“Dont Tread on me”. Ecos Pré-Cotas raciais. As Madalenas Arrependidas piram!

•17/06/2017 • 2 Comentários

Tea party flagTea party  flag (para quem não conhece, o “Tea Party” é a corrente mais à direita do Partido Republicano norte americano.)

A turma do chá preto e as outras turmas ‘deles’.

(A analogia com a cobra traiçoeira – vocês logo verão – é pertinente e providencial).

Pode ser apenas impressão do tio, mas o que chamarei aqui de “turma do chá preto”, adeptos tardios do anti cotismo racial está se tornando um must na internet, nas redes sociais, na imprensa convencional, nos meios de comunicação em geral.

Sacudiram o bambuzal e espantaram das sombras cobras sapos e lagartos. Impressionante!

O que mais me chama a atenção, impressiona mesmo é que esta onda de anti cotismo racial radical extrapolou até mesmo o nível de reação anterior à aprovação da ação afirmativa pelo STF, como se houvesse uma ‘maioria silenciosa’, enrustida, na espreita se apoiando numa vanguarda dos radicais contando com a força de sua omissão. Um batalhão de ‘joões sem braço’ torcendo contra, na sombra.

E vejam que contradição maravilhosa: Se esta popularidade enrustida do anti cotismo racial tivesse andado às claras, teria sido percebida pelo STF como uma força legítima e poderosa e – ai meu Deus! – teria ameaçado seriamente a aprovação da medida.

Ai! Que mole que deram! Deixaram Ali Kamel e a turma do chá preto à míngua, isolados como cegos em tiroteio. Agora ficam por aí, madalenas arrependidas, chorando pelos cantos, alisando os velhos tijolos do seu muro de lamentações.

Sempre achei – e muita gente acha também – que um dos mais firmes sustentáculos do racismo à brasileira era o seu caráter de ação sub reptícia, solerte, a sua vocação para a dissimulação, aquela caraterística que os politicamente corretos chamam de ‘sutileza‘ (‘racismo sutil‘, por suposto)

Feito pata de elefante, sabem como é?

Aqui, antes da decisão do STF os racistas todos eram uns gatos pardos pingados. Na verdade, ‘NINGUÉM‘ era racista, ‘ninguém‘ colaborava, ‘ninguém‘ compactuava, apoiava ideias racistas, mas ele, o racismo, misteriosamente prosperava, recrudescia, ardendo cada vez mais na pele daqueles que a ele estavam e estão expostos.

Mistério revelado: É que agia na sombra, a ‘maioria’.

Saindo das sombras então, as Madalenas arrependidas agora acenam com a inutilidade das cotas raciais, para eles uma demagógica e inócua decisão, dizendo que o universo de beneficiados será tão ínfimo, tão ínfimo (entre 200.000 a 400.000) que a ação não fará nem cosquinha em nossa abissal desigualdade educacional.

Sei…sei. É como aquela fábula da raposa, ressentida por não ter conseguido as uvas, que dizia:

_ “Ah…Estão verdes!”

É que eles não conhecem – na verdade temem – a exponencialidade,  o poder multiplicador de medidas como esta. Se a taxa de negros nas universidades públicas era perto do zero antes das cotas raciais, claro que é formidável pular agora para centenas de milhares.

Infelizmente para eles a caravana passou.

Aliás, cá entre nós, este negócio de ficar tentando provar que não existem negros no Brasil é bem agressivo e ofensivo para quem é – ou se imagina – negro. Fica parecendo racismo enrustido quando nenhuma proposta alternativa FACTÍVEL e não protelatória é apresentada.

E vamos combinar: De onde vem afinal este ressentimento todo, esta bílis destilada contra a promoção ou a evolução social dos ‘não brancos’ em especial se, também em especial, estes mesmos ‘não brancos‘ são os excluídos?

Afinal a existência de um virulento racismo no Brasil é um fato mais do que reconhecido já, internacionalmente até.

Os anti cotistas raciais estão sendo mesquinhos, isto sim. Fazem uma conta ‘de menos’ que, ao fim de tudo propõe a manutenção de tudo como está (a conta da exclusão social eles não fazem nunca). A conta que valia a pena fazer, neste caso nem se trata destas que dizem se somos entre 5% e 51% os negros no país. Talvez os anti cotistas raciais não tenha entendido bem – se é que querem mesmo entender – o conceito ‘negro‘, que é apenas político e não racial.

Afinal a categoria ‘negro‘ no Brasil não pode ser aferida por este parâmetro aí, genético, como se fôssemos africanos legítimos, uma raça por suposto. Não é justo nem sério isto aí. Raças, afinal, não existem!

Negro‘ – todo mundo de boa vontade sabe – não é um conceito genético (e o uso deste parâmetro eugenista aí, é hoje inaceitável). Politicamente,o conceito “negros” – é preciso se reconhecer isto logo, sem cinismo – se refere à maioria dos excluídos do Brasil (pretos, índios, mulatos, ou qualquer outro nome que se queira dar aos que NÃO são considerados brancos na hora de exercer direitos de cidadania).

A premissa errada (a definição de quem é e quem não  é negro) foi usada ILEGALMENTE para instituir o racismo. Só o uso desta mesma premissa poderá ajudar a desamarrar este nó. É como usar o soro do veneno para curar a mordida da cobra venenosa.

E ao matar a cobra há sempre que se mostrar o pau.

Criaram o saco de gatos de todas as cores, separando os brancos num outro saco à parte e bem melhor. Agora, na hora de trazer os gatos brancos para o saco geral, querem separar, de novo, apenas os gatos pretos do saco já ruim para lançá-los onde? Num saco ainda pior?

Se nós, os não brancos nos assumíssemos ‘mestiços‘ eles iam vir com a mesma conversa reacionária contra cotas para ‘mestiços‘.

Cotas raciais para eles, só para brancos. Que doidos!

Se é esmagadoramente ‘branca‘ a minoria, a auto eleita elite dos incluídos, como poderíamos lutar contra a iniquidade de tantos serem preteridos, dominados por tão poucos, senão isolando os que se intitulam ‘brancos‘ num saco só? Os que se intitularam ‘brancos‘ para levar vantagens agora, perderam o bonde da história  e são agora uma reconhecida e identificável minoria. Azar o deles. Paciência. Demoramos muito a definir isto que agora é reconhecido por lei.

Esta conta de excluir negros, de novo, esta conta de negar ações afirmativas para negros pode ser chamada de que? Como classificar este reacionarismo anti negros que está pululando por aí?

Tem um nome isto. Nem preciso falar qual é.  Falem vocês.

