Musikfabrik e múltiplas linguagens


Creative Commons LicenseTodo o conteúdo deste blog está assegurado sob uma licença Criative Commons.

Musikfabrik e múltiplas linguagens

Tema: Palestra para Canal Futura realizada em Teresópolis 02/Julho 2010 

(O texto expresso na verdade pela exibição do filme do projeto (veja o link) e por um curto e delicioso papo com a platéia de educadores negros renidos pela Futura, obviamente, não foi este mas para efeito de uma eventual publicação foi este o texto que enviei para os organizadores)

—————-

Sob o curioso nome de Musikfabrik (ou ‘Fábrica Livre de Construção Musical e Outros  Estranhos Produtos do Som’) o músico e arte educador Spírito Santo idealizou em 1995 na Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) uma oficina de arte que acabou virando um curso, o qual por conta do sucesso obtido, se transformou por fim numa espécie de projeto de extensão de fato, com inovadoras e especiais características, que já dura 15 anos (na verdade 20 anos neste ano Nota de 2015)

Aprendendo e ensinando, especializando-se na pesquisa e no exercício da linguagem musical aplicada como ferramenta pedagógica adaptada às mais variadas finalidades e circunstâncias o Musikfabrik a partir de então vem capacitando músicos, artesãos, musicoterapeutas, atores de teatro e circenses, arte educadores, educadores sociais, professores e diversos outros tipos de profissionais interessados na busca de novas maneiras de se inserir a música na educação, no trabalho, na inclusão de crianças e jovens, na vida social e cotidiana enfim. O método aplicado é a parte mais inusitada da pedagogia do Musikfabrik:

Aprende-se a partir do contato físico com a música, ou seja, todos os conteúdos (física  elementar – acústica, mecânica, etc. – além de história, etnologia, organologia, etc.) são  repassados durante o processo de criação e/ou recriação artesanal de instrumentos de música das mais variadas origens (alguns até mesmo inventados pelos alunos).

A partir de 1999 o projeto decidiu formar com alunos um grupo musical representativo de seu trabalho, mas que tivesse um perfil realmente artístico e não exatamente apenas ‘institucional’ como as bandas de projetos sociais mais convencionais.

Alexandre Gabeira formando do curso em Comunicação Social na Uerj em 2001, escolheu o Musikfabrik e as suas características acima descritas, como tema para o seu trabalho de fim de fim do curso de comunicação social na própria Uerj, flagrando um período especial desta fase do projeto.

Fábrica Livre de Construção Musical e outros estranhos Produtos do Som

Entreveros nas entrelinhas

Em 2001, mesmo ano da realização deste filme, a Uerj por intermédio de sua Sub-Reitoria de Extensão e Cultura (SR3) decidiu admitir o Musikfabrik oficialmente como um projeto de extensão de direito. Os detalhes inusitados desta experiência introduzida na universidade em 1995, iniciada, porém muito tempo antes, em meados da já distante década de 1970, pelo Grupo Musical Vissungo (do qual, como vimos o Musikfabrik é o legítimo sucessor) é especialmente emblemática neste momento quando, no ensejo da aplicação da lei 10.639 se admite enfim discutir, com alguma profundidade a intrínseca relação existente entre Cultura, Educação e exclusão sociorracial no Brasil.

Como se pode observar mais atentamente agora, grande parte dos enormes desafios estruturais que a Educação brasileira enfrenta hoje estão de algum modo relacionados à maneira como lidamos com questões ligadas à qualidade de nosso programas educacionais. Neste particular o papel de metodologias e tecnologias baseadas na inovação tem sido bastante ressaltado.

Há que se ressaltar do mesmo modo, contudo que no bojo destas inovações, o papel de dispositivos de linguagem ‘informais’, extraídos de nossa própria cultura – exatamente aqueles que foram, por tanto tempo, desqualificados e rejeitados pela academia convencional – deverão daqui para frente se tornar cruciais – ou mesmo decisivos.

A questão é antiga: Cultura e Educação são – ou deveriam ser – instancias aparentemente afins, uma quase reflexo da outra num curioso vice-versa, contudo, estranhamente (numa espécie de conflito de linguagem, falha de comunicação, um ‘problema de relação’, diríamos), costumam estar, completamente dissociadas entre si na prática.

O caso do Musikfabrik é particularmente significativo neste aspecto.

Até então uma vaga proposta, ainda sem nome na ocasião, com algum viés ‘construtivista’ (um modismo teórico na década de 1990), em condições normais e a princípio, o Musikfabrik poderia ter sido visto no momento de sua inserção na universidade, como uma ação cultural curiosa e inusitada, cheia de novidades interessantes no que diz respeito à oxigenação, ao lançamento de alguma luz sobre problemas socio-pedagógicos importantes, no campo do que se chama hoje de ‘múltiplas linguagens’ (na época falava-se em ‘múltiplas inteligências’, o que pode significar a mesma coisa). Uma experiência típica de extensão universitária propriamente dita (identificada, aliás com o espírito das correntes acadêmicas mais avançadas da época).

No entanto, mesmo observando a eventual índole progressista destas correntes acadêmicas na época, considerando-se que, nem mesmo a questão das Cotas Raciais na Educação havia ainda sido realmente posta em discussão, o fato é que, por razões de algum modo previsíveis, a proposta Musikfabrik não foi assimilada facilmente como uma inovação em si, não sendo nem mesmo associada, de algum modo à Arte Educação ou a questões educacionais mais recorrentes.

Para escapar desta armadilha do contexto a proposta tinha, portanto que contornar importantes e complicados entreveros:

Pra começar, num ambiente tipicamente elitista, o currículo da experiência carregava em si o ‘estigma’ de ser uma ação calcada na cultura ‘tradicional’ brasileira (categoria na qual, de forma reducionista, se classifica o artesanato e a música ‘popular’) e – o que é pior – profundamente voltada para a pesquisa e a difusão da chamada ‘Cultura Afro-Brasileira (aspecto que, só agora com uma lei específica o Estado brasileiro começa a admitir como sendo fundamental à evolução de nossa Educação)

Estes dois fatores, à luz da citada arrogância elitista e dos preconceitos ainda hoje típicos de certos setores de nossa academia, desqualificariam todas as eventuais qualidades metodológicas inovadoras da proposta, lançando-a no limbo, no gueto onde se costuma isolar manifestações culturais deste tipo: O lugar do negro, o ‘folclore’ residual e ‘primitivo’, o ‘objeto’ – e nunca o ‘sujeito’- de estudo’.

Foram estas algumas das sutis entrelinhas que envolveram o processo de inserção do Musikfabrik na Uerj de sua implantação acidental em 1995 até a sua aceitação como projeto de extensão de fato em 2001.

Musikfabrik graduando

Para começar, as experiências anteriores informavam que a entrada de uma proposta de semelhantes características num ambiente universitário, naturalmente – embora sub-repticiamente – racista, por mais hospitaleira que estivesse sendo a acolhida, atrairia algum tipo de reticência. Na verdade os preconceitos eram inúmeros e tiveram que ser meticulosamente identificados e avaliados um a um, passo a passo.

O desafio de ser assimilado por um contexto (a universidade) que era, ao mesmo tempo, hospitaleiro e hostil (receptivo ao conteúdo original e moderno da proposta, porém reticente quanto a determinados aspectos de sua estética, de sua forma, foi ironicamente o fator mais positivo, o mais estimulante de todo o processo, aquele que abriu de vez o caminho para que a experiência escapasse das travas do meio.

(É bastante provável que no curso da aplicação da lei 10.639, no ensejo da identificação de metodologias adequadas à presente realidade, as novas demandas político pedagógicas surgidas no processo tenham que se valer de experiências culturais menos convencionais como neste caso.)

O primeiro ‘insight’ – político estratégico pode-se dizer – do Musikfabrik foi de início não deixar transparecer, explicitamente, nada de ‘tradicional’, ‘popular’ ou ‘afro-negro’ na denominação do projeto. Vem daí, desta tática sutil a escolha do germânico e sonoro nome ‘Musikfabrik’ (fábrica de música).

Vem daí também a escolha de um dístico ambiguamente  ‘construtivista’ (‘fabrica livre de construção musical e outros estranhos produtos do som’), ao contrário de outras enfáticas – e neste caso ingênuas porque panfletárias – declarações de militância sócio racial.

Cuidava-se também neste caso, de ocultar um aspecto que, curiosamente também causava certa ojeriza na clientela universitária típica: A relaçao intrínseca da metodologia com técnicas de trabalho manual, artesanal, funções normalmente associadas ao trabalho de serviçais subalternos – negros no caso – o vício traumático e renitente da aversão ao trabalho físico, (‘desqualificado‘, ‘inferior‘) em relação ao trabalho intelectual (‘especializado’, ‘superior’), um resquício evidente de nossas relações sociais no tempo da escravidão.

Sem alterar em nada a ideologia e os seus conteúdos originais, a proposta ganhou assim trânsito mais fluente no ambiente universitário, já que passava a ser identificada – pelo menos no nome – como uma experiência culturalista não radical ou mesmo despolitizada, no sentido sócio racial do termo.

Musikfabrik doutorando

O segundo ‘insight’, mais político ainda, foi o empenho na arregimentação, no âmbito da própria universidade, de aliados estratégicos com os quais as características metodológicas mais importantes da proposta, puderam ser traduzidas, debatidas, minimamente sistematizadas e fundamentadas, de modo a poderem ser de algum modo compreendidas e reconhecidas do ponto de vista destes agentes acadêmicos (a rigor afinados com o pensamento hegemônico da academia convencional). Tentava-se cumprir deste modo a vocação precípua de um projeto de extensão de fato para conquistar território, reconhecimento e legitimidade nos campi.

É neste aspecto em especial que o caráter linguístico da estratégia do Musikfabrik pode ser mais bem compreendido, ressaltando-se que, sendo este fator estritamente metodológico, o que vale para uma linguagem – no caso a linguagem musical – guardadas as devidas proporções, vale rigorosamente para todas as outras. As analogias entre esta experiência linguística e outras experiências de arte educação, por estas constatações, podem ser bastante diretas.

Música – e mais estritamente – Música Afro Brasileira (marca indelével da proposta do Grupo Vissungo, antecessor do Musikfabrik) percebemos durante o processo, que era um conceito tratado de forma muito demarcada, quase dicotomizada em relação a outros tipos de ‘música’, quando saía do campo da Cultura (território supostamente livre da criação humana) para o da Educação (território restrito do saber ali constituído como norma culta).

Assim, os conservatórios e as faculdades de música de forma radical, passavam – e na verdade, segundo vários relatos de alunos universitários do Musikfabrik, ainda passam – a formular os seus programas e metodologias, a partir de um conceito de Música inteiramente decalcado, imitado, ‘macaqueado’ no que se convencionou julgar como sendo música… na Europa . Uma abordagem aculturada, elitista no mal sentido, envergonhada portanto e bastante impertinente.

Não é fortuito se observar também que isto ocorre, quase que da mesma maneira, com outras linguagens não sacralizadas, como a Literatura Oral e a Medicina Tradicional, por exemplo sugerindo que o ensejo de se aplicar conteúdos relacionados à cultura negra em nossa educação convencional, de forma sistematizada como a lei 10.639 preconiza, exigirá que muito esforço sócio pedagógico seja empreendido ainda.

E esta pode ser uma das chaves da questão porque a cultura – aqui entendida como sendo um sistema de linguagens interconectáveis – diz respeito, rigorosamente a saberes construídos e praticados por todas as pessoas, todos os seres humanos, independente de sua condição ‘racial’, social, ou qualquer outra instância ou classificação artificialmente construída. Tudo no âmbito vasto da cultura humana pode ser, portanto apreendido, sistematizado e posteriormente transformado em Ciência ou Norma Culta.

(É curioso – embora providencial – que no caso da referida lei 10.639, uma constatação tão óbvia como esta, tenha que ser implementada por força de um dispositivo federal.)

Quando nos damos conta de que na formação cultural da sociedade brasileira, inúmeras outras culturas que não as da Europa compareceram em grande – e, às vezes, imensa medida como no caso da cultura africana – o problema do anacronismo dos nossos processos de ensino-aprendizagem aparece mais nítido ainda: A dicotomia criada – um falso dilema, convenhamos entre Sabedoria Tradicional e Educação Formal – o foi como instrumento de exclusão social, uma forma de, ao desqualificar a cultura de uns (no caso a maioria) tornar hegemônica a cultura de outros (no caso a minoria mandante). Um problema colonial, anacrônico demais para uma sociedade que se pretende emergente, moderna.

Os detalhes deste inusitado processo aqui sucintamente descrito, sugerindo maneiras diferentes – e menos maniqueístas ou simplistas – de se abordar e transmitir as bases elementares de alguns conteúdos educacionais mais recorrentes (história, física elementar, educação ambiental, etc) por meio de metodologias tradicionais ou não, extraídas da herança cultural africana trazida para o Brasil, é enfim a modesta contribuição que o Musikfabrik pode dar a este debate sobre múltiplas linguagens aplicadas na educação.

“Cuide dos sentidos que os sons cuidarão de si mesmos”
(‘Duquesa em ‘Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll)

SpíritoSanto
(Músico e arte educador)
02 de Julho de 2002/ notas em Julho de 2010

O Dossiê do Soldado


Creative Commons License
Todo o conteúdo deste blog está assegurado sob uma licença Criative Commons

José Cyrilo do Espírito Santo pai de Spírito e Lula

8 José Cyrilo do Espírito Santo pai de Spírito Santo

A Curta biografia do soldado José Cyrillo do Espírito Santo

Fragmentos de relatos e notícias sobre fatos reais

Nasceu em 28 de Janeiro de 1918 em Diamantina, Minas Gerais. Foge de casa aos 14 anos por razões não reveladas. Alega ter presenciado a Revolução de 1932, talvez no caminho de sua fuga sem destino.

Em época não sabida se estabelece no Rio de Janeiro (onde se supõe residiam tios seus) e ingressa no Exercito em 01 de Julho de 1934.

Em 6 de Maio de 1939 deserta do Exército e fica foragido por dois anos. Em 15 de maio de 1942 foi capturado e fica preso por quase um ano (10 meses e 15 dias).

Em 23 de Novembro de 1944, ainda engajado parte para a Guerra na Europa. Volta da Itália em 25 de Julho de 1945.

