MANOEL KONGO AMK Resenha


 


História, Teatro e Turismo cultural/Uma experiência

A História
Com o esgotamento do ouro nas Minas Gerais, a economia brasileira se deslocou para o Vale do Paraíba do Sul, no Rio de Janeiro. O posterior esplendor da região, com seu eixo localizado na Vila de Paty do Alferes e, logo em seguida, na Vila de Vassouras, alavancou o desenvolvimento do Brasil por quase todo o século 19.

O signo principal deste ciclo de desenvolvimento era o café, mercadoria com enorme importância no mercado internacional do período, do qual o Brasil foi, durante muito tempo, o maior produtor.
Brasil e sua economia dependiam, no entanto, de outra mercadoria, ainda mais essencial do que o café; A força de trabalho do escravo africano.

Ambos negros, escravo e café, fizeram algumas das maiores fortunas do mundo da época, fortunas estas que, concentradas quase todas na região do Vale do Paraíba do Sul, geraram a sociedade dos chamados ‘barões do café’, nababesca e prepotente, assentada numa estrutura social sem povo, composta, basicamente, por aristocratas e escravos.

Sequestrados de Angola, Congo, Moçambique e trazidos a partir, principalmente, dos portos de Luanda e Benguela, para serem vendidos no Mercado do Valongo, próximo ao porto do Rio de Janeiro, os africanos que, depois de longa jornada a pé, chegavam à plantações de café do Vale do Paraíba, acabaram se tornando, não só um elemento essencial para a economia local mas também, como se pôde concluir mais tarde, num elemento capaz de ameaçar a própria segurança física daquela sociedade.

A Trama

Em 6 de novembro de 1838, o africano Camilo Sapateiro, escravo da fazenda Freguesia foi morto a tiros, quando se dirigia, clandestinamente, à fazenda Maravilha, ambas pertencentes ao maior proprietário de escravos e principal autoridade da comarca: o Capitão-Mor Manoel Francisco Xavier. O assassino, um capataz da fazenda, quase foi
linchado pelos escravos.

O que pretendia fazer Camilo Sapateiro na fazenda vizinha quando foi morto? Teria sido a sua morte, pelo capataz (um incidente algo corriqueiro na rotina escravista), a verdadeira razão da insurreição de escravos de tão grandes proporções, que se seguiu?
De roldão, os escravos rebelados, divididos em dois grupos, saquearam as duas fazendas do Capitão-Mor e fugiram para a mata próxima. Num ponto, ao que tudo indica, previamente combinando desta mata, um dos grupos se encontrou com um número indeterminado de escravos de outras fazendas, além das duas de propriedade do Capitão-Mor.

A imediata adesão de escravos de outras fazendas chama, fortemente, a atenção para a possibilidade de ter havido algum tipo de articulação prévia entre os rebelados.

O fato é que, um grande grupo se embrenha na mata de Santa Catarina rumo a alto da Serra da Estrela, montando um arranchamento para pernoite, á cada fim de tarde do trajeto da fuga.

Perseguida por tropas da Guarda Nacional e homens recrutados pelo juiz de paz da comarca, uma parte deste grupo é atacada e dominada, quando ainda dormia, no quarto dia de fuga. Tropas do Exército Imperial, convocadas às pressas, comandadas pelo então Capitão Luiz Alves de Lima e Silva, futuro Duque de Caxias, só chegam na área do conflito quando tudo já havia terminado.

No grupo de escravos derrotados, está o suposto chefe da insurreição, denominado ‘Rei’, Manoel Congo, ferreiro da Fazenda Maravilha e uma mulher, denominada ‘Rainha’, a costureira Marianna Crioula, escrava de confiança da senhora dos escravos das fazendas Maravilha e Freguesia, Dona Elisa Xavier.

A um escravo morto na refrega, mas, não identificado nos autos, é atribuída a função de ‘Vice-rei’ da insurreição e do futuro suposto quilombo. Este escravo pode ser identificado, nas entrelinhas dos autos, como sendo o africano de nação Munhambane (moçambicano) Epifânio Moçambique.

Um número indeterminado de negros do grupo atacado consegue se embrenhar na mata, serra acima e dele não se tem mais notícias. Não se tem notícias também do segundo grupo, comandado por um escravo chamado João Angola que, embora não estando presente no ponto de encontro com o ‘Rei’, nem constando no rol dos presos no momento do ataque, foi visto no dia anterior prestes a assaltar a fábrica de pólvora da região, desaparecendo por outro caminho, rumo á Serra do Couto, próxima à Serra a Estrela, aparentemente, o destino final de todos os rebelados.

Pode-se, por estas evidências, entre outras surgidas na pesquisa, supor que os relatos que dão conta da existência de um quilombo na região, jamais desbaratado, são factíveis.

A despeito destas evidências, a maioria dos proprietários alegou que seus escravos retornaram, espontaneamente, à suas fazendas, mas, não existem registros seguros dando conta de quantos, efetivamente, fugiram e retornaram. A alegação livrava os fazendeiros das pesadas custas processuais, caso tivessem negros de sua propriedade (e responsabilidade) arrolados como rebeldes.

O peso total destas custas processuais acabou recaindo sobre o Capitão-Mor Manoel Francisco Xavier, que, depois dos escravos presos e condenados, passa a ser a principal vítima dos incidentes.

De um total de cerca de trezentos escravos fugidos e rebelados, apenas vinte e três (todos pertencentes a Manoel Francisco Xavier) são aprisionados (sete haviam sido mortos na refrega). Destes vinte e três presos, sete são mulheres (é significativo, do ponto de vista logístico, o fato deste grupo de presos, a maioria feridos na refrega, ser aquele onde estavam a maioria das mulheres e, provavelmente, os homens mais velhos e as crianças).

Cerca de dezesseis presos deste grupo são, efetivamente, julgados. A maioria é condenada, com uma única exceção: o escravo Adão Benguela que, apesar de estar tão envolvido quanto todos os outros nos conflitos, é estranhamente absolvido.

O suposto ‘Rei’ Manoel Congo’, é condenado à forca e executado em 1839 em Vassouras.

Os Antecedentes

A observação acurada – e crítica – de fatos descritos em documentos da época, principalmente os autos do processo montado na ocasião, contendo os depoimentos dos escravos presos, pequenos indícios ou omissões aparentemente deliberadas, contradições entre os depoimentos, etc., formam a base principal utilizada para a elaboração deste texto teatral.

Formam também a base de dados da pesquisa, textos esparsos, de outras fontes e um raro e inestimável relato, ao vivo, extraído pelo autor de uma entrevista (veja neste link) por ele realizada em 1973, com uma ex-escrava de uma das fazendas da região, que ali viveu, alguns anos após os incidentes descritos pelos autos.

Com efeito, coisas muito inusitadas ocorriam naquela região nesta época de grande efervescência social.

Segundo dados descritos na crônica da cidade de Vassouras, escrito por Ignacio Raposo ( a partir do livro de Alexandre Joaquim de Siqueira);um ano antes da fundação da vila, ocorrida em 1833, um grupo de proprietários criava a Sociedade Promotora da Civilização e da Indústria, de verniz positivista, e dedicada, entre outras coisas, à formação de artífices escravos, como mão de obra especializada, com o fim de possibilitar a manutenção de equipamentos, até então, feita por engenheiros vindos da Inglaterra e até – suprema ousadia – iniciar talvez a própria substituição da importação de máquinas e ferramentas agrícolas que, oriundas da Europa, obviamente com a mão de obra dos escravos-operários especializados, formados pela SCPI, passariam a ser fabricadas por aqui mesmo.

Ferreiros e marceneiros eram as principais especialidades indispensáveis à incrível proposta desenvolvimentista da SCPI. Os artífices a serem treinados, seriam recrutados, por seus proprietários, entre os seus escravos mais hábeis e inteligentes.

A mais incrível das coincidências era que o ofício de ferreiro foi, ainda nesta época, a partir de uma tradição africana que remonta o século 10 (segundo alguns relatos, talvez até um pouco antes disto), uma ocupação exclusiva de reis e nobres, um status de poder hierárquico superior na cultura dos Kimbundo e Ovimbundo, grupos étnicos angolanos que, em grande maioria, contribuíram com escravos para as plantações de café do Vale do Paraíba do Sul.

Sabe-se pelas mesmas fontes (Ignacio Raposo) que, um ano depois (por volta de 1834), uma curiosa sociedade secreta, composta por negros escravos e libertos, com uma elaborada estrutura, havia surgido em Vassouras, quatro anos, portanto, antes da insurreição de Manoel Congo. Esta ‘insidiosa’ organização, segundo foi descrito por esta mesma crônica da Cidade de vassouras, andava ruminando um levante que pretendia libertar todos os escravos da área.

Somente nove anos depois, ou seja, em 1847, a tal organização secreta pode ser desbaratada. Os registros policiais da ocasião, afirmaram que ela se autodenominava Elbanda (Embanda, mais propriamente talvez, por ser a expressão traduzida como “Curandeirismo” ou ” Medicina” a qual, quando acrescida do prefixo “Ki” – Kimbanda – significa o mesmo que “Médico” no idioma de origem (kimbundo) podendo se traduzir Embanda como “medicina” nesse contexto de seita ou sociedade secreta) e era formada por núcleos ou células clandestinas, dirigidas, obrigatoriamente, por escravos ferreiros e marceneiros, chamados pelos outros escravos de ‘Tata” (ou ‘Pa’ ) Korongo (um tipo de cegonha africana, de hábitos migratórios, numa alusão figurada)

Também curiosamente, pesquisas bem recentes sobre a cultura dos Kimbundo, nos dão conta que era por demais comum na sociedade angolana do século 19, a proliferação de seitas e sociedades secretas, por diversas motivações, prática que pode ter sido seguida pelos escravos de Vassouras.

A seita em questão, devotada à Santo Antônio, evocava, fortemente possível inspiração na remota seita existente no Reino do Kongo na virada do século 17 para o 18, criada e liderada por uma sacerdotisa chamada Kimpa Nvita (ou Vita), morta em 1702 numa fogueira da Inquisição. Importante frisar que a seita de Kimpa Nvita pregava uma guerra de libertação do reino contra os colonialistas portugueses.

Esta emocionante reconstituição nos dá conta, enfim, de uma malha de estranhas relações, interesses e contradições, bastante incomuns na história oficial do escravismo brasileiro, estabelecidas entre proprietários e escravos, escravos entre si, além de proprietários, do mesmo modo entre si. Um impressionante conflito humano sacudindo os alicerces daquela sociedade imperial, questionando o seu anacronismo. Matéria pura para teatro. Drama. 

Gargalhada- Fonograma odeon 108.077


Gargalhada- Fonograma odeon 108.077

Carlos Palombini

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fonograma odeon 108.077
Carlos Palombini
Universidade Federal de Minas Gerais – cpalombini@gmail.com
resumo: Um exame do fonograma da Casa Edison Gargalhada (pega na chaleira), anunciado na gravação como “cançoneta por Eduardo das Neves”, inicialmente expõe a origem da expressão “pegar na chaleira”. A análise dos critérios de catalogação do Instituto Moreira Salles expõe contradições internas e incongruências. A literatura hesitando na determinação da data de gravação, recorre-se às datas dos eventos narrados em fonogramas registrados em sucessão para propor uma aproximação. Provavelmente datada de 1906 ou 1907, o fonograma 108.077 aparece como um “lundu” em catálogos comerciais de 1915 a 1926. Vagalume clamou para si a autoria da letra, sugerindo que a música houvesse sido improvisada por Neves. Jota Efegê observou todavia que, freqüentemente, Neves deixou-se conduzir por músicas alheias na confecção de seus versos. Palavras-chave: cançoneta, lundu, fonografia, Casa Edison.

