“Dont Tread on me”. Ecos Pré-Cotas raciais. As Madalenas Arrependidas piram!


Tea party flagTea party  flag (para quem não conhece, o “Tea Party” é a corrente mais à direita do Partido Republicano norte americano.)

A turma do chá preto e as outras turmas ‘deles’.

(A analogia com a cobra traiçoeira – vocês logo verão – é pertinente e providencial).

Pode ser apenas impressão do tio, mas o que chamarei aqui de “turma do chá preto”, adeptos tardios do anti cotismo racial está se tornando um must na internet, nas redes sociais, na imprensa convencional, nos meios de comunicação em geral.

Sacudiram o bambuzal e espantaram das sombras cobras sapos e lagartos. Impressionante!

O que mais me chama a atenção, impressiona mesmo é que esta onda de anti cotismo racial radical extrapolou até mesmo o nível de reação anterior à aprovação da ação afirmativa pelo STF, como se houvesse uma ‘maioria silenciosa’, enrustida, na espreita se apoiando numa vanguarda dos radicais contando com a força de sua omissão. Um batalhão de ‘joões sem braço’ torcendo contra, na sombra.

E vejam que contradição maravilhosa: Se esta popularidade enrustida do anti cotismo racial tivesse andado às claras, teria sido percebida pelo STF como uma força legítima e poderosa e – ai meu Deus! – teria ameaçado seriamente a aprovação da medida.

Ai! Que mole que deram! Deixaram Ali Kamel e a turma do chá preto à míngua, isolados como cegos em tiroteio. Agora ficam por aí, madalenas arrependidas, chorando pelos cantos, alisando os velhos tijolos do seu muro de lamentações.

Sempre achei – e muita gente acha também – que um dos mais firmes sustentáculos do racismo à brasileira era o seu caráter de ação sub reptícia, solerte, a sua vocação para a dissimulação, aquela caraterística que os politicamente corretos chamam de ‘sutileza‘ (‘racismo sutil‘, por suposto)

Feito pata de elefante, sabem como é?

Aqui, antes da decisão do STF os racistas todos eram uns gatos pardos pingados. Na verdade, ‘NINGUÉM‘ era racista, ‘ninguém‘ colaborava, ‘ninguém‘ compactuava, apoiava ideias racistas, mas ele, o racismo, misteriosamente prosperava, recrudescia, ardendo cada vez mais na pele daqueles que a ele estavam e estão expostos.

Mistério revelado: É que agia na sombra, a ‘maioria’.

Saindo das sombras então, as Madalenas arrependidas agora acenam com a inutilidade das cotas raciais, para eles uma demagógica e inócua decisão, dizendo que o universo de beneficiados será tão ínfimo, tão ínfimo (entre 200.000 a 400.000) que a ação não fará nem cosquinha em nossa abissal desigualdade educacional.

Sei…sei. É como aquela fábula da raposa, ressentida por não ter conseguido as uvas, que dizia:

_ “Ah…Estão verdes!”

É que eles não conhecem – na verdade temem – a exponencialidade,  o poder multiplicador de medidas como esta. Se a taxa de negros nas universidades públicas era perto do zero antes das cotas raciais, claro que é formidável pular agora para centenas de milhares.

Infelizmente para eles a caravana passou.

Aliás, cá entre nós, este negócio de ficar tentando provar que não existem negros no Brasil é bem agressivo e ofensivo para quem é – ou se imagina – negro. Fica parecendo racismo enrustido quando nenhuma proposta alternativa FACTÍVEL e não protelatória é apresentada.

E vamos combinar: De onde vem afinal este ressentimento todo, esta bílis destilada contra a promoção ou a evolução social dos ‘não brancos’ em especial se, também em especial, estes mesmos ‘não brancos‘ são os excluídos?

Afinal a existência de um virulento racismo no Brasil é um fato mais do que reconhecido já, internacionalmente até.

Os anti cotistas raciais estão sendo mesquinhos, isto sim. Fazem uma conta ‘de menos’ que, ao fim de tudo propõe a manutenção de tudo como está (a conta da exclusão social eles não fazem nunca). A conta que valia a pena fazer, neste caso nem se trata destas que dizem se somos entre 5% e 51% os negros no país. Talvez os anti cotistas raciais não tenha entendido bem – se é que querem mesmo entender – o conceito ‘negro‘, que é apenas político e não racial.

Afinal a categoria ‘negro‘ no Brasil não pode ser aferida por este parâmetro aí, genético, como se fôssemos africanos legítimos, uma raça por suposto. Não é justo nem sério isto aí. Raças, afinal, não existem!

Negro‘ – todo mundo de boa vontade sabe – não é um conceito genético (e o uso deste parâmetro eugenista aí, é hoje inaceitável). Politicamente,o conceito “negros” – é preciso se reconhecer isto logo, sem cinismo – se refere à maioria dos excluídos do Brasil (pretos, índios, mulatos, ou qualquer outro nome que se queira dar aos que NÃO são considerados brancos na hora de exercer direitos de cidadania).

A premissa errada (a definição de quem é e quem não  é negro) foi usada ILEGALMENTE para instituir o racismo. Só o uso desta mesma premissa poderá ajudar a desamarrar este nó. É como usar o soro do veneno para curar a mordida da cobra venenosa.

E ao matar a cobra há sempre que se mostrar o pau.

Criaram o saco de gatos de todas as cores, separando os brancos num outro saco à parte e bem melhor. Agora, na hora de trazer os gatos brancos para o saco geral, querem separar, de novo, apenas os gatos pretos do saco já ruim para lançá-los onde? Num saco ainda pior?

Se nós, os não brancos nos assumíssemos ‘mestiços‘ eles iam vir com a mesma conversa reacionária contra cotas para ‘mestiços‘.

Cotas raciais para eles, só para brancos. Que doidos!

Se é esmagadoramente ‘branca‘ a minoria, a auto eleita elite dos incluídos, como poderíamos lutar contra a iniquidade de tantos serem preteridos, dominados por tão poucos, senão isolando os que se intitulam ‘brancos‘ num saco só? Os que se intitularam ‘brancos‘ para levar vantagens agora, perderam o bonde da história  e são agora uma reconhecida e identificável minoria. Azar o deles. Paciência. Demoramos muito a definir isto que agora é reconhecido por lei.

Esta conta de excluir negros, de novo, esta conta de negar ações afirmativas para negros pode ser chamada de que? Como classificar este reacionarismo anti negros que está pululando por aí?

Tem um nome isto. Nem preciso falar qual é.  Falem vocês.

Hora da verdade. Hora de deixar de ser branco para ser franco.

“Não pisa ni mim!”

Escolinha do Prof. Kamel. Aula extra de recuperação:

Já cansei de falar disto por aí: Ali Kamel, Ivone Maggie, Demétrio Magnoli, Rodrigo Constantino, o pessoal desta virulenta Cia. dos anti cotistas raciais mais radicais, embora acusem os pró cotistas de importar modelos norte americanos racialistas,  têm um guru, exatamente… norte americano. Sabiam?

Ele é o Tomas Sowell, um economista negão de Harvard (como o Obama, só que…de ‘alma branca’). É que Thomas é um dos principais ideólogos da direita do Partido Republicano (eu disse da Direita!). Bem, como sabemos por alto nós, os brasileiros, a direita norte americana é…racista, certo? No currículo dela estão a Ku Klux Kan, os linchamentos de negros e a oposição ferrenha às lutas pelos direitos civis na América, inclusive – caso direto de Thomas Sowell – uma campanha ferrenha contra as cotas raciais e às ações afirmativas em geral.

Pois bem. Thomas Sowell é o principal teórico da direita norte americana nesta cruzada anti democrática aí. Juntando os pontinhos, ligando Ali Kamel, Maggie, Fry et caterva a seu guru de ‘alma branca’ dá um quadro bem esdrúxulo, não dá não?

Nunca mais caí na conversa de vivandeiras neo racistas como o Kamel depois que descobri este rabo de cobra delas. Não querem cotas de espécie alguma porque são direitistas, elitistas anti democráticos. partidários do passado e do atraso. Cobras chocando ovos no cesto.

São o rabo daquela cobra da bandeira do Tea Party direitista norte americano que diz aí em cima:

“Dont tread on me”

Frases mui meigas de Thomas Sowell guru destas vivandeiras:
Defendendo a propriedade privada das leis de promoção socijal do governo Obama:

“Ambos os direitos de liberdade de expressão e direitos de propriedade pertencem legalmente aos indivíduos, mas sua real função é social, para beneficiar um grande número de pessoas que não se exercem estes direitos.

Defendendo posições contrárias as cotas raciais e as ações afirmativas em geral:

…O capitalismo sabe apenas uma cor: a cor é verde, tudo o resto é necessariamente subserviente a ele, portanto, gênero, raça e etnia não pode ser considerado em seu contexto.”

Defendendo a manutenção de valores conservadores na sociedade:

“…Cada nova geração nascida é na verdade uma invasão da civilização por pequenos bárbaros, que devem ser civilizados, antes que seja tarde demais.”

Manifestando-se contra a universalização de direitos legais numa sociedade:

…Se você sempre acreditou que todos deveriam jogar pelas mesmas regras e ser julgada pelos mesmos padrões, teria sido rotulado de radical há 60 anos, liberal há 30 e racista hoje.”

Defendendo o conservadorismo em geral:

…Grande parte da história social do mundo ocidental, ao longo das últimas três décadas, tem sido uma história de substituir o que funcionou pelo que soa bem.”


(Textos de Thomas Sowell, economista, como eu disse acima membro da ala direita do Partido Republicano, simpatizante do Tea party e cuja ficha de direitista anti Obama é ciosamente escondida por seus acólitos no Brasil (Kamel & Cia).

Detalhe: Thomas Sowell apoia hoje a ala direita do Partido Republicano nas eleições de 2012 cujo candidato Newt Gingrich vai mal das pernas e deve perder a indicação para Romey.

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Daí, um aluno mais panaca, lá no fundo da sala perguntou ao Prof. Kamel qual era a moral da história, da lição que Ali acabou de dar (e que eu contei aqui com as entrelinhas expostas), exaltando o Sowell :

Ali calou-se, rabinho entre as pernas. Se aproveitou da campainha que tocava no pátio e encerrou a aula. Fofoqueiro que sou, contudo, chamei o aluno panaca no corredor e entreguei:

_ “Se liga: O professor Kamel e seus colegas doutores daquela ‘tchiurma’ de neo racistas dele, não são apenas racistas não, rapaz. Eles são de Direita. Torcedores do ‘Tea Party”, do Reagan, da Sarah Palin, gente barra pesada. Cuidado com eles, brancaiada!”

Ao que o aluno panaca, cara de tonto, bem babaca, perguntou:

_” Tea Party? Mas o que é isto, tio? Alguma festa na Lapa? É hoje?

…Bem..Esqueçam. Vamos de agora em diante cultivar as virtudes da paciência. Eles ainda têm muito que aprender.

Nós – e o STF – pisamos no rabo deles. Vamos ter que esperar a dor de rabo deles passar.

Spírito Santo
Abril 2012/2017

Menos Foucault mais Fu Kiau – Filosofia bakongo para iniciantes


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Gráfico da cosmogonia bakongo (aproximadamente século 10) segundo estabelecido pelo etnólogo congolês Fu Kiau Benseki. Observem que, curiosamente a cruz como fundamento cosmológico já existia na cultura bakongo bem antes da chegada dos portugueses e seu cristianismo.
Contudo, não viaje demais por enquanto. Não especule além do que o entusiasmo pode ser relacionado á lógica. Não transforme em névoas religiosas o que é saber  a ser analisado, sistematizado um dia como ciência. Pense grande.

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Começando o papo

(Bem, se você é mais iniciante ainda do que eu, comece voltando atrás lendo o beabá bakongo neste link) .

