O Kilombo, o angu e seus caroços


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Charge alemã de 1897. A legenda diz: "Uma tarde de domingo na África Ocidental" mostrando um mundo surreal nas colónias na África no qual os escravos são senhores. No anúncio: "Hoje:Grande banquete! 'Senhores como comida'!

Charge alemã de 1897. A legenda diz: "Uma tarde de domingo na África Ocidental" mostrando um mundo surreal nas colônias na África no qual os os negros são livres. No anúncio: "Hoje:Grande banquete! 'Senhores' (brancos) como comida'!

Remanescente de quilombo? Ih! É melhor esperar sentado!

Começo logo com uma paulada:

Com vocês Andressa Caldas e Luciana Garcia que em alentado texto no site Global.org fazem a introdução do nosso papo:

“… A Constituição Federal e a titulação das terras quilombolas

Como parte da própria reflexão sobre o Centenário da Abolição da Escravidão no Brasil, algumas reivindicações de organizações de movimentos negros e setores progressistas, levadas à Assembléia Constituinte de 1988, resultaram na aprovação de dispositivos constitucionais concebidos como formas de compensação e/ou reparação à opressão histórica sofrida.”

(Tá certo. Isto foi só uma ameaça. Agora é que vem a paulada):

Em 2001 Abdias do Nascimento, histórico e incansável líder do movimento negro do Brasil deu ao site da Rets (Rede Eletrônica do Terceiro Setor) a seguinte entrevista:

“Rets :

_Em 1980 o senhor apresentou sua tese sobre o quilombismo. O senhor ainda vê a forma de organização dos quilombos como um bom modelo de desenvolvimento para o país?

Abdias:

_Ainda vejo. Mas acho que eu apresentei o quilombismo de forma um pouco antecipada. A sociedade precisa ter um pouco mais de experiência para poder perceber a significação do quilombo e a prática do quilombismo. Muitas pessoas interessadas no assunto concordaram com as minhas teses, mas nenhuma delas procurou implementar uma organização como a que propus com o quilombismo.”

A tese de Abdias não é o foco de nossas elucubrações. Ela é polêmica e, de certo modo, datada, pois, estava visceralmente ancorada ainda na realidade política do negro brasileiro vista de forma bem ampla e pela ótica da luta contra os resquícios da Ditadura, já que era uma realidade – a do negro e a do racismo – que a anistia promulgada em 1979, na verdade só de leve se interessou em tocar.

O fato é que a conversa que vamos levar aqui com vocês, embora diga respeito à demandas pontuais criadas pela nova Constituição do Brasil (1988) para este assunto, apesar de toda a festa com que se costuma ‘enfeitar o pavão’ de nossa democratização, não sugere ainda um grande avanço na discussão desta questão, que já se arrasta desde 1888: A reparação dos malefícios e constrangimentos aos quais os escravos africanos sequestrados para o Brasil e  seus milhões de descendentes foram – e continuam sendo –  submetidos há quase quatro séculos.

Sabem como é, certo? O Brasil elitista é um racista aplicado e muito, mas muito renitente mesmo. Pentacampeão em exclusão social.

Entre todos os reparos que com certeza poderemos fazer numa inevitável comparação entre os dois momentos históricos – o do lançamento da quase comunista tese ‘Quilombismo de Abdias e o nosso hoje em dia cheio de remanescencias– uma triste constatação: Reduziu-se de forma drástica o protagonismo e a combatividade das lideranças do Movimento Negro no Brasil, aquelas que poderiam estar na vanguarda das reivindicações atuais. O lado constrangedor deste protagonismo esvaziado e subalterno, infelizmente está visível na cooptação de muitos, na corrupção de alguns e no baixo nível político-ideológico da maioria.

Talvez seja esta conjuntura constrangedora – franqueza dói mas não mata – a principal razão para que uma causa tão importante e particular como a luta pela posse da terra por parte de comunidades remanescentes de quilombos, esteja tão diluída em pendengas paralisantes, envolta nesta rede de ambiguidades e incongruências tão flagrantes, sendo muitas vezes desvirtuada, atrelada a causas e interesses outros, como um filho de pai desconhecido.