  1. gargalhada
    “Pega na chaleira, cançoneta por Eduardo das Neves para a Casa Edison, Rio de Janeiro”: inicia-se assim um fonograma cuja audição me intriga desde o início dos anos sessenta, quando, aos sete anos de idade, recebi a chapa de goma-laca 1 em cujo selo lê-se, em caracteres prata sobre fundo alaranjado: “International Talking Machine Co m.b.H., Odeon Record, Gargalhada, Eduardo das Neves, No. 108.077, Impresso especialmente para Casa Edison”. Segue-se, na voz de Neves, cançoneta cuja letra, já era enigmática no início dos anos sessenta.
    De acordo com o Dicionário da língua portuguesa contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa (2001), a expressão “pegar na chaleira” – um brasileirismo – significa “bajular, adular, lisonjear”. De acordo com o Dicionário brasileiro da língua portuguesa o substantivo masculino e feminino “chaleira” quer dizer “bajulador” na gíria: “O significado provém de os bajuladores do chefe político gaúcho Pinheiro Machado, que conservava no Rio de Janeiro o hábito de tomar chimarrão, estarem sempre atentos para lhe servirem a chaleira de água fervente para o preparo da infusão de mate” (SILVA et al. 1975). Ainda segundo o Dicionário brasileiro, “pegar no bico da chaleira” significa “adular, bajular, lisonjear os poderosos”.

  2. No catálogo online do Instituo Moreira Salles (IMS), a Gargalhada aparece em quatro fichas do acervo Humberto Franceschi e duas do acervo José Ramos Tinhorão, correspondendo, possivelmente, a chapas distintas 2 Todas as fichas dão “Gargalhada (pega na chaleira)” como “título da música”. Este título é o mesmo que consta na Discografia brasileira 79 RPM (SANTOS et al. 1982, p. 84) e corresponde à amalgamação do título no selo da chapa com o título anunciado no início do fonograma. 3 Todas as fichas creditam “Neves, Eduardo das” como “intérpretes(s)”. Todas registram a “Odeon” como “gravadora”. Todas indicam, como “data de gravação” e “data de lançamento”, o período 1907–1912, correspondente à estimativa da Discografia brasileira para a totalidade da série 108.000 (SANTOS et al. 1982, p. 115). Todavia, no que diz respeito às entradas “gênero musical”, “número do álbum”, “lado” e “rotações”, há discrepâncias, não só entre as fichas dos acervos Franceschi e Tinhorão como também, internamente, entre as quatro fichas do acervo Franceschi. (As duas fichas do acervo Tinhorão são idênticas.)
    Anais do XX Congresso da ANPPOM 2010 1344

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  1. datação
    De acordo com FRANCESCHI (2002, p. 207), a fórmula usada para anunciar a música no fonograma 108.077, concluindo-se com “para a Casa Edison, Rio de Janeiro”, sem o endereço, vigorou de 1904 a 1912. A tabela abaixo mostra as datações estimativas da Discografia brasileira para as séries Odeon imediatamente anteriores, imediatamente posteriores ou parcialmente concomitantes à 108.000.
    série Odeon data estimada diâmetro

  2. 40.000–40.777 1904–1907 27 cm 108.000–108.843 1907–1912 27 cm
    10.000–10.412 4

  3. 70.000–70.084 1908–1912 35 cm5 70.500–70.515 1908–1912 30 cm 137.000–137.107 1912–1914 25 cm 120.000–120.999 1912–1915 27 cm
    Tab.1: Datações estimativas de SANTOS et al. (1982) para as séries imediatamente anteriores, imediatamente posteriores ou parcialmente concomitantes à Odeon 108.000.
  4. O “Livro de Registro de Gravações da Casa Edison” (reproduzido em FRANCESCHI 2002) fornece “série”, 6 “Nos”, 7 “gênero”, “autores” e “artistas”, além da data e local das tomadas de todos os fonogramas das séries 120.000 e 137.000, bem como dos fonogramas 10.327–10.413 da série 10.000, com as datas estendendo-se de 5 de setembro de 1911 a 15 de abril de 1915, no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Porto Alegre. 8 Não há, no Livro, registro de nenhuma tomada para a série 108.000. Assim, se a Discografia brasileira está correta ao supor que a série 120.000 se inicie com o final da 108.000 (SANTOS et al. 1982, p. 115 e 169), as tomadas para a série 108.000 devem ter-se encerrado no final de agosto ou início de setembro de 1911. 9

  5. No interior da série 108.000, os fonogramas 108.070–108.085 constituem a primeira sucessão contínua de interpretações de Eduardo das Neves (Tab.2), com quinze itens identificados na Discografia brasileira (SANTOS et al. 1984, p. 84–85). A série 108.000 estendendo-se de janeiro de 1907 a agosto de 1911 e constando de 844 fonogramas, obtém-se uma média de quinze fonogramas por mês. Esta aproximação situaria os fonogramas de número 108.070 a 108.074 nos últimos dez dias de maio de 1907 e os de número 108.075 a 108.085 nos vinte primeiros dias de junho do mesmo ano.
    1907–1913 19 cm
    fonograma título 10
    108.070 O Soldado que perdeu a parada
    108.071 E Eu nada
    108.072 Bolim-bolacho
    108.073 Marocas
    108.074 Iaiazinha
    108.075 Pai João
    108.076 Isto é bom
    108.077 Gargalhada (pega na chaleira)
    108.078 O Amolador
    108.079 O Aquidaban
    108.080 República de estudantes 13
    108.081 Rolo em um bonde 14
    108.082 Seu Gouveia
    108.083
    108.084 Estranguladores do Rio
    108.085 Balancê
    gênero matriz
    lundu XR-603 lundu
    lundu
    lundu 11
    lundu
    lundu 12 XR-608 lundu XR-607 lundu XR-610 lundu XR-611 canção XR-612 cômico XR-613 cômico XR-614 canção XR-615
    canção
    canção XR-618
    Com
    violão de E. das N. violão de E. das N. violão de E. das N. violão de E. das N. violão de E. das N. violão de E. das N. violão de E. das N. Violão
    violão de E. das N.
    Violão
    viol., M. Pinheiro, Nozinho viol., M. Pinheiro, outros violão, outros
    violão de E. das N.
    Tab.2: Primeira sucessão ininterrupta de fonogramas de
    viol. de E. das N. [e coro] 15 Eduardo das Neves na série 108.000.
    Anais do XX Congresso da ANPPOM 2010
    1345

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sob a rubrica “modinhas, canções e lundus” (p.31); em 1920, sob a rubrica “modinhas, canções e lundus” (p.26); em 1924, sob a rubrica “série 108.000” (p.31); e em 1926, sob a rubrica “por Eduardo das Neves” (p.6).
Em meu exemplar, o selo do Balancê é o de miolo azul e borda roxa, com os caracteres em dourado e a bandeira esvoaçante do Brasil no hemisfério superior. Se Franceschi tem razão em dizer que este selo foi aplicado em “reprensagens comemorativas da inauguração da fábrica Odeon do Rio de Janeiro” em dezembro de 1912 21 e que “somente gravações anteriores a 1912 […] foram reprensadas e receberam etiqueta especial […] num curto período de 1913” 22 (FRANCESCHI 2002, p. 204), é razoável admitir que a Gargalhada tenha estado à venda no ano de 1913, não aparecendo nos catálogos disponíveis deste ano e do seguinte, justamente os mais próximos à data provável de gravação, porque, para os anos de 1913 e 1914, não dispomos dos catálogos gerais, mas apenas de suplementos. O sucesso posterior da chapa sugere que o cilindro A Gargalhada, independentemente de seu conteúdo, possa ter estado à venda por quatro anos desde seu anúncio no Catalogo de 1902. Não é improvável que, a partir da data de gravação do fonograma 108.077, cilindro e chapa tenham figurado nos catálogos perdidos, até que a segunda desbancasse a primeira, um fato consumado no catálogo Discos Odeon 1915 Casa Murano. A Gargalhada deve, portanto, ter sido comercializada por cerca de um quarto de século, ininterruptamente.

  1. autoria
    No prefácio de seu Trovador da malandragem, por volta de 1903, Eduardo das Neves pergunta: “Por que motivo duvidaes, isto é, não acreditais, quando apparece qualquer ‘chôro’, qualquer composição minha, que agrada, que cahe no gôsto do publico, e é decorada, repetida, cantada por toda a gente, e em toda a parte – desde nobres salões, até pelas esquinas, em horas mortas da noite?!” (NEVES 1926, p. 3). 23 João do Rio conclui, em 1908, que, ao contrário do Bahiano, “Dudú […] canta apenas as suas obras” (BARRETO 1910, p. 306). E Vagalume afirma, em 1933, que escreveu, a pedido de Neves, a letra de “Pega na chaleira” (GUIMARÃES 1978, p. 68).
    Jota Efegê observou, em 1965, que “houve um punhado de canções (lundus, modinhas, chulas, etc.) que o teve como criador ou principal intérprete. Muitas delas, por isto, ficaram consignadas na biografia do bardo do povo como sendo de sua própria e exclusiva autoria, quando, apenas, houve feitura de versos conduzidos por músicas alheias” (GOMES 1978, p. 159).
    notas
    1 Sobre a composição da massa do disco, vide FRANCESCHI (1984, p. 107–108; 2002, p. 212).
    2 Ou a transferências distintas de uma mesma chapa: o site do IMS não fornece esclarecimentos.
    3 Segundo FRANCESCHI (2002, p. 207), nas gravações cantadas da Casa Edison o anúncio era feito pelo próprio intérprete. O
    sotaque português do anunciante aparentemente o contradiz, no caso do fonograma 108.077.
    4 O “Livro de Registros de Gravações da Casa Edison”, reproduzido por FRANCESCHI (2002) identifica o fonograma 10.413, desconhecido de SANTOS et al. (1982, p. 80–81).
    5 Baseados em catálogos da época, SANTOS et al. (1982, p. 121) afirmam que os discos de 35 centímetros permitiam gravações de até seis minutos de duração. Esta informação é confirmada: em 1920: catalogo geral (p.73); no Catalogo geral de discos duplos Odeon de 1924 (p.84); no Catalogo geral de discos duplos Odeon de 1926 (p.47). Em todos eles, a segunda faixa da chapa 70.083, Ballada do Guarany, na voz da soprano M. Pereira, é anunciada como durando seis minutos. O fato desta chapa não aparecer nos catálogos de 1915, 1918 e 1919, todos eles contendo gravações da série 70.000–70.084, pode levantar suspeitas quanto à data de 1912, fornecida por SANTOS et al. (1982, p. 121) como limite final da série.
    Anais do XX Congresso da ANPPOM 2010 1347

