A antropologia antropofágica e o prato frio da vingança


Creative Commons License Atenção: Todo o conteúdo deste blog esta assegurado por uma licença Criative Commons.Titio no papel (imaginado) de Nêmesis se vinga de antropólogo - Extraído de R'esident-evil' (ilustration)

Titio no papel (imaginado) de Nêmesis se vinga de antropólogo – Extraído de R’esident-evil’ (ilustration)

Ufa! Ainda bem. Nativos aculturados não comem os ‘estrangeiros’.

” Nemesis é a personificação da vingança, na mitologia grega. Ela é a deusa da justiça, da vingança, da injustiça, da piedade e dos zumbis. Uma versão fêmea e grega de Thor. A frase “fazer justiça com as próprias mãos” não se aplica a Nemesis, que prefere matar os indignos com golpes de machado e espada

Nemesis tem uma pequena lista negra, onde coloca o nome de suas possíveis vítimas. Dizem que ela morreu no Brasil, de fome, pois nem a justiça conseguia mudar algo neste país. Uma das poucas divindades que não são filhas de Zeus e não são cúmplices deste nepotismo bizarro que acontece no Olimpo. Também é conhecida como Maria dos Enforcados”

                     (Extraído de Desciclopédia)                     

Fui chamado disto aí em cima dia destes, mas nem me ofendi porque não me lembrava direito – juro!- o que significava. Fui ao Google, claro. Entrelidos assim os sentidos da palavra, vendo estes super poderes todos a mim atribuídos, não pude deixar de dar um risadinha sarcástica, de lado.

Vingativo o Titio? Mitologia grega numa hora destas? Engano deles. Perderam tempo culpando o mensageiro pela má notícia. E olha que o Titio nem gosta de comida fria.

Mas gosto da metáfora sim, porque na atribuição que me dão, estranhamente reconhecem que alguma coisa a ser vingada, resgatada de algum vilipêndio, alguma justiça a ser feita, com a qual, com os rabos presos que alguns deles estão, me brindam com estes lampejos de razão.

Explico: O papo era sobre Cultura Popular e patrimonialismo estatal, esta onda aí meio que recente do Estado, um governo ‘mui amigo‘, estimular por meio de leis e decretos a salvaguarda de bens culturais imateriais no Brasil. Tenho sido um crítico contumaz de certas minúcias deste processo, que acho questionável em muitos aspectos. É que tenho o hábito de dizer, certo ou errado, com todas as letras porque sou contra isto ou aquilo.

É assim que aprendo e ensino, batendo e levando. É esta a minha escola.

Meus interlocutores desta vez são, antropólogos em sua maioria, uns incomodados com certos pontos mais agudos da minha fala num artigo aí sobre um livro sobre o Jongo e os percalços da patrimonialização da manifestação por parte do MinC/ Iphan.

_É, mas você bem que dá umas implicadas nos antropólogos não dá ?! rsrs prá testar a nossa capacidade real de relativizar”_ Me disse uma amiga, simpaticamente, no calor do debate outro dia.

Exato. Todo autodidata adora puxar a beca dos doutores. Ocorre que – pensam eles – ‘quem diz o que quer, pode ouvir o que não quer’.

Que nada. Quando os instigo com minhas críticas – e eles não são os únicos doutos com os quais compartilho ideias – é, exatamente algum feedback que eu procuro: Ouvir as partes, saber as minúcias de suas proposições, as intenções omissas de suas ações, compará-las com as minhas, fazer a sintonia fina, por aí. Se me permitem também filosofar, diria que a verdade – quem não sabe? – esta fugidia moça que nunca aparece nua, peleja no campo aberto das ambiguidades e relatividades humanas. Difícil desnudá-la sem alguns arranhões.

(Mas, ai de mim. Mesmo assim, tão ponderado e paparicando a verdade com os mimos das minhas dúvidas, as minhas orelhas arderam em brasa.)

É que o papo foi sendo inserido por alguns leitores doutos no âmbito de uma crítica direta – ácida demais as vezes – que faço, e que eles, em contrapartida (ou represália, vai saber) agora me fazem, tentando desautorizar, ou desqualificar minhas opiniões.

Agem como se eu, qual uma ‘vítima indefesa da sociedade’ (pois sim!) estivesse curvado sob o peso das atribuições desairosas destes vários desqualificativos, que justificariam então a minha suposta…nêmesis, ou sede de vingança, dirigida à academia (esta dos antropólogos) entidade arrogante de besta que me teria ‘rejeitado‘.

É que uns – que pirados!- chegaram mesmo a insinuar inclusive, que o fato de não ser um pós doutor era o que me insuflava estas ondas de despeito. Vejam só: Eu, um recalcado, um ‘complexado‘, psicologia de botequim numa hora destas? Pois sim.

(Juro por Nemesis: mal comparando me sinto um verdadeiro Joaquim Barbosa nestas horas)

Alguns epítetos desqualificadores foram até elegantes (“essencialista‘ foi o mais fino deles,) mas fui chamado também de ‘folclorista‘ (que imagino ser uma ofensa mortal entre antropólogos, mas diante da qual, como não sou, pouco me lixo) e ‘ingênuo‘, com o sentido de filosoficamente despreparado, estas coisas.

Tem jeito não. Nestas horas, desço das tamancas. Tento pô-lo na coleira, amordaçá-lo mas o meu currículo…late.

Bem se vê que não conhecem – ou subestimam – o espírito anarquista do Titio, a doce e idosa ideologia ‘pomba rolou’ que me orienta. Eu o tio que, se apoiando nos direitos a ele conferidos pela ‘Lei dos Sexagenários’ se dá ao desplante de gritar, sempre que lhe dá na telha, ou quando lhe aporrinham:

_Cala a boca já morreu! Quem manda em mim sou eu!”

Essencialista”. Vocês sabem lá o que é isto? Calma que o google explica.

Ah! Já cansei de falar sobre isto por aqui (tenho críticas fundas à academia do Brasil sim, aos seus conceitos e processos escalafobéticos. Afinal, temos um taxa de 38% de analfabetos funcionais entre estudantes universitários do país e o Brasil, mesmo assim, cara de pau diante deste escândalo vergonhoso, fica por aí produzindo doutores como quem produz chuchu na serra. É ou não é uma universidade ‘tabajara‘, a que temos? Vão confiar nela sem conferir o pedigree e duvidar do Tio vira latas? Vocês é que sabem.

E sei que falo quase solitariamente – e longe estou de pretender ser o dono da razão – mas no avanço desta minha crítica insistente, chata e ‘mala sem alça’ (escrevi um livro inteiro conceituando esta minha furibunda posição), começo a receber já feedbacks cada vez mais consistentes de antropólogos ‘de verdade’, alguns até conhecedores profundos do processo de inventariamento de bens culturais imateriais (ou até mesmo envolvidos nele, diretamente, desde o início e em todas as suas implicações). Ou seja: Opiniões abalizadas – quase nunca concordantes, mas respeitáveis – começam a chegar e o debate (a roda) fica muito mais rico (a) e pegando fogo.

(Cá entre nós… me sinto até prestigiado com estas ‘brigas‘ santas, devo confessar.)

Conversa pra mais de metro, o mote central do nosso debate é o registro ou ‘tombamento‘ do Jongo, mas o contexto da conversa é bem mais amplo: a crítica que faço é ao conceito como um todo, a discussão sobre o papel do Estado – e de sua antropologia acadêmica, oficial – como mediador de conflitos culturais latentes, num campo social minado por interesses os mais ambíguos, conflitantes e questionáveis.

Entendam: Sou daqueles que creem que numa sociedade tão dividida como a nossa, é natural que existam conflitos de classe, ‘trelelês‘ e ‘ranca rabos‘ em todo o sistema. Não é marxismo de ocasião não (embora seja muito bom que o Marx volte à ser moda). É que a cultura humana não sobreviveria num campo de conceitos travados, harmonizados no mal sentido. Nem mesmo em teoria.

Se o Brasil é um país racista e o racismo é sistêmico, lógico que o Estado e suas instituições refletem este racismo. A universidade brasileira, até que se torne mais democrática, tradicionalmente ‘É’ burguesa e ‘E’ racista (e seu elitismo neste caso se confunde com o seu racismo). Não há ‘anti essencialismo’ algum que desminta esta equação.

Cultura é conflito e política o tempo todo. É gente vivendo, disputando espaço e comida, roda girando, carroça andando, sem parar e sem volta. Não rola a cultura de uns tutelada pelos outros. Isto é um paradoxo… existencial, é falta de ar. Não rola.

Ah! Quer dizer que a Antropologia Estatal ‘É’, se assume como ‘canibalista’, uma adepta da antropofagia declarada? Tudo bem, mas vamos definir primeiro quem está comendo quem e – o que é mais importante – do ponto de vista de quem está sendo servido assim ou assado de bandeja (a cultura…popular), se é mesmo bom ser comido.

E, calma aí. Sem esta de maldar a minha analogia, por favor

Situaram-se? Papo cabeça e cabeludo, não é mesmo? Mas é assim. Eles, os incomodados com as mais humildes críticas, tentam te pegar pela palavra, pelas filigranas do pensamento dito torto, rasteiras conceituais, como ‘rabos de arraia’ com meias de seda e borzeguim de pelica.

Que respondam então: As armas estão à mostra? Os interesses das partes estão mesmo às claras, postos na mesa? Quem não conhece estas histórias de hegemonia? Viram aquele filme livro “Enterrem o meu coração na curva do Rio”? O lobo branco colonialista comendo a cultura indígena norte americana com rabo e tudo. Ainda chuparam o sangue dos Sioux, trucidando-os em vingança pela derrota do General Custer no Little Big Horn.

Vai confiar? Vai mesmo dar as costas para este pessoal tão bacana e tão legal? Quando a corneta da 7ª cavalaria soa, o trator do ‘go home black and indian people’passa e não fica uma peninha de índio, uma lança de preto em pé.

Falo sem maldade vingativa. O pensamento diverso é sempre um pé no saco de quem opera na zona de conforto, do lugar comum lá do alto da atalaia do poder. Logo, para não dizerem que não avisei ou não argumentei, vamos seguir pinçando as linhas mestras da visão oficial sobre o assunto.

(Nem preciso lembrar que é preciso ler também as entrelinhas):

I Seminário Nacional de Políticas Públicas para Culturas Populares

05/02/2010

A ideia da realização do I Seminário Nacional de Políticas Públicas para as Culturas Populares surgiu de muitos anseios, tanto por parte dos indivíduos, grupos e comunidades que não viam respeitadas suas culturas e modos de fazer, como por parte dos militantes, intelectuais e apaixonados pela cultura popular. A tantos anseios somou-se a vontade de administradores públicos de contribuir, efetivamente, para o reconhecimento e a valorização das culturas populares.”

O evento final (do seminário citado) contou com uma rica programação cultural e promoveu espaços de diálogos entre diversos manifestantes das várias regiões do país, além de pesquisadores, produtores culturais e gestores públicos, em clima de harmonia, alegria e responsabilidade, num ambiente fértil e único para manifestar seus modos de expressão. “

O reconhecimento da diversidade, das especificidades e do valor artístico e cultural das manifestações populares pelas instituições públicas e privadas é parte fundamental do processo de inclusão cultural e econômica e do desenvolvimento humano”.

Tudo muito bom, tudo muito bem, mas considere-se, logo de saída que este grande pool de instituições oficiais têm um poder acachapante diante de quaisquer interesses diversos, eventualmente opositivos dos grupos de cultura tradicional envolvidos, os quais não se encontram, de modo algum organizados ainda, à altura de tão grande demanda e de interesses postos em jogo.

Por qualquer ponto de vista que se olhe a questão, os ditos “brincantes‘ são uma instancia totalmente indefesa ainda neste processo. Logo, o tal ‘clima de harmonia, alegria e responsabilidade‘ (estranha colocação, pois, nenhum risco de conflito aparece anunciado) tem um caráter muito mais de ato compulsório, tutelado do que natural e espontâneo.

O Estado acenou algum espelhinho. Disto tenho certeza e posso provar.

(E permitam-me dizer aqui: ai, como detesto esta palavra ‘brincante‘, que infantiliza os praticantes de cultura dita popular, como se estes fossem retardados mentais, seres culturalmente inferiores. Detesto também a expressão ‘nativos‘, pois me fica sempre a pergunta: Ué? Seriam os antropólogos do Brasil estrangeiros?)

Chama-me a atenção também – me intriga mesmo – a dicotomia sugerida no documento entre “indivíduos, grupos e comunidades que não viam respeitadas suas culturas” (os‘brincantes’, os‘populares’, propriamente ditos) de um lado, e “militantes, intelectuais e apaixonados (ui!) pela cultura popular de outro (instancia, aliás indefinida, com um mal disfarçado caráter de classe). É curioso também como o documento omite, cuidadosamente e não esclarece afinal da parte de quem partiu este desrespeito ‘às culturas e modos de fazer’ dos ‘grupos e comunidades’ arrolados.

Estas considerações entrealinhavadas mudam muita coisa no entendimento das intenções políticas dos decretos, exigindo muita relativização acerca do que se afirma logo a seguir, pois sejamos francosNo Brasil NÃO é, definitivamente o povo ‘brincante‘ quem ‘organiza o movimento e orienta o Carnaval’

E aí, a pergunta que insistentemente faço, convenhamos até que procede:

Afinal. Nestas ações de patrimonialização e salvaguarda de bens imateriais, quem foi que pediu para o Estado se meter na briga cultural entre brancos e não brancos, pobres e ricos do Brasil? Quem foi que pediu? Quais são as motivações deste Estado tão bonzinho?

(Só para avivar nossa mente, ressalte-se que a convenção da Unesco que deflagra todo este processo é do ano 2000)

Acesa a fogueira e servida a cachaça, antes de seguir com os seus pontos de demanda e visaria, Titio deve desamarrar alguns pontos da roda de Jongo anterior (esta, a dos antropólogos jongueiros)

O principal destes pontos é a oposição criada por estes meus simpáticos ‘opositores‘ entre as suas ideias neo preservacionistas e as minhas, tachadas por eles de ‘essencialistas‘, ‘folcloristas‘ ou quiçá até mesmo, ‘ingênuas” ou mesmo…’fascistas‘.

É que esta minha banca desorientadora aderiu a uma estratégia de fundo academicista, na qual os epítetos me chegam sempre sob a forma de conceitos síntese cabeludos, citações de eminentes teóricos da moda, conceitos estes travestidos de jargão doutoral enfim que, como todo mundo sabe, são aplicados num debate não para explicar, mas apenas para confundir mesmo, humilhar o interlocutor mais desavisado, soterrando-o sob um mar de sapiências

(Nada a ver, mas…sei lá: Modernistas que são, vai que o mestre de alguns deles foi o Chacrinha?)