(E filho ‘feio’, como todo mundo sabe, não tem pai).

Dito isto, podemos relaxar um pouco. O papo agora pode ser mais ameno sim, já que o mundo não foi feito num só dia.

Ki-lombo= Kilombo= Quilombo = “Fortaleza

(literalmente em Kimbundo, uma das línguas principais faladas em Angola)

O termo – todo mundo por aqui acha – viria do nome dado ao complexo de comunidades de escravos rebelados conhecido como Quilombo de Palmares, nas imediações de Pernambuco nos primórdios de nossa colonização. Zumbi de Palmares lembram?

(Mas, ‘achismo’ como se vê, não é exatamente cultura.)

Pois neste caso então, saiba quem ainda não souber que a palavra vem de um contexto histórico bem mais distante e complexo, bem menos chegado ao ‘chavão’ (e estas sutis filigranas historiográficas podem mudar tudo em nossa maneira de entender o conceito). Mais do que se pensa, pelo menos.

Kilombo na verdade, com o estrito sentido de ‘fortaleza rebelde’ tudo indica, é uma palavra transposta para a realidade colonial brasileira, depois de ser adotada como jargão militar pelo exército português durante sua guerra suja contra os nacionalistas angolanos comandados pela rainha Nzinga Mbandi e outros sobas, reis ou mandatários locais ali por volta de 1630/40.

O que isto tem a ver? Tudo. E com muita coisa que nos diz respeito. É que existe uma questão muito cabeluda rolando no Brasil atual envolvendo o conceito ‘Quilombo’, no âmbito da regulamentação de leis que embasarão políticas públicas inspiradas na constituição de 1988, visando garantir a posse da terra, por meio de títulos de propriedade ao que se convencionou chamar de ‘comunidades remanescentes de quilombos’.

(… Mas espera aí… _ “que lombo!”_ não se refere à bela bunda de uma mulata bem gostosa?)

Ui!…Calma, calma. Ignorância racista também tem limite (embora não seja nada mal que haja ignorância para que a modesta sabedoria de alguns possa dar o ar de sua graça).

Mas ok, ok. Ninguém nasce sabendo. Sou paciente e dou outro exemplo para os mais leigos que eu:

Quilombo para iniciantes: Princípios ativos e componentes lógicos

(Leia e entenda bem a bula antes de usar)

Quando levamos uma paulada na cabeça, qual é o nome que damos àquele caroço doído que nos cresce na testa? (Não. Chifre não. Sem sacanagem que estou falando sério)

Anh? Calombo? Isto! Ka-lombo (olha…Esta foi uma sacação ‘newtoniana’, não foi não?). Racionem comigo então: Como ‘Ka’ em kimbundo é diminutivo, Lombo pode significar então… ‘protuberancia, correto? Pequena protuberância (se traduzirmos bunda como ‘lombo’ a dita significaria uma bela e média …tá, vocês já entenderam.)

Kilombo, Kalombo, Lombo e Bunda: Um contexto semântico bem afinado com o mais puro vernáculo angolano.

Daí Kilombo (Ki, assim como Ka é prefixo em kimbundo) pode ficar sendo, no dizer de um colonialista lusitano pelo menos, ‘fortaleza de pretos construída num lugar alto’.

(Deve ser, logicamente por isto que os quilombos no Brasil, pelo menos os mais perenes, eram feitos em serras bem altas. Reminiscências culturais, inteligência estratégica, guerreira trazida de lá dos cafundós de Angola.)

Viram só como são as coisas? Uma palavra não é apenas um som qualquer, um amontoado de fonemas. As palavras carregam muita história, sentidos. Saber valer-se do que elas tem para nos contar sobre o passado e o presente, costuma ajudar muito a gente a construir um bom futuro.