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6 O termo “série” corresponde ali ao que SANTOS et al. (1982) designam por “matriz”, e não ao que estes, FRANCESCHI (1984 e 2002) e o presente autor entendem pelo termo.
7 No “Livro de Registros”, “Nos” corresponde ao que SANTOS et al. (1982) designam por “número do disco” e o IMS por “nú- mero do álbum”, mas que prefiro chamar de “número de fonograma”.
8 Sobre gravação e prensagem em Porto Alegre, vide VEDANA (2006) e FRANCESCHI (1984, p. 89–92; 2002, p. 177–191).
9 Não é impossível que a hipótese de Santos não se confirme e que as tomadas para a série 108.000 tenham-se registrado em
outro livro. Por outro lado, SANTOS et al. (1982, p. 106–114) dão dezembro de 1912 como “data do lançamento” de trinta e três dos fonogramas da série 108.000i. A possibilidade do decurso de um período considerável de tempo entre a data de gravação e lançamento deve ser levada em conta.
10 Os títulos abaixo estão disponíveis, por streaming, no site do IMS.
11 De acordo com a ficha do fonograma do acervo Tinhorão (o único no qual esta gravação está disponível em linha), um “lundu alegre”.
12 Para VASCONCELOS (1977, p. 284), um “lundu alegre”.
13 Anunciado no fonograma como “uma noite agitada numa república de estudantes”.
14 Para VASCONCELOS (1977, p. 332), Rolo em um bonde é uma “confusão cômica”, um “sketch certamente improvisado, duran-
te o qual Mário Pinheiro canta uma modinha de um autor desconhecido”.
15 A referência ao acompanhamento de coro não é fornecida por SANTOS et al. (1982, p. 115), mas aparece nos catálogos de 1915, 1918, 1919, 1920, 1924 e 1926. Segundo VASCONCELOS (1977, p. 284), o coro é constituído por Mário Pinheiro e Nozinho (Carlos Vasques). O fonograma anuncia: “cantado e acompanhado ao violão por Eduardo das Neves e coro feito por Mário e Sinhozinho”.
16 A letra de O Aquidabã aparece em VASCONCELOS (1985, p. 42–43) e LISBOA (1996, p. 183).
17 Sobre “o crime do ano”, vide PINHEIRO (1906), BARBOSA (1923, p. 97–102), ALENCAR (1979, p. 100), XAVIER (2004),
FERLIM (2006, p. 76–77) e PORTO (2009, p. 176–202).
18 TINHORÃO (1976, p. 40–41) vai mais longe, atribuindo a Eduardo das Neves o papel de fundador da tradição, viva na primeira década do século XX, de cantar sempre o drama ocorrido na cidade, um caso escandaloso ou um acontecimento político.
19 É verdade que o crime da Rua da Carioca ainda era assunto em dezembro de 1907, quando Carletto e Rocca foram levados a julgamento. “Justiça, senhores da terra, justiça mais uma vez, trinta anos não é demais para quem tal crime fez”, canta Eduardo das Neves, seja solicitando a pena máxima, antes do julgamento, seja endossando-a, depois.
20 Sobre a produção e a comercialização de cilindros no Brasil, vide FRANCESCHI (1984, p. 11–52; 2002, p. 15–59).
21 Fred Figner recebeu a prova da primeira chapa inteiramente produzida no Brasil em 21 de dezembro de 1912, embora não se
saiba ao certo que fonogramas ela contivesse (FRANCESCHI 2002, p. 203).
22 Em Registro sonoro por meios mecânicos no Brasil, Franceschi afirma que o selo Bandeira Brasileira aplicou-se a discos “pren- sados entre 1908 e 1912” (FRANCESCHI 1984, p. 75).
23 Citado por João do Rio em 1908, com variações, na coletânea A alma encantada das ruas (BARRETO 1910, p. 305–306).
Referências bibliográficas
ACADEMIA DAS CIÊNCIAS DE LISBOA, Instituto de Lexicologia e Lexicografia da. Dicionário da língua portuguesa contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa. Lisboa: Verbo, 2001, 2 vv.
ALBIN, Ricardo Cravo. “Eduardo das Neves”. Dicionário Cravo Albin da música popular brasileira. Rio de Janeiro: Paracatu, 2006, p. 526 e 1032–1033.
ALENCAR, Edigar. O carnaval carioca através da música. 3a ed. corrigida, ampliada e atualizada. Rio de Janeiro: Francisco Alves, INL e MEC, 1979.
BARBOSA, Orestes. Ban-ban-ban!. Rio de Janeiro: Benjamim Costallat e Miccolis, 1923.
BARRETO, João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos (João do Rio). A alma encantadora das ruas. 2a ed. Rio
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FERLIM, Uliana Dias Campos. “A polifonia das modinhas: diversidade e tensões musicais no Rio de Janeiro na passagem do século XIX ao XX”. Campinas: Unicamp, dissertação de mestrado em História, 2006.
FRANCESCHI, Humberto Moraes. Entrevista telefônica concedida ao autor, 23 e 24 de maio e 14 de julho, 2008.
Anais do XX Congresso da ANPPOM 2010 1348

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. A Casa Edison e seu tempo. Rio de Janeiro: Sarapuí, 2002 (com 4 CDs de áudio e 5 de imagem). . Registro sonoro por meios mecânicos no Brasil. Rio de Janeiro: Studio HMF, 1984.
GOMES, João Ferreira (Jota Efegê). “Eduardo da Neves, da cançoneta, da seresta e também do carnaval”. O Jornal, 28 de novembro, 1966. Citado de Figuras e coisas da música popular brasileira. Rio de Janeiro: MEC- Funarte, 1978, v. 1, p. 158–160.
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LISBOA Júnior, Luiz Américo. “Eduardo da Neves, nosso primeiro cronista musical”. Jornal Agora (Itabuna), 21–27 de abril, 1996. Citado de Oitenta e um temas da música popular brasileira. Itabuna: Agora, 2000, p. 182–189.
NEVES, Eduardo das. Mysterios do violão: grandioso e extraordinario repertorio de modinhas brasileiras. Rio de Janeiro: Quaresma, 1905.

 O trovador da malandragem. 2a ed. Rio de Janeiro: Quaresma, 1926 [c. 1903]. PINHEIRO, Abílio Soares. Os estranguladores do Rio ou o crime da Rua da Carioca. Rio de Janeiro: Miotto, 1906. PORTO, Ana Gomes. “Novelas sangrentas: literatura de crime no Brasil (1870-1920)”. Campinas: Unicamp, tese de doutorado em História, 2009. SANTOS, Alcino; Gracio BARBALHO, Jairo SEVERIANO, Miguel Ângelo AZEVEDO (Nirez). Discografia brasileira 78 RPM: 1902–1964. Rio de Janeiro: Funarte, 1982, v. 1. SEUBERT, David. “Cylinder Recordings: a Primer”. Cylinder Preservation and Digitization Project. Universidade da Califórnia, Santa Bárbara, 2008. Online: . Acesso em 15 de junho de 2008. SILVA, Adalberto Prado e; M. B. LOURENÇO Filho, Francisco MARINS, Theodoro Henrique MAURER Jr, José CURADO, Ary Tupynambá PEIREIRA e Aleixo ROSUT (orgs). Dicionário brasileiro da língua portuguesa. São Paulo: Mirador, 1975. TINHORÃO, José Ramos. Música popular: os sons que vêm da rua. Rio de Janeiro: Edições Tinhorão, 1976. VASCONCELOS, Ary. A nova música da República Velha. Rio de Janeiro: edição independente, 1985. . Panorama da música popular brasileira na belle époque. Rio de Janeiro: Sant’Anna, 1977. __. Panorama da música popular brasileira. São Paulo: Martins, 1964, v. 1.
VEDANA, Hardy. A Elétrica e os Discos Gaúcho. Porto Alegre: edição do autor, 2006.
XAVIER, Valêncio. “Os estranguladores da Fé em Deus: os crimes de Rocca e Carletto”. Crimes à moda antiga. São Paulo: Publifolha, 2004, p. 6–25.
Anais do XX Congresso da ANPPOM 2010 1349

Musikfabrik e múltiplas linguagens


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Musikfabrik e múltiplas linguagens

Tema: Palestra para Canal Futura realizada em Teresópolis 02/Julho 2010 

(O texto expresso na verdade pela exibição do filme do projeto (veja o link) e por um curto e delicioso papo com a platéia de educadores negros renidos pela Futura, obviamente, não foi este mas para efeito de uma eventual publicação foi este o texto que enviei para os organizadores)

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Sob o curioso nome de Musikfabrik (ou ‘Fábrica Livre de Construção Musical e Outros  Estranhos Produtos do Som’) o músico e arte educador Spírito Santo idealizou em 1995 na Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) uma oficina de arte que acabou virando um curso, o qual por conta do sucesso obtido, se transformou por fim numa espécie de projeto de extensão de fato, com inovadoras e especiais características, que já dura 15 anos (na verdade 20 anos neste ano Nota de 2015)

Aprendendo e ensinando, especializando-se na pesquisa e no exercício da linguagem musical aplicada como ferramenta pedagógica adaptada às mais variadas finalidades e circunstâncias o Musikfabrik a partir de então vem capacitando músicos, artesãos, musicoterapeutas, atores de teatro e circenses, arte educadores, educadores sociais, professores e diversos outros tipos de profissionais interessados na busca de novas maneiras de se inserir a música na educação, no trabalho, na inclusão de crianças e jovens, na vida social e cotidiana enfim. O método aplicado é a parte mais inusitada da pedagogia do Musikfabrik:

Aprende-se a partir do contato físico com a música, ou seja, todos os conteúdos (física  elementar – acústica, mecânica, etc. – além de história, etnologia, organologia, etc.) são  repassados durante o processo de criação e/ou recriação artesanal de instrumentos de música das mais variadas origens (alguns até mesmo inventados pelos alunos).

A partir de 1999 o projeto decidiu formar com alunos um grupo musical representativo de seu trabalho, mas que tivesse um perfil realmente artístico e não exatamente apenas ‘institucional’ como as bandas de projetos sociais mais convencionais.

Alexandre Gabeira formando do curso em Comunicação Social na Uerj em 2001, escolheu o Musikfabrik e as suas características acima descritas, como tema para o seu trabalho de fim de fim do curso de comunicação social na própria Uerj, flagrando um período especial desta fase do projeto.

Fábrica Livre de Construção Musical e outros estranhos Produtos do Som

Entreveros nas entrelinhas

Em 2001, mesmo ano da realização deste filme, a Uerj por intermédio de sua Sub-Reitoria de Extensão e Cultura (SR3) decidiu admitir o Musikfabrik oficialmente como um projeto de extensão de direito. Os detalhes inusitados desta experiência introduzida na universidade em 1995, iniciada, porém muito tempo antes, em meados da já distante década de 1970, pelo Grupo Musical Vissungo (do qual, como vimos o Musikfabrik é o legítimo sucessor) é especialmente emblemática neste momento quando, no ensejo da aplicação da lei 10.639 se admite enfim discutir, com alguma profundidade a intrínseca relação existente entre Cultura, Educação e exclusão sociorracial no Brasil.

Como se pode observar mais atentamente agora, grande parte dos enormes desafios estruturais que a Educação brasileira enfrenta hoje estão de algum modo relacionados à maneira como lidamos com questões ligadas à qualidade de nosso programas educacionais. Neste particular o papel de metodologias e tecnologias baseadas na inovação tem sido bastante ressaltado.

Há que se ressaltar do mesmo modo, contudo que no bojo destas inovações, o papel de dispositivos de linguagem ‘informais’, extraídos de nossa própria cultura – exatamente aqueles que foram, por tanto tempo, desqualificados e rejeitados pela academia convencional – deverão daqui para frente se tornar cruciais – ou mesmo decisivos.

