Butim:O derradeiro boletim da guerra


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Correspondente pede pra sair e sai batido, enquanto há tempo.

Já deu. Qualquer um com um pingo de lucidez que seja vai me dar razão.

A antena parabólica de minh’alma continua arguta – e atabalhoada como sempre – perscrutando tudo obsessivamente, mas convenhamos que não vale mais a pena – ou o risco – testemunhar. Para que? De que nos vale ser um ‘são tomé das letras’ na descrição desta guerra sem batalhas, se nem soldado – tampouco civil algum – está afim de crer no que está bem diante do nariz.

_”Pare o bonde! Quero desembarcar!”

Falo sério. A mim bastaria citar de passagem o que a antena perscrutou ontem mesmo – ou anteontem – no lapso de uma manhã apenas, para justificar o enfático pedido ao motorneiro:

_” Pare o bonde! Quero desembarcar!”

Na TV a repórter brasileira descreve a dramática situação do povo de Port Au Prince, Haiti: depois do terremoto, o cólera. Uma criança morta pela doença, entre os mais de mil mortos na conta da nação mais miserável do planeta, jaz numa pequena plataforma destas de depositar sacos de lixo, à beira da rua. Orientada por um soldado brasileiro a repórter veste o colete à prova de balas e o capacete azul das tropas da força de paz da ONU. Eles vão dar uma volta por Citè Soleil, a afamada e violenta favela haitiana.

Assim que desembarca do blindado a repórter é cercada por populares revoltados que cercam a mãe da criança morta, solidários. Um jovem em bom português aprendido com soldados brasileiros, explica que a mãe da menina morta tentou salvá-la, desperadamente, mas o posto de saúde da ONU há apenas 1 km dali, fora abandonado pelos médicos, amedrontados com os protestos da parte mais impaciente da população.

A câmera resolve fazer uma panorâmica da favela e a gente vê, logo de cara,  a enorme galeria de concreto da qual escorre uma cascata de esgoto infecto. Bastou olhar a galeria e juntar a imagem com aquela negrada toda que compõem a população do Haiti para concluir, como numa aturdida constatação deja vù:

_ “Ué!! Mas isto aí não é o Complexo do Alemão, gente? Esta não é aquela boca de esgoto por onde fugiu a bandidagem do CV?”

Não era não. O Haiti, todo mundo sabe, não é aqui.

Abandono a TV contrariado e decido folhear o jornal do dia. Fujo, é claro, das obviedades da guerra do Alemão, mas, não consigo. Os milhares de tabletes de drogas e armas apreendidas são esfregados na minha cara, mas não me convencem. São tomé teimoso e renitente que sou, chego a imaginar as várias e recorrentes maneiras que a polícia corrupta que nos serve teria de nos enganar (pura viagem de rebelde sem causa, concordo). E nem vou contar as tantas falcatruas oficiais que me ocorreram.

Mas compreendam, por favor, que para um velho e cascudo observador das coisas deste mundo, acreditar naquele ufanismo todo das imagens do pós-guerra do Alemão, de uma hora para outra, é dose cavalar, overdose, seria de uma ingenuidade pra lá de infantil.

Criancinhas aboletadas em tanques de guerra, arrancando lágrimas de crocodilo de repórteres dondocas (os coletes à prova de balas cada vez mais fashion – Dior, Vuiton, DasLu ? – sei lá) ávidas pelas mais miseráveis – e contraditoriamente otimistas – crônicas da favela ‘libertada’, desfiando assim rosários de loas à eficácia policial derepentemente surgida, assim do nada?

Ah!Vamos combinar: Ninguém em sã consciência acredita nesta história mal roteirizada. Todo mundo apenas anseia, almeja, quer acreditar e aí defende, aplaude, mas não acredita não. Finge acreditar.

Uma desconfiada sensação de insegurança é o que de mais sensato se devia sentir em meio a este turbilhão de notícias disparatadas e improváveis, gritadas por repórteres sensacionalistas, advogados de porta de xadrez tornados comentaristas, todos comprometidos com a audiência de suas redes de TV. Políticos clientelistas, comandantes de tropas nacionais de elite – raro trigo no joio – governantes oportunistas, pastores atrás de dízimos e fama, todos se assumindo ‘um-sete-uns’ da hora, com promessas e charlatanices de camelôs de tudo.

Tal e qual no terremoto do Haiti o mundo inteiro desembarcado no Morro do Alemão gritando para bandidos que ninguém mais vê:

_ “Perdeu! Perdeu! Pede pra sair!”

A banalização dos armamentos de guerra de ultima geração desmoralizada pela quase ausência de sangue e de inimigos numa guerra estranhamente desmesurada. A compungida fé das criancinhas miseráveis pinçadas pelas reportagens piegas nesta paz militarizada – muito mais do que esperança – me dá é frio na espinha (além de frias também, embora pálidas, premonições).

A reação ensandecida de amigos – e inimigos – nas redes sociais diante da minha – segundo eles – amalucada insistência em não me animar com as vitórias da guerra já me davam uma dica da anti-socialidade destas redes de laços de ternura tão fake e mal amarrados.Ô Raça!

Não foram poucos entre estes amigos os que, de um modo ou de outro, me deram conselhos cifrados, interessados em entender porque diabos eu me mantinha assim tão incrédulo e ‘do contra’ diante de tão ‘esplendorosa’ vitória das ‘forças da Paz’

Teria sido eu torturado nos tempos da ditadura – chegou especular uma amiga – e guardado o trauma do ódio cego às autoridades constituídas para sempre? Uma senhora infame e desconhecida, (oculta por um avatar sem rosto) via facebook estrapolou e chegou mesmo a me mandar a nada sutil mensagem:

_”Filho da Puta!”

Doeu. Tirando fascistas e oportunistas desconhecidos, teve gente até que, honestamente preocupada com a minha lucidez, me admoestou por telefone até, aludindo o risco terrível que eu corria de perder ‘toda a minha credibilidade na rede’ (como se redes virtuais fossem mesmo críveis) se insistisse em remar, de novo, contra esta formidável maré da unanimidade nacional.

“Só sendo cego ou doido” – berravam eles – para não enxergar a inegável euforia da população do Alemão e das demais favelas hoje controladas pelas ‘paradigmáticas’ forças de ocupação das UPPs como sendo um sinal de novos tempos de paz.

_ É a febre da guerra _ fui obrigado a concluir conformado, embora com a orelha a arder aquela urticária dos cri-cris renitentes.

Mas era aí, neste desassossego que eu ficava pensando, mais assustado ainda: Deus do céu! Como é que podiam, justo eles tão apopléticos, histéricos e ensandecidos que estavam (alguns pregaram, abertamente, como nazistas de Auschwitz, o fuzilamento sumário dos bandidos), me chamar de maluco?

Ah! E os jornalistas? Estes sim, vivandeiras de corte medieval! Eram eles sim, sem dúvida os destiladores do veneno que não parava de nos mobilizar a todos, de nos apavorar.

Uma carta atribuída ao Fernandinho Beira Mar, por exemplo, insinuava um namoro entre ele (e o seu CV) e os capi de tutti capi das milícias da cidade.

Na carta, num texto surpreendentemente bem articulado Fernandinho – o nosso inimigo número 1 – sugere ou ordena, sei lá, o seqüestro de autoridades para breve, com o propósito de libertar presos, entre eles o famigerado ‘general’ miliciano Batmam, braço direito dos irmãos Natalino e Jerominho, encarcerados na Penitenciária a Federal de Campo Grande (MS) junto com Beira Mar.

_” Não pensem que estou maluco. Estou ‘perpetuado’. Tenho que fazer alguma coisa.”_ Justificava-se Beira Mar.

Meiga e tranqüilizadora notícia, não é não? Sendo assim, não teríamos mais Comando Vermelho ‘puro’, como diziam os facínoras a nos aterrorizar. Agora seria o advento da era da ‘Milícia Vermelha’, as duas bandas podres da sociedade virando uma maçã envenenada só. A Big Aple do crime.  Uma promessa de evolução do caos.

Ai Deus do céu! E as notícias pinçadas aqui e ali, embaralhadas como cartas não paravam de anunciar um jogo de perdedores anunciados: Nós. Até as pequenas manchetes avisavam o pior: bananas de dinamite são achadas agora com freqüência inusitada, aqui e ali. Fala-se no roubo de um carregamento delas de uma pedreira de nossa região.

Um proeminente coordenador geral de uma super-mega-ong do Rio de Janeiro, voltada para a ‘inclusão social de jovens’, profundamente envolvida em parcerias com a Secretaria de Segurança do Estado, fez uma incursão nos meandros mais recônditos do Morro do Alemão, em pleno cerco, para tentar convencer os bandidos acuados a se renderem.

Soube pela TV que os especialistas chamam isto de ‘mediação de conflitos. Seria uma nova profissão? Mas já repararam que até nos filmes da TV esta função é desempenhada por funcionários do Estado, negociadores da polícia, gente credenciada? Viram que esquisito? Tá, mas deixa isto pra lá.

Os bandidos – que segundo este ‘mediador’ seriam mesmo 600, como a cifra oficial indicava – como já se sabe, não se renderam. Preferiram se escafeder. Tudo o mais é difuso nesta história. A narrativa da ação é um tanto holywoodiana, os dados contradizem as notícias dos jornais que sugerem que a maioria dos bandidos já havia desaparecido do Alemão muito antes do cerco. Quantos seriam? Onde estariam?

Mas o coordenador da super-mega-ong é enfático e incisivo. Em suas diversas entrevistas na TV ele afirma que, no momento de sua ação estaria inclusive ameaçado de morte, por algum dos proeminentes chefes daquela famigerada facção do tráfico (Comando Vermelho), segundo ele por ‘estar tirando gente do tráfico e provocando com isto muitas delações e informações sobre ações estratégicas da facção’. _” Foi a primeira mediação que fiz sendo, ao mesmo tempo, alvo”_ disse ele à imprensa, como um herói da guerra do Afeganistão.

(Ei, Padilha! Seria ele um candidato a personagem de um provável filme ‘Tropa de Elite 3’?).

Pulgas nas orelhas pensei intrigado: Será? Existiria nesta guerra suja a possibilidade de alguém manter contatos ‘limpos’ e tão estreitos com Deus e o Diabo? Um mediador de conflitos que tem parcerias com os órgãos oficiais de segurança poderia ter, ao mesmo tempo, o respeito e a confiança dos chefes de uma facção de bandidos desesperados?

Melhor deixar quieto, refleti. Por muito menos já me ficharam como maluco. Fiquemos por aqui então, olhando de longe, à margem das notícias embaralhadas, encerrando este derradeiro boletim de guerra com os sinais da alma assustadora das ruas, os vagos e prosaicos indícios que a nossa intuição, agora silenciosa, vai capturando aqui e ali.

————–

Circulo, por dever de ofício nos territórios de duas bandas emblemáticas desta guerra. Uma é a área de traficantes. A outra é a área de milícias. Faces da mesma moeda, ora pois. No complexo de comunidades sob o ‘jugo’ do tráfico onde freqüento ‘dia sim’, fotografei anteontem a meninada (faço musicalização com a garotada) posando com instrumentos musicais alternativos, feitos com materiais precários, catados no lixo, único material a que eles têm acesso: latas velhas de ‘nescau’ então viram alaúdes, tubos de PVC e garrafas pets viram clarinetes, por aí.

Na hora de editar a foto a surpresa: Um dos garotos, com um olhar irônico e um sorriso sarcástico traçado no rosto, havia posado com o clarinete em riste, simulando um fuzil Ar15 ou uma máquina mortífera destas aí do Alemão.

Corte rápido.

No outro dia – o‘dia não’- na área das milícias a sensação trocada: Como que inserido dentro de um filme com a imagem invertida, adentrei o portão da cerca gradeada que isola toda a comunidade, tenso como sempre. Outras crianças, iguais àquelas do outro lado da fronteira, talvez já me aguardassem.

A tensão freqüente me assaltava de novo porque, todo dia quando chego ali, ainda de manhãzinha, invariavelmente as pessoas, geralmente donas de casa, senhores aposentados ou desempregados, só me cumprimentam se eu insisto e mesmo assim sem me encarar.

Tento me aproximar com um olhar desarmado e simpático, mas não consigo desarmá-los nunca: desviam sempre os olhos dos meus, tensos e amedrontados, como se num simples cruzar dos seus olhos com os meus fossem ser fuzilados por alguma represália fatal. Como podia eu, um cara tão pacífico, parecer um vilão assim tão cruel para eles?

Com o tempo fui percebendo o contexto. A associação de moradores concentra a gestão de, rigorosamente todos os serviços daquela pequena comunidade, gaz, luz, correio, administração dos imóveis (aluguel, compra e venda, etc.) tudo. Um preço determinado é cobrado como taxa pela administração destes serviços. Reina, portanto a mais perfeita paz, o mais completo silêncio nestes lugares.

Presumo que julguem, que um velho negro magro, quase atlético, de boné sob os olhos, transitando impunemente por ali, só pode ser um bombeiro ou um PM destes, aposentados – ou mesmo expulsos da corporação – destes que estão proliferando por aí, a serviço de alguém controlando tudo – óbvio! – eu, funcionário ou assecla de algum outro terrível miliciano destes neo-ditadores que andam, sorrateiramente pela Zona Oeste da cidade.

A Ditadura em nós

De fato, nunca vou saber o real motivo daquele medo surdo dos moradores. Não os recrimino e na verdade – se vocês querem mesmo saber – os compreendo perfeitamente: Deve ser por conta da ditadura a que estão submetidos,uma ditadura seletiva, grande novidade, o must ainda secreto – e cada vez mais recorrente – da segurança pública nacional.

Tampouco saberei jamais de onde nasce a fé inquebrantável daquele menino da outra favela que, apesar de todo o ufanismo histérico e vitorioso dos repórteres de TV ainda assim se mantêm fiel ao heroísmo ambíguo e romântico de bandidos sanguinários, prestes a serem presos ou mortos num cerco ou numa emboscada do exército nacional.

Caixa de Pandora sem tampa, nunca descortina paisagem de Xangrilá. O futuro escapou por uma galeria de esgoto daquelas que ninguém sabe muito bem onde vai dar.

Como num relance de memória, algo daquela matéria que assisti pela manhã na TV sobre a nova tragédia do Haiti pisca pisca na minha cabeça. Nela, nesta imagem já corriqueira hoje em dia, a única diferença significativa entre a miséria do haiti de lá e o haiti daqui, salta aos olhos e faz barulho:

Haiti de lá: Cartazes e orgulho – sabe-se lá se organizado ou apenas desesperado – protestos veementes, faixas e tabuletas com reivindicações raivosas. Um mapa da Ilha Hispaniola (que sempre me intrigou) aparecia na tela, talvez explicando tudo. A ilha é dividia em dois países.

Num lado, a República Dominicana, terra ‘pacificada’ pelos norte americanos (como Puerto Rico) onde quase tudo há. No Haiti, terra de ex-escravos rebeldes e orgulhosos, terra sempre conflagrada e acossada por todos os flagelos deste mundo, nada há e, ao que parece, nunca haverá.

Haiti do Alemão: Conformada e submissa antes, sob o jugo dos bandidos e agora, aparentemente conformada e submissa também – e até feliz – com a ocupação das tropas federais, a população da favela forma uma ordenada e pacífica fila para pegar sacos plásticos com miseráveis sardinhas. Uma carga ilegal que foi apreendida por algum órgão de fiscalização municipal, e foi ‘caridosamente’ distribuida à população como doação das autoridades. Cena humilhante? ‘_Que nada!_’ dirão os ufanistas. _’Feio mesmo é roubar e não poder carregar!’

Ah, é? Então tá!

A moral desta história? Sei lá. Foi só um relance de pensamento que voou, que já esqueci. Não sei também onde fica a saída. Tenho até raiva de quem sabe.

Enfadado, cansado de ser julgado como maluco, o correspondente desta não-guerra eivada de exageros e hipocrisias, não quer mais se apoquentar e se aposenta, passando olimpicamente agora a se abster dos fatos  desta guerra.

Melhor tomar aquele ar fresco dos que não devem nada a ninguém, bêbado daquela merecida cerveja do entardecer, único troféu que realmente interessa aos  lúcidos e inocentes homens de bem.

Medida de segurança. Seguro de vida. Quem pariu Mateus que o embalance, não é o que diz aquele velho ditado?

Spírito Santo

Dezembro 2010

Kwame Opoku: A consciencia do homem é negra


Foto de Fernando Rabelo - Folha Press

Brasil e consciência negra.

(Para a africana Lucia Kudielela)

Há muitos anos atrás quando eu vivia em Viena Áustria, Kwame Opoku do Ghana, um grande e bom amigo que fiz por lá (na Europa, bem entendido), resolveu confessar toda a sua contrariedade com a insistência com que eu justificava coisas que não conseguira realizar no Brasil, alegando como impedimento incontornável o racismo.

Advogado na sede da ONU em Viena, velho adepto das grandes causas africanas de nosso tempo, tive a honra de admirar na casa dele, fotos suas com Amílcar Cabral, Nelson Mandela, Sam Nujoma e tantas outras enormes e memoráveis figuras do renascimento africano  as quais, de algum modo meu amigo esteve ligado por dever de ofício ou militância. Estar perto de uma pessoa associada tão diretamente à história moderna do negro africano me fazia ficar exultante. Sentia-me assim também muito próximo daqueles gigantes lutadores pela liberdade dos homens, orgulhos da raça humana, heróis da minha geração.