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Só como introdução para ninguém se dizer desentendido: Ba-kongo é grosso modo, o povo formado pela junção – não me venham com esta conversa de mestiçagem, por favor – de gente migrante vinda lá de cima, de onde é hoje o Camarões para as férteis terras às margens do Rio Kongo, com as gentes que ali já estavam, ninguém sabe há quantos séculos e séculos amém.

Não se sabe ainda, tampouco de onde esta gente que desceu o continente veio para os Camarões. Eu mesmo me arrisco a presumir que eles podem ter vindo do nordeste do continente, num fluxo migratório que espalhou pessoas das fraldas do Egito, da Núbia, até a costa oeste da África mais remota, alguma civilização qualquer bem avançada, assentada em saberes sobre os quais foram fundadas todas as civilizações subsequentes, da África propriamente dita e suas proximidades até, bem mais tarde repercutirem na Europa, esta Europa sempre envergonhada , sabe-se lá porque, deste seu evidente – embora não único – passado africano.

E não sou eu que digo. Foi o Heródoto. Não sabe quem é Heródoto? Aí já é ignorância demais. Perguntem ao Google.

O certo é que este povo altivo e portador de um mui antigo sistema de valores éticos, morais, civilizatórios enfim, depois de já amalgamado num conglomerado de potentados agregados, solidamente organizados em torno de um reino ou império central (uma confederação de reinos ) com um reino central denominado Reino do Kongo, estava em plena fase de desenvolvimento e prosperidade no momento em que foi visitado, invadido e por fim dominado pelos ‘Tugas’ (conhecidos também como ‘Putus’) povo vindo desta Europa predadora que se formou após as chamadas grandes navegações, esta Europa hoje centro de um mundo crente numa cosmogonia pra lá de questionável, fundada para justificar as imorais  iniquidades do trabalho escravo.

(E aqui um parêntes algo necessário: Hoje em dia o que conhecemos como povo bakongo é uma gente que ocupa uma área entre a fronteira sul do Zaire com Angola e as cercanias ao norte de Luanda.

Contudo, estamos nos referindo aqui , explícitamente à cultura matriz e predominante em toda a região que hoje conhecemos como República Popular de Angola, considerando-se que dali, de Mbanza Kongo a capital do reino do Kongo (dos Ba-Kongo, enfim) na ocasião em que o ‘tuga’ Diogo Cão chegou ao local, é que floresceu e se expandiu um conceito de cultura e nação muito mais extenso, geograficamente do que o território bakongo atual e formado por povos novos, frutos da expansão de uns e da fusão com outros.

Esta nação (a Angola de hoje em dia)  é formada, enfim por várias  outras culturas, entre as quais as que mais nos importam, por conta dos fluxos de cativos que para o Brasil vieram, são os Mbundos (tanto os “Ovi”  quanto os “Ki”, prefixos que diferenciam, sutilmente, culturas vizinhas, primas, irmãs.)

Esta história majestosa e trágica, que acontece a partir do século 10 ou 12 e transcorre heróica até o início do século 18, após a decapitação em 1665 de D. Antônio Nkanga Nvita, o rei do Kongo derrotado pelas tropas portuguesas comandadas por André Vidal de Negreiros (sim, ele mesmo!), tem profunda ligação com a história do Brasil, muito mais do que nos disse a memória a nós imposta pela escola convencional, que nos encheu os ouvidos e os olhos com caravelas e mais caravelas de fatos e eventos, vividos – ou inventados – pela nobreza portuguesa da qual fomos colônia tanto quanto foram estes mesmos bakongo e seus vizinhos, ainda hoje amalgamados – embora beliçosos entre si – num belo país chamado República de Angola.

Conversa de pé de fogueira esta. Longa e molenga. O resto bem que pode ser contado amanhã. Fiz esta introdução apenas para vocês nem pensarem mais em chamar estas pessoas de gênese bakongo (Bakongo, Ovimbundo, Kimbundo, entre outros povos), nossas antepassadas de “crioulos” incultos e primitivos, nem muito menos submissos vassalos de Portugal e da igreja da cruz.

É que cruz eles já tinham, todo um sistema filosófico baseado na ideia da cruz segundo se pode ver no cosmograma ilustrado acima: o “Kalunga”, meio líquido que divide o mundo físico do mundo espiritual, o mundo dos vivos, do mundo dos mortos, o real e o surreal, o normal do paranormal, enfim.

Se você conseguir se livrar da ideia preconceituosa de que existe um misticismo afro-negro primitivo, atrasado – algo absolutamente improvável dada a longevidade e a extrema gama de experiências civilizatórias portadas pelas culturas que formularam o conceito aqui apresentado – partindo do princípio óbvio de que todos os homens são rigorosamente iguais – se você conseguir discernir a diferença crucial que existe entre FILOSOFIA e RELIGIÃO – posto que uma sugere maneiras diversas de se explicar as coisas do mundo, enquanto que a outra afirma, dogmaticamente tudo poder explicar – por certo tirará grande proveito destas informações.

O tema é muito novo para a maioria de nós. Por isto, esta abordagem mais ampla ou genérica me pareceu, inicialmente mais aconselhável. Sugiro então apenas algumas linhas básicas, balisadoras do instigante debate que o tema pode sugerir.

Eu sei que é enfadonho insistir, mas entendam que a culpa é deste ‘nosso’ insidioso modo de ver tudo que não é fruto da cultura ocidental como ‘primitivo’ e ‘exótico’, rasamente ‘místico’ ou religioso, um pensamento arcaico, colonizado que, infelizmente predomina em nossas ciências sociais. A ressaltar apenas, neste ensejo, portanto os seguintes pontos:

– Os aspectos filosóficos, éticos, morais, etc. que no Brasil informam o que a gente chama de ‘cultura popular’ ou ‘tradicional’ (‘indígena’ também, mas no caso presente, principalmente africana) não são, de modo algum, fruto de uma visão de mundo empírica, ingênua posto que são o acúmulo de experiências muito amadurecidas no tempo e no espaço, complexas em si mesmas, sedimentadas por séculos e séculos de exercício. Afinal, estas culturas estão na base da formação do pensamento de toda a humanidade.

– O que torna difícil a compreensão deste fator – além de nosso recorrente racismo acadêmico – é que os mecanismos de registro e difusão destes saberes – no caso destas culturas mais ‘antigas’, ancestrais por se assim dizer – são baseados em procedimentos diversos daqueles tornados hegemônicos pela cultura cristã-ocidental – como é o caso evidente da escrita convencional (do ‘livro’, por suposto) no caso do ocidente – e não somente – inventada por Gutemberg.

– Dentre estes procedimentos subestimados, sobressalta-se, portanto a literatura oral e outras linguagens, digamos assim, mais ‘emocionais’, ‘orgânicas’, procedimentos que o cartesianismo do século 18 tratou de considerar impertinentes (como certa música ‘tradicional’, por exemplo).

– Uma compreensão equivocada que se tem da sabedoria humana, julgando-se erroneamente que só é válido e científico, aquilo que foi firmado e atestado por procedimentos de registro convencionais é, pois, um dos principais fundamentos destes preconceitos.

Isto tudo posto, leia os preceitos básicos da filosofia kongo pensando grande.

“… A formulação de Fu-Kiau, um pensador Bacongo contemporâneo, traduz para uma linguagem compreensível ao pensamento ocidental maneiras de entender o mundo que se ligam em muitos aspectos a formas de pensamento e a formulação de explicações que podem ser entrevistas já nos primeiros registros escritos de observadores estrangeiros, principalmente missionários católicos.

Por esses diversos registros fica evidente que desde os primeiros contatos com os portugueses no final do século XV até os dias de hoje, é básica para os Bacongo a divisão entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos, os primeiros vivendo acima da linha do horizonte, os últimos existindo abaixo da linha do horizonte, mundos estes separados pela água, conforme as imagens mais recorrentes.

Acima da linha do horizonte estão os vivos, que são negros*; abaixo da linha do horizonte estão os mortos, de cor branca, e uma multiplicidade de espíritos da natureza que povoam a esfera invisível do mundo.

Essa organização está expressa no signo da cruz: o eixo horizontal da cruz liga o nascer ao por do sol, assim como o nascimento à morte dos homens, e o seu eixo vertical liga o ponto culminante do sol no mundo dos vivos e no mundo dos mortos (o zênit visível e o invisível), permitindo a conexão entre os dois níveis de existência.

A ligação entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos, de onde vêm as regras de conduta e o auxílio para a solução dos problemas terrenos, como doenças, secas e o infortúnio de maneira geral, se dá por meio de ritos nos quais se evocam os espíritos e antepassados para que resolvam as questões que lhes são colocadas.

A cruz, no pensamento Bacongo, remete à idéia da vida como um ciclo contínuo, semelhante ao movimento de rotação efetuado pelo sol, assim como à possibilidade de conexão entre os dois mundos.

Segundo Fu-Kiau, o rito básico e mais simples a ser feito por todos aqueles que querem se tornar mensageiros do mundo dos mortos e condutores de seu povo ou clã é fazer um discurso sobre uma cruz desenhada no chão. Com isso, são frisados os poderes de todo chefe de fazer a conexão entre o mundo dos vivos e o dos ancestrais e espíritos.

Ao se colocar sobre a cruz, que representa o ciclo da vida humana e a divisão entre os vivos e os espíritos, o chefe afirma sua capacidade de fazer a conexão entre os dois mundos e assim conduzir de maneira adequada a comunidade que governa…”

(*Nota: “negro”, referindo-se à cor e não à raça, é bom frisar para os menos espertos ou mal intencionados)

1 “Evangelização e poder na região do Congo e Angola: A incorporação dos crucifixos por alguns chefes centro- africanos, séculos XVI e XVII”. Marina de Mello e Souza -Departamento de História /FFLCH/Universidade de São Paulo

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Muitos estudiosos da cultura bakongo hoje, já estão estabelecendo como se viu uma relação estreita entre este sistema filosófico ancestral e a quase imediata relação que este povo bakongo (o original) fez entre a cruz dos católicos e seu sistema filosófico. É bom frisar que esta relação – bastante plausível, aliás – é o argumento-chave utilizado para desqualificar a ‘africanidade’ dos povos bantu de certa parte da África, notadamente, no caso específico do Brasil, os próprios bakongo (e Kimbundos, e ovimbundos) propriamente ditos, enquanto povo ancestral da maioria dos africanos trazidos à força para o país.

Para estes racistas sutis, a África genuína, altiva, seria a estranha África ‘sudanesa’, Nigéria, Ghana, Dahomey, uma África cravejada de exotismo cultural, primitivismo e mistério em seus ritos ‘selvagens’, passíveis das mistificações que, por fim, se achou por bem banhá-la, redundando nas aberrações fake-antropológicas do cinemão de Hollywood e na adoção no Brasil de uma religião negra hegemônica calcada em crioulo-doidices bem constrangedoras, ridículas mesmo, um melê de referencias distorcidas, inventadas, do que seria a cultura negra ideal, reunidas neste Candomblé de falsas aparências.

Vão lendo aí e pensando sem simplismo barato, sem arrogância branca e, sobretudo não dando trela para a ignorância presunçosa dos ‘sabe-tudos’ de plantão.

Quando voltarmos o papo vai poder ser bem mais ‘buraco em baixo’, se bem me entendem.

Spírito Santo

Março 2011

Black 17th century. Na verdade barroca o ‘making of’ de nós mesmos


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Aleluia! Aleluia! A dissecação do nosso corpo brasileiro velho, redivivo, graças a Internet está nos livros.

Já disse e continuo a dizer cada vez mais animado: Ai de nós se não fosse a ‘Rede’ este espaço difuso, escorregadio e permeável, porém democrático, que nos governa como um Deus pirado, um Grande Irmão de teletela sem ideologia. Não fosse ela, a ‘Rede’ estaríamos ainda hoje aqui no Brasil na idade das trevas em certos temas que o nosso elitismo racista – que merece outros epítetos, cala-te boca – esconde aqui e ali, na sua pouca vergonha de fingir que há mais Europa na nossa alma do que outras plagas e latitudes mais morenas.

