A Síndrome do Gueto


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Foto: Escravidão século 19 – Biblioteca do Congresso dos EUA

Movimentos ‘Brancos’ ou Movimentos ‘Negros’? Teorizando sobre mazelas sociais indizíveis

Sei lá porque (acho que é um trauma do colégio interno ou da prisão), maior baixo astral, mas o fato é que sempre penso nisto e senti agora mesmo um impulso incontrolável de falar com alguém sobre o assunto.

O Gheto de Varsóvia é a referencia mais vívida e emblemática: Na circunscrição daquele espaço cercado pela polícia nazista, um microcosmos social transbordando de psicopatias e neuroses sobre as quais, até hoje, ninguém quer falar.

O clima é de urgência. Cada dia é um dia. Sabiam, mas agora ninguém sabe mais, exatamente como é ‘lá fora’, o que ocorre ‘lá fora’, a dimensão e a natureza terrível do que está por vir.

Os colaboracionistas com tarjas identificativas nos braços; uns servindo de polícia, controlando os próprios vizinhos, outros se ocupando do tráfego de carroças e pessoas, da distribuição de comida, todos pensando que vão conseguir se safar, salvar a si e a família pelo menos da fome e por isto fazem jogo das tropas de ocupação.

Políticos espertos (até alguns líderes religiosos) na pele de agentes comunitários ‘um-sete-uns’ criam ou dirigem instituições – muito parecidas com as ONGs modernas – que intermediam informações trocadas por indignas migalhas ou mesmo pela honra, pela moral, por valores que deveriam ser inegociáveis, enfim.

No fundo não passam de atenuadores de conflitos que cumprem apenas o papel de cobrir com ‘panos quentes’ a indignação e a ânsia de revolta que grassa o pensamento das pessoas.

O Gheto é isto: De um lado a submissão conformada da maioria e do outro a resistência louca de um punhado de insanos suicidas que pega em armas por alguma razão.

(E aqui o olhar servil e malvado do camponês denunciando o esconderijo de Che Guevara na selva da Bolívia é a lembrança mais pungente)

É que nestes casos denunciar os rebeldes vira uma mercadoria valiosa. Vale um queijo, um pouco de presunto, uma garrafa de vinho. Como condenar, censurar os que se submetem a isto, os que se aviltam para tentar sobreviver? Uns mais ardilosos e canalhas até que se dão bem. Chegam até a enriquecer um pouco – isto se considerarmos o pouco que é necessário para se sentir rico num ambiente miserável como este.

No fundo a maioria compactua, abaixa a cabeça e se submete. Nem se dá conta da eventual imoralidade de seus atos, da iniquidade de sua traição àqueles semelhantes que se rebelaram e que por isto irão, com toda certeza morrer.

Na verdade, a esta maioria, se lhe fosse dada a chance de escapar, não saberia nem mesmo para onde ir, porque ir, tão envolvida que está pela propaganda viva, pulsante nas coisas descritas pelo momento, pelo dia a dia.

_‘As coisas que são o que são e está acabado’_ É o que toda maioria diz.

Adaptada às circunstâncias, aprisionada em si mesma, a maioria presa fácil da Síndrome do Gueto.

Não lhe parece familiar este filme?

…Não. Não falo deste filme colorido de Hollywood. Falo daquele nosso filme íntimo real e brasileiro que está em cartaz num cinema bem perto de você.

(Pronto. Se já não sabia, você agora sabe muito bem do que estou falando. Podemos enveredar então pela outra ponta do assunto).

Enunciado completo da questão:
Entranhas da estranheza. Sintomatologia

Síndrome: Distúrbio ou doença – individual ou social – contingência irrecorrível, estado de coisas anormal, conjuntura aguda, quase inescapável, a qual um indivíduo ou um grupo social está acometido, caracterizada pela conjunção de um número determinado de fatores, especialmente articulados que, condenam o indivíduo e/ou o seu grupo a um destino indesejado e quase sempre inexorável. Exemplos:

  • Distúrbios ou doenças individuais: Aids (Síndrome da Deficiência Imunológica Adquirida), Síndrome do pânico, distúrbios psicológicos ou neuro-químicos em geral, esquizofrenias, psicopatias diversas (Síndrome de Estocolmo, aquela do sequestrado tomado de admiração pelo sequestrador).
  • Distúrbios ou doenças sociais: Analfabetismo, carência alimentar (subnutrição), alienação cultural aguda (aculturação)… Racismo, etc.