É por isto que o Tio vai traduzindo, descomplicando o jogo de jargões:

PATRIMONIALIZAÇÃO E TRANSFORMAÇÃO DAS IDENTIDADES CULTURAIS

Xerardo Pereiro Pérez, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (Portugal)

a)Tradicionalista ou folclorista. O património cultural é aqui reduzido a um conjunto de bens materiais e imateriais que representam a cultura popular pré-industrial. A sua visão é historicista, pois consideram o património cultural como objecto e relicário do passado, mas também é conservacionista, pois pensa que o fim último do património cultural deve ser sempre a sua conservação, independentemente do seu uso actual. Os critérios de preservação de artefactos e edifícios do passado devem ser os de época e beleza.

(Área onde tentam enquadrar o Tio, confundindo as bolas do ‘essencialismo‘ e do ‘folclorismo‘ – usados como ofensas sutis – com as leigas ferramentas dialéticas de análise que usei – a reconstituição histórica, o estudo comparativo do processo anterior ao inventariamento, o meio, o contexto, estas coisas básicas  – para descobrir os elementos que servissem para desmascarar os equívocos e contradições que eu acho que existiram no processo do tombamento do Jongo, por exemplo e que ninguém agora quer admitir.)

b)Construtivista(Prats, 1998). O património cultural é entendido como fruto de um processo de construcção social, isto é, segundo as épocas e os grupos sociais, valorizam-se e legitimam-se uns bens patrimoniais e não outros. Por exemplo, no caso do Brasil há uma tendência para não patrimonializar o legado africano e indígena, nem tão pouco o dos subalternos(Funari, 2001). Nesta perspectiva, o património cultural é entendido como uma representação simbólica da identidade, mas também em muitas ocasiões como sinónimo de cultura.

(Área onde atuam muitos antropólogos brasileiros, enrustidamente interessados em diluir aspectos tradicionais da cultura negro africana, embora ao contrário do que o texto sugere, valorizem, as vezes em demasia, os mesmos aspectos na cultura indígena. Eu os considero portadores de um racismo atávico, muito calcado nas teses de Gilberto Freire, as quais não assumem claramente, entre outros enrustimentos)

c)Patrimonialista(Rodríguez Becerra, 1997). O património cultural é a recuperação do passado a partir de uma perspectiva presente, para explicar a mudança dos modos de vida. O património cultural está integrado por elementos culturais que adquirem um novo valor através de um processo de “patrimonialização”, porém não é o mesmo que a noção de cultura. Poderíamos dizer que é uma intervenção na cultura. Os bens patrimoniais representam formas de vida de um grupo humano no tempo.

d)Produtivista(Ashworth, 1994). O património cultural é entendido por esta posição como um recurso para o turismo cultural e para outras actividades económicas. Esta postura considera o património cultural como uma mercadoria que deve satisfazer o consumo contemporâneo, daí a necessidade de um processo de interpretação que converta recursos em produtos ou mercadorias necessárias para o funcionamento de um sistema de produção pós-industrial. Esta atitude segue o critério do consumo e o da procura, utilizando o património cultural como representação das identidades culturais. Presta, porém, pouca atenção aos riscos da sobre-exploração turística.

(As duas áreas, conjugadas, caem como luvas nas posições defendidas, aberta ou enrustidamente pela maioria dos antropólogos ligados, diretamente aos processos de inventariamento e patrimonialização de bens imateriais no Brasil. O fato de fazer esta mesma crítica às posições deles, muito bem expressas nesta classificação, é que tem instigado a pecha de ‘folclorista‘, que lançam contra mim, classificação totalmente infundada. Bastava ler os textos que escrevo com menos descuido e parcimônia.)

e)Participacionista(García Canclini, 1999 b). Nesta perspectiva de abordagem, a recuperação e conservação do património cultural deve por-se em relação com as necessidades sociais presentes e com um processo democrático de selecção do que se conserva. Também deve estar ligada à participação social com o objectivo de evitar a monumentalização e a “coisificação” de objectos, isto é, é muito importante pensar primeiro nas pessoas e logo nos bens culturais. O participacionismo defende uma política do património cultural de opções claras: primeiro, o artesão, depois, o artesanato; e, paralelamente, locais com turistas, em vez de locais turísticos

(Área na qual, claramente posso e gostaria de ser enquadrado – com algumas poucas ressalvas, diria, já que Canclini trata mais especialmente de cultura de bens materiais entre os índios mexicanos – Aliás, coincidentemente Nèstor Garcia Canclini é o autor que eu mais li, logo assim que fui tomado pelo interesse em conhecer melhor o assunto ‘culturas populares no capitalismo“)

Calando o caxambu e o candongueiro e puxando um ponto de amarração.

E vejam que curioso: No calor da roda debate, pedindo a vênia para cantar, um dos interlocutores criou uma interessante categorização (algo parecida com a do lusitano Xerardo) dos grupos de antropólogos envolvidos na pendenga. Nela a pessoa identifica um dos grupos a partir das seguintes características:

Modernistas – a conservação das essências (para eles) é impossível , dada a dinâmica cultural ), então a cultura “erudita” se permite uma flexibilização para antropofagizar (canibalizar) a “cultura popular” e assim preservar (e não conservar) o que de tradicional há em ambas (a noção de autenticidade das expressões da cultura popular perde totalmente o sentido, pois a mudança é desculpável pela dinâmica cultural, necessidade de emprego e renda. Tudo vira mercadoria. Mas entre eles, os modernistas a noção de autenticidade de suas obras é inquestionável .

Ai, meu Nzambi! Como assim? Porque seria necessário ‘conservar‘ algo? ‘Conservar o que?’ Quem está propondo a conservação deste algo? A afirmação é arbitrária por falta de motivação explícita. É um pressuposto sem fundamento, um pré conceito claro. Dada a qual dinâmica cultural? De que dinâmica cultural se está falando? Há conhecimento de causa profundo, suficiente da natureza desta ‘dinâmica’? Quem definiu e sob que critérios a natureza intrínseca desta ‘dinâmica’ cultural a ponto de sistematizar a impossibilidade de conservação de suas supostas ‘essênciais’?

Caramba! Fiquei pasmo. É exatamente o que eu suspeitava.  E vejam que a classificação bate com os dois grupos de Xerardo que o tio identificou como sendo…deletérios à cultura popular, grupo que vivo, insinuadamente atacando por aí, cheio de dedos. E eu achava radical demais apontar isto claramente embora o faça no meu livro, já que não sou de ferro. Sim senhor! Quem diria?

Gente…É isto mesmo? As contradições e más amarrações do conceito “canibalizar” atribuídas a este grupo pululam. É surpreendente que este conceito apareça escrito em alguma teoria, alguma tese, algum documento de doutores do ramo ou do Iphan, do MinC. É uma bandeira enorme. As péssimas intenções aqui explicitadas são assustadoras quando se sabe que são elas que, em boa medida orientaram, embasaram uma política pública de Estado tão decisiva para a pretendia salvaguarda nossa chamada Cultura Popular.

E outra – a maior das contradições – o grupo foi classificado (ou se auto classifica) como ‘Modernista‘, mas pela fala de pelo menos um de seus membros mais assumido, ooodeeeia Mário de Andrade, o guru do Modernismo real de 1922 (aliás, fui duramente admoestado por citar o dito cujo neste ensejo). Contudo, pelo visto eles seriam adeptos da antropofagia cultural canibalista, mais ou menos como manda o Manifesto Antropófago do outro Andrade modernista (Oswald). Seriam neo tropicalistas, luso tropicalistas, Gilbertofreiristas?

E mais, acusam Mário (e por tabela o Tio) de ter sido fascista…Porca miseria! Como assim se é neles, em suas exdrúxulas proposições que salta aos olhos os resquícios de populismo e intervencionismo estatal , ou seja: Se há alguém fascista nesta história, só pode mesmo ser eles. O roto fala do esfarrapado (e isto dá um mote de ponto de jongo sensacional).

São bodes fedidos comendo a nossa grama ou são cordeirinhos pulando a cerquinha que divide a cultura burguesa da cultura popular, esta coisa indefinível que afirmam amar de paixão?

Sei não. A roda deste Jongo é que decidirá.

Estive de novo na UFRJ dia destes (agora no Ifcs) para uma mesa redonda sobre cultura popular. Depois da publicação do meu livro, de vez em quando alguém me chama para estes rituais de suposta sapiência doutoral. Cara de pau que sou, vou, sempre amarradão.

Este papo aí, a propósito está muito em evidência por lá nas salas mais academicistas também. Lá na UFRJ eles tem uma excelente Cia. De Danças folclóricas(que, inclusive dança Jongo Espetáculo). Alguns leitores devem até mesmo conhecer o trabalho daquele pessoal, presumo.

Não achei lá nenhum véio maluco colocando estas coisas que coloco aqui na mesa, pelo menos nestes termos mais radicais e ‘pomba rolou’, mas percebi que estes pontos que abordo são nevrálgicos ali também e prometem gerar muitos curtos circuitos ainda. Logo, há muitos questionamentos no ar sim

(Em tempo: Os doutos falam sem pensar. ‘Tombar‘ significa registrar na ‘Torre do Tombo” em Lisboa (velho arquivo geral de documentos coloniais), logo “Registrar‘ em arquivos públicos significa, exatamente… a mesma coisa. O uso do eufemismo não muda em nada o conceito nem as intenções).

A bananeira mágica desta roda vai crescer. À meia noite alguém comerá as brasas desta fogueira. Espero que não seja eu.

_ Cachoeira! Machado!”_

Depois a roda segue, quente. Vamos deixar os tambô quentá fogo um pouco. Depois nóis, os jonguêro tudo vorta.

Spírito Santo

Agosto 2012

O Samba Chula transnacional é a diáspora indesejada pelos ímpios. Azar o deles


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“Chula”, no meu dicionário: “Coisa vulgar, comum, impura, genérica”.

É assim: O Samba carioca (o Samba hegemônico) não nasceu na Bahia. Mas isto não quer dizer absolutamente que não tenha nascido também um Samba na Bahia. É bom que se saiba que nasceram Sambas os mais diversos por este Brasil à fora. Onde chegou africano oriundo do antigo Reino do Kongo (mais ou menos a República de Angola atual), chegou o que chamamos de Samba, este ritmo emblema, símbolo nacional enjeitado do Brasil.

É que as origens mais remotas do Samba, antes mesmo dele ter sido assim batizado, estão muito mais para trás e além da Praça Onze, muito mais para trás e além do século 19, muito mais para trás e além do Brasil até, porque o Samba, gente não nasceu no Brasil não, ora. Se liguem: A travessia do Atlântico não foi e nem seria capaz de apagar a memória cultural secular dos africanos que aqui desembarcaram. O Samba é africano, angolano da gema como, de certo modo são os milhões e milhões de pessoas que dançam e cantam ele por aí.

É sim (e você pode até duvidar). Está tudo lá no meu livro ‘Do Samba ao Funk do Jorjão.

Há muita distorção e mistificação nesta história depois que cismaram de inventar que o Samba ‘nasceu‘ no quintal de uma senhora baiana chamada Hilária Baptista (Tia Ciata), onde muitos baianos se reuniam. O improvável mito da ‘Mangedoura do Samba” como classifiquei no livro, faz parte do ciclo de propaganda negro burguesa voltada para afirmar uma suposta ”pureza” africana dos baianos de Salvador, consubstanciada em seu ‘Candomblé‘, uma religião supostamente africana, inventada aí, por esta mesma casta pequeno burguesa, neste mesmo período do século 19.

Não creem? Não gostam de iconoclastia? Porque não tentam estudar mais profundamente o assunto?

O mito vicejou, especialmente no meio da colônia de negros ricos de ascendência yoruba nagô e, por extensão, a classe média emergente de Salvador no fim do século 19, parte da qual se mudou de mala e cuia para o centro do Rio de Janeiro, liderada por interessantes e articuladíssimas figuras (entre as quais a Tia Ciata, descrita aí em cima) e o ex malê (muçulmano) Pai Abedé convertido ao candomblé que ele mesmo ajudou a inventar, figuras que, se aliando espertamente à certa aristocracia branca e poderosa (entre os quais até um presidente da República) lançou por aqui, depois de implantar em Salvador Bahia, o que ficou conhecido como “ Mito da Supremacia nagô”, a falsa ideia de que tudo que restou de africano na cultura brasileira veio da cultura, supostamente pura e superior deste baianos nagô.

(E não me esqueci do luxuoso apoio técnico de certa academia, na afirmação deste mito tão jeitosamente brasileiro)

Sério. A rua enfrente à casa ‘de santo’ de Pai Abedé, ali pelas fraldas de uma daqueles morros da área da Praça Onze, Catumbi, Estácio, por aí, nas seções de candomblé de Sábado, ficava apinhada de automóveis chics, daquela aristocracia branca esperta que mandava e desmandava nos destinos da capital do país.

Dito assim, grosso modo fica fácil entender porque pouca gente conhece este Samba ‘baiano’ aí dos vídeos (e, aliás toda a pujante cultura negra do Recôncavo, rejeitado por 9 entre 10 intelectuais brasileiros, guardados no escaninho mofado do vago ‘folclore‘ brasileiro, como coisa ‘impura‘, menor, do mesmo modo que em certas rodas – principalmente as universitárias ou acadêmicas – pouco ou nada  conhecem, realmente sobre Jongo, a Congada, etc.

Foi que tudo que não fosse ‘nagô baiano’ passou a nos ser estranho.

Bem vão vendo aí este Samba do Recôncavo. Melhor cego é aquele que quer ver.

… Bem, e vocês entenderam que este papo não tem nada a ver com religião, certo? Ah, bom….

Raphael Crespo comenta um dos vídeos e eu, contente os compartilho:

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“Tive o prazer de gravar c/ Boião e Zé de Paulo, mais Milton Primo, no Rio, primeira vez q eles saíram da Bahia p/ se apresentar e gravar. Na ocasião eu integrava ativamente o Reconca Rio no couros, pesquisa etc… antes de eu vir p/ sampa, foi a gravação q mais exigiu de mim até hj, por ironia, a mais simples.

Estamos precisando editar esse material, inclusive, tem aboios raríssimos. Qdo os coroas começaram a gritar as chulas, só pararam mais de uma hora depois, isso pq acabou nosso tempo no estúdio, rs. Mestre Boião, c/ mais de oitenta anos, tem uma chula diferenciada… ele ñ é uma enciclopédia, é uma biblioteca inteira de conhecimento e vivência dentro do samba. Sabe identificar a região do Recôncavo, de qualquer chula q cantem p/ ele, mesmo q nunca tenha ouvido.
Boião pode ficar, e já ficou mto, dias e noites no samba puxando uma chula atrás da outra, e se desafiar, se segura macho.

