sua função mais importante é a de ser uma espécie de aparelho de comunicação com os espíritos. A Mbira é usada para entrar em contato tanto com os antepassados falecidos, quanto com os responsáveis tribais, em todas as noites cerimoniais (Mapira).

A Mbira é, pois, um instrumento de comunicação direta com os espíritos (“vadzimu“), a saber espíritos familiares (“midzimu“), espíritos do clã (“Mhondoro“) ou chefes falecidos com espíritos poderosos (“makombwe“). Nessa relação comunicativa dos humanos com os espíritos, os Shona obtêm orientações sobre assuntos de família, comunitários e maneiras de lidar com noções físicas, concretas, como o tempo e a saúde.

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A Mbira é necessária para trazer chuva durante a seca, para que a chuva pare durante as inundações, para trazer nuvens quando as culturas estão queimados pelo sol. A Mbira é usada também para afugentar espíritos nocivos e para curar doenças com ou sem um n’ganga (médico tradicional, adivinho). A Mbira está incluída em celebrações de todos os tipos, incluindo casamentos, a posse de novos chefes, e, mais recentemente, até eventos do governo, como o Dia da Independência e as conferências internacionais.

A Mbira também é necessária em cerimônias de morte, e é tocada por uma semana após a morte de um chefe antes que a comunidade seja informada de seu falecimento. Na cerimônia Guva, aproximadamente um ano após a morte física de uma pessoa, a Mbira é usada para acolher o espírito do indivíduo de volta à comunidade.

Em séculos anteriores, músicos da corte tocavam a Mbira para reis Shona e seus adivinhos. Embora o Mbira tenha sido, originalmente usada em um número limitado de áreas Shona, hoje ela é popular em todo o país.

A Mbira é muito admirada pelas as qualidades gerais que pode oferecer, tais como: mente calma e força diante das agruras da vida. A Mbira Shona também está, rapidamente se tornando conhecida em todo o mundo, devido a excursões de músicos tradicionais e bandas de Mbiras elétricas zimbabuenses que incluem o instrumento em suas performances.

Durante o período colonial no Zimbabwe (quando o país era conhecido como Rodésia), os missionários espalharam a crença de que mbira era do mau, devido à sua associação com espíritos ancestrais e daí a popularidade da Mbira no Zimbabwe diminuiu.

Desde a independência em 1980, contudo, a Mbira tem desfrutado de um grande ressurgimento de sua popularidade, e agora é considerada o instrumento nacional do Zimbabwe. Os músicos tradicionais lembram às suas comunidades que a Mbira é tocada para incentivar os espíritos a protegem a terra e o povo. Nem a Mbira, nem os espíritos devem ser negligenciadis se os zimbabuanos desejam desfrutar de saúde e tranquilidade.

A Mbira: O instrumento em si e sua fisiologia.

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O tipo de Mbira mostrado na maioria dessas fotos, característico do povo Shona, consiste em geral em 22 a 28 teclas de metal (existem Mbiras com até 56 lâminas) montado sobre uma “gwariva” (prancha de madeira de lei) extraída da árvore mubvamaropa (Pterocarpus angolensis). Embora as lâminas de metal fossem originalmente fundidas, diretamente de pedras de minério de ferro, agora elas podem ser feitas de molas de sofás, raios de bicicleta, molas do assento de automóvel, e outros materiais de aço reciclados ou novos.

(Importante se observar que as lâminas das Mbiras clássicas ou mais tradicionais, são feitas ainda com as pontas das lâminas achatadas na forja e retemperadas, a partir de finos vergalhões quadrangulares (cerca de 2 mm de lado) de ferro ou aço de baixa têmpera. A baixa têmpera do material exige lâminas com mais espessura, afim de poderem resistir à tração exigida para que as pontas das lâminas vibrem.

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Esta característica fisiológica torna os instrumentos tradicionais mais pesados, mais duros de tocar e com o volume mais tênue. Nos dias de hoje já se pode encontrar Mbiras com lâminas mais finas, de aço rápido de alta têmpera, notando-se que nesses casos há uma ligeira perda de harmônicos agudos, que dão um timbre cristalino às Mbiras tradicionais.