Gueto: Espaço restrito, físico ou simbólico, para o qual foi alijado ou no qual, deliberadamente foi confinado um grupo social, que por este intermédio passou a ficar isolado, de um lado de seu meio social e/ou cultural original e, de outro lado, isolado também do convívio com a sociedade em geral, vista de forma ampla.

Esta subjugação do grupo confinado neste gueto, neste espaço de exclusão, se dá por força de dispositivos do mesmo modo físicos, concretos (tal como muros ou cercas de contenção, repressão policial, etc.) ou simbólicos, mentais (tais como campanhas sistemáticas de difamação, privação de acesso à educação formal, procedimentos segregacionistas abertos ou dissimuladas, racismo, etc.).

Muito eficientes ao longo do tempo, estes dispositivos, geralmente impostos por um grupo social hegemônico por força de forte pressão psicológica e expedientes culturais subliminares os mais diversos, muitas vezes acabam sendo até mesmo tolerados, aceitos – ou passam despercebidos – por aqueles que, expostos a eles durante muito tempo, acabam subjugados por muitas gerações.

Síndrome do Gueto: Estado mental ou comportamental manifestado por indivíduos submetidos às condições gerais e especiais acima citadas, principalmente no campo de suas relações psico-sociais e culturais, marcadas indelevelmente pelas consequências nefastas do prolongado isolamento ao qual o grupo está ou esteve submetido.

Espécie de circulo vicioso, este estado de coisas impede ou dificulta aos indivíduos destes grupos (e até mesmo às associações de indivíduos criadas para defender seus interesses) a compreensão da natureza complexa de seus problemas, a ponto de dificultar o encontro de soluções eficientes que possam efetivamente romper o estado de coisas estabelecido, tornando estes indivíduos ou grupos, presas fáceis, quase cúmplices da manutenção ininterrupta de seu estado de subjugação.

Tratando-se de um estado de coisas de natureza social, embora anômalo, ou seja, do ponto de vista das regras básicas do conceito Humanidade, um estado de coisas injusto, a Síndrome do Gueto pode ser vista como sendo uma nítida política de exclusão social, deliberada, perpetrada por certos grupos ou classes sociais contra os outros, com o intuito de subjugá-los, justificando, plenamente o ensejo e o direito dos grupos prejudicados, por meio do estudo meticuloso de sua condição de excluídos, de buscar estratégias (que são a princípio políticas já que, em casos mais agudos, até mesmo estratégias para-militares ou violentas podem ser necessárias) para quebrar o jugo dos hegemonistas.

Exemplos emblemáticos de grupos sociais afetados pela Síndrome do Gueto ao longo da história:

  • Hebreus ou Judeus subjugados por egípcios no tempo dos faraós
  • Indigenas norte-americanos – e sul americanos – e africanos de diversas etnias subjugados pelos colonizadores brancos nas Américas e na África nos século 18 e 19, confinados em reservas ou territórios militarmente controlados
  • Fazendas de escravos nas Américas (como as de algodão nos EUA ou as do ciclo do café brasileiro)
  • Judeus aprisionados em guetos de criados pelos nazistas na segunda guerra mundial (como o Gueto de Varsóvia)
  • Emigrantes contidos em bairros de deserdados (como o velho Harlen de Nova York), etc.
  • Populações aprisionadas em Guetos e ‘bantustões’ implantados pelo governo racista da África do Sul durante o regime do Apartheid (como Soweto)
  • Palestinos subjugados pelo estado israelense na faixa de Gaza
  • Euro-muçulmanos subjugados – e massacrados- por sérvios e croatas na partilha nacionalista da ex-Iuguslávia.
  • Negros e nordestinos alijados para morar em ‘Morros’, ‘Favelas’, ‘Comunidades’e ‘Complexos’ de pobres no Rio de Janeiro, Brasil

O conceito, portanto está lançado. Este é, pois o tema proposto: a análise meticulosa da natureza desta síndrome em todas as suas nuances e melindres, afim de que se escape da armadilha estratégica que o combate ao racismo no Brasil parece estar confinado.

A luta contra o renitente racismo à brasileira estaria de algum modo, comprometida, travada por esta síndrome? Toco no assunto só de relance abaixo.