Boião praticamente ñ dorme, passa as noites em claro orando, acreditem, presenciamos isso. É um ser de luz, q reflete o q há de mais belo no povo brasileiro. É autêntico, ñ tem sambador igual.
Zé de Paulo fazendo a segunda, é ruim de aturar tb, é perfeito. Zé tb é história, viu. Como ele um dia disse “sou cativo do agrado”, mas ñ queira ver esse homem enfezado, trabalhou a maior parte da vida num matadouro, rs.

S/ contar o Milton Primo na viola Machete, viola de 10 cordas, praticamente esquecida no Brasil, os sambistas atuais então, me arrisco em dizer, s/ medo de errar, q a maioria esmagadora nem conhece.
Graças ao seu amor pelo samba, Milton tenta manter essa tradição no Recôncavo, ensinando aos mais jovens por lá. Poucos sabem tocar o machete tão dentro da métrica correta do samba como Milton, além de ser um cara mto ativo na manutenção da cultura do samba.
Milton tb fez o vídeo p/ imortalizar o nosso grande Boião e Zé de Paulo, do contrário meus amigos, dificilmente o povo do sul teria acesso a sua chula.

O q me entristece, é a forma como o brasil, em especial os sambistas, tratam a sua própria história, Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, etc… agora são tratados quase como os ancestrais do samba carioca! Nada contra os caras, tb admiro, mas peraí né… vamos buscar na raiz mesmo! A propaganda oficial é outra né, quem v6e de fora até pensa…rs.

No recôncavo baiano o samba ainda é quente, vários grupos estão lá mantendo tradições de família.
Vale a pena comprovar, e perceber os vultos do partido-alto carioca, o vulto de Ciata e das tias baianas, na Irmandade da Boa Morte, e mtas outras riquezas. êeeee Brasil, q ainda está por ser descobrir!

Grato por vc compartilhar c/ sua rede Spirito, valeu meu Mestre ! “

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Spirito Santo

Agosto 2012

Orgulho Mata (plantão de bobagens #02)


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Louis_XIV_of_France - Véio e pelancudo já, mas... o pezinho, a meinha e cinta liga na coxinha, "entregam"

Luiz XIV de França – Véio e pelancudo já, mas… o pezinho, a meinha, as coxinhas de fora e cinta liga no joelhinho, “entregam”

No ar: O Plantão de Bobagens

(sempre sob o patrocínio da inconsequência e da absoluta falta do que dizer)

Bobagem número 1

O orgulho

Dois conversando:

1) Aquele que reflete

_ O orgulho é como colesterol. Tem o bom e o ruim. O bom é aquele orgulho que te salva da depressão absoluta, aquilo que se chama de auto estima, amor próprio, instinto de sobrevivência, essas coisas. Você toma bordoadas da vida, enfrenta a má sorte, a má fase e segue de pé, catando cavaca mas sem se estabacar no chão.

O sujeito que tem o bom orgulho sabe que tem atributos para insistir, continuar a viver. É o cara que tem energia interior, perseverança porque acredita em si mesmo, nas poucas, mas fundamentais, qualidades do seu ser.

2) O que ouve:

_ “E o mau orgulho?””

Aquele que reflete:

_ Ora, o mau é o falso orgulho. É que orgulho mesmo, de verdade, só existe um. Acho que é como colesterol também. Acho que um dos dois devia ter outro nome. O mau orgulho é aquele que serve de capa, de camuflagem para a insegurança, pro recalque. É um dos sentimentos mais baixos que um ser humano pode sentir, sabia? Um horror.

O mau orgulho é aquele traço de caráter que faz o sujeito ser intolerante, prepotente, autoritário. Sabe os ditadores? Pois é. São portadores potenciais de mau orgulho. O sujeito não tem coragem de enfrentar os desafios da vida, se expor, competir. É um fraco. Tem como principal meio de vida, principal estratégia, colar em alguém que ele imagina que tem os atributos que ele pensa que não tem. É como um parasita. Sabe? Gruda na árvore e fica ali, sugando a seiva que a outra elaborou com tanto esforço, até secar a coitada, até morrerem os dois.

O portador do mau orgulho, na verdade, é um covarde, um doente meio psicótico. Sofreu um trauma qualquer na infância, uma dificuldade assim mais forte, geralmente uma rejeição e pronto, em vez de superar o percalço, enfrentar o problema, decide fugir por um desvio, buscar um atalho.

O que ouve:

_ Atalho? Mas e daí? Que mal há em cortar o caminho?

Aquele que reflete:

_ Ah. Pensa, cara! Você vai descobrir que o problema é que o atalho do mau orgulhoso é maquiavélico, se baseia em ser uma sombra, um duas caras, sabe como é? Ou então ele te persegue e passa como um trator por cima de você, te atropela sem nenhuma hesitação. Ele pode ser um cara muito nocivo, sabia? Porque, ele é basicamente um egoísta. Quer um exemplo?

O mau orgulhoso tem pavor que a sua personalidade insegura seja percebida por alguém. O que ele faz? Fica autoritário, não deixa ninguém falar. Os bom orgulhosos mais experientes sabem como agir nestes casos, largam ele de mão, falando sozinho mas, os menos avisados, geralmente mau orgulhosos também, se juntam em torno dele como mariposas na lâmpada, criando as condições para ele exercer sua prepotência.

Você pode não saber mas, grandes flagelos sociais já foram perpetrados por verdadeiras hordas de malucos mau orgulhosos. O racismo, o nazismo, essas coisas, geralmente são gerados na cabeça de um doido desses. O cara foi chamado de feio, de orelhudo no colégio e pronto. Guarda aquela mágoa á vida inteira, é capaz de almejar obstinadamente a presidência da república só para poder provar que os “Orelhas de Abano” são superiores a todos os outros. O cara pode mandar exterminar todos os “Orelhas Pequenas” só por causa desta sua covardia infantil.

O que ouve:

_ Você tá maluco!

Aquele que reflete:

_Tá bom. Vai dizer que você nunca teve um amigo, um conhecido assim? Uma namorada,? Um chefe? Eles te levam a loucura, cara. São críticos agressivos, especialistas em descobrir seu pontos fracos para minar sua autoestima. Para quem é religioso, são como o diabo tentando convencer Deus a fazer algumas maldades. Tudo pra te espezinhar, te diminuir, sim, por que, o maior temor deles é ter que se defrontar com um bom orgulhoso que tope a briga e acabe descobrindo sua fraqueza.

O mal é que os bons orgulhosos costumam ter uma generosidade enorme, bem babaca e acabam sendo compreensivos demais, perdoando as armações desses malucos. Senão, não ia ter jeito, haveriam guerras majestosas entre os orgulhosos dos dois lados.

Podes crer.

Spirito Santo

(Dia deses, por aí.)

Titio in mandarim


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Sim, sim: Titio em mandarim

Foi ontem, assim de repente. O diretor do Departamento Cultural da Uerj me convocou para recepcionar um grupo de estudantes universitários da China.

A missão era mostrar alguma excelência do trabalho da universidade na área da extensão e cultura.

Eram 50 chinesinhos e alguns professores. Os melhores alunos de várias universidades do país cujo bônus acadêmico foi vistar universidades do Brasil. Disse me o diretor, Ricardo Lima que uma aluna de música chinesa, de certo confundindo Brasil com a África (no que até que tinha razão) se lastimou por não ter visto ainda nenhuma marimba por aqui. Dica ideal para o diretor exclamar:

_” Pois então você vai poder ver e ouvir marimbas hoje e aqui mesmo!”

São as idiossincrasias do Tio: Ensinar as pessoas fazer – entre outras coisitas musicais – marimbas neo africanas no Brasil. Bem que podíamos ter marimbas pelas ruas sim, mas sabem como é, africanos escravizados, ih! Não dava para explicar rapidinho em mandarim.

Até que me desincumbi bem da feliz missão. Havia um tradutor e os estudantes e professores todos falavam algum inglês. Fiz um improvisado workshop para os entusiasmados chinesinhos, enlouquecidos com a escala das marimbas do Musikfabrik, por causa das escalas pentatônicas que uso nelas, tão parecidas com escalas orientais:

_”Mais aqui não é dó-ré-mi-fá-sol-lá-si-dó?” _ Perguntava um, insistentemente em inglês. _

“_É, mas isto aí é música europeia. Uso escalas africanas por aqui. A referencia é a música africana. As escalas são parecidas com as da China, certo?”_ tentava responder eu, de minha parte, naquele meu inglês roto e esfarrapado da Praça Mauá.

Piraram mesmo foi com o Ungotronic, meu unicórdio duplo, slide, eletrônico, que todo mundo insiste em chamar de berimbau, no qual eu tive que fazer um solo retumbante, um ‘baião funk pesadão’ que arrancou aplausos da chinesada eufórica.

No fim do sino furdunço, fiquei por instantes ruminando as minhas queixas mais recorrentes para com a elite do Brasil. Ora, a China cresceu rápido no mesmo embalo histórico em que estava o Brasil, os países BRIC emergentes (depois BricS) virando o eixo da ordem econômica mundial de cabeça para baixo, a longa crise assolando o 1º Mundo, com o 3º, aí já com a burra cheia da grana que migrou pra cá e pra lá, cantando Oba oba! Uh Lalá!

Bem, estamos vendo hoje mesmo na TV o desempenho da China nas Olimpíadas, não é não? Visível o formidável esforço que o governo comunista chinês (comunista? Heim?) fez nos esportes. Dá para lembrar ainda daquela China rural, comunista e feudal, mulambenta, quase faminta de 15, 20 anos atrás.

A visita dos 50 chinesinhos no Musikfabrik da Uerj sugere, também visivelmente que a China investe pesado em Educação. A China, esperta virou o mundo de ponta cabeça enquanto que o Brasil, que estava ali na mesma frente da fila fez o que?

Hum! Deixou uma casta e ladrões, capachos da elite de sempre, se apossar dos cofres do Estado e da República.

Cumprimentando os chinesinhos um a a um na saída, ouvi de todos um ‘obrigado‘ sorridente, feliz e sem sotaque. Estavam bem vestidos e bem nutridos, todos com máquinas fotográficas de ponta, algumas até profissionais, alegres bons vivants de país bola boa da vez. Enquanto isto, o Brasil vai perdendo dia a dia posições no que seria o seu grande salto para a frente, entretido, de norte a sul pelo julgamento de ladrões de leite de criancinhas.

Ai, que vergonha!

Spirito Santo

Agosto 2012
(Mês e ano da minha honrosa terceira idade)

‘Xaxá de Ajudá’ e a ‘mancha branca’ da nossa escravidão


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Francisco Félix de Souza , o Xaxá de Ajudá e Giuseppe Garibaldi em retratos quase gêmeos. Como assim?Garibaldi é mesmo este barbudo aí da direita, mas será que este da esquerda é mesmo o Xaxá?

Francisco Félix de Souza , o Xaxá de Ajudá e Giuseppe Garibaldi em retratos quase gêmeos. Como assim?Garibaldi é mesmo este barbudo aí da direita, mas será que este da esquerda é mesmo o Xaxá?

A ‘desmiscigenação’ ou o denegrir como paradigma do anti heroísmo escravista

…Quando foi fundado nos anos 70, o Quilombo tinha em seu estatuto a obrigação de pesquisar a história dos negros e exaltar seus personagens. A escola teve como enredo nomes até então pouco conhecidos, como Preto Cosme, João Cândido, Luiza Mahin e Luiz Gama.

…Candeinha (compositor de samba) compreende e defende os compositores da antiga: “A informação era ruim. O que sei hoje consegui a base de muitos seminários e leitura”.

Em 1984, seu samba venceu a disputa no Quilombo que tinha como enredo a Rainha Agotimé (tema levado pelo Beija-Flor para a Marquês de Sapucaí em 2001). Antes de ler a sinopse de “O Xaxá de Ajudá e a Rainha Mina do Maranhão”, ele nunca havia escutado falar na monarca africana que foi vendida ao Brasil como escrava e instituiu a prática do vodu no Maranhão.“

…Se as letras pecavam às vezes pela superficialidade e pela infidelidade ao contexto histórico, devemos levar em conta a época em que foram cantadas na avenida. Falamos de um tempo em que a bibliografia sobre o assunto era precária e os compositores tinham como fonte de informação os livros didáticos das escolas, que hoje, como sabemos, deturpam e omitem fatos básicos da história da África, como o fato do Egito fazer parte do continente.”

(Thales Ramos e Thiago Dias)

Xaxá…Xaxá? Quem já ouviu falar deste cara?

Volto ao Xaxá, instigado agora por uma pesquisa sobre as implicações do assunto tráfico de escravos, com a história de certa gente negra, que ex escrava, quando liberta, enriqueceu muito como comerciante de coisas e lousas, algumas – cala-te boca – diretamente ligadas ao tráfico de escravos africanos. Acho um mistério absoluto como esta casta de gente negra rica desapareceu completamente do Brasil, sem deixar nada senão vestígios esparsos.

Não? Não querem que se volte a tocar em velhas chagas? Pois toco sim…

(Negros ciosos de sua história de pobres excluídos não gostam muito de ouvir falar que existiu e existe também muita gente negra – ou que se faz passar por negra, ou mulata, sei lá – que não presta, não vale o pão que come ou comeu. Mas não tenho escapatória porque, foi neste mesmo contexto aí que decidiram maquiar o ‘Xaxá‘, logo… relaxem. Lavemos logo toda esta roupa suja. Acontece nas melhores famílias.

Francisco Felix de Souza, cujo apelido dizem ter sido ‘Chachá‘ porque pedia para as pessoas esperarem algo dizendo enfático que já as atenderia…“Já já!” (divulgo esta versão porque é a única, mas cá entre nós, eu também acho ela bem inconsistente) era, tecnicamente um português.

A primeira vez que ouvi falar de Xaxá de Ajudá foi nesta época ai de cima, por volta da segunda metade dos anos 80, naquela onda boa que se seguiu à fundação do Grêmio Recreativo Escola de de Samba Arte Negra Quilombo, a GRANES Quilombo do Candeia, Nei Lopes, Wilson Moreira e tantos outros bambas lúcidos, se reunindo num esforço bem bacana para romper o baixo astral anticultural da torpe ditadura militar brasileira. O samba dos mais mobilizados e conscientes (havia um conformismo pesado no meio das escolas de samba convencionais) mandando ver o seu descontentamento em seu próprio terreiro.

Xaxá de Ajudá e a rainha Mina do Maranhão foi um dos enredos lançados pelo bamba e diretor da Quilombo Nei Lopes para o desfile de 1984. Acho que eu, interessado em, quem sabe – não me lembro bem – entrar também na disputa do samba, cheguei até a pegar a apostila do enredo (devo tê-la guardada em algum lugar, sei lá onde) com o enunciado do tema que acabou tendo como vencedora a composição de Neguinho Jóia, Feliciano Pereira e Henrique.

E a letra? Alguém sabe aí a letra deste samba?