Hora da verdade. Hora de deixar de ser branco para ser franco.

“Não pisa ni mim!”

Escolinha do Prof. Kamel. Aula extra de recuperação:

Já cansei de falar disto por aí: Ali Kamel, Ivone Maggie, Demétrio Magnoli, Rodrigo Constantino, o pessoal desta virulenta Cia. dos anti cotistas raciais mais radicais, embora acusem os pró cotistas de importar modelos norte americanos racialistas,  têm um guru, exatamente… norte americano. Sabiam?

Ele é o Tomas Sowell, um economista negão de Harvard (como o Obama, só que…de ‘alma branca’). É que Thomas é um dos principais ideólogos da direita do Partido Republicano (eu disse da Direita!). Bem, como sabemos por alto nós, os brasileiros, a direita norte americana é…racista, certo? No currículo dela estão a Ku Klux Kan, os linchamentos de negros e a oposição ferrenha às lutas pelos direitos civis na América, inclusive – caso direto de Thomas Sowell – uma campanha ferrenha contra as cotas raciais e às ações afirmativas em geral.

Pois bem. Thomas Sowell é o principal teórico da direita norte americana nesta cruzada anti democrática aí. Juntando os pontinhos, ligando Ali Kamel, Maggie, Fry et caterva a seu guru de ‘alma branca’ dá um quadro bem esdrúxulo, não dá não?

Nunca mais caí na conversa de vivandeiras neo racistas como o Kamel depois que descobri este rabo de cobra delas. Não querem cotas de espécie alguma porque são direitistas, elitistas anti democráticos. partidários do passado e do atraso. Cobras chocando ovos no cesto.

São o rabo daquela cobra da bandeira do Tea Party direitista norte americano que diz aí em cima:

“Dont tread on me”

Frases mui meigas de Thomas Sowell guru destas vivandeiras:
Defendendo a propriedade privada das leis de promoção socijal do governo Obama:

“Ambos os direitos de liberdade de expressão e direitos de propriedade pertencem legalmente aos indivíduos, mas sua real função é social, para beneficiar um grande número de pessoas que não se exercem estes direitos.

Defendendo posições contrárias as cotas raciais e as ações afirmativas em geral:

…O capitalismo sabe apenas uma cor: a cor é verde, tudo o resto é necessariamente subserviente a ele, portanto, gênero, raça e etnia não pode ser considerado em seu contexto.”

Defendendo a manutenção de valores conservadores na sociedade:

“…Cada nova geração nascida é na verdade uma invasão da civilização por pequenos bárbaros, que devem ser civilizados, antes que seja tarde demais.”

Manifestando-se contra a universalização de direitos legais numa sociedade:

…Se você sempre acreditou que todos deveriam jogar pelas mesmas regras e ser julgada pelos mesmos padrões, teria sido rotulado de radical há 60 anos, liberal há 30 e racista hoje.”

Defendendo o conservadorismo em geral:

…Grande parte da história social do mundo ocidental, ao longo das últimas três décadas, tem sido uma história de substituir o que funcionou pelo que soa bem.”


(Textos de Thomas Sowell, economista, como eu disse acima membro da ala direita do Partido Republicano, simpatizante do Tea party e cuja ficha de direitista anti Obama é ciosamente escondida por seus acólitos no Brasil (Kamel & Cia).

Detalhe: Thomas Sowell apoia hoje a ala direita do Partido Republicano nas eleições de 2012 cujo candidato Newt Gingrich vai mal das pernas e deve perder a indicação para Romey.

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Daí, um aluno mais panaca, lá no fundo da sala perguntou ao Prof. Kamel qual era a moral da história, da lição que Ali acabou de dar (e que eu contei aqui com as entrelinhas expostas), exaltando o Sowell :

Ali calou-se, rabinho entre as pernas. Se aproveitou da campainha que tocava no pátio e encerrou a aula. Fofoqueiro que sou, contudo, chamei o aluno panaca no corredor e entreguei:

_ “Se liga: O professor Kamel e seus colegas doutores daquela ‘tchiurma’ de neo racistas dele, não são apenas racistas não, rapaz. Eles são de Direita. Torcedores do ‘Tea Party”, do Reagan, da Sarah Palin, gente barra pesada. Cuidado com eles, brancaiada!”

Ao que o aluno panaca, cara de tonto, bem babaca, perguntou:

_” Tea Party? Mas o que é isto, tio? Alguma festa na Lapa? É hoje?

…Bem..Esqueçam. Vamos de agora em diante cultivar as virtudes da paciência. Eles ainda têm muito que aprender.

Nós – e o STF – pisamos no rabo deles. Vamos ter que esperar a dor de rabo deles passar.

Spírito Santo
Abril 2012/2017

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Menos Foucault mais Fu Kiau – Filosofia bakongo para iniciantes

•06/06/2017 • 15 Comentários

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Gráfico da cosmogonia bakongo (aproximadamente século 10) segundo estabelecido pelo etnólogo congolês Fu Kiau Benseki. Observem que, curiosamente a cruz como fundamento cosmológico já existia na cultura bakongo bem antes da chegada dos portugueses e seu cristianismo.
Contudo, não viaje demais por enquanto. Não especule além do que o entusiasmo pode ser relacionado á lógica. Não transforme em névoas religiosas o que é saber  a ser analisado, sistematizado um dia como ciência. Pense grande.

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Começando o papo

(Bem, se você é mais iniciante ainda do que eu, comece voltando atrás lendo o beabá bakongo neste link) .

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Só como introdução para ninguém se dizer desentendido: Ba-kongo é grosso modo, o povo formado pela junção – não me venham com esta conversa de mestiçagem, por favor – de gente migrante vinda lá de cima, de onde é hoje o Camarões para as férteis terras às margens do Rio Kongo, com as gentes que ali já estavam, ninguém sabe há quantos séculos e séculos amém.

Não se sabe ainda, tampouco de onde esta gente que desceu o continente veio para os Camarões. Eu mesmo me arrisco a presumir que eles podem ter vindo do nordeste do continente, num fluxo migratório que espalhou pessoas das fraldas do Egito, da Núbia, até a costa oeste da África mais remota, alguma civilização qualquer bem avançada, assentada em saberes sobre os quais foram fundadas todas as civilizações subsequentes, da África propriamente dita e suas proximidades até, bem mais tarde repercutirem na Europa, esta Europa sempre envergonhada , sabe-se lá porque, deste seu evidente – embora não único – passado africano.

E não sou eu que digo. Foi o Heródoto. Não sabe quem é Heródoto? Aí já é ignorância demais. Perguntem ao Google.