A questão é antiga: Cultura e Educação são – ou deveriam ser – instancias aparentemente afins, uma quase reflexo da outra num curioso vice-versa, contudo, estranhamente (numa espécie de conflito de linguagem, falha de comunicação, um ‘problema de relação’, diríamos), costumam estar, completamente dissociadas entre si na prática.

O caso do Musikfabrik é particularmente significativo neste aspecto.

Até então uma vaga proposta, ainda sem nome na ocasião, com algum viés ‘construtivista’ (um modismo teórico na década de 1990), em condições normais e a princípio, o Musikfabrik poderia ter sido visto no momento de sua inserção na universidade, como uma ação cultural curiosa e inusitada, cheia de novidades interessantes no que diz respeito à oxigenação, ao lançamento de alguma luz sobre problemas socio-pedagógicos importantes, no campo do que se chama hoje de ‘múltiplas linguagens’ (na época falava-se em ‘múltiplas inteligências’, o que pode significar a mesma coisa). Uma experiência típica de extensão universitária propriamente dita (identificada, aliás com o espírito das correntes acadêmicas mais avançadas da época).

No entanto, mesmo observando a eventual índole progressista destas correntes acadêmicas na época, considerando-se que, nem mesmo a questão das Cotas Raciais na Educação havia ainda sido realmente posta em discussão, o fato é que, por razões de algum modo previsíveis, a proposta Musikfabrik não foi assimilada facilmente como uma inovação em si, não sendo nem mesmo associada, de algum modo à Arte Educação ou a questões educacionais mais recorrentes.

Para escapar desta armadilha do contexto a proposta tinha, portanto que contornar importantes e complicados entreveros:

Pra começar, num ambiente tipicamente elitista, o currículo da experiência carregava em si o ‘estigma’ de ser uma ação calcada na cultura ‘tradicional’ brasileira (categoria na qual, de forma reducionista, se classifica o artesanato e a música ‘popular’) e – o que é pior – profundamente voltada para a pesquisa e a difusão da chamada ‘Cultura Afro-Brasileira (aspecto que, só agora com uma lei específica o Estado brasileiro começa a admitir como sendo fundamental à evolução de nossa Educação)

Estes dois fatores, à luz da citada arrogância elitista e dos preconceitos ainda hoje típicos de certos setores de nossa academia, desqualificariam todas as eventuais qualidades metodológicas inovadoras da proposta, lançando-a no limbo, no gueto onde se costuma isolar manifestações culturais deste tipo: O lugar do negro, o ‘folclore’ residual e ‘primitivo’, o ‘objeto’ – e nunca o ‘sujeito’- de estudo’.

Foram estas algumas das sutis entrelinhas que envolveram o processo de inserção do Musikfabrik na Uerj de sua implantação acidental em 1995 até a sua aceitação como projeto de extensão de fato em 2001.

Musikfabrik graduando

Para começar, as experiências anteriores informavam que a entrada de uma proposta de semelhantes características num ambiente universitário, naturalmente – embora sub-repticiamente – racista, por mais hospitaleira que estivesse sendo a acolhida, atrairia algum tipo de reticência. Na verdade os preconceitos eram inúmeros e tiveram que ser meticulosamente identificados e avaliados um a um, passo a passo.

O desafio de ser assimilado por um contexto (a universidade) que era, ao mesmo tempo, hospitaleiro e hostil (receptivo ao conteúdo original e moderno da proposta, porém reticente quanto a determinados aspectos de sua estética, de sua forma, foi ironicamente o fator mais positivo, o mais estimulante de todo o processo, aquele que abriu de vez o caminho para que a experiência escapasse das travas do meio.

(É bastante provável que no curso da aplicação da lei 10.639, no ensejo da identificação de metodologias adequadas à presente realidade, as novas demandas político pedagógicas surgidas no processo tenham que se valer de experiências culturais menos convencionais como neste caso.)

O primeiro ‘insight’ – político estratégico pode-se dizer – do Musikfabrik foi de início não deixar transparecer, explicitamente, nada de ‘tradicional’, ‘popular’ ou ‘afro-negro’ na denominação do projeto. Vem daí, desta tática sutil a escolha do germânico e sonoro nome ‘Musikfabrik’ (fábrica de música).

Vem daí também a escolha de um dístico ambiguamente  ‘construtivista’ (‘fabrica livre de construção musical e outros estranhos produtos do som’), ao contrário de outras enfáticas – e neste caso ingênuas porque panfletárias – declarações de militância sócio racial.

Cuidava-se também neste caso, de ocultar um aspecto que, curiosamente também causava certa ojeriza na clientela universitária típica: A relaçao intrínseca da metodologia com técnicas de trabalho manual, artesanal, funções normalmente associadas ao trabalho de serviçais subalternos – negros no caso – o vício traumático e renitente da aversão ao trabalho físico, (‘desqualificado‘, ‘inferior‘) em relação ao trabalho intelectual (‘especializado’, ‘superior’), um resquício evidente de nossas relações sociais no tempo da escravidão.

Sem alterar em nada a ideologia e os seus conteúdos originais, a proposta ganhou assim trânsito mais fluente no ambiente universitário, já que passava a ser identificada – pelo menos no nome – como uma experiência culturalista não radical ou mesmo despolitizada, no sentido sócio racial do termo.

Musikfabrik doutorando

O segundo ‘insight’, mais político ainda, foi o empenho na arregimentação, no âmbito da própria universidade, de aliados estratégicos com os quais as características metodológicas mais importantes da proposta, puderam ser traduzidas, debatidas, minimamente sistematizadas e fundamentadas, de modo a poderem ser de algum modo compreendidas e reconhecidas do ponto de vista destes agentes acadêmicos (a rigor afinados com o pensamento hegemônico da academia convencional). Tentava-se cumprir deste modo a vocação precípua de um projeto de extensão de fato para conquistar território, reconhecimento e legitimidade nos campi.

É neste aspecto em especial que o caráter linguístico da estratégia do Musikfabrik pode ser mais bem compreendido, ressaltando-se que, sendo este fator estritamente metodológico, o que vale para uma linguagem – no caso a linguagem musical – guardadas as devidas proporções, vale rigorosamente para todas as outras. As analogias entre esta experiência linguística e outras experiências de arte educação, por estas constatações, podem ser bastante diretas.

Música – e mais estritamente – Música Afro Brasileira (marca indelével da proposta do Grupo Vissungo, antecessor do Musikfabrik) percebemos durante o processo, que era um conceito tratado de forma muito demarcada, quase dicotomizada em relação a outros tipos de ‘música’, quando saía do campo da Cultura (território supostamente livre da criação humana) para o da Educação (território restrito do saber ali constituído como norma culta).

Assim, os conservatórios e as faculdades de música de forma radical, passavam – e na verdade, segundo vários relatos de alunos universitários do Musikfabrik, ainda passam – a formular os seus programas e metodologias, a partir de um conceito de Música inteiramente decalcado, imitado, ‘macaqueado’ no que se convencionou julgar como sendo música… na Europa . Uma abordagem aculturada, elitista no mal sentido, envergonhada portanto e bastante impertinente.

Não é fortuito se observar também que isto ocorre, quase que da mesma maneira, com outras linguagens não sacralizadas, como a Literatura Oral e a Medicina Tradicional, por exemplo sugerindo que o ensejo de se aplicar conteúdos relacionados à cultura negra em nossa educação convencional, de forma sistematizada como a lei 10.639 preconiza, exigirá que muito esforço sócio pedagógico seja empreendido ainda.

E esta pode ser uma das chaves da questão porque a cultura – aqui entendida como sendo um sistema de linguagens interconectáveis – diz respeito, rigorosamente a saberes construídos e praticados por todas as pessoas, todos os seres humanos, independente de sua condição ‘racial’, social, ou qualquer outra instância ou classificação artificialmente construída. Tudo no âmbito vasto da cultura humana pode ser, portanto apreendido, sistematizado e posteriormente transformado em Ciência ou Norma Culta.

(É curioso – embora providencial – que no caso da referida lei 10.639, uma constatação tão óbvia como esta, tenha que ser implementada por força de um dispositivo federal.)

Quando nos damos conta de que na formação cultural da sociedade brasileira, inúmeras outras culturas que não as da Europa compareceram em grande – e, às vezes, imensa medida como no caso da cultura africana – o problema do anacronismo dos nossos processos de ensino-aprendizagem aparece mais nítido ainda: A dicotomia criada – um falso dilema, convenhamos entre Sabedoria Tradicional e Educação Formal – o foi como instrumento de exclusão social, uma forma de, ao desqualificar a cultura de uns (no caso a maioria) tornar hegemônica a cultura de outros (no caso a minoria mandante). Um problema colonial, anacrônico demais para uma sociedade que se pretende emergente, moderna.

Os detalhes deste inusitado processo aqui sucintamente descrito, sugerindo maneiras diferentes – e menos maniqueístas ou simplistas – de se abordar e transmitir as bases elementares de alguns conteúdos educacionais mais recorrentes (história, física elementar, educação ambiental, etc) por meio de metodologias tradicionais ou não, extraídas da herança cultural africana trazida para o Brasil, é enfim a modesta contribuição que o Musikfabrik pode dar a este debate sobre múltiplas linguagens aplicadas na educação.

“Cuide dos sentidos que os sons cuidarão de si mesmos”
(‘Duquesa em ‘Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll)

SpíritoSanto
(Músico e arte educador)
02 de Julho de 2002/ notas em Julho de 2010

Luzes no Vudu: As barbies antigas e o alfinete da razão


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1914. Vudúnsi (sacerdotisas) da Casa das Minas, Maranhão, Brasil.

Luis Nicolau Parés é para mim uma das principais referências em todas as minhas reflexões sobre a tensão existente no campo dos Estudos do Negro entre o que chamo de “Reducionismo Nagô” e as demais representações religiosas (ou mesmo culturais em geral) que, embora quantitativamente majoritárias, amargam expedientes de ocultação e apagamento inexplicáveis, tanto por parte da Academia convencional quanto nas pautas e demandas da militância negra mais intelectualizada ou articulada.

Muito me animou agora, lendo esta entrevista de Parés, perceber que em muitos aspectos – um tanto coincidentemente – ando aplicando metodologias muito semelhantes às dele, Parés, metodologias estas, por alguma razão, ainda muito subestimadas entre estudiosos brasileiros em geral, apesar de suas evidentes e promissoras qualidades epistemológicas, seu dom de “Fiat Lux”. 

Como água mole em pedra dura, contudo, continuo recomendando. E aconselhando: Junte-se aos bons.

No caso da imagem que ilustra este post, por exemplo, sugiro um olhar bem agudo nos aspectos mais inquietantes expressos nela como, por exemplo, as bonecas brancas, e os cabelos das sacerdotisas e as pedras nas cabeças (seriam mesmo predras?) um dos muitos detalhes, curiosamente ocultos no âmbito do Candomblé oficial, supostamente contido por elementos oriundos do Daomé/ Benin (ditos “jêje” por aqui), mas como bem se vê na imagem, misteriosamente ocultados, se tornando tão estranhos para nós, quase como se nem fossem daqui.

Mas são. E talvez não devam ser chamados de Candomblé, porque na real são VUDU, aspectos irmãos daqueles contidos no VUDU do Haiti, um monte de aspectos de nossa Diáspora africana mal iluminada, exatamente por quem devia acender sobre eles todos as luzes e faróis.

(Que tal refletir sobre isto, heim?)