É vero!

É o que tenho descoberto aqui, fuçando por pura intuição e esperteza mais coisas holandesas (e inglesas) do que brasileiras, mais africanas do que portuguesas. Na contramão dos doutos de ocasião que ficam por aí arrotando saberes sem haveres e sem noção, naquela bolorenta prática de incensar cânones arcaicos.

Para ser claro: Fiquei cansado de ser enganado.

É mesmo muito impressionante – e alguns de vocês já tiveram até a chance de observar aqui mesmo – o enorme filão de informações relevantes que aparece diante de nossos olhos quando chutamos o pau da barraca das academicices.

Basta virarmos iconoclastas do pensamento discutível desta gente que elas, as novas fontes, nos aparecem, assim, profusamente como uma cachoeira de água limpa guardada há séculos e séculos em grutas do desconhecimento de nós mesmos, a que fomos relegados por ‘uns e outros’, que tendo a chave de certo saber pensam que sabem tudo e nos deixam trancados no desconhecimento, só porque entre os antepassados tivemos também negros ‘da Guiné’, ‘de Aruanda’, da África enfim, das selvas e das savanas de além mar.

Que mal haveria também sabermos tudo sobre este outro lado de onde viemos? Haveria mesmo algum mal nisto? Hum…

Que doença!

 (Antes algumas dicas bem primárias para quem estiver boiando na história:

…”as invasões holandesas (no caso do Brasil o domínio durou de 1637 a 1644) foram organizadas por uma empresa particular, a Companhia das Índias Ocidentais” (num prenúncio bem remoto do Capitalismo do século 20)

…”(Embora alguns românticos enfeitem o seu pavão)…”a Companhia das Índias Ocidentais também autorizava e apoiava o tráfico de escravos africanos. Esses escravos não eram trazidos apenas para o Brasil, mas também para o Caribe (inclusive a costa norte do a América do Sul) e para a então colônia inglesa da Virgínia, na América do Norte.”

“…”Pernambuco era para os holandeses um entreposto para o comércio de escravos. Num relatório enviado para a Companhia das Índias Ocidentais, o próprio Maurício de Nassau afirmava que no Brasil nada podia se fazer sem escravos. “

                           (Extraído de UOL Educação com grifos em parenteses do Titio)

A preciosa raridade de hoje – vou logo avisando – é impactante mesmo. Chocante até. Difícil nunca a termos visto por aí. Pelo grau de autenticidade da imagem, fotográfica quase – considerando inclusive o caráter remoto da época em que ela foi produzida – ouso dizer que é o mais importante documento sobre o assunto que já eu vi na vida.

O responsável de novo – neste caso em especial- é o inestimável parceiro virtual Daniel Jorge, estudante destas coisas que me repassa tudo que acha interessante de imagens sobre o tema. Nossa curiosa parceria começou assim, com ele comentando regularmente todos os posts que escrevi sobre este assunto, desde que passamos a fazer uso com mais intensidade – na falta de outros – de dados iconográficos.

“Faço pós-graduaçao em História da África e do Negro no Brasil na Universidade Candido Mendes, eu tenho milhares de fotos e gravuras sobre esse assunto. Se você quiser imagens relacionadas a África não-banto ou a escravidão no Brasil é só pedir.”

Grande Daniel!

Vamos lá em então. Instigadão como criança que sou, cavucando mais e mais na internet aprendi o seguinte que repasso para vocês:

(Em tempo me cabe ressaltar, contudo que o cenário da imagem não é o Brasil, exatamente, mas o Suriname (Guiana Holandesa). A ‘licença‘, contudo nem precisa ser classificada como ‘poética‘ porque a cena, protagonizada com toda certeza por africanos vindos de Angola (ou do que hoje é Angola, por suposto) poderia estar ocorrendo em qualquer parte da Diáspora latino americana.)

 “Esta pintura, que data de 1707, foi feita no Suriname por Dirk Valkenburg  que visitou a colônia holandesa entre 1706 e 1708. O trabalho, entre outros,  foi encomendado pelo comerciante de  Amsterdam Jonas Witsen, que possuía três fazendas no Suriname. As obras de Valkenburg são as primeiras pinturas conhecidas feitas na colônia holandesa.

“Valkenburg foi o talentoso filho de um professor. Ele foi educado pelo prefeito de Vollenhove, que pagou a sua formação e materiais de arte, em seguida, foi por dois anos aprendiz do pintor Jan Baptiste Weenix.

É veramente incredibile!

A representação naturalista da realidade é como se sabe uma característica da arte pictórica da renascença. Calcada em princípios filosóficos típicos da época, a escola pictórica a que se chamou ‘barroco‘ teve correntes muito distintas espalhadas pela Europa. Itália, Espanha, França, Portugal e Holanda. Se a gente pensar bem, estas escolas artísticas acabaram tendo as características mais evidentes da ideologia que motivava aquelas sociedades, claramente expressas na sua arte. ‘Papo-cabeça’ para entendidos, mas vejam a seguir onde quero chegar:

Os italianos chamavam este naturalismo de ‘Verismo’, associando o conceito, claramente a princípios da fidelidade à verdade, à representação objetiva, ao retrato fiel do que se via. ‘Veramente’, vamos combinar então – e este post provará isto – ao contrário da mentira (que um belo dia tropeça em si mesma e cai) a verdade tem mesmo pernas longas.

Estamos falando de história, da busca de ansiados traços e pistas sobre o passado de nós mesmos, certo? Pouco se escreveu, por exemplo, sobre o século 17 no Brasil. Façam comigo então esta simples pergunta analógica: Se os pintores ‘veristas’ holandeses não viessem para as Américas trazidos por Maurício de Nassau e se o ‘verismo’ característico deles não fosse impregnado daquele pragmatismo ideológico tão…calvinista, o que seria de nós e de nossa ansiada verdade histórica?

Comove e instiga este pensamento: Os quadros holandeses pintados nas Américas (a maioria no Brasil pernambucano) são filosoficamente mais humanistas que os das demais correntes. Se esforçam intensamente em representar africanos como seres humanos reais. É incrível, mas não se vê neles traço do nenhum daquele eurocentrismo renitente que marca a arte – e a historiografia – portuguesa, por exemplo, este colonialismo emocional arcaico que marca a cultura acadêmica brasileira até hoje. Isto em termos históricos faz toda a diferença em nossa pesquisa.

Alguém aí conhece algum quadro verista português ou’ brasileiro‘ do século 17? ‘Mentirista‘ eu conheço um montão.

Esta opinião, aliás, é mais um prato feito para os tolos românticos usarem quando quiserem afirmar que “seríamos um país melhor se tivéssemos sido colonizados pelos holandeses”. Besteira. Menos…menos. Colonizados não deveríamos ter sido por ninguém.

O exercício que proponho a vocês em suma é, portanto este mesmo: Seja um ‘verista’ holandês você também.

Além de simplesmente ler este post , de novo, exerça a observação acurada – fissurada mesmo, apaixonada – de todos os detalhes, até, e principalmente os mais prosaicos, com lupa mesmo, meticulosamente como um detetive de filme policial de TV.

Ocorreu-me também recortar o quadro – ‘esquartejá-lo’, melhor dizendo, para melhor analisá-lo como fazem os legistas de ocasião (que é no que eu sugiro que nos transformemos). Façam isto. Vão se surpreender maravilhados com as minúcias de ouro que encontrarão.

A incrível descontração dos escravos – sim, nem parece, mas eles são escravos! – totalmente envolvidos numa festa de arromba no que parece ser um fim de tarde, revela muita coisa sobre os hábitos destas pessoas, mas ao mesmo tempo instiga inquietantes questões e contradições.

”Ao voltar da Alemanha para a Holanda, Valkenburg trabalhou para William III no embelezamento do Palácio Real em Amsterdam. Logo depois decide aceitar uma oferta de Jonas Witsen um rico proprietário de terras no Suriname. Com 200 florins emprestados por Witsen (mediante três naturezas-mortas dadas como garantia) Dirk Valkenburg se fixa então no Suriname, exercendo funções administrativas e pintando a fauna, a flora e tipos humanos do Suriname, principalmente escravos.”

Daniel Jorge me informa, por exemplo que um dos livros que estudou ( Making of the new world slavery, the – from baroque to modern 1492-1800 ) afirma que ocorreu uma revolta e fuga de escravos neste mesmo local meses depois de Dirk Valkenburg pintar este seu impressionante quadro (cerca de 1706). Muito provavelmente  portanto, estes mesmos escravos são os kilombolas (‘maroons‘) que protagonizaram a fuga. Não é inquietante?

O mais incrível de tudo é que segundo estas fontes que encontrei, surpreendentemente “em 1706 a população rural do Suriname era composta apenas por três brancos – incluindo Dirk, o pintor –  e 148 escravos”, trabalhando em três fazendas (pelo menos uma delas na área onde Valkenburg fez este flagrante).

Dialogando sobre a pintura, Daniel também me sugeriu algo que eu já havia intuído assim que me deparei com a imagem: A cena pode representar com relativa perfeição o que seria um dia de festa num kilombo qualquer (como o nosso de Palmares, por exemplo, dominado pelos portugueses como se sabe, oficialmente, apenas 11 anos antes desta cena no Suriname). Eu faria a este respeito apenas pequenos reparos nas roupas dos kilombolas reais, os quais, por conta de gozarem de liberdade quase plena, deviam vestir roupas bem menos sumárias do que as dos personagens da tela do Suriname vestem.

Um reparo bobamente perfeccionista até porque, reparando melhor, o desenho meticuloso das tangas (na verdade ‘sungas‘ perfeitas) denota claramente que a peça do vestuário destes supostos escravos é sumária sim, mas de modo algum um dispositivo de vestuário displicente, mal desenhado (e caso vocês não saibam, a palavra ‘sunga‘ vem do verbo do kimbundo – ou seria do Umbundo? –  angolano  com o sentido de ‘levantar‘, ‘sustentar’.)

Retrato falado. Seção de ‘manjamento’ ao vivo.

Fiquei esquadrinhando em cada rosto, como disse quase fotograficamente pintado por Valkenburg, a cara quem sabe sisuda, daquele que seria o chefe do grupo, a face do tio ‘sekulo’ (quem sabe um conspirador), o rosto feliz da mulher do tio entre as poucas velhas ‘makotas’ que dançam, as tias de uns, as mulheres dos outros. Nenhum ‘wally‘, claro, mas quem seria ali o Zumbi deles?

E as casas detrás do rio, seriam dos escravos ou da fazenda? E aquela figura solitária que vem lá de longe, tão fora do clima, com água num cântaro? E o anão que dança? Que dança será aquela. Como parece o Jongo de Paraíba do Sul, Rio de Janeiro, gente!

E aquele batuqueiro mais claro, a quem uma diligente mulher – mãe, irmã, esposa, sei lá – dá na boca algo de comer, afim de que o batuque não cesse. Os tambores, aliás, me impressionaram mais que tudo. Sou um músico especialista destas coisas e sem modéstia posso afirmar, com absoluta certeza que Dirk viu um tambor bantu real.

Ampliei os tambores ao máximo, investiguei suas cordas trançadas, as cunhas de tração, a perfeita fisiologia (já tive um tambor idêntico a este). Posso afirmar também que a condição de escravo não é de modo algum propícia a que um músico-artesão consiga produzir tambores tão complexos. É preciso tempo, pesquisa e coleta de materiais, liberdade, ócio criativo, know how. A precisão descritiva, etnomusicológica de Valkenburg é mais um aspecto o que reforça credibilidade a todos os outros detalhes. Não por acaso penso eu,  é exatamente num destes tambores que ele insere a sua assinatura: ‘D.V”.

“…Ai que saudade da fazenda do sinhô!”