Mas demorei muito a assimilar a contrariedade de Kwame. Ela me constrangia e envergonhava bastante. Sentia-me enquanto negro brasileiro um pouco diminuído, num sentimento de inferioridade estranho para uma pessoa como eu que sempre se vangloriou de sua combatividade, seu engajamento político, de sua militância enfim.

Mesmo orgulhoso de, inusitadamente ser o professor de marimba africana de um africano real – Pasmem, mas é isto mesmo! – Bem antes de ser meu amigo, o já velho Kwame (desconfio eu um membro destacado de alguma casta da nobreza ashanti, segundo pude testemunhar numa festa de reverentes conterrâneos seus) fora educado num liceu de Accra, onde havia estudado piano. Um africano refinado como europeu, digamos assim, mais, sobretudo um africano com um recôndito desejo de aprender a tocar um instrumento musical de sua cultura ancestral.

Kwame comprou o instrumento que – imaginem!- eu mesmo havia fabricado no Brasil e  levado para Viena. Um ano depois  Kwame acabou se tornando meu aluno, numa inusitada relação cultural invertida entre um brasileiro afro-descendente e um africano ‘legítimo’.

Isto me animava e redimia um pouco, mas devo reconhecer que demorei algum tempo mais para compreender de onde vinha aquele sentimento de quase desprezo de Kwame pelas minhas lamúrias de negro brasileiro revoltado.

_” Há racismo lá no Brasil? E vocês, sendo tantos como são, aceitam?”_

Era esta a admoestação mais recorrente que ele me fazia, querendo dizer com isto que talvez nós estivéssemos sendo condescendentes demais, omissos demais diante das afrontas e impedimentos que o racismo nos impunha. Jamais consegui convencê-lo da força insuperável das amarras que nos tolhiam.

Jamais me recuperei daquela sensação de fera afrontada. Fiquei até hoje achando que talvez falte mesmo em nós, brasileiros – e isto estava explícito no sentimento honesto de Kwame, o africano – a  consciência do que significa ser mesmo um afro-descendente, um negro-africano desgarrado, além da vívida sensação que temos do estigma, da pecha de ignorantes, despreparados e submissos que carregamos nas costas.

Reconheçamos que só os nossos antepassados africanos, trazidos para o Brasil como escravos, manietados e subjugados pela força bruta, é que tiveram o direito de incorporar, de assimilar, de se curvar diante da opressão (mesmo fingidamente que fosse, saltando para trás como os capoeiristas negaceando o golpe) por necessidades de sobrevivência física.

Reconheçamos, sobretudo que, mesmo assim, mesmo podendo se acovardar diante da força bruta e da morte, muitos de nossos antepassados ainda assim, insubmissos morreram, lutando, apenas para nos legar as lições e o sangue de sua descendência.

Sei que são palavras amargas no dia em se deveria apenas  exaltar nosso orgulho, mas me ocorreu dizer agora mesmo que falta-nos talvez e ainda – a consciência negra plena e profunda – o traquejo para manejar ferramentas válidas da insubordinação e da revolta, a consciência ampla dos nossos direitos – não de negros tão somente, mas de homens – direitos básicos humanos enfim, ainda hoje quase que apenas concedidos por brancos ‘bons’, ‘solidários’ ou ‘piedosos’ – e muitos o são honestamente, coitados – e quase nunca conquistados pelo esforço organizado de nós mesmos, a reboque de nossas geralmente pífias lideranças, oportunisticamente aboletadas nos poleiros do poder.

Talvez falte a nós, negros brasileiros, o instinto africano de romper enfim, de uma vez por todas, com a escravidão emocional que ainda está entranhada em nós. A consciência de que, haja o que houver, façam o que fizerem para nos submeter, somos e seremos livres sempre sim.

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Depois desta estada em Viena – ironicamentea pátria de Adolf Hitler – trocando lições de negritude com Kwame Opoku, o africano, passei sempre a observar melhor a diferença sutil que existe entre ter consciência negra e ter a consciência de ser negro.

A primeira consciência (a de ter) reside na profunda e refletida compreensão dos valores morais, éticos, sociais, culturais enfim contidos na herança africana de irmãos na diáspora, a busca incessante pela essência de ter a África simbólica dentro de nós, de ter humanidade enfim, onde quer que se esteja neste vasto mundo. A consciência de si per si, de sermos nós mesmos os reis, cada qual com mais um rei seu na barriga.

A segunda consciência (a de ser) seria manter a alma inquebrantável, a consciência ideológica limpa, adquirida na convivência com a exclusão social reiterada e o racismo num país que tem negros, mas que também tem – fazer o que? – brancos, na busca de saídas para fazer a ‘coisa certa’ junto com a maioria – e não no oco de uma minoria ‘negra’ de ocasião, no convescote de uma casta sórdida – para romper as barreiras mentais de nossa submissão, daquela escravidão emocional que nos aniquila e avilta a todos.

A consciência sócio racial de jamais ficar trancado no gueto escuro de nós mesmos, na síndrome da dicotomia que, separando maquiavelicamente negros de brancos, perpetua  e legitima a desigualdade, assim justificada pelas alegadas diferenças de um – a branca elite – supostamente sempre superior aos demais – todos aqueles que não sendo brancos, passam a ser negros, simplesmente por exclusão.

A consciência plena de saber se colocar acima deste mundo de iniquidades que o racismo introjetou nas cabeças de nós todos, negros e ‘brancos’ do Brasil.

A consciência enfim de que, para todos os efeitos, o Brasil é essencialmente um país com negros, que só atingirá o ansiado sucesso de seu processo  civilizatório (como dizia o saudoso Darcy Ribeiro) no dia em que tiver consciência de sua natureza pan-africana, super humana  de ser, quando tiver, definitivamente se assumido  como Brasil brasileiro de todos nós.

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Nunca mais vi Kwame Opoku, o africano. Dele tenho notícias esparsas, sei, por exemplo, que se aposentou do trabalho na ONU. Depois que deixei de vê-lo muita coisa mudou. Mandela foi libertado, por exemplo.  A África do Sul virou uma grande nação. Angola caminha para isto, a África sofrida ainda em certos bolsões renitentes de ditadura e pobreza também e sobretudo, anda.

Desejaria nos Dias da Consciência Negra no Brasil que nós, os negros e os brancos deste nosso país de sonhos perfeitamente realizáveis e angústias passageiras, fizéssemos um exame de consciência e partíssemos para a luta às nossas próprias custas e riscos, certos de que assim –  e só assim – a vitória será certa.

Spírito Santo
Novembro 2010

Brasil Afro #03 – Ainda Palmares e um necessário parentese africano


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Clique na foto e a amplie. Fique chapadão como eu. Na gravura do pintor holandês Olferd Dapper, uma vista panoramica da incrível – e enorme – capital do ‘reino’ do Loango no século 17. O Loango era um sobado suserano (um reino menor e subalterno) do grande Reino do Kongo que, pode-se ver agora, devia ser muito maior do que imaginávamos.

(Leia os sensacionais posts #01, #o2 e desta série)

Se liga galera: Negros não nascem de pés de repolho

Eu sei. Promessa é dívida. Fiquei de desvendar um segredo crucial desta saga angolana no Brasil: O mito do menino Zumbi sequestrado.

Vou cumpri-lo, claro, mas me dei conta agora mesmo de que vocês estão – como eu estava –boiando totalmente nesta história, na História maiúscula desta gente preta que deu no que somos hoje todos nós.

Incrível, mas vocês não sabem de nada. Cegos em tiroteio. Também não é para menos: Ninguém se deu ao trabalho de colocar esta parte da nossa história num livro didático. Numa ou noutra tese de doutores ela está, mas quem lê teses de doutores? O certo é que – sabe-se lá quem – falsearam, forjaram e omitiram totalmente de nós alguns detalhes.

Negros não nasceram de pés de repolho, não é mesmo? Estamos aqui porque nossos parentes vieram de algum lugar.

Daí ficarmos assim, achando que nosso jeito africano de ser surgiu – sem desmerecer os silvícolas ameríndios que também somos – da improvisação, do atavismo de um bando de selvagens de tanga, arco e flecha, envolvidos em ritos bárbaros e trazidos à força para um ‘civilizado’ Brasil.

Mentira deslavada, sabe-se lá por quem lançada. E nem nos interessa mais saber por quê. Cuidemos de, cabalmente desmenti-las e pronto. Vocês verão que o segredo impressionante que estou guardando sobre a farsa do menino Zumbi sequestrado – o tcham tcham tcham tcham desta série – fará muito mais sentido depois deste mergulho na mais remota história de nós mesmos, negros e brancos do Brasil.

Não precisa nem dizer: Eu sei que você, brasileiro (ou angolano), estudou bastante história portuguesa no ginásio. Dom Sebastião, o venturoso, batalha de Alcacerkibir, sei lá, estas coisas aí bem ‘trás-os-montes’. É hora de perguntar então (pelo menos os brasileiros): Porque não nos ensinaram a história de Angola?

A hora é esta então: Em vez da história da nobreza portuguesa, coloquemos  em foco, aqui e agora, a história gloriosa de nossa própria e preta nobreza de descendentes de lá dos ‘trás-os-oceanos’.

Sim por que, no século 17 – época na qual o Kilombo de Palmares cresceu e prosperou – Angola e Brasil eram praticamente uma colônia só. Tudo nos unia, até mesmo as guerras. A maioria esmagadora dos negros de Palmares veio dos reinos do Kongo e de Angola.

Ué?! Não te contaram isto não?

Há um lençol pudico, uma névoa de censura envergonhada cobrindo o nosso espelho étnico neste em em muitos outros aspectos – e este é o tema central desta série de posts – nossa imagem africana real precisa ser revelada. Vamos pensar mais nisto então, enquanto corremos atrás do que nos diz respeito?

África. Século 12, 13, por aí:

Ndongo, reinos do Kongo e de Angola

Tendo Lukenyi Lua Nzama como mãe e Nimi a Nzima como pai, Nimi a Lukenyi, tido como o patriarca do povo Kimbundo, pelo que se conta, era um moço caçador que vindo dos lados do rio Kwangu se estabelecera com sua gente em Lemba, localidade perto do Matadi, bem próximo ao estuário do Rio Kongo. As migrações africanas que geraram o que seria mais tarde o império do Kongo, com um dos clãs chefiados por este Nimi a Lukenyi foram contemporâneas ás invasões bárbaras na Europa no século 14, mais ou menos na mesma época de Joana D’arc, na França.

Em Janeiro de 1482 D. João II, já entronizado como rei, ordena que o navegador Diogo Cão parta em viagem de prospecção e “descobrimento” da costa de África. Em 1483 ele chega à foz do Rio Zaire. Volta uns meses depois e se depara com muitos nativos com os quais não consegue estabelecer muita conversa, exceto sugerir que voltará daí a pouco tempo e que gostaria de conhecer o rei de todo aquele país. Deixa por lá desta vez quatro padres franciscanos com a incumbência de irem até onde reside o rei do lugar.

Em Abril de 1484 Cão sai de Lisboa para a segunda expedição a África. Nesta sua volta ao Kongo, aguarda por muito tempo pela chegada de padres que havia deixado na viagem anterior. Não há sinal dos franciscanos. Gente totalmente desconhecida para os habitantes da terra os padres haviam sido levados á presença do soberano local no interior da selva e de lá não puderam se afastar, segundo disseram mais tarde, por causa da enorme curiosidade dos nativos pelo que eles contaram acerca dos estranhos hábitos dos brancos, além da curiosidade que eles mesmos tiveram acerca dos hábitos dos nativos.

Deduzindo talvez (os textos são ambíguos quanto a isto) que os padres poderiam ter sido capturados ou mortos, Diogo decide levar como reféns em seu retorno para Portugal, um grupo de naturais da terra que, também por mera curiosidade, haviam entrado no navio. Os documentos afirmam que entre estes curiosos visitantes do navio, naturalmente uma expedição com o intuito de investigar quem eram aqueles homens ‘albinos’, estava Kassuta, o filho do atual soberano local, Nzinga Nkuwu.

Levados á Lisboa, direto para a presença do rei e, por conta do longo tempo da viagem, já falando alguma coisa de português, Kassuta, filho de Nzinga Nkuwu e seu séquito ficam em Portugal por cerca de dois anos, segundo os relatos portugueses sendo muito bem tratados na Corte de Lisboa. Bem vestidos á moda local e convertidos ao cristianismo, este embaixadores involuntários teriam sido encorajadas á servirem de intérpretes dos portugueses que os devolvem ao Kongo em 1487.

Desta vez Digo Cão é realmente levado á Mbanza Kongo (‘Mbanza’ significa ‘capital’ na língua local, o kimbundo) do que passou a ser conhecido como o Reino do Kongo. Recebido com uma grande festa, os portugueses reencontram sãos e salvos os quatro padres franciscanos. O rei do Kongo reencontra com muita alegria os seus compatriotas e seu filho que, embora vestidos de forma tão espalhafatosa, depois de encantados com a influencia dos costumes de Portugal, parecem estar muito bem.

Inicia-se assim, com pompa e circunstância, o que o historiador inglês Basil Davidson chamou de os ‘anos de provação‘ para o sudoeste da África. Em 19 de Dezembro 1490, o sucessor de Diogo Cão, Gonçalo de Sousa, sai de Lisboa para mais uma viagem à costa africana, mas morre a meio caminho sendo o comando entregue a Rui de Sousa.

A cronologia dos ‘anos de provação’ 1

A história africana desta época, no que diz respeito á nós, brasileiros, começa portanto em 1482 com o MweneKongo Nzinga a Nkuwu 2 (pai de Kassuta), reinando sobre a vasta região denominada Kongo no tempo em que o primeiro navegador português Diogo Cão, chegou ao Matadi. A era de Nzinga Nkuwu, batizado de D. João da Silva (D. João ‘Da Selva’), em homenagem a D.João II, rei de Portugal (o D.João ‘da Cidade’), como não poderia deixar de ser, foi marcada por muitos conflitos e divergências ligados a sua sucessão, demasiadamente influenciada pelo seu interesse pelas coisas de Portugal, fortemente defendidos por seu filho Kassuta.

É provavelmente este príncipe Kassuta que, voltando para o Kongo educado sob os moldes cristãos, maravilhado com a cultura portuguesa aprendida em Lisboa durante a interesseira hospitalidade do rei D. João II, quem mais tarde coroado como o rei MweneKongo Nzinga a Mbemba (D.Afonso I), transfere a capital (Mbanza) e inicia o sangrento processo de certa sujeição do Kongo aos interesses de Portugal. No ano de 1512 D.Afonso I, escreve ao Papa Júlio II, submetendo-se ao cristianismo e apresentando seu filho D. Henrique como seu representante.

As divergências internas suscitadas pela total submissão da nobreza do Kongo aos interesses de Portugal, acabou provocando um cisma de grandes proporções entre os reinos vassalos (comandados por membros da mesma família ou clã) e a população em geral. Duas correntes principais se formaram. A primeira, que era integrada por aqueles que aceitavam a influência estrangeira, queria modificar tudo no Kongo, suas instituições, sua religião, etc. e era comandada por Nzinga a Mbemba (o mais velho, segundo na linha de sucessão). A outra corrente, liderada por Nzinga A Mpanzu (o mais novo, primeiro na linha de sucessão) se esforçava então para combater tudo que fosse estranho aos costumes tradicionais da terra.

Nzinga a Mpanzu que é o herdeiro legítimo á sucessão do pai, assume o seu lugar mas é logo deposto pelo irmão Kassuta, com a ajuda de padres  jesuítas, agentes de Portugal. Nzinga Mpanzu acaba sendo expulso da mbanza (sede) Kongo, tendo que se refugiar no reino vizinho, terras do Muene Nsundi. Nzinga a Mbemba (Kassuta), já cristianizado, recebe então o nome de D.Afonso I e assume o trono ali por volta de 1506.

Nzinga a Mbemba não era simplesmente um rei subserviente, ele era na verdade um tipo ingênuo de visionário, que se julgando grande amigo de D.Manoel I, rei de Portugal – com quem trocava ampla correspondência, sob o tratamento mútuo de “Irmãos Reais” – imaginava poder obter certas vantagens comerciais e tecnológicas dos brancos.

Suas decisões devem ser compreendidas, portanto no âmbito de uma conjuntura política na qual alguns reinos que deviam vassalagem ao Kongo, conspiravam intensamente contra a liderança dele, Nzinga Mbemba, que acabou vendo na aliança com Portugal sua melhor garantia para manter e perpetuar seu poder. É neste contexto que Mbemba, ‘rei do Kongo’ chega a declarar numa carta á D.Manoel o seu desejo de obter a tecnologia para a construção de caravelas, com o fim óbvio de expandir suas fronteiras comerciais e se impor diante de reinos rebeldes e impérios vizinhos.

É assim que, mesmo tendo que enfrentar o agravamento dos conflitos daqueles que, além de questionar sua liderança, não aceitam de modo algum à sujeição da região ao estrangeiro, Nzinga Nkuwu aposta na sua trágica ligação com Portugal.