_E olha a Etimologia aí, gente!

Logo se vê, portanto, que não é nada desimportante se bater na tecla da semântica neste caso, não é não?  Matando a semântica original se mata o sentido, a alma da palavra que passa a significar… nada. Afinal de contas, nunca é demais repetir: Jesus não é Genésio. Berimbau não é gaita.

(E você é tão bobinho a ponto de acreditar mesmo que seja possível transformar em lei conceitos vagos e desprovidos de sentido?)

Então vamos lá! Todos juntos, comigo:

_”Ressemantizar é o cacete! Viva a cultura negra nacional!”

Pois não é isto que parece estar acontecendo neste caso? Todo mundo se acha careca de saber que ‘Quilombo‘ de algum modo hoje em dia é isto aí: Um território (um lote de terra que seja) ocupado por descendentes de escravos que, por conta de históricas necessidades de reparação em vias (?) de serem reconhecidas (a escravidão foi um regime juridicamente condenável, certo?), reivindicam, diretamente ou com o auxílio de intermediários, a posse das terras que ocupam.

O resto é o resto. Deveria ser motivo para outras reivindicações.

Mas é aquela história que todo mundo também já  sabe: Enquanto o douto elabora conceitos o leigo palpita, especula, mas ambos, ao fim de todas as contas não vão poder mesmo falar mais do que… ‘em tese’.

Vamos então abordar este assunto assim-assim, valeu? Sem delírios sabichões,  na base do mais modesto feijão com arroz, pisando em ovos alheios, se necessário, mas com todo carinho, sentindo na pele o drama da questão. Sem ser louco a ponto de me achar um Deus da verdade é, pois, em tese, em tese, que vos digo:

Histórico das mumunhas jurídicas sobre o tema Quilombo hoje

(Colocando alguns  pingos nos ‘ís’ )

E são ainda Andressa Caldas e Luciana Garcia que se referem,  claramente ao que para nós se transformou no caroço (ou… calombo? Êpa!De novo? ) crucial deste angu:

“…Introdução

“…No Brasil, existem mais de 2.200 comunidades afro-descendentes quilombolas, totalizando cerca de 2.5 milhões de pessoas… No que concerne à titulação dos territórios quilombolas, recente relatório independente da Comissão Pró-Índio de São Paulo (CPISP),”Ações Judiciais e Terras de Quilombo”, revela que até agosto de 2006 havia “310 processos de regularização de terras de quilombo perante o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária.

O levantamento da CPI-SP revela que 59% dos 310 processos abertos recebeu apenas um número de protocolo no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). Ou seja, em 182 processos nenhuma medida administrativa foi tomada no sentido de regularizar o território… “

…” A ressemantização do termo quilombo e sua inserção na Constituição Federal de 1988 vieram a traduzir os princípios de igualdade e cidadania negados aos afrodescendentes correspondendo, a cada um deles, os respectivos dispositivos legais:

i) Quilombo como direito à terra, enquanto suporte de residência e sustentabilidade, há muito almejadas, nas diversas unidades de agregação das famílias e núcleos populacionais compostos majoritariamente, mas não exclusivamente de afrodescendentes – CF/88 Artigo 68 do ADCT – sobre ´remanescentes das comunidades de quilombos; Quilombo como um conjunto de ações em políticas públicas e ampliação de cidadania, entendidas em suas várias dimensões – CF/88 – título I direitos e garantias fundamentais, título II, cap. II – dos direitos sociais;

ii) Quilombo como um conjunto de ações de proteção às manifestações culturais específicas – CF/88 – artigos 214 e 215 sobre patrimônio cultural brasileiro.

(Épa! É isto mesmo? O dispositivo se refere a manifestações culturais… específicas? Bem, vamos ter que cobrar que esta especificidade seja explicitada mais tarde.)

Mas o enunciado do dispositivo, mesmo sem explicitar nada da questão, por ele mesmo proposta, ainda insiste:

“…Assim, o artigo 68 dos Atos das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Federal de 1988 (ADCT) estabeleceu que:

“Art. 68. Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos.”