Inserido num programa de reinserção de ex-combatentes do governo Vargas , trabalha como motociclista da Polícia Especial, em seguida com a desativação da PE motorizada, vira Guarda Civil.

Falece em 1951, aos 35 anos de idade.

Notícia real 01

Os episódios decisivos da segunda guerra mundial dos quais Cyrillo participou se concentram, evidentemente nos dias em que seu regimento e batalhão estiveram em combate. Todos os incidentes ocorrem na região do norte da Itália denominada Emilia Romagna, mais precisamente no vale do Rio Pó.

Este período é também o mais controvertido episódio de toda a campanha brasileira com 4 derrotas seguidas e muitos soldados abandonados no topo gelado do Monte Castello numa retirada ordenada às pressas, redundando em muitos mortos insepultos.

A FEB (um ”Grupamento” e não um exército propriamente) estava subordinada ao V Exército Norte Americano. Existem varias opiniões de fontes militares brasileiras (ditas até hoje à boca pequena) sobre a imperícia do comando e a impropriedade das ordens oriundas do comando deste V Exército Norte Americano que, provavelmente utilizou a FEB como ”Bucha de canhão” desafogando as tropas norte americanas que estavam sendo atacadas pelos alemães em seu flanco direito.

Cyrillo residia no Rio de Janeiro, logo pertencia ao Regimento sediado neste estado: o Primeiro Regimento de Infantaria ou ‘Regimento Sampaio’ (ao qual aliás, ele mesmo alegava pertencer) Sua ficha militar extraída depois de sua morte, no entanto indica o Sexto Regimento, originário de São Paulo.

Teria sido transferido antes ou durante os combates? E o tempo de serviço no Sampaio, onde teria ido parar? O fato dele ter contado que participou dos combates da tomada de Monte Castelo, contudo corrobora a tese de que ele estava mesmo no Primeiro RI, pelo menos nesta ocasião (o Sexto Regimento não participou desta batalha), logo pode-se supor que ele foi transferido do Primeiro para o Sexto em algum momento dos combates.

Com a batalha de Monte Castello desviando a atenção dos alemães, as tropas americanas puderam se safar quase sem baixas. Aparentemente, o que o comando do V Exército Norte Americano necessitava naquele momento, era manter os alemães ocupados com a defesa de uma única posição (Monte Castello), incumbindo a FEB de fustigá-los de maneira quase suicida, durante duas semanas, tempo suficiente para que as tropas americanas se incumbissem de suas próprias dificuldades táticas sem nenhum prejuízo.

Ficção 01

Fotos de manchetes de jornais da época (1944) exibem gravuras dos navios atacados pelos submarinos alemães. Som de rádios ligados em todos os lugares são ouvidos na rua. Presidente Vargas discursa a declaração de Guerra contra as potências do Eixo.

Um rádio está ligado também na pensão onde Geny, minha mãe, então namorada de Cyrillo trabalha. Já é noitinha e Geny retira o avental, rápido. Não está prestando atenção às notícias. Sai apressada, pois, tem um encontro com Cyrillo.

Cyrillo conta que foi convocado como todo mundo. A cena é triste. Conversam sobre a menina que Geny cria,  sua irmã mais nova (Corina), pois a mãe das duas morreu de parto da menina e Geny é a mais velha, incumbida portanto de cuidar da criança. Com tudo isto, fazem planos otimistas para o futuro.

História real 02

A temperatura na região por volta do natal de 1944 é de 20 graus negativos. A altura da neve é de 1 metro, com solidificação das camadas internas, situação que provocou a morte da maioria dos soldados brasileiros tombados nesta guerra e a amputação das pernas de muitos outros (”pés de trincheira). Mal equipados com borzeguins ou coturnos comuns trazidos do Brasil, estes soldados não puderam resistir à prolongada exposição ao rigoroso inverno daqueles dias.

De dezembro (data da chegada de Cyrillo) à fevereiro, as ações se limitaram a trocas de tiros entre patrulhas e peças de artilharia. Neste período ambos os exércitos inimigos, fizeram propaganda com panfletos incitando a rendição do outro.

Por causa do inverno cada vez mais rigoroso, hostilidades maiores só voltaram a se processar a partir de 19 de fevereiro 1945 com um plano para tomar, definitivamente o Monte Castello no dia 21, desta vez com um ataque preliminar de uma divisão de montanha americana aos montes vizinhos.

Cyrillo volta a combater em 3 de Março quando seu batalhão, o Terceiro do Sexto R.I. investe sobre Rocca Pitigliana, Braine de le Vigne, Recale e Santa Maria Viliana, todas no Vale do Rio Marano. Depois disto a próxima incumbência de seu batalhão foi tomar Castelnuovo, atacando pela esquerda de Soprassasso já em 5 de Março.

Ficção 02

Cyrillo e um amigo que ele chama de ‘Paraíba‘ no trem que os leva para o front. Eles têm muito frio e ficam meio deprimidos ao perceber que não existem folhas na paisagem toda branca de neve. Pelo caminho vão vendo que aqui e ali há indícios da destruição da guerra no horizonte e pelo caminho.

Os soldados do vagão estão tristes, sorriem as vezes por qualquer motivo, mas são risos nervosos, tensos. O trem para a toda hora, para recolher pessoas que correm pelo campo tendo atrás de si fumaça de incêndios. Numa destas paradas, o trem recolhe um homem ferido que é trazido por civis armados. Cyrillo e Paraíba notam e acham muito estranho aqueles civis armados. O ferido é um soldado americano, negro também como Cyrillo que acha aquilo mais estranho ainda.

História real 03

Nos momentos, que antecederam o ataque a Castelnuovo, as posições do regimento de Cyrillo foram violentamente bombardeadas pela artilharia alemã. Neste dia, presume-se ocorreu o incidente no qual um amigo de Cyrillo morreu enquanto tomava café na barraca usada pelos dois quando esta foi atingida por uma bomba, logo depois que Cyrillo saiu para render o companheiro na sentinela.

Baixas da tomada de Castellnuovo: 3 mortos, 65 feridos. Foram presos 98 soldados alemães. De um destes prisioneiros alemães (ou de um morto), Cyrillo retirou uma comenda ou insígnia de prata ou alumínio que trouxe para o Brasil como troféu de guerra.

Talvez este mesmo prisioneiro seja o que impressionou Cyrillo pela educação com que se comportou no almoço, mesmo após ter passado muitas horas ou dias de fome, um dos poucos fragmentos de memória que me recordo dele ter me contado assim, diretamente.

As baixas por ‘‘pé-de-trincheira” em Castelnuovo foram elevadas. Uma cruz colocada por alemães com a inscrição “Drei Trapfere-Brasil- Castelnuovo 24-1-1945/Três bravos…”, no entanto, serve de reconhecimento a bravura dos soldados de uma patrulha brasileira do Primeiro R.I, mortos ali.

É após Castelnuovo que Cyrillo tem folgas. São deste período grande parte  dos postais que ele trouxe da ltália os quais eu tenho guardados até hoje.

Ficção 03

Cyrillo e ‘Paraíba’ se revezam num posto de vigia. Dormem numa barraca próxima. Um dos dois fez um café. Cyrillo, o primeiro a tomar o café quentinho, sai para fora da barraca e se afasta para o seu turno de vigia. Mal ‘Paraíba’ entra na barraca uma bomba alemã explode. ‘Paraíba’ morre.

História Real 04

Em 16 de abril, Cyrillo volta a combater (tinha estado na retaguarda) afim de substituir em Montese, o XI batalhão do RI que estava desgastado. Entrou nesta batalha à noite, sob intenso fogo da artilharia alemã, tanto que seu batalhão não consegue nas 24 horas ininterruptas em que lutou, tomar o morro e é também substituído no dia seguinte.

É dificil saber mas, imagina-se que em Montese, depois de ter passado a noite e a madrugada anterior sem dormir e, depois disto, um dia inteiro sob intenso bombardeio, teria sido o maior sofrimento de Cyrillo na guerra.

Baixas em Montese: 426 soldados brasileiros atingidos, sendo destes 34 mortos. 453 brasileiros foram feitos prisioneiros.

Também em Montese, uma nova inscrição de reconhecimento alemão à bravura brasileira numa placa de madeira, referindo-se ao ponto em que soldados da FEB tombaram mortos. Nela se lia : ”Drei brasilianische helden ” (Tres heróis brasileiros)

( Vela matéria sobre o combate da patrulha da crônica de Joel Silveira,o mais famoso correspondente de guerra brasileiro)image

(Não é improvável que a foto abaixo – com a ausência de um –  seja dos integrantes da patrulha citada na crônica de Joel Silveira):


Deve ter sido destes últimos incidentes que se originaram certas alterações que tornaram Cyrillo, segundo sua esposa (minha mãe) mais reservado e irascível do que de costume, demonstrando estar atormentado por distúrbios relacionados a síndrome psicológica que se convencionou chamar na época de ”neurose de guerra”.

Ficção 04

(Cyrillo contou esta para minha mãe – invento só os detalhes)

Numa das cidades tomadas pelos brasileiros. Rua empoeirada. Tabuletas de lojas, Ruínas de casa e prédios destruídos por bombas. Jipes e caminhões entrando na cidade em ambiente de batalha recém-terminada. Grupo de soldados brasiileiros andando pela rua descontraídos. Cyrillo aparece sózinho, vindo do fundo da rua cercado por meninos maltrapilhos. Meninos gritam:

_” Cirillone! Cirillone! Chocolate per me! Per me!Io! Io!”

Cyrillo traz muitas barras de chocolate na mão e vai lançando para o alto, se divertindo com as crianças, rindo da algazzara que fazem.

De repente explosão de granada numa casa próxima. Correria de soldados na rua. Cyrillo e meninos se jogam no chão até perceberem que foi uma explosão acidental.

Voltam à brincadeira.

Pós guerra

Um novo nome para um ex-pracinha No pós guerra sabe-se que Cyrillo usou o estranho codinome ou pseudonimo de Carlos Christóbal Rocha por razões ainda obscuras. Alegava para a esposa Geny, pertencer uma espécie de serviço secreto do governo, mas a luz do que se sabe hoje sobre o período, isto não fazia muito sentido. Neste período praticava eletrônica e radio amadorismo. Havia com efeito uma antena de bambu, pendendo no telhado de nossa casa em Marechal Hermes.

O pós guerra no Brasil foi um período político muito controvertido. O presidente Getulio Vargas desmobilizou a Força Expedicionária Brasileira antes mesmo do desembarque das tropas de volta ao Brasil. Dizia-se na época, que o governo temia que os ideais democráticos assimilados pela tropa da FEB em sua luta contra o nazifascismo, estimulassem uma revolução contra as tendências ditatoriais de Vargas.

A utilização de um codinome e a linha editorial das revistas que Cyrillo assinava (a positivista ‘0′ Pensamento’ e a anticomunista ‘Seleções do Readers Digest’) nos faz supor que durante esta época ele deve ter estado, de alguma forma envolvido em atividades clandestinas anti ditatoriais (e anti getulistas, no caso). Ou, quem sabe até na polícia secreta, atividades profissionais pro governistas, portanto.

Em 1951, apenas 5 anos após o seu retorno da guerra, contando apenas 35 anos Cyrillo falece no Hospital Geral do Exército de uma infecção aguda dos rins, devida talvez ao alcoolismo, vício com o qual, aparentemente passara a espantar os fantasmas da guerra. Na época, depois de ter sido motociclista da Polícia Especial (criada por Getúlio Vargas) prestava serviço como Guarda Civil.

Deixou além da jovem esposa Geny, três filhos, o mais velho (eu, Antônio) com pouco mais de quatro anos de idade, uma filha com 2 anos (Virgínia), e o filho mais novo (Luiz Antônio), ainda um bebê.

Roteiro dos postais

Cyrillo, como muitos pracinhas, trouxe uma grande coleção de souvenirs. Entre estes estavam um cortador de papel de cobre estanhado com a forma de um punhal, uma máquina fotográfica Kodak caixote (que se encontra com meu irmão), a tal insígnia nazista (que junto com o punhal foi apreendida pela Dops quando da minha prisão em 1968), um óculos de aviador americano com armação de ouro e um relógio ômega, também de ouro.

Havia também uma cuia de chimarrão com a borda e ‘bomba’ de prata 90% (que se encontra comigo até hoje) a ele presenteada por um amigo pracinha do Rio Grande do Sul e um belíssimo jogo, completo, de porcelana ‘das índias ocidentais‘ como se dizia, que eu nunca soube se se ele trouxe da Itália (que doido!) ou se comprou por aqui mesmo (as peças mais valiosas – como os óculos e o relógio – em sua maioria não sei onde foram parar, penso que minha mãe as vendeu para custear despesas de família).

Grande parte – na verdade quase todas-  das fotos que ele trouxe da Itália, entre as quais a de uma linda ragazza de saia plisada que ele dizia ter sido sua ‘madrinha de guerra‘ (uma história que minha mãe nunca engoliu). Durante muito tempo, aliás, como deve ter ocorrido com outros ex-pracinhas,  rondava na família a suspeita de que ele poderia ter deixado um filho na Itália. Me lembro muito bem de uma foto dele diante de uma casa de madeira com terras nevadas ao fundo, vestindo uma elegante jaqueta de lã cintada, típica do uniforme dos soldados norte americanos.

Muito bem guardados comigo e conservados no entanto está a coleção de postais que comprava nas cidades por onde passou. Cruzando os nomes das cidades dos postais com um mapa da região onde ele combateu, dá para se traçar um interessante roteiro de suas viagens de folga e do trajeto de sua volta.

As cidades dos postais são as seguintes:

Napoli – Janeiro de 1944

Roma – Janeiro/fevereiro de 1944

Monte Castello (Perugia, perto de Porreta Terme) – 21 de fevereiro de 1944)

Montese – (área de Modena/Bologna – 16 de Abril)

Castelnuovo – Batalha em 5 de Março

Collechio– (próxima à Parma – já com linha gótica tomada, em 1945)

Veneza – Depois da vitória total aliada

Voghera – (Piemonte) 1945

Alessandria – 1945

Gênova– Já prestes a embarcar para o regresso ao Brasil.