A história oral dessas eletrizantes belezas apagadas do Vudu maranhense, expressas nesta foto, podem ser lidos e, razoavelmente compreendidos nesse link:

(fonte da imagem – site em manutenção: (http://www.museuafro.ufma.br/

Leia também – tenho aqui na minha estante – o maior clássico sobre o tema, o livro “Casa das Minas”, de Nunes Pereira

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Vamos então a parte da entrevista que mais revela a minha maneira de cavucar a terra (veja a entrevista completa: http://bahiacomhistoria.ba.gov.br/?entrevista=nicolau-pares)

“Luis Nicolau Parés é doutor em Antropologia da Religião pela Universidade de Londres e professor associado no Departamento de Antropologia da Universidade Federal da Bahia. É autor de A formação do Candomblé: história e ritual da nação jeje na Bahia (Editora da Unicamp, 2006) e acaba de lançar seu mais novo livro pela Companhia das Letras: O rei, o pai e a morte. A religião vodum na antiga Costa dos Escravos na África Ocidenta

“Quais os problemas metodológicos envolvidos no uso de fontes europeias para estudar a religião africana? Como superar esses problemas?

ParésDiscuto essa questão fundamental na introdução. Na ausência de registros escritos pelos próprios africanos, os relatos de viagens, as correspondências e os relatórios comerciais dos europeus relativos à Costa da Mina são algumas das fontes privilegiadas na primeira parte do livro. 

O eurocentrismo desses documentos é um problema inescapável e continua a ser o argumento principal, levantado por alguns africanistas, para desqualificar uma história baseada nessas fontes, que refletem o olhar e o pensamento do estrangeiro dominador. 

Contudo, a partir da comparação crítica entre diversas fontes, e analisando o contexto de sua produção, é possível identificar os plágios, exageros, erros e invenções dos autores, revelando suas distorções ideológicas, e alcançando, nas entrelinhas dessas narrativas, a voz do africano. 

Assim, utilizado com a mesma cautela e reserva metodológica aplicadas em geral a outros tipos de fontes, como a tradição oral, esse corpus documental constitui o acervo mais rico de que dispomos para iluminar e imaginar aspectos parciais do passado africano. Informações derivadas da cultura material e de pesquisas arqueológicas foram trazidas à discussão quando possível e, com a devida prudência, a linguística histórica também foi utilizada. 

Contudo, a proposta metodológica mais arrojada do livro talvez seja o uso da etnografia ritual como subsídio histórico. Mesmo sob o risco de cair no anacronismo, a etnografia contemporânea pode oferecer chaves interpretativas para decifrar os eventos que os viajantes testemunharam, às vezes, sem entendê-los. 

Igualmente, o ritual religioso constitui uma forma de “memória prática” que se lembra do passado, não através das palavras, mas dos corpos e dos comportamentos, amiúde veiculando a voz dos mais fracos e seus discursos contra-hegemônicos. Essa relação entre ritual e memória, na encruzilhada entre a Antropologia e a História, é explorada na segunda parte do livro.”

Spirito Santo
Quarentena de Setembro 2020

O Dossiê do Soldado


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José Cyrilo do Espírito Santo pai de Spírito e Lula

8 José Cyrilo do Espírito Santo pai de Spírito Santo

A Curta biografia do soldado José Cyrillo do Espírito Santo

Fragmentos de relatos e notícias sobre fatos reais

Nasceu em 28 de Janeiro de 1918 em Diamantina, Minas Gerais. Foge de casa aos 14 anos por razões não reveladas. Alega ter presenciado a Revolução de 1932, talvez no caminho de sua fuga sem destino.

Em época não sabida se estabelece no Rio de Janeiro (onde se supõe residiam tios seus) e ingressa no Exercito em 01 de Julho de 1934.

Em 6 de Maio de 1939 deserta do Exército e fica foragido por dois anos. Em 15 de maio de 1942 foi capturado e fica preso por quase um ano (10 meses e 15 dias).

Em 23 de Novembro de 1944, ainda engajado parte para a Guerra na Europa. Volta da Itália em 25 de Julho de 1945.

Inserido num programa de reinserção de ex-combatentes do governo Vargas , trabalha como motociclista da Polícia Especial, em seguida com a desativação da PE motorizada, vira Guarda Civil.

Falece em 1951, aos 35 anos de idade.

Notícia real 01

Os episódios decisivos da segunda guerra mundial dos quais Cyrillo participou se concentram, evidentemente nos dias em que seu regimento e batalhão estiveram em combate. Todos os incidentes ocorrem na região do norte da Itália denominada Emilia Romagna, mais precisamente no vale do Rio Pó.

Este período é também o mais controvertido episódio de toda a campanha brasileira com 4 derrotas seguidas e muitos soldados abandonados no topo gelado do Monte Castello numa retirada ordenada às pressas, redundando em muitos mortos insepultos.

A FEB (um ”Grupamento” e não um exército propriamente) estava subordinada ao V Exército Norte Americano. Existem varias opiniões de fontes militares brasileiras (ditas até hoje à boca pequena) sobre a imperícia do comando e a impropriedade das ordens oriundas do comando deste V Exército Norte Americano que, provavelmente utilizou a FEB como ”Bucha de canhão” desafogando as tropas norte americanas que estavam sendo atacadas pelos alemães em seu flanco direito.

Cyrillo residia no Rio de Janeiro, logo pertencia ao Regimento sediado neste estado: o Primeiro Regimento de Infantaria ou ‘Regimento Sampaio’ (ao qual aliás, ele mesmo alegava pertencer) Sua ficha militar extraída depois de sua morte, no entanto indica o Sexto Regimento, originário de São Paulo.

Teria sido transferido antes ou durante os combates? E o tempo de serviço no Sampaio, onde teria ido parar? O fato dele ter contado que participou dos combates da tomada de Monte Castelo, contudo corrobora a tese de que ele estava mesmo no Primeiro RI, pelo menos nesta ocasião (o Sexto Regimento não participou desta batalha), logo pode-se supor que ele foi transferido do Primeiro para o Sexto em algum momento dos combates.

Com a batalha de Monte Castello desviando a atenção dos alemães, as tropas americanas puderam se safar quase sem baixas. Aparentemente, o que o comando do V Exército Norte Americano necessitava naquele momento, era manter os alemães ocupados com a defesa de uma única posição (Monte Castello), incumbindo a FEB de fustigá-los de maneira quase suicida, durante duas semanas, tempo suficiente para que as tropas americanas se incumbissem de suas próprias dificuldades táticas sem nenhum prejuízo.

Ficção 01

Fotos de manchetes de jornais da época (1944) exibem gravuras dos navios atacados pelos submarinos alemães. Som de rádios ligados em todos os lugares são ouvidos na rua. Presidente Vargas discursa a declaração de Guerra contra as potências do Eixo.

Um rádio está ligado também na pensão onde Geny, minha mãe, então namorada de Cyrillo trabalha. Já é noitinha e Geny retira o avental, rápido. Não está prestando atenção às notícias. Sai apressada, pois, tem um encontro com Cyrillo.

Cyrillo conta que foi convocado como todo mundo. A cena é triste. Conversam sobre a menina que Geny cria,  sua irmã mais nova (Corina), pois a mãe das duas morreu de parto da menina e Geny é a mais velha, incumbida portanto de cuidar da criança. Com tudo isto, fazem planos otimistas para o futuro.

História real 02

A temperatura na região por volta do natal de 1944 é de 20 graus negativos. A altura da neve é de 1 metro, com solidificação das camadas internas, situação que provocou a morte da maioria dos soldados brasileiros tombados nesta guerra e a amputação das pernas de muitos outros (”pés de trincheira). Mal equipados com borzeguins ou coturnos comuns trazidos do Brasil, estes soldados não puderam resistir à prolongada exposição ao rigoroso inverno daqueles dias.

De dezembro (data da chegada de Cyrillo) à fevereiro, as ações se limitaram a trocas de tiros entre patrulhas e peças de artilharia. Neste período ambos os exércitos inimigos, fizeram propaganda com panfletos incitando a rendição do outro.

Por causa do inverno cada vez mais rigoroso, hostilidades maiores só voltaram a se processar a partir de 19 de fevereiro 1945 com um plano para tomar, definitivamente o Monte Castello no dia 21, desta vez com um ataque preliminar de uma divisão de montanha americana aos montes vizinhos.

Cyrillo volta a combater em 3 de Março quando seu batalhão, o Terceiro do Sexto R.I. investe sobre Rocca Pitigliana, Braine de le Vigne, Recale e Santa Maria Viliana, todas no Vale do Rio Marano. Depois disto a próxima incumbência de seu batalhão foi tomar Castelnuovo, atacando pela esquerda de Soprassasso já em 5 de Março.

Ficção 02

Cyrillo e um amigo que ele chama de ‘Paraíba‘ no trem que os leva para o front. Eles têm muito frio e ficam meio deprimidos ao perceber que não existem folhas na paisagem toda branca de neve. Pelo caminho vão vendo que aqui e ali há indícios da destruição da guerra no horizonte e pelo caminho.

Os soldados do vagão estão tristes, sorriem as vezes por qualquer motivo, mas são risos nervosos, tensos. O trem para a toda hora, para recolher pessoas que correm pelo campo tendo atrás de si fumaça de incêndios. Numa destas paradas, o trem recolhe um homem ferido que é trazido por civis armados. Cyrillo e Paraíba notam e acham muito estranho aqueles civis armados. O ferido é um soldado americano, negro também como Cyrillo que acha aquilo mais estranho ainda.

História real 03

Nos momentos, que antecederam o ataque a Castelnuovo, as posições do regimento de Cyrillo foram violentamente bombardeadas pela artilharia alemã. Neste dia, presume-se ocorreu o incidente no qual um amigo de Cyrillo morreu enquanto tomava café na barraca usada pelos dois quando esta foi atingida por uma bomba, logo depois que Cyrillo saiu para render o companheiro na sentinela.

Baixas da tomada de Castellnuovo: 3 mortos, 65 feridos. Foram presos 98 soldados alemães. De um destes prisioneiros alemães (ou de um morto), Cyrillo retirou uma comenda ou insígnia de prata ou alumínio que trouxe para o Brasil como troféu de guerra.

Talvez este mesmo prisioneiro seja o que impressionou Cyrillo pela educação com que se comportou no almoço, mesmo após ter passado muitas horas ou dias de fome, um dos poucos fragmentos de memória que me recordo dele ter me contado assim, diretamente.

As baixas por ‘‘pé-de-trincheira” em Castelnuovo foram elevadas. Uma cruz colocada por alemães com a inscrição “Drei Trapfere-Brasil- Castelnuovo 24-1-1945/Três bravos…”, no entanto, serve de reconhecimento a bravura dos soldados de uma patrulha brasileira do Primeiro R.I, mortos ali.

É após Castelnuovo que Cyrillo tem folgas. São deste período grande parte  dos postais que ele trouxe da ltália os quais eu tenho guardados até hoje.

Ficção 03

Cyrillo e ‘Paraíba’ se revezam num posto de vigia. Dormem numa barraca próxima. Um dos dois fez um café. Cyrillo, o primeiro a tomar o café quentinho, sai para fora da barraca e se afasta para o seu turno de vigia. Mal ‘Paraíba’ entra na barraca uma bomba alemã explode. ‘Paraíba’ morre.