(Já fuçei no google. Não encontro a letra do samba, em lugar nenhum Nem mesmo o enunciado do enredo eu encontrei ainda. Acho que uma hora destas tomo coragem e peço diretamente ao Nei Lopes.)

O enredo, pelo que me lembro, baseava-se na pesquisa de Pierre Verger, que defendia a hipótese de que a Casa da Minas, templo principal do culto do Vudu no Maranhão, teria sido fundada por Na Agotime, da família real de Abomé, esposa do rei Agonglô (1789-1797) e mãe do Rei Ghezo(1818-1858) , vendida como escrava por Adandozan, seu irmão (suposto usurpador ) que ocupou o trono do Dahomey após o falecimento de Agonglô). Xaxá foi um dos personagens centrais desta história eletrizante, pois foi amigo de fé irmão camarada de Ghezo, tendo sofrido – e gozado – a paga por esta fidelidade canina ao futuro rei.

Nasce daí, suponho toda uma mitologia no meio do movimento negro brasileiro atribuindo a Xaxá simpáticos atributos de comerciante brasileiro mulato, que foi uma espécie de rei africano. História inventada, sabem como é. Quem conta um conto sempre aumenta um ponto.

Deste pouco que me recordo, portanto Xaxá, um suposto mulato bem sucedido, que ‘fez’ a África era pintado no enredo com cores um tanto brandas, panos quentes bordados com lantejoulas. Juro que não lembro bem, mas a impressão que me ficou foi a de que ele era descrito até como um cara do bem, gente boa, digamos assim.

Apenas de passagem, pela impressão que ficou, se dizia apenas que ele ficou rico ‘como comerciante’, e nem me lembro se o fato de sua fortuna ter tido origem na sua sórdida ocupação, como traficante de escravos foi mesmo citada. Se houve, a citação ao fato foi apenas circunstancial, quase como se ele tivesse sido mesmo um herói exemplar de nossa tão vadia negritude. Pintaram o Xaxá branco de mulato, pois, na intenção de entronizá-lo como herói de nossa ‘consciência negra’ e nossa carnavalesca África idealizada.

A razão me aparece bem clara agora: Queimar o filme de Xaxá, tão ligado que estava ele, carne e unha, com a nobreza do Dahomey, seria queimar toda aquela inefável africanidade sacrossanta do Benin mítico. O buraco era no entanto bem mais embaixo:

…Para os governantes do reino do Daomé (antigo nome do Benin), o comércio de cativos era um projeto econômico oficial, de desenvolvimento comercial e fortalecimento de um Estado. Esse ambiente foi favorável à chegada de brasileiros dispostos a trabalhar como negreiros, entre os quais o lendário Francisco Félix de Souza.

A trajetória de Souza ganhou ares de folhetim quando ele foi preso pela petulância de cobrar uma dívida do rei Adandozan (como castigo, consta que o rei ordenou que o prisioneiro fosse mergulhado várias vezes ao dia em um tonel de índigo para que sua pele ficasse escura).

(por Ronaldo Ribeiro. Fonte: National geographic Brasil)

(Não era preto, nem branco, nem mulato. Nem preto nem mulato ficou. Virou branco. Não gosto mesmo de ‘história oficial’, inventada como esta então…)

É que eu queria passar aqui uma visão mais cheia de nuances desta imagem sempre edulcorada de Xaxá – esta do enredo de samba – para daí enveredar pelos mistérios  mais soturnos deste Francisco Félix de Souza que, pelo pouco que li, à vera mesmo, era mesmo um ser humano execrável, muito mais canalha que herói, mas mesmo assim um personagem fascinante.

Ai como queria ver o Xaxá mítico, vestido de rei, correndo atrás do Xaxá nú, sem maquiagem. Ah, como queria poder humanizá-lo, torná-lo algo perto do Xaxá… real.

E segue a história oral de Xaxá:

…Nesse ínterim, porém, o baiano fez um pacto de sangue com o príncipe Gakpé, que cobiçava o trono. O irmão caçula do rei ajudou na fuga do brasileiro em troca de seu apoio em um golpe que, por fim, destituiu Adandozan. Souza entrou para a nobreza: foi consagrado vice-rei de Uidá. Ganhou um título honorário inédito, o de ‘Chachá’, e o direito de monopolizar o tráfico de escravos no Daomé.

…O Chachá (aí já se referindo aos Chachás modernos, do século 20) arbitra os conflitos que não implicam em crime de sangue e disputa de propriedade. Além disso, ele tem certo peso eleitoral e é a referência maior de uma identidade cultural, os agudás”, diz Milton Guran.

(por Ronaldo Ribeiro. Fonte: National geographic Brasil)

(E aqui, num preâmbulo em verdade em verdade vos digo: não me interpretem mal e não me torrem o saco: Muito bem sei que isto aí de estabelecer o real é coisa impossível de ser feita, mas o anseio de fazê-lo apaixona qualquer curioso contumaz feito eu. Vejam bem que é desta ansiedade curiosa que a história humana, mal ou bem, vive.

É que andaram dizendo por aí alguns doutos amigos, pejorativamente concluí, que o Titio é um ‘essencialista‘ enrustido e incorrigível, fazer o que? Sabem lá o que é isto? Filosofia numa hora destas? Refletir se as coisas são ou apenas aparentam ser  com o chicote das ambiguidades de Xaxá no quengo?  Se eu penso que Xaxá é assim como o descrevo, logo este meu Xaxá existe, ora. Quem quiser que imagine outro, sei lá.

Conversa para mais de metro de instigante, não é não? mas só para os que entendem a graça de piadas feitas de sutilezas e ambiguidades. O Xaxáessencial‘ ou o Xaxáexistencial‘? Qual dos dois seria o Xaxá real? Será que existiu mesmo um Xaxá… real?

O certo é que, da parte que nos interessa, Xaxá não é, de modo algum isto tudo aí de bom que disseram. Xaxá, gente de Deus, mesmo na dimensão embaçada de sua história de ‘homem de seu tempo’, a mim parece ter sido um ser humano para lá de asqueroso.

Xaxá na Internet 01:

…Filho de índia com português (nota: e aqui reside a primeira ambiguidade na biografia de Xaxá), Souza nasceu na Bahia, em 1754, e desembarcou no Daomé, acredita-se, em 1788. Escrivão e contador do Forte São João Batista de Ajuda, em Uidá, logo tornou-se mercador influente – dependia dele a entrada ao reino de produtos como pólvora, fuzis, cachaça – e galgou a aura de mito nos relatos de viagem da época, alardeado por manter 2 mil escravos em seus barracões, ser pai de 80 filhos homens (não houve contabilidade de filhas) e gozar de sua fortuna em festins cercados das mais belas mulheres e de vinhos, iguarias e roupas finas importadas de Paris, Londres e Havana.

(por Ronaldo Ribeiro. Fonte: National geographic Brasil)

Ou:

Era filho de um português traficante de escravos e de uma escrava. Aos 17 anos foi alforriado. Entretanto, seus descendentes o retratam atualmente como se fosse muito branco e louro. O mais provável é que tenha sido um mestiço indefinido.”

(Fonte Wikipedia)

Sem jeito neste torvelinho de disse me disses, fico e partilho com vocês, por enquanto, apenas esta vaga impressão de que o Xaxá retratado como um mulato comerciante de escravos que virou uma sumidade no Reino do Dahomey, como uma espécie de primeiro ministro, quase rei, existiu sim, se pode afiançar, mas ninguém sabe bem como era mesmo a cara dele, porque ninguém disse ou registrou o que viu.

(É que a forte desconfiança de que inventaram um retrato pintado dele baseado na aura heroica do aventureiro italiano Giusepe Garibaldi nunca me abandonou)

A grande contradição que permanece, contudo é que, mesmo se ele tivesse sido um branco (e reparem: não há nenhuma evidencia desta história aí dele ter sido mestiço), ele se perpetuou mesmo foi como se negro fosse e, ainda assim, nesta perpetuação de sua negritude tão improvável, desta sua desmiscigenação tão inusitada, evidenciada por sua descendência, ele na verdade muito menos que honrar, denegriu, vilipendiou a sua nova ‘raça‘, ensinando, repassando a execrabilidade de sua profissão de traficante de escravos aos descendentes negros, que se dedicaram também, diligentemente, tanto quanto ele, ao sórdido negócio do contrabando de carne humana.

Se liguem: Xaxá foi, portanto o decano, o maior de todos os piratas sangrentos do comércio de escravos da África Ocidental para as Américas. Xaxá foi o cão odioso contador meticuloso de cargas humanas a serem despatriadas para as Américas. No Dahomey no século 19 ele foi uma espécie de agigantado ‘Sebastião Curió ‘ (como aquele tenente que ganhou o direito de pelar a Serra dourada, sugando e chicoteando garimpeiros, como paga por ter matado em emboscadas covardes, a serviço da ditadura militar um punhado de guerrilheiros no Araguaia).

Traficante de almas e estuprador da história, é isto que o Xaxá foi.

E como ele, muitos outros supostos heróis de nossa negritude (como negros ‘de escol‘, de ‘elite’) também foram escrotos traficantes de escravos. A história da África Ocidental desta época aí, até o século 19, está cheia de nomes de negros, africanos ‘da gema’ ou descendentes diretos destes, que enriqueceram como ‘comerciantes‘ (traficantes) de escravos.

Bairrismos à parte, convenhamos que a maioria destes traficantes negros, presume-se, era composta por gente nagô (yoruba) estabelecida em Salvador, Bahia e em Lagos, Nigéria. Vocês se surpreenderiam com a quantidade deles, principalmente com aqueles que acabaram desempenhando proeminentes papéis na invenção e na fundação do Candomblé no século 19.

Cala-te boca. Melhor por hora, deixar pra lá. Fiquemos com o Xaxá. bode expiatório desta galera toda, escondida debaixo do tapete de nossa ainda rasa “consciência negra”.

Xaxá na Internet 02:

…Francisco Félix começou a negociar na região atuando como traficante de escravos, a mesma profissão que tinha sido exercida por seu pai. Entretanto, como chegou na África praticamente em estado de miséria, alguns relatos dizem que entrou no negócio de tráfico de escravos levado pelo seu sogro Comalangã, régulo da ilha de Glidji, na localidade de Popó, e pai de sua primeira esposa, Jijibu ou Djidgiabu…”

O mais incrível, o profundo, o mais…emblemático aspecto de toda esta conversa, é mesmo o sentido recôndito e perverso da ‘desmiscigenação‘ de Xaxá, uma espécie de paradigma da alma social brasileira dada a tantas – e, às vezes, tão inescrutáveis – ambiguidades.

O que mais me impressiona nessa cultura agudá – a cultura dos descendentes de brasileiros no Benin atual – é o fato dela existir. Ou seja, de antigos escravos terem usado a memória da escravidão, do tempo de vida no Brasil, para construir uma nova identidade”, diz o antropólogo e fotógrafo Milton Guran, autor do livro “Agudás, os brasileiros do Benin”, e pesquisador do Centro de Estudos Afro-Asiáticos e professor do Instituto de Humanidades da Universidade Cândido Mendes, no Rio de Janeiro .”

(Fonte: National geographic Brasil)

Pois bem, Xaxá (que ao que tudo indica e como vimos, de negro ou mesmo de mulato tinha quase nada) é a ponta suja da meada de toda esta simpática história dos ‘Agudás‘.

Queria comparar a imagem deste ícone de nosso passado escravista com a magnífica imagem deixada por ele na África, onde se transformou, a si e a toda sua descendência, numa verdadeira etnia africana, uma estirpe real, negra sim (a despeito de sua origem de ‘Souza‘ ser tão alvamente portuguesa), uma dinastia com ampla influencia política no velho Daomé, hoje Benin até os dias de hoje. Sim, sim: Os ‘Souzas‘ descendentes do Francisco Félix de Souza são a origem genética do povo ‘Agudá” do Benin.

Os agudás se conservam sociologicamente católicos e brasileiros[…], à sombra do culto da família e da casa organizada em torno da mulher e da monogamia…

(Gilberto Freyre)

Meninos seguem um cortejo carnavalesco diante do muro com um cartaz que lembra Paul Emile de Souza, 'agudá' que foi presidente do Benin durante curto período. Outro 'agudá', o monsenhor Isidore de Souza, articulou a transição de um regime totalitário marxista, que durou 18 anos, à democracia no começo dos anos 1990. Eles e mais uma penca de ilustres membros da família 'Souza' são descendente diretos de Xaxá de Ajudá.

(Meninos diante de cartaz com Paul Emile de Souza, ‘agudá’ que foi presidente do Benin durante curto período. Outro ‘agudá’, o monsenhor Isidore de Souza, articulou a transição de um regime totalitário marxista, que durou 18 anos, à democracia no começo dos anos 1990. Eles e mais uma penca de ilustres membros da família ‘Souza’ são todos descendentes diretos do ‘branco’ Xaxá de Ajudá. foto Ricardo Teles)

Vão vendo aí. Conferindo:

Xaxá foi um branco que se unindo à reis negros que vendiam outros negros, acabou pintado pela história como se mulato fosse.

Xaxá foi aquele branco que se amasiando com negras africanas, teve dezenas de filhos, mulatos, os quais, no embalo de sua descendência foram se tornando negros, cada vez mais negros, inaugurando e perpetuando por fim uma dinastia negra ‘legítima‘– uma etnia – ‘autenticamente’…africana.

Xaxá é então o exato inverso do sonho de Graça Aranha, a mais perfeita ‘destradução‘ de seu romance Canaã no qual a importação de emigrantes europeus, a miscigenação e a extinção por morte fariam com que os negros desaparecessem do Brasil em… um século).

Xaxá é a desmoralização descarada do ‘elogio à mestiçagem’ teoria civilizatória eugenista e esquizofrênica, adorada em segredo pela maioria dos antropólogos do Brasil.

Xaxá é isto e aquilo (ou não), mas nunca é (ou foi) o que parece. Xaxá é a teoria do ‘desembranquecimento‘ atropelando a mestiçagem do “Esquenta” da Regina Casé e do Hermano Vianna, na prática, bem antes de existir a ‘antropologia plim plim‘ da TV Globo.

É! Podes crer!

Xaxá foi o suposto branco que em 100 anos, por aí, conseguiu transformar em negra retinta toda a sua descendência, transformando assim a marca ‘Souza”, ao mesmo tempo em emblema e estigma, marca registrada e cicatriz de sua insidiosa atividade comercial, alçada à condição de inusitado prato frio da vingança (como anti propaganda que é do racismo instalado no Brasil pela escravidão) inesperada garfada de degeneração.

Xaxá de Ajudá (espécie de símbolo dos brancos racistas do Brasil) foi o traficante de si mesmo. Era – e é – a cara feia do Brasil, esse babaca preto de alma branca.

Ah! E chega de lero lero metafísico porque senão…os ‘anti essencialistas’ piram!