Depois de Napoli, passando por Roma seguindo para Perugia (Monte Castelo) enfrenta sua maior batalha. Em meados de 1944 enfrenta uma segunda batalha em Montese, próximo à Modena (onde eu morei) e uma terceira batalha em Colechio todas na mesma região. Como Veneza fica acima da linha gótica, só visita esta cidade depois da vitória aliada. Depois dai, todas as demais cidades teriam sido vistadas no trajeto de volta para o embarque para o Brasil.

Notas:

Por uma estranha razão, talvez a sua proverbial  insubordinação, José Cyrillo entre todos os pracinhas foi um dos poucos que ingressou soldado na guerra e saiu soldado, sem ter nenhuma promoção em combate, embora tenha ganho as medalhas de praxe, entre elas, a de campanha

Por uma coincidência também muito estranha, o próprio narrador desta história – o Titio que vos fala – filho do soldado José Cyrillo viajou para uma tournée musical de quatro meses para a MESMA região da Itália em 1990, descobrindo só mais tarde que estava trabalhando e residindo, exatamente no mesmo local onde seu pai havia lutado na Segunda Guerra Mundial.

Na foto eu, o filho mais velho de José Cyrillo em Bologna em 1990. Ao fundo o curioso detalhe de um prédio projetado por Leonardo da Vinci, semiacabado (o revestimento de placas de mármore, que deveria ir até no topo do prédio, só vai até o meio). O informante me assegurou que isto era muito comum na época da Renascença.

Bem, vão vendo aí.

Spírito Santo

2004, sei lá.

Retrato de Nkanga a Lukeni ou D.Garcia II-1643


Creative Commons LicenseTodo o conteúdo deste blog está assegurado sob uma licença Criative Commons.

Nkanga a Lukeni

Para holandeses e portugueses Nkanga a Lukeni era ‘O Cara’

Este pomposo cidadão se chama Nkanga a Lukeni a Nzenze a Ntumba também conhecido como D.Garcia II, Manikongo (rei do Kongo) entre 1641 e 1661, por aí. Lukeni, um rei católico que se presume fosse irmão da Rainha de Ndongo e  Matamba Nzinga Mbandi (Rainha Jinga) foi o rei que enviou uma embaixada à Recife e Amsterdam. O quadro de autor desconhecido (com certeza um pintor holandês, talvez Albert Eckhout) é um retrato fiel, entre muitos outros feitos por holandeses na época.

A história do Kongo desta época coloca por terra todas as depreciações que a história dos povos bantu da área de Angola e do Zaire atuais sofrem no Brasil. Os dados para quem quiser vê-los são profusos. Já publiquei aqui retratos não menos fiéis de membros de uma destas embaixadas.

Esta enviada por Nkanga Lukeni viajou no navio holandês levando presentes (ouro, panos e escravos) para Maurício de Nassau e para os próceres da Cia das Índias Ocidentais em Amsterdam. Segundo o amigo Aristóteles Kandimba, angolano que mora na cidade, foi realizada em Amsterdam uma missa em recepção ao embaixador de Lukeni e Jinga.

Já acumulei bastante material de pesquisa sobre esta história empolgante (muitas fotos destes retratos já compartilhei aqui). O mais eletrizante é que a história acontece na mesma época em que o Kilombo de Palmares, habitado por conterrâneos destes ‘angola-congueses‘ crescia de poder e importância por aqui.

Marcada por muita astúcia diplomática dos líderes angolanos (ou congoleses, sei lá) em suas relações de amor (diplomacia) e ódio (guerra) com portugueses e holandeses que, ao mesmo tempo, os assediavam com promessas de boas relações comerciais e invadiam como predadores vulgares, a história tem estreita ligação com a história do Brasil.

(Quem quiser negar isto que se dane e fique olhando a caravana passar)

Enfim a história do Homem

(E da África que realmente nos diz respeito)

D. Garcia II, cujo nome bakongo era Nkanga a Lukeni a Nzenze a Ntumba, governou o Reino do Kongo de 23 de janeiro de 1641 a 1661. Ele é considerado por muitos como sendo o maior rei do Kongo pela sua piedade religiosa e seu empenho na expulsão dos portugueses de Angola (boa parte do reino do Kongo de então).

D.Garcia e seu irmão mais tarde denominado Álvaro VI, nasceram no início do século XVII. Os irmãos estudaram no colégio jesuíta de São Salvador do Kongo (M’banza-Kongo, capital do reino nesta ocasião) logo após a sua abertura, em 1620.

Estudou aí com o padre jesuíta João de Paiva e junto com o irmão se juntou à irmandade leiga de Santo Ignácio (ordem dos jesuítas), enquanto estudante. Um número razoável de intelectuais congoleses, todos pertencentes à nobreza local,  foram formados neste colégio.

Entre eles podemos destacar D. Miguel de Castro, embaixador do Kongo/Nsoyo em 1643 numa viagem à Recife e Amsterdam e Manoel Raboredo, padre capuchinho, filho de uma mulher da nobreza congolesa com um nobre português.

Manoel Raboredo  muito respeitado no Vaticano, foi um intelectual muito importante na sociedade bakongo, responsável pelo primeiro dicionário de Kikongo/Espanhol ainda no século 17.

(Observem como eu, a propósito e atentamente que a aportuguesada roupa de D.Garcia Nkanga a Lukeni, na verdade tem muita semelhança com a de um bispo católico, não faltando sequer o crucifixo, tendo a cinta vermelha clássica – até hoje usada pelos bispos de Roma – sido substituída por uma tira de pele de leopardo. Este indício é muito forte no sentido de corroborar o caráter predominante da ideologia católica na gestão da política do Reino do Kongo na ocasião e a grande influência que estes modos de ser tinham sobre os hábitos da nobreza congolesa)

Aparentemente, o poder era dividido entre kandas (linhas genéticas), cada uma dominando um reino, o conjunto deles gerido pelo Reino do Kongo (formando uma espécie de federação imperial), mas se associando entre si por meio de casamentos inter kandas, gerando muita disputa política e territorial que se agravou muito com a chegada do maquiavelismo dos portugueses e, por alguns poucos anos dos holandeses, culminado com a dissolução total do poder do Reino do Kongo, tomado definitivamente pelos portugueses em 1665 (Angola só liberta deste jugo colonial em 1975, mais de três séculos após).

O período do governo de D.Garcia Nkanga a Lukeni (o nome ‘nkanga‘ – presumo eu vindo de de ‘nganga’, sacerdote em kikongo, a língua local – sugere uma linhagem de  ‘reis católicos’ e ‘Lukeni‘ é o título da kanda principal a qual D.Garcia Nkanga a Lukeni descende) é marcado então por grandes lutas internas, envolvendo um cisma entre alguns reinos da região (Nsoyo, Mbamba, Nsundi, etc.) que questionam a hegemonia do Reino do Kongo como centro político da região.

Os reinos da região sempre foram partilhados por descendentes das primeiras famílias habitantes do local, mistura de gente vinda do Camarões no século 10, por aí, com habitantes originais, de tempos mais remotos.

Ao que tudo indica, tradicionalmente, cabia a Kandas específicas, descendentes dos membros da família fundadora principal, o mando nos reinos mais ricos e importantes. Mais precisamente, em linha matrilinear caberiam aos filhos das filhas do rei a sucessão do reino principal (por suposto o Kongo) ao irmão desta filha do rei (o tio ou ‘sekulo‘) caberia o reino de segunda importância (por suposto, na época, o Nsoyo) e daí, em linhas semelhantes, o mando nos reinos secundários.

Assim, Este cisma se caracteriza então como uma sucessão de brigas por poder entre famílias ou ‘kandas‘, a partir de certa época muito misturadas, mais ou menos como os clãs europeus da mesma época.

Quando o rei Álvaro V foi ameaçado por Daniel da Silva, Duque de Mbamba em 1634, D.Garcia Nkanga a Lukeni e o irmão vieram em auxílio do rei. Garcia foi particularmente valente durante a batalha desesperada, que teve lugar no Nsoyo (como se sabe reino vizinho ao Kongo). Por sua bravura, Garcia foi nomeado Marquês de Kiova, um pequeno território na margem sul do rio Congo, enquanto seu irmão foi promovido a Duque de Mbamba.

No entanto, em 1636 Álvaro V, no bojo de confusões internas, tenta remover os irmãos de seus postos e matá-los. Os irmãos conseguem derrotar e decapitam o rei. O irmão de Garcia foi então coroado Rei Álvaro VI e Garcia é declarado Duque de Mbamba.

Em 22 janeiro de 1641 Álvaro VI , irmão de D.Garcia Nkanga a Lukeni morre, também em circunstâncias misteriosas, e antes da eleição fosse realizada (na verdade os debates na corte sobre a sucessão, que teria que se dar por meio de regras tradicionais de ‘kanda‘ ou seja, como disse, por linha genética matrilinear) Garcia II Nkanga a Lukeni muda-se para a capital e força a corte a declará-lo rei.

Quase que imediatamente enfrenta, contudo uma crise, já que em poucas semanas D. Paulo, o atual Conde de Nsoyo e seu antigo aliado, também morre, sendo substituído por seu rival e inimigo de D. Daniel Garcia da Silva.

(Observe-se que toda a nobreza congolesa, no ato da sua conversão ao catolicismo, adotou nomes e sobrenomes portugueses. A maioria dos momes bakongo dessa nobreza, se perdeu.

Outro aspecto a ser considerado é que os nomes bakongo ou mesmo kimbundo que ficaram registrados pela história, são na verdade títulos nobiliárquicos ou dinásticos (kanda). Este é, claramente caso da rainha Jinga, cujo nome kimbundo (Nzinga Mbandi) na verdade se refere á sua kanda ou clã (o clã seminal de Nzinga Kwuwu) e Mbandi, aparentemente um nome da família direta.)

Ao mesmo tempo que isso acontece, a armada holandesa invade e toma a colônia portuguesa de Luanda. O Reino do Kongo tinha um pacto de longo prazo com os holandeses para a expulsão dos portugueses para fora de Angola, governada pela rainha Nzinga Mbandi, ao tudo indica parente (talvez irmã ) de D.Garcia, aliada do Kongo.

D.Garcia imediatamente muda seus exércitos para o sul, afim de ajudar os holandeses. Em 1642 ele recebe uma embaixada holandesa (ocasião na qual, provavelmente Albert Echout, integrante da missão holandesa, pelo menos no Brasil, deve ter pintado o retrato dele) e assinou uma aliança e acordo, só se recusando a permitir a vinda de um pastor calvinista, insistindo que era um católico e isto não permitiria.

No ensejo desta aliança, pelo menos uma expedição é mandada ao Brasil por D.Garcia Lukeni e Nzinga Mbandi, precisamente a Recife e pelo menos uma outra é enviada pelo seu rival D. Daniel da Silva, do Nsoyo, no âmbito da contenda entre os dois pela supremacia política na região.

As imagens impressionantes de, pelo menos uma destas viagens  e embaixadas (pintadas, ao se sabe pelo mesmo Albert Eckhout) já foram publicadas aqui neste mesmo blog.

Garcia com estas ações de diplomacia, esperava que os holandeses fossem ajudá-lo na expulsão dos portugueses, conforme estabeleciam os termos de um acordo de 1622, quando o rei do Kongo da ocasião D. Pedro II, tinha proposto a aliança Kongo-holandesa.

No entanto, os holandeses não estavam tão dispostos assim a pressionar os portugueses, uma vez que já tinham tomado Luanda. Em vez disso, dedicavam seus esforços a tornar Luanda um grande entreposto de comércio transatlântico, permitindo que os portugueses continuassem a controlar os territórios do interior.

Soldados holandeses, no entanto, ainda assim ajudam D.Garcia a derrotar uma rebelião na pequena zona sul de Nsala em 1642, os capturados nesta batalha, escravizados, acabam servindo de pagamento das despesas holandeses com a ajuda ao Rei para tomar Luanda.

Em 1643 as relações entre a Companhia holandesa das Índias Ocidentais e os portugueses azeda. As forças de D.Garcia Nkanga a Lukeni ajudam os holandeses a rechaçar os portugueses de suas posições no rio Bengo. Mais uma vez os holandeses se recusam a pressionar um ataque maciço contra os batavos e os portugueses acabam por se reagrupar em Massangano, mais para o interior.

No entanto, as relações cada vez mais hostis entre D.Garcia e Daniel da Silva, do Nsoyo, o impede de mandar mais forças para a campanha contra Portugal. Assim, em 1645, D.Garcia procura vencer Daniel do Soyo, mas é derrotado tentando tomar a posição fortificada no Soyo chamada Mfinda Ngula.

O filho de D.Garcia que seria o seu herdeiro, acaba capturado quando comandava as forças do Kongo. Uma campanha militar para libertá-lo, em 1646, falha também. Por causa dessas guerras, intestinas o Kongo só foi capaz de enviar pequenas forças para ajudar os holandeses que, temendo que com reforços vindos do Brasil, os portugueses pudessem expulsá-los de Luanda, declararam guerra total em aliança com a rainha Jinga (Nzinga Mbandi).

Embora os aliados tivessem tido êxito na batalha de Kombi em 1647, eles foram incapazes de desalojar os portugueses de suas fortificações. Outros reforços do Brasil em 1648 acabam obrigando os holandeses a se retirar da região.

Nos anos que se seguiram à guerra holandesa, D.Garcia procurou fazer as pazes com os portugueses e estabelecer novas relações. Salvador Correia de Sá, o governador português, procurado para um acordo, exigiu que Garcia assinasse um tratado logo a seguir de sua vitória sobre os holandeses, exigindo a posse da Ilha de Luanda, de todas as terras ao sul do rio Bengo, os direitos de todas as minas em Kongo, o pagamento de uma indenização e outras concessões.

Na sua versão do tratado D.Garcia por sua vez insiste na restauração de seus direitos ao sul do rio Bengo, bem como outras demandas. O tratado foi apresentado em 1649, nenhum dos lados assinaram, embora D.Garcia tenha pago a indenização.

D.Garcia com o fim do domínio holandês, voltou então toda sua atenção para assuntos internos do Kongo. Missionários capuchinhos, que chegaram da Itália e Espanha em 1645, trazem uma oferta de aumentar o clero local. D.Garcia os acolhe, interessado em manter boas relações com Roma.