Anos de chumbo. A clausura impregnada em nós

Nos tão bem lembrados – e em certa medida saudosos – anos 70, a questão só assumiu contornos de emergência revolucionária para uns poucos. Lutar contra a ditadura era uma necessidade indiscutível e inadiável sim, prioridade absoluta para aquela parcela bem pensante de nossa sociedade, mas lutar contra o racismo não.

Tabu embutido no discurso da esquerda brasileira o tema foi, ora discretamente omitido, ora desestimulado com veemência, tratado como uma questão menor, ‘reacionária’ até, que só serviria mesmo para… ‘atrasar’ a luta.

Refletindo já a visão distorcida – que, aliás, predomina sobre o assunto até hoje – sendo a maior parte desta camada ‘bem pensante’ composta por pessoas auto declaradas ‘brancas’ (ninguém parava para pensar – ou fingia não saber – porque diabos a sociedade brasileira estava dividida assim).

O fato é que a discussão sobre o racismo era considerada, francamente secundária, ‘superestrutural’ como se dizia, quase um estorvo diante das grandes e sagradas questões nacionais.

(Não devia ser assim, mas pimenta nos olhos dos outros sempre foi refresco).

Como estaria se dando em Cuba e em outras mais longínquas plagas, o socialismo tão ansiado, assim que implantado por aqui, naturalmente se incumbiria de anular as eventuais e prosaicas (residuais para muitos) divergências raciais.

Justiça social total e automática. Esta era a utopia que parecia a verdade mais líquida e certa deste mundo. Dá até angústia pensar hoje em dia na solidão dos minguados velhos militantes negros da ocasião, calejados de exemplos frustrados desde a mal ajambrada abolição da escravatura.

Melancólicas lembranças daquele malhar em ferro frio do pessoal do Teatro Experimental do Negro nos anos 40/50, dos vetustos senhores da Frente Negra Brasileira dos anos 30, ingênuos quase comunistas, quase integralistas, vendo uma após outra as gerações de negros, filhos, netos, passarem a juventude inteira sem referências ideológicas válidas, curtindo a incômoda sensação de que, para vencer a barreira quase invisível do racismo o jeito mesmo era buscar uma saída individual, sem tocar publicamente no problema, sublimando-o na subserviente crença de que, estudando o negro chegaria ‘’.

_’Lá onde?’_ Pensavam e esbravejavam minguados rebeldes como Solano Trindade, Abdias do Nascimento, Olímpio Marques dos Santos e uns poucos outros mais.

Eu mesmo, jovem militante subalterno de algumas poucas lutas puramente sociais, tomado por esta mesma negação do problema racial que não via ou não queria ver, me ressentia calado da subestimação com que as lideranças tratavam do problema que eu, mesmo sem assumir frontalmente, percebia estar grudado em nós como craca em casco de navio, enrustido em todas as relações que se estabeleciam entre as pessoas no Brasil, independentemente delas serem da ‘esquerda’ ou da ‘direita’.

Líamos o mesmo Karl Marx, mas, entendíamos marxismos diferentes. Como nas teses originais do alemão, inspiradas que foram na realidade européia, a questão do racismo não aparecia claramente expressa, os mais brancos de nós interpretavam o racismo como sendo uma espécie de problema cultural apenas subjacente, estritamente brasileiro, passível de fácil remédio com programas sócio educacionais pontuais.

Nós, os mínimos – embora mal letrados – quase marxistas negros do pedaço, não nos arvoraríamos jamais de, aquela altura dos acontecimentos, corrigir semelhantes filigranas nas teses do ‘mestre’ do materialismo dialético.

A chapa estava quente demais. As pessoas morriam de verdade, envolvidas naquela aventura. Amargavam as dores todas da cadeia, da tortura. Perdida de antemão, sabemos agora, contudo que aquilo era luta mesmo, luta à vera, gritariam para nós nas assembléias, se ousássemos levantar a voz para propor qualquer aprofundamento da questão.

Contudo, o exemplo mais candente da relevância deste ressentimento era facilmente perceptível na condição subalterna a que eram relegados os gatos pingados negros da ‘organização’.

Para ‘Uns‘ tarefas subalternas, posições subalternas até num simples ‘comício relâmpago’, práticas nas quais os ‘Outros‘ (às vezes – pasmem! – vestindo ternos de ‘tweed’ em pleno verão carioca) nas portas das fábricas faziam os prolixos discursos incitando greves contra os ‘patrões exploradores da mais valia operária’ enquanto que os  ‘Uns‘, disfarçados de mendigos, operários ou camelôs, entravam mudos e saiam calados, fazendo a ‘segurança da ação’, prontos a, se fosse o caso, segurar o trem pesado da repressão.