História Real 04

Em 16 de abril, Cyrillo volta a combater (tinha estado na retaguarda) afim de substituir em Montese, o XI batalhão do RI que estava desgastado. Entrou nesta batalha à noite, sob intenso fogo da artilharia alemã, tanto que seu batalhão não consegue nas 24 horas ininterruptas em que lutou, tomar o morro e é também substituído no dia seguinte.

É dificil saber mas, imagina-se que em Montese, depois de ter passado a noite e a madrugada anterior sem dormir e, depois disto, um dia inteiro sob intenso bombardeio, teria sido o maior sofrimento de Cyrillo na guerra.

Baixas em Montese: 426 soldados brasileiros atingidos, sendo destes 34 mortos. 453 brasileiros foram feitos prisioneiros.

Também em Montese, uma nova inscrição de reconhecimento alemão à bravura brasileira numa placa de madeira, referindo-se ao ponto em que soldados da FEB tombaram mortos. Nela se lia : ”Drei brasilianische helden ” (Tres heróis brasileiros)

( Vela matéria sobre o combate da patrulha da crônica de Joel Silveira,o mais famoso correspondente de guerra brasileiro)image

(Não é improvável que a foto abaixo – com a ausência de um –  seja dos integrantes da patrulha citada na crônica de Joel Silveira):


Deve ter sido destes últimos incidentes que se originaram certas alterações que tornaram Cyrillo, segundo sua esposa (minha mãe) mais reservado e irascível do que de costume, demonstrando estar atormentado por distúrbios relacionados a síndrome psicológica que se convencionou chamar na época de ”neurose de guerra”.

Ficção 04

(Cyrillo contou esta para minha mãe – invento só os detalhes)

Numa das cidades tomadas pelos brasileiros. Rua empoeirada. Tabuletas de lojas, Ruínas de casa e prédios destruídos por bombas. Jipes e caminhões entrando na cidade em ambiente de batalha recém-terminada. Grupo de soldados brasiileiros andando pela rua descontraídos. Cyrillo aparece sózinho, vindo do fundo da rua cercado por meninos maltrapilhos. Meninos gritam:

_” Cirillone! Cirillone! Chocolate per me! Per me!Io! Io!”

Cyrillo traz muitas barras de chocolate na mão e vai lançando para o alto, se divertindo com as crianças, rindo da algazzara que fazem.

De repente explosão de granada numa casa próxima. Correria de soldados na rua. Cyrillo e meninos se jogam no chão até perceberem que foi uma explosão acidental.

Voltam à brincadeira.

Pós guerra

Um novo nome para um ex-pracinha No pós guerra sabe-se que Cyrillo usou o estranho codinome ou pseudonimo de Carlos Christóbal Rocha por razões ainda obscuras. Alegava para a esposa Geny, pertencer uma espécie de serviço secreto do governo, mas a luz do que se sabe hoje sobre o período, isto não fazia muito sentido. Neste período praticava eletrônica e radio amadorismo. Havia com efeito uma antena de bambu, pendendo no telhado de nossa casa em Marechal Hermes.

O pós guerra no Brasil foi um período político muito controvertido. O presidente Getulio Vargas desmobilizou a Força Expedicionária Brasileira antes mesmo do desembarque das tropas de volta ao Brasil. Dizia-se na época, que o governo temia que os ideais democráticos assimilados pela tropa da FEB em sua luta contra o nazifascismo, estimulassem uma revolução contra as tendências ditatoriais de Vargas.

A utilização de um codinome e a linha editorial das revistas que Cyrillo assinava (a positivista ‘0′ Pensamento’ e a anticomunista ‘Seleções do Readers Digest’) nos faz supor que durante esta época ele deve ter estado, de alguma forma envolvido em atividades clandestinas anti ditatoriais (e anti getulistas, no caso). Ou, quem sabe até na polícia secreta, atividades profissionais pro governistas, portanto.

Em 1951, apenas 5 anos após o seu retorno da guerra, contando apenas 35 anos Cyrillo falece no Hospital Geral do Exército de uma infecção aguda dos rins, devida talvez ao alcoolismo, vício com o qual, aparentemente passara a espantar os fantasmas da guerra. Na época, depois de ter sido motociclista da Polícia Especial (criada por Getúlio Vargas) prestava serviço como Guarda Civil.

Deixou além da jovem esposa Geny, três filhos, o mais velho (eu, Antônio) com pouco mais de quatro anos de idade, uma filha com 2 anos (Virgínia), e o filho mais novo (Luiz Antônio), ainda um bebê.

Roteiro dos postais

Cyrillo, como muitos pracinhas, trouxe uma grande coleção de souvenirs. Entre estes estavam um cortador de papel de cobre estanhado com a forma de um punhal, uma máquina fotográfica Kodak caixote (que se encontra com meu irmão), a tal insígnia nazista (que junto com o punhal foi apreendida pela Dops quando da minha prisão em 1968), um óculos de aviador americano com armação de ouro e um relógio ômega, também de ouro.

Havia também uma cuia de chimarrão com a borda e ‘bomba’ de prata 90% (que se encontra comigo até hoje) a ele presenteada por um amigo pracinha do Rio Grande do Sul e um belíssimo jogo, completo, de porcelana ‘das índias ocidentais‘ como se dizia, que eu nunca soube se se ele trouxe da Itália (que doido!) ou se comprou por aqui mesmo (as peças mais valiosas – como os óculos e o relógio – em sua maioria não sei onde foram parar, penso que minha mãe as vendeu para custear despesas de família).

Grande parte – na verdade quase todas-  das fotos que ele trouxe da Itália, entre as quais a de uma linda ragazza de saia plisada que ele dizia ter sido sua ‘madrinha de guerra‘ (uma história que minha mãe nunca engoliu). Durante muito tempo, aliás, como deve ter ocorrido com outros ex-pracinhas,  rondava na família a suspeita de que ele poderia ter deixado um filho na Itália. Me lembro muito bem de uma foto dele diante de uma casa de madeira com terras nevadas ao fundo, vestindo uma elegante jaqueta de lã cintada, típica do uniforme dos soldados norte americanos.

Muito bem guardados comigo e conservados no entanto está a coleção de postais que comprava nas cidades por onde passou. Cruzando os nomes das cidades dos postais com um mapa da região onde ele combateu, dá para se traçar um interessante roteiro de suas viagens de folga e do trajeto de sua volta.

As cidades dos postais são as seguintes:

Napoli – Janeiro de 1944

Roma – Janeiro/fevereiro de 1944

Monte Castello (Perugia, perto de Porreta Terme) – 21 de fevereiro de 1944)

Montese – (área de Modena/Bologna – 16 de Abril)

Castelnuovo – Batalha em 5 de Março

Collechio– (próxima à Parma – já com linha gótica tomada, em 1945)

Veneza – Depois da vitória total aliada

Voghera – (Piemonte) 1945

Alessandria – 1945

Gênova– Já prestes a embarcar para o regresso ao Brasil.

Depois de Napoli, passando por Roma seguindo para Perugia (Monte Castelo) enfrenta sua maior batalha. Em meados de 1944 enfrenta uma segunda batalha em Montese, próximo à Modena (onde eu morei) e uma terceira batalha em Colechio todas na mesma região. Como Veneza fica acima da linha gótica, só visita esta cidade depois da vitória aliada. Depois dai, todas as demais cidades teriam sido vistadas no trajeto de volta para o embarque para o Brasil.

Notas:

Por uma estranha razão, talvez a sua proverbial  insubordinação, José Cyrillo entre todos os pracinhas foi um dos poucos que ingressou soldado na guerra e saiu soldado, sem ter nenhuma promoção em combate, embora tenha ganho as medalhas de praxe, entre elas, a de campanha

Por uma coincidência também muito estranha, o próprio narrador desta história – o Titio que vos fala – filho do soldado José Cyrillo viajou para uma tournée musical de quatro meses para a MESMA região da Itália em 1990, descobrindo só mais tarde que estava trabalhando e residindo, exatamente no mesmo local onde seu pai havia lutado na Segunda Guerra Mundial.

Na foto eu, o filho mais velho de José Cyrillo em Bologna em 1990. Ao fundo o curioso detalhe de um prédio projetado por Leonardo da Vinci, semiacabado (o revestimento de placas de mármore, que deveria ir até no topo do prédio, só vai até o meio). O informante me assegurou que isto era muito comum na época da Renascença.

Bem, vão vendo aí.

Spírito Santo

2004, sei lá.

“O Kota que fez um livro, mata a cobra e mostra o pau”


(Publicado no site Overmundo em Outubro de 2011)

(A guisa de dedicatória e autógrafo para todos os eventuais leitores que virão)

Bem amigos, o livro está aí. É ver para crer. Ele se chama ‘Do Samba ao Funk do Jorjão‘ e pode ser conhecido um pouco nesta resenha que publiquei aqui mesmo neste Overmundo.

Todos nós, agnósticos devotos fiéis e ferrenhos de São Tomé que somos bem o sabemos: Deus não é éter nem vento, nem poeira cósmica, se pode até garantir.

Redemoinho tampouco. Deus não é aurora boreal, nem raio nem trovão. Deus est machina, movimento. Deus é vida no sentido de que vida é a fila que anda. E pelo menos neste caso do meu livro a fila andou e a minha vez chegou. Agora sim é a hora de comentar, ressalvar, me regalar de falar, me jubilar.

É por isto que como a fé que não costuma ‘faiá’, no afã de tudo provar por ‘a’ mais ‘b’, nós os agnósticos movemos pauzinhos que às vezes até parecem montanhas. Ai! Como dói no lombo do leigo autodidata – que é o que os agnósticos são – este peso de teimar – e provar – saber o que ninguém voluntariamente lhe ensinou.

“_Como assim? Estudou onde? Se formou onde? Quem te orientou?”

Na pretensão de sermos o implacável deus de nós mesmos, ai como sofremos dando murros em ponta de faca. Um boi para não entrar na briga, mas – como mula que empaca – descrentes de tudo na hora de atestar algo que mal sabemos o que é, damos uma boiada enorme para não capitular. Teimosia de ‘só matando’, daquelas de exultar quando sobreviventes ficamos, já no lado de lá da superação de um desafio, prontos para gritar aliviados:

“_Ufa! Caramba! E não é que deu certo!”

(Pois é. Foi assim mesmo que o leigo do tio aqui se sentiu nos anos todos que penou para fazer este seu livro.)…E você sabe o que é um leigo, certo?

Não o que um leigo é, assim diretamente, porque isto é fácil, está até no dicionário: leigo é a qualidade sem problemas daquele que, simplesmente não é adepto iniciado em coisa alguma, quase de escola alguma, nenhuma religião, seita de porra nenhuma, aquele que é outsider porque não consegue ser – sabe-se lá porque – seguidor de dogma ou cânone algum. O desqualificável, o desentrosado de esquemas, o ‘fora de esquadro’ enfim.

Aí seria fácil entender.

Falo, contudo do complexo definir do que de ruim um leigo pode ser para os homens de má vontade. Falo do que se pensa que um leigo é: O Bicão, o um-sete-um presunçoso, o entrão metido a sabichão que desqualifica o saber alheio. Sabem como é: Seguir a regra, o estabelecido é sempre mais seguro. A ‘norma culta’ aliás, de certo modo é bem isto aí, certo? A bíblia Sagrada a ser rezada, de pau mandado. Dogma. O que não estiver previsto ali, simplesmente não aconteceu ou não acontecerá.

A principal muralha a ser rompida nesta minha jornada foi isto aí sim: Provar para as pessoas de má vontade que o leigo também sabe, que o leigo também vê.