No entanto, sempre desconfiado, acaba acusando os capuchinhos de conspirar contra o reino em 1652, e no mesmo ano prende Dona Leonor, uma nobre venerável e muito respeitada, acusada de envolvimento em um suposto complô. D. Leonor morre na prisão e D.Garcia perde considerável parte da confiança popular que gozava.

O complô ao qual a nobre D. Leonor (ex rainha) estaria envolvida tem já alguma ligação, mesmo que fortuita com a eclosão em 1702 da rebelião messiânica antonionista de Kimpa Nvita, a nobre e sacerdotisa que se dizia a reencarnação de Santo Antônio, santo que libertaria o Kongo do jugo de Portugal.

D.Garcia Nkanga a Lukeni tenta mais uma vez em 1655 vencer o Nsoyo, e no ano seguinte, quando os dois filhos de D. Pedro II (o de lá, claro) membros da Câmara do reino do Nsundi tentam derrubá-lo. Os portugueses intervêm em seu socorro e quase atacam o Kongo. No entanto ele foi capaz de derrotar os irmãos e ao mesmo tempo evitar a invasão portuguesa. Por volta de 1657, Garcia II já tinha aniquilado ou absorvido todo o resto da casa de Nsundi.

D.Garcia Nkanga a Lukeni morreu em 1661 (Nzinga Mbandi morre em 1663), deixando seu segundo filho António I do Kongo (Nkanga a Nvita) para sucedê-lo, indigitado rei que morre decapitado em 1665 na batalha de Mbwila, que encerra as glórias, as imponências e a independência do Reino do Kongo

 (A principal fonte destas informações foi a Encyclopedia Bitannica, clicando o verbete que é o nome do Cara, mas tem isto tudo e muito mais no Google)

Spirito Santo

Agosto 2011 (com uma enorme inserção em Maio de 2013)

“Dont Tread on me”. Ecos Pré-Cotas raciais. As Madalenas Arrependidas piram!


Tea party flagTea party  flag (para quem não conhece, o “Tea Party” é a corrente mais à direita do Partido Republicano norte americano.)

A turma do chá preto e as outras turmas ‘deles’.

(A analogia com a cobra traiçoeira – vocês logo verão – é pertinente e providencial).

Pode ser apenas impressão do tio, mas o que chamarei aqui de “turma do chá preto”, adeptos tardios do anti cotismo racial está se tornando um must na internet, nas redes sociais, na imprensa convencional, nos meios de comunicação em geral.

Sacudiram o bambuzal e espantaram das sombras cobras sapos e lagartos. Impressionante!

O que mais me chama a atenção, impressiona mesmo é que esta onda de anti cotismo racial radical extrapolou até mesmo o nível de reação anterior à aprovação da ação afirmativa pelo STF, como se houvesse uma ‘maioria silenciosa’, enrustida, na espreita se apoiando numa vanguarda dos radicais contando com a força de sua omissão. Um batalhão de ‘joões sem braço’ torcendo contra, na sombra.

E vejam que contradição maravilhosa: Se esta popularidade enrustida do anti cotismo racial tivesse andado às claras, teria sido percebida pelo STF como uma força legítima e poderosa e – ai meu Deus! – teria ameaçado seriamente a aprovação da medida.

Ai! Que mole que deram! Deixaram Ali Kamel e a turma do chá preto à míngua, isolados como cegos em tiroteio. Agora ficam por aí, madalenas arrependidas, chorando pelos cantos, alisando os velhos tijolos do seu muro de lamentações.

Sempre achei – e muita gente acha também – que um dos mais firmes sustentáculos do racismo à brasileira era o seu caráter de ação sub reptícia, solerte, a sua vocação para a dissimulação, aquela caraterística que os politicamente corretos chamam de ‘sutileza‘ (‘racismo sutil‘, por suposto)

Feito pata de elefante, sabem como é?

Aqui, antes da decisão do STF os racistas todos eram uns gatos pardos pingados. Na verdade, ‘NINGUÉM‘ era racista, ‘ninguém‘ colaborava, ‘ninguém‘ compactuava, apoiava ideias racistas, mas ele, o racismo, misteriosamente prosperava, recrudescia, ardendo cada vez mais na pele daqueles que a ele estavam e estão expostos.

Mistério revelado: É que agia na sombra, a ‘maioria’.

Saindo das sombras então, as Madalenas arrependidas agora acenam com a inutilidade das cotas raciais, para eles uma demagógica e inócua decisão, dizendo que o universo de beneficiados será tão ínfimo, tão ínfimo (entre 200.000 a 400.000) que a ação não fará nem cosquinha em nossa abissal desigualdade educacional.

Sei…sei. É como aquela fábula da raposa, ressentida por não ter conseguido as uvas, que dizia:

_ “Ah…Estão verdes!”

É que eles não conhecem – na verdade temem – a exponencialidade,  o poder multiplicador de medidas como esta. Se a taxa de negros nas universidades públicas era perto do zero antes das cotas raciais, claro que é formidável pular agora para centenas de milhares.

Infelizmente para eles a caravana passou.

Aliás, cá entre nós, este negócio de ficar tentando provar que não existem negros no Brasil é bem agressivo e ofensivo para quem é – ou se imagina – negro. Fica parecendo racismo enrustido quando nenhuma proposta alternativa FACTÍVEL e não protelatória é apresentada.

E vamos combinar: De onde vem afinal este ressentimento todo, esta bílis destilada contra a promoção ou a evolução social dos ‘não brancos’ em especial se, também em especial, estes mesmos ‘não brancos‘ são os excluídos?

Afinal a existência de um virulento racismo no Brasil é um fato mais do que reconhecido já, internacionalmente até.

Os anti cotistas raciais estão sendo mesquinhos, isto sim. Fazem uma conta ‘de menos’ que, ao fim de tudo propõe a manutenção de tudo como está (a conta da exclusão social eles não fazem nunca). A conta que valia a pena fazer, neste caso nem se trata destas que dizem se somos entre 5% e 51% os negros no país. Talvez os anti cotistas raciais não tenha entendido bem – se é que querem mesmo entender – o conceito ‘negro‘, que é apenas político e não racial.

Afinal a categoria ‘negro‘ no Brasil não pode ser aferida por este parâmetro aí, genético, como se fôssemos africanos legítimos, uma raça por suposto. Não é justo nem sério isto aí. Raças, afinal, não existem!

Negro‘ – todo mundo de boa vontade sabe – não é um conceito genético (e o uso deste parâmetro eugenista aí, é hoje inaceitável). Politicamente,o conceito “negros” – é preciso se reconhecer isto logo, sem cinismo – se refere à maioria dos excluídos do Brasil (pretos, índios, mulatos, ou qualquer outro nome que se queira dar aos que NÃO são considerados brancos na hora de exercer direitos de cidadania).

A premissa errada (a definição de quem é e quem não  é negro) foi usada ILEGALMENTE para instituir o racismo. Só o uso desta mesma premissa poderá ajudar a desamarrar este nó. É como usar o soro do veneno para curar a mordida da cobra venenosa.

E ao matar a cobra há sempre que se mostrar o pau.

Criaram o saco de gatos de todas as cores, separando os brancos num outro saco à parte e bem melhor. Agora, na hora de trazer os gatos brancos para o saco geral, querem separar, de novo, apenas os gatos pretos do saco já ruim para lançá-los onde? Num saco ainda pior?

Se nós, os não brancos nos assumíssemos ‘mestiços‘ eles iam vir com a mesma conversa reacionária contra cotas para ‘mestiços‘.

Cotas raciais para eles, só para brancos. Que doidos!

Se é esmagadoramente ‘branca‘ a minoria, a auto eleita elite dos incluídos, como poderíamos lutar contra a iniquidade de tantos serem preteridos, dominados por tão poucos, senão isolando os que se intitulam ‘brancos‘ num saco só? Os que se intitularam ‘brancos‘ para levar vantagens agora, perderam o bonde da história  e são agora uma reconhecida e identificável minoria. Azar o deles. Paciência. Demoramos muito a definir isto que agora é reconhecido por lei.

Esta conta de excluir negros, de novo, esta conta de negar ações afirmativas para negros pode ser chamada de que? Como classificar este reacionarismo anti negros que está pululando por aí?

Tem um nome isto. Nem preciso falar qual é.  Falem vocês.

Hora da verdade. Hora de deixar de ser branco para ser franco.

“Não pisa ni mim!”

Escolinha do Prof. Kamel. Aula extra de recuperação:

Já cansei de falar disto por aí: Ali Kamel, Ivone Maggie, Demétrio Magnoli, Rodrigo Constantino, o pessoal desta virulenta Cia. dos anti cotistas raciais mais radicais, embora acusem os pró cotistas de importar modelos norte americanos racialistas,  têm um guru, exatamente… norte americano. Sabiam?

Ele é o Tomas Sowell, um economista negão de Harvard (como o Obama, só que…de ‘alma branca’). É que Thomas é um dos principais ideólogos da direita do Partido Republicano (eu disse da Direita!). Bem, como sabemos por alto nós, os brasileiros, a direita norte americana é…racista, certo? No currículo dela estão a Ku Klux Kan, os linchamentos de negros e a oposição ferrenha às lutas pelos direitos civis na América, inclusive – caso direto de Thomas Sowell – uma campanha ferrenha contra as cotas raciais e às ações afirmativas em geral.

Pois bem. Thomas Sowell é o principal teórico da direita norte americana nesta cruzada anti democrática aí. Juntando os pontinhos, ligando Ali Kamel, Maggie, Fry et caterva a seu guru de ‘alma branca’ dá um quadro bem esdrúxulo, não dá não?

Nunca mais caí na conversa de vivandeiras neo racistas como o Kamel depois que descobri este rabo de cobra delas. Não querem cotas de espécie alguma porque são direitistas, elitistas anti democráticos. partidários do passado e do atraso. Cobras chocando ovos no cesto.

São o rabo daquela cobra da bandeira do Tea Party direitista norte americano que diz aí em cima:

“Dont tread on me”

Frases mui meigas de Thomas Sowell guru destas vivandeiras:
Defendendo a propriedade privada das leis de promoção socijal do governo Obama:

“Ambos os direitos de liberdade de expressão e direitos de propriedade pertencem legalmente aos indivíduos, mas sua real função é social, para beneficiar um grande número de pessoas que não se exercem estes direitos.

Defendendo posições contrárias as cotas raciais e as ações afirmativas em geral:

…O capitalismo sabe apenas uma cor: a cor é verde, tudo o resto é necessariamente subserviente a ele, portanto, gênero, raça e etnia não pode ser considerado em seu contexto.”

Defendendo a manutenção de valores conservadores na sociedade:

“…Cada nova geração nascida é na verdade uma invasão da civilização por pequenos bárbaros, que devem ser civilizados, antes que seja tarde demais.”

Manifestando-se contra a universalização de direitos legais numa sociedade:

…Se você sempre acreditou que todos deveriam jogar pelas mesmas regras e ser julgada pelos mesmos padrões, teria sido rotulado de radical há 60 anos, liberal há 30 e racista hoje.”

Defendendo o conservadorismo em geral:

…Grande parte da história social do mundo ocidental, ao longo das últimas três décadas, tem sido uma história de substituir o que funcionou pelo que soa bem.”


(Textos de Thomas Sowell, economista, como eu disse acima membro da ala direita do Partido Republicano, simpatizante do Tea party e cuja ficha de direitista anti Obama é ciosamente escondida por seus acólitos no Brasil (Kamel & Cia).

Detalhe: Thomas Sowell apoia hoje a ala direita do Partido Republicano nas eleições de 2012 cujo candidato Newt Gingrich vai mal das pernas e deve perder a indicação para Romey.

————-

Daí, um aluno mais panaca, lá no fundo da sala perguntou ao Prof. Kamel qual era a moral da história, da lição que Ali acabou de dar (e que eu contei aqui com as entrelinhas expostas), exaltando o Sowell :

Ali calou-se, rabinho entre as pernas. Se aproveitou da campainha que tocava no pátio e encerrou a aula. Fofoqueiro que sou, contudo, chamei o aluno panaca no corredor e entreguei:

_ “Se liga: O professor Kamel e seus colegas doutores daquela ‘tchiurma’ de neo racistas dele, não são apenas racistas não, rapaz. Eles são de Direita. Torcedores do ‘Tea Party”, do Reagan, da Sarah Palin, gente barra pesada. Cuidado com eles, brancaiada!”

Ao que o aluno panaca, cara de tonto, bem babaca, perguntou:

_” Tea Party? Mas o que é isto, tio? Alguma festa na Lapa? É hoje?

…Bem..Esqueçam. Vamos de agora em diante cultivar as virtudes da paciência. Eles ainda têm muito que aprender.

Nós – e o STF – pisamos no rabo deles. Vamos ter que esperar a dor de rabo deles passar.

Spírito Santo
Abril 2012/2017

Menos Foucault mais Fu Kiau – Filosofia bakongo para iniciantes


Creative Commons LicenseAtenção: Todo o conteúdo deste blog esta assegurado por uma licença Criative Commons.

Gráfico da cosmogonia bakongo (aproximadamente século 10) segundo estabelecido pelo etnólogo congolês Benseki Fu Kiau. Observem que, curiosamente a cruz como fundamento cosmológico já existia na cultura bakongo bem antes da chegada dos portugueses e seu cristianismo.

Contudo, não viaje demais por enquanto. Não especule além do que o entusiasmo pode ser relacionado á lógica. Não transforme em névoas religiosas o que é saber  a ser analisado, sistematizado um dia como ciência. Pense grande.

——————-

Começando o papo

(Bem, se você é mais iniciante ainda do que eu, comece voltando atrás lendo o beabá bakongo neste link) .

————————-

Só como introdução para ninguém se dizer desentendido: Ba-kongo é grosso modo, o povo formado pela junção – não me venham com esta conversa de mestiçagem, por favor – de gente migrante vinda lá de cima, de onde é hoje o Camarões para as férteis terras às margens do Rio Kongo, com as gentes que ali já estavam, ninguém sabe há quantos séculos e séculos amém.