O certo é que este povo altivo e portador de um mui antigo sistema de valores éticos, morais, civilizatórios enfim, depois de já amalgamado num conglomerado de potentados agregados, solidamente organizados em torno de um reino ou império central (uma confederação de reinos ) com um reino central denominado Reino do Kongo, estava em plena fase de desenvolvimento e prosperidade no momento em que foi visitado, invadido e por fim dominado pelos ‘Tugas’ (conhecidos também como ‘Putus’) povo vindo desta Europa predadora que se formou após as chamadas grandes navegações, esta Europa hoje centro de um mundo crente numa cosmogonia pra lá de questionável, fundada para justificar as imorais  iniquidades do trabalho escravo.

(E aqui um parêntes algo necessário: Hoje em dia o que conhecemos como povo bakongo é uma gente que ocupa uma área entre a fronteira sul do Zaire com Angola e as cercanias ao norte de Luanda.

Contudo, estamos nos referindo aqui , explícitamente à cultura matriz e predominante em toda a região que hoje conhecemos como República Popular de Angola, considerando-se que dali, de Mbanza Kongo a capital do reino do Kongo (dos Ba-Kongo, enfim) na ocasião em que o ‘tuga’ Diogo Cão chegou ao local, é que floresceu e se expandiu um conceito de cultura e nação muito mais extenso, geograficamente do que o território bakongo atual e formado por povos novos, frutos da expansão de uns e da fusão com outros.

Esta nação (a Angola de hoje em dia)  é formada, enfim por várias  outras culturas, entre as quais as que mais nos importam, por conta dos fluxos de cativos que para o Brasil vieram, são os Mbundos (tanto os “Ovi”  quanto os “Ki”, prefixos que diferenciam, sutilmente, culturas vizinhas, primas, irmãs.)

Esta história majestosa e trágica, que acontece a partir do século 10 ou 12 e transcorre heróica até o início do século 18, após a decapitação em 1665 de D. Antônio Nkanga Nvita, o rei do Kongo derrotado pelas tropas portuguesas comandadas por André Vidal de Negreiros (sim, ele mesmo!), tem profunda ligação com a história do Brasil, muito mais do que nos disse a memória a nós imposta pela escola convencional, que nos encheu os ouvidos e os olhos com caravelas e mais caravelas de fatos e eventos, vividos – ou inventados – pela nobreza portuguesa da qual fomos colônia tanto quanto foram estes mesmos bakongo e seus vizinhos, ainda hoje amalgamados – embora beliçosos entre si – num belo país chamado República de Angola.

Conversa de pé de fogueira esta. Longa e molenga. O resto bem que pode ser contado amanhã. Fiz esta introdução apenas para vocês nem pensarem mais em chamar estas pessoas de gênese bakongo (Bakongo, Ovimbundo, Kimbundo, entre outros povos), nossas antepassadas de “crioulos” incultos e primitivos, nem muito menos submissos vassalos de Portugal e da igreja da cruz.

É que cruz eles já tinham, todo um sistema filosófico baseado na ideia da cruz segundo se pode ver no cosmograma ilustrado acima: o “Kalunga”, meio líquido que divide o mundo físico do mundo espiritual, o mundo dos vivos, do mundo dos mortos, o real e o surreal, o normal do paranormal, enfim.

Se você conseguir se livrar da ideia preconceituosa de que existe um misticismo afro-negro primitivo, atrasado – algo absolutamente improvável dada a longevidade e a extrema gama de experiências civilizatórias portadas pelas culturas que formularam o conceito aqui apresentado – partindo do princípio óbvio de que todos os homens são rigorosamente iguais – se você conseguir discernir a diferença crucial que existe entre FILOSOFIA e RELIGIÃO – posto que uma sugere maneiras diversas de se explicar as coisas do mundo, enquanto que a outra afirma, dogmaticamente tudo poder explicar – por certo tirará grande proveito destas informações.

O tema é muito novo para a maioria de nós. Por isto, esta abordagem mais ampla ou genérica me pareceu, inicialmente mais aconselhável. Sugiro então apenas algumas linhas básicas, balisadoras do instigante debate que o tema pode sugerir.

Eu sei que é enfadonho insistir, mas entendam que a culpa é deste ‘nosso’ insidioso modo de ver tudo que não é fruto da cultura ocidental como ‘primitivo’ e ‘exótico’, rasamente ‘místico’ ou religioso, um pensamento arcaico, colonizado que, infelizmente predomina em nossas ciências sociais. A ressaltar apenas, neste ensejo, portanto os seguintes pontos:

– Os aspectos filosóficos, éticos, morais, etc. que no Brasil informam o que a gente chama de ‘cultura popular’ ou ‘tradicional’ (‘indígena’ também, mas no caso presente, principalmente africana) não são, de modo algum, fruto de uma visão de mundo empírica, ingênua posto que são o acúmulo de experiências muito amadurecidas no tempo e no espaço, complexas em si mesmas, sedimentadas por séculos e séculos de exercício. Afinal, estas culturas estão na base da formação do pensamento de toda a humanidade.

– O que torna difícil a compreensão deste fator – além de nosso recorrente racismo acadêmico – é que os mecanismos de registro e difusão destes saberes – no caso destas culturas mais ‘antigas’, ancestrais por se assim dizer – são baseados em procedimentos diversos daqueles tornados hegemônicos pela cultura cristã-ocidental – como é o caso evidente da escrita convencional (do ‘livro’, por suposto) no caso do ocidente – e não somente – inventada por Gutemberg.

– Dentre estes procedimentos subestimados, sobressalta-se, portanto a literatura oral e outras linguagens, digamos assim, mais ‘emocionais’, ‘orgânicas’, procedimentos que o cartesianismo do século 18 tratou de considerar impertinentes (como certa música ‘tradicional’, por exemplo).

– Uma compreensão equivocada que se tem da sabedoria humana, julgando-se erroneamente que só é válido e científico, aquilo que foi firmado e atestado por procedimentos de registro convencionais é, pois, um dos principais fundamentos destes preconceitos.

Isto tudo posto, leia os preceitos básicos da filosofia kongo pensando grande.

“… A formulação de Fu-Kiau, um pensador Bacongo contemporâneo, traduz para uma linguagem compreensível ao pensamento ocidental maneiras de entender o mundo que se ligam em muitos aspectos a formas de pensamento e a formulação de explicações que podem ser entrevistas já nos primeiros registros escritos de observadores estrangeiros, principalmente missionários católicos.