A descontração é tanta no ambiente (parece até que é ‘…domingo lá na casa do Vavá”) que a pergunta que não quer calar viram muitas outras, um turbilhão. Reparei emocionado, por exemplo, que um casal de jovens supostos escravos se beija, sofregamente como nós mesmos, quando apaixonados nos beijamos hoje em dia por aí.

É por estas e outras que eu e Daniel nos perguntamos: Será que os personagens são mesmo, ainda, escravos ou Valkenburg fez o quadro depois da tal fuga? Nenhuma semelhança daquele pátio com um cantão de fazenda. Não há senzala á vista. A construção atrás da cena é enorme. Nenhum sinal de ferramentas de trabalho, nenhum monjolo, nada. Que estranha fazenda libertária seria esta?

Afinal a fuga historiada no livro que Daniel leu, ocorreu apenas poucos meses depois. Quem pode garantir que o quadro não tenta representar, exatamente o cantão feliz no qual a pequena escravaria de 148 escravos de Jonas Witsen se homiziou?

Quem for são e com noção pode crer: Destas, muitas outras pistas virão. A cortina que lançaram (nem nos interessa mais saber porque) sobre este tema vai se abrindo como numa janela batida pelo vento.  A cortina é portuguesa e brasileira. A janela, holandesa.

Os textos escritos mentem ou rareiam? Usamos – como ‘sãotomés’ – as imagens que não sabem enganar. Se as imagens rarearem, usaremos as canções dos mais velhos, que cifram segredos milenares, as pulsações das batucadas imemoriais.

A mentira – vocês já sabem – tem perna curta. A verdade– como o rabo do cachorro – está sempre além de nós, sempre à frente e o sentido da vida é mesmo este aqui: persegui-la obsessivamente até a morte.

Então – já que outro jeito não há- vamos que vamos!

Spírito Santo

Julho 2011  

Retrato de Nkanga a Lukeni ou D.Garcia II-1643


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Nkanga a Lukeni

Para holandeses e portugueses Nkanga a Lukeni era ‘O Cara’

Este pomposo cidadão se chama Nkanga a Lukeni a Nzenze a Ntumba também conhecido como D.Garcia II, Manikongo (rei do Kongo) entre 1641 e 1661, por aí. Lukeni, um rei católico que se presume fosse irmão da Rainha de Ndongo e  Matamba Nzinga Mbandi (Rainha Jinga) foi o rei que enviou uma embaixada à Recife e Amsterdam. O quadro de autor desconhecido (com certeza um pintor holandês, talvez Albert Eckhout) é um retrato fiel, entre muitos outros feitos por holandeses na época.

A história do Kongo desta época coloca por terra todas as depreciações que a história dos povos bantu da área de Angola e do Zaire atuais sofrem no Brasil. Os dados para quem quiser vê-los são profusos. Já publiquei aqui retratos não menos fiéis de membros de uma destas embaixadas.

Esta enviada por Nkanga Lukeni viajou no navio holandês levando presentes (ouro, panos e escravos) para Maurício de Nassau e para os próceres da Cia das Índias Ocidentais em Amsterdam. Segundo o amigo Aristóteles Kandimba, angolano que mora na cidade, foi realizada em Amsterdam uma missa em recepção ao embaixador de Lukeni e Jinga.

Já acumulei bastante material de pesquisa sobre esta história empolgante (muitas fotos destes retratos já compartilhei aqui). O mais eletrizante é que a história acontece na mesma época em que o Kilombo de Palmares, habitado por conterrâneos destes ‘angola-congueses‘ crescia de poder e importância por aqui.

Marcada por muita astúcia diplomática dos líderes angolanos (ou congoleses, sei lá) em suas relações de amor (diplomacia) e ódio (guerra) com portugueses e holandeses que, ao mesmo tempo, os assediavam com promessas de boas relações comerciais e invadiam como predadores vulgares, a história tem estreita ligação com a história do Brasil.

(Quem quiser negar isto que se dane e fique olhando a caravana passar)

Enfim a história do Cara

(E da África que realmente nos diz respeito)

D. Garcia II, cujo nome bakongo era Nkanga a Lukeni a Nzenze a Ntumba, governou o Reino do Kongo de 23 de janeiro de 1641 a 1661. Ele é considerado por muitos como sendo o maior rei do Kongo pela sua piedade religiosa e seu empenho na expulsão dos portugueses de Angola (boa parte do reino do Kongo de então).

D.Garcia e seu irmão mais tarde denominado Álvaro VI, nasceram no início do século XVII. Os irmãos estudaram no colégio jesuíta de São Salvador do Kongo (M’banza-Kongo, capital do reino nesta ocasião) logo após a sua abertura, em 1620.

Estudou aí com o padre jesuíta João de Paiva e junto com o irmão se juntou à irmandade leiga de Santo Ignácio (ordem dos jesuítas), enquanto estudante. Um número razoável de intelectuais congoleses, todos pertencentes à nobreza local,  foram formados neste colégio.

Entre eles podemos destacar D. Miguel de Castro, embaixador do Kongo/Nsoyo em 1643 numa viagem à Recife e Amsterdam e Manoel Raboredo, padre capuchinho, filho de uma mulher da nobreza congolesa com um nobre português.

Manoel Raboredo  muito respeitado no Vaticano, foi um intelectual muito importante na sociedade bakongo, responsável pelo primeiro dicionário de Kikongo/Espanhol ainda no século 17.

(Observem como eu, a propósito e atentamente que a aportuguesada roupa de D.Garcia Nkanga a Lukeni, na verdade tem muita semelhança com a de um bispo católico, não faltando sequer o crucifixo, tendo a cinta vermelha clássica – até hoje usada pelos bispos de Roma – sido substituída por uma tira de pele de leopardo. Este indício é muito forte no sentido de corroborar o caráter predominante da ideologia católica na gestão da política do Reino do Kongo na ocasião e a grande influência que estes modos de ser tinham sobre os hábitos da nobreza congolesa)

Aparentemente, o poder era dividido entre kandas (linhas genéticas), cada uma dominando um reino, o conjunto deles gerido pelo Reino do Kongo (formando uma espécie de federação imperial), mas se associando entre si por meio de casamentos inter kandas, gerando muita disputa política e territorial que se agravou muito com a chegada do maquiavelismo dos portugueses e, por alguns poucos anos dos holandeses, culminado com a dissolução total do poder do Reino do Kongo, tomado definitivamente pelos portugueses em 1665 (Angola só liberta deste jugo colonial em 1975, mais de três séculos após).

O período do governo de D.Garcia Nkanga a Lukeni (o nome ‘nkanga‘ – presumo eu vindo de de ‘nganga’, sacerdote em kikongo, a língua local – sugere uma linhagem de  ‘reis católico’ e ‘Lukeni‘ é o título da kanda principal a qual D.Garcia Nkanga a Lukeni descende) é marcado então por grandes lutas internas, envolvendo um cisma entre alguns reinos da região (Nsoyo, Mbamba, Nsundi, etc.) que questionam a hegemonia do Reino do Kongo como centro político da região.

Os reinos da região sempre foram partilhados por descendentes das primeiras famílias habitantes do local, mistura de gente vinda do Camarões no século 10, por aí, com habitantes originais, de tempos mais remotos.

Ao que tudo indica, tradicionalmente, cabia a Kandas específicas, descendentes dos membros da família fundadora principal, o mando nos reinos mais ricos e importantes. Mais precisamente, em linha matrilinear caberiam aos filhos das filhas do rei a sucessão do reino principal (por suposto o Kongo) ao irmão desta filha do rei (o tio ou ‘sekulo‘) caberia o reino de segunda importância (por suposto, na época, o Nsoyo) e daí, em linhas semelhantes, o mando nos reinos secundários.

Assim, Este cisma se caracteriza então como uma sucessão de brigas por poder entre famílias ou ‘kandas‘, a partir de certa época muito misturadas, mais ou menos como os clãs europeus da mesma época.

Quando o rei Álvaro V foi ameaçado por Daniel da Silva, Duque de Mbamba em 1634, D.Garcia Nkanga a Lukeni e o irmão vieram em auxílio do rei. Garcia foi particularmente valente durante a batalha desesperada, que teve lugar no Nsoyo (como se sabe reino vizinho ao Kongo). Por sua bravura, Garcia foi nomeado Marquês de Kiova, um pequeno território na margem sul do rio Congo, enquanto seu irmão foi promovido a Duque de Mbamba.

No entanto, em 1636 Álvaro V, no bojo de confusões internas, tenta remover os irmãos de seus postos e matá-los. Os irmãos conseguem derrotar e decapitam o rei. O irmão de Garcia foi então coroado Rei Álvaro VI e Garcia é declarado Duque de Mbamba.

Em 22 janeiro de 1641 Álvaro VI , irmão de D.Garcia Nkanga a Lukeni morre, também em circunstâncias misteriosas, e antes da eleição fosse realizada (na verdade os debates na corte sobre a sucessão, que teria que se dar por meio de regras tradicionais de ‘kanda‘ ou seja, como disse, por linha genética matrilinear) Garcia II Nkanga a Lukeni muda-se para a capital e força a corte a declará-lo rei.

Quase que imediatamente enfrenta, contudo uma crise, já que em poucas semanas D. Paulo, o atual Conde de Nsoyo e seu antigo aliado, também morre, sendo substituído por seu rival e inimigo de D. Daniel Garcia da Silva.

(Observe-se que toda a nobreza congolesa, no ato da sua conversão ao catolicismo, adotou nomes e sobrenomes portugueses. A maioria dos momes bakongo dessa nobreza, se perdeu.

Outro aspecto a ser considerado é que os nomes bakongo ou mesmo kimbundo que ficaram registrados pela história, são na verdade títulos nobiliárquicos ou dinásticos (kanda). Este é, claramente caso da rainha Jinga, cujo nome kimbundo (Nzinga Mbandi) na verdade se refere á sua kanda ou clã (o clã seminal de Nzinga Kwuwu) e Mbandi, aparentemente um nome da família direta.)

Ao mesmo tempo que isso acontece, a armada holandesa invade e toma a colônia portuguesa de Luanda. O Reino do Kongo tinha um pacto de longo prazo com os holandeses para a expulsão dos portugueses para fora de Angola, governada pela rainha Nzinga Mbandi, ao tudo indica parente (talvez irmã ) de D.Garcia, aliada do Kongo.

D.Garcia imediatamente muda seus exércitos para o sul, afim de ajudar os holandeses. Em 1642 ele recebe uma embaixada holandesa (ocasião na qual, provavelmente Albert Echout, integrante da missão holandesa, pelo menos no Brasil, deve ter pintado o retrato dele) e assinou uma aliança e acordo, só se recusando a permitir a vinda de um pastor calvinista, insistindo que era um católico e isto não permitiria.

No ensejo desta aliança, pelo menos uma expedição é mandada ao Brasil por D.Garcia Lukeni e Nzinga Mbandi, precisamente a Recife e pelo menos uma outra é enviada pelo seu rival D. Daniel da Silva, do Nsoyo, no âmbito da contenda entre os dois pela supremacia política na região.

As imagens impressionantes de, pelo menos uma destas viagens  e embaixadas (pintadas, ao se sabe pelo mesmo Albert Eckhout) já foram publicadas pelo Titio aqui neste mesmo blog.

Garcia com estas ações de diplomacia, esperava que os holandeses fossem ajudá-lo na expulsão dos portugueses, conforme estabeleciam os termos de um acordo de 1622, quando o rei do Kongo da ocasião D. Pedro II, tinha proposto a aliança Kongo-holandesa.

No entanto, os holandeses não estavam tão dispostos assim a pressionar os portugueses, uma vez que já tinham tomado Luanda. Em vez disso, dedicavam seus esforços a tornar Luanda um grande entreposto de comércio transatlântico, permitindo que os portugueses continuassem a controlar os territórios do interior.