(Desnecessário se dizer no caso quem eram ‘uns’ e quem eram os ‘outros’).

Para cada tempo um fundo sentimento
Ser negro naqueles anos de chumbo

Fortes, intrínsecas e renitentes as premissas básicas do Racismo à brasileira já apareciam ali, claríssimas, só os cegos (os que não queriam ver) não viam. O símbolo mais evidente do caráter doentio desta renitência podia ser simbolizado por aqueles militantes ‘revolucionários’ que, sabia-se à boca pequena, quando ainda não ingressos na clandestinidade, mantinham empregadas domésticas em suas próprias casas.

Dizem até que alguns contratavam discretas arrumadeiras diaristas para limpar os ‘aparelhos’, limitando-se apenas a tratá-las como ‘iguais’, vez por outra as brindando com pequenos regalos e exortações à conscientização de seu papel de escravas dos ‘outros’ (por suposto, nunca ‘deles’).

Talvez tenha sido por isto que aquele renovado Movimento Negro dos anos 70, aparentava já na sua origem, aquela forte vocação ‘Black is beatifull’, curtindo mais Lhuter King do que Malcom X, tendendo mais para o fashion ‘Black Power’ do que para o enfático ‘O Negro no Poder’.

Subestimando por julgar arcaica e ‘out‘ cultura dos nossos avós sambistas, alguns de nós ignoravam ou repudiavam do mesmo modo, o caráter francamente racista da ‘juventude branca’ de esquerda, que de forma vanguardista propunha uma revolução social rumo a uma sociedade sem classes.

‘Renegar o velho‘, ‘renegar o branco‘, estas eram as palavras de ordem subentendidas em algumas de nossas falas. E daí como consequência o efeito terrível: Aculturados, misturamos assim alhos com bugalhos.

Foi incrível, mas cega pela aversão ao racismo renitente e enrustido dos ‘movimentos brancos‘, esta parte mais proeminente da militância negra parece que foi perdendo também o sentido de sua luta, o foco de seus próprios interesses sociais mais evidentes, ao negar – como uma pequeno-burguesia destas bem egoístas e chinfrim– o eterno sonho da revolução social, mesmo quando ela já estava sendo feita, exatamente por exemplares sociedades negras contemporâneas, aquelas mesmas antepassadas diretas dos negros do Brasil (Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau).

(Aliás, quem por aqui se importava com Nelson Mandela na década de 70?)

Zumbi por certo, nestas horas, se revolvia no túmulo ultrajado por ter seu revolucionário nome evocado em vão (isto sem se falar no mesmo revolver do corpo do Oswaldão do Araguaia).

As ideias de libertação sócio racial, na luta de todos para todos (do vitorioso ideário do ANC de Mandela), acabaram assim trocadas pelas contidas ideias de ascensão social individual, segundo um modelo de luta calcado no que havia de mais aparente no comportamento de uma minoria negra, que reivindicava direitos civis nos EUA.

A mal disfarçada tentativa de criar aqui uma classe média negra, uma elite negra, uma casta de intermediários entre os milhões de negros pobres e a hegemonia branca – como se pode ver ainda hoje – claramente era (como o é ainda) totalmente improvável no contexto de uma população afro-descendente tão numerosa quanto tão meticulosamente segregada como a nossa.

Assim como uma maioria equivocadamente se julgando minoria, pensando como minoria (como se dava, por razões bem menos prosaicas em Varsóvia), esta minúscula liderança negra foi facilmente inviabilizada e corrompida, cooptada enfim como qualquer ‘panelinha’ social oportunista.

Pois foi assim que a Síndrome do Gueto, se apossando sorrateiramente daquelas nossas mentes mais vadias e românticas, que sonhavam em sozinhas chegar ‘lá’, nos levou a este deu no que deu.

O isolamento político de uma geração inteira de hoje maduros líderes negros que, animados naquela época pelas emocionantes palavras de ordem dasMarchas para Zumbi, se empenharam no vão intento de ser a antítese perfeita e acabada da esquerda ‘branca’, acabando mesmo como tributários subalternos das plataformas pretensamente esquerdistas do PT (e de outros partidos menores, também supostamente de esquerda) tendo que amargar hoje as lamúrias tardias de um ou outro líder-orixá caído na lama, dentre os poucos que…chegaram ‘‘.