Por esses diversos registros fica evidente que desde os primeiros contatos com os portugueses no final do século XV até os dias de hoje, é básica para os Bacongo a divisão entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos, os primeiros vivendo acima da linha do horizonte, os últimos existindo abaixo da linha do horizonte, mundos estes separados pela água, conforme as imagens mais recorrentes.

Acima da linha do horizonte estão os vivos, que são negros*; abaixo da linha do horizonte estão os mortos, de cor branca, e uma multiplicidade de espíritos da natureza que povoam a esfera invisível do mundo.

Essa organização está expressa no signo da cruz: o eixo horizontal da cruz liga o nascer ao por do sol, assim como o nascimento à morte dos homens, e o seu eixo vertical liga o ponto culminante do sol no mundo dos vivos e no mundo dos mortos (o zênit visível e o invisível), permitindo a conexão entre os dois níveis de existência.

A ligação entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos, de onde vêm as regras de conduta e o auxílio para a solução dos problemas terrenos, como doenças, secas e o infortúnio de maneira geral, se dá por meio de ritos nos quais se evocam os espíritos e antepassados para que resolvam as questões que lhes são colocadas.

A cruz, no pensamento Bacongo, remete à idéia da vida como um ciclo contínuo, semelhante ao movimento de rotação efetuado pelo sol, assim como à possibilidade de conexão entre os dois mundos.

Segundo Fu-Kiau, o rito básico e mais simples a ser feito por todos aqueles que querem se tornar mensageiros do mundo dos mortos e condutores de seu povo ou clã é fazer um discurso sobre uma cruz desenhada no chão. Com isso, são frisados os poderes de todo chefe de fazer a conexão entre o mundo dos vivos e o dos ancestrais e espíritos.

Ao se colocar sobre a cruz, que representa o ciclo da vida humana e a divisão entre os vivos e os espíritos, o chefe afirma sua capacidade de fazer a conexão entre os dois mundos e assim conduzir de maneira adequada a comunidade que governa…”

(*Nota: “negro”, referindo-se à cor e não à raça, é bom frisar para os menos espertos ou mal intencionados)

1 “Evangelização e poder na região do Congo e Angola: A incorporação dos crucifixos por alguns chefes centro- africanos, séculos XVI e XVII”. Marina de Mello e Souza -Departamento de História /FFLCH/Universidade de São Paulo

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Muitos estudiosos da cultura bakongo hoje, já estão estabelecendo como se viu uma relação estreita entre este sistema filosófico ancestral e a quase imediata relação que este povo bakongo (o original) fez entre a cruz dos católicos e seu sistema filosófico. É bom frisar que esta relação – bastante plausível, aliás – é o argumento-chave utilizado para desqualificar a ‘africanidade’ dos povos bantu de certa parte da África, notadamente, no caso específico do Brasil, os próprios bakongo (e Kimbundos, e ovimbundos) propriamente ditos, enquanto povo ancestral da maioria dos africanos trazidos à força para o país.

Para estes racistas sutis, a África genuína, altiva, seria a estranha África ‘sudanesa’, Nigéria, Ghana, Dahomey, uma África cravejada de exotismo cultural, primitivismo e mistério em seus ritos ‘selvagens’, passíveis das mistificações que, por fim, se achou por bem banhá-la, redundando nas aberrações fake-antropológicas do cinemão de Hollywood e na adoção no Brasil de uma religião negra hegemônica calcada em crioulo-doidices bem constrangedoras, ridículas mesmo, um melê de referencias distorcidas, inventadas, do que seria a cultura negra ideal, reunidas neste Candomblé de falsas aparências.

Vão lendo aí e pensando sem simplismo barato, sem arrogância branca e, sobretudo não dando trela para a ignorância presunçosa dos ‘sabe-tudos’ de plantão.

Quando voltarmos o papo vai poder ser bem mais ‘buraco em baixo’, se bem me entendem.

Spírito Santo

Março 2011

Cadeia de memórias reparadas é um tenso fio

•29/05/2017 • Deixe um comentário

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Paulo Gomes Neto e Eu, amigos de cadeia, amigos para sempre. Ao fundo, entre nós, o  secretario de Direitos Humanos Antonio Carlos Biscaia, grande batalhador da reparação e do reconhecimento do valor de nossas lutas modestas, agora sim cobertas com alguma glória.

E eu, arquivo vivo vou queimando aos poucos

 …”Quinze minutos depois do avião da Cruzeiro do Sul levantar vôo do Rio de Janeiro com destino a São Paulo, no dia primeiro de julho de 1970, quatro jovens deixaram seus lugares e se dirigiram à cabina de comando. Lá foram breves: era um sequestro. Armados, eles obrigaram o piloto a voltar para o aeroporto do Galeão…

Quem sabe deste incidente aventureiro? É filme? É teatro? Não, foi fato. Foi sim. É que memórias são fios que se desfiam de um rolo para se embaralharem irremediavelmente, até não serem jamais meada nem medida, até não poderem mais ser enrolados em rolo algum.

A Reparação do irreparável Continue lendo ‘Cadeia de memórias reparadas é um tenso fio’

O Arrego. Crônica do Coletivo do pavor

•27/05/2017 • 1 Comentário

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Foi assim: Eu cochilando, na onda das cervejas bebidas no centro. Ônibus lotado, mas eu sentado no banco amarelo dos idosos, meu trono imperial.

De repente um reboliço explodindo. Ouvi, ainda meio cochilando uma ou duas rajadas de fuzil. Só aí me dei conta de que todos os passageiros (menos eu) estavam estirados no chão, uns sobre os outros, imóveis como mortos. Tentei deitar também, mas não havia espaço e, além disso meus velhos joelhos não dobram mais sem doer. Fiquei assim, ajoelhado, o medo dissipado pela visão inusitada, a cena surreal.

Cismei de fotografar. Porque não? _Rezar ou fotografar?_ cheguei a pensar. Mas que besteira! Nem sei direito como é rezar, entregar meu medo à deus? Isto não sei fazer. Se um tiro me pegasse, o que poderia de pior acontecer? Morrer? Ah…

O celular, dispositivo sensorial indispensável, memória portátil, caixa dois, auxiliar de pensamentos super indeléveis, logo percebi, é personagem importante nessas situações. Parece mórbido, puro sadomasoquismo, só que não.

Uns narram aos parentes, esposas e namoradas, o pânico em tempo real, em vídeo, outros tentam o consolo de dividir esse pânico com alguém de fora, numa conversa tensa de WhatsApp, o medo compartilhado numa rede social pirada e imensa, espalhando pela cidade num pânico sem sentido, pois, jogados no chão do ônibus, nenhum de nós, os narradores, vê nada do que se passa lá fora, além do som das rajadas dos fuzis automáticos.