Não se sabe ainda, tampouco de onde esta gente que desceu o continente veio para os Camarões. Eu mesmo me arrisco a presumir que eles podem ter vindo do nordeste do continente, num fluxo migratório que espalhou pessoas das fraldas do Egito, da Núbia, até a costa oeste da África mais remota, alguma civilização qualquer bem avançada, assentada em saberes sobre os quais foram fundadas todas as civilizações subsequentes, da África propriamente dita e suas proximidades até, bem mais tarde repercutirem na Europa, esta Europa sempre envergonhada , sabe-se lá porque, deste seu evidente – embora não único – passado africano.

E não sou eu que digo. Foi o Heródoto. Não sabe quem é Heródoto? Aí já é ignorância demais. Perguntem ao Google.

O certo é que este povo altivo e portador de um mui antigo sistema de valores éticos, morais, civilizatórios enfim, depois de já amalgamado num conglomerado de potentados agregados, solidamente organizados em torno de um reino ou império central (uma confederação de reinos ) com um reino central denominado Reino do Kongo, estava em plena fase de desenvolvimento e prosperidade no momento em que foi visitado, invadido e por fim dominado pelos ‘Tugas’ (conhecidos também como ‘Putus’) povo vindo desta Europa predadora que se formou após as chamadas grandes navegações, esta Europa hoje centro de um mundo crente numa cosmogonia pra lá de questionável, fundada para justificar as imorais  iniquidades do trabalho escravo.

(E aqui um parêntes algo necessário: Hoje em dia o que conhecemos como povo bakongo é uma gente que ocupa uma área entre a fronteira sul da República Democrática do Congo com Angola e as cercanias ao norte de Luanda.

Contudo, estamos nos referindo aqui , explícitamente à cultura matriz e predominante em toda a região que hoje conhecemos como República Popular de Angola, considerando-se que dali, de Mbanza Kongo a capital do reino do Kongo (dos Ba-Kongo, enfim) na ocasião em que o ‘tuga’ Diogo Cão chegou ao local, é que floresceu e se expandiu um conceito de cultura e nação muito mais extenso, geograficamente do que o território bakongo atual e formado por povos novos, frutos da expansão de uns e da fusão com outros.

Esta nação (a Angola de hoje em dia)  é formada, enfim por várias  outras culturas, entre as quais as que mais nos importam, por conta dos fluxos de cativos que para o Brasil vieram, são os Mbundos (tanto os “Ovi”  quanto os “Ki”, prefixos que diferenciam, sutilmente, culturas vizinhas, primas, irmãs.)

Esta história majestosa e trágica, que acontece a partir do século 10 ou 12 e transcorre heróica até o início do século 18, após a decapitação em 1665 de D. Antônio Nkanga Nvita, o rei do Kongo derrotado pelas tropas portuguesas comandadas por André Vidal de Negreiros (sim, ele mesmo!), tem profunda ligação com a história do Brasil, muito mais do que nos disse a memória a nós imposta pela escola convencional, que nos encheu os ouvidos e os olhos com caravelas e mais caravelas de fatos e eventos, vividos – ou inventados – pela nobreza portuguesa da qual fomos colônia tanto quanto foram estes mesmos bakongo e seus vizinhos, ainda hoje amalgamados – embora beliçosos entre si – num belo país chamado República de Angola.

Conversa de pé de fogueira esta. Longa e molenga. O resto bem que pode ser contado amanhã. Fiz esta introdução apenas para vocês nem pensarem mais em chamar estas pessoas de gênese bakongo (Bakongo, Ovimbundo, Kimbundo, entre outros povos), nossas antepassadas, de “crioulos” incultos e primitivos, nem muito menos submissos vassalos de Portugal e da igreja da cruz.

É que cruz eles já tinham, todo um sistema filosófico baseado na ideia da cruz segundo se pode ver no cosmograma ilustrado acima: o “Kalunga”, meio líquido que divide o mundo físico do mundo espiritual, o mundo dos vivos, do mundo dos mortos, o real e o surreal, o normal do paranormal, enfim.

Se você conseguir se livrar da ideia preconceituosa de que existe um misticismo afro-negro primitivo, atrasado – algo absolutamente improvável dada a longevidade e a extrema gama de experiências civilizatórias portadas pelas culturas que formularam o conceito aqui apresentado – partindo do princípio óbvio de que todos os homens são rigorosamente iguais – se você conseguir discernir a diferença crucial que existe entre FILOSOFIA e RELIGIÃO – posto que uma sugere maneiras diversas de se explicar as coisas do mundo, enquanto que a outra afirma, dogmaticamente tudo poder explicar – por certo tirará grande proveito destas informações.

O tema é muito novo para a maioria de nós. Por isto, esta abordagem mais ampla ou genérica me pareceu, inicialmente mais aconselhável. Sugiro então apenas algumas linhas básicas, balisadoras do instigante debate que o tema pode sugerir.

Eu sei que é enfadonho insistir, mas entendam que a culpa é deste ‘nosso’ insidioso modo de ver tudo que não é fruto da cultura ocidental como ‘primitivo’ e ‘exótico’, rasamente ‘místico’ ou religioso, um pensamento arcaico, colonizado que, infelizmente predomina em nossas ciências sociais. A ressaltar apenas, neste ensejo, portanto os seguintes pontos:

– Os aspectos filosóficos, éticos, morais, etc. que no Brasil informam o que a gente chama de ‘cultura popular’ ou ‘tradicional’ (‘indígena’ também, mas no caso presente, principalmente africana) não são, de modo algum, fruto de uma visão de mundo empírica, ingênua posto que são o acúmulo de experiências seculares, muito amadurecidas no tempo e no espaço, complexas em si mesmas, sedimentadas por séculos e séculos de exercício. Afinal, estas culturas estão na base da formação do pensamento de toda a humanidade.

– O que torna difícil a compreensão deste fator – além de nosso recorrente racismo acadêmico – é que os mecanismos de registro e difusão destes saberes – no caso destas culturas mais ‘antigas’, ancestrais por se assim dizer – são baseados em procedimentos diversos daqueles tornados hegemônicos pela cultura cristã-ocidental – como é o caso evidente da escrita convencional (do ‘livro’, por suposto) no caso do ocidente – e não somente – inventada por Gutemberg.

– Dentre estes procedimentos subestimados, sobressalta-se, portanto, a literatura oral e outras linguagens, digamos assim, mais ‘emocionais’, ‘orgânicas’, procedimentos que o cartesianismo do século 18 tratou de considerar impertinentes (como certa música ‘tradicional’, por exemplo).

– Uma compreensão equivocada que se tem da sabedoria humana, julgando-se erroneamente que só é válido e científico, aquilo que foi firmado e atestado por procedimentos de registro convencionais é, pois, um dos principais fundamentos destes preconceitos.

Isto tudo posto, leia os preceitos básicos da filosofia kongo pensando grande.

“… A formulação de Benseki Fu-Kiau, um pensador Bacongo contemporâneo, traduz para uma linguagem compreensível ao pensamento ocidental maneiras de entender o mundo que se ligam em muitos aspectos a formas de pensamento e a formulação de explicações que podem ser entrevistas já nos primeiros registros escritos de observadores estrangeiros, principalmente missionários católicos.

Por esses diversos registros fica evidente que desde os primeiros contatos com os portugueses no final do século XV até os dias de hoje, é básica para os Bakongo a divisão, grosso modo entre um “mundo dos vivos” e um “mundo dos mortos”, os primeiros vivendo acima da linha do horizonte, os últimos existindo abaixo dessa linha, mundos estes separados por um meio líquido, conforme as imagens mais recorrentes.

Acima da linha do horizonte estão os vivos, que são negros*; abaixo da linha do horizonte estão os mortos, de cor branca, e uma multiplicidade de espíritos da natureza que povoam a esfera invisível do mundo.

Essa organização está expressa no signo da cruz: o eixo horizontal da cruz liga o nascer ao por do sol, assim como o nascimento à morte dos homens, e o seu eixo vertical liga o ponto culminante do sol no mundo dos vivos e no mundo dos mortos (o zênit visível e o invisível), permitindo a conexão entre os dois níveis de existência.

A ligação entre o “mundo dos vivos” e o “mundo dos mortos“, de onde vêm as regras de conduta e o auxílio para a solução dos problemas terrenos, como doenças, secas e o infortúnio de maneira geral, se dá por meio de ritos nos quais se evocam os espíritos e antepassados para que resolvam as questões que lhes são colocadas.

A cruz, no pensamento Bakongo, remete à idéia da vida como um ciclo contínuo, semelhante ao movimento de rotação efetuado pelo sol, assim como à possibilidade de conexão entre os dois mundos.

Segundo Fu-Kiau, o rito básico e mais simples a ser feito por todos aqueles que querem se tornar mensageiros do “mundo dos mortos” e condutores de seu povo ou clã é fazer um discurso sobre uma cruz desenhada no chão. Com isso, são frisados os poderes de todo chefe de fazer a conexão entre o mundo dos vivos e o dos ancestrais e espíritos.

Ao se colocar sobre a cruz, que representa o ciclo da vida humana e a divisão entre os vivos e os espíritos, o chefe afirma sua capacidade de fazer a conexão entre os dois mundos e assim conduzir de maneira adequada a comunidade que governa…”

(*Nota: “negro”, referindo-se à cor e não à raça, é bom frisar para os menos espertos ou mal intencionados)

1 “Evangelização e poder na região do Congo e Angola: A incorporação dos crucifixos por alguns chefes centro- africanos, séculos XVI e XVII”. Marina de Mello e Souza -Departamento de História /FFLCH/Universidade de São Paulo

———————

Muitos estudiosos da cultura bakongo hoje, já estão estabelecendo como se viu uma relação estreita entre este sistema filosófico ancestral e a quase imediata relação que este povo bakongo (o original) fez entre a cruz dos católicos e seu sistema filosófico. É bom frisar que esta relação – bastante plausível, aliás – é o argumento-chave utilizado para desqualificar a ‘africanidade’ dos povos bantu de certa parte da África, notadamente, no caso específico do Brasil, os próprios bakongo (e Kimbundos, e Ovimbundos) propriamente ditos, enquanto povo ancestral da maioria dos africanos trazidos à força para o país.

Para estes racistas sutis, a África genuína, altiva, seria a estranha África ‘sudanesa’, Nigéria, Ghana, Dahomey, uma África cravejada de exotismo cultural, primitivismo e mistério em seus ritos ‘selvagens’, passíveis das mistificações que, por fim, se achou por bem banhá-la, redundando nas aberrações fake-antropológicas do cinemão de Hollywood e na adoção no Brasil de uma religião negra hegemônica calcada em crioulo-doidices bem constrangedoras, ridículas mesmo, um melê de referencias distorcidas, inventadas, do que seria a cultura negra ideal, reunidas neste Candomblé de falsas aparências.

Vão lendo aí e pensando sem simplismo barato, sem arrogância branca e, sobretudo não dando trela para a ignorância presunçosa dos ‘sabe-tudos’ de plantão.

Quando voltarmos o papo vai poder ser bem mais ‘buraco em baixo’, se bem me entendem.

Spírito Santo

Março 2011

 

Black 17th century. Na verdade barroca o ‘making of’ de nós mesmos


Creative Commons LicenseTodo o conteúdo deste blog está assegurado sob uma licença Criative Commons.

Aleluia! Aleluia! A dissecação do nosso corpo brasileiro velho, redivivo, graças a Internet está nos livros.

Já disse e continuo a dizer cada vez mais animado: Ai de nós se não fosse a ‘Rede’ este espaço difuso, escorregadio e permeável, porém democrático, que nos governa como um Deus pirado, um Grande Irmão de teletela sem ideologia. Não fosse ela, a ‘Rede’ estaríamos ainda hoje aqui no Brasil na idade das trevas em certos temas que o nosso elitismo racista – que merece outros epítetos, cala-te boca – esconde aqui e ali, na sua pouca vergonha de fingir que há mais Europa na nossa alma do que outras plagas e latitudes mais morenas.

É vero!

É o que tenho descoberto aqui, fuçando por pura intuição e esperteza mais coisas holandesas (e inglesas) do que brasileiras, mais africanas do que portuguesas. Na contramão dos doutos de ocasião que ficam por aí arrotando saberes sem haveres e sem noção, naquela bolorenta prática de incensar cânones arcaicos.

Para ser claro: Fiquei cansado de ser enganado.

É mesmo muito impressionante – e alguns de vocês já tiveram até a chance de observar aqui mesmo – o enorme filão de informações relevantes que aparece diante de nossos olhos quando chutamos o pau da barraca das academicices.

Basta virarmos iconoclastas do pensamento discutível desta gente que elas, as novas fontes, nos aparecem, assim, profusamente como uma cachoeira de água limpa guardada há séculos e séculos em grutas do desconhecimento de nós mesmos, a que fomos relegados por ‘uns e outros’, que tendo a chave de certo saber pensam que sabem tudo e nos deixam trancados no desconhecimento, só porque entre os antepassados tivemos também negros ‘da Guiné’, ‘de Aruanda’, da África enfim, das selvas e das savanas de além mar.

Que mal haveria também sabermos tudo sobre este outro lado de onde viemos? Haveria mesmo algum mal nisto? Hum…

Que doença!

 (Antes algumas dicas bem primárias para quem estiver boiando na história:

…”as invasões holandesas (no caso do Brasil o domínio durou de 1637 a 1644) foram organizadas por uma empresa particular, a Companhia das Índias Ocidentais” (num prenúncio bem remoto do Capitalismo do século 20)

…”(Embora alguns românticos enfeitem o seu pavão)…”a Companhia das Índias Ocidentais também autorizava e apoiava o tráfico de escravos africanos. Esses escravos não eram trazidos apenas para o Brasil, mas também para o Caribe (inclusive a costa norte do a América do Sul) e para a então colônia inglesa da Virgínia, na América do Norte.”

“…”Pernambuco era para os holandeses um entreposto para o comércio de escravos. Num relatório enviado para a Companhia das Índias Ocidentais, o próprio Maurício de Nassau afirmava que no Brasil nada podia se fazer sem escravos. “

                           (Extraído de UOL Educação com grifos em parenteses do Titio)

A preciosa raridade de hoje – vou logo avisando – é impactante mesmo. Chocante até. Difícil nunca a termos visto por aí. Pelo grau de autenticidade da imagem, fotográfica quase – considerando inclusive o caráter remoto da época em que ela foi produzida – ouso dizer que é o mais importante documento sobre o assunto que já eu vi na vida.