Soldados holandeses, no entanto, ainda assim ajudam D.Garcia a derrotar uma rebelião na pequena zona sul de Nsala em 1642, os capturados nesta batalha, escravizados, acabam servindo de pagamento das despesas holandeses com a ajuda ao Rei para tomar Luanda.

Em 1643 as relações entre a Companhia holandesa das Índias Ocidentais e os portugueses azeda. As forças de D.Garcia Nkanga a Lukeni ajudam os holandeses a rechaçar os portugueses de suas posições no rio Bengo. Mais uma vez os holandeses se recusam a pressionar um ataque maciço contra os batavos e os portugueses acabam por se reagrupar em Massangano, mais para o interior.

No entanto, as relações cada vez mais hostis entre D.Garcia e Daniel da Silva, do Nsoyo, o impede de mandar mais forças para a campanha contra Portugal. Assim, em 1645, D.Garcia procura vencer Daniel do Soyo, mas é derrotado tentando tomar a posição fortificada no Soyo chamada Mfinda Ngula.

O filho de D.Garcia que seria o seu herdeiro, acaba capturado quando comandava as forças do Kongo. Uma campanha militar para libertá-lo, em 1646, falha também. Por causa dessas guerras, intestinas o Kongo só foi capaz de enviar pequenas forças para ajudar os holandeses que, temendo que com reforços vindos do Brasil, os portugueses pudessem expulsá-los de Luanda, declararam guerra total em aliança com a rainha Jinga (Nzinga Mbandi).

Embora os aliados tivessem tido êxito na batalha de Kombi em 1647, eles foram incapazes de desalojar os portugueses de suas fortificações. Outros reforços do Brasil em 1648 acabam obrigando os holandeses a se retirar da região.

Nos anos que se seguiram à guerra holandesa, D.Garcia procurou fazer as pazes com os portugueses e estabelecer novas relações. Salvador Correia de Sá, o governador português, procurado para um acordo, exigiu que Garcia assinasse um tratado logo a seguir de sua vitória sobre os holandeses, exigindo a posse da Ilha de Luanda, de todas as terras ao sul do rio Bengo, os direitos de todas as minas em Kongo, o pagamento de uma indenização e outras concessões.

Na sua versão do tratado D.Garcia por sua vez insiste na restauração de seus direitos ao sul do rio Bengo, bem como outras demandas. O tratado foi apresentado em 1649, nenhum dos lados assinaram, embora D.Garcia tenha pago a indenização.

D.Garcia com o fim do domínio holandês, voltou então toda sua atenção para assuntos internos do Kongo. Missionários capuchinhos, que chegaram da Itália e Espanha em 1645, trazem uma oferta de aumentar o clero local. D.Garcia os acolhe, interessado em manter boas relações com Roma.

No entanto, sempre desconfiado, acaba acusando os capuchinhos de conspirar contra o reino em 1652, e no mesmo ano prende Dona Leonor, uma nobre venerável e muito respeitada, acusada de envolvimento em um suposto complô. D. Leonor morre na prisão e D.Garcia perde considerável parte da confiança popular que gozava.

O complô ao qual a nobre D. Leonor (ex rainha) estaria envolvida tem já alguma ligação, mesmo que fortuita com a eclosão em 1702 da rebelião messiânica antonionista de Kimpa Nvita, a nobre e sacerdotisa que se dizia a reencarnação de Santo Antônio, santo que libertaria o Kongo do jugo de Portugal.

D.Garcia Nkanga a Lukeni tenta mais uma vez em 1655 vencer o Nsoyo, e no ano seguinte, quando os dois filhos de D. Pedro II, membros da Câmara do reino do Nsundi tentam derrubá-lo. Os portugueses intervêm em seu socorro e quase atacam o Kongo. No entanto ele foi capaz de derrotar os irmãos e ao mesmo tempo evitar a invasão portuguesa. Por volta de 1657, Garcia II já tinha aniquilado ou absorvido todo o resto da casa de Nsundi.

D.Garcia Nkanga a Lukeni morreu em 1661 (Nzinga Mbandi morre em 1663), deixando seu segundo filho António I do Kongo (Nkanga a Nvita) para sucedê-lo, indigitado rei que morre decapitado em 1665 na batalha de Mbwila, que encerra as glórias, as imponências e a independência do Reino do Kongo

 (A principal fonte destas informações foi a Encyclopedia Bitannica, clicando o verbete que é o nome do Cara, mas tem isto tudo e muito mais no Google)

Spirito Santo

Agosto 2011 (com uma enorme inserção em Maio de 2013)

Cadeia de memórias reparadas é um tenso fio


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Paulo Gomes Neto e Eu, amigos de cadeia, amigos para sempre. Ao fundo, entre nós, o  secretario de Direitos Humanos Antonio Carlos Biscaia, grande batalhador da reparação e do reconhecimento do valor de nossas lutas modestas, agora sim cobertas com alguma glória.

E eu, arquivo vivo vou queimando aos poucos

 …”Quinze minutos depois do avião da Cruzeiro do Sul levantar vôo do Rio de Janeiro com destino a São Paulo, no dia primeiro de julho de 1970, quatro jovens deixaram seus lugares e se dirigiram à cabina de comando. Lá foram breves: era um sequestro. Armados, eles obrigaram o piloto a voltar para o aeroporto do Galeão…

Quem sabe deste incidente aventureiro? É filme? É teatro? Não, foi fato. Foi sim. É que memórias são fios que se desfiam de um rolo para se embaralharem irremediavelmente, até não serem jamais meada nem medida, até não poderem mais ser enrolados em rolo algum.

A Reparação do irreparável Continuar lendo

Infográfico Kilombo-Palmarino. Hipóteses em documentos oficiais


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genealogia palmares infográfico copy

Infográfico de uma provável genealogia palmarina, baseado em fontes documentais oficiais portuguesas e holandesas. (Por Spírito Santo. Todos os direitos reservados por licença Criative Commons)

Os nomes e uma provável genealogia de Palmares

Este infográfico que você vê aqui acima, além de ser uma obra em progresso é ‘comunitário‘, ou seja: Você pode sugerir inserções, correções, o que quiser. As regras ou orientações para se fazer isto, contudo são muito técnicas, antropológicas melhor dizendo e não podem ser assim aleatórias, infundadas, destrambelhadas, pois, deu um trabalho enorme pesquisar e estabelecer alguma lógica ou sentido historiográfico para os dados expostos aqui, mesmo ainda grosso modo como fiz.

Digo isso assim tão enfaticamente, porque a tendência a falsear, distorcer, fraudar mesmo a história do negro no Brasil tem sido uma prática muito comum por aqui, praticada não só por gente leiga, irresponsável, mas também por pessoas insuspeutas, mui letradas, gente acadêmica inclusive, com motivações as mais diversas, entre as quais tirar algum partido da lei 10.639, que abre um mercado editorial promissor num país carente de títulos sobre o assunto, carência esta cuja  primordial razão é o nosso racismo sistêmico.

Infelizmente, esta execrável onda de falsificação, de mistificação da história do negro por aqui, tem sido perpetrada –  ou, no mínimo tolerada –  por intelectuais e instituições culturais negras, inclusive governamentais, lançando um manto de constrangedora ignorância sobre nós mesmos.

Revoltado com este aspecto, tenho escrito, de forma incansável uma série de posts e artigos sobre o tema. Infelizmente a maioria dos textos, a despeito do cuidado com que trato a credibilidade das fontes usadas como referência, por não serem calcadas em lugares comuns, com algumas revelações surpreendentes, ainda são solenemente ignorados.

É o caso do presente artigo, que lancei em 2012, assim que as mistificações sobre a existência de supostos personagens – ou sobre a reputação dos conhecidos –  da história de Palmares começou a se tornar uma recorrência incômoda.

Foi o caso do suposto homossexualismo de Zumbi, uma estupidez proselitista lançada pelo ativista gay Luiz Mott (um antropólogo!) e a invenção de uma família para o mesmo Zumbi, com esposa (“Dandara“)  e filhos, dados descabelados, destrambelhados, quando os medianamente informados sabem que quase nada se conhece sobre a vida privada de Zumbi, nem mesmo seu nome de família, já que o termo “Zumbi” é um título apenas, atribuído a uma série de outros líderes quilombolas antes e depois deste, o enforcado que virou um mito historiológico.

É enfim, sobre essas regras ou orientações sobre como lidar, seriamente com as nossas memórias históricas mais caras que vos falo a seguir.

————–

Para início de conversa, se você seguiu a série de posts sobre o Kilombo de Palmares, Zumbi e outras mumunhas negro palmarinas que o Titio compartilhou recentemente aqui (busque aqui no blog sob a tag ‘Zumbi“) já sabe que o assunto é cheio de melindres, meandros, trics trics e entrelinhas, prato feito que foi para as mais confusas mistificações de curiosos e oportunistas de ocasião.

Reconheçamos mais uma vez: A historiografia do negro no Brasil, como disse acima, sempre foi tratada com um descaso enorme, pra lá de recorrente e as simplificações interpostas neste assunto sempre beiraram a ignorância mais profunda e grosseira.

Querem saber de uma, clássica? O desprezo pela etimologia. Ora se tratamos, no caso do Kilombo de Palmares de culturas africanas que se expressavam por meio de uma língua completamente específica, original e diferente do castiço português que se falava por aqui no século 17, como estudar o assunto sem considerar, o mínimo que seja, os elementos etimológicos e semânticos mais elementares destas línguas?

Pois é. Foi isto mesmo que a maioria dos historiadores brasileiros fez.

“O primeiro autor a analisar Palmares com intenções historiográficas foi Rocha Pitta, em seu livro História da América Portuguesa, de 1730. Nele, as lutas do governo português contra Palmares são comparadas às lutas de Roma contra os escravos gladiadores rebelados, sendo visível a intenção do autor de valorizar a honra e o poder portugueses, principalmente do governador de Pernambuco Caetano de Melo de Castro.

A primeira revisão historiográfica sobre Palmares, feita em 1905 por Nina Rodrigues, também reforça a visão da destruição de Palmares como algo positivo. Nesse texto, que foi muito utilizado pela historiografia posterior, o autor divide a história palmarina em três períodos distintos, sendo que sua cronologia é inteiramente baseada nas expedições realizadas contra os mocambos.

As expedições realizadas pelas “armas portuguesas” são claramente valorizadas por Nina Rodrigues, em detrimento dos palmarinos. Temeroso da formação de um “novo Haiti” e sob a justificativa da necessidade do avanço da civilização, o autor critica os que, no século XIX, utilizaram Palmares para defender a causa republicana e a abolição da escravidão:

“A todos os respeitos menos discutíveis é o serviço relevante prestado pelas armas portuguesas e coloniais, destruindo de uma vez a maior ameaça à civilização do futuro povo brasileiro, nesse novo Haiti, refratário ao progresso e inacessível à civilização, que Palmares vitorioso teria plantado no coração do Brasil. […]

…Quando esse confronto entre a bibliografia e as fontes é feito, porém, percebe-se que muitas informações são divergentes. Em um nível mais técnico, foram cometidos erros e enganos pelos historiadores de Palmares no que diz respeito à leitura e transcrição dos documentos. Além disso, houve uma falta de cuidado na referenciação das fontes, que em boa parte dos textos não são citadas, ou o são incorretamente, tornando mais difícil seguir os caminhos trilhados pelos autores.

(Laura Perazza Mendes

Como tentei demonstrar em posts anteriores sobre o assunto ( veja no link:  e    ).  e  a Laura Perazza confirma – não se pode confiar muito na veracidade desta historiografia, baseada exclusivamente em relatos de expedições paramilitares portuguesas contra Palmares, segundo a ótica interesseira de comandantes ávidos por conseguir títulos e promoções, além de vantagens pecuniárias diversas, tais como terras e ouro.

Fontes pra lá de furadas pela má interpretação que delas se fez ao longo de tantos anos, podem ser encontrados nelas, contudo (e o Titio flagrou isto várias vezes, sem problemas) indícios de falsificações grosseiras como as incríveis semelhanças entre o relato de três expedições tão idênticas que há três onde aparece a descrição de um Zumbi ferido em combate e em fuga, largando para trás uma pistola dourada.