A qualquer momento, uma ou mais balas disparadas, com direção ou à êsmo (como saber?) pode atingir o ônibus, matar alguém. _”Quem sabe flagrar um ferido agonizante e postar na página, ganhar mil curtidas?”_ Deviam pensar os mais sádicos…

_”Que não seja eu” _ pensei eu, contraditoriamente com o celular fotografando meus colegas reféns, aquele tapete de gente, cabeças e bundas largadas ao destino apavorante de, no prosaico e rotineiro desejo de voltar do trabalho para casa, chegar vivo ou, morto, nunca mais chegar.

O motorista, adrenalina á mil, como um pilôto de avião em queda livre, tentando comandar o terror dos passageiros, ali, diante do para brisa, tela panorâmica, de cara para a guerra suposta que as rajadas nos sugeriam. O pobre abria as portas para os que quisessem sair, mas logo, no meio de uma ensurdecedora gritaria, as fechava, rápido. É que havia em todos o pavor do ônibus ser invadido por garotos vândalos, com garrafas pet cheias de gazolina, saídos do nada que era o escuro e difuso interior da favela.

Mas não. Diante da gritaria dos deitados, uns pedindo que seguisse, outros pedindo que desse ré, o motorista percebeu que atrás dele, os carros todos haviam manobrado e fugido na contramão em desabalada carreira. Deu ré.

Escapamos por vielas e ruas desconhecidas, até que localizei a favela do Jacarezinho, nesse momento, tranquila. Me causava espanto também a entrada dos novos passageiros, do mesmo modo tranquilos, alheios, ignorantes do que havia acabado de ocorrer ali, no “coletivo”.

Só em casa pude me inteirar sobre o que havia, realmente ocorrido.

Deu em O GLOBO, a notícia oficial:

“…intenso tiroteio no Morro da Mangueira, na Zona Norte do Rio, assusta moradores da comunidade e arredores, na noite desta sexta-feira.

De acordo com a polícia militar, há uma operação em curso, comandada pelo Batalhão de Polícia de Choque (BPChq), e criminosos armados estariam resistindo à incursão policial. Pelo menos um deles já foi preso e teve sua arma apreendida. Estas são as informações preliminares divulgadas pela corporação.

Em meio ao confronto, os agentes vão contar com a ajuda de carros blindados.

O Centro de Operações da prefeitura do Rio informou que pode haver interdições na Rua Visconde de Niterói devido à operação policial.”
Logo desconfiei, na hora: “_Operação policial às 8 da noite, com o trânsito congestionado ainda, as pessoas voltando do trabalho? Não bate bem esta versão”

Até que deu numa conversa de whatsapp a notícia que me pareceu mais verosímil, a mais real e convincente.

“Sexta feira: Dia do “Arrego do Baile”, traduzindo: Dia no qual policiais militares incumbidos pelo comando do batalhão local, vão pegar a propina regular, cobrada pelo batalhão para liberar o Baile Funk.

Algum desentendimento ocorreu entre as partes e o conflito se generalizou. Segundo as mesmas fontes, blindados foram acionados para resgatar os policiais acuados na favela.”

Ah…Nem preciso comentar. Vocês sabem muito bem como contextualizar  esta narrativa, a moral dessa história.

Melhor assumirmos logo o nosso banditismo. Ele é, de cima a baixo, o modelo natural de nossa “Democracia”, nosso modelo de Governo.  O Brasil se embandidou de vez, “arregou”, a Constituição, o Poder e o Governo, são dos bandidos.

Que o piso do ônibus nos seja macio.

Spirito Santo
Maio 2017

Titio Congadeiro. O Objeto de Estudo no espelho

•12/04/2017 • Deixe um comentário

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A Pesquisa de Campo é a pesquisa de nós mesmos

 Nem me lembro a data exata. Final dos anos 1970, presumo, início dos 1980, no máximo, um ano remoto destes.Titio congadeiro em campo

Somos aí, na foto, parte do Grupo Vissungo, realizando pesquisa de campo sobre as congadas da região da cidade de Machado, Minas Gerais. Este já era o quinto ou sexto ano que eu frequentava esta “escola”.

Pesquisa de campo? Sim. Exatamente. A metodologia que o Titio aplicava, por pura intuição era a da investigação, digamos assim…orgânica, uma emersão profunda, absoluta. Entrávamos, ano após ano, gradualmente dentro da intimidade dos grupos, do que se chama hoje em dia de “objeto de estudo” até nos transformarmos, nós mesmos, também em parte integrante desse objeto. Metamorfose cultural, algo assim.

Pesquisar congada para nós não podia ser de outro jeito, enfim, que não fosse virarmos congadeiros reais. Dançar na festa, cantar e tocar no terno, beber a mesma cachaça, comer a mesma comida, viver a mesmo vida, tudo por tudo enfim

(Aí!…Saudades do torresmo)

Afinal, descendentes de gente igual àquelas que pesquisávamos, estávamos mesmo, no fundo, pesquisando a nós próprios, cumprindo nossa sina. Bem sei que os pesquisadores de hoje em dia – principalmente os doutorandos ou doutorados – abominam, subestimam – desprezam até – este método (o folclorismo) considerado empírico, impreciso. Devem ter até um nome bem depreciativo para definir esta técnica.

(Nem se tocavam – ou se tocam – que, necessariamente usávamos, como usamos até hoje muitas referências bibliográficas e que,  de empíricas as nossas coletas não tinham nada.) Geraram conclusões diferentes sim, é claro, tão divergentes que eram as metodologias.

Ah os preconceitos elitistas! Quanta ignorância!

Existe por aí até uma conversa – bem fiada para mim, aliás – acerca de um tal de “distanciamento crítico” que sempre me intrigou por sua impertinência. Ora, afinal gente normal interage, vive de intercâmbios, se relaciona de forma absolutamente natural e atávica, irreprimível, numa simbiose que está na própria essência (ops!) de nossa natureza.

Afinal não se trata de estudar uma colônia de larvas ou de formigas, ou mesmo estrangeiros “nativos” (como alguns antropólogos -ou etnólogos, difícil diferenciá-los- têm a coragem de denominar seus “informantes”). Somos gente investigando gente para nos tornarmos gente melhor

Deste modo presunçoso deles, quaisquer relações entre pessoas em pesquisas etnológicas presenciais, só fariam sentido se fossem distanciadas, olhadas de cima para baixo.

Ora, trata-se de uma metodologia dos primórdios da antropologia colonial (à época,  ainda sem nome), no tempo daquele colonialismo abjeto, do viajante cronista, “homem branco” eurocentrado – muitas vezes um naturalista, um padre catequista – estudando a alma do “bom” selvagem, do Ser nativo, para melhor dominá-lo.