Diogo Cão volta ao Matadi outras vezes. Numa delas, em 1491, consegue penetrar nas terras do Reino do Nsoyo, vassalo do Kongo, onde convence o Mwene Nsoyo (título do governante local) das vantagens dele se converter também ao cristianismo para gozar da amizade e da gratidão de Portugal. Diogo Cão traz consigo desta vez muitos agentes de sua cruzada de dominação cultural, entre os quais alguns padres e aliados nativos (cristianizados durante o processo de cooptação da família real do Kongo), além de paramentos católicos em profusão. O Mwene Soyio e toda a sua família são então batizados. O Mwene Nsoyo recebe o nome de D. Manoel, cabendo a seu filho o nome de D. Antônio.

Nzinga Mpemba e a gênese do afro catolicismo angolano

A era de Nzinga a Mbemba é marcada também pelo aprofundamento da ligação da cúpula ou nobreza do Kongo com a igreja Católica Apostólica Romana, representada pelos interesses do Cardeal D. Henrique,  importante líder católico, jesuíta e senhor-mor da inquisição em Portugal e que, muito se empenhou junto a Santa Sé em Roma pela sagração de D.Henrique I, filho de Nzinga a Mbemba como bispo de Utica em maio de 1518 aos 23 anos de idade.

A extraordinária missão diplomática que leva o jovem de 18 anos carrega muitos presentes de marfim, peles raras e finos têxteis de ráfia do Congo e é acompanhada por uma comitiva trezentos e vinte cativos selecionados pelos portugueses.

A missão chegou á Lisboa de onde foi enviada, por terra, até a Itália, atravessando os Alpes á pé e chegando sã e salva ao Vaticano em 1513. O Papa Júlio II havia falecido sucedendo-lhe Leão X. que é quem em Maio de 1518, sobre a recomendação de quatro cardeais do Vaticano, consagra o filho do rei do Congo, como Bispo de Utica aos 23 anos de Idade. D.Henrique regressa ao Congo em 1521 do Kongo, morre em 1538.

A bem da verdade, esta política de colonização cultural, era levada a cabo no Kongo, não só pela coroa portuguesa, mas por seu agente principal: a ordem dos jesuítas, cujo objetivo central era montar na África missões semelhantes as criadas nas colônias europeias da América do Sul e tinha como estratégia essencial, fomentar a discórdia e desestabilizar a já combalida unidade entre os povos da região, afim de facilitar a conquista militar e territorial que se seguiria à dominação religiosa e ideológica da elite do Kongo.

Em nome da imposição de uma ordem cultural cristã hegemônica, uma era de cruel repressão ás práticas culturais tradicionais é empreendida pelo rei do Kongo, sob as ordens dos padres da ordem jesuítica dos e portugueses. Grande parte dos sacerdotes e médicos tradicionais (Ngangas e Kimbandas) é exterminada por meio de uma série programada de assassinatos. Uma longa série de conflitos e golpes de estado provocados pela inconciliáveis divergências entre sobas nacionalistas e a incondicional aliança do rei com os portugueses, lança o império do Kongo no caos.

A partir desta época, pelo pouco que se pode apreender a partir da enorme ambiguidade da documentação, o que se conhecia como Reino do Kongo passou a ser apenas uma espécie de protetorado português, com importância reduzida no contexto das lutas pela independência da região, posto que passou a ser ocupado pelo ‘Reino d’Amgola’, assim chamado pelos portugueses por conta do título de seus governantes: ‘Ngolas‘. Os títulos Mwenekongo (Rei do Kongo) e MweneNgola (rei do Ndongo) passaram então a se confundir. Os Portugueses e jesuítas que não se conformaram com esta nova  conjuntura ensaiaram um cruento golpe de estado, tentando devolver o poder a seu preposto rei do Kongo D.Alvaro I.

Ao que parece esta dinastia ligada a Ngola Ndambi (D.Alvaro I) é o clã mais importante da região do Kongo e do Ndongo, pelo menos até a morte de Nzinga Mbandi, a rainha Jinga (neta deste Ngola Ndambi) em 1663 3 . Pelo que se sabe até agora, o clã Nzinga do Ndongo assume o poder (tendo em alguns períodos total ascendência sobre o Kongo) a partir de Ngola Ndambi em 1570. Os documentos são confusos em relação a genealogia dos reinos do Kongo e Ndongo-Matamba (‘Reino d’Amgola’) nesta época. Ao que parece, alguns documentos omitem ou confundem o nome ‘angolano‘ de certos manikongos (que pertenceriam ao clã do Ndongo) com o nome de seus títulos nobiliárquicos na língua local (Kimbundo).

Ao que tudo indica portanto teriam existido dois períodos principais na história da região: Um no qual reis títeres de Portugal governaram o Kongo em crescente litígio com o clã do Ndongo-Matamba, e outro no qual os chamados Ngolas, ora se aliaram ora combateram Portugal, governando (ou tendo parentes governando) o Kongo como Manikongos de fato ou seja, o poder do império a partir de certa época, passou a ser (se já não era) exercido exclusivamente por membros de famílias oriundas do povo da região do Ndongo – Matamba.

O período de predominância desta dinastia relacionada ao Ndongo-Matamba, parece se acentuar quando o representante português Paulo Dias de Novais foi aprisionado e o golpe perpetrado pelos portugueses e jesuítas totalmente rechaçado pela população que, em 1568 numa espécie de guerra civil expulsou o Mwenekongo 4 , D. Álvaro I ,seus aliados e todos os estrangeiros para a ilha de Luanda no Reino de Angola na embocadura do Rio Nzaidi)

Novamente aqui, a grande confusão sobre os nomes de quem, efetivamente, governava o Kongo pode significar que o poder real na região estava sofrendo de muitos questionamentos e conflitos entre clãs e facções, podendo significar que conviviam num mesmo período reis do Ndongo (com algum tipo de ascendência sobre o poder no Kongo) e reis títeres, que tentavam governar o Kongo a serviço de Portugal.

Como o nome português destes eventuais reis títeres (principalmente os da dinastia dos ‘Álvaros‘) aparecem em alguns documentos como contemporâneos – ou mesmo homônimos- de supostos reis Ngolas do clã do Ndongo (o que ocorre notadamente com Ngola Nbambi e seu filho Ngola Ndambi Kiluanji Kia Samba), O mais provável é que tenham sido do clã do Ndongo todos os governantes da região compreendida pelos dois reinos, á partir da época de Paulo Dias e Novais.

Dois anos depois, logo após a tentativa de golpe por parte dos portugueses e dos jesuítas (1570), D.Alvaro I / Ngola Ndambi (ou Mpangu-a-Nimi Lukeni lua Mvemba) pede de ajuda ao rei de Portugal (D.Sebastião e ao seu tutor Cardeal D. Henrique, jesuíta e senhor-mor da inquisição em Portugal) que enviando prontamente 600 soldados comandados por Francisco de Gouvêa o recolocam no poder.

1575. Paulo Dias de Novais (que havia sido libertado) volta a Luanda. Havia assumido o poder o filho de Ngola Ndambi, Ngola Ndambi Kiluanji Kia Samba (ou, como o pai, Mpangu-a-Nimi Lukeni lua Mvemba) conhecido como D. Alvaro II. Ngola Kiluangi, liberta Francisco de Gouvêa, comandante da expedição que socorreu os aliados de Portugal, que estava também preso até então. Kiluangi também muda a Mbanza de Kakulo para o reino vizinho, o Mbaka e, em Junho 1575, manda uma embaixada de boas vindas a Paulo Dias de Novais.

Poucos anos depois, no entanto, pressionado pela grande insatisfação da população com os invasores, ele decide trair estes invasores, promovendo o cerco militar aos portugueses em Anzele em 1579. Em Janeiro 1584 chegam a Massangano os reforços militares e munições solicitados por Paulo Dias de Novais. 20 de Julho 1585 O Rei Ngola Kiluangi retira do seu acampamento de Cabaça. Ngola Kiluanji Kia Samba morre em 1587.

O próximo MweneKongo, filho de Ndambi Kiluanji e seu sucessor é Mpanzu a Lukenyi que assume o posto de MweneKongo sob o nome de D.Álvaro III, a princípio não ratificando nem derrubando os acordos anteriores, do mesmo modo pretendendo consultar a população. Lukenyi acaba  decidindo avisar ao Soba do Reino de Ndongo para tomar muito cuidado com os portugueses, pois eles querem mesmo é tomar o reino do Ndongo (Angola) e todo o império do Kongo para si. Uma guerra de libertação nacional se anuncia.

Reino de ‘Amgola’ e Palmares. Tudo junto e misturado?

Consideremos neste preâmbulo que, enquanto isso, no Brasil de 1597 já se falava no  famigerado Kilombo de Palmares.

O soba do Ndongo é Ngola Ndambi, também filho de Ndambi Kiluanji. Inicia-se assim, com a associação entre os irmãos Mpanzu a Lukenyi do Kongo e Ngola Ndambi do poderoso reino do Ndongo, uma nova era de resistência ao invasor português. No entanto Ngola Ndambi, segundo algumas versões após se ver acometido de problemas mentais, morre assassinado. A maioria dos relatos atribuem seu assassinato à sua irmã Nzinga Mbandi, filha de mãe Jaga (etnia também conhecida como Mbangala) com pai Kimbundo (Kiluanji). Jinga (Nzinga)é soba em Matamba, reino ao lado do Ndongo, que ela, após a morte do irmão, naturalmente anexa ao seu.

Acerca do shakespereano episódio que culmina com a morte de Ngola Mbandi, uma versão diferente da acima citada é defendida por Manoel Pedro Pacavira (escritor angolano e um dos biógrafos de Nzinga Mbandi), que sugere que o envenenamento teria sido instigado por uma concubina de Ngola Ndambi chamada Nda Kaniinii Ka Kiluanji, oriunda de Pamba (no Mbaka), apoiada pelos portugueses (que teriam sido os verdadeiros mentores do complô) com o objetivo de por como soberano dos Kimbundos um Ngola mais obediente aos interesses de Portugal. Auto proclamado Mwenengola, o filho de Nda Kaniinii foi logo deposto por uma rebelião popular que aclamou e entronizou uma mulher, sua irmã: Nzinga Mbandi.

Na verdade, ao que se sabe, o protocolo que regia a sucessão entre os povos da região – baseado em princípios matrilineares – era muito rígido. No caso, o filho da filha mais velha do rei Nzinga Mbandi (Jinga) teria que ser o sucessor natural. Morto este, por causas atribuídas ao irmão de Jinga, interessado em ser ele o sucessor, seria este o incidente cujo trágico desfecho, obrigou a ascensão da impressionante mulher que foi Nzinga Mbandi.

Jinga, contudo já havia aparecido na história um pouco antes como a carismática embaixatriz do reino do Ndongo que, a serviço do irmão (o mesmo a quem teria supostamente assassinado) vai a Luanda conferenciar com o governador português João Correia de Souza. Como era hábito na ocasião (e as circunstancias deste hábito são motivo de muita controvérsia) adota a fé católica e é batizada como Anna de Souza.

Um acordo de paz é firmado com os portugueses, mas não deve ter sido lá muito vantajoso para os do Reino e Angola, porque foi rompido assim que Jinga tomou o lugar do irmão morto. É assim, como soberana geral dos Kimbundos que Nzinga Mbandi comandará a luta contra o invasor português até ser provisoriamente derrotada em 1629.

Isolada no interior de Matamba, Jinga só reaparece em 1641, estrategicamente aliada aos holandeses, que haviam invadido as terras de lá como invadiram as daqui. Nos episódios que ficaram conhecidos como as ‘Guerras d’Angola’ muitos reinos e sobados de região se aliaram á Jinga, entre eles se destacaram, segundo os relatos disponíveis, Cassange, Cafuxe, Quijilo, Sambangombe, Calumbo, Molundo, Acamahoto e depois Quissama, além do próprio Kongo.

Mais ou menos desde 1616, quando Luiz Mendes de Vasconcelos assume, no lugar de João Correia de Souza, o posto de governador geral do ‘Reino d’Amgola’, guerreiros Jagas (Mbangalas) aprisionados nas guerras contra os portugueses, começaram a ser enviados para os canaviais de Pernambuco, no nordeste do Brasil. Sabe-se que foram quarenta os precursores do Kilombo de Palmares.

As pessoas deste grupo precursor que se embrenhou na Serra da Barriga no início do século 17, em algum momento anterior a 1630, muito provavelmente vieram de Angola, numa destas levas de prisioneiros de guerra. O certo é que durante todo o longo hiato entre 1629, quando Jinga se recolhe inativa às montanhas de Matamba e 1641, quando ela retoma decisivamente à guerra, aliada aos holandeses, prisioneiros de guerra jagas e kimbundo continuaram a ser mandados em massa para o Brasil pelos portugueses.

Na verdade todo este período das guerras anticolonialistas em Angola (1630/45) foi marcado, predominantemente, pelo translado para o Brasil de prisioneiros de guerra. Estando toda região em torno de Luanda (além do interior do Kongo) conflagrada pela guerra contra Portugal, empreendida, ao mesmo tempo, por sobas do Kongo e do Ndongo-Matamba (além de sobados aliados) e engrossada, a partir de 1641, pela presença de tropas holandesas, era evidente (não fosse fato histórico comprovado) que o fluxo convencional de escravos, antes preados ou vendidos por sobas locais, estivesse totalmente interrompido.

Desta feita, os escravos trazidos para Pernambuco passaram a ser, portanto de um tipo muito particular de gente: homens e mulheres adultos,  guerreiros experientes (talvez até mesmo alguns membros da elite ou nobreza do reinos daquele contexto territorial, de uma mesma área sociocultural portanto), aprisionados após batalhas e rapidamente recambiados para cá, separados como joio do trigo (deportados), segundo as duras leis previstas pela coroa portuguesa para o caso .

Uma espécie de elite, portanto. Com forte espírito de grupo. Este status de degredados, ‘prisioneiros de guerra’, obviamente muda totalmente a maneira de se encarar a organização social, militar e política o Kilombo de Palmares.

Unidos pelo patriotismo e valores culturais e históricos rigidamente estabelecidos; organizados, disciplinados e motivados pelas lutas nas quais estiveram envolvidos em Angola, consideremos, pois que foram estes escravos, que formaram a população que, por meio das fugas em massa passou a habitar a Serra da Barriga.

Consideremos do mesmo modo que, iniciando-se estas fugas já antes de 1630, estas pessoas tiveram muitas dezenas de anos para se estabelecer na região, criando modos bem articulados de vida, com amplas possibilidades de recriar inclusive, os elementos fundamentais de sua cultura original africana.

Entre 1641/42 o Mwenekongo Kimpaku (ou Nkanga-a-Lukeni, segundo alguns relatos) tratado de D. Garcia Afonso II (irmão de Jinga, pertencente portanto a mesma família real do Reino de Ndongo) reúne tropas com vários sobas vizinhos, entre os quais Nambua-Kalombe (que é preso é tem a cabeça cortada) para atacar os portugueses. Em 1646 Kimpaku reafirma a aliança natural com a irmã Nzinga Mbandi. Da aliança participa também o soba do reino de Nsoyo, segundo alguns relatos, tio dos dois e portanto, irmão (ou cunhado) de Ndambi Kiluanji.

As relações de parentesco entre estas figuras não são, absolutamente fortuitas. As regras protocolares de sucessão, descritas acima como sendo muito rígidas, determinavam papéis bem determinados para a filha do rei (rainha mãe, na prática, pois o próximo rei deveria ser, obrigatoriamente seu filho e para o irmão do rei cujo filho seria o sucessor na ausência do outro sobrinho do rei.

Estas regras, segundo indícios em documentos antigos, que remontam a fundação dos dois reinos principais da região (Kongo e Angola) foram criadas no passado bem remoto, por volta do século 12 ou 13, quando da unificação de povos que desceram do Camarões com os povos que já habitavam a área.

O que sugerimos, já de forma enfática é que com muita probabilidade, não haveria porque estas regras não serem repetidas no Brasil pelos líderes palmarinos, havendo inclusive fortes indícios de que eles pudessem ser, mais do que meros escravos aleatoriamente rebelados, criadores de formas de organização originais ditadas pelas circunstancias, ao contrário, um grupo cultural e socialmente articulado desde sua origem na África, quem sabe até mesmo (ainda que remotamente) de algum modo parentes entre si e das pessoas que compunham a casta dirigente nos Reinos do Kongo e de Angola.

Os ainda mal contados incidentes ligados a cisão entre os chamados ‘Zumbi’ (o jovem) e ‘Ganga Zumba’ (o velho) envolvendo o irmão deste conhecido como Ganga Zona (tio dos filhos de Ganga Zumba, portanto), sugerem um conflito de sucessão fortemente assemelhado ao que ocorreu com Jinga (mãe do sucessor natural) e seu irmão Ngola Ndambi (o usurpador), inclusive com o incidente do envenenamento, como vimos e a rigor uma prática bastante recorrente na história política dos reinos do Kongo e de Angola.