Muito óbvio que, ao que tudo indica as três expedições não passaram de uma, replicada com as datas e alguns poucos dados alterados ao sabor dos relatores.

“Em um nível analítico, outro problema recorrente é a falta de crítica das fontes. Para abordar grande parte da história palmarina, principalmente o período que compreendeu os anos de 1675 e 1678, a historiografia baseou-se quase que exclusivamente em uma versão de uma crônica anônima escrita em 1678.

Esse documento contemporâneo a Palmares foi transcrito e publicado pelo Conselheiro Drummond na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em 1859, sendo essa a versão utilizada pela maioria dos historiadores de Palmares, sem nenhuma preocupação com o documento original. Desse modo, uma versão que foi produzida dentro da lógica historiográfica do século XIX foi lida por esses autores como se fosse um documento do século XVII.

Além disso, a maior parte dos estudos sobre Palmares não se preocupou com o fato da crônica de 1678 ter sido produzida com o claro objetivo de enaltecer o ex-governador de Pernambuco D. Pedro de Almeida caracterizando-o como o principal responsável pela vitória contra Palmares. Apesar de ela fazer parte de um esforço maior do governador em obter favores políticos, os historiadores leram-na como um relato fiel aos acontecimentos.”

(Laura Perazza Mendes)

A mais clássica destas distorções (calcada, exatamente nos escritos do Conselheiro Drummond e do Rocha Pitta) é aquela que gerou o mito ridículo denominado ‘A Tróia negra” que, aparentemente reproduz a saga grega dos 300 de Esparta” transportando-a para o Brasil do século 17 , para afirmar que Zumbi se atirou ao suicídio num penhasco junto com seus homens mais valorosos.

“…Em Janeiro de 1694 um exército contra Palmares é montado com soldados, mercenários e índios. Seu comandante geral é o mercenário paulista Domingos Jorge Velho. No ataque á Macaco, no qual uma tática de contra-cercas deixa como única saída para os  quilombolas um corredor ao lado de um precipício, mais de 300 quilombolas morrem e despencam. Dizem que Zumbi é um dos mortos mas não há provas, mesmo porque, pouco tempo depois aparece um outro Zumbi comandando lutando exatamente como o suposto morto.”

                             (O Titio mesmo, num post seu desses aí)

No embalo desta recapitulação é clássica também a farsa do Zumbi bebê sequestrado (veja no link:http://wp.me/p3BrN-2ow) mito quebrado pelo Titio aqui mesmo nesta série (Uhhú!), provavelmente inventado pelo historiador Decio Freitas, que descreve a saga de Zumbi como o mito cristão do Messias (educado por um padre católico) Zumbi no papel do mártir piedoso que morreu para nos salvar.

A história encaixada à fórceps por Décio no contexto de Palmares, na verdade (veja post do Titio sobre este incidente), copia a descrição verídica de cartas do padre capuchinho missionário Marcelino D’Atria enviadas à Roma, dando conta de fatos ocorridos na Batalha de Mbwila, em 1665 em Angola, fatos nos quais é personagem real o menino príncipe Francisco Nkanga Nvita filho de D. Antonio I (Nkanga a Nvita) rei do Kongo morto e decapitado na batalha, incidente que nada tem a ver com Palmares e Zumbi, pelo menos diretamente.

Tudo balela e xaropada. Nem tudo – no portugues claro – quase nada era verdade.

Desqualificaram os ‘falares e saberes’ populares como incertos para inserirem nos hiatos da história, explicações e versões mais desembasadas e desparafusadas ainda.

“Falares e saberes’, quem não sabe que estas chaves são essenciais à qualquer antropologia, historiografia, qualquer ‘logia‘ destas aí que este pessoal tanto ventila. Pois é. A maioria dos historiadores brasileiros são useiros e vezeiros de fazer isto, tratando de exercer a sua burrice ancestral menosprezando os idiomas alheios – africanos neste caso – chamados por eles, preconceituosamente de… ‘dialetos‘, fazendo especulações etimológicas e semânticas estapafúrdias que confundem tudo, mais do que esclarecem num melê pastiche de tudo que não é europeu.

(Já reparam que não fazem isto com falares e saberes indígenas? Conhecem esmiuçadamente as centenas de línguas dos índios do Brasil, até mesmo aquelas ex tintas. São milhares as teses de mestrado e doutorado baseadas em idiomas assim. Têm até um nome pomposo para esta área de conhecimento: “Etnolinguística”.)

Pois bem, se há bruma e confusão neste assunto – e as razões de ser deste ‘apagão’ já cansamos de ventilar por aqui, sendo assim em verdade em verdade vos digo:

É o ensejo de lançar alguma luz sobre todos estes fatos embaralhados que anima o esboço deste Infográfico Kilombo-Palmarino. Ele está baseado em dados e subsídios documentais contidos na série que o Titio acaba de publicar no facebook sobre o título “Semana do Zumbi do Titio”. Para os mais curiosos e instigados, há aqui mesmo, logo abaixo uma boa bibliografia na qual me baseei assim assim.

A história que proponho para os incidentes:

“..Dos muitos filhos, netos e/ou prováveis sobrinhos de Ganga Zumba identificados e citados nos documentos portugueses e holandeses desta ocasião, existem pelo menos quatro filhos adultos que teriam sido presos ou mortos (Zambi ou Zumbi, Acainene, Acaiuba, Tuculo)

São citados ainda por outros autores Zangui, Maiolo, Engana (nganga) Colomim, Camoanga, Cabanga, Gone, Zangui, Gongolo, Quiloange, Quissama, todos líderes de mocambos (além dos que foram mortos) pelo menos três adultos que teriam sido presos e libertados após o acordo de Cucaú (Acaiuba, Tukulo, ‘Zambi’). Há também pelo menos um sobrinho adulto (Pakassa, talvez filho de Ganga Zona) e um número impreciso de netos.

(O Titio mesmo, num post seu destes aí)

Também sugerido pelas pesquisas do Titio existe um fato, não se sabe porque omitido pela historiografia oficial posto que está claramente sugerido nos documentos oficiais portugueses:  Ganga Zumba, provavelmente um idoso por ocasião da invasão do mocambo do Macaco, não aparece, rigorosamente como presente em nenhum dos episódios relacionados à suposta rendição dos kilombolas e 1677. Tudo atribuído à ele parece ser mera suposição ou, simplesmente invenção, mentira.

Existe, isto sim a forte impressão de que o velho Ganga Zumba estaria já impossibilitado de reinar, sendo o contexto de todos os incidentes que redundaram  no acordo de Cucaú, o contexto de um conflito sucessório na liderança de Palmares, com o ‘tio’ Nganga Zona – e seus filhos – de um lado e o Zumbi legítimo herdeiro de outro.

Aliás – disse lá num post destes – é surpreendente a semelhança dos incidentes destes conflitos de sucessão em Palmares com conflitos semelhantes ocorridos na Angola mais remota, ao tempo do Reino do Kongo, no qual as regras ancestrais de sucessão matrilinear (no caso de Palmares, pela sugestão aqui do Titio, o sucessor de Ganga Zumba, o idoso teria que ser o filho mais velho de sua irmã), não raro eram tornadas dúbias e sabotadas pelos ‘tios‘ (‘sekulo‘ ou o ‘irmão da mãe’, uma instituição nobiliáquica fundamental na cultura bakongo), que tinham prerrogativas também de, em caso de dúvida (algo suspeito sobre a origem genética do filho da irmã do rei, por exemplo) entronizar seus proprios filhos.

O que o cruzamento dos próprios documentos oficiais portugueses demonstra, cabalmente – e não é, de modo algum sequer presumido pela historiografia oficial – é que houve sim uma traição de um membro da cúpula palmarina que, muito provavelmente, em troca de favores dos portugueses, denunciou o local remoto onde estava a cúpula kilombola, inclusive TODA  família do rei. Os dados cruzados pelo Titio dão conta de forma candente de que  a traição – injustamente atribuída ao Ganga Zumba mítico (o velho) – foi praticada isto sim por Nganga Zona, controverso  cunhado ou irmão do rei citado.

“ O novo governador João de Souza é contra qualquer acordo com os quilombolas). É ele quem substitui Aires Souza de Castro (signatário do acordo de Cucaú que batizou a dois filhos de Ganga Zona, dando-lhes o sobrenome Souza Castro).

(O Titio mesmo, num post seu destes aí)

Não há registro, portanto, muito provavelmente NUNCA existiu, uma mulher chamada ‘Dandara‘ em Palmares. Este nome aí, ao que parece foi inventado pelo historiador Joel Rufino para denominar uma personagem de seu livro que romanceava a suposta história de Palmares, muito calcado no livro de Decio Freitas.

Todos os nomes citados precisam ser por outro lado analizados segundo premissas histórico etimológicas que só serão abalisadas se forem feitas a luz de um profundo estudo sobre as línguas angolanas respectivas, notadamente o kikongo, língua muito complexa, já dicionarizada no início do século 17 pelo padre negro capuchinho Manoel Raboredo, membro da corte congolesa.

Por estes dados todos, dois aspectos iniciais já podem ser ressaltados : Os nomes propostos, provavelmente não são, necessariamente, os nomes próprios dos personagens, sendo em sua maioria  títulos e funções pelas quais as pessoas eram conhecidas e citadas nos depoimentos (caso flagrante de Ganga Zumba’ que é com certeza, como já disse em outro post, um nome dinástico – Nkanga, ou Nganga a Nzumbi , literalmente “Espírito Santo” (a pomba) uma entidade católica, com o sentido aproximado de ‘Rei com funções sacerdotais‘, líder espiritual e guerreiro)  usado por vários personagens de Palmares e cuja abreviação popular acabou sendo, simplesmente ‘Zumbi‘).

(Bom frisar aqui que a expressão ‘Zambi” que aparece como sinônimo de ‘Zumbi‘ muitas vezes nos relatos e até em letras de música popular, é um erro semântico banal pois ‘Nzambi‘ quer dizer ‘Deus” em kikongo e jamais seria uma atribuição válida para um humano. O correto, portanto seria “NZumbi“, com o sentido de “alma”, “espírito”, “fantasma”)

Andalaquituxe, por exemplo se refere claramente à expressão “Ndala” (vila, lugarejo) sendo ‘Kituche‘ o nome provável do comandante do kilombo assim denominado. Do mesmo modo, nomes como Acotirene e Aqualtune, se referem a palavras compostas (o “A” destes dois nomes, descritos como sendo de mulhers, pode se referir a ‘Nga“, tratamento respeitoso para ‘senhora‘ nas línguas citadas, palavras que precisam ser decupadas a luz de dicionários e gramáticas de kikongo ou kimbundo arcaicos, línguas mais prováveis usadas pelos kilombolas na ocasião).

Enfim, o mais surpreendente – e suspeito – é que o Titio não precisou se valer de nenhuma história oral já que os documentos disponíveis sobre os tempos do Kilombo de Palmares são profusos. Eles mesmos, os documentos interpretados erroneamente por tantos historiadores, já contêm as informações necessárias, basta apenas, como se diz dos ignorantes, ‘saber fazer um “o” com um copo’.

(A farsa do “bebê Zumbi’ , por exemplo, foi desvendada pelo tio simplesmente lendo na internet textos esparsos do John Torntom, incensado historiador norte americano que todo mundo por aí devia estar careca de conhecer.)

Então é isto: Vocês podem revisar todas estas informações, melhor aprofundadas nos posts da série, buscando no blog do Tio as palavras ‘Zumbi” e “Palmares” ou clicando links a cada matéria lida

Pronto. Fecho a tampa deste assunto então e deixo o prosseguimento da enxurrada de novidades para vocês.

Tuala Kumoxi! Tamu junto!