Como, ao que supomos, ficou provado, não bastava mesmo ser negro e favelado.  Seja lá qual fosse a revolução de cada um, o dístico rebelde nunca poderia ser apagado:

_ ‘hay siempre que endurecerse sin perder a ternura – e a ética, a vergonha na cara – jamás.’

(Melancólicas e tardias constatações, reconheço. E é por isto que peço tempo. Depois o papo segue de onde parou, num outro post ou até onde esta penosa conversa nos levar.)

Spírito Santo
Abril 2010

(Hoje, 2019, infelizmente não consegui mudar uma vírgula)

Monsueto mora na filosofia.


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Capa Mora na filosofia dos sambas de Monsueto By Marcel Cruz e Magda Joele

Capa de “Mora na filosofia dos sambas de Monsueto” By Marcel Cruz e Magda Joele

Rio Zona Sul
Leblon, Copacabana e Samba

O final da minha infância foi marcado pelas músicas dele. Deve ter sido o primeiro prazer musical assim, brasileiro mesmo, que eu curti na vida. Uma música inteiramente diferente dos boleros e guarânias que rolavam no suburbano hit parade do rádio da minha mãe.

Agora mesmo, relembrando, me dou conta, surpreso, de que sei cantar até hoje, quase todas as músicas que ele fez. Elas ficaram gravadas na minha memória como fogo brando. Um ‘long playing’ de lembranças de um rito de passagem. Fiquei homem ouvindo as músicas desta figura tão fabulosa quanto desconhecida da garotada de hoje, em seus ritos de passagem tão hedonistas quanto estrangeiros.

Se for mesmo aprofundar, considerando-se a agudeza do discurso social de suas letras, talvez ele tenha sido – muito mais do que qualquer Marx ou Engels da vida – a principal referência cultural na minha tomada de consciência, do que significava ser brasileiro, naqueles tempos confusos, onde se curtia uma necessidade imperativa de saborear a vida, correndo atrás da felicidade sim, porém sem nunca deixar de pensar na vida do próximo. Duros, tesos, pero sin perder la ternura jamás (grande mérito moral e emocional da minha geração).

O nome dele era Monsueto e foi o meu guru sambista, nesta época turbulenta que foi o início dos anos 60. Sorridente xamã bon vivant, do meu rito de passagem para o mundo ‘adulto’. Tempo das ilusões – e das revoluções – perdidas.

O Cara

Monsueto Campos Menezes foi, essencialmente, um músico. Baterista de boate, atuou em diversos conjuntos na década de 1940, entre as quais a Orquestra de Copinha, no Copacabana Palace Hotel. Percussionista, cantor, ator comediante, foi também um excelente pintor naïf no fim de sua curta vida (Pablo Neruda, certa vez, adquiriu um quadro dele). Foi, sobretudo, um compositor popular da pesada, dos melhores que o Brasil já teve.

O auge da popularidade de Monsueto, como compositor, se deu por volta do fatídico ano de 1964, quando Helena de Lima, experimentadíssima cantora de boate, gravou (ao vivo) o vinil ‘Uma Noite no Cangaceiro‘ (boate da moda na época) incluindo num eletrizante ‘pout-pourri’ de Sambas, duas músicas dele: ‘Mora na filosofia’ (também gravada por Caetano Veloso no disco ‘Transa‘ de 1972) e ‘A Fonte secou’.

Nascido no Rio de Janeiro em 4/11/1924, criado na Favela do Pinto, Monsueto perdeu os pais muito cedo, tendo sido criado por uma avó.

Quem é que se lembra da Favela (da praia) do Pinto? Lugar muito especial nesta época, também chamada, erroneamente, de Morro do Pinto (que fica na verdade na área do cais do porto), a favela onde Monsueto foi criado, era um gueto negro encravado na parte mais nobre da Zona Sul do Rio. Para os elegantes da área, um câncer a ser extirpado.

A Praia do Pinto

“De todas as favelas extintas nos anos 60, o caso mais polêmico foi a da Praia do Pinto, no Leblon. Os moradores souberam dos planos da Prefeitura de acabar com a comunidade ainda na década de 50, mas houve forte resistência.

Segundo dados do Censo de Favelas de 1949, pelo menos 20 mil pessoas moravam no local. A remoção só foi concluída após um incêndio, em 1969, durante o mandato do governador Negrão de Lima.