O responsável de novo – neste caso em especial- é o inestimável parceiro virtual Daniel Jorge, estudante destas coisas que me repassa tudo que acha interessante de imagens sobre o tema. Nossa curiosa parceria começou assim, com ele comentando regularmente todos os posts que escrevi sobre este assunto, desde que passamos a fazer uso com mais intensidade – na falta de outros – de dados iconográficos.

“Faço pós-graduaçao em História da África e do Negro no Brasil na Universidade Candido Mendes, eu tenho milhares de fotos e gravuras sobre esse assunto. Se você quiser imagens relacionadas a África não-banto ou a escravidão no Brasil é só pedir.”

Grande Daniel!

Vamos lá em então. Instigadão como criança que sou, cavucando mais e mais na internet aprendi o seguinte que repasso para vocês:

(Em tempo me cabe ressaltar, contudo que o cenário da imagem não é o Brasil, exatamente, mas o Suriname (Guiana Holandesa). A ‘licença‘, contudo nem precisa ser classificada como ‘poética‘ porque a cena, protagonizada com toda certeza por africanos vindos de Angola (ou do que hoje é Angola, por suposto) poderia estar ocorrendo em qualquer parte da Diáspora latino americana.)

 “Esta pintura, que data de 1707, foi feita no Suriname por Dirk Valkenburg  que visitou a colônia holandesa entre 1706 e 1708. O trabalho, entre outros,  foi encomendado pelo comerciante de  Amsterdam Jonas Witsen, que possuía três fazendas no Suriname. As obras de Valkenburg são as primeiras pinturas conhecidas feitas na colônia holandesa.

“Valkenburg foi o talentoso filho de um professor. Ele foi educado pelo prefeito de Vollenhove, que pagou a sua formação e materiais de arte, em seguida, foi por dois anos aprendiz do pintor Jan Baptiste Weenix.

É veramente incredibile!

A representação naturalista da realidade é como se sabe uma característica da arte pictórica da renascença. Calcada em princípios filosóficos típicos da época, a escola pictórica a que se chamou ‘barroco‘ teve correntes muito distintas espalhadas pela Europa. Itália, Espanha, França, Portugal e Holanda. Se a gente pensar bem, estas escolas artísticas acabaram tendo as características mais evidentes da ideologia que motivava aquelas sociedades, claramente expressas na sua arte. ‘Papo-cabeça’ para entendidos, mas vejam a seguir onde quero chegar:

Os italianos chamavam este naturalismo de ‘Verismo’, associando o conceito, claramente a princípios da fidelidade à verdade, à representação objetiva, ao retrato fiel do que se via. ‘Veramente’, vamos combinar então – e este post provará isto – ao contrário da mentira (que um belo dia tropeça em si mesma e cai) a verdade tem mesmo pernas longas.

Estamos falando de história, da busca de ansiados traços e pistas sobre o passado de nós mesmos, certo? Pouco se escreveu, por exemplo, sobre o século 17 no Brasil. Façam comigo então esta simples pergunta analógica: Se os pintores ‘veristas’ holandeses não viessem para as Américas trazidos por Maurício de Nassau e se o ‘verismo’ característico deles não fosse impregnado daquele pragmatismo ideológico tão…calvinista, o que seria de nós e de nossa ansiada verdade histórica?

Comove e instiga este pensamento: Os quadros holandeses pintados nas Américas (a maioria no Brasil pernambucano) são filosoficamente mais humanistas que os das demais correntes. Se esforçam intensamente em representar africanos como seres humanos reais. É incrível, mas não se vê neles traço do nenhum daquele eurocentrismo renitente que marca a arte – e a historiografia – portuguesa, por exemplo, este colonialismo emocional arcaico que marca a cultura acadêmica brasileira até hoje. Isto em termos históricos faz toda a diferença em nossa pesquisa.

Alguém aí conhece algum quadro verista português ou’ brasileiro‘ do século 17? ‘Mentirista‘ eu conheço um montão.

Esta opinião, aliás, é mais um prato feito para os tolos românticos usarem quando quiserem afirmar que “seríamos um país melhor se tivéssemos sido colonizados pelos holandeses”. Besteira. Menos…menos. Colonizados não deveríamos ter sido por ninguém.

O exercício que proponho a vocês em suma é, portanto este mesmo: Seja um ‘verista’ holandês você também.

Além de simplesmente ler este post , de novo, exerça a observação acurada – fissurada mesmo, apaixonada – de todos os detalhes, até, e principalmente os mais prosaicos, com lupa mesmo, meticulosamente como um detetive de filme policial de TV.

Ocorreu-me também recortar o quadro – ‘esquartejá-lo’, melhor dizendo, para melhor analisá-lo como fazem os legistas de ocasião (que é no que eu sugiro que nos transformemos). Façam isto. Vão se surpreender maravilhados com as minúcias de ouro que encontrarão.

A incrível descontração dos escravos – sim, nem parece, mas eles são escravos! – totalmente envolvidos numa festa de arromba no que parece ser um fim de tarde, revela muita coisa sobre os hábitos destas pessoas, mas ao mesmo tempo instiga inquietantes questões e contradições.

”Ao voltar da Alemanha para a Holanda, Valkenburg trabalhou para William III no embelezamento do Palácio Real em Amsterdam. Logo depois decide aceitar uma oferta de Jonas Witsen um rico proprietário de terras no Suriname. Com 200 florins emprestados por Witsen (mediante três naturezas-mortas dadas como garantia) Dirk Valkenburg se fixa então no Suriname, exercendo funções administrativas e pintando a fauna, a flora e tipos humanos do Suriname, principalmente escravos.”

Daniel Jorge me informa, por exemplo que um dos livros que estudou ( Making of the new world slavery, the – from baroque to modern 1492-1800 ) afirma que ocorreu uma revolta e fuga de escravos neste mesmo local meses depois de Dirk Valkenburg pintar este seu impressionante quadro (cerca de 1706). Muito provavelmente  portanto, estes mesmos escravos são os kilombolas (‘maroons‘) que protagonizaram a fuga. Não é inquietante?

O mais incrível de tudo é que segundo estas fontes que encontrei, surpreendentemente “em 1706 a população rural do Suriname era composta apenas por três brancos – incluindo Dirk, o pintor –  e 148 escravos”, trabalhando em três fazendas (pelo menos uma delas na área onde Valkenburg fez este flagrante).

Dialogando sobre a pintura, Daniel também me sugeriu algo que eu já havia intuído assim que me deparei com a imagem: A cena pode representar com relativa perfeição o que seria um dia de festa num kilombo qualquer (como o nosso de Palmares, por exemplo, dominado pelos portugueses como se sabe, oficialmente, apenas 11 anos antes desta cena no Suriname). Eu faria a este respeito apenas pequenos reparos nas roupas dos kilombolas reais, os quais, por conta de gozarem de liberdade quase plena, deviam vestir roupas bem menos sumárias do que as dos personagens da tela do Suriname vestem.

Um reparo bobamente perfeccionista até porque, reparando melhor, o desenho meticuloso das tangas (na verdade ‘sungas‘ perfeitas) denota claramente que a peça do vestuário destes supostos escravos é sumária sim, mas de modo algum um dispositivo de vestuário displicente, mal desenhado (e caso vocês não saibam, a palavra ‘sunga‘ vem do verbo do kimbundo – ou seria do Umbundo? –  angolano  com o sentido de ‘levantar‘, ‘sustentar’.)

Retrato falado. Seção de ‘manjamento’ ao vivo.

Fiquei esquadrinhando em cada rosto, como disse quase fotograficamente pintado por Valkenburg, a cara quem sabe sisuda, daquele que seria o chefe do grupo, a face do tio ‘sekulo’ (quem sabe um conspirador), o rosto feliz da mulher do tio entre as poucas velhas ‘makotas’ que dançam, as tias de uns, as mulheres dos outros. Nenhum ‘wally‘, claro, mas quem seria ali o Zumbi deles?

E as casas detrás do rio, seriam dos escravos ou da fazenda? E aquela figura solitária que vem lá de longe, tão fora do clima, com água num cântaro? E o anão que dança? Que dança será aquela. Como parece o Jongo de Paraíba do Sul, Rio de Janeiro, gente!

E aquele batuqueiro mais claro, a quem uma diligente mulher – mãe, irmã, esposa, sei lá – dá na boca algo de comer, afim de que o batuque não cesse. Os tambores, aliás, me impressionaram mais que tudo. Sou um músico especialista destas coisas e sem modéstia posso afirmar, com absoluta certeza que Dirk viu um tambor bantu real.

Ampliei os tambores ao máximo, investiguei suas cordas trançadas, as cunhas de tração, a perfeita fisiologia (já tive um tambor idêntico a este). Posso afirmar também que a condição de escravo não é de modo algum propícia a que um músico-artesão consiga produzir tambores tão complexos. É preciso tempo, pesquisa e coleta de materiais, liberdade, ócio criativo, know how. A precisão descritiva, etnomusicológica de Valkenburg é mais um aspecto o que reforça credibilidade a todos os outros detalhes. Não por acaso penso eu,  é exatamente num destes tambores que ele insere a sua assinatura: ‘D.V”.

“…Ai que saudade da fazenda do sinhô!”

A descontração é tanta no ambiente (parece até que é ‘…domingo lá na casa do Vavá”) que a pergunta que não quer calar viram muitas outras, um turbilhão. Reparei emocionado, por exemplo, que um casal de jovens supostos escravos se beija, sofregamente como nós mesmos, quando apaixonados nos beijamos hoje em dia por aí.

É por estas e outras que eu e Daniel nos perguntamos: Será que os personagens são mesmo, ainda, escravos ou Valkenburg fez o quadro depois da tal fuga? Nenhuma semelhança daquele pátio com um cantão de fazenda. Não há senzala á vista. A construção atrás da cena é enorme. Nenhum sinal de ferramentas de trabalho, nenhum monjolo, nada. Que estranha fazenda libertária seria esta?

Afinal a fuga historiada no livro que Daniel leu, ocorreu apenas poucos meses depois. Quem pode garantir que o quadro não tenta representar, exatamente o cantão feliz no qual a pequena escravaria de 148 escravos de Jonas Witsen se homiziou?

Quem for são e com noção pode crer: Destas, muitas outras pistas virão. A cortina que lançaram (nem nos interessa mais saber porque) sobre este tema vai se abrindo como numa janela batida pelo vento.  A cortina é portuguesa e brasileira. A janela, holandesa.

Os textos escritos mentem ou rareiam? Usamos – como ‘sãotomés’ – as imagens que não sabem enganar. Se as imagens rarearem, usaremos as canções dos mais velhos, que cifram segredos milenares, as pulsações das batucadas imemoriais.

A mentira – vocês já sabem – tem perna curta. A verdade– como o rabo do cachorro – está sempre além de nós, sempre à frente e o sentido da vida é mesmo este aqui: persegui-la obsessivamente até a morte.

Então – já que outro jeito não há- vamos que vamos!

Spírito Santo

Julho 2011  

Cadeia de memórias reparadas é um tenso fio


Creative Commons LicenseTodo o conteúdo deste blog está assegurado sob uma licença Criative Commons.

Paulo Gomes Neto e Eu, amigos de cadeia, amigos para sempre. Ao fundo, entre nós, o  secretario de Direitos Humanos Antonio Carlos Biscaia, grande batalhador da reparação e do reconhecimento do valor de nossas lutas modestas, agora sim cobertas com alguma glória.

E eu, arquivo vivo vou queimando aos poucos

 …”Quinze minutos depois do avião da Cruzeiro do Sul levantar vôo do Rio de Janeiro com destino a São Paulo, no dia primeiro de julho de 1970, quatro jovens deixaram seus lugares e se dirigiram à cabina de comando. Lá foram breves: era um sequestro. Armados, eles obrigaram o piloto a voltar para o aeroporto do Galeão…

Quem sabe deste incidente aventureiro? É filme? É teatro? Não, foi fato. Foi sim. É que memórias são fios que se desfiam de um rolo para se embaralharem irremediavelmente, até não serem jamais meada nem medida, até não poderem mais ser enrolados em rolo algum.

A Reparação do irreparável Continuar lendo

Infográfico Kilombo-Palmarino. Hipóteses em documentos oficiais


Creative Commons LicenseTodo o conteúdo deste blog está assegurado sob uma licença Criative Commons.

genealogia palmares infográfico copy

Infográfico de uma provável genealogia palmarina, baseado em fontes documentais oficiais portuguesas e holandesas. (Por Spírito Santo. Todos os direitos reservados por licença Criative Commons)

Os nomes e uma provável genealogia de Palmares

Este infográfico que você vê aqui acima, além de ser uma obra em progresso é ‘comunitário‘, ou seja: Você pode sugerir inserções, correções, o que quiser. As regras ou orientações para se fazer isto, contudo são muito técnicas, antropológicas melhor dizendo e não podem ser assim aleatórias, infundadas, destrambelhadas, pois, deu um trabalho enorme pesquisar e estabelecer alguma lógica ou sentido historiográfico para os dados expostos aqui, mesmo ainda grosso modo como fiz.

Digo isso assim tão enfaticamente, porque a tendência a falsear, distorcer, fraudar mesmo a história do negro no Brasil tem sido uma prática muito comum por aqui, praticada não só por gente leiga, irresponsável, mas também por pessoas insuspeutas, mui letradas, gente acadêmica inclusive, com motivações as mais diversas, entre as quais tirar algum partido da lei 10.639, que abre um mercado editorial promissor num país carente de títulos sobre o assunto, carência esta cuja  primordial razão é o nosso racismo sistêmico.

Infelizmente, esta execrável onda de falsificação, de mistificação da história do negro por aqui, tem sido perpetrada –  ou, no mínimo tolerada –  por intelectuais e instituições culturais negras, inclusive governamentais, lançando um manto de constrangedora ignorância sobre nós mesmos.

Revoltado com este aspecto, tenho escrito, de forma incansável uma série de posts e artigos sobre o tema. Infelizmente a maioria dos textos, a despeito do cuidado com que trato a credibilidade das fontes usadas como referência, por não serem calcadas em lugares comuns, com algumas revelações surpreendentes, ainda são solenemente ignorados.