A Mbira é, geralmente colocada dentro de um grande ressonador de cabaça (denominado “Deze“). O mutsigo (um pino ou ponta de madeira) é utilizado para fixar a Mbira em segurança dentro do deze. A Mbira tradicional é tocada com os polegares nas notas médias e graves, flexionando-as para baixo e com o indicador da mão direita, nas notas mais agudas, flexionando as lâminas de baixo para cima.

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Anéis de metal são inseridos num fio de arame fixado numa placa de metal, presa na extremidade inferior do tampo da Mbira. Os anéis vibram em simpatia com a vibração das notas, acrescentando um zumbido, um efeito timbrístico ao instrumento, semelhante a um silvo cintilante e macio.

Tampas de garrafas ou conchas também são montadas no Deze (ressonador) para aumentar o o zumbido, que é considerado, como vimos, uma parte essencial do timbre da Mbira, necessário para limpar a mente de maus pensamentos e preocupações, para que a música Mbira possa preencher a consciência dos artistas e dos ouvintes.

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O zumbido acrescenta também profundidade e contexto para os tons claros das lâminas da Mbira, e podem ser ouvidos como vozes sussurrantes, cantando, batendo, como o vento ou a chuva. O zumbido também aumenta o volume da Mbira.

Muitas afinações ou “modos” diferentes de Mbira são utilizadas, de acordo com a preferência pessoal de cada músico. A única exigência é que, tradicionalmente, dois instrumentos tocados juntos estejam afinados em sintonia (no mesmo tom). Se uma mesma sequência de teclas é reproduzida, a música é considerada como sendo a mesma peça Mbira, mesmo que se toque em instrumentos com a ordem dos intervalos completamente diferente.

A Mbira tem qualidades muito superiores às Sanzas mais conhecidas. A principal dessas qualidades é a maior extensão da escala (três ou até quatro gamas) com um bom ganho em graves, por conta do excelente recurso da camada extra de baixos em oitavas (um degrau abaixo dos médios) principal diferença fisiológica diante das sanzas mais comuns, cuja escala é sempre linear, além das Mbiras oferecerem, por esta mesma razão, a possibilidade de se produzir acordes mais ricos, com até quatro notas.

As sete afinações da Mbira

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Continue lendo ‘Ultrassonografia da Mbira’

Rheinlandbastarde. Os bastardos da Renânia

•22/04/2016 • Deixe um comentário

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Soldados franceses no campo de prisioneiros de guerra de Luckenwalde

 Uma outra ponta da mesma meada black alemã

(Leia, fazendo os descontos de praxe)

“Bastardos de Renania é a denominação usada na Alemanha nazista para classificar crianças descendentes da união entre homens africanos e mulheres alemãs. De acordo às teorias racistas dos nazistas estas crianças representavam uma minoria inferior e recomendava-se que fossem objeto de uma campanha de esterilização para evitar que, com o tempo, se misturassem com a população geral e que seus genes se disseminassem entre os membros da sociedade, supostamente ariana da Alemanha.

A denominação “Bastardos de Renania” aparece numa época imediatamente posterior à Primeira Guerra Mundial, quando, como parte dos tratados que a Alemanha teve que assinar como nação derrotada no conflito, as tropas francesas ocuparam a região ao oeste do Rio Rin Renania (Rheinland).

Alguns destes militares franceses eram negros já que proviam de colonias francesas na África. Muitos casaram-se com mulheres alemãs e outros simplesmente, mesmo sem se casar, acabaram por gerar filhos naturalmente mestiços, de onde vem a estigmatizante classificação de “Bastardos”.

Até hoje a história dos negros que viviam na Alemanha antes da subida dos nazistas ao poder permanece um tanto desconhecida. Naquela época, não era apenas através da cultura que os negros se sobressaíam, mas também por meio de sua simples presença nas ruas: imigrantes do Caribe, africanos, norte-americanos negros que haviam fugido da crise econômica nos EUA para a Alemanha, diplomatas, imigrantes das colônias e marinheiros. Peter Martin, da Fundação de Incentivo à Cultura e Ciência, de Hamburgo, estima em 10 mil o número de pessoas ‘de cor’ residentes na Alemanha naquela época.