Spírito Santo

25 de Novembro de 2012

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Bibliografia (bem) sumária usada pelo Titio em toda a série sobre Zumbi e o Kilombo de palmares :

Abreu de Brito – Sumário e Descrição do Reino de Angola

António de Almeida e J.Camarate França– Estudos sobre Pré-História do Ultramar Português

Arquivos de Angola – Volume II , 1ª série Boletim da Diocese de Angola e Congo – Edição nº 29

Basil Davidson– “Mãe negra” – Livraria Sá da Costa editora, Lisboa

Cadornega – “História Geral das Guerras Angolanas”

Damião Peres – “História dos Descobrimentos Portugueses”

Decio Freitas- “Palmares- A guerra dos escravos”- Ed. Movimento

Domingos de Abreu de Brito – “Sumário e Descrição do Reino de Angola”

Gomes, Flávio – “Histórias de Quilombos”

Garcia de Resende – “Chrónica de D. João II”

Mario Martins de Freitas– “O Reino negro de Palmares”, Biblioteca do Exército editora- 1988

Manoel Pedro Pacavira – “Nzinga Mbandi”–Edições 70 – Lisboa

Lopes, Nei- Onomástica Palmarina

Rodrigues, Padre Francisco  – “História da Companhia de Jesus”

Montecuccolo, Padre João António Cavazzi de  – “Descrição Histórica dos Três Reinos do Congo, Matamba e Angola”, Vol. I e II -Paiva Manso – História do Congo

Duarte Lopes  e Pigafetta – “Relação do Reino do Congo”

A pedagogia musical do Titio faz Musikfabrik na Maré


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A última experiência do Titio com jovens e crianças de favela foi mesmo inesquecível.

Se você quiser o tio ensinando e aprendendo com crianças como estas, vai ter que tirá-las deste gueto e trazê-las até o tio num espaço que não seja de exclusão.

O enorme e aprazível campus da Uerj, por exemplo está com o tio aguardando esta oportunidade. É preciso abolir a política do gueto em nós.

Durante os meses de junho e Julho de 2012, o Titio esteve a serviço do projeto Fábulas de uma Maré de História da ong Ação comunitária do Brasil lecionando percepção musical para crianças e adolescentes da sede da ACB na Vila do João, Complexo da Maré, Rio de Janeiro.

A pedagogia do Tio que se chama ‘Musikfabrik“, criada e implantada na Uerj em 1995, se baseia em exercícios de fabricação de instrumentos musicais pelos próprios alunos, durante os quais são repassados, quase subrepticiamente, atributos fisológicos e teóricos básicos da linguagem musical inseridos no no processo.

Acredito que só assim, sem separar jamais a prática da teoria, promovendo o contato físico mesmo com música, construindo e tocando o próprio instrumento, tornando o processo de aprendizagem orgânico que o cérebro registra e aprende música (ou qualquer outra coisa)…para sempre.

A experiência de ensinar e aprender com esta galerinha foi inesquecível.

Spírito Santo

Agosto 2012
(Mês e ano da graça da terceira idade do Titio)

O ‘Meia Ponto Cinco’ da longa estrada e o engano da cigana que não me enganou


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O dia, o mês e o ano da graça da terceira idade de mim

Foi numa pracinha ali do aeroporto Santos Dumont, Rio de Janeiro. O ano? Nem sei mais.

A cigana me enganou, claro (ou se enganou, vai saber?). Me disse com aquela cara de pau santa de toda cigana que eu ia morrer aos 53 anos de idade. Me lembro que faltava muito para isto. Imagina! Uma idade remota demais esta. Não dava para imaginar. Nem achei um destino tão triste assim. “_ Aos 53!”_ pensei: _” Ah…já vou estar cansado, de saco cheio de viver”. Pois é: Eu tinha aquela idade entre a pós adolescência inconsequente e a consciência vaga e babaca de que precisava tomar prumo na vida, amadurecer.

A possibilidade da morte precoce me atazanava a alma sim, desde que me dei conta de que a idade tão precoce em que meu pai morrera era a de um quase menino, uma prova inconteste de que não ia mesmo ficar para semente. O fato é que estava até me conformado já com aquela linha da vida na mão direita se desmilinguindo em linhazinhas loucas que não iam mais sozinhas a lugar nenhum.

_ Aos 53…mais ou menos”_ ponderou a cigana, já meio vacilante.

A cigana deve ter visto isto, esta coisa de hora temer, hora não temer  a morte logo ali na esquina, num lampejo dos meus olhos meio incrédulos meio cabreiros, curiosos com o que ela ia dizendo de mim. Não sei não, mas se fosse crer em profecias de mulheres de saião florido já teria morrido mesmo, há muito tempo. Algumas destas, nem ciganas eram, mas desejaram de algum modo que eu morresse, me escafedesse, desaparecesse nos quintos do inferno.

Nada que me incrimine. No noves fora até que sou e sempre fui um cara bom. Mas vocês sabem como são as mulheres, não sabem não? Algumas, às vezes são dadas mesmo a estas maldades gratuitas e despeitadas, com estas manias de bruxa que algumas têm, isto de não querer ser fadas, mães, isto de achar feio e revoltante serem boazinhas para os homens que têm, coitados, que só querem mamar e ser felizes no quentinho de um ninho qualquer.

(Fico até rindo delas agora, daquelas que me perderam – ou não me acharam – quando me vejo no espelho e sei, por A mais B que não desapareci, desapareceram elas. E é por isto que, enfim:

Yo no creo en las brujas mujeres, pero en las mujeres brujas yo creo si.)

Não sei. Acho que a cigana trocou os números 3 e 5 que viu no meu pavor e leu a linha da vida de minha mão às avessas, como a daquele cara do filme que nasce velho e envelhece bebê. O certo é que temi até os 35 anos uma morte, como a do meu pai chegar por alguma razão fortuita, mas ela, a danadinha, não chegou. Esperei aos 53 ela me aparecer de novo, definitiva, poderosa, toda cheirosa e sestrosa me chamando para dançar, mas ela, a bandida, percebendo talvez que dançar nunca foi mesmo o meu forte, jamais apareceu. Daí, já sabem, relaxei.

Olhando esta foto aí eu fico surpreso demais da conta de ter ultrapassado os 35 ou os 53 anos desta quase interrompida vida e ainda ter avançado outro tanto mais, sobrevivendo a tudo e a todos apesar do que desse, houvesse e viesse.

Bem sei que a maioria das pessoas sobrevive assim, de algum modo, mas vejam esta minha vida. O quase nada que éramos naquela casinha quase a desabar, a alegria fortuita do velocípede que meu pai me dera – e que a minha irmãzinha sempre querida, arredia e ressabiada em outra foto agora ostenta nesta, irradiando felicidade de estrela matutina – é tudo, mas só ali naquele momento. O tempo todo, do que dá para se ver assim de longe, era de uma pobreza digna, porém áspera, de marré de si.

Corina, a mais velha, tia temporã, meio irmã dos dois já tem, percebo agora alguma coisa no olhar que entrega alguma tristeza vaga.

(E se quiser veja mais sobre o tio pequenino e seu velocípede aqui neste link)

Ah que dela ainda recordo o cheirinho cálido. A primeira casinha da vida, sabem lá o que é isto? Estrada Comandaí 632, Marechal Hermes, um subúrbio tão tão distante do Rio de Janeiro. Foi nela que eu vim a este mundo cão sem dono, assim vindo à luz, sei lá se pela chama claudicante de um candeeiro ou de uma vela, pela mão de uma parteira daquelas, das redondezas, aquelas mulheres mandonas e altivas, sempre disponíveis, que pela gratidão das paridas que assistiram, têm mais amigas devotadas do que as santas virgens marias.

Estas sim, por certo, as que merecem ir pro céu de cadeirinha, mais do que certas outras santas de pau oco, que lá no céu já estão, mesmo sem merecer, apenas porque são ou foram esposas interesseiras de Jesus.

O tempo foi furacão neste período de minha curta vida. Bibi, minha maninha já nasceu numa maternidade. Mudamos logo para a segunda casa, da qual nem uma fotozinha temos. Construída num terreno doado ou comprado a perder de vista de alguma promoção do governo de Getúlio para enganar a pobreza dos ex pracinhas, heróis da guerra na Itália – como o meu pai foi – ela, a casinha a ser nova, nos livraria do aluguel da outra, que mesmo assim tão desabada, não era nossa, fazer o que?

A casa mais recente, sempre inacabada, acabou ficando ainda mais precária e distante do mundo ainda do que a casinha em que nasci. Desta outra me lembro apenas da escuridão profunda das noites de chuva, um negrume rasgado apenas pela chama trêmula das lamparinas de lata, artesanais. Me lembro das narinas amanhecidas, empretecidas da fuligem do querosene. Me lembro do chão ainda inconcluso, de terra batida, frio e úmido, como o daquelas casas mais selvagens.

Mas a gente se acostuma. Meu pai falecera em 1951, logo depois desta fotozinha aí, assim, quase de repente como se viu, nos seus plenos 35 anos. Morreu, imagino, de sequelas do alcoolismo que, por sua vez era sequela dos tormentos da guerra, as bombas dos tedescos ecoando na cabeça dele durante a Tomada de Monte Castelo, os amigos morrendo metralhados um aqui, outro ali, mais um acolá e ele, José Cyrilo, rezando o Salmo 91 do Davi da Bíblia Sagrada, única coisa assim mais religiosa que eu aprendi na vida (e nem deu tempo de ser com ele).

Mil cairão a teus pés, dois mil a tua direita, mas tu não cairás”

A casinha que era para ser nova, ficou ali nascida velha precoce porque sem pai muito mais difícil ainda se tornou a vida para todos nós, a mãe da roça, prendas do lar tendo que inventar uma profissão do nada, virando enfim a costureira mais artista que eu conheci na vida.

Azar dos ricos, mas só os pobres têm – como tenho agora – este orgulho desmedido de ter vindo da lonjura mais remota, das precariedades mais absolutas para estar aqui agora, lido e sabido, vivo da silva contando esta historinha pra vocês. O certo – nada a ver com duvidoso – é que estou aqui cascudo, ferrado mas não alquebrado, roto mais não torto, sexagenário menino, me remoçando a cada dia, na terceira idade desta terceira chance sem data marcada por nenhuma cigana 171.

 Trinta e cinco? Cinquenta e três? Sessenta e cinco?

Eu, Titio ainda no prazo de validade (alguns defeitos e remendos, pegando no tranco, mas vamos que vamos), sentado porque planejo uma longa espera, aguardando sem ansiedade Ela, a Bela, a irresistível Dona Morte sem saião estampado nem nada, derradeira mulher bruxa que me conquistará.

Ela, Aquela que me levará pela mão, não para o paraíso que nem me apetece, mas assim para um purgatório mais animado, iluminado à neon, com cerveja gelada, frango com quiabo e cafuné. Claro que quero do bom e do melhor. E eu lá sou tolo, inda mais assim sendo velho? Velho tem que ser sabido, porque senão, se não for, será batido e engolido pelo esmorecer.

Se for céu de algodão doce eu bocejo, me enfado. Édem de novela de TV eu não aturo, acho que peço para sair, pego o meu boné e vou embora.

O certo é que  na minha folha corrida –  minha longa e torta linha da vida – está lá escrita em algum lugar me referendando:

Foi Interno de escola-prisão, foi Preso político no Dops da Rua da Relação e na Ilha Grande, foi Pintor de letreiros de propaganda em muros, foi Operário metalúrgico, foi Desenhista projetista de arquitetura, fui Ilustrador de livros infantis. Cantor, Músico, Folião de Reis e CongadeiroProfessor de si mesmo e dos outros,  Fabricador de intrumentos musicais afro inusitados, Escrevinhador autodidata que escreve pelos cotovelos, sobre o que lhe dá na telha e está aqui, pronto para outra, a meia ponto cinco na longa estrada, olhando pros lados, nas curvas, esperando Ela.