Como os leigos só o são por que… não são, nada que possa ser identificado, catalogado, classificado, comprovado, difícil pegá-los numa esquina qualquer dessas, comuns. Sim, porque os leigos não têm diplomas, certificados, medalhas, troféus, grifes, selos de garantia ou qualidade, chancela.

Mas os leigos, embora não pareçam, geralmente são o que dizem ser. Acredite quem quiser.

A pessoa ‘normal’, a iniciada, formada, sacramentada, se prepara -‘maria-vai-com-as-outras’ que é – por opção, vai sendo treinada para ir com boiada, almeja até que alguém diga o que ela é… mesmo que não seja. Quando alguém enfim sacramentando – a diz o que ela é então, pronto: o bacalhau daquela titulação alheia basta e lhe enche de um orgulho até maior que o meu.
Ser mesmo, portanto para a pessoa ‘normal’ não é bem a questão.

O leigo não, coitado. O leigo se perde pelo caminho tentando ser, sufoca de insolação, sente sede, tenta uma trilha, um atalho qualquer. O leigo se vira. Como cego em tiroteio segue os ruídos do meio, os cheiros, os corrimões.

É por isto que o leigo dá, ali no calor da briga, o único boi que tem na rédea e depois, questionado pelos incrédulos entrega uma boiada inteira que nem tem, que está tranqüila lá no pasto de outro dono, só para não sair da refrega, porque prefere mergulhar sozinho no desfiladeiro de si mesmo para realmente saber quem é na multidão. Ser para si mesmo é o que importa.

O leigo autodidata é assim, se alimenta desta integridade meio babaca de ser mesmo o que diz ser. Ele é o maluco que diz:

“_Foda-se o rebanho! Foda-se a boiada! Foda-se o matadouro. Eu sou mais eu!”.

Portanto, quando você estiver folheando este alfarrábio orgulhoso que acabo de publicar, pense nisto. Mais do que o conteúdo prosaico que ele possui, mais do que as questões discutíveis que ele propõe, tente sentir o quanto tem nele de vontade de dizer alguma coisa que, por acaso ninguém disse, ou desmentir alguma coisa que alguém, provavelmente bem intencionado torceu, moeu ou mesmo mal intencionado mentiu, inventou.

O quanto tive – e partilhei – de prazer de descobrir alguma pista que estava ali e ninguém viu, mapa para a entrada escura de alguma mina de ouro mal lavrada, a intenção enfim de ajudar, um pouco que seja, os meus semelhantes a descobrir o que são -ou não são – ou podem vir a ser… ou não.

E considere a possibilidade de com você ser assim também. Pelo sim e pelo não.

Apesar de tudo e de todos, o motor da vida bem vivida – mais do que ser o que querem que a gente seja – parece que é mesmo ter perseverança para, mais cedo ou mais tarde, nos transformarmos mesmo naquilo que sonhamos ou – ou decidimos – ser. E que assim seja.

Bem, fica isto tudo então aí, dedicado e autografado. Com um grande e emocionado abraço do,

Spírito Santo
Outubro 2011


Não sabe o que é “Kota”? Ora “Kota” quer dizer ‘mais velho’, aquele que, supostamente sabe alguma coisa pela experiencia da vida vivida. É uma palavra do kimbundo, uma língua lá de Angola.


Onde tem o livro?.

O livro está – ou pode (aliás deve)ser encomendado – nas livrarias Cultura, Travessa, Saraiva e FNC. Versão E.book no site da Amazon.com (e no site de todas as livrarias citadas). A edição é da KBR Digital.

O Vudu nosso de cada dia e o “Povo da Rua”


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(Como muitos dos animados posts que escrevo,este também poderia ensejar um livro – e, por certo, ensejará – mas entendam que aqui só cabe o aperitivo do que, com uma pesquisa mais aprofundada, poderia ser uma tese e tanto. Sigam vocês as pistas, que são quentes e conversemos depois)

Deu trabalho, ah deu, mas como foi bom!

Nosso método investigativo é tortuoso, não por ser leigo, já concluí. É porque parte do mais puro instinto ou intuição de bicho carpinteiro, sem nenhum rigor ou epistemologia, insigths soltos apenas, daí para a mais obsessiva busca de provas e evidências que atestem o que o faro perdigueiro intuiu.

No final acaba sendo bem rápido e eficiente. Sem falar que esta busca é puro deleite, por causa do inusitado que cintila de surpresas, ao cruzar cada esquina destas descobertas. Pura empolgação. Desta vez não foi diferente. Como é intuição de véio, com a memória já carregada de velhas pistas embaralhadas, o mero desembaralhamento já vai abrindo os caminhos. Uma pista leva à outra que leva à outra e é por aí que vou, fagueiro e acabo chegando lá

O maior segredo do método é a iconoclastia deliberada, o desabusamento. Duvidar de tudo e de todos. Os mais incensados autores precisam ser questionados sim, porque não? Nenhum dado ou fonte é mais relevante que a outra até que se mostre descabida. Nenhum preconceito intelectual enfim.

Em sendo papo de religião então…Melhor chutar logo o balde, olhar debaixo da saia do santo, para saber se ele é mesmo homem ou mulher, se bem me entendem. Reparem só o quanto os aspectos puramente litúrgicos ou filosóficos de qualquer religião (ou ideologia) são estéreis como conhecimento. Tudo pode ser verdade. Tudo pode ser mentira.

Cá entre nós, mexendo com estas coisas de África há tanto tempo, já começo a suspeitar que lançar toda a sabedoria milenar africana na caixa preta das religiões, pode ser um equívoco sem tamanho. Difícil crer a esta altura, que povos com culturas tão sedimentadas e antigas sejam tão empíricos e cientificamente primitivos, bestas quadradas atribuindo tudo que ocorre na natureza à forças sobrenaturais.Tem algo de muito eurocentrista e preconceituoso aí. Podem crer. É por isto que muitos se confundem. Atentem. Não me entendam mal: Jamais discuto religião.

(Quando garoto já roubei e vendi garrafas de despacho para ir a cinema, mas saibam vocês que nem todo ateísmo é vão ou leviano, nem tampouco “do mal“)

O fato é que estou há um mês nesta empreitada fantástica, roubando tempo da vida real, de tudo um pouco para mergulhar nesta busca por evidências de belezas tão obscuras. Meio sonho ou devaneio infantil: Imaginem! Ficar prescrutando o sentido oculto de bonitas bandeirinhas

No princípio era o Verbo……Depois alguém riscou algo com um tição em brasa numa caverna.

Bandeiras, flâmulas, banners, panos com coisas escritas ou desenhadas transmitindo sinais cifrados, de onde veio isto mesmo? Difícil saber. Nem sabemos direito se é possível ou importante saber em que passado remoto este negócio de tremular signos em bandeiras começou. Tem aquelas analogias óbvias. “Flâmula“, “chama“, fogueira acesa avisando, sinalizando ao longe, deve ser alguma coisa por aí, no nascedouro desta linguagem.

(E ainda ensinam por aí que estes povos não tinham escrita)

Do muito que andei lendo por estes dias, já deu para ver que não é um tema fácil de lidar com apenas uma das mãos. Para não cair confuso na intrincada seara deste assunto, nossa história pode começar com comigo puxando a meada por este fio aqui:

O Vudu da Revolução. Um pouco da História dali, só para descontrair.

“A tradição conta que os levantes de escravos em 1791 no Haiti, começaram depois de uma cerimônia Vudu num bosque denominado Bois Caïman onde foi evocado Ogum, o espírito guerreiro julgamos oriundo da cultura do Daomé. Nessa cerimônia, uma “Mambo” (sacerdotisa) africana de nome Cècile Fatiman e um quilombola ”Hougan” (sacerdote) chamado Boukman Dutty sacrificaram um porco preto para alimentar o espírito de Ogum que, por sua vez, inspirou os escravos a se rebelar contra os fazendeiros franceses.

Se a cerimônia realmente aconteceu ou não é irrelevante. O fato é que as tradições culturais e religiosas africanas, transformadas pelas duras condições de escravidão, ajudaram a inspirar e unir um povo haitiano a se levantar e afirmar-se num confronto com as tradições culturais e religiosas da Europa. 

Estas pessoas derrotaram o o enorme poderio do exército de Napoleão Bonaparte no Caribe, impedindo-o assim, de garantir uma “cabeça de praia” (como as tropas aliadas fizeram na Normandia em 1945: nota minha) para investirem daí numa grande invasão ao continente americano pela costa dos EUA.

Robert Ferris Thompson da Universidade de Yale disse certa vez, em uma palestra sobre a tradição Vodu no Museu Field, em Chicago, que se poderia muito bem estar falando francês nos Estados Unidos não tivessem os escravos haitianos sido bem sucedidos em sua revolução.”

O Ramerrão

“Vodu é uma religião com um caráter de ideologia política que combina elementos de religiões da África Ocidental, com muitos elementos outros, principalmente visuais do catolicismo, bem como as tradições do povo “Taino” (etnia ameríndia que habitava o Haiti quando Colombo desembarcou pela primeira vez). Os “Taino” foram escravizados pelos espanhóis e quase completamente exterminados em curto período de tempo para serem substituídos pelos africanos.”

Vocês por acaso não conhecem um caldeirão cultural parecidíssimo com este? Sim, mas cuidado. Sentiram o drama? O “Negro“, o “Branco” e o “Índio“. Hum..Foi para distorcer esta realidade aí, o sentido transcendental e natural desta simbiose entre três supostas raças, que inventaram toda esta conversa mole de “sincretismo” e “hibridismo cultural“.

Sabiam não?

“Os (ameríndios) “Taino”, habitavam as Bahamas, as Grandes Antilhas e as Pequenas Antilhas do Norte, no Caribe. Acredita-se que estivessem relacionados aos aruaques da América do Sul. Na época da chegada de Cristóvão Colombo à América, em 1492, havia cinco reinos e territórios “taino “em Hispaniola (atualmente República Dominicana e Haiti).

“Alguns “Taino” conseguiram sobreviver nas montanhas e se “misturaram” com quilombolas africanos fugidos das plantations espanholas. O Vodu (trazido do Dahomey – nota minha) surgiu então, como uma resposta à Conquista.

(E os mais argutos, com certeza hão de perceber aqui a incrível semelhança entre a conjuntura local: os “cinco reinos” dos indígenas Taino-Aruaque, neste finzinho do século 15, e os “cinco reinos” suseranos do Reino do Kongo, na mesma época em África, quando da chegada de Diogo Cão. Amem as analogias, amigos. As vezes elas nos ajudam muito a pensar um jeito de sobreviver)

Olhem de novo, agora que falei, para as bandeirinhas do Brasil, os estandartes das Folias de Reis, os das Congada, os das Escolas de Samba. Sigam os sinais que andei seguindo por estes anos e me respondam:

A africanidade real do Haiti está lá, reconhecida e visível, mas a africanidade real do Brasil, cadê? Onde será que ela está?

E já que falamos de artes visuais e decorativas, são estes pensamentos ainda mal alinhavados que me instigam o desprezo relativo que tenho por esta arte contemporânea do Brasil, tão aculturada e chinfrim, em seu desprezo ignorante pelos elementos estéticos mais belos de nossa cultura, só porque eles – os mais originais elementos estéticos que temos por aqui – não nos vieram da Europa, não são caucasianos, teutônicos, anglo saxões…puif!