Instigante demais esta história não é não? Podemos depois de conhecê-la afirmar inclusive que, ao que tudo indica, será virtualmente impossível entender a cultura e a história do negro do Brasil sem mergulhar na história dos reinos do Kongo e de Angola dos séculos 15, 16 e 17.

Spírito Santo

Julho de 2006 (com ligeiras revisões em Novembro 2010)

Leia aqui no link o post final desta série

 

 

Brasil Afro #2 e o Zumbi fake book


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Palmares revisitado

(Leia também – e logo – os posts #01 e #03 desta série)

Há poucos anos atrás, numa solenidade festiva em Brasília na sede da Fundação Palmares (como se sabe, uma instituição do governo do Brasil voltada para a cultura dos afro descendentes) resolvi prestar mais atenção numa apresentação gravada que sempre , algo incomodado, ouvia meio assim por alto, nas solenidades da entidade pelo Brasil a fora. Nela, na tal apresentação, um locutor repassava com a voz empolada de civismo o que seria a história oficial do grande líder da nosso maior e mais perene complexo de cidadelas de escravos rebelados: Zumbi de Palmares:

“… Embora tenha nascido livre, (Zumbi) foi capturado quando tinha por volta de sete anos de idade. Entregue a um padre católico, recebeu o batismo e ganhou o nome de Francisco, aprendeu a língua portuguesa e a religião católica, chegando a ajudar o padre na celebração da missa. Porém, aos 15 anos de idade, voltou para viver no quilombo.”

(História oficial de Zumbi de Palmares. Vários autores)

O incômodo um belo dia deu lugar ao susto. O insight chegou como nos chegam todos os ‘eurecas’ desta vida: uma luz imaginária piscando, piscando e logo se acendendo, ardendo os olhos e a cuca, quase queimando a nossa mufa. Caramba! Como não havia me dado conta daquilo antes?

(Na verdade já me dera conta sim, mas ressabiado, precisava juntar ainda alguns cacos, mesmo embaçados que fossem, alguns poucos subsídios teóricos para poder duvidar, questionar com propriedade. Temia que me tomassem por doido varrido ou delirante, como sempre fazem nestas horas os patrulheiros ideológicos de ocasião. Faltava o ‘eureca’ crucial e inquestionável).

Podem dizer então que tudo começou com um surto de rebeldia adolescente ou algo assim bem intempestivo, mas convenhamos que é isto mesmo que agita e move o mundo de lugar. A insubmissão e o questionamento, o arroubo quase infantil de criancinhas ‘pé no saco’:

_ O que, Tio? Por quê, Tio? Pois sim, Tio! Como não, Tio?

Estas coisas surgem de repente, mas amadurecem como qualquer fruto. Afinal foram muitos anos chafurdando livre e empiricamente, neste esmiuçamento ‘cri cri‘ de detetive forense de série de TV, fuçando estas coisas enrustidas da cultura negra do Brasil.

Pulgas atrás das orelhas. Fazer o que?

Uma pesquisa insana, em suma – todo mundo que mexe com isto sabe – porque as perguntas são milhares, mas a maioria das respostas não estão, absolutamente onde deveriam estar, muito menos nos livros de história do Brasil

Ah…Se tudo na velha fosse bonito como o arco dela!

A enormidade da surpresa, esta sim, precisava ser explicada. Ora, o problema era que a versão da história de Zumbi de Palmares – acatada como oficial pela maior e mais referendada entidade de cultura negra do país – tinha todos os elementos de ser totalmente inverossímil, infundada, falsa mesmo, como conversa pra boi dormir ou aquelas histórias do arco da velha.

E vejam só meu dilema: Como embasar um ponto de vista assim tão iconoclasta, propor uma revisão tão paradigmática, diante de uma versão profundamente estabelecida como verdade absoluta, corroborada por livros e mais livros (alguns até mesmo escritos por mui eminentes historiadores negros do Brasil) jamais questionados nestes termos. Como desmontar uma versão mítica, supostamente heróica, incrustada na mente de – quase – todos nós por meio de séculos de incansáveis reiterações?

Difícil, não é não? Mas sério, gente! Juro que posso explicar – provar – cada tim tim mal ajambrado desta história.

E o pior de tudo – e não há de ser nada – é que terei de fazê-lo quase sem nenhum livro brasileiro conhecido em que me basear. Existem sim revisões da história oficial do negro no Brasil, mas são abordagens, do ponto de vista crítico, muito tímidas, a maioria resgatando ainda muito vagamente a importância da cultura bantu. Diretamente sobre o Quilombo de Palmares, contudo, neste foco em que decidi abordar o tema, rigorosamente – e isto foi uma surpresa absoluta para mim – nenhum trabalho com informações realmente novas foi encontrado.

O que me queimava a mufa é compreensível que seja aceito por pessoas comuns, mas de modo algum poderia ter sido corroborado por argutos historiadores. Este ‘plot’, este leit motiv, este cerne do argumento da história nunca lhes pareceu conhecido não?

Um ‘Story Line’ fajuto:

“…Aprendeu (Zumbi) a língua portuguesa e a religião católica, chegando a ajudar o padre na celebração da missa. Porém, aos 15 anos de idade, voltou para viver no quilombo.”

Nossa senhora! Isto é um mito completamente cristão, não é não? E o que é pior: Ela, esta versão oficial da história de Zumbi de Palmares, na verdade ofende e desmerece a memória dos quilombolas (e em conseqüência a memória das lutas e anseios de todos negros do país) sabem por quê? É que em seu argumento central ela sugere, quase afirma que, para que o Quilombo de Palmares alcançasse o sucesso político e estratégico que alcançou, foi necessário que o seu líder máximo – Zumbi – fosse formado, educado como branco (aculturado, melhor que se diga) por um padre europeu.

Nada contra a civilização cristã ocidental, mas vamos e venhamos, aquele pessoal de Palmares descendia de gente com séculos e mais séculos de história original. África, gente! Parem para pensar: O berço da humanidade. Se tocaram agora?

O recorte do herói mítico que, tal qual um Jesus Cristo ‘black power’ ou um Moisés negão eleito por Deus para salvar seu povo é altamente popular, mas convenhamos: carece de sentido naquelas e em quaisquer outras circunstancias em se tratando da história transatlântica de um povo africano, de cultura tão diversa da dos europeus.

As perguntas que me incandesceram mufa foram, portanto as seguintes (perguntem-se vocês também, se de mim duvidarem, mesmo que por um instante):

1- Seria historicamente comprovável a hipótese de um menino, descendente do principal líder do quilombo de Palmares ter sido sequestrado sem que ninguém se desse conta ou comunicasse o fato?

2- Seria possível a criação e a manutenção por quase um século de uma experiência política e estratégica tão exitosa como foi o Quilombo de Palmares, por parte de milhares de negros escravos, sem que estes se baseassem em sólidas referencias anteriores de organização social, comunitária e militar – regras rígidas de sucessão inclusive- ligadas ao seu mais que remoto passado africano?

3- No contexto de uma sociedade com semelhantes características sócio históricas, teria sido possível um menino negro aculturado, com identidade ou origem genética impossível de ser estabelecida, educado por um padre católico, assumir aos 15 anos (ou 20, tanto faz) o comando de um articuladíssimo e eficiente conjunto de cidadelas rebeldes?

Nenhuma destas hipóteses – pasmem – podem ser comprovadas, carecendo, portanto, totalmente de fundamento. Na verdade, se formos nos basear numa pesquisa mais aprofundada (como esta que estou propondo aqui) todas estas hipóteses, com toda certeza terão que ser declaradas mera e rasteira ficção historiográfica.

É o que devíamos fazer. E logo.

Bem, isto tudo é para explicar que este artigo é apenas uma introdução a uma pesquisa independente, talvez solitária e ainda em curso e que vai precisar de outras evidencias para ser considerada inquestionável, mas que já pode ser lançada por aí . Sim, porque é por aí mesmo que a História real avança: aos trancos e barrancos, pelo caminho das pedras.

Só um aspecto a historiografia brasileira terá que aceitar como falha flagrante e indesculpável de sua metodologia: A maioria esmagadora dos títulos a que tive acesso para embasar meus pontos de vista sobre estes incidentes que ligam, indelevelmente à África ao Brasil, apesar de estarem facilmente disponíveis aos especialistas interessados que poderiam ter proposto teses e livros a partir deles, são quase todos absolutamente estrangeiros (europeus e africanos)

Respondendo à perguntas pra lá de cabulosas

As cartas do padre Antonio de Melo

”…O padre não tratava o pretinho como escravo. ’O padre criou o menino, batizando-o como Francisco. Com a educação recebida, aos 10 anos já sabia latim e português e aos 12 era coroinha. Em uma carta, o padre refere-se ao menino como dono de um “engenho jamais imaginado na sua raça” e que bem poucas vezes encontrara em brancos. Certa manhã do ano de 1670, então com 15 anos Zumbi resolve se emancipar e parte em busca de seu destino, viver com os negros de Palmares…”

             (História oficial de Zumbi de Palmares. Vários autores)

Nada foi encontrado nos documentos oficiais analisados sobre nosso herói negro mais recorrente, personagem de tantos sambas-enredo, Zumbi de Palmares, que comprovasse a veracidade de dados desta sua suposta biografia, contidos na versão insistentemente aludida pela maioria dos autores que trataram do tema e admitida, até mesmo, como disse acima, pelo movimento negro e todos os órgãos oficiais interessados na superação do racismo no Brasil.

Dos muitos filhos, netos ou prováveis sobrinhos de Ganga Zumba identificados e citados nos documentos portugueses e holandeses da época, existem pelo menos quatro filhos adultos que teriam sido presos ou mortos (Zambi ou Zumbi, Acainene, Acaiuba, Tuculo) há também o líder do mocambo Acotirene, que deve se referir a mais um membro da família de Ganga Zumba, o rei, filho mais velho de Aqualtune, a rainha-mãe.São citados ainda por outros autores Zangui, Maiolo, Engana Colomim, Camoanga, Cabanga, Gone, Gongolo, Quiloange, Quissama, todos líderes de mocambos (e observem nos negritos como é bastante recorrente a semelhança fonética entre a maioria dos nomes e os vocábulos ‘Nkanga e Nzambi‘ ).

Observamos também a ocorrencia de nomes comuns em Angola – como Kiluange, por exemplo – que remetem ao nome de um grande chefe angolano – Ndambi Kilwange, ‘manikongo‘ líder da guerras contra Portugal no século 16 e que, segundo algumas fontes era o próprio pai da Rainha Jinga.

A grande questão é que, a julgar pelo cruzamento dos dados extraídos de documentos da época disponíveis, principalmente relatórios de expedições invasoras, nenhuma entre estas quase 20 pessoas pôde ser associada, da forma mais remota que fosse, àquela criança descrita nas supostas cartas do padre Antonio Melo.

…” muitas entradas, de fato, se fizeram aos quilombos a partir de 1654, ano da expulsão dos holandeses, até 1657, mas, cronologicamente, não se sabe a data certa em que elas se realizaram ou por não ter havido diário de operações, ou por terem eles se perdido…”

(Trechos de um relatório de expedição contra Palmares extraídos do livro de Mário Martins de Freitas “ O Reino negro de Palmares”, Biblioteca do Exército Editora, Rio de Janeiro 1988.)

…”Depois vieram as expedições comandadas pelos holandeses Rodolfo Baro (1664) e João Blaer (1645). Em seguida, o governo de Pernambuco passou a tratar Palmares como um “caso de polícia”, adotando medidas mais “enérgicas”, comandadas por militares locais, as expedições ocorridas nesse período foram, segundo o autor, maiores, mas não atingiram os resultados esperados, tendo acontecido, inclusive, um período de “trégua” entre 1667 e 1671”.

(Laura Peraza Mendes – ‘Guerras contra Palmares: um estudo das expedições realizadas entre 1654 e 1695’)

Existe num documento uma alusão a dois filhos de Ganga Zona (irmão de Ganga Zumba) que teriam sido adotados pelo governador da capitania no ato da ratificação do acordo de Cacaú e batizados com o sobrenome do governador Aires de Souza Castro, mas nada indica que fossem adultos ou capazes de, logo a seguir, assumirem a função de Nkanga a Nzumbi, ou qualquer outro posto relevante no quilombo, cuja atribuição, sabe-se hoje, devia obedecer à práticas socioculturais africanas, pelo menos da maneira como supomos, também vigentes na sociedade de Palmares na ocasião.

Como nos dão conta diversos documentos consultados acerca da similaridade óbvia entre os hábitos sociais dos Bakongo e Kimbundo do Reino de Angola e do Kongo nos séculos 16 e 17 e os dos quilombolas de Palmares, existiram vários indivíduos que, com nomes ou funções precedidas pelo título Nkanga (a confusão semântica com o vocábulo ‘Nganga’ /’senhor’ é muito recorrente)  como reparamos anteriormente, foram realmente chefes de alguma localidade ou exerciam alguma função importante no complexo de quilombos (Nganga Zumba, Nganga Zona, Nganga Muissa, etc.). Neste sentido, em nossas prospecções a palavra Ganga Zumba parece ser mesmo uma expressão genérica, diretamente originada de…

Nkanga a Nzumbi.

Nkanga (Nganga) = sacerdote, sagrado, Santo

Nzumbi= entidade, fantasma, Espírito =

Espírito Santo.

A tradução literal do termo Nkanga a Nzumbi (termo do kimbundo angolano) vocábulo que pode, mais acertadamente estar relacionado ao personagem Zumbi de Palmares, poderia ser portanto Espírito Santo.

_Como assim, Spírito Santo?_ Dirão vocês.

Calma! Surprendam-se sem pudores. Eu também fiquei surpreso – na verdade ‘chapado’ – com esta estranha conclusão’, mas como naquele aviso de filmes ela não passa de mera coincidência.

O nome (‘Nkanga‘) seria uma espécie de título de origem com toda certeza católica – daí a coincidencia – que supomos estar fortemente relacionada a alguma linhagem de inspiração jesuítica de reis ou sobas – ‘Manikongos’ – cristianizados, iniciada em época remota (que poderia mesmo remontar ao século 16) e que identificaria o ‘rei’ ou chefe com poderes religiosos e militares, francamente utilizado em algumas culturas do Reino do Kongo (e também no Reino de Angola) ainda durante este período.

Aliás, isto pode ser constatado facilmente analisando a lista dos mandatários dos reinos do Kongo e de Angola do século 16 em diante.  A quantidade de ‘Nkangas‘ na lista é impressiomnte. O fato de se usar a mesma palavra para definir ou ‘sacerdote‘ quando se referindo a ‘padre‘ (católico) é também uma eloquente evidencia a nos encaminha para estas conclusões.

Segundo esta regra protocolar, portanto, todo supremo mandatário poderia ser reconhecido pelo povo como um ser divino, possuidor de poderes – e obrigações – religiosas, conceito africano original, que teria sido mantido vigente (reciclado, sincretizado) mesmo após a cristianização da aristocracia congoleza ou angolana de então (com os termos católicos traduzidos  para o kimbundo local) e, deste modo transplantado para o Brasil de Palmares.

O fato é que se a rigor (como acabamos de constatar acima) não existem informações documentais confiáveis (o menino, futuro Zumbi, supostamente sequestrado teria nascido entre 1655 e 1662) acerca das fracassadas expedições ocorridas contra o Quilombo de Palmares entre 1654 e 1662 .

Logo, se teria havido pouco depois  desta época ‘um período de “trégua” entre 1667 e 1671 (pouco se sabe sobre os anos entre 1663 e 1666) de onde teria, vindo as recorrentes informações que dariam conta de que um filho do rei Ganga Zumba, recém nascido ainda (ou já com 7 anos de idade) teria sido sequestrado nesta ocasião? Ao que parece, tudo se origina mesmo – sem querer desmerecer a renomada fonte – da seguinte enganosa revelação:

“…E por isso teria havido tantos Zumbis. Eu efetivamente entendia que não. Até que um dia, por mero acaso_ e a pesquisa histórica depende muito de sorte também e do acaso , eu encontrei uma consulta do Conselho Ultramarino, órgão de assessoria ao rei, em que se dizia ao rei que todas as certidões que diziam ter sido morto um Zumbi eram falsas, forjadas para que os chefes das expedições recebessem as mercês do rei. Verificou-se que Zumbi continuava vivo. Este foi o ponto de partida para estabelecer a identidade de Zumbi. Até que encontrei as cartas do padre Antonio Melo…”

(Decio Freitas, autor de “Palmares, a guerra dos escravos” em entrevista á ‘Folha on line Brasil 500’.)

A respeito precisamente do heróico personagem a quem as cartas citadas acima se referiam, há que se considerar que diversos relatórios militares da época já haviam sido unânimes em atestar que este ‘Zumbi‘  já estaria ativo em Palmares, em época mesmo anterior ao acordo de Cucaú datado de 1678 (tendo sido inclusive ferido em combate). Havia até um mocambo com o seu nome (Zambi ou Zumbi), o que seria, naquele tempo, o mesmo que dizer: habitado e comandado por ele.