(Bandida! Danada! Se bobear arranjo outra e traio ela)

Spirito Santo

27 de Agosto 2012

(Dia, mês e ano da graça da terceira idade do Titio)

No júri dos lobos, as hienas e a confissão de culpa de todos nós.


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Caçar os lobos e não aceitar só carniça: Tal é a lei da savana.

É um mistério para mim. Não sei o que faz as pessoas em geral – inclusive as aparentemente mais lúcidas e centradas – perderem totalmente a noção, o senso de avaliação quando mergulham no poço fundo da adoração por uma religião, uma celebridade, uma tendencia política, um time de futebol, etc. O que estes temas chamarizes da dicotomia e do fanatismo têm de especial para provocar estes sentimentos tão primitivos é a coisa mais enigmática deste mundo. Eu acho.

Burrice, ignorância, ingenuidade política ou oportunismo social? Fico sempre na dúvida.

A criação de acirradas oposições entre grupos de pessoas, a radical polarização delas em dois lados de uma questão candente, uma muralha de fogo surgida do nada entre elas, é uma coisa que, às vezes, escapa a qualquer lógica. Bom senso algum prevalece nestas horas e as pessoas podem mesmo entrar em guerra até a morte de umas e outras, simplesmente por causa de divergências mínimas, as mais tolas, num ‘é pau ou pedra‘, ‘é oito ou oitenta’ totalmente sem sentido.Deve ser atávico ao ser humano, coisa normal portanto.

…Ou será que fazem isto sempre por ‘espirito de corpos’, por interesse de classe, de caso pensado? Não consigo definir uma posição firme e segura quanto a isto.

Me lembro claramente que na eleição para presidente da República de 1989 – a primeira eleição real depois da ditadura – uma coligação entre o PDT de Brizola e o PT de Lula venceria fácil, acachapadamente o outro candidato, o indigitado dito canalha e depois empichado Collor de Melo.

Como é comum no Brasil, a tragédia se fez presente desta vez e o PC Farias (o ‘careca do Fernando’) apareceu arquivo morto, ‘suicidado‘.

Mas o que foi que que as pessoas da classe média ‘de esquerda’ fizeram na época? Rejeitaram com nojo a coligação mais lógica das ‘esquerdas‘, desejada por Brizola que cansou de propor uma aliança de esquerdas clássica, um vice do outro, não importava muito quem seria quem, para enfrentar de forma arrogante uma direita esperta e articulada que, na indecisão das esquerdas, rapidamente ganhou o jogo, adiando os planos de plena democracia para um futuro bem distante.

Hoje fica óbvio que aquela coligação de apenas dois partidos, ambos de esquerda, com divergências apenas cosméticas, um assumindo pragmaticamente posições neo liberais, outro se dizendo socialista mais radical (para inglês ver, viu-se depois) tinha potencial e quadros de sobra para realizar uma transição virtuosa para a democracia com amplas chances de trazer para o país todos os benesses econômicos que, mal ou bem vieram (porque viriam de qualquer jeito) do esforço dos governos democráticos que se seguiram.

Ou somos, politicamente uns idiotas ou há algo de errado com a ideologia desta tal de ‘classe média‘ de esquerda porque, até hoje estamos patinando nesta maneira escorregadia e imoral de lidar com os interesses do país. É a única conclusão a que se pode chegar. Esta dicotomia entre as esquerdas, recorrente no Brasil, desde a primeira república, atravessando o tempo dos conflitos da chamada ‘esquerda revolucionária‘ até os dias de hoje, talvez seja o que mais atravanca um real progresso do país.

É uma cunha entre os interesses reais da população – que se submete à carniça do clientelismo por necessidade – e os interesses de uma minoria em cima do muro que, adepta fervorosa da ‘Lei de Gerson‘, leva vantagem em tudo. Podem crer.

‘Mares de lama’ e a história repetida como farsa

Foi assim com o polêmico Getúlio Vargas que, de certo modo representando um governo de centro esquerda em 1954 foi deixado sozinho pela classe média de esquerda, acossado, entregue às feras da direita fascista de Carlos Lacerda (franco aliado depois do golpe militar de 1964).

(Para quem não conheceu o Carlos Lacerda foi uma espécie de Roberto Jefferson melhorado)

E a tragédia, aquela mãe da outra, esteve aí presente, a ponto dele, Getúlio, vir a se suicidar.

Foi mais ou menos assim em 1964 quando João Goulart, do mesmo modo que Getúlio, seu suposto pai político, foi abandonado por esta mesma classe média ‘bem pensante‘ (neste caso cindida, uma parte se assumindo, francamente de direita, “pela família, com Deus e pela liberdade”, anti comunista e outra, enrustidamente se assumindo ‘revolucionária‘).

Não importa, a classe média ‘de esquerda’ (ou ‘de direita’, difícil saber) tem sido sempre o fiel torto da balança política do Brasil desde sempre.

Que ninguém se esqueça que neutralizada pelo cansaço a esquerda social democrata de Leonel Brizola, dita ‘populista‘, isolada como arcaica e ‘caudilhesca’, sobrou-nos a social democracia light do atual PSDB, uma articulação de centro esquerda que, se foi por um lado – precisamos admitir – responsável pelas soluções mais cruciais dos nós de nossa economia, tem sido também um atrativo e habitat seguro para tendencias direitistas as mais pragmáticas, o que polarizou mais ainda o cenário político e parlamentar da nação, transformando-o neste saco de gatos dos neo capitalistas ruralistas de um lado e esquerdistas de fachada (oportunistas) e clientelistas de outro, articulados em torno do PT, com a corrupção estatal e institucional disparando aos píncaros até assumir os níveis de vergonhoso campeonato mundial de ladroagem organizada que ocupa hoje.

O que se vê de diferente agora no panorama, alguém pode nos dizer? Nada. Tudo piorou.

Se fôssemos fazer uma analogia entre a campanha do ‘Mar de Lama’, série de denúncias deflagradas na imprensa dita ‘marron‘ (como a ‘golpista’ de hoje) sobre os desmandos e a corrupção nas antessalas do governo de Getúlio Vargas e o suposto ‘mensalão‘- o ‘Mar de Lama’ de Lula – o que poderíamos esperar com resultado do desfecho?

Nada de muito ético ou meritório e honroso posso garantir.

Mesmo estando moralmente desmascarado pela simples existência da denúncia do Mensalão tão sobejamente demonstrada nos autos, Lula não se suicidará caso José Dirceu e os figurões do PT sejam condenados.

Pior ainda: caso seus assessores e amigos mais diretos sejam inocentados – o que não é de modo algum improvável – Lula será reentronizado no poder e toda a curriola de supostos mensaleiros estará de volta às ruas e aos cargos, coroando estes modos torpes de se dirigir e gerir um país, divido como butim de guerra em ‘tenebrosas transações’.

Será a desmoralização total da política. A avacalhação total de nossos modos de lidar com nós mesmos. Nós o povo acanalhdado nos entredevorando na política suja do ‘meu pirão primeiro‘.

(Outro dia, vindo de táxi do aeroporto o motorista me disse: “_ Vou votar sim, tenho um candidato a vereador. Quero grama sintética na quadra de futsal do meu condomínio. Se ele me der arranjo mais de mil votos pra ele”)

Lá atrás, como hoje, quem é que dá suporte a esta esquerda torta que adotou a tática dos ‘fins justificam os meios’ que marca a corrupção generalizada no Brasil? Quem dá apoio político a estas práticas torcendo militantemente pela absolvição dos mensaleiros? Ora, alguém duvida que são os quadros desta mesma classe média ‘de esquerda’ de sempre?

(Claro que existem os ingênuos e os românticos – meus amigos por exemplo-  mas estes são poucos)

Insisto. Não sei o que faz boa parte das pessoas no Brasil apostar assim tão irresponsavelmente nesta esperteza rasa como forma de conduta, esta coisa de hiena que ri da morte alheia porque espera a hora de ganhar os restos da vítima, largados pelos lobos já fartos de comer.

É preciso exterminar os lobos e as hienas, é o que deviam saber os bons caçadores.

Como bem disse, mais ou menos assim, Bertold Brecht: um dia a vítima comida pelos lobos, aquela que você deixou ser capturada porque é a carniça que você, covardemente almeja saborear – pode ser… você.

Spírito Santo

Agosto 2012

(Mês e ano da graça da terceira idade do Titio)

‘Não brancos’ vestidos com as almas peladas


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1912. Comissão Rondon. O antropólogo Roquete Pinto grava índios na selva do Brasil

1912. Comissão Rondon. O antropólogo Roquete Pinto grava índios na selva do Brasil

Comissão Rondon e a canibalização do Brasil profundo 

Pensando na antropologia de nós mesmos, aqui e agora achei este filme fantástico: É um documentário sobre a Comissão de Linhas Telegráficas Estratégicas de Mato Grosso ao Amazonas (CLTEMTA) conhecida como ‘Comissão Rondon’, 1912 Brasil.

Num fotograma que capturei, o Antropólogo Roquete Pinto (na foto de cima), integrando a parte científica da comissão, grava música indígena na selva num momento paradigmático das relações, sempre desiguais, entre brancos ‘civilizados‘ e índios ‘primitivos‘.

Muito bem construído e narrado, o filme deixa visível as demandas e contradições do pensamento ‘branco‘ hegemônico nacional voltado para a integração do Brasil não só do ponto de vista territorial mas também étnico, social, ‘racial’. Era a Política Indigenista. Visava-se ‘civilizar‘ o índio para torná-lo assimilável pela sociedade branca, na crença sincera de uns, maquiavélica de outros, de que o que era bom para o branco tinha que ser ótimo para o índio e todos os demais e estava acabado.

Não estava.

Ao lado, ao largo, à margem de todo este jogo de relações, curiosamente a foto flagra trabalhadores negros a serviço da Comissão. De onde teriam vindo estes negros, uma população absolutamente ausente naquela remotas plagas da tão inóspita Amazônia indígena? Quais seriam as relações de trabalho estabelecidas pela comissão com estes seres tão estranhos no ninho por ali?

1904 - Presos da revolta da Vacina a serem embarcados para o Acre para serem postos a serviço da Comissão Rondon.

1904 – Presos da revolta da Vacina a serem embarcados para o Acre para serem postos a serviço da Comissão Rondon.

Uma das poucas informações que se tem sobre a origem destes trabalhadores negros, misteriosamente integrados à comissão, nos dá conta de que, pelo menos em parte, eles vieram da Capital Federal, do Rio de Janeiro, rebeldes capturados após os sangrentos conflitos de rua relacionados às revoltas da Vacina (1904) e da Chibata (1910) motorneiros de bonde, anarquistas, marinheiros, capoeiristas, prostitutas, etc. e degredados, condenados à trabalhos forçados perpétuos na selva virgem, onde muitos, segundo alguns autores entre os quais Lima Barreto, foram devorados por bichos da mata.

Esta parte obscura da história da Comissão Rondon que eu saiba, ninguém ainda ousou investigar e contar.

História transversa e tenebrosa. Omissa. Ontem e hoje. “Uns‘ (os ‘brancos‘) devorando como canibais refinados a cultura alheia, a cultura dos ‘Outros” (índios) com os negros à margem de todo o processo, eternos escravos da nação, condenados à optar pela miscigenação ou à morte.

Vestidos e destribalizados naquela época, os índios voltam hoje a sonhar com a nudez exuberante de seu passado antes de Candido Rondon. O negro, vestido desde muito tempo, desde a África, continua à margem do rio da nação que corre, à sua revelia, sabe-se lá para que futuro, mas sonha em chutar o pau desta barraca de iniquidades já intoleráveis.

Instigante, intrigante história. Titio – que já contou a parte transversa dela em sua peça teatral  “ExuChibata” (sobre João Cândido e a sua Revolta da Chibata) volta com mais coisas disto aí uma hora destas.

Spirito Santo

Agosto 2012