Ao que comentamos aqui (tentando imitar aquela ‘baba de quiabo’ dos advogados):

Ora, o que se chamou neste caso de ‘ressemantização’ parece com tudo menos uma alteração da semântica do que quer que seja. Fica claro que se tentou, tão somente aplicar o nome genérico de Quilombo (e, portanto banalizando o sentido estrito do conceito) a uma outra figura jurídica, inclusive já existente, qual seja o ‘direito genérico das populações afro descendentes (e não exatamente quilombo-descendentes no sentido lato) à posse da terra.

Convenhamos que este direito à posse da terra é por demais genérico e redundante. Que se danem os regulamentadores! (aqueles que vão ter que dar seu jeito para dar nomes aos bois.)_ Parece nos dizer, curta e grossa, a nossa ‘boazinha’ constituição de 1988, certo?

Em suma, com a nítida finalidade de ampliar o leque dos beneficiários (quem pensou esta estratégia tão ingênua?), não se mudou apenas o nome da coisa, mudou-se a coisa de nome, o que é muito diferente e não significa, de modo algum ‘ressemantização’.

Ressemantizar’ seria adaptar o conceito à nossa época, sem desconsiderar (ou ‘ressignificar’ aleatoriamente) aspectos definidores – como a cultura ‘tradicional’ destes segmentos, por exemplo. Afinal, o dispositivo determina ou não determina a defesa de manifestações culturais… específicas?

Ao que nos parece, da forma como está proposta no dispositivo – que se pretende um instrumento legal – a medida acaba não tendo aplicabilidade jurídica especial alguma, sendo facilmente desqualificada por qualquer boa banca de advogados inimigos da causa, já que nele, no dispositivo, poderiam estar abrigados todos outros segmentos… ‘étnicos’ (o que, aliás, o próprio dispositivo admite em seu texto ser um critério vago), não conferindo à medida força alguma para fazer valer os direitos deste ou de qualquer grupo…’étnico’ em particular.

Nas barras frias de um tribunal em suma, baseado apenas em semelhantes argumentos tão pouco jurisprudenciais, um grupo ‘majoritariamente’ formado por quilombolas remanescentes, não teria, realmente chance alguma.

_”Terra para negros ex-quilombolas!” _ Será preciso dizer, com todas as letras, de forma cabal, com palavras passíveis de serem compreendidas, comprovadas e transformadas em lei.

Ora, é claro que esta conversinha de ‘ressemantizar’, ‘ressignificar’ tudo – por mais bem intencionada que seja – só podia dar no que deu.

Quem dá nome aos bois?

“Quem pariu mateus que o embalance”

É fácil falar, criticar, cobrar assim em cima deste muro de lamentações. Eu sei também que é preciso ir devagar com este andor. As intenções da maioria dos envolvidos são boas e as suscetibilidades são frágeis demais diante de críticas mais ácidas. Todo mundo quer ser o santo padroeiro desta história.

Sabem vocês, contudo, tanto quanto eu, que das melhores intenções está lotado inferno.

Porque esta questão não anda? Será que está planejada para não andar mesmo? Culpa desta desmobilização impressionante do outrora combativo Movimento Negro do Brasil, que teria emprestado para o Movimento Social como um todo, tornando genérica, esta bandeira que lhe era tão cara e exclusiva?

Seria culpa dos advogados, juízes e legisladores em geral que não conseguem entender a necessidade de se associar Justiça Social com Diversidade étnica? Ou seria culpa dos técnicos, antropólogos e historiadores, envolvidos em bizantinas questões acadêmico-conceituais que os levam a ideologizar, questionar  e ‘ressignificar’ o conceito de tudo nem sempre com as mais claras intenções?