Spirito Santo

Agosto 2012

Culturalist’s Musings: “Africa 21 interviews Spírito Santo”


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Titio é mesmo fogo na canjica. Olha ele e seu livro aí em Nova York, gente!

 

 

 

 

 

Negara Akili Kudumu é uma produtora cultural  novaiorquina com quem o Titio negociava em 2012 a busca de uma editora por lá para tradução para o inglês para o meu livro “O Samba e o Funk do Jorjão”.

Esta entrevista aí, traduzida por ela, saiu no seu site nesta ocasião. Foi realizada pelo Jornalista João Belizario e pelo que soube, teve boa repercussão na Europa. Com a segunda edição do livro já na praça (www.rosasewspiritos.wixsite.com)!nada melhor que retomar os esforços.

Very nice!!!

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Culturalist’s Musings. África 21 interwiews Spirito Santo

Negarra Kudumu

on August 3, 2012 in Culture, Race & Identity

The text below is the English translation of an interview with the aforementioned Spírito Santo conducted in March of this year by João Belisário for the Angola based magazine Africa 21. To read the article in its original Portuguese, click here, and scroll down to the Orange bold letters that say Spírito Santo, especialista de música afro-brasileira.

Spírito Santo – The origins of Samba

An exclusive interview by João Belisário, Rio de Janeiro for ‘África21′Angola – March  2012

Educator, researcher, writer, artist specializing in Afro-Brazilian music and musical craft (organology), visiting professor at the State University of Rio de Janeiro, where since 1995 he coordinates the university extension project Musikfabrik, the Brazilian Spirito Santo (Antonio José do Espírito Santo), 64, is still a person who does not accept the truths established without question, no matter who it hurts.

África21. The title of your book, Do Samba ao Funk do Jorjão, points to a relation between samba and funk? What is this relationship?

Spírito Santo: Yes, there is a strong relationship but it is more subtle than it seems. Both samba and funk are diasporic music genres and brothers. They are a type of urban synthesis of traditional music that came from Africa to the Americas: work songs, blues, American ragtime and things like the polka performed by the Oito Batutas band and Pixinguinha here, the work songs here and there (United States) all of which came from rural genres like jongos, congadas, vissungos, etc. The relationship is very close: one history that can not explained without the other. This appears clear in the evolution of Rio de Janeiro samba.

África21. In the book (“Do samba ao Funk do Jorjão”, 2011) you question some established truths regarding the origin of samba…

Spírito Santo: Samba as we know it, was very probably born from traditional jongo (a sociocultural manifestation of enslaved Africans from the Congo-Angola region brought to the coffee plantations in Rio de Janeiro). From the conclusions of my research, samba’s seminal rhythm would have originated from other musical genres of present day Angola such as kaduke, which is a dance that was in style in Mbaka (Ambaça) at the time of Capello and Ivens (mid 19th century). Enslaved Africans brought from Angola in the final years of slavery brought in their memory this dance, generically known here as batuque (and the music to which it corresponds). My theory, is in part, based on the opinion of Angolan experts like Mário Rui Silva e Liceu Vieira Dias, of ‘Ngola Ritmos’, for example.

África21. But there are other explanations for this origin…

The confusion that they created here within the scope of our urban music, was born from the fact that the word samba, a phenomenon typical of urban popular culture or of the mass that was born in that period, was becoming a very strong brand for the nascent Brazilian phonographic and radiophonic market as a synonym for ‘Black Popular Music’, in a period in which the mainstream, the concept of  ’music to sell’, also established it’s initial market strategies.

The fact is that the rhythm that  avenged itself and that won the dispute in order to be finally baptized by the market forever as samba, ended up not being the new maxixe practiced in the Praça Onze da Tia Ciata by popular elite musicians such as Pixinguinha, Donga, etc., but rather a fusion of Congolese-Angolan rhythms brought to the Court after slavery was abolished, by Blacks originating from the exodus that affected the coffee plantations at the end of Brazilian slavery. I believe that it is in the area of Cais do Porto, where these discharged Africans ex-slaves from coffee plantations ended up working as porters and therefore the “true” samba rhythm, as we know it, is fermented and crystallizes.

África21. Do you believe it is possible to determine the exact location, the physical space, the cradle of samba?

Spírito Santo: I don’t think so. What happened was that Praça Onze, a residential and bohemian area of the Black middle-class of Rio at the beginning of the 19th century ended up being elected by the Rio de Janeiro intelligentsia (chroniclers, journalists, etc.) as being the place of superior Black people, a type of colony of refined Blacks coming principally from Bahia.

The historiography of samba, according to my reasoning,  would have lost the focus of the question, which was concentrated in an official history of samba restricted to this limited Bahian area, underestimating the others (mostly Bantu) which ironically is exactly the matrix, the root from which samba “de facto”, was actually born.

África21. The seminal rhythm of samba would have had as its origen the remote rhythms of what is known as present day Angola. Why would this have happened?

Spírito Santo: The reasons for this ethnological branding of samba, for me are, in the first place, a geo-commercial logic of the transatlantic trafficking that prioritized the kidnapping of people to Brazil from the ancient Kongo Empire (and not Yoruba-Nagô people, from current day Nigeria, as a majority – contrary to all historical evidence – still believe) and in the second place the specificity assumed by social stratification in Brazil – in Rio de Janiero and Salvador especially –  that are characterized by the isolation of Blacks who are descendants of those enslaved Africans in ghettos, suburbs and favelas or in peripheral areas separate from the the middle class other upper economic echelons (whites), making it possible in these isolated communities the maintenance of ancestral habits and the creation of a specific culture with strong markers of its African origin.

In other words, ironically if there wasn’t racism in Brazil, maybe samba wouldn’t exist. As such the book attempts to tell, with the maximum amount of evidence possible, all of the details of evolution of the samba genre – that is far more complex than I have narrated here – inserting it’s history into the historical social context.

África21. And then what does the “samba do Jorjão” represent in this evolution?

Spírito Santo: Here it is. Jorjão was the head of a drum section that, with much boldness, mixed samba and funk in a samba drum performance in the 1997 parade, directing the Samba Unidos do Viradouro school. Jorjão sensed the time line and the “Afro-Diasporic” relationship. It was reviled by the traditionalists. I sat in the jury and gave him the highest mark and I was punished and ousted from the Samba-Liesa School League jury. I used Jorjão’s emblematic performance as the concept for the entire book.

África21. In the end, is there any difference between samba and the Samba School?

Spírito Santo: The Samba schools and samba are two very distinct entities. Very few people realize this but the Samba schools were previously Carnival Revelries, something that is remotely connected to Bahian “Pastoris” which originated from the Lusitanian “Lapinhas” that were very popular in Salvador, Bahia and in the rest of the Brazilian northeast at the beginning of the 20th century . The general form of the school parades is, even today, that of modernized Pastoris. It occurs that the soundtrack of these parades, that was in the past waltzes or marches with an European accent, was exchanged in the 1930s for the samba rhythm and from that point it became hegemonic, the official music of the parades. In other words, indeed, samba is musical aspect of the parades (and choreographic also, of course). What’s curious is that those who brought all of this to the Rio Carnival – including the Lusitanian influences – were Black Bahians, the same people who created Candomblé.

Samba is for me, thus genetically Congolese-Angolan, with a few Yoruba-Nagô rhythmic ingredients that come from Candomblé, added to other diverse and disperse  general influences of Black music from the Diaspora, with accentuated markers of Black North American music included. 

África21. The book questions, in another aspect, the official story of the origins of African culture in Brazil?

Spírito Santo: What the book questions most vehemently is that the obvious African origins of a large part of Brazilian culture are not mostly Nigerian (Nagô) as it is consistently claimed, but to the contrary, Bantu or Angolan. In samba there are also clear influences from Black North-American culture – the thesis of the Diasporic character of samba that I emphasized – which is also very much negated in the official thinking that vehemently denies this influence due to questionable xenophobic nationalism.

I question this “Nagô supremacy” in a radical manner. This is, moreover, the core of the debate that the book proposes. I try to place in the debate the proposition that the history of Blacks in Brazil and everything else that falls within this area needs to be completely and urgently revised. It is an ancient and very grave ethnological distortion because it contaminated everything in the area of our social sciences with its subtly racist bias. The process by which this distortion was constructed over time, by various agents, appears very clearly in the book.

Ironically, if there hadn’t been racism in Brazil, maybe samba wouldn’t have existed. I try to place in the debate the proposition that the history of Blacks in Brazil and everything else that falls within this area needs to be completely and urgently revised.

África21. Where, then, is there more evidence of the Yoruba-Nagô contribution to Brazilian music in general?

Spírito Santo: In the music of Candomblé, which is Brazil is very beautiful but is restricted almost entirely to the liturgy, to the religious ritual. It is necessary to stress that the urban popular music of Salvador, Bahia and of its Recôncavo (with the exception of the more traditional afoxés) is predominantly Bantu, with emphasis on Samba de Roda and Capoeira.

A Life’s Work

Ex-political prisoner, he was incarcerated more than two years in the dungeons of the military dictatorship; son of a father directly descended from Angolans in the 19th century, they were brought to Minas Gerais; with more than 40 years dedicated to music, Spirito Santo resolved to place on the market the fruit of his research launching his first book Do Samba ao Funk do Jorjão, an ethnomusicological essay that brings many unpublished regarding the origins and meanings of samba, the rhythm that defines in large part the soul of the Brazilian people.

Spirito Santo is in truth a researcher that always was at the forefront of the struggle for the salvation of history and cultural values of the population of African origin in Brazil. It has been more than 30 years since he created the musical group Vissungo and with it carried out a broad research about African traditional music in southeastern and northeastern Brazil, he persists with this project that has marked his entire life.

Despite having planned a publication for other essays, Spirito Santo is currently occupied with resuming field research about work songs of enslaved Africans working in mines who came from Angola to Minas Gerais in the 19th century in order to realize a documentary that will have to filmed in Brazil and Angola.

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A Culturalist's Musings

O Reino é do Kongo, mas o Congado é do “Rosário de Maria”


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Os terços de rezar, os quartos do purgatório e os quintos dos infernos.

…Em 1444 dá-se a primeira venda pública de escravos em Portugal. Assim, um triste efeito secundário das explorações do infante seria a participação da Europa no comércio de escravos da África Ocidental, um tráfico cruel que viria a florescer realmente depois de Cristóvão Colombo descobrir as Índias Ocidentais, onde havia carência de mão-de-obra.

A ilha de Arguim foi alcançada em 1443 e a 8 de agosto de 1444, escreve Gomes Eanes de Azurara na sua “Crônica dos feitos de Guiné” (1453), realizou-se o início da venda pública de escravos, em Lagos (Algarve), na presença do Infante D.Henrique, o impulsionador das expedições africanas.

Este texto  (e o site como um todo) é realmente fantástico. A melhor e mais completa fonte de dados que já li na vida (!) sobre cultura negra do Brasil (me refiro a parte omissa, a que costumo chamar aqui, gozando os ímpios ‘anti essencialistas’, de ‘cultura negra brasileira REAL)

Já tinha comigo a maior parte dos dados expressos no texto acerca da história remota do Reino do Kongo porque fiz pesquisa   numa ralação sem fim no meu livro, garimpando em sites, teses e livros portugueses, holandeses e angolanos.

Chato reconhecer, mas quase nada havia sobre o tema no Brasil.

Já possuía também dados esparsos sobre a relação – que sempre supus ou intuí ser direta e vou vendo que tenho razão – entre as festas populares afro mineiras e do sudeste do país em geral (Congadas, Jongos, Ticumbis, etc.) e a história efetiva de Angola e do afro catolicismo bakongo de Kimpa Nvita, tema que sei ser ainda muito novo e desconhecido por aqui.

…A origem da devoção a Nossa Senhora do Rosário remonta ao século XIII tendo se propagado através de São Domingos Gusmão para quem a virgem teria aparecido e entregado um rosário em 1208 na Igreja de Prouille, França. Segundo Cota e Souza (2007: 1-5) há registros de que o Papa Pio V teria pressentido no ano de 1571 a vitória dos cristãos sobre os muçulmanos na Batalha de Muret, fato que veio a confirmar-se como verdadeiro implicando na construção de um santuário dedicado a Nossa Senhora da Vitória.

Em 1572, por ocasião de outra vitória cristã, desta vez na Batalha de Lepanto, o Papa instituiu a festa de Nossa Senhora da Vitória como uma celebração litúrgica para que pudesse ser comemorada todos os anos na data de aniversário do acontecimento, 7 de outubro. Em razão de naquele mesmo dia haver sido feita uma procissão do Rosário na Praça de São Pedro, em Roma, solicitando o sucesso da missão da Liga Santa contra os turcos otomanos no oeste da Europa, Nossa Senhora da Vitória foi então denominada Nossa Senhora do Rosário.”

Ou seja toda uma historiografia omitida no Brasil por conta do estúpido e recorrente ‘nagoísmo‘ de nossas…ciências sociais, que inventaram uma incrível antropologia do negro do Brasil desestoricizada (ê palavrinha!), esvaziada, descolada enfim de qualquer referência histórica como um pé de repolho sem pai nem mãe (alguém aqui já viu algum estudo relacionando a história política da Nigéria ao Candomblé nagô? Pois então? É a carroça sem os burros, o texto sem o contexto. Como conseguem chamar isto de ‘conhecimento‘?)

Pois bem, neste site sensacional aqui brevemente resenhado estão muitos dados históricos e culturais – principalmente na ótica religiosa das irmandades católicas – relacionados à Angola – grande parte do antigo Reino do Congo – relacionada por sua vez, diretamente à história do Brasil – de TODO o Brasil – e, principalmente ao negro africano no país. O pulo do gato preto em suma.

Não são, de modo algum conclusões definitivas sobre o assunto. esta é a parte mais elogiosa do trabalho. São dados apenas, embora profusos, já que as conclusões podem ser as mais variadas (as minhas hipóteses, por exemplo eu já vivo ‘pitaqueando‘ por aí) e cada um que os aprofunde por sua conta e chegue as suas conclusões.

Este texto é para copiar, arquivar e consultar sempre. Titio exulta em conhecê-lo – até que enfim! – animado com a indicação – mais uma vez! – da amiga e colaboradora do blog Bete Scg, que vai se tornando uma espécie de fonte de pauta para o blog do Titio.

…”O rei, que tinha o tronco nu, um rabo de cavalo a pender-lhe do ombro esquerdo e manto de damasco a tapar-lhe os pés, inclinou-se. Seguiu-se depois uma ruidosa festa, à maneira africana. Na expedição, além de frades, vinham pedreiros, carpinteiros, sacristães e mulheres para ensinar a cozer o pão. Todos foram apresentados ao rei. – A catequese começou logo pelo rei e pelos nobres, enquanto os operários portugueses construíam a primeira igreja. Esperavam inaugurá-la no dia do batismo do rei. Entretanto, chega a notícia da revolta dos Anzicas.