Eram negros e negras que haviam construído suas vidas na Alemanha, se casado com alemães e alemãs e com eles gerado filhos – os chamados Rheinlandbastarde (bastardos da Renânia). Muitos deles foram mais tarde esterilizados à força pelos nazistas. A máquina de propaganda nazista atacava as pessoas de cor que eram rotuladas como uma perigosa peste. E assim elas foram sumindo da vida pública. O que restou foi uma montanha de papéis da burocracia. As pessoas simplesmente desapareceram, segundo Martin, que há anos dedica-se à história da minoria negra na Europa.

O denuncismo, sobretudo através da imprensa, estava na ordem do dia. Cartazes apresentavam os negros como um perigo para as mulheres alemãs. O que aconteceu com a maioria deles, de 1933 a 1945, é difícil de saber. Muitos conseguiram deixar o país a tempo. Outros foram enviados para os campos de concentração. Não poucos serviram de cobaias para pesquisas dos nazistas.

Talvez tenham sido centenas, possivelmente milhares os que morreram. Em apenas 15 a 20 casos os historiadores encontraram provas de assassinato por nazistas, ressalta Martin, que conseguiu montar a atual mostra graças a donativos financeiros de Jan Philipp Reemtsma, realizador da polêmica exposição Crimes da Wehrmacht.”

(Pensando bem, excetuando-se os exageros do contexto nazista – a esterilização dos crioulinhos ‘bastardos’, por exemplo – me digam: Parece ou não parece um pouco com o que ocorre com os pretos do Brasil?)

Das Afrika Schau
Mais uma ponta da negra meada alemã

“Quando questionados sobre os negros no Terceiro Reich, os alemães costuma m falar sobre a mostra Afrika Schau (‘Show africano’). Em seu livro Hitler’s Black Victims (As vítimas negras de Hitler, em tradução literal), o pesquisador norte-americano Clarence Lusane descreve Afrika Schau como uma mostra itinerante iniciada em 1936.

Os responsáveis pelo “show” eram Juliette Tipner, cuja mãe era da Libéria, e seu marido alemão Adolph Hillerkus. O objetivo do “espetáculo” era exibir a cultura africana na Alemanha.

Em 1940, a Afrika Schau foi retomada pela SS e por Joseph Goebbels, que “esperava que isso fosse útil não só para propaganda e fins ideológicos, mas também como forma de reunir todos os negros do país sob um mesmo espaço” , escreve Lusane (sabe-se lá já pensando em uma espécie de solução final também para este grupo: Nota do autor).

Para seus participantes, o Afrika Schau tornou-se muito mais um meio de sobrevivência para negros na Alemanha nazista.”

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Cartaz deste ‘Wölkerschau’ (‘show dos povos’) africano assumidamente colonialista sugere que o modelo ‘Afrika Schau’ surgiu bem antes de 1936

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O tema como se vê é vasto e complexo, além de inédito. Você pode enveredar por qualquer uma de suas trilhas, puxar qualquer uma destas meadas que vai encontrar, certamente fatos novos e mais surpreendentes ainda.

(Só como palpite me ocorreu agora mesmo, por exemplo que o modelo de espetáculo artístico criado com o Afrika Schau, quando inserido no contexto da ampla propaganda colonialista da segunda metade da década de 1930, pode ter alguma ligação fortuita com o surgimento nos anos 40 e 50 de uma série de grupos artísticos similares, promovendo shows de variedades, algo voltados para a difusão de certa cultura tradicional africana (ou afro-descendente) oficial, ‘chapa branca’, circulando pela Europa e outras partes do mundo nos anos posteriores.

Entre estes grupos talvez sucedâneos podemos assim de relance, citar o balé do Senegal e outros tantos balés nacionais africanos (no âmbito das colônias européias na África) e, até mesmo o nosso velho e bom grupo ‘Brasiliana’, de Haroldo Costa que, fundado com toda certeza com intenções nada colonialistas (e muito menos nazistas) , pode ter sido impulsionado ou inspirado pela grande recorrência do modelo Afrika Schau tão famoso nas décadas anteriores.

É sempre assim. Sabem como é: Depois que alguma natureza – mesmo a mais insana – o cria, ninguém sabe bem no que um bicho vai dar.

Panos e mais panos para mangas de colocar racistas em sérios palpos de aranha.

Spirito Santo
Maio 2010

 
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