O fato é que não existem fundamentos nem provas documentais para confirmar, em qualquer um de seus aspectos, a fabulosa história do padre Antonio Melo. A sustentá-la apenas o beneplácito dos pesquisadores diante de hipóteses tão infundadas quanto providenciais a certos setores do pensamento acadêmico brasileiro – e talvez resida aí alguma eventual intenção oculta nas supostas cartas- para quem, ainda hoje, faz sentido a pergunta que até hoje não quer calar:

Como o negro escravizado no Brasil, não tendo passado, origem, nem história, poderia constituir e manter durante tanto tempo, uma sociedade tão complexa e, em sua conturbada época, tão estável e perene quanto foi o Quilombo de Palmares?

Tentando explicar o que a ingenuidade etnocentrista, infelizmente julga inexplicável até hoje, um documento chegava a especular:

”…Tal habilidade aparecerá nas paliçadas e fossos, feitas em torno do quilombo, com paus pontiagudos colocados para matar invasores, e aí já estamos 1694. Zumbi, portanto, tudo indica, nasceu livre. Não fica claro se o padre que criou Zumbi conheceu, leu, as grandes utopias (e se informou sobre aquilo a Zumbi) dos grandes escritores do passado, tais como: Platão, com a sua República, antes da era cristã; Thomas Morus (More), com a sua Utopia, 1478 / 1535 ; Tommaso Campanella, com Cidade do Sol, 1568 / 1639 e, finalmente, Francis Bacon, com Nova Atlântida, 1561 / 1626. Saliente-se, aqui, que as obras acima citadas foram sobre maneiras de se organizar um Estado, e nada tinham de inocentes, e lidas no mundo inteiro”

O ‘Segredo’ da Condessa Schönborn

O argumento da história central, aquela que gera todas as outras versões sobre as cartas do padre Antonio de Melo (muitas delas acrescidas de detalhes que não se sabe bem de onde surgiram) parece estar baseado na mera suposição (uma lenda urbana da época, talvez apócrifa), de que certo padre de Porto Calvo teria escrito uma ou duas cartas contando a saga de uma criança negra sequestrada numa expedição contra o quilombo em 1662 (certos autores, sem nenhuma evidencia apresentada – talvez fazendo ‘contas de chegar’ – falam que o fato teria se dado numa expedição em 1662).

“…Durante uma expedição contra Palmares, comandada por Brás da Rocha, foi raptado ainda recém-nascido e entregue ao padre Antônio Melo, vigário de Porto Calvo, que o criou sob o nome de Francisco.

Na dificuldade de se encontrar uma origem segura para a história , quem buscar notícias sobre o paradeiro das cartas do padre Antonio Melo , terá o dissabor de descobrir apenas uma segunda história, também providencialmente complementar à primeira e, contudo mais implausível ainda:

(Na verdade – tcham, tcham, tcham, tcham – já desvendamos a origem segura da lenda, que é como os leitores verão em breve -num post a seguir – absolutamente surpreendente!)

“Arquivo revela que Zumbi sabia latim!

A condessa de Schönborn, 65, nascida Graziela de Cadaval, é conhecida entre os pesquisadores e ”caçadores” de documentos como a guardiã dos arquivos da casa da marquesa de Cadaval, sua mãe. São cerca de 5.000 livros e conjuntos de documentos reunidos nos últimos seis séculos e guardados em Muge, 80 quilômetros a leste de Lisboa. …Anos atrás, dezenas de documentos foram roubados por um ”pesquisador disfarçado de paralítico em cadeira de rodas”. Desde então, só convidados vigiados pela condessa pesquisam os manuscritos tombados pelo Estado.

Entre esses papéis (roubados) estariam duas cartas preciosas que permitem imaginar Zumbi no seu tempo de menino. Foram escritas pelo padre Antonio de Melo em 1696 e 1698, quando já corria a notícia da morte de Zumbi. As cartas, não localizadas pela condessa, foram copiadas em 1978 a pedido do historiador gaúcho Décio Freitas.

..Na época das cartas, o presidente do Conselho Ultramarino era Nuno Pereira Álvares de Melo, que foi o primeiro duque de Cadaval, e por isso os documentos foram guardados pela família. Ao longo do tempo, parte do arquivo dos Cadavais foi se perdendo. Em fins do século 17, um incêndio destruiu o palácio da família. Depois, com a invasão napoleônica, muitos papéis foram trazidos para o Brasil. Em 1964, as famílias dividiram o que restava do arquivo. Metade ficou com a condessa e o restante foi para o duque de Cadaval. Há notícias de leilões de documentos nos últimos anos…”

(Do enviado a Muge (Portugal) Aureliano Biancarelli para Folha Online – Brasil 500)

O que esta história complementar nos dá conta em suma é que, as famosas cartas deste misterioso e desconhecido padre Antonio Melo talvez não possam ter jamais a sua autenticidade – ou mesmo a sua própria existência – comprovada porque, de uma forma ou de outra, por furto, extravio, por culpa de um incêndio ou um acidente fortuito qualquer, os originais teriam se perdido para sempre.

Como se vê, são bastante controversas as questões suscitadas por abordagens históricas que, deliberadamente ou não, subestimam ou omitem a óbvia ligação da cultura das comunidades quilombolas do século 17 com sua matriz africana mais imediata. A principal destas questões talvez seja a grande insistência com que elas foram sendo inseridas, com foros de verdade histórica absoluta, no contexto dos vários estudos existentes sobre o assunto, a despeito de sua evidente carência de fundamentos.

Entre dezenas de documentos disponíveis, a simples leitura, por exemplo, de uma das cartas do Padre Antônio Vieira (estas sim, autênticas), notório e influente agente dos interesses ultramarinos de Portugal além de importante autoridade eclesiástica, poderia esclarecer muito sobre esta questão. Pode-se destacar em especial dentre estas cartas de Vieira, aquela escrita em julho de 1687, em resposta a uma consulta do rei de Portugal, indeciso quanto a oferta de mais um acordo de paz aos palmarinos, sugerido por certo padre italiano de Recife:

“Muito me admiro… que sem outra informação dos superiores desta província, houvesse por bem a proposta feita por um padre particular de ir á Palmares… este padre é um religioso italiano de não muitos anos, e, posto que de bom espírito e fervoroso, de pouca ou nenhuma experiência nestas matérias. Já outro de maior capacidade teve este pensamento e posto em consulta, julgaram todos ser impossível e inútil por várias razões. Primeira: Porque se isto fosse possível, havia de ser por meio de padres nativos de Angola que, todos, os quais crêem e deles se fiam, e entendem, como sua própria pátria e língua…” .

A propósito, as evidências sobre a existência de certa similaridade entre os hábitos culturais praticados no Brasil pelos líderes palmarinos e os de seus conterrâneos na conturbada Angola do século 17 (hipótese aventada como vimos pelo próprio padre Antônio Vieira) estão se tornando cada dia mais candentes, principalmente se admitirmos a possibilidade de alguns líderes do quilombo da capitania de Pernambuco terem sido prisioneiros de guerra (soldados portanto e não escravos comuns), removidos para os Brasil no contexto da cruenta guerra colonial que sacudia o chamado ‘Reino D’Amgola’ naquela época.

Ao contrário do que ocorreu com as cartas de Vieira, o mais surpreendente é que a existência das outras cartas, supostamente atribuídas ao outro padre Antonio (e seu inusitado conteúdo) tenha sido um fato completamente desconhecido durante 300 anos.

E sobre o total desaparecimento dos originais das referidas cartas, logo que foram enfim descobertas, o que dizer? Por isto mesmo, mais do que com as controvérsias do incidente em si, talvez devêssemos nos preocupar mesmo é com as péssimas conseqüências advindas de sua eventual intenção etnocentrista, tão compreensíveis no contexto de uma colônia européia no século 17, quanto inaceitáveis neste nosso emancipado Brasil do século 21.

Sobrava-nos apenas a palavra solitária do já falecido Decio Freitas, incansável e meticuloso pesquisador que, pelo que sabe até agora, teria sido o único a ter acesso as cartas em poder da condessa o que, em se tratando de fato histórico desta relevância, infelizmente, não deve servir ainda, como prova cabal de coisa alguma.

Aliás, mesmo que tenham realmente existido, por conta do alto grau de improbabilidade dos incidentes por elas descritos, estas cartas não poderiam ter adquirido jamais, a importância que lhes deu a nossa história oficial.

“…A Torre do Tombo, o mais importante acervo do país (Portugal), tem inúmeros catálogos diferentes. O principal, os ”Manuscritos da Livraria”, não traz os documentos por ordem alfabética. Obedece a cronologia de entrada no acervo. Milhares de documentos das antigas casas de nobres ainda não foram catalogados. Não se pode confiar no que já foi informatizado.

Segundo o computador, a carta do rei que dá a patente de mestre de campo a Domingos Jorge Velho deveria estar na folha 426 do códice nove do ”Registro Geral das Mercês”. Foi encontrada pela Folha no verso da folha 246. A maioria dos documentos sobre Palmares pertence ao Arquivo Histórico Ultramarino. Ali estão as cópias dos papéis que seguiam às colônias. Muitos dos originais, destinados às capitanias do Brasil, desapareceram no tempo… Os documentos pouco ou nada contribuíram para traçar o perfil do homem Zumbi.”

(Jair Rattner especial para a Folha On Line, de Lisboa)

O que nos parece inquestionável contudo é que, a morte definitiva do último Nkanga a Nzumbi de Palmares, o sucessor de Ganga Zumbase deu mesmo em 20 de novembro de 1695 quando um de seus ajudantes de ordens (e seu suposto genro) é preso numa escaramuça e aceita traí-lo em troca de perdão. O traidor identificado como o mulato Antonio Soares, viveu em paz em Recife até morrer de velho.

Na hipótese de ser factível, pelo menos em parte, a versão dos fatos aqui apresentada, a dinastia que governou a região do Império do Kongo pelo menos a partir de 1545 (ano de nascimento de Ngola Ndambi, avô da valorosa Nzinga Mbandi, a rainha Jinga), reconstruída no Brasil num formidável fenômeno de transculturação, com a rainha Aqualtune mãe de Ganga Zumba ou com Mateus Ndambi, sogro do rei, teria durado no total mais de 150 anos (dos quais cerca de cem só no Brasil), havendo sobrevivido, após a morte de Jinga, pelo menos até 1695, apogeu e glória de seu último representante conhecido: O Nganga Nzumbi degolado em Recife.

“…ficando só mente (Zumbi) com Vinte negros, dos quais mandou catorse pa. Os postos das emboscadas que esta gente uza no seu modo de guerra, e hindo com seis que lhe restaram a se ocultar no sumidouro, que artefiçiosa mente avia fabricado, achou tomada a paçagem; pelejou valeroza e desesperadamente matando hum homem ferindo alguns e não querendo Renderce nem os companheiros, foy preciso Matallos e só hum se apanhou vivo, enviouçeme a cabeça do zumbi que determinei se puzese num páo no lugar mais público desta praça a satisfazer os ofendidos e justamente queixosoz e atemorisar os negros que supretisiozamente julgavão este immortal… “

(Ds G.a Real pesoa de Vmagde.Como todos desejamos. Pernco.14 de Março de 1696” Caetano de Mello de Castro – Governador da capitania de Pernambuco )

Surpreendentemente – ah! como é bom por água na boca dos curiosos! –  tendo como pista apenas as datas e o nome suposto deste Zumbi fake aculturado – que se chamaria Francisco, lembram-se? – conseguimos em textos angolanos, portugueses e italianos a chave, a prova mais do que cabal – se é que isto é mesmo possível – da gênese real desta farsa absurda – displicente talvez , muito mais do que fraudulenta – do ‘zumbi menino sequestrado’.

Mais isto …tcham, tcham, tcham, tcham!…. como já disse, será o tema do próximo episódio desta série.

Spírito Santo
Rio de Janeiro, Julho de 2006 (com pitacos novos em Novembro de 2010)

Nota: Na imagem acima grande encontro em ‘Bois de Caiman’, bosque onde a revolução do Haiti foi deflagrada. Veja neste link o que isto – mesmo remotamente-  pode ter a ver com Palmares e reflita.

Leia post #03 neste link

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Se você curte analisar bibliografias e notas de rodapé, este texto possui uma relação bem completa deste tipo de referencia que você pode ler neste link

Basil Davidson: Morre o filho branco da Mãe Negra


Bristol, 9 de Novembro de 1914 – Londres, 9 de Julho de 2010

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Morre o grande amigo da mãe África

A lembrança está marcada em mim como e tivesse sido a fogo tatuada, nítida como se fosse hoje. Agora mesmo, contando isto para vocês, me vem o cheiro do papel do livro que comprei novinho, estalando, na Livraria Camões, no térreo do Edifício Av Central, no centro do Rio de Janeiro.

“Mãe Negra- Basil Davidson”

O cheiro acre da tinta e  do papel portugueses, o mesmo cheiro que impregnava todo o ambiente da tradicional livraria (até hoje existe) especializada em literatura africana, livros e mais livros, revistas (entre elas a antológica e literária  ‘Revista África’) mapas, tudo que quisesse ler sobre Portugal e suas ainda colônias em franco e acelerado processo de descolonização sim, porém marcado ainda por cruentas lutas de libertação. O cheiro disto tudo, ainda hoje está impregnado em mim, não sei se na pele, nas narinas  ou se apenas na memória, só sei que para sempre.

Egito, Sudão,  Kilwa, Angola, , Guiné Bissau, Nigéria, Benin, Moçambique, Zimbabwe…nenhum sentido haveria na história destas terras que tanta gente nos mandaram como escravos, se não fosse aquele livro fulgurante,  fulminante que comprei naquele dia remoto na década de 1970.

Mãe Negra, de Basil Davidson continha toda a verdade omitida pelos livros de história que havia lido antes em toda a minha vida. Nunca mais abri um livro didático de História do Brasil depois daquele dia. Era óbvio que o Brasil real jamais esteve nos meus livros e cadernos de escola. Fiquei achando que que havia lido apenas lixo e mentiras até então.

Até hoje leio historiadores brasileiros com desconfiança e certo ‘pé atrás’, alguns até com mal disfarçado desprezo, confesso. Porque aceitam omitir e falsear tanto algo tão importante quanto a nossa própria história e suas nuances mais orgulhosas? Porque não foram capazes de ser historiadores de verdade como Basil?

A morte de Basil Davidson no dia 9 de Julho passado deixará uma saudade enorme em mim e em tantos outros como eu que, por intermédio dele, descobrimos a natureza complexa da África que havia latente em nós. Ela, a saudade de Basil,  será mitigada apenas pelo cheiro ocre dos livros da Livraria Camões que guardo comigo como ouro em folhas de papel.

De certo modo, ler aquele livro claro e incisivo dele, aquela historiografia incisiva, precisa, me contando a saga de uma África grandiosa assolada por tão vorazes e covardes predadores europeus, antes  apenas imaginada ou sonhada por nós, militantes por uma negritude brasileira ainda ingênua de propósitos, me libertou completamente e me inspira até hoje. É uma das mais mais vivas brasas entre as minhas mais fogosas lembranças.

É por isto – por causa da saudade de gente como eu –  que o mundo inteiro está lendo agora mesmo a história honrosa de Basil, o amigo da África e este mesmo mundo inteiro esquecerá num lapso, jamais lerá um um pingo de ‘i’ que seja da história dos outros, destes reles historiadores que  tanto tentaram nos enganar com mentiras falsamente cívicas, bajuladores da pátria alheia, desestoriadoriadores, descontadores, engendradores de apagões mentais.

“…Minha mãe
tu me ensinaste a esperar
como esperaste paciente
nas horas difíceis.
Mas em mim
a vida matou esta mística esperança
eu não espero.
Sou aquele por quem se espera
A esperança somos nós, os teus filhos
nascidos para um fé que alimenta a vida…”

(Agostinho Neto)

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Basil Davidson: Espião, resistente anti-fascista repórter e historiador de África

Maputo, Quarta-Feira, 18 de Agosto de 2010/Notícias

(Extraído de ‘Moçambique para todos’)

Owei Lakemfa

Basil Risbridge Davidson não foi um santo, tipo o que evoca a figura do herói Ernesto Che Guevara. Não foi um Tarzan, deambulando pelas selvas de África, nem tão-pouco um missionário de uma estranha confissão religiosa que evangelizou o continente à expensa da sua terra, da sua cultura, sangue e riqueza.

Não foi um neo-colonialista, que em nome do FMI ou do Banco Mundial passava a prescrever receitas expiradas para todas as enfermidades africanas. Antes, Davidson foi um intelectual comprometido, que estudou e escreveu honestamente sobre África e os seus povos, sobre a sua história ancestral e contemporânea, sobre os seus ancestrais; sobre lideres africanos convictos tais como Samora Machel e criminosos como Mobutu Sesse Seko.

Não foi um cientista social desinteressado que estudou África à distância, quando os nossos povos vertiam sangue nas guerras de libertação em Moçambique e na Guiné-Bissau, ele esteve fisicamente nos campos de batalha. Dos mais de trinta livros que escreveu não abarcavam apenas uma vertente teórica, mas eram guias práticos para muitos africanos; ajudou a moldar a visão política de muitos jovens africanos na década de 1970 e 1980.  Ele abriu a mente de muitos africanos sobre o rico manancial historial, desde aos tempos pré-coloniais, passando para o período das guerras anti-coloniais aos encarniçados combates para a libertação, envolvendo as forças patrióticas do continente e os fidalgos representantes de Lisboa, Bruxelas, Paris, Londres e Joanesburgo.