O rei não quer ir pagão para a guerra, pediu que se antecipasse a cerimônia. Os frades fizeram-lhe a vontade. Foi batizado com o nome de D.João I. E a rainha tomou o nome de Leonor. No dia seguinte ao batismo, D.João I, de acordo com seu filho mais velho, D.Afonso (Mbemba-a-Nzinga) e outros nobres, mandou queimar todos os feitiços venerados pelo povo o que provocou a indignação do filho mais novo, Panzo-a-Kitina ou Panzo Aquitino.”

Excelente documento! A parte da história do Reino do Kongo é a mais completa que já li no Brasil. Tenho aqui levantados todos estes dados que consegui pesquisando em sites portugueses e angolanos, mas nunca havia tido conhecimento de um estudo tão aprofundado sobre a ótica da igreja católica, fonte inestimável de dados históricos –  praticamente a única neste período – documentos enfim sobre esta parte eletrizante da história da África que nos diz respeito.

…O cristianismo chegou ao Congo de maneira mais ou menos espetacular. Diogo Cão mandou uma delegação com presentes ao Manicongo (rei do Congo), na cidade de Mbanza. Como os portugueses não voltaram, o navegador prendeu 4 indígenas e levou-os consigo para Portugal prometendo o regresso.

Os quatro foram catequizados e batizados em 1483. Ao voltar, em 1484, os portugueses mandaram um dos 4 para Mbanza e pediram a troca de prisioneiros que aconteceu sem problemas. Depois o rei do Congo Nzinga-a-Nkuvu, mandou uma embaixada com presentes a Dom João II e pediu missionários e artífices. O chefe da embaixada, Caçuta, e seus companheiros, foram batizados em Portugal.

A parte que mais gosto é esta aí da pragmática conversão da nobreza congolesa aos modos portugueses de ser. Tenho evidencias comigo (este texto não chega até aí, nesta minha hipótese que é apenas uma possibilidade ainda) de que o tal Caçuta (Kassuta), filho do rei, teria sido um dos sequestrados por Diogo Cão, em represália ao suposto sequestro, por parte de Nzinga Nkuwu dos padres que haviam ficado no Congo da primeira expedição, entre eles, segundo Manoel Pedro Pacavira, uma tal de ‘Nganga‘ (padre) Gouvêa.

É bem mais provável que Kassuta, que para mim é o mesmo Mbemba a Nzinga (Dom Afonso I) filho de Nzinga a Nkuwu tenha sido um destes 4 homens, os quais de reféns acabaram se transformando em agentes da colonização cultural levada a efeito pelos portugueses. Ele, Kassuta, teria ficado tão impressionado com os maneirismos da corte portuguesa durante sua estada em Lisboa, que acabou se transformando no agente principal de toda a ingerência política e militar portuguesa na região a partir daí.

A hipótese aventada por alguns historiadores de que Nzinga Nkuwu teria autorizado uma expedição congolesa tendo o próprio filho como representante é algo simplória, pois minimiza o fato de que o grupo de quatro nativos do Reino do Kongo embarcados como reféns na primeira caravela de Diogo Cão, permaneceram em Lisboa por muito tempo, cerca de dois ou três anos, tempo suficiente para terem sido aculturados, fascinados com certos aspectos da cultura portuguesa, mais ou menos como Marco Polo ficou bem impressionado com a cultura chinesa.

(E que ninguém se iluda. Estas aculturações são sempre em vias de mão dupla, nenhuma cultura humana, miméticos que somos por natureza, escapa impunemente do seu contato com outra. Culturas, notadamente as mais geograficamente próximas, mesmo inimigas inconciliáveis, cultivam e expressam diferenças marcantes umas da outras, mas nunca serão, totalmente ‘puras‘ e ‘originais‘ entre si. A ai delas se não deixarem bem demarcadas as suas individualidades)

É por esta prosaica razão – desculpem se já está óbvio para alguns – que utilizo aqui a expressão ‘Afro catolicismo’.

Kassuta/Mbemba a Nzinga/ D. Afonso (sobre o qual escrevi outros interessantes posts que podem ser lidos neste link) é um dos personagens mais controversos e fascinantes de toda esta história. Basil Davidson, o grande historiador por meio do qual conheci pela primeira vez esta história (o livro se chama “Mãe negra”), também tinha fascinação por este incrível Mbemba a Nzinga (alguns grafam ‘Mpemba’) havendo publicado as impressionantes cartas dele ao seu ‘irmão real’ D. Manoel de Portugal, queixando-se revoltado do descumprimento de vários acordos, entre eles aquele que proibia a escravização de sua população – até sobrinhos seus haviam sido capturados e levados para Portugal como escravos- e da demora na entrega, nunca efetivada de caravelas e outros itens de know how prometidos por D. Manoel, para o Reino do Kongo se desincumbir das guerras contra seus beliçosos rebeldes reinos vizinhos.

Nenhuma novidade. Nada que a gente já não tenha visto aqui no nosso mundinho ‘muderno’, no rol das tensas relações de países desenvolvidos com seus parceiros emergentes.

Kassuta/Mpemba a Nzinga/ D. Afonso teria sido, pois, o responsável crucial por esta virada transculturalista radical no seio da elite do Reino do Kongo, esta decisiva introdução do catolicismo apostólico romano (muito mais que uma religião, uma ideologia nesta época, mais ou menos como o capitalismo e o socialismo são hoje) que afinal deu este caráter tão especial à cultura negra que nos chegou com a escravidão.

Com efeito, esta injustificada presunção de ‘impureza‘ atribuída à cultura bantu no Brasil – a sua eventual ‘conspurcação‘ pela ideologia católica – é o principal pretexto (o mais execrável aliás) utilizado pela academia e pelos adeptos da supremacia nagô-baiana, para empreender suas táticas de apagamento e obscurecimento do que chamo de cultura negra brasileira REAL.

Não que tenham a consciência exata, premeditada de querer apagar o que quer que seja, mas porque, ao fim das contas é esta consequência final desta…”metodologia” errática e ignorante que procura ‘origens‘ e ‘raízes’ no oco das fantasias e das más intenções mais descabeladas.

Ora, nunca existiu ‘pureza‘ africana neste sentido (e nem tampouco europeia ou asiática, terráquea, ou marciana). Somos todos iguais em nossas diferenças. Mimetizamos tudo, tal é a natureza e o sentido prático da inteligência humana. Oh, obviedade!

No caso de nós negros (do ponto de vista cultural, ressalto) esta busca incessante por uma, absolutamente improvável ‘originalidade negro africana’ radical, este primitivismo selvagem de tanga e lança, mais que indesejado – inventado que é – baseado em mitos tolos, lendas e mistificações absurdas que ninguém sabe bem de onde vieram, é uma busca reacionária, pois acaba ressaltando, exatamente o que não devíamos querer ver ressaltado: O nosso atraso civilizatório, a nossa eventual e suposta selvageria que são – graças a Deus e à História – fruto do raso e estúpido preconceito de brancos ignorantes.

(A não ser que estimular esta ignorância toda seja o nosso intento também…O mundo também é povoado pelos tolos. Ah…Já estou eu aqui a reafirmar as minhas próprias convicções.)

É que me empolgo. Esta história angolana aí tem tanta relação com a história do Brasil que devia ser repassada na escola, desde o ensino elementar. Já temos até uma lei para isto, mas será que nos ensinarão mesmo a história certa? É que a coisa só é assim, ocultada, trancada em armários mofados porque a historiografia brasileira omite, deliberadamente, tudo que se refira à história da África que nos diz respeito. Quem quiser que reflita porque. Só sei que já chega. Contem outra história, por favor.

…O reino do Congo viveu seu apogeu neste séc.XVI. – Muito mais informações sobre o reino do Congo, Dom Afonso I e seu filho bispo D.Henrique nos traz Manuel Nunes Gabriel nas 60 páginas de “D.Afonso I, rei do Congo.” Lisboa, Secr. Nac. das Comemorações dos 5 Séculos.,1991.60 pág. – Naquele tempo, o rei de Portugal tratou o rei do Congo (hoje: sul do Congo, oeste do Zaire e norte da Angola) como seu igual.

Trocaram embaixadores. Tudo isso é um caso único na África. O soberano do grande reino do Congo aceitou a religião cristã livremente e após contatos diplomáticos. Enquanto a maioria dos chefes africanos relutaram para converter-se ao cristianismo, o batismo do rei do Congo forma uma notável exceção.

Eu só faria apenas um último reparo – muito instigante por sinal – sobre o indefectível “Rosário”, colar de contas rituais ao qual a história do culto à Nossa Senhora do Rosário se refere : O texto não cita, mas o terço usado pelos católicos, curiosamente é exatamente o mesmo objeto ritualístico que os islamistas, não sei se de todas as linhas, costumam debulhar em continhas, balbuciando rezas do mesmo jeito (eu já vi muitos muçulmanos fazendo isto na rua, quando morei na Europa) que os devotos e devotas mais católicos.

É mesmo muito curioso como esta prática muçulmana é idêntica à católica sem ter nada a ver com Nossa Senhora do Rosário ou qualquer outra relação com o catolicismo. Quem será que inventou o terço primeiro, ou melhor, quem copiou o ‘terço‘ de quem? Qual será o mistério embutido nisto aí, nestas intrincadas relações, dogmas, tabus, segredos e ‘saias justas‘ que a invenção de qualquer religião guarda ou omite de sua gênese?

…Conhecido no Oriente como Masbaha e na Grécia como Comboloi, é chamado também de terço grego, terço árabe e terço islâmico, e usado por todas as religiões para meditação, orações e pedidos de auxílio. Criado há milênios por mestres orientais, é um acumulador e transmissor de energias positivas, além de eliminador de tensão nervosa. Pode ter 33 ou 99 pedras, feitas nos mais diferentes materiais, do âmbar ao plástico, e os muçulmanos o utilizam em orações: deve-se rezar por cada pedra o seguinte: Subhana Allah, Al-hamdu Lillah, Allah Akbar (quão perfeito é Alá louvado seja Alá, Alá é o maior), ou seja, diz-se 33 vezes cada uma destas frases, o que totaliza 99. No final, para completar 100, recita-se o seguinte: «Não há outra divindade além de Deus (Alá) único. Ele não tem ninguém que lhe associe. A Ele pertence o reino e o louvor. Ele é Onipotente”.

“…O masbaha é apenas um “instrumento” de contagem. Ou seja, tanto faz usar um masbaha, ou um cordão com nozinhos, ou as falanges dos dedos (método de contagem muito recomendado).

É importante prestar atenção nisso, porque os masbahas são facilmente assimiláveis, para os irmãos ex-católicos, com os rosários. E mesmo para aqueles que não vêm do catolicismo, pode acontecer de transformarem o masbaha em um tipo de amuleto, o que é um grave erro.

… São gestos pequenos e que parecem inofensivos mas que estão ligados ao pecado gravíssimo de “dar” a um objeto os poderes e a adoração que só cabem a Allah”.

(Extraído de Coluna da Chistine)

Ih! Viram só? Eu não disse? Que coisa! As religiões canibalizam mesmo elementos rituais umas das outras. Nada se cria, tudo se transforma e muita coisa, simplesmente se inventa. Bem…mas isto aí já é uma outra história.

Spirito Santo

Agosto 2012

Memória do Jongo. Sopro que aviva fogueira é fogo que faz ventar


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Memória do Jongo. As gravações históricas de Stanley J. Stein.

“…Memória do Jongo coloca ao alcance do público um material sonoro inédito. E outros quatro artigos ainda contextualizam a pesquisa, a história e os significados do jongo.

…Foram várias entrevistas que, lamentavelmente, acabaram extraviadas. Restaram algumas gravações, feitas com antigas bobinas de arame, esquecidas pelo autor. Estas gravações foram empregadas na tese de Stanley, em 1957, numa época em que a vidadas pessoas mal era observada por tal técnica.

…O historiador Gustavo Pacheco conheceu Stanley. Desse contato, foi retomado o assunto das gravações, relatado em um dos livros de Stanley.

Reencontraram-se em 2002. Pouco depois, as gravações chegaram às mãos de Gustavo. Recebeu as bobinas de arame com gravações originais de 1949. Foram estabelecidos alguns contatos até chegar à Unicamp. Uma das etapas mais difíceis comenta Silvia, foi decodificar as gravações do material bruto.

“A produção coletiva fortaleceu nosso trabalho e, o jongo, agregou elos internacionais”, verifica Marta. Para o historiador do IFCH, Robert Slenes, autor do capítulo a respeito das origens africanas do jongo, o livro constitui uma valiosa obra sobre a escravidão em Vassouras, num grande momento brasileiro (de 1850 a 1900)”.

(Projeto patrocinado pela Petrobras e editado pelo Centro de Pesquisa em História Social da Cultura (Cecult) do IFCH e Folha Seca.)

Li esta importante publicação durante a pesquisa para o meu livro “Do Samba ao Funk do Jorjão” (veja o link). Excelente estudo enfim, no geral com mui exatas definições sobre o que é a eletrizante manifestação do Jongo, envolto até então em velhos mistérios, nascidos do formidável descaso que a academia devotava a ele, envolvida com desvios nagoístas, no ‘candomblecismo’ de sempre.

(É muito sintomático, aliás – comentei lá no meu livro – que tenha sido a descoberta das gravações de um norte americano (Stanley Stein) numa bobina de arame esquecida desde 1949, o evento responsável por esta tardia saída do Jongo deste ‘armário‘ histórico conceitual em que o encerraram.)

No meu livro fiz longos comentários, em mais de um capítulo neste sentido, com reparos apenas pontuais embora incisivos, a maioria deles ligada ao pequeno aprofundamento devotado pelos autores às origens claramente angolanas da manifestação, colocadas a meu ver, de forma algo descuidada e imprecisa, genérica demais para um estudo que visava aprofundar o assunto, principalmente no que diz respeito à visão de Robert Slenes (também norte americano), incumbido no grupo de esmiuçar a parte relativa às origens mais evidentemente africanas do Jongo.

Acho que há também no estudo muitas imprecisões e omissões na análise dos controversos aspectos ligados à criação do ‘Jongo da Serrinha’ (e grupos similares) na cidade do Rio de Janeiro e a equivocada e excessiva influência desta linha espetacularizada, urbanizada e simplificada da manifestação ‘real‘ (a rural) do Jongo, utilizada por fim como padrão e modelo principal para o ‘tombamento‘ ou o registro do Jongo como patrimônio imaterial (ou seja, como manifestação de cultura…’tradicional‘, questão chave na resolução da Unesco que sugeriu esta onda de ‘tombamentos’).