Me ocorre também no contexto desta crítica, convenhamos hoje bem recorrente, que nem nos passava pela cabeça na época, refletir sobre isto, sobre este preconceito acadêmico tão esnobe e ignorante que grassa as ciências sociais de lá até agora.

É que nestes luminosos anos 1970, esta prática de músicos pesquisadores era a coisa mais comum do mundo (toda a nossa MPB dos anos 1960/70, foi baseada nesse conceito). Ninguém teria a pachorra nesta época de patrulhar, questionar a legitimidade de pesquisas independentes, subestimá-las, tentando enquadrá-las no caixotinho mofado da “norma culta”.

Havia também muitos pesquisadores independentes, conhecidos como “folcloristas”, uma técnica de pesquisa antropológica hoje abominada, desprezada pelos doutores mais convencionais, na qual a meticulosa coleta, o registro apurado das características dos eventos ocorridos no campo, a fisiologia da coisa mesmo, registrada ocorrendo ali, ao vivo, servia de base para todas conclusões futuras (inclusive às dos antropólogos esnobes de hoje.).

(Hoje – pasmem! – uma rápida visitinha de três, quatro dias num “sítio etnológico” qualquer, serve de embasamento para uma tese de mestrado inteira, algumas com quase mil páginas de texto)

Embora a antropologia brasileira tenha sido fundada nos anos 1930/40, por aí, a área estava ainda dominada nos anos 1970 por um bolorento beletrismo, ambiente no qual a chamada “pesquisa de campo” passara a representar um elemento de apreensão e construção do conhecimento, secundário, quase desprezível (um comportamento, aliás, que infelizmente predomina até hoje).

Prioriza-se isto sim, uma estranha proeminência do esoterismo da Filosofia europeia do século 20, a escrita de alguma sumidade da moda, cujas elocubrações, viram panaceia metodológica, ferramenta analítica preferencial, bula, para  todas as abordagens, todas as petulantes epistemologias a partir daí criadas.

Mas não éramos assim. Éramos  livres. Nenhum compromisso com os cânones nos mobilizava. Eles que se danassem.

Os seminários rolavam na Roça

Convidados pelos Capitães José Caixeta e Benedito Lourenço, saudosos mestres do terno de congada de São Benedito, levei neste ano para Machado os outros músicos do grupo Leninha Codó (à direita na foto) e Carlinhos Codó (á esquerda). Samuka de Jesuss, ao meu lado ao centro já desfilava desde de anos anteriores

Os instrumentos (dois alaúdes de cabaça, uma cuíca de tonel de cachaça e a minha primeira marimba) foi o Titio mesmo quem construiu. Muito me divertia ver o pessoal na rua ouvindo aquele instrumento tão africano e inusitado que era a minha marimba, terçando harmonias com os acordeões do terno de José caixeta.

Anos depois, pesquisando, descobri que marimbas, exatamente iguais à minha, haviam sido muito comuns nos ternos de congada da área do Vale do Jequitinhonha, MG, no século 19 (vejam a imagem)

1868. Congadeiros de Morro Velho, MG, com marimba. Foto de Augusto Riedel

Seriam insights de memória genética, cintilando em nós?

Sei lá. Só sei que ando agora compartilhando com os interessados o tanto que aprendi e registrei destas viagens memoráveis ao fundo de mim mesmo (meu livro “Do Samba ao Funk do Jorjão” foi cimentado com estas memórias amarradas por uma bibliografia possível.)

(Compre o livro em http://rosasespiritos.wixsite.com/vendas)

Auê, Zambi!

Spirito Santo

Abril 2014/2017

Spirito Santo e o Carnaval no “Stad di Min’s”. Estrevista para o Jornal Estado de Minas

•24/02/2017 • Deixe um comentário

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Entrevista para o jornal Estado de Minas, publicada no caderno “Pensar” de hoje, 24 de Fevereiro de 2017, em edição especial de Carnaval.

Spírito Santo
Músico, escritor e pesquisador

Por Pablo Pires Fernandes*

Músico, pesquisador e escritor de 69 anos, Spirito Santo é autor de Do samba do unk do Jorjão (http://rosasespiritos.wixsite.com/vendas) e profundo conhecedor da história do carnaval e das raízes africanas e cantos vissungos. O livro busca refletir sobre as origens do samba e sua evolução. Foi professor em Viena, na Áustria, e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), onde criou e coordenou o projeto de extensão Musikfabrik, de criação de instrumentos para jovens. Compositor e instrumentista, já gravou com Milton Nascimento, Wagner Tiso, Tetê Espíndola e Clementina de Jesus e produziu trilhas de filmes. Nesta entrevista, Spirito Santo aborda alguns temas sobre o carnaval e suas transformações.

Como se distingue a imagem do Brasil como o país do carnaval e o que a festa de fato representa para o imaginário nacional?

O carnaval brasileiro tem sim um certo grau de simbolismo na for- mação de uma imagem de Brasil no exterior e é, digamos assim, um “símbolo nacional” por excelência. Mas isso, além de óbvio, dado ao gigantismo do espetáculo e seu grande impacto na mídia in- ternacional, não é exclusivo do Brasil, pois existem carnavais em outros lugares do mundo que, do mesmo modo, desempenham mais ou menos este mesmo papel.

E penso que nós, brasileiros (o “imaginário coletivo da nação”) exageramos um pouco esta nossa projeção como povo supercarnavalesco diante do mundo. Algo a ver com a nossa autoestima em baixa, que precisa desse tipo de afirmação nacionalista? Assim, no que diz respeito à nossa necessidade compulsiva de ter alguma projeção no exterior, no mundo “civilizado”, seja de que modo for (reflexo do chamado “complexo do vira-latas” que nos caracteriza), em se tratando de carnaval (e mantendo o espetáculo no campo da nossa cultura), ao abusar da espetacularização exacerbada, utilizando elementos fake de uma suposta cultura popular – mal copiada –, optamos por mostrar o nosso pior lado, embora altamente comercializável.

Como o carnaval reflete a sociedade brasileira?

Uma manifestação cultural desse porte sempre refletirá o ethos de quem a pratica. Mas devemos combinar logo de saída o que a nossa sociedade é, o que um espelho franco refletirá sobre nós quando nos colocamos diante dele, nus. Somos uma sociedade altamente excludente, do ponto de vista social, muito dividida e, esse rosto pintado um lado de branco outro de preto não consegue nos mascarar, esconder o que somos, mesmo no carnaval.