Curiosamente, atendendo aos seus antecedentes, Basil Davidson era umas das mais suspeitas e improváveis vozes a levantar-se a favor da consciencialização e libertação em África. Ele era tenente-coronel na reforma do Exército, inglês que combateu na segunda Guerra Mundial, tendo ajudado os movimentos de resistência na Hungria, Jugoslávia e Itália. Chegou a ser espião britânico, trabalhou para M15, especializou-se em sabotagem e foi prisioneiro de guerra, que beneficiou com o processo de troca de presos com a Itália.

Basil Davidson, que trabalhou como repórter para muitos órgãos de imprensa, decidiu, a partir de 1951, documentar o continente africano. O seu interesse inicial foi a Europa do Leste, mas depois inclinou-se para a África e foi neste continente onde deixou um legado a várias gerações. O seu primeiro encontro com África foi no Cairo, Egipto, onde se tinha deslocado ainda como soldado e espião para arranjar logística para a resistência eslava.

O avião em que viajou tinha feito escalas na região de Bathurst (antiga designação da cidade de Lagos) e num local que, para ele, passou a ser “algures no norte da Nigéria, um ponto desconhecido do mapa, tanto quanto eu pude descobrir”. O avião, dizia, “tinha feito um voo, abaixa altitude, sobre em paisagens, planícies e vastas extensões de terra desprovidas de populações”. Basil Davidson disse que tinha saído para um passeio: “À distância, vieram sobre mim imagens da presença de uma barreira estreita e alta, o muro de uma cidade…tinha sido construída de barro, paus e circundava toda a cidade perdida algures em África, que descobri mais tarde ser a cidade de Kano, com mais de 700 anos, senão mais…e que não havia nenhuma história em África, tanto quanto eu sabia”.

Assim foi como a sua curiosidade por África cresceu. Os seus estudos e escritos acerca do continente estavam para absorver os últimos dois terços dos seus 95 anos que marcaram a sua passagem pela terra, que começou no dia 9 de Novembro de 1914 e terminou no dia 9 de Julho de 2010.

Ao procurar provar que África tinha uma rica História pré colonial, Basil Davidson escreveu numerosos livros, que incluíam estudos sobre os antigos reinos do Egipto, de Kush, de Nok, sobre culturas e impérios do Mali, Ghana, Songhai. Tudo isto consta de livros como “A redescoberta da velha África”, “Mãe África”, o “Passado africano e os africanos”.

Davidson escreveu sobre a ruptura dos impérios africanos, forçados a entrar num ciclo de nações-Estados, tendo questionado se “deve a África renovar a proliferação de nações e as disputas nacionalistas…os povos africanos tinham seguido, no passado, o seu próprio caminho, e nada indica que não venham fazê-lo novamente de forma construtiva e criativa”. Mas a África não seguiu o seu velho caminho, antes optou por aquilo que foi ditado pelas as suas antigas potências coloniais. Davidson sentiu-se atormentado com esta perspectiva.

Ao analisar a tragédia do continente, especialmente nos anos de 1970 e 1980, lamentou que “o declínio de valores morais e políticos daqueles que clamavam falar em nome de África era tão rápido quanto generalizado”. Ao mesmo tempo que reconhecia a imensa autoridade moral de líderes como Julius Nyerere, Basil Davidson notou em líderes como Samuel Doe, da Libéria, Ibrahim Babangida, da Nigéria, Idi Amin, do Uganda, Jean Bedel Bokassa, da República Centro-Africana, e Macias Nguema da Guiné-Equatorial o que chegou a caracterizar como “um fenómeno excessivamente patológico que apareceu no período colonial e pós colonial jogado por individualidades que tinham a autoridade e carisma para chegarem ao poder, mas sem a sabedoria para controlá-lo.

Tais figuras agarraram-se ao poder e surgiu a ambição, quer por mais poder, quer pelos seus frutos”.

Um dos seus legados duradoiros foi a forma documentada como retratou a luta de libertação nas colónias portuguesas, as lições para África e o que se pôde aprender com a teoria da guerra popular. Por exemplo, ele tinha descrito uma acção audaciosa desencadeada por combatentes do então movimento PAIGC no aeroporto de Bissau, numa altura em que as autoridades coloniais portuguesas tinham fortificado as áreas circundantes do aeroporto com vedações e campos minados. O movimento conseguiu destruir aviões que se encontravam na placa aeroportuária, nos hangares, sem que tivessem provocado danos humanos. Uma das lições, do audacioso ataque, dizia Davidson, era que a invulnerabilidade estava do lado da guerrilha e não do lado colonial.

Basil Davidson defendia que “todas as guerras eram perversas”, mas que “uma bem dirigida guerra de auto-defesa” – distinta de qualquer acto terrorista – pode resultar em ganhos, mesmo em circunstâncias mais adversas”.

O historiador britânico advogava que uma ideologia de libertação não pode ser desenvolvida sem “a potencialidade da consciencialização de um povo, num específico tempo e determinado lugar”. Basil Davidson, com as suas obras “O fardo do homem negro”, a “Causa do povo: uma história de guerrilhas em África”, “As cidades perdidas de África”, “África Ocidental antes da era colonial: uma história até 1850”, “África” (que veio a ser adaptada em série televisiva) e “África na História”, plantou o seu legado no solo africano e no mundo intelectual.

Owei Lakemfa

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O Kilombo, o angu e seus caroços


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Charge alemã de 1897. A legenda diz: "Uma tarde de domingo na África Ocidental" mostrando um mundo surreal nas colónias na África no qual os escravos são senhores. No anúncio: "Hoje:Grande banquete! 'Senhores como comida'!

Charge alemã de 1897. A legenda diz: “Uma tarde de domingo na África Ocidental” mostrando um mundo surreal nas colônias na África no qual os os negros são livres. No anúncio: “Hoje:Grande banquete! ‘Senhores’ (brancos) como comida’!

Remanescente de quilombo? Ih! É melhor esperar sentado!

Começo logo com uma paulada:

Com vocês Andressa Caldas e Luciana Garcia que em alentado texto no site Global.org fazem a introdução do nosso papo:

“… A Constituição Federal e a titulação das terras quilombolas

Como parte da própria reflexão sobre o Centenário da Abolição da Escravidão no Brasil, algumas reivindicações de organizações de movimentos negros e setores progressistas, levadas à Assembléia Constituinte de 1988, resultaram na aprovação de dispositivos constitucionais concebidos como formas de compensação e/ou reparação à opressão histórica sofrida.”

(Tá certo. Isto foi só uma ameaça. Agora é que vem a paulada):

Em 2001 Abdias do Nascimento, histórico e incansável líder do movimento negro do Brasil deu ao site da Rets (Rede Eletrônica do Terceiro Setor) a seguinte entrevista:

“Rets :

_Em 1980 o senhor apresentou sua tese sobre o quilombismo. O senhor ainda vê a forma de organização dos quilombos como um bom modelo de desenvolvimento para o país?

Abdias:

_Ainda vejo. Mas acho que eu apresentei o quilombismo de forma um pouco antecipada. A sociedade precisa ter um pouco mais de experiência para poder perceber a significação do quilombo e a prática do quilombismo. Muitas pessoas interessadas no assunto concordaram com as minhas teses, mas nenhuma delas procurou implementar uma organização como a que propus com o quilombismo.”

A tese de Abdias não é o foco de nossas elucubrações. Ela é polêmica e, de certo modo, datada, pois, estava visceralmente ancorada ainda na realidade política do negro brasileiro vista de forma bem ampla e pela ótica da luta contra os resquícios da Ditadura, já que era uma realidade – a do negro e a do racismo – que a anistia promulgada em 1979, na verdade só de leve se interessou em tocar.

O fato é que a conversa que vamos levar aqui com vocês, embora diga respeito à demandas pontuais criadas pela nova Constituição do Brasil (1988) para este assunto, apesar de toda a festa com que se costuma ‘enfeitar o pavão’ de nossa democratização, não sugere ainda um grande avanço na discussão desta questão, que já se arrasta desde 1888: A reparação dos malefícios e constrangimentos aos quais os escravos africanos sequestrados para o Brasil e  seus milhões de descendentes foram – e continuam sendo –  submetidos há quase quatro séculos.

Sabem como é, certo? O Brasil elitista é um racista aplicado e muito, mas muito renitente mesmo. Pentacampeão em exclusão social.

Entre todos os reparos que com certeza poderemos fazer numa inevitável comparação entre os dois momentos históricos – o do lançamento da quase comunista tese ‘Quilombismo de Abdias e o nosso hoje em dia cheio de remanescencias– uma triste constatação: Reduziu-se de forma drástica o protagonismo e a combatividade das lideranças do Movimento Negro no Brasil, aquelas que poderiam estar na vanguarda das reivindicações atuais. O lado constrangedor deste protagonismo esvaziado e subalterno, infelizmente está visível na cooptação de muitos, na corrupção de alguns e no baixo nível político-ideológico da maioria.

Talvez seja esta conjuntura constrangedora – franqueza dói mas não mata – a principal razão para que uma causa tão importante e particular como a luta pela posse da terra por parte de comunidades remanescentes de quilombos, esteja tão diluída em pendengas paralisantes, envolta nesta rede de ambiguidades e incongruências tão flagrantes, sendo muitas vezes desvirtuada, atrelada a causas e interesses outros, como um filho de pai desconhecido.

(E filho ‘feio’, como todo mundo sabe, não tem pai).

Dito isto, podemos relaxar um pouco. O papo agora pode ser mais ameno sim, já que o mundo não foi feito num só dia.

Ki-lombo= Kilombo= Quilombo = “Fortaleza”, “Fortificação”, preferencialmente em lugar alto, uma elevação.

(literalmente em Kimbundo, uma das línguas principais faladas em Angola)

O termo – todo mundo por aqui acha – viria do nome dado ao complexo de comunidades de escravos rebelados conhecido como Quilombo de Palmares, nas imediações de Pernambuco nos primórdios de nossa colonização. Zumbi de Palmares lembram?

(Mas, ‘achismo’ como se vê, não é exatamente cultura.)

Pois neste caso então, saiba quem ainda não souber que a palavra vem de um contexto histórico bem mais distante e complexo, bem menos chegado ao ‘chavão’ (e estas sutis filigranas historiográficas podem mudar tudo em nossa maneira de entender o conceito). Mais do que se pensa, pelo menos.

Kilombo na verdade, com o estrito sentido de ‘fortaleza rebelde’ tudo indica, é uma palavra transposta para a realidade colonial brasileira, depois de ser adotada como jargão militar pelo exército português durante sua guerra suja contra os nacionalistas angolanos comandados pela rainha Nzinga Mbandi e outros sobas, reis ou mandatários locais ali por volta de 1630/40.

O que isto tem a ver? Tudo. E com muita coisa que nos diz respeito. É que existe uma questão muito cabeluda rolando no Brasil atual envolvendo o conceito ‘Quilombo’, no âmbito da regulamentação de leis que embasarão políticas públicas inspiradas na constituição de 1988, visando garantir a posse da terra, por meio de títulos de propriedade ao que se convencionou chamar de ‘comunidades remanescentes de quilombos’.

Quilombo para iniciantes: Princípios ativos e componentes lógicos

(Leia e entenda bem a bula antes de usar)

Quando levamos uma paulada na cabeça, qual é o nome que damos àquele caroço doído que nos cresce na testa? (Não. Chifre não. Sem sacanagem que estou falando sério)

Anh? Calombo? Isto! Ka-lombo (olha…Esta foi uma sacação ‘newtoniana’, não foi não?). Racionem comigo então: Como ‘Ka’ em kimbundo é diminutivo, Lombo pode significar então… ‘protuberancia, correto? Pequena protuberância (se traduzirmos bunda como ‘lombo’ a dita significaria uma bela e média …tá, vocês já entenderam.)

Kilombo, Kalombo, Lombo e Bunda: Um contexto semântico bem afinado com o mais puro vernáculo angolano.

Daí Kilombo (Ki, assim como Ka é prefixo em kimbundo) pode ficar sendo, no dizer de um colonialista lusitano pelo menos, ‘fortaleza de pretos construída num lugar alto’.

(Deve ser, logicamente por isto que os quilombos no Brasil, pelo menos os mais perenes, eram feitos em serras bem altas. Reminiscências culturais, inteligência estratégica, guerreira trazida de lá dos cafundós de Angola.)

Viram só como são as coisas? Uma palavra não é apenas um som qualquer, um amontoado de fonemas. As palavras carregam muita história, sentidos. Saber valer-se do que elas tem para nos contar sobre o passado e o presente, costuma ajudar muito a gente a construir um bom futuro.

Logo se vê, portanto, que não é nada desimportante se bater na tecla da semântica neste caso, não é não?  Matando a semântica original se mata o sentido, a alma da palavra que passa a significar… nada. Afinal de contas, nunca é demais repetir: Jesus não é Genésio. Berimbau não é gaita.

:_”Ressemantizar é o cacete! Viva a cultura negra nacional!”

Pois não é isto que parece estar acontecendo neste caso? Todo mundo se acha careca de saber que ‘Quilombo‘ de algum modo hoje em dia é isto aí: Um território (um lote de terra que seja) ocupado por descendentes de escravos que, por conta de históricas necessidades de reparação em vias (?) de serem reconhecidas (a escravidão foi um regime juridicamente condenável, certo?), reivindicam, diretamente ou com o auxílio de intermediários, a posse das terras que ocupam.

O resto é o resto. Deveria ser motivo para outras reivindicações.

Mas é aquela história que todo mundo também já  sabe: Enquanto o douto elabora conceitos o leigo palpita, especula, mas ambos, ao fim de todas as contas não vão poder mesmo falar mais do que… ‘em tese’.

Vamos então abordar este assunto assim-assim, valeu? Sem delírios sabichões,  na base do mais modesto feijão com arroz, pisando em ovos alheios, se necessário, mas com todo carinho, sentindo na pele o drama da questão. Sem ser louco a ponto de me achar um Deus da verdade é, pois, em tese, em tese, que vos digo:

Histórico das mumunhas jurídicas sobre o tema Quilombo hoje

(Colocando alguns  pingos nos ‘ís’ )

E são ainda Andressa Caldas e Luciana Garcia que se referem,  claramente ao que para nós se transformou no caroço (ou… calombo? Êpa!De novo? ) crucial deste angu:

“…Introdução

“…No Brasil, existem mais de 2.200 comunidades afro-descendentes quilombolas, totalizando cerca de 2.5 milhões de pessoas… No que concerne à titulação dos territórios quilombolas, recente relatório independente da Comissão Pró-Índio de São Paulo (CPISP),”Ações Judiciais e Terras de Quilombo”, revela que até agosto de 2006 havia “310 processos de regularização de terras de quilombo perante o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária.

O levantamento da CPI-SP revela que 59% dos 310 processos abertos recebeu apenas um número de protocolo no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). Ou seja, em 182 processos nenhuma medida administrativa foi tomada no sentido de regularizar o território… “

…” A ressemantização do termo quilombo e sua inserção na Constituição Federal de 1988 vieram a traduzir os princípios de igualdade e cidadania negados aos afrodescendentes correspondendo, a cada um deles, os respectivos dispositivos legais:

i) Quilombo como direito à terra, enquanto suporte de residência e sustentabilidade, há muito almejadas, nas diversas unidades de agregação das famílias e núcleos populacionais compostos majoritariamente, mas não exclusivamente de afrodescendentes – CF/88 Artigo 68 do ADCT – sobre ´remanescentes das comunidades de quilombos; Quilombo como um conjunto de ações em políticas públicas e ampliação de cidadania, entendidas em suas várias dimensões – CF/88 – título I direitos e garantias fundamentais, título II, cap. II – dos direitos sociais;

ii) Quilombo como um conjunto de ações de proteção às manifestações culturais específicas – CF/88 – artigos 214 e 215 sobre patrimônio cultural brasileiro.

(Épa! É isto mesmo? O dispositivo se refere a manifestações culturais… específicas? Bem, vamos ter que cobrar que esta especificidade seja explicitada mais tarde.)

Mas o enunciado do dispositivo, mesmo sem explicitar nada da questão, por ele mesmo proposta, ainda insiste:

“…Assim, o artigo 68 dos Atos das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Federal de 1988 (ADCT) estabeleceu que:

“Art. 68. Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos.”

Ao que comentamos aqui (tentando imitar aquela ‘baba de quiabo’ dos advogados):

Ora, o que se chamou neste caso de ‘ressemantização’ parece com tudo menos uma alteração da semântica do que quer que seja. Fica claro que se tentou, tão somente aplicar o nome genérico de Quilombo (e, portanto banalizando o sentido estrito do conceito) a uma outra figura jurídica, inclusive já existente, qual seja o ‘direito genérico das populações afro descendentes (e não exatamente quilombo-descendentes no sentido lato) à posse da terra.

Convenhamos que este direito à posse da terra é por demais genérico e redundante. Que se danem os regulamentadores! (aqueles que vão ter que dar seu jeito para dar nomes aos bois.)_ Parece nos dizer, curta e grossa, a nossa ‘boazinha’ constituição de 1988, certo?