É o caso do presente artigo, que lancei em 2012, assim que as mistificações sobre a existência de supostos personagens – ou sobre a reputação dos conhecidos –  da história de Palmares começou a se tornar uma recorrência incômoda.

Foi o caso do suposto homossexualismo de Zumbi, uma estupidez proselitista lançada pelo ativista gay Luiz Mott (um antropólogo!) e a invenção de uma família para o mesmo Zumbi, com esposa (“Dandara“)  e filhos, dados descabelados, destrambelhados, quando os medianamente informados sabem que quase nada se conhece sobre a vida privada de Zumbi, nem mesmo seu nome de família, já que o termo “Zumbi” é um título apenas, atribuído a uma série de outros líderes quilombolas antes e depois deste, o enforcado que virou um mito historiológico.

É enfim, sobre essas regras ou orientações sobre como lidar, seriamente com as nossas memórias históricas mais caras que vos falo a seguir.

————–

Para início de conversa, se você seguiu a série de posts sobre o Kilombo de Palmares, Zumbi e outras mumunhas negro palmarinas que o Titio compartilhou recentemente aqui (busque aqui no blog sob a tag ‘Zumbi“) já sabe que o assunto é cheio de melindres, meandros, trics trics e entrelinhas, prato feito que foi para as mais confusas mistificações de curiosos e oportunistas de ocasião.

Reconheçamos mais uma vez: A historiografia do negro no Brasil, como disse acima, sempre foi tratada com um descaso enorme, pra lá de recorrente e as simplificações interpostas neste assunto sempre beiraram a ignorância mais profunda e grosseira.

Querem saber de uma, clássica? O desprezo pela etimologia. Ora se tratamos, no caso do Kilombo de Palmares de culturas africanas que se expressavam por meio de uma língua completamente específica, original e diferente do castiço português que se falava por aqui no século 17, como estudar o assunto sem considerar, o mínimo que seja, os elementos etimológicos e semânticos mais elementares destas línguas?

Pois é. Foi isto mesmo que a maioria dos historiadores brasileiros fez.

“O primeiro autor a analisar Palmares com intenções historiográficas foi Rocha Pitta, em seu livro História da América Portuguesa, de 1730. Nele, as lutas do governo português contra Palmares são comparadas às lutas de Roma contra os escravos gladiadores rebelados, sendo visível a intenção do autor de valorizar a honra e o poder portugueses, principalmente do governador de Pernambuco Caetano de Melo de Castro.

A primeira revisão historiográfica sobre Palmares, feita em 1905 por Nina Rodrigues, também reforça a visão da destruição de Palmares como algo positivo. Nesse texto, que foi muito utilizado pela historiografia posterior, o autor divide a história palmarina em três períodos distintos, sendo que sua cronologia é inteiramente baseada nas expedições realizadas contra os mocambos.

As expedições realizadas pelas “armas portuguesas” são claramente valorizadas por Nina Rodrigues, em detrimento dos palmarinos. Temeroso da formação de um “novo Haiti” e sob a justificativa da necessidade do avanço da civilização, o autor critica os que, no século XIX, utilizaram Palmares para defender a causa republicana e a abolição da escravidão:

“A todos os respeitos menos discutíveis é o serviço relevante prestado pelas armas portuguesas e coloniais, destruindo de uma vez a maior ameaça à civilização do futuro povo brasileiro, nesse novo Haiti, refratário ao progresso e inacessível à civilização, que Palmares vitorioso teria plantado no coração do Brasil. […]

…Quando esse confronto entre a bibliografia e as fontes é feito, porém, percebe-se que muitas informações são divergentes. Em um nível mais técnico, foram cometidos erros e enganos pelos historiadores de Palmares no que diz respeito à leitura e transcrição dos documentos. Além disso, houve uma falta de cuidado na referenciação das fontes, que em boa parte dos textos não são citadas, ou o são incorretamente, tornando mais difícil seguir os caminhos trilhados pelos autores.

(Laura Perazza Mendes

Como tentei demonstrar em posts anteriores sobre o assunto ( veja no link:  e    ).  e  a Laura Perazza confirma – não se pode confiar muito na veracidade desta historiografia, baseada exclusivamente em relatos de expedições paramilitares portuguesas contra Palmares, segundo a ótica interesseira de comandantes ávidos por conseguir títulos e promoções, além de vantagens pecuniárias diversas, tais como terras e ouro.

Fontes pra lá de furadas pela má interpretação que delas se fez ao longo de tantos anos, podem ser encontrados nelas, contudo (e o Titio flagrou isto várias vezes, sem problemas) indícios de falsificações grosseiras como as incríveis semelhanças entre o relato de três expedições tão idênticas que há três onde aparece a descrição de um Zumbi ferido em combate e em fuga, largando para trás uma pistola dourada.

Muito óbvio que, ao que tudo indica as três expedições não passaram de uma, replicada com as datas e alguns poucos dados alterados ao sabor dos relatores.

“Em um nível analítico, outro problema recorrente é a falta de crítica das fontes. Para abordar grande parte da história palmarina, principalmente o período que compreendeu os anos de 1675 e 1678, a historiografia baseou-se quase que exclusivamente em uma versão de uma crônica anônima escrita em 1678.

Esse documento contemporâneo a Palmares foi transcrito e publicado pelo Conselheiro Drummond na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em 1859, sendo essa a versão utilizada pela maioria dos historiadores de Palmares, sem nenhuma preocupação com o documento original. Desse modo, uma versão que foi produzida dentro da lógica historiográfica do século XIX foi lida por esses autores como se fosse um documento do século XVII.

Além disso, a maior parte dos estudos sobre Palmares não se preocupou com o fato da crônica de 1678 ter sido produzida com o claro objetivo de enaltecer o ex-governador de Pernambuco D. Pedro de Almeida caracterizando-o como o principal responsável pela vitória contra Palmares. Apesar de ela fazer parte de um esforço maior do governador em obter favores políticos, os historiadores leram-na como um relato fiel aos acontecimentos.”

(Laura Perazza Mendes)

A mais clássica destas distorções (calcada, exatamente nos escritos do Conselheiro Drummond e do Rocha Pitta) é aquela que gerou o mito ridículo denominado ‘A Tróia negra” que, aparentemente reproduz a saga grega dos 300 de Esparta” transportando-a para o Brasil do século 17 , para afirmar que Zumbi se atirou ao suicídio num penhasco junto com seus homens mais valorosos.

“…Em Janeiro de 1694 um exército contra Palmares é montado com soldados, mercenários e índios. Seu comandante geral é o mercenário paulista Domingos Jorge Velho. No ataque á Macaco, no qual uma tática de contra-cercas deixa como única saída para os  quilombolas um corredor ao lado de um precipício, mais de 300 quilombolas morrem e despencam. Dizem que Zumbi é um dos mortos mas não há provas, mesmo porque, pouco tempo depois aparece um outro Zumbi comandando lutando exatamente como o suposto morto.”

                             (O Titio mesmo, num post seu desses aí)

No embalo desta recapitulação é clássica também a farsa do Zumbi bebê sequestrado (veja no link:http://wp.me/p3BrN-2ow) mito quebrado pelo Titio aqui mesmo nesta série (Uhhú!), provavelmente inventado pelo historiador Decio Freitas, que descreve a saga de Zumbi como o mito cristão do Messias (educado por um padre católico) Zumbi no papel do mártir piedoso que morreu para nos salvar.

A história encaixada à fórceps por Décio no contexto de Palmares, na verdade (veja post do Titio sobre este incidente), copia a descrição verídica de cartas do padre capuchinho missionário Marcelino D’Atria enviadas à Roma, dando conta de fatos ocorridos na Batalha de Mbwila, em 1665 em Angola, fatos nos quais é personagem real o menino príncipe Francisco Nkanga Nvita filho de D. Antonio I (Nkanga a Nvita) rei do Kongo morto e decapitado na batalha, incidente que nada tem a ver com Palmares e Zumbi, pelo menos diretamente.

Tudo balela e xaropada. Nem tudo – no portugues claro – quase nada era verdade.

Desqualificaram os ‘falares e saberes’ populares como incertos para inserirem nos hiatos da história, explicações e versões mais desembasadas e desparafusadas ainda.

“Falares e saberes’, quem não sabe que estas chaves são essenciais à qualquer antropologia, historiografia, qualquer ‘logia‘ destas aí que este pessoal tanto ventila. Pois é. A maioria dos historiadores brasileiros são useiros e vezeiros de fazer isto, tratando de exercer a sua burrice ancestral menosprezando os idiomas alheios – africanos neste caso – chamados por eles, preconceituosamente de… ‘dialetos‘, fazendo especulações etimológicas e semânticas estapafúrdias que confundem tudo, mais do que esclarecem num melê pastiche de tudo que não é europeu.

(Já reparam que não fazem isto com falares e saberes indígenas? Conhecem esmiuçadamente as centenas de línguas dos índios do Brasil, até mesmo aquelas ex tintas. São milhares as teses de mestrado e doutorado baseadas em idiomas assim. Têm até um nome pomposo para esta área de conhecimento: “Etnolinguística”.)

Pois bem, se há bruma e confusão neste assunto – e as razões de ser deste ‘apagão’ já cansamos de ventilar por aqui, sendo assim em verdade em verdade vos digo:

É o ensejo de lançar alguma luz sobre todos estes fatos embaralhados que anima o esboço deste Infográfico Kilombo-Palmarino. Ele está baseado em dados e subsídios documentais contidos na série que o Titio acaba de publicar no facebook sobre o título “Semana do Zumbi do Titio”. Para os mais curiosos e instigados, há aqui mesmo, logo abaixo uma boa bibliografia na qual me baseei assim assim.

A história que proponho para os incidentes:

“..Dos muitos filhos, netos e/ou prováveis sobrinhos de Ganga Zumba identificados e citados nos documentos portugueses e holandeses desta ocasião, existem pelo menos quatro filhos adultos que teriam sido presos ou mortos (Zambi ou Zumbi, Acainene, Acaiuba, Tuculo)

São citados ainda por outros autores Zangui, Maiolo, Engana (nganga) Colomim, Camoanga, Cabanga, Gone, Zangui, Gongolo, Quiloange, Quissama, todos líderes de mocambos (além dos que foram mortos) pelo menos três adultos que teriam sido presos e libertados após o acordo de Cucaú (Acaiuba, Tukulo, ‘Zambi’). Há também pelo menos um sobrinho adulto (Pakassa, talvez filho de Ganga Zona) e um número impreciso de netos.

(O Titio mesmo, num post seu destes aí)

Também sugerido pelas pesquisas do Titio existe um fato, não se sabe porque omitido pela historiografia oficial posto que está claramente sugerido nos documentos oficiais portugueses:  Ganga Zumba, provavelmente um idoso por ocasião da invasão do mocambo do Macaco, não aparece, rigorosamente como presente em nenhum dos episódios relacionados à suposta rendição dos kilombolas e 1677. Tudo atribuído à ele parece ser mera suposição ou, simplesmente invenção, mentira.

Existe, isto sim a forte impressão de que o velho Ganga Zumba estaria já impossibilitado de reinar, sendo o contexto de todos os incidentes que redundaram  no acordo de Cucaú, o contexto de um conflito sucessório na liderança de Palmares, com o ‘tio’ Nganga Zona – e seus filhos – de um lado e o Zumbi legítimo herdeiro de outro.

Aliás – disse lá num post destes – é surpreendente a semelhança dos incidentes destes conflitos de sucessão em Palmares com conflitos semelhantes ocorridos na Angola mais remota, ao tempo do Reino do Kongo, no qual as regras ancestrais de sucessão matrilinear (no caso de Palmares, pela sugestão aqui do Titio, o sucessor de Ganga Zumba, o idoso teria que ser o filho mais velho de sua irmã), não raro eram tornadas dúbias e sabotadas pelos ‘tios‘ (‘sekulo‘ ou o ‘irmão da mãe’, uma instituição nobiliáquica fundamental na cultura bakongo), que tinham prerrogativas também de, em caso de dúvida (algo suspeito sobre a origem genética do filho da irmã do rei, por exemplo) entronizar seus proprios filhos.

O que o cruzamento dos próprios documentos oficiais portugueses demonstra, cabalmente – e não é, de modo algum sequer presumido pela historiografia oficial – é que houve sim uma traição de um membro da cúpula palmarina que, muito provavelmente, em troca de favores dos portugueses, denunciou o local remoto onde estava a cúpula kilombola, inclusive TODA  família do rei. Os dados cruzados pelo Titio dão conta de forma candente de que  a traição – injustamente atribuída ao Ganga Zumba mítico (o velho) – foi praticada isto sim por Nganga Zona, controverso  cunhado ou irmão do rei citado.

“ O novo governador João de Souza é contra qualquer acordo com os quilombolas). É ele quem substitui Aires Souza de Castro (signatário do acordo de Cucaú que batizou a dois filhos de Ganga Zona, dando-lhes o sobrenome Souza Castro).

(O Titio mesmo, num post seu destes aí)

Não há registro, portanto, muito provavelmente NUNCA existiu, uma mulher chamada ‘Dandara‘ em Palmares. Este nome aí, ao que parece foi inventado pelo historiador Joel Rufino para denominar uma personagem de seu livro que romanceava a suposta história de Palmares, muito calcado no livro de Decio Freitas.

Todos os nomes citados precisam ser por outro lado analizados segundo premissas histórico etimológicas que só serão abalisadas se forem feitas a luz de um profundo estudo sobre as línguas angolanas respectivas, notadamente o kikongo, língua muito complexa, já dicionarizada no início do século 17 pelo padre negro capuchinho Manoel Roboredo, membro da corte congolesa.

Por estes dados todos, dois aspectos iniciais já podem ser ressaltados : Os nomes propostos, provavelmente não são, necessariamente, os nomes próprios dos personagens, sendo em sua maioria  títulos e funções pelas quais as pessoas eram conhecidas e citadas nos depoimentos (caso flagrante de Ganga Zumba’ que é com certeza, como já disse em outro post, um nome dinástico – Nkanga, ou Nganga a Nzumbi , literalmente “Espírito Santo” (a pomba) uma entidade católica, com o sentido aproximado de ‘Rei com funções sacerdotais‘, líder espiritual e guerreiro)  usado por vários personagens de Palmares e cuja abreviação popular acabou sendo, simplesmente ‘Zumbi‘).