O procedimento, cuja crônica só pode ser flagrada por meio do cruzamento de informações custosamente colhidas em fontes as mais diversas, foi para mim totalmente equivocado, pois ao contrário de sua vocação, acabou acelerando – e tornando em consequência irremediável – o processo de extinção da manifestação do Jongo em seu formato tradicional, que até aquela época (final da década de 1990) andava sendo ainda muito intensamente praticado, por muitas dezenas de grupos no interior, notadamente nos vales do rio Paraíba do Sul, RJ e ( sob o nome de ‘batuque‘, entre outros) dos rios Tietê e Pirapora, São Paulo.

Por força de documentos que eu próprio havia produzido em pesquisas na década de 1970 (entre eles uma sensacional entrevista com uma ex escrava residente na Serrinha desde antes da década de 1920), pude perceber, aliás que se omite no estudo que subsidia este livro, aspectos históricos ancestrais ligados ao surgimento da manifestação do Jongo no Rio de Janeiro e suas origens remotas no Vale do Paraíba do Sul no século 19, aspectos que seriam cruciais pra se entender e explicar o contexto, as implicações, as razões, a natureza enfim deste processo – bem posterior – de espetacularização citado. Os flagrantes do sutil processo de troca do jongo ‘certo‘ pelo jongo ‘duvidoso‘ enfim.

Entre estes aspectos, omite-se, por exemplo tudo que ocorreu antes da chegada da família de Darcy do Jongo para a Serrinha (oriunda do Morro da Mangueira), criando a partir daí um mito fundador – e heróis fundadores – totalmente descolado do evento fundador historicamente efetivo, factual.

Antropologismos de ocasião, travados por metodologias precárias que priorizam a bibliografia incipiente que produzimos sobre o tema, em detrimento de fontes outras (notadamente as orais as vezes únicos dados disponíveis) além de fontes externas ligadas às origens africanas no caso, exteriores a este nosso limitado afro brasileirismo primário, construído que foi sobre chavões e ramerrões ruins de doer ou engolir.

Tudo certo com o Jongo espetáculo. O sonho de Mestre Darcy, por vias tortas, finalmente está  realizado, mas trata-se de um problema cultural dramático, emblemático de nossos modos displicentes de ser. ‘Tombou-se’ como disse, o Jongo errado, condenando-se a morte o jongo rural, o tradicional que andava muito vivo ainda no Vale do Paraíba do Sul e que, com a enorme pressão do ‘jongo espetáculo’ (este das moçoilas  de saião estampado da Lapa e de Santa Teresa), teve que adaptar ao supostamente ‘novo jongo’, para não desaparecer de vez.

Na parte mais polêmica de meu relato – polêmica porque costuma ser rechaçada por muitos ‘novos’ jongueiros – afirmo que a forma de jongo ‘tombada‘ (registrada) pelo MinC, foi inventada na Serrinha por ‘alguns‘ agentes oportunistas, totalmente externos à manifestação e à comunidade local, que usando como pretexto, o visionarismo ingênuo de Mestre Darcy (inventor franco do ‘Jongo espetáculo’, que não tinha pretensões a serfolclórico’) dando forma a este jongo de hoje, equivocadamente tratado como se fosse algo folclórico e original.

Não é e nunca será. Neste sentido é uma farsa clara de jongo sem jongueiros.

Afirmo, portanto com base em inúmeros documentos, entrelinhas de teses de mestrado, dissertações acadêmicas e outros textos pinçados aqui e ali de forma fortuita, que estes ‘agentes‘ deste folclorismo fake, são, exatamente os mesmos que trabalharam intensamente no lobby instalado no final da década de 1990 para convencer Brasília (MinC) do ‘tombamento‘ da manifestação nos termos excessivamente abrangentes em que o registro se deu, facilitando a habilitação de suas Ongs de ‘jongo espetáculo’ ao acesso de verbas de patrocínio destinadas a preservação de bens imateriais tombados que, em caso contrário estariam restritos a formas de jongo apenas rurais (as realmente tradicionais).

Importante nesta hora constatar, portanto que no ensejo desta onda de tombamentos, foi percebida por estes grupos de predadores culturais a total incapacidade técnica, por parte dos grupos de jongo tradicionais (os ‘reais’), gente a rigor quase analfabeta, para concorrer a verbas de fomento e patrocínio em complicados editais de da lei Rouanet, passando a depender, inteiramente de intermediários, produtores culturais ‘ratões‘ e outros bichos sabidos que passaram a dar em árvore por aí.

É importante ressaltar também que este fenômeno da ‘apropriação indébita’ de bens culturais tradicionais imateriais, estimulado pelo ensejo destes ‘tombamentos‘ de bens culturais propostos inicialmente pela Unesco (e suas respectivas linhas de financiamento via renúncia fiscal), têm se tornado uma prática por demais rotineira neste Brasil de predadores sociais espertos e super atentos aos estoques de farinha pública (que, convenhamos nem é tão pouca assim).

Vão vendo aí – e o Titio já foi testemunha ocular disto – que a proliferação de mega projetos de turismo cultural, bancados por verbas muitas vezes milionárias por prefeituras de interior por este Brasil a fora, se baseiam inteiramente na existência de uma cultura popular submissa, maquiada e, sobretudo… tutelada com a inefável imaterialidade da cultura destes grupos de pobres negros, muitas vezes desvalidos, sendo usada contra eles mesmos como um defeito, um pecado original.

Cultura negra entregue a sanha de gafanhotos.

Quem quiser que me desminta, mas que desamarre a minha opinião com um ponto de jongo bem complicado. Bato o tambor e aceito a demanda. Acendo a fogueira na boa e até banco a cachaça.

É empolgante demais este assunto.

_Cachoeira!”

Spirito Santo

2012 (com ressalvas e etcs. em 2016 e 2018)

Chico Rei, o filme completo na rede enfim!


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Zenaide Zenah e Mário Gusmão

Chico Rei, o filme e a música (e as mumunhas) dentro do filme – Post #02

(Que está na rede está, mas já postei aqui dois links que pessoas compartilharam em  sites de vídeos que foram  apagados. Tente este🙂

O amigo Ricardo Beliel, dia destes pelo facebook:

…” Quando estavam filmando em Ouro Preto estive lá fazendo uma reportagem sobre o filme. Fiquei lá umas duas semanas e estava sempre com o Gusmão e a Zenaide, que eu já conhecia, e o Severo, que conheci lá, entre vários outros amigos que participavam como atores ou técnicos. Mas nessa época o filme já estava imerso por mil problemas de produção. Os produtores alemães brigavam com os produtores brasileiros e no final o filme foi sequestrado e levado para a Alemanha. Acho que o Walter nunca o terminou. Lembro que o contrato inicial era para fazer uma série que passaria na TV alemã e um longa para passar no Brasil. Nunca vi o filme. O que aconteceu?”

Oh, que sorte! O filme acaba de ser lançado na íntegra aqui na internet! Tinha aqui comigo uma cópia em CD, mas nunca tive coragem de compartilhar. É que este filme para o Tio é sagrado. É um dos meus ritos de passagem para me tornar o que sou.

Sei quase tudo sobre a história deste filme. Fiz um post grande sobre ele. Tá aqui no blog e vocês podem reler abrindo este link  antes de seguir por estas mais que completas considerações.

É que no intervalo entre o ‘sequestro‘ do filme, citado pelo Ricardo e a sua finalização fui convocado pela última vez pelo Walter Lima Júnior, eu e meu parceiro de Grupo Vissungo, o Samuka. Walter estava completamente só com seu sonhado filme, os copiões com locações inconclusas, praticamente sem grana, sem nada e precisava de alguma força.

O filme havia sido planejado pelos coprodutores alemães para ser uma mini série sobre escravidão, destinada ao mercado europeu a exemplo de ‘Raízes”, grande sucesso da época. O plano de Walter ao aceitar a direção da série era realizar um longa-metragem autoral. Deu quase tudo errado por problemas de gestão da produção como vocês verão a seguir.

Depois de muito tempo de espera e negociações que envolviam já a Embrafilme, Walter Lima conseguiu um acordo com os alemães: Ir à Hamburgo editar a tal mini série em troca dos copiões. Voltou com 54 hs de rolos de celuloide (!) que foram artesanalmente transformados (quem se lembra do que é uma moviola?) neste filme por ele e pelo verdadeiro ninja da assistência de montagem cinematográfica Mário Murakami. Uma loucura

A história do ‘sequestro‘ do filme é também muito interessante, confusa e controversa. As más línguas atribuíam os problemas da produção a uma jogada comercial da Provobis, produtora alemã do filme que, por sua vez, segundo as mesmas línguas perversas, tinha ligações com a mais mal falada ainda (e, supostamente direitista) Opus Dei.

A teoria da conspiração digna de um Código Da Vinci sugeria enfim que o filme – uma super, quase mega produção para a época – teria sido, numa jogada de alto risco, deliberadamente entregue a uma produtora amadora e inexperiente do terceiro mundo (a Art 4 de José Eugênio Müller Filho, cuja experiencia anterior mais significativa havia sido a produção de filmes dos ‘Trapalhões‘) para que desse errado mesmo e os espertos alemães colocassem a mão no seguro milionário feito na Sotebys (ou outra grande seguradora europeia) com este exato fim.

Impossível desvendar a verdade. A hipótese – que tinha mais pinta de lenda do que a própria ‘lenda‘ de Chico Rei – dava bem a medida da baixa credibilidade gozada pela produção cinematográfica brasileira deste início da década de 1980 (a produção do filme ‘Natal da Portela’ de Paulo Cesar Sarraceni, do qual também participamos, tinha um enredo bem semelhante).

De fato mesmo (pois o titio estava lá para presenciar in loco) só a profunda crise que se abateu sobre a produção na fase de Ouro Preto. O nababesco tratamento dispensado à equipe e ao elenco já era uma pista clara de que podia ‘dar merda’, mas quem se preocuparia com isto àquela altura?

Os prejuízos deixados na cidade pela Art4 foram astronômicos, quase colocara a cidade, cuja economia, naquele período dependia inteiramente da verba de Chico Rei, à falência. As locações acabaram se transformando, isto sim, num veio de ouro às avessas.

Do que vi com estes olhos e posso contar tem, por exemplo o desespero de grandes atores e atrizes como Maria Fernanda, Nelson Dantas e Othon Bastos, monstros sagrados de nosso cinema na época, praticamente largados como reféns no hotel: Fugiram todos os responsáveis pela produção brasileira. Soube-se então do sumiço também, dias antes dos brasileiros, dos atores e executivos alemães, que se mandaram com os copiões, as malas e as cuias para a Europa.

Presenciamos também, nestes mesmos dias, uma inusitadíssima passeata do pessoal da figuração de Ouro Preto e cidades vizinhas, a galera que fazia as vezes de ‘população escrava‘ do filme. Queriam porque queriam como todos por ali, receber pagamento.

Eu e Samuka, macacos ‘véios’ remunerados de antemão, estávamos ao lado de Mário Carneiro (grande fotógrafo do filme junto com o José Ventura) quando a turba de ‘escravos‘ enfurecida olhando para os cabelos claros (já grisalhos) dele e sua alta estatura gritaram em coro:

 _ “Alá! É ele! O alemão!”

Nós, os ‘negros de ganho’ não trabalhamos sem ganhar não.

Foi difícil convencer a turba de ‘escravos‘ a não linchar o pálido e saudoso Mário Carneiro, brasileiríssimo e um dos maiores fotógrafos de cinema do Brasil.

A crise a esta altura era já tão profunda que nós do Grupo Vissungo, por ocasião da produção da cena final, já assumida pela Embrafilme (que havia passado a controlar a gestão financeira do filme) indispensáveis que nos havíamos tornado, responsáveis que havíamos ficado pela arregimentação da figuração de congadeiros e os instrumentos musicais ‘africanos‘ a serem usados na cena, exigimos num contrato radical que a cena só aconteceria se recebêssemos, em cash, 100% do pagamento 2 hs antes da locação. Concordaram.

(Soube mais tarde que fomos uns dos poucos – senão os únicos – a não tomarem calote, coisa mais do que corriqueira em produções nacionais)

Nossa participação nesta fase inicial em Ouro Preto, é importante ressaltar, seria totalmente voluntária e não remunerada, pois visávamos, estrategicamente ganhar o direito de compor e atuar na trilha sonora do filme, o que, ao final de tudo, deu totalmente certo.

A incrível excelência do tratamento dado ao elenco e à equipe de produção – mordomia mesmo, no melhor sentido da expressão – já era, contudo quase que uma remuneração. Tínhamos reserva cativa num dos melhores hotéis da cidade e as refeições nababescas, regadas à cerveja e wíske à vontade eram feitas no melhor restaurante da cidade.

Tão certo deu esta nossa estratégia que antes mesmo de se pensar sequer em planejar a trilha sonora, já estávamos contratados (e agora com excelente remuneração) para construir os instrumentos musicais de cena (que podem ser rapidamente vistos na cena final), a partir da minha pesquisa pessoal que se chama hoje Musikfabrik sediada na Uerj) e que, estava do ponto de vista profissional, literalmente começando ali.

Envolvidos até os ossos em nossa pesquisa sobre Congadas mineiras, já cobertas as áreas mais ao sul, na direção de Belo Horizonte (acompanhados pela fotógrafa Maria Helena Matos de Almeida que documentava as nossas coletas de campo) cuidávamos agora da área de Minas Gerais que tinha acesso pela rodovia Fernão Dias. A ideia era planejar um novo trajeto de coletas futuras nesta região. Foi assim que chegamos à Ouro Preto, atrás das congadas locais, coincidentemente ao mesmo tempo em que as locações de Chico Rei ali se realizavam.

O veio de ouro e o arsênico revelados

Chegando em Ouro Preto, quem nos apresentou ao Walter Lima foi o meu velho amigo – e quase sósia quando jovem – José Ricardo D’Almeida, à época casado com uma pessoa ligada à produção do filme. Nosso encontro com Walter Lima foi, literalmente cinematográfico: Dentro de uma antiga mina de ouro desativada, a 315 metros chão a dentro, nas cercanias de Mariana, cidade vizinha à Ouro Preto.

Na cena, da qual nunca me esqueci, estavam Antônio Pitanga (hoje meu colega como artista visitante da Uerj), o sergipano Severo D’Acelino (o Chico Rei do filme), o saudoso Haroldo de Oliveira e outros ‘escravos‘, enfurnados todos entre as pedras no cenário opressivo daquela que representava a histórica e lendária Mina da Encardideira. A cena mostrava o encontro do veio de ouro que ensejou a redenção de Chico e seus malungos todos.

Me lembro nitidamente da transparência absoluta de um lago que havia no interior da antiga mina e da informação prestada por alguém da equipe – não sei até hoje se fundada – de que a água do lago continha arsênico. Vagamente me lembro também de que Walter, enfurnado no interior da mina por vários dias, escravo de seu próprio filme que era, teve que ficar afastado das locações na mina por um tempo, supostamente intoxicado por algo na longa exposição aos ares insalubres do local.