Em suma, com a nítida finalidade de ampliar o leque dos beneficiários (quem pensou esta estratégia tão ingênua?), não se mudou apenas o nome da coisa, mudou-se a coisa de nome, o que é muito diferente e não significa, de modo algum ‘ressemantização’.

Ressemantizar’ seria adaptar o conceito à nossa época, sem desconsiderar (ou ‘ressignificar’ aleatoriamente) aspectos definidores – como a cultura ‘tradicional’ destes segmentos, por exemplo. Afinal, o dispositivo determina ou não determina a defesa de manifestações culturais… específicas?

Ao que nos parece, da forma como está proposta no dispositivo – que se pretende um instrumento legal – a medida acaba não tendo aplicabilidade jurídica especial alguma, sendo facilmente desqualificada por qualquer boa banca de advogados inimigos da causa, já que nele, no dispositivo, poderiam estar abrigados todos outros segmentos… ‘étnicos’ (o que, aliás, o próprio dispositivo admite em seu texto ser um critério vago), não conferindo à medida força alguma para fazer valer os direitos deste ou de qualquer grupo…’étnico’ em particular.

Nas barras frias de um tribunal em suma, baseado apenas em semelhantes argumentos tão pouco jurisprudenciais, um grupo ‘majoritariamente’ formado por quilombolas remanescentes, não teria, realmente chance alguma.

_”Terra para negros ex-quilombolas!” _ Será preciso dizer, com todas as letras, de forma cabal, com palavras passíveis de serem compreendidas, comprovadas e transformadas em lei.

Ora, é claro que esta conversinha de ‘ressemantizar’, ‘ressignificar’ tudo – por mais bem intencionada que seja – só podia dar no que deu.

Quem dá nome aos bois?

“Quem pariu mateus que o embalance”

É fácil falar, criticar, cobrar assim em cima deste muro de lamentações. Eu sei também que é preciso ir devagar com este andor. As intenções da maioria dos envolvidos são boas e as suscetibilidades são frágeis demais diante de críticas mais ácidas. Todo mundo quer ser o santo padroeiro desta história.

Sabem vocês, contudo, tanto quanto eu, que das melhores intenções está lotado inferno.

Porque esta questão não anda? Será que está planejada para não andar mesmo? Culpa desta desmobilização impressionante do outrora combativo Movimento Negro do Brasil, que teria emprestado para o Movimento Social como um todo, tornando genérica, esta bandeira que lhe era tão cara e exclusiva?

Seria culpa dos advogados, juízes e legisladores em geral que não conseguem entender a necessidade de se associar Justiça Social com Diversidade étnica? Ou seria culpa dos técnicos, antropólogos e historiadores, envolvidos em bizantinas questões acadêmico-conceituais que os levam a ideologizar, questionar  e ‘ressignificar’ o conceito de tudo nem sempre com as mais claras intenções?

Como nos diz um entendido sobre o tema:

“_ …esse assunto é o maior tabu entre os antropólogos. Existe digamos um código secreto, um espírito corporativo, uma pretensão de reserva de mercado para aqueles que lidam com a tal antropologia aplicada…

Ih! sai de baixo! Mais caroço à vista.

…Bem, mas isto é assunto para outras mangas num post que faremos logo a seguir (leia aqui o POST #02). Enquanto isto vão pensando aí que a pobre da bezerra ainda não morreu.

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(Em tempo: A palavra angu também vem de algum modo do Kimbundo, sabiam? Penso que vem de ‘iangu’ que quer dizer capim – ou couve picadinha – aquela que, além do caroço, engrossava o dito cujo na cuia do escravo. O engraçado é que a palavra não vem diretamente de ‘fubá’ não, embora ‘fubá’ também venha do kimbundo ‘fuba’, farinha de milho.

Recomendo contudo muito cuidado com os dicionários. Kalombo, por exemplo quer dizer hoje em Angola, literalmente, ‘mulher infecunda‘. A língua é a mãe de tudo, ou seja: Tem gente aí que precisa rever, totalmente os seus conceitos etimológicos… e ideológicos com urgencia. )

Ressignificar-se, diria.

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Depois o papo segue – e esquenta mais – Achei por bem linkar aqui a matéria fedida da revista ‘Veja já que os leitores mais ligados ao tema vão estrilar e com razão.

Calma rapaziada. Uma coisa a gente precisa reconhecer: para um oportunista agir é necessário que alguém crie a oportunidade, certo?

Ajoelhou? Tem que rezar.

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Fui mas volto já.

Spírito Santo
Maio 2010

Cinema em Branco & Preto -Take 01


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Imagem popular: Visibilidade zero

(Exterior/Noite)

Entre outras e mais dramáticas consequências, a pobreza continuada e generalizada, na qual se permite que viva grande parte de nossa população, criou para a mídia do Brasil uma espécie de perturbadora “impropriedade estética”, causada pela contradição evidente entre a imagem real de povo não-branco, que efetivamente somos, e aquela imagem virtual, manipulada por intermédio de diversos artifícios, que insistimos em propalar para mundo como sendo o nosso look ideal.

Por que nos espaços da mídia (vista aqui como o conjunto de mecanismos de difusão social e cultural independentes) o Brasil aparece sempre assim, mascarado, fantasiado de uma outra coisa que não é ele mesmo?

Acreditem, esta não é uma conversa de filigranas ou irrelevâncias. Visibilidade é um axioma midiático por excelência, já que, a rigor, se um fato ou problema está invisível é porque ele não está acontecendo ou simplesmente jamais existiu.

Envergonhada talvez de nossa imagem real, nossa mídia – expressão mais evidente da maneira peculiar que a gente tem de olhar a nossa própria cara em espelhos simbólicos – tem demonstrado persistente intenção de falsear, justamente, o signo essencial de nossa personalidade: nosso biotipo, a cor de nossa pele, os traços físicos mais marcantes, aquela face original que todo povo que se preza costuma assumir como orgulho nacional e patrimônio estético irretocável.

Racismo é pouco – e vago – para definir esta estranha disposição de nossos meios de difusão cultural para, sub-repticiamente, ir sabotando a nossa autoimagem. Que diabo de paranóia seria esta? Por que ficar durante séculos como uma espécie de “país michael jackson”, tentando esconder debaixo de um tapete pra lá de puído o perfil mulato inzoneiro da maioria de nossos charmosos habitantes? Seríamos uma sociedade acometida por uma espécie de vitiligo moral?

Você viu quantas vezes, nos livros escolares, a cara do João Cândido, o almirante negro da Revolta da Chibata, um herói brasileiro tão ou mais significativo do que aquele tristonho alferes Tiradentes? E a cara do negro Oswaldão, aquele líder militar da guerrilha do Araguaia (se é que você sabe o que foi isto), aquela revolta que deu errado mas que contribuiu para a escalação de alguns de seus sobreviventes (a maioria já caída em desgraças éticas, é verdade) para o primeiro escalão do atual governo do país?

Como se poderá forjar um verdadeiro orgulho nacional, amor à pátria, sem a ampla difusão da imagem destes heróis de nossa nacionalidade, tenham lá a cor que tiverem?

Não se pode negar que, no âmbito de nossa mídia ligeira, aquela voltada para o jornalismo superficial e comezinho do dia a dia, o merchandising rasteiro, o jingle espirituoso, o outdoor de subúrbio, alguns traços, ainda que tímidos, de nosso perfil étnico têm aparecido.

Neste jornalismo ligeiro predomina, infelizmente, uma defensiva e, apesar de justificável, raivosa depreciação do outro. A pauta, como sempre, tem sido aquele rol de personagens não-brancos, atores eternos e subalternos de nossas piores mazelas, da violência urbana, do crime “organizado”, do jovem traficante armado com um fuzil de guerra, bandido assassino, defendido pela jovem favelada de shortinho leg, com o bebê no colo, aquela que jogava pedras no poder público, como uma louca, até o grand finale: a hollywoodiana imagem da carcaça retorcida de um ônibus em chamas (antes de haver o poder SS das milícias, é claro).

Para distensionar os ânimos e os espíritos, no restante desta mídia ligeira, nos anúncios de magazines femininos, nos programas de fofocas televisivas, nos outdoors etc. é concedido mais espaço a aspectos, digamos assim, arejados e mundanos: belas mulatas – geralmente sós –, jovens negros musculosos – acompanhados por falsas louras desinibidas – mulatos, morenos, morenas (muitas morenas), diversas imagens “etnicamente corretas”, no fundo apenas apelativas, porque subliminarmente tendem a associar raça negra e mestiçagem a sexo aberrante, como anúncio de açougue light, animalizando o Outro, do mesmo modo como se fazia no tempo da escravidão. É coisa de gente normal, isso?

Câmera discreta

Estereotipando e generalizando na sua cobertura sobre o dia a dia do Brasil real, os aspectos mais exteriores de nossa dramática questão social – muitas vezes de maneira histérica e sensacionalista –, tornando desta forma totalmente invisíveis todos os outros aspectos positivos, o cotidiano e a cultura das pessoas não-brancas deste país, nossa mídia nada mais faz do que propaganda de guerra, incitando a opinião pública normal contra o outro, o anormal, mais ou menos como o fez a imprensa standard de Bush, justificando bombas e barbaridades na invasão e na ocupação do Iraque.

Seriam cidadãos americanos os nossos brancos normais? Seriam anormais fedayns iraquianos os nossos marginais não-brancos? Claro que não.

Como agravante, naqueles aspectos sociologicamente mais profundos que caracterizam a aceitação de nossa imagem nacional efetiva, não é difícil detectar-se a existência daqueles sutis artifícios usados para identificar e separar as coisas apropriadas para serem mostradas, daquelas que devem ser cuidadosamente maquiadas, editadas ou, simplesmente, escondidas dos olhos das pessoas “de bem”.

Um conjunto de elementos estéticos, que são fashion, style, low profile, positivos em suma ou que, simplesmente, funcionam, isolado de um outro conjunto de coisas que não devem ser mostradas, de jeito nenhum (a não ser em ocasiões socialmente corretas), porque são down, feias, incômodas e que, do ponto de vista comercial são, portanto negativas, não funcionam, sendo impróprias ao consumo – ou não recomendadas – aos olhos daqueles indivíduos considerados normais.

E quem seriam neste contexto tão patologicamente televisivo os normais do Brasil? São aqueles 30% que estão em pleno gozo de seus direitos de renda e cidadania, gente que, até prova em contrário, é predominantemente branca, beneficiária, como vimos, de um sistema de cotas firmemente assentado em mais de 500 anos de exclusão e invisibilização do Outro.

A questão básica portanto passa a ser: por que, no contexto desta separação entre aqueles que têm daqueles que não têm – uma separação que, apesar de odiosa, poderia ter como atenuante o fato de ser naturalmente apenas social – o componente étnico, racial é tão determinante? Será inteligente (para não dizer justo ou correto) insistir numa imagem nacional tão despudoradamente falsa como esta que nossa mídia difunde, uma imagem calcada no perfil étnico dos brancos, tornando virtualmente invisível todos os, digamos, 70% restantes de não-brancos?

Afinal, serve para que a imagem daquele olhar constrangido do crioulinho magrelo, que tenta fazer malabarismo no sinal fechado? O que podemos fazer com esta imagem tão perturbadora senão deletá-la de nosso HD emocional, assim que o sinal se abrir? Não seria porque ela, do jeito como a tratamos, não serve para vender nada, senão a nossa brasileiríssima iniquidade?

Deve ser por isso que, do ponto de vista estritamente imagético, daqueles registros sobre nós mesmos que legaremos à posteridade, a maioria esmagadora dos elementos culturais, por exemplo o teatro, a literatura, as telenovelas etc., continuam a ser, ad infinitum, simbolizados na maior parte das vezes, por personagens e atores do perfil étnico hegemônico.

Na literatura, entre a mais recente exceção à regra – Paulo Lins – e a última já se vão mais de um século. Antes de Cidade de Deus, a última foi aquela que narrava a pungente dicotomia entre a luz e a escuridão, representada pelo simbólico conflito ideológico latente, na obra de dois de nossos maiores escritores, ambos negros: Machado de Assis, aquele que ascendeu na sociedade branca tornando literariamente invisível, de forma brilhante, sua própria negritude, e Lima Barreto, aquele que, ao contrário, morreu louco tentando iluminar, de forma não menos brilhante, a sua (e a nossa) própria condição racial e suburbana, em emocionados romances.

E é nesta angustiante dicotomia, entre a luz e a sombra, que vai vivendo a nossa vacilante, vadia e, por isto mesmo, tão cinematográfica alma brasileira.

(Uma confortável cadeira será necessária para assistir um pouco mais deste drama nos takes 02 e 03 desta história meio ‘film noir’. Desliguem os celulares, por favor)

Leia neste link o post 02 desta série:

Spírito Santo
Dez 2008

(Parcialmente publicado em O Observatório da Imprensa em 14/05/2003 e, posteriormente em www. overmundo.com.br)

Jongo, Nongo, Jinongo


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Batuque Angolano com marimbas (Extraído de www.diamang.org)
batuque_angola_com_marimbas

Desamarrando os nós do Caxambu


Você já ouviu, pelo menos por alto, falar em Jongo, certo? Pois este será o longo papo do enredo #02 da série ‘Crioulo doido revisitado’.

A nos motivar o fato de, a começar pelo nome, Jongo ser um tema controverso, misterioso, sobre o qual pairam algumas sombras, um prato cheio, portanto, para os fazedores de mitos, diligentes construtores de engodos e mistificações.

Se você não sabe tudo sobre o assunto vamos ver se eu acerto, pelo menos, o que você, já sabe . Depois a gente vai em frente.

Conceito e Charada

Abrindo a roda do Jongo

Jongo é uma dança de negros, correto?

Certo, mas convenhamos, saber disso não é lá saber muita coisa. Afinal, contam-se às dezenas, talvez centenas, os tipos de dança de ‘negros’ neste país. Jongos, Catupés, Ticumbis, Congadas, Samba de roda, Samba disso, Samba daquilo, Afoxé, Baião, Maculelê, Lundu, Capoeira, mais todos os eteceteras possíveis e imagináveis, para ficar só naquelas danças mais antigas, manjadas.

Isto sem falar que este papo de dança de negros não é lá muito politicamente correto. Danças Afro-brasileiras cairiam bem? Danças ‘afro-descendentes’? Talvez fosse até melhor. Não sabe? Muito menos eu.

(Enigmas são sempre tabus cabeludos. Difícil ser politicamente correto nestas horas).

Ademais, Jongo não é só uma dança. É muito mais…O que?…Ah, claro, claro, você se lembrou agora que sabe um pouco mais sobre Jongo.

Oh, que legal! Quer dizer que, aqui mesmo neste site, você aprendeu que o Jongo não só é uma dança de negros como é praticada no sudeste do Brasil, e cuja principal característica é ser uma dança de umbigada, ou seja, as pessoas, enquanto dançam, chamam umas às outras, para a contradança, com um toque de corpo, geralmente encostando uma a barriga na outra?

Boa esta descrição, mas, ela satisfaz ao que você sabe sobre o assunto? Não? Sabe mais um pouquinho ainda? …Ah, sim! Você até já assistiu a uma apresentação deste tal de Jongo, num palco.

Caraca! Jongo num palco?! É mesmo? Esta eu preciso ver. Descreva você mesmo então. Como? Se quero que conte…‘antropologicamente’? Não… pode ser do seu jeito mesmo:

_ Um grupo racialmente misto, de jovens; as mulheres, invariavelmente, com saiões estampados e homens também jovens, com calças brancas, ‘pelas canelas’ (‘calças de escravos’ como se diz), saracoteando e dando estas umbigadas, ao som de cantigas muito curtas e características, acompanhadas por dois ou três tambores, semelhantes aos de ‘macumba’.

Como um admirador do gênero, você reparou que havia uma estranha diferença, além dos tambores, no ritmo, no modo de dançar e nas roupas dos grupos mais humildes (aqueles mais da roça, que tinham maior número de pessoas velhas e muita gente pobre e preta) e os demais grupos (aqueles nos quais rodopiavam faceiras, as tais meninas de saião e os rapazes de calças ‘pescando siri’).

Com este reparo aliás (longe está você de criticar qualquer coisa), a sua impressão sobre este aspecto do evento, foi até bastante positiva.

Aposto, contudo, que você ficou intrigado com o fato de as jovens moçoilas usarem sempre – que diabo! – aquele mesmo saião estampado, exatamente o mesmo que usam outras jovens moçoilas nos novos grupos de Maracatu, Caixeiras do Divino, Boi Bumbá e tantas outras danças tradicionais ‘urbanizadas’ que pululam hoje em dia nas grandes cidades do Brasil. Não ficou intrigado ?

Mas notou, com certeza, que no grupo dos ‘véios’ não tinha nada disto não. Deve até ter se perguntado, ingenuamente, porque não se usa no Jongo (como acontece com os indefectíveis saiões) aquelas impressionantes alfaias ‘tradicionais’ usadas em todos os outros gêneros deste ‘neo-folklore’. Quer saber o que quer dizer ‘Alfaia’? Tá, eu explico: Se for para ser tradicional mesmo, alfaia não teria mesmo nada a ver com Jongo. Alfaia é de Maracatu, menino. É tambor nordestino, ibérico, árabe, e só nestas ‘praias’ lá ‘de riba’ poderia ser considerado ‘tradicional’.