O carnaval é uma das manifestações culturais mais antigas da humanidade. Historicamente, pode-se dizer – sem exagerar, é claro – que tem a vocação para ser uma das festas mais democráticas. Mas como dissemos acima, é uma festa que, por suas dimensões, tende a refletir as idiossincrasias da sociedade que a pratica. O carnaval é, enfim, a democracia expressa como farsa.

Então o carnaval mascara esta divisão e o racismo?

O exemplo está bem diante de nós. No Brasil, a história do carnaval sempre foi muito marcada pela nossa cruel estratificação social. Começamos o carnaval de rua ainda no século 19, com escravidão rolando. Era um carnaval de rua estritamente africano, do qual os brancos, pobres ou da elite, participavam apenas praticamente lambuzando-se uns aos outros com as brincadeiras quase domésticas do entrudo, enquanto as “bandas de pretos” passavam.

Nas ruas, o que rolava mesmo eram, portanto, os cacumbis carnavalescos, numa linha de tempo que avançou para os ranchos, trazidos por ex-escravos da Bahia, até chegarmos nas escolas de samba, nascidas nos morros e comunidades periféricas mais remotas.

Ora, são todas elas, manifestações seminais do carnaval carioca, festas de pretos. Fazer o quê?

Importante frisar também que a elite, a classe média “branca”, sempre se manteve afastada deste processo festeiro mais democrático, o das ruas e calçadas sujas, ora promovendo desfiles de carros alegóricos na Zona Sul (“grandes sociedades”) ora se emperiquitando nos seus nababescos carnavais privados em grandes clubes ou teatros. Logo, o carnaval sempre foi de todos sim, mas no Brasil sempre foi na base do “cada um no seu quadrado”, um carnaval apartado, elitizado.

Nesse processo, como vê as ideias de “contaminação” e “apropriação”?

Há sim, também no nosso carnaval – o que me parece o seu aspecto mais significativo, enquanto representação do que seríamos como sociedade – o aspecto da “apropriação”. Não há como um grupo de elite não cair na tentação de subtrair a cultura do outro, seu antípoda social, quando lhe falta uma outra cultura, própria, originalmente nacional, para mostrar ao mundo.

É como o retrato de Dorian Gray.

O processo pode ser muito bem observado na evolução das escolas de samba que, ao longo de seus mais de 80 anos de existência, de manifestação popular dos extratos mais excluídos e desprezados da sociedade (negros pobres, a maioria descendentes de africanos escravos), à medida que foram obtendo mais projeção midiática, se tornando mais espetacularizáveis (no mau sentido), mais foram sendo “ocupadas” também pela classe média “branca”, processo que se agudiza na virada dos anos 1970 com a gradativa exclusão de muitos dos manifestantes originais, para os quais a participação foi se tornando, financeiramente, até proibitiva.

O conceito “apropriação cultural”, por isso mesmo, me parece estar sendo utilizado de forma muito superficial em certos contextos (de maneira até irresponsável, às vezes), criando falsas polêmicas. No geral, se “apropriar” da cultura alheia é uma impossibilidade em termos. A simbiose cultural é algo próprio da natureza humana. Por bem ou por mal, como por osmose, as culturas sempre se imiscuirão, desde que em contato umas com as outras, desde que estejam geograficamente próximas.

E isso nem depende das pessoas, além do que – é importante frisar – sem importar nem mesmo a “cor” delas, a sua suposta “raça”, pois cultura, a expressão dos modos de ser de grupos específicos de pessoas, é um fenômeno atávico, espontâneo – embora nunca seja da conta da genética.

No entanto, precisam estar presentes certas circunstâncias expressas acima para que se considere a cultura – o carnaval no caso – como um bem democrático e comum a todos numa sociedade, e essas circunstâncias, infelizmente, não estão presentes no Brasil. A ausência desses fatores muda – e muito – o sentido que se deve dar, de forma mais precisa, ao conceito “apropriação”.

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É possível falar de uma divisão de classes no carnaval?

A distinção de “cor” é, sim, um problema candente neste caso. As distinções de classe, permitam-me, não podem ser categorias separadas no caso do Brasil, pelas tantas razões que mencionei. O não reconhecimento dessa circunstância sociológica cabal faz desmoronar qualquer análise que se pretenda séria.

A exclusão social no Brasil está firmemente assentada na exclusão “racial”, pois o Brasil é, histórica e inegavelmente, uma sociedade racista. É fundamental reconhecer essa nossa incômoda característica de uma vez por todas.

O principal aspecto do aumento da participação da classe média “branca” – da ”elite” em si – no carnaval de rua no Brasil, notadamente nas grandes cidades – Rio, São Paulo, Salvador, Recife, Belo Horizonte –, tem crescido e se afirmado, infelizmente, por meio do afastamento exponencial dos antigos manifestantes (pobres, negros, habitantes de comunidades periféricas). Trata-se, claramente, da substituição de uns pelos outros, da “apropriação” com o sentido mais de “expropriação” mesmo, em que a chegada de uns afasta, necessariamente, a presença dos outros. É uma questão de mutação territorial, portanto, agravada pelos programas de reforma capitalista do espaço urbano, que geram gentrificação progressiva, fator que impacta fortemente a cultura de um local.

Como ocorreu isso no carnaval do Rio de Janeiro?

O boom dos blocos de rua no carnaval do Rio de Janeiro, cuja maioria esmagadora de foliões, hoje, são brancos, foi um fenômeno projetado, planejado e bancado por estruturas de renúncia fiscal via Ministério da Cultura, patrocínios de cervejarias etc., recursos de patrocínio aos quais os desestruturados  blocos de rua antigos, tradicionais, a maioria sediados nos subúrbios, jamais tiveram acesso. Nesse processo – do qual fui testemunha ocular – intenso, a partir dos anos 1990, ligado diretamente à recuperação das áreas degradadas do Bairro da Lapa, muitas incursões foram feitas, muitos mestres de samba, do Rio, e maracatu, de Olinda, por exemplo, foram con- tratados para promover workshops, até que se chegasse a estas megaestruturas atuais, numa verdadeira transferência de know-how.

A entrada do mercado, portanto, favorece esse tipo de exclusão?

São processos de mercantilização naturais, típicos do sistema sob o qual vivemos, mas é preciso discutir os aspectos ligados o alto grau exclusão sociorracial, perfeitamente visíveis, gerados por esses processos de espetacularização seletiva.

Como se dá esta evidente exclusão de “não brancos” nos blocos? Que filtros são utilizados? São, como todos os organizadores inquiridos afirmam, fruto de uma opção dos próprios negros de não participar? Estariam esses blocos de “brancos” preservando a “cultura negra” abandonada pelos negros, que “agora só querem saber do funk”, como um desses organizadores me afiançou?