O filme tinha sérios pecados originais encravados no argumento anterior escrito pelo novelista da TV Globo na época Mário Prata. Este argumento era baseado por sua vez num romance muito fantasioso de Agripa de Vasconcelos, além de indicar para as opções de pré produção – como ainda hoje é recorrente – um projeto calcado demais em mitos e chavões estéticos nagoístas (yoruba, nigerianos) do Candomblé, incompatíveis com a história bantu do Chico Rei e a cultura negra de Minas Gerais em especial.

Aliás, Providencialmente, foi o fato de apontarmos nossa pesquisa, exatamente para este aspecto em especial da questão – o equívoco da opção por uma estética baseada no mito da ‘supremacia nagô‘, o que estimulou Walter Lima a nos convidar para esta consultoria totalmente voluntária, solidária mesmo, já na primeira noite em que conversamos, numa agradável bebericação da cachaça mineira “vale do jequitinhonha” com mel num bar na praça central da cidade.

Foram diversas seções de consultoria informal. No auge das locações, mais ou menos a cada 15 dias, Walter mandava a produção convocar no Rio, eu e Samuka, para acertarmos alguns detalhes e minúcias digamos assim, ‘etnológicas‘ da produção.

Um dos incidentes mais curiosos de toda esta nossa experiência, aliás, foi o surdo conflito instalado entre nós e o elenco ‘africano‘ do filme, que tendo como guru o fantástico ator Mário Gusmão, havia sido arregimentado quase todo em Salvador, Bahia.

É que com a nossa chegada influindo nas decisões ‘etnológicas‘ da direção do filme, a consultoria também informal que eles mesmos, os baianos, faziam, principalmente àquela ligada às danças e ao figurino, tudo baseado, quase inteiramente nas coisas mais recorrentes do Candomblé e da Capoeira da Bahia, tiveram que ser revistas. A esta altura Walter Lima já estava, irremediavelmente convencido de que seria um erro terrível um filme de pretensões históricas tão evidentes, apostar em dados etnológicos distorcidos ou impertinentes.

Bantu versus nagô na negra serra mineira

Foi assim então, e por conta desta constatação etnológica, que fomos contratados para criar e produzir toda a cena final do filme, para a qual sugerimos – e efetivamente levamos para Ouro Preto – dois grupos de congadeiros reais, arregimentados em duas cidades que serviam de base para nossas pesquisas (Oliveira e Machado). A decisão modificava radicalmente a participação do elenco negro, principalmente do grupo de apoio formado pelos baianos citados, que não teriam tempo de se adaptar às danças performances de trato puramente bantu, forte característica cultural dos figurantes mineiros e, de certo modo teriam que ficar discretamente afastados da cena final.

A decisão impactou também, decisivamente o figurino destes novos participantes, já que os vestuário de trato ‘nigeriano‘ criado pelo diretor de arte se tornara totalmente inverossímil a partir daí e precisava também ser corrigido.

A nossa salvação (a saída diplomática) foi a greve por pagamentos em que a equipe de produção estava também inserida, o que permitiu que eu e Samuka fôssemos liberados para criar ali, na hora, o figurino dos congadeiros. Fizemos como os pés nas costas, simplesmente seguindo a alguma pesquisa que tínhamos feito a respeito, que indicada como desenhistas de referencia os manjadíssimos Debret e Rugendas.

As pranchas destes artistas sugeriam, simplesmente que os escravos libertos de Chico Rei, nas circunstancias de uma festa de coroação de um rei africano em Minas Gerais, poderiam usar partes aleatórias de roupas portuguesas, tornadas símbolo evidente de suas ascensão social, misturadas a este ou aquele hábito africano tipo tubantes e bandanas, elementos flagrados no trabalho daqueles desenhistas, testemunhas oculares da vida dos escravos de séculos atrás. O figurino estava pronto já, nos cabides do próprio guarda roupa, entre os jaquetões, sobretudos e chapéus de três bicos usados pelos personagens brancos do filme.

Outro problema crucial foi que com a súbita eclosão da crise na produção não deu para que se filmasse algumas cenas essenciais à continuidade do roteiro original de Walter Lima. O projeto do longa-metragem ficava assim, de certo modo seriamente ameaçado.

A própria cena final, na parte da figuração totalmente produzida por nós, teve que ser improvisada e filmada a toque de caixa, numa única tarde. É por esta razão que se pode ver neste finalzinho do filme os congadeiros dançando com sapatos modernos, tênis, etc. Filmou-se apenas o ensaio com os figurantes calçados, mas não houve tempo (luz) para se filmar as cenas definitivas, com os figurantes descalços, como prevíramos.

(Os mais atentos poderão observar também na cena final do filme a incongruência flagrante entre o figurino ‘nigeriano‘ de Mário Gusmão e o dos demais figurantes, congadeiros).

O tumultuado filme teve também bastidores ‘internos‘ da conta do elenco negro, alguns dos quais tomo a liberdade de contar aqui, pela primeira vez. Um, o mais ‘saia justa ‘ de todos, era a antipatia latente que a maioria do elenco ‘escravo‘ nutria (mas só expressava à boca pequena) pelos atores negros do ‘primeiro elenco’ que mantinham, aparentemente um distanciamento arrogante da ‘plebe‘, preferindo frequentar apenas o convívio dos alemães e das estrelas brancas do elenco.

 Sinto, mas a bela Zenaide não era nada zen

Esta antipatia era dirigida mais intensamente a Antônio Pitanga e à Zenaide Zenah, atriz escolhida para ser a mulher de Chico Rei. Curiosamente, Severo D’Acelino, o protagonista, não partilhava deste comportamento tão criticado pelos demais e não só frequentava bastante os ambientes onde a massa da figuração ‘escrava‘ frequentava como era um também um crítico contumaz desta suposta arrogância elitista dos colegas.

Zenaide Zenah, linda atriz, de corpo ‘escultural‘ como se dizia antigamente (já falecida e conhecida mais tarde como Zenaide Zen em concorridas performances onde se apresentava inteiramente nua) desfilava de forma tão evidente e frequente a sua arrogância por Ouro Preto, sempre ao lado dos atores alemães que acabou se tornando vítima de si mesma.

Conta-se que logo que se deu conta da importância de seu papel de mulher de Chico Rei na trama do seriado, passou a pressionar de forma tão incisiva e insistente a produção, por aumento da remuneração e das condições gerais de seu contrato (queria ver niveladas estas condições a dos atores do ‘primeiro time‘) que acabou vendo sua personagem ser ‘morta‘ na trama, por decisão da direção, tendo abatidos aí, em pleno voo os planos de ascensão ao estrelato (poderia ter sido uma nova Zezé Mota, vai saber?)

O filme nos seus finalmentes, a despeito de todas os seus percalços foi, portanto, concluído e criado na moviola. Ao final, com a fita montada nós do Vissungo fomos enfim contratados pela gravadora Som Livre para realizar a trilha sonora (a parte ‘africana‘, pois, a ‘europeia‘ como se sabe foi criada por Wagner Tiso) trabalho que acabou premiado como melhor música nos festivais de Ghent, na Bélgica e Cartagena, na Colômbia.

A parte mais chata da história é que estamos esperando até hoje a nossa parte dos prêmios. É que jamais nos informaram nada a respeito, nem mesmo do que consistiram este prêmios, se foram certificados em papel, medalhas, dinheiro, nada. Esta omissão inexplicável, daquela que foi a experiência artística mais importante da aventurosa carreira do Titio, deu muito trabalho para ser, pelo menos em parte, desagravada e corrigida em nosso currículo oficial, que circulava por aí sem esta importante atribuição.

Até o arguto especialista e amigo José Carlos Rodrigues em seu excelente e lapidar trabalho O negro brasileiro e o Cinema dá uma escorregada na ficha técnica da trilha de Chico Rei grafando o nome de Mílton Nascimento como o principal autor do trabalho, quando Mílton apenas gravou duas músicas de Wagner Tiso compostas para o filme. Salvou-nos um outro crítico, com este texto definitivo sobre o papel do Grupo Vissungo em Chico Rei que orgulhoso vivo replicando por aí:

“…O épico Chico Rei deu continuidade ao projeto de um cinema histórico mais atento às elaborações mitológicas que ao rigor das versões acabadas. Lima Jr. usa a história do primeiro escravo a se tornar dono de ouro no Brasil para investigar as suas próprias raízes negras. O Grupo Vissungo, em sua fusão de arte e militância, teve papel decisivo na formatação sonora do filme, que ainda mobilizou ícones da música negra brasileira como Milton Nascimento, Clementina de Jesus, Naná Vasconcelos e Geraldo Filme. Chico Rei assinalou também a primeira colaboração direta de Wagner Tiso numa trilha de Walter, parceria que iria se repetir em três dos quatro filmes seguintes do realizador.

Em ‘Um cinema que quer ser música’ artigo de Carlos  Alberto Mattos, Publicado na revista Veredas -CCBB/Rio, Nov-2000

Demais de felizes estas lembranças. Empolgante me ‘rever‘ cantando música tradicional afro mineira e tocando as kalimbas do filme. De relance eu posso até ser visto na cena final, tocando uma furiosa marimba.

O Tio compôs muitas músicas nesta época especialmente para esta trilha sonora ‘africana‘ do filme. As duas melhores canções, “Saudades do Kongo” e “Chico Reina” (esta cantada na introdução pela saudosa Clementina em sua última aparição em estúdio, já debilitada demais para os solos que, acabei eu mesmo tendo que cantar) nem aparecem no filme, mas estão no vinil produzido pela Som Livre com a trilha sonora original e, inusitadamente aparecem também como faixas ‘bônus‘ numa reedição do clássico Canto dos Escravos com Clementina de Jesus, Geraldo Filme e Tia Doca.

Oh, que felicidade! Oh, sentimento de bela missão cumprida.

Ficaram daí muitas amizades eternas. A de Delanir Cerqueira, mestre contra regra de tantos filmes ‘de negão’ de nosso cinema e, principalmente a de Walter Lima Júnior, este mestre de nosso cinema realmente novo, que assumiu francamente a vontade de realizar com Chico Rei cinema negro de um Brasil real.

Bem, agora com a ‘fita’  liberada na Internet basta apenas ir lá, conferir a ficha técnica e acompanhar o filme, em sua beleza ‘perturbadora‘ como bem diz  José Carlos Rodrigues e a sua heroica riqueza como documento candente da cultura negra do Brasil sem firulas, para se ter uma vaga ideia do enorme orgulho do Tio em ter participado, tão intensamente desta história empolgante e exemplar.

Ah, como era gostoso fazer cinema brasileiro nesta época!

Spirito Santo

2012

TV Axé e babado forte de Xangô. Coitada da epistemologia nagô


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As ‘raízes’ do Candomblé fake a gente vê na TV
Axé babá caô caô, sem mestre.

A moça amiga e vizinha Paula Estrela me pergunta pelo facebook, me repassando o link de um tal de “Premio Korin Axé” :

“ _E aí, conhece? É confiável?”

Chato que sou fui lá e vi.

Rs rs rs rs! Fala sério! Religião, em geral já um negócio que, pra se confiar, exige cuidado. Imagina isto aí: Um cidadão brasileiro, tipo branco, com uma fala semi analfabeta, com cara de 171 (não que ele necessariamente o seja) , fantasiado de africano da Nigéria vendendo peixes religiosos como um pastor evangélico vagabundo destes aí (com todo respeito) vende, sugere o que para vocês? Confiabilidade? Tem alguém cego aí na sala?

Sessão de descarrego será que cura cara de pau?

Engraçado: Reparem que eles evitam falar a expressão ‘Candomblé‘ (usam ‘Umbanda‘, com certeza porque a palavra calaria a eventual cobrança dos ‘puristas‘, pois ‘Umbanda‘ se refere a uma religião ‘brasileira‘, desta terra ‘mestiça‘, na qual, obviamente brancos podem participar. É o início, a essência do caô. Fazem o mesmo com a Capoeira, com o Maracatu, com os blocos de Carnaval de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, etc. É da natureza predatória da sociedade ‘branca‘ brasileira, onde a lei geral é tirar vantagem em tudo, até mesmo da cultura dos chamados ‘oprimidos‘ (ai este marxismo de botequim que não me larga!).

Moral zero, ética zero, sem-vergonhice a mil.

Reparem também, contudo como eles usam todo o look e os ritos do ‘culto dos orixás’ supostamente puro. Além das roupas os chavões, o panteão supostamente yoruba do ‘culto nigeriano‘, ‘ ancestral‘, tudo. Ao fundo das falas tatibitatis deles, muitas imagens de arquivo com autênticas práticas religiosas da Nigéria, para dar credibilidade ao ‘caô- caô’ geral.

Eparrêi!”

Fui lá ver, viram? Eles têm esta tal de ‘TV Mojubá’ com um monte de armações apresentadas por um tal de Walmir de Omulú, figuraça mais analfabeta ainda, que distribui o prêmio ‘microfone de ouro’ o qual diz ele lá, desmunhecadamente, é um prêmio de ouro maciço, 18 quilates. Já pensaram no preço que custaria um mimo destes? Ui!

“A entrega do prêmio ‘Korin Axé’ atrasou”, fala ele no a ar, porque a firma contratada não honrou o pedido e ‘eles‘, uma tal de ‘comunidade de Oswaldo Cruz’_meteram a mão no bolso”, se cotizaram e compraram as joias (tem um ‘microfone de prata’ também).

Desculpem esta já velha franqueza do Tio, mas tirando o fato dos ‘sacerdotes‘ 171s desta onda aí serem ‘brancos(‘ou quase brancos’, como diria o Caê Velô) tirando a cara de pau absoluta deles, as aparências ‘teatrais‘ todas, o ‘mise em scene’ as mumunhas histriônicas do culto, em nada se diferenciam do chamado ‘Candomblé autêntico de negão‘, que no modesto entender do Tio, chato de galocha e ‘pra dedéu‘, cai na sua própria armadilha, urdida no velho peixe vendido lá atrás, no século 19, da tal da ‘hegemonia”, da bufona “supremacia nagô”.

Ôh, ôh, ôh, Xangô fake se ferrô!

Desculpe falar, mas quando tio comenta aqui qualquer coisa sobre o Candomblé, na boa, no intuito de promover algum debate, sem papas na língua, aparece logo um monte de críticos irritadinhos, intelectualíssimos, sabichoníssimos, a me admoestar, a me chamar de ‘sacrílego‘. Ora, ora, numa hora destas, com esta TV Mojubá no ar, aí fazendo gato e sapato da religião hegemônica e supostamente ‘pura‘ do negro do Brasil, ninguém aparece.

O bom macaco cuida sempre do próprio rabo, não é não?

Spírito Santo

2012