– Tradicional! Tradicional!Pufff!

Não gosta deste papo de tradicional? Pois quer saber? Honestamente? Nem eu. É por isto que eu fico batendo nesta tecla.

Jongo fashion night

Brincando com o fogo

Uma coisa no entanto, é certa (se é que você ainda está ligado no assunto). Já observou que o MinC atual tem dado muita atenção a esta manifestação (o Jongo) e existiu até um movimento bem sucedido junto ao IPHAN que efetivamente transformou a dança em patrimônio imaterial da humanidade. Até mesmo eu já comentei sobre este assunto aqui neste sítio.

Está claro e sabido para você que, sendo uma dança hoje assim, tão reconhecidamente ligada às nossas raízes africanas (e, providencialmente, agora tão prestigiada por nossos órgãos de defesa e fomento da cultura nacional), o Jongo tende a ser objeto de muitos projetos de preservação e divulgação, tendência esta que, também se pode deduzir facilmente, pode ser o que estimula a existência hoje de tantos grupos de Jongo, organizados até, num enorme coletivo de ‘Jongueiros’ que se reúne todos os anos, num concorrido encontro financiado pela Petrobrás.

Bem, como não poderia deixar de ser, você chegou a notar também que já há uma curiosa ‘mistura social’ vislumbrada na, digamos assim, composição social destes grupos ‘neo-tradicionais’, certo? As tais moças e os tais moços muito jovens, aparentemente são de extrato social bem diverso daquele do qual são oriundas as ‘véias’ e os ‘véios’ jongueiros da roça, negros em sua esmagadora maioria, tipos bem característicos dos grupos de Jongo antigos, jongueiros ‘autênticos’, como dizíamos antes deste boom do Jongo ‘contemporâneo’ dar as suas caras. Seria resultado dos bons ventos da democratização do país?

Se você se enquadra no perfil do meu imaginário interlocutor, prepare-se para se surpreender com o que saberá a seguir. Se souber um pouco mais que eu, não se avexe não, contribua com a evolução da brasilidade latente de nossa galera e não nos esconda nada.

Por enquanto, sobre Jongo (como diria o Caetano Veloso, enquanto era vaiado naquele festival dos anos 60) vamos fingir que…:

__ Vocês não sabem de nada!

O Jongo e o mito na Wikipédia

Na Wikipédia? Oh God! Mon Dieu!

Conheço, não exatamente por acaso, o autor do verbete da Wikipédia para ‘Jongo’ (que poucas alterações recebeu até hoje, quando lá fui para reler e conferir ).

Como ainda não é crime revelar o autor de uma colaboração voluntária em uma enciclopédia da internet (além de ser tachado de cabotino, é claro) confesso: Fui mesmo o autor da maior parte do verbete, ora vigente na Wikipédia sobre “Jongo”. Porque confesso? É que acabo de descobrir, algo indignado, que o tema de nossa conversa desta série de posts – Mitos e mistificações no estudo da Cultura negra do Brasil – está sendo perpetrado, imaginem só, agora mesmo lá, naquela internacional, glamourizada e globalizada ‘enciclopédia’ on line, bem nas nossas barbas.

(Havia um outro verbete sobre Jongo lá, antes do meu, mas achei ele tão equivocado e desprovido de consistência e, aparentemente, tão atrelado aos interesses de um certo grupo de neo-jongueiros, que, me animei em ir lá escrever o que escrevi.)

Dureza. Missão quase impossível.

Saibam que a maioria dos administradores ‘especialistas’ da Wikipédia lusófona (gente boa, que aceita debater francamente), aparentemente, se encaixa no seguinte perfil: Jovens de Lisboa (desconfio que acadêmicos, recém graduados em Coimbra ou no Porto) com pouco ou nenhum conhecimento sobre cultura brasileira (o que é natural), porém, em relação a nós, brasileiros, cada um se achando mais saramago que o outro.

O problema poderia ser facilmente solucionado, pelo menos em parte, com o apoio dos poucos coordenadores ‘especialistas’ brasileiros que por lá existem (eu sei, não seria lá estas coisas, mas, vá lá que seja), havia, no caso do verbete do Jongo, contudo, um problema bem mais especializado e complicado: Além de se tratar de cultura negra (um problema para intelectuais tupiniquins em geral, como se está concluindo aqui) tratava-se de – oh deus! – cultura angolana no Brasil.

Ora, Angola, além do trauma da escravidão, é um problema quase psicopatológico para lusitanos mais nacionalistas. Para eles Angola é uma terra de perdas de dimensões marítimas, camonianas, diante da qual, por razões compreensíveis até, os portugueses têm ressentimentos profundos, por conta de graves seqüelas sentimentais deixadas pela derrota do exército dos ‘Putos’, dos ‘Tugas’ naquela sangrenta guerra colonial terminada na recente década de 1970.

Como já dizia o bardo deles: ‘Navegar – e esquecer – é, cada vez mais, preciso’.

Acossado portanto por este tipo de ‘especialista’ ressentido, arrogante e presunçoso, tive que duelar semanas à fio (em embates intelectuais homéricos, às vezes) para conseguir implantar, ás custas de muita verve, argumentos ‘irrefutáveis’ e caudalosas referências bibliográficas, os meus modestos verbetes de negão (um dos quais – este sobre o Jongo – é o objeto deste nosso post)

Nestes casos, sobra, naturalmente, a alternativa de voltar a encarar as turras homéricas com os ‘especialistas’ luso-brasileiros e corrigir o verbete, mas, isto, convenhamos, é coisa de quem não o tem mais que fazer. Parei com eles por causa disso.

Vamos fazer então aqui e agora a autópsia do verbete enxovalhado. Teórico de conspirações que, assumidamente, sou, me arrisco a supor que o conteúdo do verbete foi adulterado para atender a interesses ligados a desqualificação do fator tradicionalidade da manifestação (do Jongo, no caso) aqueles elementos e evidências que, se constassem do laudo do IPHAN, desautorizariam certos grupos ‘neo-tradicionais’ de se auto-intitularem representantes legítimos do Jongo… tradicional.

(Tradição sendo, neste caso, igual a requisito para o tombamento de um bem cultural da humanidade classificado como imaterial. Bem tombado sendo igual à habilitação para reivindicar recursos de patrocínio público e privado. Sacaram a malandragem?)

Vejam vocês – e deduzam por si mesmos – as entranhas de uma mistificação sendo urdida agora mesmo. E que Nzambi, Alá, Jeovah e os outros deuses todos me lancem no limbo mais escuro se eu não tiver razão.

(Os conceitos contidos no verbete, servirão para embasar o nosso debate, exceto as tais intervenções marotas que algum misterioso colaborador inseriu ali, com as intenções que apenas insinuo aqui, as quais, obviamente, estarão abaixo, devidamente, assinaladas em negrito):

Jongo (in Wikipédia)

O contexto

(atenção para as armadilhas conceituais em negrito que, por pura ‘maldade’, inseri no texto do verbete originalmente publicado)

“Jongo é uma manifestação cultural essencialmente rural diretamente associada à cultura africana no Brasil e que influiu poderosamente na formação do Samba carioca, em especial, e da cultura popular brasileira como um todo.

Inserindo-se no âmbito das chamadas ‘danças de umbigada’ (sendo portanto aparentada com o ‘Semba’ ou ‘Masemba’ de Angola), o Jongo foi trazido para o Brasil por negros bantu, seqüestrados nos antigos reinos de Angola e do Congo, na região compreendida hoje por boa parte do território da República de Angola.

…” Dançado e cantado outrora com o acompanhamento de urucungo (arco musical bantu, que originou o atual berimbau), viola e pandeiro, além de três tambores consagrados, utilizados até os nossos dias, chamados de Tambu ou ‘Caxambu’, o maior – que dá nome a manifestação em algumas regiões – ‘Candongueiro’, o menor e o tambor de fricção ‘Ngoma-puíta’ (uma espécie de cuíca muito grande), o Jongo é ainda hoje bastante praticado em diversas cidades de sua região original: o Vale do Paraíba na Região Sudeste do Brasil, ao sul do estado do Rio de Janeiro e ao norte do estado de São Paulo”….

Jongo (in Wikipédia)

O Conceito

…”Composto por música e dança características, animadas por poetas (inserção de algum colaborador misterioso e mais’ lúdico ’- menos lúcido, talvez – do que eu que, no original, havia grafado ‘cantadores’) que se desafiam por meio da improvisação, ali, no momento, com cantigas ou pontos enigmáticos (‘amarrados’) , o Jongo tem, provavelmente, como uma de suas origens mais remotas (pelo menos no que diz respeito á estrutura dos pontos cantados) o tradicional jogo de adivinhas angolano, denominado Jinongonongo

…”Este fator relaciona-se a normas éticas e sociais bastante comuns em diversas outras sociedades tradicionais – como as indígenas americanas – baseadas no respeito e obediência a um conselho de indivíduos ‘mais velhos’ e no ‘culto aos ancestrais‘.

Pesquisas históricas indicam que o Jongo possui, na sua origem, relações com o hábito recorrente das culturas africanas de expressão bantu, durante o período colonial, de criar diversas comunidades, semelhantes a sociedades secretas e seitas político-religiosas especializadas, dentre as quais podemos citar até mesmo irmandades católicas, como a Congada. Estas fraternidades tiveram importante papel na resistência à escravidão, como modo de comunicação e organização, e até mesmo comprando e alforriando escravos”…

(Esta tese do Jinongonongo, que eu tirei de Ladislau Batalha, aguarda debatedores para ser ou não legitimada. Veja mais abaixo parte da minha argumentação: )

Jongo (in Wikipédia)

O Conceito fraudado

Aqui, no seguimento do verbete logo abaixo – muita atenção leitores! – no longo trecho em negrito, há uma curiosa inserção, proposta – e aceita pela Wikipédia – por algum misterioso colaborador que, ao que parece distorce, intencionalmente, um conceito fundamental da manifestação (Jongo) que é o caráter seletivo dos participantes logo abaixo, pela minha proposta, explicitado.

Se liguem nos detalhes (as inserções espúrias), em negrito portanto:

” Uma característica essencial da linguagem do Jongo é a utilização de símbolos que, além de manter o sentido cifrado, possuem função supostamente (sic) mágica, provocando, supostamente (sic), fenômenos paranormais. Dentre os mais evidentes pode-se citar o fogo (?), com o qual são afinados os instrumentos; os tambores, que são consagrados e considerados como ancestrais da comunidade (?); a dança em círculos com um casal ao centro, que remete à fertilidade(?); sem esquecer, é claro, as ricas metáforas utilizadas pelos jongueiros para compor seus “pontos” e cujo sentido é inacessível para os não-iniciados..(!)”.

…”Hoje em dia podem participar do Jongo homens e mulheres mas esta participação, em sua forma original era rigorosamente restrita aos iniciados ou mais experientes da comunidade…”

(Um primor de incongruência esta oposição criada pelos adulteradores do verbete entre ‘homens e mulheres’ e ‘iniciados/‘mais experientes’, querendo significar é claro, embora canhestramente, que hoje já não seria mais necessário ser ‘iniciado’ ou ‘mais experiente’ para participar do Jongo, abolindo um aspecto crucial à tradicionalidade da manifestação: a condição de participante dos grupos efetivamente tradicionais.

Vejam no original:

...” Da manifestação do Jongo podem participar homens e mulheres, mas esta participação, em sua forma original, sempre esteve, rigorosamente, restrita aos iniciados ou mais experientes da comunidade…”

Ao que tudo indica, desprovidas de fundamento que são, as distorções, claramente, visam autorizar a inclusão de certos grupos ‘neo-tradicionais’ dentro do conceito de ‘tradicionalidade’ que antes, no verbete original era afirmado como sendo restrito e determinado, ou seja:

Do Jongo tradicional, não deveriam participar indivíduos não iniciados. Jongo seria uma manifestação de ‘mais-velhos’ (um conceito ainda usado em Angola e no Brasil).

Estariam aptos a ser objeto de tombamento, apenas grupos, efetivamente, tradicionais (segundo os critérios de tradicionalidade – Conceito e Contexto – determinados) que, são, exatamente, aqueles grupos descritos como sendo ‘da roça’, integrados pelos ‘véios’ e véias’ (as que não usam aqueles saiões estampados).

São inseridos também no verbete, aleatoriamente, uma lista de símbolos substitutos daqueles, originalmente, descritos no verbete original, símbolos estes, que possuem relação com antecedentes angolanos, entre os quais os mais conhecidos são a bananeira e a fogueira (e não exatamente o fogo) além de outras práticas ancestrais, que remontam ao passado africano da manifestação, plenamente identificáveis por observadores mais especializados no assunto aqui e na África)

Jongo (ainda in Wikipédia)

O Jongo se urbaniza (e agoniza) numa boa

A seguir, o verbete original (em sua parte preservada), relata o surgimento de recriações de Jongo, posteriormente, realizadas, por descendentes de escravos do Vale do Paraíba do Sul, que migraram para o Rio de Janeiro após a abolição, frisando de modo enfático, o surgimento desta linha que seria o final de um caminho evolutivo que, do modo como foi descrita a manifestação no contexto de suas finalidades históricas e sociais mais importantes, representaria o ponto de extinção (naquele novo contexto) daquela vertente.

…”A cidade do Rio de Janeiro, na região compreendida pelos bairros de Madureira e Oswaldo Cruz, já nos anos imediatamente posteriores à abolição da escravatura, centralizou durante muito tempo a prática desta manifestação na zona rural da antiga Corte Imperial, atraindo um grande número de migrantes ex-escravos, oriundos das fazendas de café.

Entre os precursores da implantação do Jongo nesta área se destacaram a ex-escrava Maria Teresa Bento da Silva muitos de seus parentes ou aparentados além de diversos vizinhos da comunidade, entre os quais Mano Elói (Eloy Anthero Dias), Sebastião Mulequinho e Tia Eulália, todos eles intimamente ligados a fundação da Escola de Samba Império Serrano”…

…”A partir de meados da década 70, no mesmo Morro da Serrinha, o músico percussionista Darcy Monteiro ‘do Império’ (mais tarde conhecido como Mestre Darcy), a partir dos conhecimentos assimilados com sua mãe, a rezadeira Maria Joana Monteiro (discípula de Vó Teresa), passou a se dedicar á difusão e a recriação da dança em palcos, centros culturais e universidades estimulando por meio de oficinas e workshops, a formação de grupos de admiradores do Jongo que, embora praticando apenas aqueles aspectos mais superficiais da dança, deslocando-a de seu âmbito social e seu contexto tradicional original, dão hoje a ela alguma projeção nacional”…

Pois é, exatamente, desta ‘vertente final’, surgida da mística criada em torno do nome do Morro da Serrinha, que surgem as distorções enumeradas acima.

E o que são estas novas manifestações jongueiras? Jongo requentado, para ‘inglês ‘ver ou Jongo evoluído, modernizado, adaptado ao século 21?

E o tal do Jongo das ‘véias’ e ‘véios’, vivíssimo ainda na Roça, aquele Jongo efetivamente tradicional, que não se adaptando aos ‘novos’ tempos, será atropelado pelos ambígüos laudos do IPHAN, o que será dele? Agüentará o tranco?

Jongo à vera

Fechando a roda por hora

Além do que já se disse, o que viria a ser o Jongo afinal?

A palavra ‘Nongo’ em Kimbundo significa, exatamente, enigma, adivinhação, (Ji-nongonongo = jogo de adivinhas, de charadas) segundo o etnolingüista suíço Hèli Chatelain que escreveu em Angola, ali por volta de 1887, sobre a língua e os costumes angolanos, compatíveis com a época da vinda de escravos desta região para as fazendas de café do vale do Paraíba do Sul (citadas no verbete).

“Nongo (no plural = ji- nongo), nongo-nongo (plural=ji-nongonongo).

Jogo de adivinhas, de caráter talvez sócio-educativo, praticado pelos ‘mais velhos’ (sociedades secretas) de uma comunidade, com finalidades outras, de caráter ainda indefinido, porém, talvez insinuado nos elementos sobreviventes no Jongo do interior (Jongo tradicional).

Ji-Nongo= J’nongo =J’ongo, como dedução lógica.

Logo, sendo Jongo uma manifestação muito antiga, de caráter transnacional, bem mais complexa do que imaginávamos, podemos concluir também que a dança devia ter importância apenas acessória nos eventos (talvez até, meramente eventual) no âmbito de um atividade social, francamente, africana, muito ocorrente no Vale do Rio Paraíba do Sul, de meados do século 19 até hoje.

Muita coisa ainda para se descobrir e estudar sobre o assunto, portanto.

(Esta dança – chamada de Jongo, por extensão ao nome da manifestação – caracterizadamente uma dança de umbigada – um tipo de ‘ma-Semba’ – é um caso a parte que pretendemos abordar no post seguinte.)

Dizem que o Jongo, tendo uma suposta ligação com o Semba angolano, teria sido uma espécie de ancestral direto de nossa dança preferência nacional: o Samba velho de guerra.

Ancestral direto? Seria este um conceito válido em Cultura, esta coisa tão dinâmica?

Semba e Samba. Algo a ver? Sei não. Fique amarrado nesta história.

Spirito Santo

Novembro de 2010