Como nos diz um entendido sobre o tema:

“_ …esse assunto é o maior tabu entre os antropólogos. Existe digamos um código secreto, um espírito corporativo, uma pretensão de reserva de mercado para aqueles que lidam com a tal antropologia aplicada…

Ih! sai de baixo! Mais caroço à vista.

…Bem, mas isto é assunto para outras mangas num post que faremos logo a seguir (leia aqui o POST #02). Enquanto isto vão pensando aí que a pobre da bezerra ainda não morreu.

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(Em tempo: A palavra angu também vem de algum modo do Kimbundo, sabiam? Penso que vem de ‘iangu’ que quer dizer capim – ou couve picadinha – aquela que, além do caroço, engrossava o dito cujo na cuia do escravo. O engraçado é que a palavra não vem diretamente de ‘fubá’ não, embora ‘fubá’ também venha do kimbundo ‘fuba’, farinha de milho.

Recomendo contudo muito cuidado com os dicionários. Kalombo, por exemplo quer dizer hoje em Angola, literalmente, ‘mulher infecunda‘. A língua é a mãe de tudo, ou seja: Tem gente aí que precisa rever, totalmente os seus conceitos etimológicos… e ideológicos com urgencia. )

Ressignificar-se, diria.

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Depois o papo segue – e esquenta mais – Achei por bem linkar aqui a matéria fedida da revista ‘Veja já que os leitores mais ligados ao tema vão estrilar e com razão.

Calma rapaziada. Uma coisa a gente precisa reconhecer: para um oportunista agir é necessário que alguém crie a oportunidade, certo?

Ajoelhou? Tem que rezar.

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Fui mas volto já.

Spírito Santo
Maio 2010

Arapuca de Nfofó


1176238614_galinha_dangolaAi que saudades da bivó

Minha bisavó era praticamente uma criança quando veio para o Brasil. Era uma negrinha magricela, mas, tão magricela que, quando os brancos chegaram, tremia tanto de medo que não conseguiu nem correr.

Ela dizia que eles chegavam de mansinho, como quem não quer nada, como que cercando uma caça mansa qualquer e ficavam acenando lenços encarnados, escondidos no meio do capinzal.

Quando os benguela mais curiosos (ô gente curiosa estes benguela! Chegavam a perder os dentes de tanto morder as coisas que não conheciam, só para sentir o gosto que elas tinham) iam ver do que se tratava… Pou! O laço caía, o benguela trupicava, esperneava, até que, amarrado com os outros numa fila, ia seguindo por uma trilha da selva, até chegar na praia, até chegar no navio que, depois da eternidade mais comprida deste mundo, chegava aqui no Brasil.

Esta história que conto pra vocês agora (como gostava de contar história a velhinha de quem eu tive o que puxar) é uma história que ela contou pro meu avô que contou pro meu pai que contou pra mim e que eu, repassador de histórias que sou, conto pra todo mundo que quiser ler o que escrevo aqui.

(Até ontem isto era segredo de família, mas deixa pra lá. Isso era uma vez e segredo de três o diabo fez).

A incrível história da arapuca Nfofó

Vocês conhecem o Nfofó? Não? Pois o Nfofó (numidasimilus meleagris) era uma espécie de galináceo vistoso, primo-irmão da galinha d’angola (numida meleagris) – vocês conhecem a galinha d’angola?- pois o nfofó era um pouco maior, com a penugem mais escura, com umas pintas amarronzadas como ferrugem ou pinta de leopardo. Uma belezura de bicho, se poderia dizer.

Dizem que era uma ave arisca a mais não poder, cismada. Quando assustada tentava, mas, não voava mais que meio metro, coitada. Não se acostumava em viver perto de gente de jeito nenhum e por esta razão era considerado um bicho chucro, selvagem (não que fosse bicho brabo não, muito pelo contrário). O certo é que os Nfofós viviam em bandos, escondidos no meio do mato.

Um detalhe importantíssimo, interessante mesmo para os meus parentes benguela (cuja vasta consciência ecológica não chegava ao ponto de se descuidar de sua prioridade absoluta: a própria sobrevivência) era, sem dúvida nenhuma, a saborosa carne do Nfofó.