“Muitas pessoas não queriam sair. Apesar dos problemas, preferiam continuar morando na Zona Sul. O incêndio obrigou todo mundo a ir embora”, afirma Maria Rosa de Souza Noronha, de 62 anos, ex-moradora da Praia do Pinto, depois removida para o Complexo da Maré.

Praticamente todos os barracos da Praia do Pinto foram destruídos pelo fogo. No dia seguinte, policiais colocaram abaixo as poucas casas que sobraram de pé.

Até hoje ninguém confirma se foi acidente ou uma última tentativa do Governo de expulsar os moradores. Mas todos os indícios apontam para um remoção forçada “.

A Chapa quente e a Guerra Fria.

Mesmo deixando de lado a crônica crua da destruição da Favela do Pinto, o contexto da época de Monsueto é, historicamente, muito rico. Na política, a chapa esquentava, devagarinho, numa, crise na conjuntura econômica (e ideológica) mundial, chamada, com certa ironia, de ‘Guerra Fria‘ (a Guerra Quente há muito terminara na Europa).

É nesta época que, no bojo do intenso rebuliço que preparou o campo para uma nova ordem econômica mundial, nos anos 70, que as sangrentas ditaduras militares latino americanas chocaram seus ovos. CIA versus KGB, Comunismo versus Capitalismo, uma época de ismos diversos em conflito.

Cínico, irônico, Monsueto, por exemplo, devia ser adepto do ‘Sambismo’, nome possível para uma doutrina ideológica onde, evidentemente, só pontificavam os sambistas.

No aspecto cultural, a época no Brasil (e na área por onde Monsueto transitava, a elegante noite boemia de Copacabana) também não era de brincadeira não. Sonambulos, sonhávamos ainda. Sem nos tocar que a Revolução Cubana significaria algum tipo de ruptura, de perigo para a estabilidade latino americana, vivíamos, tolamente, os últimos capítulos dos anos dourados’, para entrar nos ‘Anos de Chumbo’.

Um dos principais pólos desta efervescente letargia era Copacabana. Ali se fermentava, se destilava e, principalmente se bebia, uma música popular muito original e híbrida, em vários sentidos.

Nas boates de Copacabana se poderia ouvir tanto um Samba na praia de um Cyro Monteiro (figura rara em boates), swuingado, puxado à la Geraldo Pereira, como uma mescla do Samba canção, meloso, com aquele chiquê trágico das canções de Edit Piaf, marca aparente das composições de Dolores Duran e Antônio Maria.

Os dois aliás, estiveram de algum modo presentes, na veia seminal de outro tipo de Samba, mais voltado para a inconsequência burguesa da Côte D’Azur francesa: A Bossa Nova primordial de Jobim e sua turma que, logo em seguida, elegante que era, achou por bem embarcar na tal – e não menos burguesa – ‘Influencia do Jazz’.

O que não se fala muito, nesta crônica da música da Zona Sul do Rio de Janeiro, é que haviam outras tendências, tão ou mais, interessantes, como é o caso da corrente da qual, de certo modo fazia parte Monsueto.

Esta corrente, muito rica, integrada por artistas negros oriundos, em sua grande maioria do âmbito da Favela do Pinto, a partir das mesmas influências, digamos assim, ‘pequeno-burguesas’ que geraram mais tarde a Bossa Nova, desenvolvia um estilo mais calcado numa mistura entre o Samba ‘de morro’, como já se dizia na época, com lado mais ‘africano’ da música de jazz que nos chegava, mais diversificada com os bons ventos do Desenvolvimentismo, avançando rumo ao que, mais tarde, se cristalizou no estilo sacudido da música de Jorge Ben (o Benjor de hoje) ou mesmo de Baden Powel e seus Afro Sambas.

Este estilo, ainda pouco estudado no Brasil, gerou nos anos subsequentes muitas figuras emblemáticas de nossa música instrumental (muito populares em sua época, ali pelos idos dos anos 60) como, por exemplo, Erlon Chaves, um maestro muito popular na TV da época, o fabuloso Dom Salvador (e seu Grupo Abolição), Moacir Santos (’Ouro Negro’) e tantos outros.

Monsueto Campos Menezes, cria desta fabulosa geração de artistas, atuou também como ator cômico no cinema (onde trabalhou em, pelo menos, 14 filmes, inclusive europeus) e na televisão. Excursionou para a Europa, a África e a América, falecendo em 17/2/1973.