(Bom frisar aqui que a expressão ‘Zambi” que aparece como sinônimo de ‘Zumbi‘ muitas vezes nos relatos e até em letras de música popular, é um erro semântico banal pois ‘Nzambi‘ quer dizer ‘Deus” em kikongo e jamais seria uma atribuição válida para um humano. O correto, portanto seria “NZumbi“, com o sentido de “alma”, “espírito”, “fantasma”)

Andalaquituxe, por exemplo se refere claramente à expressão “Ndala” (vila, lugarejo) sendo ‘Kituche‘ o nome provável do comandante do kilombo assim denominado. Do mesmo modo, nomes como Acotirene e Aqualtune, se referem a palavras compostas (o “A” destes dois nomes, descritos como sendo de mulhers, pode se referir a ‘Nga“, tratamento respeitoso para ‘senhora‘ nas línguas citadas, palavras que precisam ser decupadas a luz de dicionários e gramáticas de kikongo ou kimbundo arcaicos, línguas mais prováveis usadas pelos kilombolas na ocasião).

Enfim, o mais surpreendente – e suspeito – é que o Titio não precisou se valer de nenhuma história oral já que os documentos disponíveis sobre os tempos do Kilombo de Palmares são profusos. Eles mesmos, os documentos interpretados erroneamente por tantos historiadores, já contêm as informações necessárias, basta apenas, como se diz dos ignorantes, ‘saber fazer um “o” com um copo’.

(A farsa do “bebê Zumbi’ , por exemplo, foi desvendada pelo tio simplesmente lendo na internet textos esparsos do John Torntom, incensado historiador norte americano que todo mundo por aí devia estar careca de conhecer.)

Então é isto: Vocês podem revisar todas estas informações, melhor aprofundadas nos posts da série, buscando no blog do Tio as palavras ‘Zumbi” e “Palmares” ou clicando links a cada matéria lida

Pronto. Fecho a tampa deste assunto então e deixo o prosseguimento da enxurrada de novidades para vocês.

Tuala Kumoxi! Tamu junto!

Spírito Santo

25 de Novembro de 2012

————–

Bibliografia (bem) sumária usada pelo Titio em toda a série sobre Zumbi e o Kilombo de palmares :

Abreu de Brito – Sumário e Descrição do Reino de Angola

António de Almeida e J.Camarate França– Estudos sobre Pré-História do Ultramar Português

Arquivos de Angola – Volume II , 1ª série Boletim da Diocese de Angola e Congo – Edição nº 29

Basil Davidson– “Mãe negra” – Livraria Sá da Costa editora, Lisboa

Cadornega – “História Geral das Guerras Angolanas”

Damião Peres – “História dos Descobrimentos Portugueses”

Decio Freitas- “Palmares- A guerra dos escravos”- Ed. Movimento

Domingos de Abreu de Brito – “Sumário e Descrição do Reino de Angola”

Gomes, Flávio – “Histórias de Quilombos”

Garcia de Resende – “Chrónica de D. João II”

Mario Martins de Freitas– “O Reino negro de Palmares”, Biblioteca do Exército editora- 1988

Manoel Pedro Pacavira – “Nzinga Mbandi”–Edições 70 – Lisboa

Lopes, Nei- Onomástica Palmarina

Rodrigues, Padre Francisco  – “História da Companhia de Jesus”

Montecuccolo, Padre João António Cavazzi de  – “Descrição Histórica dos Três Reinos do Congo, Matamba e Angola”, Vol. I e II -Paiva Manso – História do Congo

Duarte Lopes  e Pigafetta – “Relação do Reino do Congo”

A pedagogia musical do Titio faz Musikfabrik na Maré


Creative Commons LicenseAtenção: Todo o conteúdo deste blog esta assegurado por uma licença Criative Commons.

A última experiência do Titio com jovens e crianças de favela foi mesmo inesquecível.

Se você quiser o tio ensinando e aprendendo com crianças como estas, vai ter que tirá-las deste gueto e trazê-las até o tio num espaço que não seja de exclusão.

O enorme e aprazível campus da Uerj, por exemplo está com o tio aguardando esta oportunidade. É preciso abolir a política do gueto em nós.

Durante os meses de junho e Julho de 2012, o Titio esteve a serviço do projeto Fábulas de uma Maré de História da ong Ação comunitária do Brasil lecionando percepção musical para crianças e adolescentes da sede da ACB na Vila do João, Complexo da Maré, Rio de Janeiro.

A pedagogia do Tio que se chama ‘Musikfabrik“, criada e implantada na Uerj em 1995, se baseia em exercícios de fabricação de instrumentos musicais pelos próprios alunos, durante os quais são repassados, quase subrepticiamente, atributos fisológicos e teóricos básicos da linguagem musical inseridos no no processo.

Acredito que só assim, sem separar jamais a prática da teoria, promovendo o contato físico mesmo com música, construindo e tocando o próprio instrumento, tornando o processo de aprendizagem orgânico que o cérebro registra e aprende música (ou qualquer outra coisa)…para sempre.

A experiência de ensinar e aprender com esta galerinha foi inesquecível.

Spírito Santo

Agosto 2012
(Mês e ano da graça da terceira idade do Titio)

O ‘Meia Ponto Cinco’ da longa estrada e o engano da cigana que não me enganou


Creative Commons LicenseAtenção: Todo o conteúdo deste blog esta assegurado por uma licença Criative Commons.

O dia, o mês e o ano da graça da terceira idade de mim

Foi numa pracinha ali do aeroporto Santos Dumont, Rio de Janeiro. O ano? Nem sei mais.

A cigana me enganou, claro (ou se enganou, vai saber?). Me disse com aquela cara de pau santa de toda cigana que eu ia morrer aos 53 anos de idade. Me lembro que faltava muito para isto. Imagina! Uma idade remota demais esta. Não dava para imaginar. Nem achei um destino tão triste assim. “_ Aos 53!”_ pensei: _” Ah…já vou estar cansado, de saco cheio de viver”. Pois é: Eu tinha aquela idade entre a pós adolescência inconsequente e a consciência vaga e babaca de que precisava tomar prumo na vida, amadurecer.

A possibilidade da morte precoce me atazanava a alma sim, desde que me dei conta de que a idade tão precoce em que meu pai morrera era a de um quase menino, uma prova inconteste de que não ia mesmo ficar para semente. O fato é que estava até me conformado já com aquela linha da vida na mão direita se desmilinguindo em linhazinhas loucas que não iam mais sozinhas a lugar nenhum.

_ Aos 53…mais ou menos”_ ponderou a cigana, já meio vacilante.

A cigana deve ter visto isto, esta coisa de hora temer, hora não temer  a morte logo ali na esquina, num lampejo dos meus olhos meio incrédulos meio cabreiros, curiosos com o que ela ia dizendo de mim. Não sei não, mas se fosse crer em profecias de mulheres de saião florido já teria morrido mesmo, há muito tempo. Algumas destas, nem ciganas eram, mas desejaram de algum modo que eu morresse, me escafedesse, desaparecesse nos quintos do inferno.

Nada que me incrimine. No noves fora até que sou e sempre fui um cara bom. Mas vocês sabem como são as mulheres, não sabem não? Algumas, às vezes são dadas mesmo a estas maldades gratuitas e despeitadas, com estas manias de bruxa que algumas têm, isto de não querer ser fadas, mães, isto de achar feio e revoltante serem boazinhas para os homens que têm, coitados, que só querem mamar e ser felizes no quentinho de um ninho qualquer.

(Fico até rindo delas agora, daquelas que me perderam – ou não me acharam – quando me vejo no espelho e sei, por A mais B que não desapareci, desapareceram elas. E é por isto que, enfim:

Yo no creo en las brujas mujeres, pero en las mujeres brujas yo creo si.)

Não sei. Acho que a cigana trocou os números 3 e 5 que viu no meu pavor e leu a linha da vida de minha mão às avessas, como a daquele cara do filme que nasce velho e envelhece bebê. O certo é que temi até os 35 anos uma morte, como a do meu pai chegar por alguma razão fortuita, mas ela, a danadinha, não chegou. Esperei aos 53 ela me aparecer de novo, definitiva, poderosa, toda cheirosa e sestrosa me chamando para dançar, mas ela, a bandida, percebendo talvez que dançar nunca foi mesmo o meu forte, jamais apareceu. Daí, já sabem, relaxei.

Olhando esta foto aí eu fico surpreso demais da conta de ter ultrapassado os 35 ou os 53 anos desta quase interrompida vida e ainda ter avançado outro tanto mais, sobrevivendo a tudo e a todos apesar do que desse, houvesse e viesse.

Bem sei que a maioria das pessoas sobrevive assim, de algum modo, mas vejam esta minha vida. O quase nada que éramos naquela casinha quase a desabar, a alegria fortuita do velocípede que meu pai me dera – e que a minha irmãzinha sempre querida, arredia e ressabiada em outra foto agora ostenta nesta, irradiando felicidade de estrela matutina – é tudo, mas só ali naquele momento. O tempo todo, do que dá para se ver assim de longe, era de uma pobreza digna, porém áspera, de marré de si.

Corina, a mais velha, tia temporã, meio irmã dos dois já tem, percebo agora alguma coisa no olhar que entrega alguma tristeza vaga.

(E se quiser veja mais sobre o tio pequenino e seu velocípede aqui neste link)

Ah que dela ainda recordo o cheirinho cálido. A primeira casinha da vida, sabem lá o que é isto? Estrada Comandaí 632, Marechal Hermes, um subúrbio tão tão distante do Rio de Janeiro. Foi nela que eu vim a este mundo cão sem dono, assim vindo à luz, sei lá se pela chama claudicante de um candeeiro ou de uma vela, pela mão de uma parteira daquelas, das redondezas, aquelas mulheres mandonas e altivas, sempre disponíveis, que pela gratidão das paridas que assistiram, têm mais amigas devotadas do que as santas virgens marias.

Estas sim, por certo, as que merecem ir pro céu de cadeirinha, mais do que certas outras santas de pau oco, que lá no céu já estão, mesmo sem merecer, apenas porque são ou foram esposas interesseiras de Jesus.

O tempo foi furacão neste período de minha curta vida. Bibi, minha maninha já nasceu numa maternidade. Mudamos logo para a segunda casa, da qual nem uma fotozinha temos. Construída num terreno doado ou comprado a perder de vista de alguma promoção do governo de Getúlio para enganar a pobreza dos ex pracinhas, heróis da guerra na Itália – como o meu pai foi – ela, a casinha a ser nova, nos livraria do aluguel da outra, que mesmo assim tão desabada, não era nossa, fazer o que?

A casa mais recente, sempre inacabada, acabou ficando ainda mais precária e distante do mundo ainda do que a casinha em que nasci. Desta outra me lembro apenas da escuridão profunda das noites de chuva, um negrume rasgado apenas pela chama trêmula das lamparinas de lata, artesanais. Me lembro das narinas amanhecidas, empretecidas da fuligem do querosene. Me lembro do chão ainda inconcluso, de terra batida, frio e úmido, como o daquelas casas mais selvagens.

Mas a gente se acostuma. Meu pai falecera em 1951, logo depois desta fotozinha aí, assim, quase de repente como se viu, nos seus plenos 35 anos. Morreu, imagino, de sequelas do alcoolismo que, por sua vez era sequela dos tormentos da guerra, as bombas dos tedescos ecoando na cabeça dele durante a Tomada de Monte Castelo, os amigos morrendo metralhados um aqui, outro ali, mais um acolá e ele, José Cyrilo, rezando o Salmo 91 do Davi da Bíblia Sagrada, única coisa assim mais religiosa que eu aprendi na vida (e nem deu tempo de ser com ele).

Mil cairão a teus pés, dois mil a tua direita, mas tu não cairás”

A casinha que era para ser nova, ficou ali nascida velha precoce porque sem pai muito mais difícil ainda se tornou a vida para todos nós, a mãe da roça, prendas do lar tendo que inventar uma profissão do nada, virando enfim a costureira mais artista que eu conheci na vida.

Azar dos ricos, mas só os pobres têm – como tenho agora – este orgulho desmedido de ter vindo da lonjura mais remota, das precariedades mais absolutas para estar aqui agora, lido e sabido, vivo da silva contando esta historinha pra vocês. O certo – nada a ver com duvidoso – é que estou aqui cascudo, ferrado mas não alquebrado, roto mais não torto, sexagenário menino, me remoçando a cada dia, na terceira idade desta terceira chance sem data marcada por nenhuma cigana 171.

 Trinta e cinco? Cinquenta e três? Sessenta e cinco?

Eu, Titio ainda no prazo de validade (alguns defeitos e remendos, pegando no tranco, mas vamos que vamos), sentado porque planejo uma longa espera, aguardando sem ansiedade Ela, a Bela, a irresistível Dona Morte sem saião estampado nem nada, derradeira mulher bruxa que me conquistará.

Ela, Aquela que me levará pela mão, não para o paraíso que nem me apetece, mas assim para um purgatório mais animado, iluminado à neon, com cerveja gelada, frango com quiabo e cafuné. Claro que quero do bom e do melhor. E eu lá sou tolo, inda mais assim sendo velho? Velho tem que ser sabido, porque senão, se não for, será batido e engolido pelo esmorecer.

Se for céu de algodão doce eu bocejo, me enfado. Édem de novela de TV eu não aturo, acho que peço para sair, pego o meu boné e vou embora.

O certo é que  na minha folha corrida –  minha longa e torta linha da vida – está lá escrita em algum lugar me referendando:

Foi Interno de escola-prisão, foi Preso político no Dops da Rua da Relação e na Ilha Grande, foi Pintor de letreiros de propaganda em muros, foi Operário metalúrgico, foi Desenhista projetista de arquitetura, fui Ilustrador de livros infantis. Cantor, Músico, Folião de Reis e CongadeiroProfessor de si mesmo e dos outros,  Fabricador de intrumentos musicais afro inusitados, Escrevinhador autodidata que escreve pelos cotovelos, sobre o que lhe dá na telha e está aqui, pronto para outra, a meia ponto cinco na longa estrada, olhando pros lados, nas curvas, esperando Ela.

(Bandida! Danada! Se bobear arranjo outra e traio ela)

Spirito Santo

27 de Agosto 2012

(Dia, mês e ano da graça da terceira idade do Titio)