Foi por esta prosaica razão, entre outras, que os Nfofós foram rareando, rareando, até se tornarem apenas uma deliciosa lembrança gustativa nos sonhos senis de minha bisavó.

Mas, a culpa da extinção dos Nfofós não foi de forma alguma – é preciso ressalvar – só dos benguela ou de qualquer outro ser humano que um dia teve o glorioso prazer de comer aquela iguaria.

Foi o que minha bisavó defendeu até à morte.

O cronista austríaco Kurt Böhler Hoffbauer que visitou o território benguela em fevereiro de 1883, a serviço do Kaiser Franz Josef, nos conta, cabalmente, que o cheiro dos ovos do Nfofó era muito forte, insuportável mesmo, porém, na mesma medida, irresistível aos homens, provocando neles uma estranha sensação afrodisíaca.

A lenda dizia, no entanto que este odor característico ficava impregnado no corpo de quem comesse os ovos por dias e dias, á fio, semanas talvez. Depois de dissipado do corpo, o cheiro maldito continuava, para sempre na mente das parceiras de quem comeu os ovos, impossibilitando qualquer contato íntimo para o resto da vida. Era, obviamente, um castigo atroz para os benguela, fornicadores contumazes e notórios que eram (ou ainda  são até hoje, quem sabe). Hoffbauer observou nas notas de seu relato que:

“… Der kraft schmertz die manner hunger anreidzend, über unwiderstehlicht form, aber die gegessen später, in der schweiB unbeweglich eine grosse abneigung in der frauen mache…” na tradução livre:…” (O forte odor dos ovos estimulava, de forma irresistível, a gula dos machos humanos mas, após a sua ingestão, impregnado no suor de que os comeu, provocava uma aversão maior ainda nas fêmeas…)”

(in ‘Das Angolanisches ganze leben’, Hoffenabuer, K.B.
GanzeWelt Verlag – Köln, Deustschland 1883)

Aquele talvez fosse um inteligente e caprichoso artifício da natureza para a preservação dos Nfofós: Salvavam-se os ovos ou o hábito de comê-los extinguiria de vez com raça dos benguela. No entanto, do jeito que os humanos gostam de tudo que é proibido (como se sabe, em nós a inteligência e estupidez são atributos gêmeos) a solução da natureza era um frágil artifício.

É o que veremos á seguir.

Minha bisavó dizia que, embora os mais jovens fugissem dos ovos de Nfofó com sabedoria digna dos mais velhos (a quem eles deixavam o castigo de comê-los) muitos benguela se lixavam para a lenda. Com o tempo então, a maldição dos ovos teve que ser repassada também para a carne do Nfofó, ou seja, para o Nfofó como um todo.

Hoffbauer chega a reproduzir em seu livro, uma gravura benguela da época (na verdade uma gravura flamenga, muito antiga), retratando o Nfofó como uma espécie de entidade maligna e assustadora. Nada disso, contudo, adiantaria por que, entre todos os nossos tolos instintos, o da sobrevivência sempre foi o mais estúpido: mesmo sabendo que podemos morrer disso, se é só isto que temos para comer, na ânsia de sobreviver, é exatamente isto que comeremos e é, fatalmente, disto que morreremos.

Gravura 1856 - in ‘Das Angolanisches ganze leben’, Hoffenabuer, K.B.

Gravura 1856 – in ‘Das Angolanisches ganze leben’, Hoffenabuer, K.B.

Ficava o dito pela lenda como não dito então.

O fato é que se comia muito fartamente Nfofós naquele tempo. Para comê-los, tínhamos que caçá-los, saber seus hábitos e suas manias, para então poder inventar uma armadilha para apanhar o bicho. Daí a arapuca do Nfofó cuja minuciosa descrição cuido de relatar a seguir.