Bem, vocês podem até dizer que eu ‘viajei’, que Monsueto não passava mesmo era de mais um bom sambista, mas, primeiro precisamos combinar uma coisa (como diria Paulinho da Viola) :

O Samba, ‘não é só isto que se vê. É um pouco mais’.

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As músicas de Monsueto

A primeira composição de Monsueto, gravada em 1951, foi o samba “Me deixe em paz”, parceria com Aírton Amorim (gravada por Linda Batista) porém muito mais lembrada na antológica versão de Milton Nascimento no disco ‘Clube da Esquina‘.

Conheça melhor (e aprenda a cantar) a obra do homem:

Me deixe em paz

Se você não me queria
não devia me procurar
não devia me iludir
nem deixar eu me apaixonar

Evitar a dor

é impossível
evitar este amor
é muito mais
você arruinou a minha vida
me deixa em paz’

O Couro do Falecido

Um minuto de silêncio
Para o cabrito que morreu
Se hoje a gente samba

É que o couro ele nos deu
Castigue o couro do falecido
Bate o bumbo com vontade
Que a moçada quer sambar
Castigue o couro do falecido
Morre um para bem de outros
A verdade é essa, não se pode negar…
(Tá bom? Tá…)

(Em 1954, a cantora Marlene estava preparada para gravar a deliciosa – e quase non sense- ‘O Couro do falecido’ mas teve que desistir na última hora por que Getúlio Vargas acabara de se suicidar e a letra do Samba poderia ser mal interpretada).
A fonte secou (1953, com Raul Moreno e Marcleo)

Eu não sou água pra me tratares assim
Só na hora da sede é que procuras por mim
A fonte secou
Quero dizer que entre nós tudo acabou

Seu egoísmo me libertou
Não deves mais me procurar

A fonte do nosso amor secou
mas os seus olhos nunca mais hão de secar.

Mora na filosofia
(1955, com Arnaldo Passos)

Eu… vou lhe dar a decisão
botei na balança… e você não pesou
botei na peneira… e você não passou.
Mora, na filosofia… prá quê rimar
amor e dor?

Se seu corpo ficasse marcado
por lábios ou mãos carinhosas
eu saberia (ora vá mulher)…
a quantos você pertencia.
Não vou me preocupar em ver
seu caso não é de ver prá crer: tá na cara…

O lamento da lavadeira
(Nilo Chagas, Monsueto Menezes e João Vieira Filho)

Ô, dona Maria!
Olha a roupa, dona Maria
Ai, meu deus!
Tomara que não me farte água!

Sabão, um pedacinho assim
A água, um pinguinho assim
O tanque, um tanquinho assim
A roupa, um montão assim
Para lavar a roupa da minha sinhá
Para lavar a roupa da minha sinhá

Quintal, um quintalzinho assim
A corda, uma cordinha assim
O sol, um solzinho assim
A roupa, um montão assim
Para secar a roupa da minha sinhá
Para secar a roupa da minha sinhá

A sala, uma salinha assim
A mesa, uma mesinha assim
O ferro, um ferrinho assim

A roupa, um montão assim
Para passar a roupa da minha sinhá
Para passar a roupa da minha sinhá

Trabalho, um tantão assim
Cansaço, é bastante sim
A roupa, um montão assim
Dinheiro, um tiquinho assim
Para lavar a roupa da minha sinhá
Para lavar a roupa da minha sinhá


Larga Meu Pé

Nega larga o meu pé
Vá quando quiser

Pra você não falta homem
Pra mim não falta mulher

Eu quero essa mulher assim mesmo

Eu quero essa mulher assim mesmo
Eu quero essa mulher assim mesmo

Eu quero essa mulher assim mesmo
Eu quero
Quero essa mulher assim mesmo

Baratinada
Eu quero essa mulher assim mesmo
Alucinada
Eu quero essa mulher assim mesmo
Despenteada
Eu quero essa mulher assim mesmo

Descabelada
Eu quero essa mulher assim mesmo
Embriagada
Eu quero essa mulher assim mesmo
Intoxicada
Eu quero essa mulher assim mesmo
Desafinada
Eu quero essa mulher assim mesmo
Desentoada

Eu quero essa mulher assim mesmo
[etc., a critério da inventividade do intérprete.,

Spírito Santo
Junho 2007