(Ou NÃO são, na cabeça torta deles, puramente…”africanos“)

Vejam só que ignorantes: Demoraram anos e anos para reconhecer – e assim mesmo, hoje reconhecem com parcimônia – a arte maravilhosa de Arthur Bispo do Rosário, mundialmente admirada, tão ou mais importante e interessante que a de Marcel Duchamp, por exemplo só porque…porque ele era negro. Será? 

(Digo assim, “será?” só de ironia, porque na nossa frente eles dizem que o ignoraram porque ele era…’louco”. Ah! Rio na cara deles: Ora, todos eles sabem que qualquer Arte é e sempre será um estado de loucura.)

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Vejam só como a coerência formidável pode aparecer para nós assim, como se fosse do nada: A arte do negão maluco beleza Arthur Bispo do Rosário tem – só o Deus que dava ordens a ele, deve saber porque – uma semelhança enorme com estas bandeiras de Vudu que me apaixonaram.

Que coisa mais…doida, não é não? 

O start para a pesquisa foi então, é claro, a beleza explosiva daquelas bandeirinhas de Vudu na minha cara extasiada.

Saíam, inspiradas de fotos de Phillys Galembo que flagrou oficiantes desta religião no Haiti em poses mundanas, comuns, com as bandeirinhas ao fundo. Eram bandeiras rústicas, bordadas à mão e estranhos símbolos gráficos riscados no chão, arabescos enigmáticos, me evocando ambos, uma estranha iconologia pessoal, imagens que vi na infância e que até hoje me encantam a lembrança.

Uma das práticas mais importantes Vodu é o uso do “vevé“. O “vevé ​​é uma representação gráfica abstrata, muito condensada de um espírito particular. Basicamente, um “vevé” é ​um portal que permite que o espírito ingresse no mundo humano. 

Alguns antropólogos acreditam que a prática do desenho “vevé” para representar os diferentes espíritos do Vodu é um resquício da religião Taino.

Pode-se ver exemplos de “vevé” em bandeiras de paetês e esculturas de metal. “Vevés são normalmente desenhados com algum tipo de pó, farinha de milho, farinha de trigo ou borra de café no chão de um templo vodu, antes do começo de uma cerimônia. Quando a cerimônia progride os movimentos da dança vão apagando os desenhos “vevés”.

Os espíritos que entraram no mundo humano através destes portais vão possuir alguns membros da congregação. Com efeito, os fiéis escolhidos tornam-se os espíritos eles mesmos e os espíritos que agem e falam por eles.

https://global.britannica.com/topic/Taino

_”Pontos riscados de umbanda! Quem não sabe?“_ Pensei alto, assim que vi. _“Riscados com ‘pó de pemba’ e tudo. Olha só!”

Lembrei também no ato (no caso olhando as bandeiras) de um grande banner que eu, artista ilustrador ainda iniciante, pintei para a minha mãe macumbeira de fé inquebrantável. Eu jovenzinho ainda, mas já meio ateu, pintando com prazer enorme, um inusitado cangaceiro, caboclo de umbanda, em pé numa encruzilhada tenebrosa como um cowboy de filme de uma hollywood…cabocla.

O homem, um corisco de Glauber Rocha pela minha cabeça, armado até os dentes, tinha aos pés um alguidar sanguinolento, com uma galinha preta morta e velas bruxuleantes, pretas e vermelhas, iluminando as suas alpercatas. Um Exu afro ameríndio! Surrealismo afroparaíba, o preto com o índio, juntos e misturados naquela encruzilhada de culturas tão improvável para os doutos mais cú de ferro, estes puristas de plantão.

(O banner era uma promessa devida pela minha mãe ao “centro espírita” que frequentava e eu, jamais perderia a chance de ter aquele prazer que deixou a minha mãe tão feliz.)

Mas eram estas memórias ainda tão vívidas que me instigavam. Sempre tive fascínio por esta iconografia negro-africana, diaspórica.

A africanidade “impura”? Como assim? Um papo de racista este, não é não?

É que o que me apareceu de mais evidente nestas cenas de Vudu haitiano (e classifico assim porque o Vudu é, na origem uma prática oriunda do antigo Dahomey, hoje República do Benin), o que se vê logo de cara olhando as imagens de Phillys Galembo é a incrível semelhança deste Vudu político- religioso com práticas culturais brasileiras que os puristas sem vergonha NÃO consideram africanas (nem mesmo afrobrasileiras) lançadas que foram num escaninho de generalizações cheias de menosprezo – “folclore“, “manifestações populares”, dizem – como se estas práticas fossem ilegítimas, impuras, meros resquícios de uma africanidade “diluída” (um conceito usado por eles, eivado de sórdido racismo.)

Pureza“. É este o paradigma chave de nossa sociedade racista, tão difícil de explicar. O discurso eugenista da “pureza racial”, imiscuído na Cultura e envolvendo-nos em pendengas ardilosas, que contaminam já até mesmo a nossa elite “de cor”.

(Olhem bem, se atentem por favor, para o eugenismo arcaico de nossa academia – os “nagoístas religiosos ou leigos, juntos – mostrando já as suas asinhas por aí)

A velha e vilipendiada “Umbanda” (na verdade, neste caso chamada de “Kimbanda“, com o sentido estrito e pejorativo de “magia negra”) viram só? Cheia de elementos semelhantes ao Vudu do Haiti, que sendo Fon/Gbe tinham que estar no seio do vetusto Candomblé, mas vejam que curioso: Não estão. 

Assim, reforçada por estas evidências tão candentes, é que começa então a quebra das minhas incertezas e cresceu a minha cisma com esta africanidade religiosa oficial do Brasil, tão cheia de fancarias de “pureza”, tão suspeita, cada vez mais, em suas intenções.

Leiam também as entrelinhas:

…Edson Carneiro, em conjunto com líderes de terreiros da Bahia, funda a União das Seitas Afro-Brasileiras em 1937, a qual cadastrava os terreiros e era responsável pelo “funcionamento normal das seitas africanas, evitando abusos e o desvirtuamento de suas finalidades religiosas” (BRAGA,1995:168). Outra importante atuação do Congresso (II Congresso Afro Brasileiro, Salvador, Bahia no mesmo ano: Nota deste autor) foi pleitear o estatuto de “religião” aos cultos afros, retirando seu caráter de “seita” e a sua associação a termos pejorativos com o “baixo espiritismo”, “falso espiritismo”, “magia negra”, obtendo, assim, legitimidade social perante as esferas jurídica e política”

Reconheço o quanto é polêmica esta minha tese, mas o que ocorreu em 1937 com a criação desta União das Seitas Afro-Brasileiras (numa espéciede efeito colateral provocado pela oficialização de uma única linha religiosa dita “puramente” africana) foi que um número enorme de terreiros que não se enquadravam, exatamente no padrão estabelecido para a categorização de “culto afro”, foram expurgados do contexto, inaugurando-se o mito da “pureza religiosa africana”, lugar assumido pelo Candomblé Nagô.

Entre estas linhas “expurgadas”, é justo se supor que havia um número considerável de cultos afro-ameríndios (do chamado “culto dos caboclos”) e linhas religiosas de matriz bantu, de caraterísticas bem diferentes da ortodoxia yoruba-nagô, então predominante no controle político da USAB, que havia sido fundada na cidade de Salvador, local (junto com a “inglesa” Lagos, Nigéria) de franca hegemonia social e religiosa yoruba-nagô)

Na prática, pelo que tudo indica se inicia aí o ciclo de hegemonia do Candomblé baiano, alçado, equivocadamente à condição de religião negro africana oficial do Brasil, com a passagem de todas as outras linhas religiosas (inclusive, pelo que tudo indica, certos elementos da religião Vudu dos Fon/Gbe), para uma espécie de clandestinidade, que redundou no surgimento, entre outras vertentes, da “famigerada” kimbanda, onde estou propondo, os elementos do Vudu semelhantes ao do Haiti, se `homiziaram`)

Do que falo então, baseado em fatos óbvios? O que seria o processo natural e independente da evolução de manifestações culturais de ascendência africana, por conta do mero transcorrer do tempo e da interação entre as pessoas num certo meio social, passa a se dar de forma isolada, “clandestina”, por conta da oficialização, por meio de regras determinadas, estatuídas, formalmente estabelecidas enfim, de uma forma dita de religião negra “correta”, “pura”, única digna de estímulo, fomento e recohecimento do estado (no caso e a princípio, o governo do Estado da Bahia), “fomento” este que, com todos os sentidos que a expressão pode ter, Pode ter instigado ações muito pouco…religiosas.

(Ah! E como o que ocorreu em 1937 se parece com certas práticas de “tombamento e patrimonialização”  de bens culturais por parte do Iphan atual no Brasil.

———— 

Além desta assaz marginalizada “Kimbanda“, estão aí as Congadas, as Folias de Reis, os próprios Maracatus e tantas outras práticas classificadas como “negro-impuras” que não me deixam mentir, todas displicentemente classificadas como “manifestações populares” . Tudo que não se enquadra nos dogmas rituais deste Candomblé “yorubaiano” oficial, parece que foi caindo neste limbo aí do dito “sincretismo” generalizante, burro, raso, cheio de incongruências supostamente doutorais.

Já havia pensado nisto? Nas semelhanças candentes entre os “exus caveiras” e os “exus das sete encruzilhadas”as “marias padilhas os “zés pilintras”, e até mesmo os “caboclos de umbanda” (com seus caciques ameríndios e seus cocares, com o autêntico, inquietante e africaníssimo Vudu do Haiti? Vejam só as fotos de Galembo.

Pois é. Penso isto não é de hoje e penso mais ainda agora.

Kimbanda!” Magia negra no sentido de “suja”, “do mal”:Vudu!

É, exatamente aí, acabo de intuir ou descobrir, sei lá, que estão os laços, as pistas, as evidências mais claras da existência de práticas muito semelhantes ao Vudu do Haiti no Brasil. (Eu sei. Existe Vudu no Maranhão – chama-se “Casa das Minas” por lá – nas não falo deste também cristalizado em fundamentalismos puristas . Eu falo do Vudu do “povo da rua“, este daquelas nossas belas bandeirinhas do Haiti.)

(E olhem só o tamanho do problema que criei para vocês.)

Respondam então se puderem: 

Se não são ameríndios os graffiti “vevés” do Vudu (pelo menos tão diretamente como os antropólogos disseram, e disto falaremos a seguir) de onde vieram afinal? E os “vevés” escultóricos, de ferro, de onde vieram, tão significativos que apareceram no Brasil com formas e funções idênticas, sem que os negros do Haiti tivessem jamais emigrado para cá?

E aquelas enigmáticas flâmulas muitas vezes escritas com “vevés” magestosos. Estes apliques delas, o que significariam? E os “vevés-pontos riscados“, como na Kimbanda? Como migraram do Candomblé convencional (se é que lá estiveram um dia) para os cultos e ritos do “Povo da Rua”? E os tão lindos e complicados bordados de lantejoulas,, de onde veio tudo isto, meu Deus? Tantas perguntas que tive que responder na minha pesquisa!

…Bem, mas isto é coisa para o próximo e último capítulo de mais esta diaspórica saga ou aventura. Espetem seus bonequinhos aí – estes dos culpados pela nossa santa ignorância – que eu já espetei os meus .

E viva o Povo da Rua! E viva Papa Legbá, Papa Loko e outros Papás, em francês ou no crioulês daqui!

Spirito Santo

Janeiro 2014/Notas em 2020