Esse é aspecto crucial da questão, fulcro desse fenômeno, que é típico da sociedade que forjamos: A exclusão sociorracial, que vai se manifestar em todas as instâncias de nossas relações sociais e vem tomando, no campo da cultura, a forma de “apropriação” no sentido lato, com finalidades deliberadas, nada naturais. É uma patologia sociocultural, para a qual eu mesmo cunhei a expressão “cultura negra sem negros”.

Não se trata, portanto, de “negros” julgarem que o carnaval, o samba (os turbantes, ou seja lá o que for) sejam seu patrimônio cultural exclusivo. Trata-se de essas pessoas – que também, convenhamos, mal compreendem o que está acontecendo –, se sentindo usurpadas, protestarem contra o que, para elas, parece ser uma expulsão de “sua” própria festa, alijadas para uma periferia (geográfica ou simbólica) cada vez mais distante, barradas no baile.

*A entrevista contou com a consultoria do professor da Escola de Música da UFMG Carlos Palombini.

Victor Gama – Cubango #1

•04/02/2017 • Deixe um comentário

25 e 28 de Outubro de 2012

O compositor, construtor de instrumentos, etnomusicologo e produtor Victor Gama viajou pelas zonas rurais de difícil acesso de Angola, gravando músicas que de outra forma nunca seriam documentadas, resultando no seu álbum / site Tsikaya:

Numa intervenção cubana em Angola ele colaborou com Bárbaro Martínez Ruiz e C. Daniel Dawson na feitura do livro do livro / CD Odantalán: Uma viagem espiritual à Mbanza Kongo.

Victor Gama, “Rio Cubango”, ao vivo no Concertgebouw, em Amsterdã

Seu Pangea Instrumentos inventado são baseados em princípios africanos tradicionais da construção do instrumento, e são tão bonitos a olhar a como escutar. Ele recentemente teve composições executadas pela Sinfônica de Chicago e pelo Quarteto Kronos. Ele tweets em https://twitter.com/victorgama

De seu estúdio em Lisboa, ele se sentou comigo durante duas longas sessões de entrevista em inglês via Skype.

NS: Qual é o seu passado?

VG: Sou de Angola. Nasci em Ndalatando, apesar de viver em Luanda desde tenra idade. Eu era de uma idade muito jovem fascinado e impressionado e, eu acho, inspirado por pessoas tocando instrumentos musicais.

O primeiro instrumento musical que vi sendo tocado ao vivo foi um hungu. Meus pais nos levavam a uma praia chamada Corimba, perto de Luanda. Havia este pescador que viria jogando um hungu. Agora, o hungu é geralmente aceito como sendo o pai do berimbau. Mas, também como o berimbau, existem vários tipos de hungu. Há um que é muito longo, com um arco muito grande. Tem um som muito profundo, e foi muito impressionante para mim. O som realmente me transportou. Eu provavelmente tinha seis anos, e eu iria andar junto com o músico ao longo da praia. Então essa foi uma das primeiras experiências que realmente despertou meu fascínio pela música e por fazer música, ou tentar fazer música. Felizmente, muito recentemente, como cinco anos atrás, meus pais estavam mostrando algumas fotos – algumas fotos antigas – e ali estava: uma foto deste pescador tocando seu arco.

NS: Como você se tornou um compositor?

VG: Eu sou mais ou menos auto-didata. Um dos meus primeiros instrumentos era realmente um rádio – um desses rádios que tem um tipo de olho, que é um cátodo – um tubo de raio-x, ou um tubo de cátodo – que ajuda você a sincronizar com a largura de banda, mas tem isso Efeito de luz. É quase como uma íris que está tentando se concentrar. E eu estava fascinado por isso, então eu também comecei a ouvir um monte de estática no rádio. E esse foi outro som que realmente me transportou.

Sempre associei música a viajar. Com longas distâncias. Então eu me tornei um compositor ou um criador de música, o que quer que você possa chamá-lo, tentando encontrar meu próprio som. Mas eu acho que na realidade sempre estive atrás desses sons iniciais que ouvi quando era criança, porque de alguma forma eles me trouxeram de volta para um lugar que eu me sentia muito confortável – um lugar que, eu não sei onde existe ou se existe, ou é um lugar de fantasia, ou um lugar imaginário. Eu sou dirigido por esta busca de um som que provavelmente me leva a esse lugar, talvez dentro de mim, então esse é provavelmente o impulso motriz para eu começar a criar música.

Isso me levou a desenvolver meus próprios instrumentos. Também porque eu sempre vi músicos em Angola, mas particularmente os músicos que trabalham em áreas rurais ou trabalham com instrumentos musicais tradicionais, fazendo os seus próprios instrumentos e criando as suas próprias afinações, ou adaptando as afinações existentes ao seu próprio estilo, ou a sua própria música .

Por isso, vou para o interior de Angola sempre para tentar encontrar músicos que ainda trabalham com instrumentos musicais tradicionais. Eu percebi que a idéia de um instrumento que tem um projeto fixo, uma afinação fixa que você não pode mudar – eu percebi que esse paradigma não era seguido por muitos músicos com os quais me deparei.

Então isso me levou a trabalhar com músicos que realmente têm a liberdade de mudar os parâmetros que são inicialmente dados, em um determinado instrumento ou em um determinado método composicional. De lá, eu pisei em um território onde há muito mais variáveis no processo de composição. Nos últimos 15-20 anos, comecei a trabalhar com essa idéia de que você pode realmente incluir a construçã, o desenvolvimento e design de instrumentos musicais em seu processo de composição, e considerar esses instrumentos, ou esses objetos, como um processo de escrita.

É um pouco como Bárbaro [Mártinez Ruiz] tem trabalhado com – o mpungu. Lentamente, aproximei-me do conceito de um objeto que transmite e recebe muita informação.

Houve um longo período em que você não podia simplesmente ir para o interior., e Angola tornou-se um pouco como um arquipélago. Você só poderia voar para certos lugares e nem mesmo sair do aeroporto, porque muitos dos pequenos aeroportos foram minados, todos ao seu redor. Então houve um longo período em que foi muito, muito difícil sair e visitar pessoas em suas comunidades.

Mas depois disso, comecei a ir – em 1997, durante uma breve pausa na guerra, e depois continuei na Namíbia, ao longo da fronteira com Angola, onde havia muitos e muitos refugiados angolanos vivendo lá, e por isso conheci alguns Músicos na área de Rundu, na Namíbia.

 
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