O nome Nfofó, como vocês já devem ter intuído, é onomatopéico, ou seja, vinha do som que ele emitia quando estava com medo, assustado. Como ele era, apesar de arisco, um bicho danado de curioso, levava muitos sustos em sua curta vida.

Esta curiosidade atávica, hábito mais característico do Nfofó, foi como também se pode intuir, a sua ruína.

Com know how desenvolvido pelos benguela em muitos anos – séculos talvez – a Arapuca de Nfofó (‘nfobulobulo’ em idioma benguela), tinha no tempo de minha bisavó a forma de uma caixa triangular de gravetos habilmente atados com um cipó especial, chamado por eles de ‘lukululu’ (‘ngnosis selvaticus’). Havia na caixa uma portinhola á guiza de guilhotina, firmemente tencionada por uma vara longa, que os benguela chamavam pelo curioso nome de ‘kalapulo’ (de provável procedência lusitana).

Nestes aspectos até que a arapuca de Nfofó era uma armadilha bem comum. O que a tornava única, era o fato de ser profusamente enfeitada com penas de pássaros locais, de variadas cores, além de muitos chocalhos, feitos com pequeninas cabaças contendo sementes, muito leves, que faziam ruído a qualquer brisa ou vento que soprasse.

Diante de um chamariz e de uma armadilha, ao mesmo tempo, era curiosidade então que pegava o Nfofó pelo pé.

Um dos dados mais curiosos da tática de caça ao Nfofó era que, ao invés de esconder o nfobulobulo como deveria fazer com qualquer arapuca, a prática mais comum era deixá-lo bem visível, próximo á vegetação cerrada onde os bandos de nfofós se escondiam. Um deles sempre percebia a arapuca e tomado de insuportável atração, corria para ela aos berros:

_”Nfofó! Nfofó! Nfofó!”

Todo o bando, mesmo escondido, entrava a em polvorosa gritando num especial alarido, chamando a atenção do caçador que, podia estar a alguns metros dali, tranquilamente dedicado a outros afazeres. A cena que se seguia, até há pouco tempo, enchia de água a boca de minha querida bisavózinha:

O nfofó precursor, aquele que primeiro viu a arapuca, olhava por alguns instantes para ela, extasiado de pavor. Espevitado, abria o bico em desespero, repetindo:

_”Nfofó! Nfofó! Nfofó! Te digo! Te digo! Te digo!”

(Este ‘te digo’ era outra sutil diferença entre os sons onomatopéicos do nfofó e da galinha d’angola que, como se sabe fala ‘Tô fraco’ Tô fraco! Tô fraco!”)

Logo em seguida, o Nfofó precursor corria para o bando e voltava correndo para a arapuca, acompanhado agora por mais um curioso. O caçador, neste exato momento, punha a arapuca para funcionar e pronto, o primeiro nfofó ficava ali, estrangulado, enquanto o histérico sobrevivente corria para o bando, no mesmo ritual:

_”Nfofó! Nfofó! Nfofó! Te digo! Te digo! Te digo!”

Pegava-se assim, um a um, todo o bando de pobres nfofós.

Hoje em dia – é claro – não existem mais nfofós em Angola. Minha bisavó dizia também (mas isto eu não consegui provar ainda) que vem do nome nfofó a palavra brasileira fofoca que, neste caso, seria mais uma interessante contribuição das línguas africanas ao português falado no Brasil.

Pelo menos no que diz respeito ao jeito da arapuca pegar o nfofó (no caso dos fofoqueiros em si, dos ‘disse-me-disses’, dos ‘língua-de-trapos’, dos ‘leva-e traz’ e dos incontáveis ‘um-sete-uns’ e trambiqueiros deste nosso Brasil, bem que a minha bisavó podia ter razão.

Spírito Santo

Rio, 24 de julho de 1993
(com ligeiros retoques em 2007)

NOTA IMPORTANTÍSSIMA!

Caro favor leitor, leia por favor as notas abaixo (o terceiro comentário a este post) que são do seu absoluto interesse para a compreensão total deste texto: