Revolta dos Malês e João José Reis. A historiografia que não sai do corpo que não lhe pertence


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Guerreiros bantu 'covardões' liderados pelo 'submisso' Shaka Zulu na guerra dos 'pusilânimes' zulus contra os ingleses em 1879. Sei lá. Não sei do que João Reis está falando.

Guerreiros bantu ‘covardões’ liderados por um ‘submisso’ descendente de Shaka Zulu na guerra dos ‘pusilânimes’ zulus contra os ingleses em 1879. Sei lá. Não sei do que o João José Reis está falando.

História revoltada e sem carochinha, vista quadro à quadro

João José Reis é um renomado historiador, destes que os pares quase se benzem ao citar o nome. Especialista em revoltas escravas no Brasil. Juro por Deus que, mesmo mexendo com estes temas não sei se já o conhecia. Acho que não. Soube dele porque uma amiga antropóloga, surpresa com o fato de uma teoria minha sobre certo incidente da história de (abra este link e leia) Zumbi de Palmares não ser conhecida por ela – e nem por ninguém – indicou o meu blog para o João ler e opinar (imagina! Me meto em cada uma!). Fiquei muito honrado, claro, mas assustado também. Vai que cometi algum erro historiográfico sério e sou desmascarado na minha condição de humilde pesquisador ‘independente‘?

Ui!

Bem. Que eu saiba João José Reis não leu o meu post sobre Zumbi. Entendo. Uma figura douta destas, um acadêmico ocupadíssimo que deve ser, não fica lendo blogs de qualquer um assim, sem que nem por que. O fato mais curioso contudo não é este. É  que dias depois outra amiga – esta uma mestranda ou doutoranda ainda – me aparece com um texto do mesmo João José Reis, parte de um livro dele que sei agora ser um clássico sobre o tema (“Rebelião escrava no Brasil. A história do levante dos malês-1835″ Ed. Brasiliense 1986)

O razão desta outra amiga me recomendar a leitura do texto era inusitado: Segundo ela havia um conteúdo ideológico embutido no texto, muito focado na afirmação da famigerada tese da ‘Supremacia nagô’, um tema caro às leigas elucubrações do tio. Li por alto o texto e tive engulhos francos. Não era apenas ‘nagoista‘ o texto. Era racista também!

Ai, ai, ai!

E aí? O que fazer? Duas amigas, uma (branca) recomenda o historiador a quem ela devota respeito extremo. Outra (negra) me recomenda por razões exatamente opostas: Esta segunda achava muito grave que um historiador – segundo ela – tão aferrado a ideias eugenistas (ou racistas) como João Reis, fosse referencia para todo mundo que estuda história do Brasil, notadamente cultura negra.

Entre a cruz e a calderinha então, me vi obrigado – intimado quase – a ler o João José Reis menos por alto. Este post é fruto desta leitura mais cuidadosa, com contra argumentações minhas como sempre bem pessoais – e as vezes até originais e polêmicas – com as quais ninguém precisa, necessariamente concordar.

Bom ressalvar também que não resenho o livro inteiro, apenas um trecho dele, cerca de 50 páginas, copiadas por minha amiga da biblioteca da USP onde o texto é, como disse de alta referencia. Minhas colocações, portanto são bastante pontuais, pois, utilizo aqui como sempre o método mui prático de comentar matando a cobra e mostrando o pau (comentários diretos sobre trechos originais selecionados). Chamem este método do que quiserem. Eu chamo de “resenha em pílulas”, certo? E as primeiras pílulas de uma série estão aqui:

João Reis em debate: Pílula 01

Para início de conversa, o gráfico a que João se refere não surte todo o efeito desejado (atestar a sua afirmação de que houve um significativo ‘redirecionamento‘ no fluxo do tráfico acentuando a vinda em maior número de escravos da costa leste para a Bahia) porque elie não apresenta um gráfico comparável da situação anterior.

Mas tudo bem. Não há necessidade alguma de se questionar este dado em especial. O que chama a atenção no quadro (ressaltando-se que há a observação de que o gráfico publicado foi ‘adaptado”) é a ótica peculiar que João parece ter usado para leitura dos dados, reforçando sutilmente aspectos com poder de corroborar sua tese e aparentemente omitindo ou subestimando, cuidadosamente outros.

Vamos a eles:

1- Dos 137 escravos citados genericamente no gráfico ( nos dois períodos abordados) como sendo da ‘Costa do Ouro’, não há nenhuma referencia válida sobre a condição étnica destas pessoas. O gráfico apenas diz “Costa” (“negros da Costa”) e “Minas” (“negros Mina”, ou seja: ‘negros do Forte de El Mina‘), expressões quase sinônimas e vagas demais para o caso. Por suposição se pode deduzir que seriam escravos de diversas etnias embarcados no Castelo de El Mina, em Gana, como se sabe um entreposto comercial colonial controlado por Portugal a princípio e pela Holanda e outras potencias europeias após 1642.

Como se sabe também, de El Mina vieram em grande profusão escravos de outras áreas além dos da Costa do Ouro, como gente da área do antigo reino do Kongo, por exemplo já nesta ocasião principal fonte de escravos para as colônias portuguesas e as Américas em geral. A população do Kilombo de Palmares, por exemplo (que se organiza antes de 1640), formada por maioria étnica Bakongo – ‘bantu’- provavelmente é oriunda, em boa parcela, do Castelo de El Mina. Grande parte veio também de levas de prisioneiros de guerra em batalhas perdidas por angolanos e congolesas contra Portugal ou Holanda.

A ausência deste dado essencial atrapalha bastante a argumentação de João, pois, a identificação de escravos não yoruba-haussá neste contingente sem etnia definida no gráfico (quase 20% em 1810/11) mudaria o quadro totalmente, impactando as estatísticas a favor de um aumento da cota de gente bantu . É preciso se ressaltar fortemente também que com a perda do controle do tráfico de escravos na Costa do Ouro em 1642, Portugal tinha acesso restrito – e caro – à cargas de escravos daquela região, transferindo suas prioridades logísticas, gradativamente para portos mais ao sul, Congo e Angola, basicamente (Nsoyo, Luanda, Benguela) e Inhambane em Moçambique.

2- Aliás, ainda comparando os dados deste mesmo gráfico, pode-se observar que, ao contrário do que João afirma, o contingente de gente yoruba desembarcada nesta época, praticamente não se alterou nos dois períodos (’18’ em 1805/6, ’22’ em 1810/11) a quantidade de haussás também não se altera (’12’ em 1805/6, ’14’ em 1810/11) o que enfraquece mais ainda o argumento central da tese do historiador.

Na verdade o que causa impacto significativo mesmo neste quadro de 1810/11 é o aumento de cerca de 1/3 de gente do Dahomey (ou Jejes) por razões que podem ser melhor identificadas se cruzarmos estes dados com a história do tráfico na região do reino do Dahomey na época.

Há, com efeito uma diminuição substancial no desembarque de gente bantu em Salvador, BA entre os dois períodos abordados no quadro, mas do mesmo modo pode-se se deduzir que o tráfico transatlântico de escravos mais massivo e planejado para o Brasil mudou de direção com o incremento da mineração em Minas Gerais (meados para o final do séc.18) e posteriormente para as plantations do interior da província do Rio de Janeiro (do início para meados do séc. 19). Era óbvio que o fluxo de escravos diminuiria em termos absolutos para Salvador (embora o fluxo de gente da costa leste – yoruba-hausssás – aumentasse).

Este aumento da chegada de gente yoruba-hausá para Salvador neste período, (muito bem abordado por Pierre Verger em “Fluxo e Refluxo – Do Tráfico de Escravos Entre o Golfo do Benin e a Bahia de Todos os Santos”) aliás é usado de maneira bem ingênua por alguns historiadores como prova de que nesta época a população de escravos da costa leste – nem sempre com os yoruba em maior número – teria ‘aumentado‘ no Brasil, suplantando a população bantu.

É muito ingênuo o raciocínio – usado as vezes de forma oportunista por alguns – porque os dados (no caso de João Reis inclusive) se referem apenas e especificamente à Salvador. Como se sabe, se Salvador não representa nem mesmo a Bahia, não poderia jamais representar o Brasil. Salvador e a Bahia não podem continuar sendo considerados microcosmos da escravidão – e da cultura negra do Brasil. Isto é um antigo equívoco historiográfico que precisa ser urgentemente superado.

O que provavelmente ocorreu foi que, como disse acima, na origem – deslocando-se definitivamente para a área Congo Angola – e no destino – deslocando-se para o sudeste do Brasil – a lógica geopolítica do comercio escravista se alterou, ficando Salvador restrito a um, cada vez mais incipiente, comercio de escravos da costa leste (fluxo que, praticamente se encerra depois de 1831, com a radicalização da repressão inglesa ao tráfico de gente africana).

Como se pode observar lendo o texto mais atentamente, João evita cuidadosamente a adoção da expressão ‘bantu‘. Usa o termo ‘angolanos‘, ainda impreciso também, pois, não é um termo etnologicamente adequado (o correto seria usar os termos, ‘Bakongo‘, Kimbundo‘, etc.) João em contrapartida foge também da expressão ‘sudaneses‘, velho termo adotado por Nina Rodrigues. Com efeito em toda esta nossa análise chama muita atenção esta semelhança das teses e argumentações de João com as velhas e superadas teorias de Nina Rodrigues.

Embora ele reconheça em certas partes do texto que o termo ‘sudaneses‘ é incorreto, na prática, ao juntar os negros oriundos do Golfo do Benin num mesmo saco de gatos étnico, acaba repetindo e reforçando todos os equívocos de Nina, erros crassos como se sabe cometidos há mais de um século e injustificáveis numa historiografia mais atual.

Este equívoco clássico – o pecado original da etnologia de Nina Rodrigues – aparece particularmente claro na omissão sistemática que João Reis faz do caráter legitimamente africano dos escravos ‘angolanos‘ chegados na Bahia, tratados sempre por ele, quase que pejorativamente como ‘crioulos‘, com a conotação de ‘impuros‘.

João na verdade parece subestimar de forma renitente ou, simplesmente ignorar – omitir – a existência na Bahia do início do século 19 de escravos recém-chegados da área etnolinguística bantu . Neste sentido a subestimação deliberada deste grupo – em qualidade e quantidade – a desqualificação de sua influencia na história do negro baiano (e na de suas revoltas) e na cultura africana na região de uma maneira geral é o traço mais evidente de suas intenções ideológicas submersas.

João Reis em debate: Pílula 02

No trecho de João Reis assinalado acima, quem afirma que os negros da costa leste africana que chegavam à Bahia no início do século 19 eram especialmente perigosos, um “alto risco para a paz escravista”, o Conde da Ponte, é uma fonte colonial, oficial e sob a qual, obviamente historiadores perspicazes como João devem lidar com muito cuidado, porque são fontes suspeitas que ora reforçam interesses coloniais superiores, ora omitem ou falseiam dados por diversas intenções individuais, subjetivas demais para serem levadas ao pé da letra, mas vá lá que seja.

Fica a impressão por isto mesmo que a fonte talvez tenha sido usada aqui como referencia porque serve para corroborar a tese central do autor: A de que os yoruba (ou os negros oriundos do Golfo do Benin) eram valorosíssimos guerreiros, ‘superiores’ neste aspecto aos demais. A afirmação, para mim um tanto apriorística é reforçada apenas pela tese do nigeriano E. Adeny Oroge “The Institution of slavery in Yorubaland” que não é de modo algum, pelo que presumo um estudo amplo sobre a impetuosidade guerreira dos africanos em geral (a tese de E. A. Oroge, pelo que me lembro, é usada também por Luiz Nicolau Parès em estudos ligados ao estudo do fenômeno da ‘nagoização‘ e da invenção do Candomblé em Salvador, BA do século 19).

De todo modo, nada há de questionável na afirmação (ou opinião) em si, mas ora, convenhamos que sob as mesmas circunstancias sociais e históricas estavam sujeitos os africanos aqui chegados oriundos de outras regiões, gente da área bantu inclusive (bastaria dar uma olhada, por exemplo nas conflituosas relações entre o Reino do Kongo, seus vizinhos e o invasor português neste mesmo período e nas guerras interétnicas no Sul da África e inúmeros outros exemplos no continente inteiro).

Esta hipótese…’etnogeneticista‘ da ‘impetuosidade guerreira superior’ original, portanto, caso fosse factível, não parece razoável que tivesse sido – como João, enfaticamente tenta afirmar – um atributo exclusivo dos yoruba e dos haussás. Não existem nesta parte do texto a princípio – João não os demonstra suficientemente – elementos que corroborem esta afirmação. As alegações, portanto podendo ser generalizadas para, praticamente todas as demais nações africanas que nos cederam escravos, é muito tendenciosa, capciosa mesmo a meu ver.

Em outras partes – as quais comentarei mais adiante – o texto de João Reis está cheio de tentativas de ser comparativo a este respeito, relacionando hierarquicamente atributos superiores dos yoruba-haussás em relação à uma suposta (e atávica) inferioridade ‘crioula‘ e/ou bantu (‘angolana‘ no caso), mas o fato de ‘sugerir‘ isto sem criar nenhum termo de comparação ou parâmetro válido que justifique esta sua… superestimação, esta adulação aos yoruba-haussás, o excessivo, o exagerado destaque dado ao ‘espírito guerreiro’ destes ‘oriundos do Golfo do Benin’ neste caso é que contamina a tese de João Reis com intenções ideológicas estranhas e questionáveis. É delas que estamos tentando  tratar aqui.

João Reis em debate: Pílula 03

A percentagem de escravos ‘crioulos’ libertos, por exemplo é um dado inócuo para a argumentação. Afinal, tratava-se de uma revolta islamica, uma ‘jihad‘ da iniciativa de negros yoruba-haussás (entre os quais inclusive muitos libertos – 48%). O dado solto assim no meio do enunciado carece de propósito. Afinal porque razão negros libertos não muçulmanos (ou não nagôs) deveriam se envolver numa revolta tão especificamente ligada a um grupo étnico religioso?

(O dado visto por outro ângulo serve inclusive para reforçar o caráter religioso da revolta – que João subestima – reduzindo a sua condição de ‘revolta escrava’ ao meu ver exagerado pela historiografia ‘oficial’ do Brasil)

A propósito vale ressaltar que existem relatos idôneos que dão conta de que este tipo de adesão de ‘crioulos‘ na Revolta dos Malês seria indesejado – e até rechaçado – pelo revoltosos mais radicais que consideravam estes ‘crioulos‘ (e todos os outros que não fossem malês) ‘infiéis‘, inimigos do islã Por isto ou por aquilo, com certeza a “ausência do negro brasileiro ou ‘crioulo’ ” na Revolta dos Malês precisa ser explicada de maneira menos grosseira e simplista, pois, as razões podem ser as mais diversas. Este fator, colocado assim eugenisticamente como João Reis coloca, não explica nada.

Esta associação direta entre ‘negro africano puro e superior’ e ‘negro brasileiro impuro e inferior’ que aparece muito explicitamente no texto do renomado historiador é o lado mais lamentável de seu discurso.

Infelizmente só se encontra algum meio de compreender as razões obscuras desta argumentação de João Reis – a tal ‘passividade crioula’ – quanto se desconfia da existência nela de uma mal disfarçada intenção de depreciar o caráter, a moral guerreira dos ‘crioulos, cabras e mulatos’ para, em contrapartida reforçar a tese da superioridade moral dos ‘aguerridos’ africanos, e indiretamente, por vias transversas, afirmar a surrada teoria da ‘supremacia nagô-haussá.

Quem tiver outra versão que me convença. Tudo fica mais claro quando se ilumina o que está obscuro com outras luzes menos distraídas.

Aliás – disse isto em meu livro – estas classificações grosseiramente eugenistas usadas por historiadores como João Reis (como não se aperceber disto?), transcendem a um racismo antiquado e nada sutil que perpassa todo o texto. Como se sabe estas categorias (‘cabra’, ‘crioulo’, ‘mulato’) não possuem mais nenhum valor etnológico. Este tipo de categorização – estou certo de que o historiador sabe disto melhor do que eu – era muito utilizada pelo regime escravista (‘boçais’, ‘ladinos’, ‘crioulos’, ‘cabras’…) com as finalidades as mais abjetas, servindo inclusive, até recentemente como modelo oficial para a classificação de indivíduos em regimes racistas como o ‘apartheid‘ da África do Sul, e a ‘lei do indigenato’ do colonialismo português, por exemplo.

Não é mais cientificamente aceitável se relacionar assim, diretamente ‘impetuosidade guerreira’ – ou qualquer outro atributo individual ou grupal – com o fato de uma pessoa ser ou não ser miscigenada (“pura” ou “impura”?) ou ter ou não ter nascido na África ou no Brasil. Isto é racismo grosseiro. Há hoje absoluto consenso quanto a isto.

Qualquer etnólogo de esquina sabe que a geografia e a genética não são fatores, exatamente determinantes da cultura ou dos modos de ser de um grupo social. Um negro – escravo ou liberto – nascido no Brasil filho de dois africanos (ou não) e vivendo isolado num ambiente cultural com pessoas de origem semelhante a sua, será etnicamente igual a um outro nascido na África.

Estes parâmetros eugenistas, enfim não são válidos para se analisar a participação de africanos e crioulos em qualquer evento histórico, muito menos numa Revolta que, afinal era… ‘dos Malês’ .

(Para quem ainda não se ligou a dica: ‘Malê” (“Imale“) é a palavra do vernáculo yoruba para “muçulmano“)

Minha amiga negra para mim, infelizmente estava certa em suas suspeitas. Minha amiga branca talvez tenha lido o livro com outros olhos…ou outros óculos, como saber? O certo é que a contradição “negro africano heroico, rebelde” versus ‘negro brasileiro covarde, passivo‘ fulcro deste trecho da tese de João José- inegável, porque está explícito – mesmo no estrito contexto da Revolta dos Malês é um conceito absurdo e inaceitável como ciência.  Não vejo isto como historiografia isenta ou séria. É o que eu acho.

Conta outra.

(Daqui a pouco a gente volta)

Leia aqui os posts seguintes: #02 e #03 e #04. Leia também este post chave sobre Nina Rodrigues, guru de JJ Reis.

(He he he he! Este post aqui – e os seguintes de sua série – está rendendo panos para mangas na internet, vazando para faculdades de história por aí e se inserindo em debates de pós graduação de forma bem subversiva. Acabo de treplicar num destes debates aí no qual a professora doutora defende JJ Reis para a sua turma, tentando puxar a orelha do Titio. Vão vendo aí o que rolou: https://spiritosanto.wordpress.com/2012/10/18/historiografia-malsa-em-xeque-a-defesa-de-joao-jose-reis/)

Spírito Santo

Março 2012

Maria & Santería


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Um Conto

Tudo eu não posso contar (ainda mais assim, a bico seco e sangue frio).

Se de início me apresso em dizer que ela não era uma moça de má fama, assim de verdade, é porque o tema é tabu tão cabuloso que a família até hoje prefere não falar. Pensemos num nome assim feito Magnólia, quem sabe Walkíria, Úrsula ou Brígida talvez, um nome desses assim, bem antigo.

Maio de 1955. Dizem que deu até no jornal.

Casou de véu e grinalda como sonhara – ou como prometera, à beira do túmulo da mãezinha – sei lá, nem se lembrava mais, de tanto que esperou por esta enfim chegada hora que o sino da igreja tanto bimbalhava.

_”Ai como é bom de ouvir! Ai como é bom de ouvir!” _ Pensava sobre o sino, de si para si, contrita.

Cheiro de naftalina. O véu já meio puído, aqui e ali, encardido de tanto ficar na gaveta da prima que o noivo abandonou ao pé do altar.

A prima infeliz, como num samba-canção, quase morrera, coitada, besuntada por aquele pegajoso fel da rejeição, tanto que até hoje é filha de Maria, tão devota, dessas que rezam novenas para tantos anseios, que numa destas estreladas noites de verão, naquela sua fé meio confusa, acordou febril depois de ter sonhos eróticos com Jesus.

Mas véu é véu, nunca estará sujo ou conspurcado. Protege a noiva contra todas as pragas e maledicências, mesmo aquelas mais viscosas das solteironas, tão ressentidas e más que até condenadas já foram (sabe-se lá por qual dos dois, o Pintoso ou o Tinhoso), para todo sempre não achar mais homens que as queiram usufruir, o que dirá para lhes servirem como maridos.

E era por isto, pela danação eterna que as solteironas carregavam entranhadas em si, que as suas maledicências todas, assim como fluíam, se esvaíam, escorrendo pela impermeável calçada da boa fama, daquela que, enfim, contra todas as maldições desta inveja encruada das primas, vai sim, vai se casar sim e está acabado.

“_ Viu só? Donzelinha, donzelinha!”

Era só o que podia dizer a prima, por entre os dentes, cuspindo sarcasmos e ironias porque, futricas mesmo, diretas, assim de constranger a família da outra, nem pensar.

Véu branco. Pronto. Encardido que fosse, tinha lá o seu peso… reputacional, como diria Oswaldo Advogado, tio orgulhoso por parte de mãe, da feliz noivinha.

‘_ Reputacional ?’...

As solteironas quando ouviam aquilo sentiam uma irresistível ânsia de morrer de rir. Ô palavrinha! Parecia até que o tio, piadista famoso, um gozador desses de botequim de esquina, queria com aquilo dizer, nas entrelinhas, alguma coisa que elas, no fundo no fundo, sabiam muito bem o que.

Isto! Isto! Prestando bem atenção, havia certo borrado no batom, um desengonçado nervoso das pernas, nos saltos altos demais, um jeito esquisito dela, a noiva, desmunhecar os pulsos, aquelas unhas enormes, vermelho-sangue, descascadas, meio reviradas, quase dando voltas, como as daquelas feiticeiras de gibi.

Tinha também aquela risadinha sem que nem porque que ela dava nas festas, que as primas solteironas diziam ser (por experiência própria, vale dizer) uma charada barbada, fácil de decifrar.

Claro! Claro! Só podia ser aquele nervosinho elétrico de quem não agüenta mais esperar. Sofreguidão, frenesi, angústia sim, pelo gozo ansiado, travado pela virgindade que, mesmo se falsa, era dolorosa e jejuada demais da conta, a mais não poder, explosiva esperança de, enfim, poder como uma lagartixa subir pelas paredes, no último patamar, nos píncaros de um… sei-lá-o-que, um êxtase, um nirvana, um… como se diz?.. Um… ui, ui, ui…

E foi assim, com este tom de ui-ui-ui, que ela, respondendo ao padre, gritou vitoriosa:

“_ Sim! Sim! Sim!”

————

Depois do silêncio emocionado dos presentes, ouviu-se o que parecia ser… soluços da noiva. Soluços? Onde já se viu? Como assim? Era outra coisa, só podia ser, mas, o quê? Espasmos? Ataque de epilepsia? Creio em Deus padre todo poderoso sim, mas, devo admitir mesmo que aquilo era… Deus do céu!.. A noiva gargalhava. Em surdos e contidos surtos sim, mas gargalhava ali, bem na cara de Deus.

E não parecia ser nenhuma gargalhada de felicidade não, até porque, a qual, embora tão fora de propósito fosse, seria entendida como… coisa de donzela.

Mas era como se ela tivesse engolido ‘algumas-e-outras’, num ímpeto de relaxar, escondida na copa da igreja, e agora estivesse fingindo que se engasgou com a água-de-flor-de-laranjeiras, com a maracujina, ou algum outro daqueles calmantes de mulher.

O certo é que, com a noiva ainda no altar, zás! Uma chispa chicoteada, uma eletrizante chibatada perpassou o púlpito e ricocheteou sibilante por toda igreja, gelando a espinha de um convidado aqui, arrepiando os cabelos de outro convidado acolá.

Lá no fundo uma voz de mulher de meia idade, sem se saber de que nem porque, soltou uma risada longa, fininha como riso de menina, mas, alta, desbragadamente alta, como uma torneirinha estourada, uma cadelinha desvairada que se alivia (me arrepio agora mesmo, só de lembrar).

Foi então que o padre Geraldo, à beira já do mais estupefato pânico, olhou para o exército de estátuas sacras apinhadas no altar, como a pedir socorro e revirou os santos olhos para a vela, justo aquela vela, a maior de todas, que bruxuleava trêmula, a ponto de quase se apagar.

E o pobre do padre foi quem primeiro apagou.

Daí as velas todas foram se apagando. Como desenho animado, até as lampadinhas vermelhas que contornavam os quadrinhos dos santos, também piscaram, um lapso sim um lapso não, até morrerem.

Uma a uma também as lâmpadas incandescentes grandes agonizaram, assim como se os filamentos delas, novinhas em folha, compradas que foram ontem mesmo para o casório há tanto tempo esperado, se desfilamentassem do nada, se desenroscassem sozinhas dos soquetes, caindo de gambiarras balançando na chuva de vento, se estilhaçando na escuridão do chão.

E a prima solteirona lá – sim, era uma delas! – quase a se esvair de rir ao fundo, emudecendo todos os ‘Dominus vobiscum’ e os ‘Et cum spiritu tuo’ que o desesperançado padre Geraldo, já reanimado por um lenço molhado com vinagre, balbuciava aos céus.

A solteirona exultava histérica, entre as lágrimas esguichadas intercalando com o seu riso frouxo, destrambelhado.

_’Eu não disse? Não disse? Não disse?”

————-

Foi quando – já não era sem tempo – os cândidos olhos do desditoso recém esposo, saindo ainda surpresos dos esgazeados olhos de sua ex-fina dama, repararam nela qualquer coisa estranha, um que de inusitada sensualidade naquilo que antes sendo uma pudica gola, de repente, virara um espetaculoso decote, rasgado por ela – virgem Maria! – logo no início do surto.

Ousadia demais seria dizer pouco, para a ocasião.

Parecia mesmo uma meretriz de filme do Oscarito aquela ex-doce noiva, com uma sem-vergonhice insuspeitada até ali, pulsando, latejando, quase a explodir e a se espalhar em purpurinas e confetes pelo salão da igreja.

O que dizer então – como ele não havia reparado antes? – das rendas em ‘fru fru’ a lhe avolumar ainda mais as já vastas tetas. E aquelas manchas violáceas no dorso e no cangote, que agora apareciam, piscando como faróis de caminhão?

De onde será que vinham aqueles chupões escandalosos no pescoço, se ele noivo respeitador e ‘Caxias’ como sempre fora, não havia jamais, absolutamente, nunca dantes em tempo algum, chupado ou mesmo sequer beijado, o apessegado pescocinho dela?

Deus era testemunha muda de que jamais ousara (embora agora soubesse que disso muito se arrependeria). Custava Deus ter-lhe dado uma dica ao menos, uma pista?

_” Custava sim!” _ Diria Deus, ‘na lata’, injuriado _ “Pois sabeis vós melhor que nós que este tal de amor é cego.”

O certo é que – tarde demais – viu que agora, como os do padre, eram os olhinhos dela que se reviravam, o corpo se recurvava, para frente e para trás, toscamente, como se estivesse em meio a uma tortuosa ânsia de tossir para fora alguma coisa, como uma espinha de tainha enviesada na garganta, algum corpo ou persona estranha, como uma alma que não era dela.

Ou que, pensando bem, uma alma que era dela sim, mas que vivia enrustida no íntimo da outra alma dela, trancada na falsa persona de donzela, que ela alimentara estoicamente, até aqui, no firme afã de não morrer titia. Foi quando, de súbito, a fina risada da prima – esta sim, solteirona julgada e condenada – lá no fundo, esmoreceu.

Tio Oswaldo Advogado, que desaparecera á primeira risada da solteirona, assomou no altar como outro raio salvador.

– “É o exorcista!” – logo pensaram todos, aliviados.

Vinha ninguém sabe de onde, dos quintos do céu ou do inferno, sabe-se lá por que cruz-credo-em-cruz-ave-maria invocado. Cuidadoso, pôs as sábias e justas mãos na fronte da sobrinha que, por uns breves momentos pareceu se acalmar. Burburinho, buchicho, até que alguém fez psssiu!

No silêncio da igreja atônita, todo mundo pode então ouvir limpinho o balbuciar sibilante da noiva em transe, incorporada, possuída talvez por um destes belzebus da vida.

“_ Ebande êh! Kandebon gexá! Eiô! Eiô!”

Cabalísticas palavras, ao que pareceu, umbandísticas palavras, mais precisamente, presumiram todos os fiéis tementes a Deus ali presentes, benzendo-se várias vezes, hirtos como se, sem pai nem mãe, a beira do cadafalso – ou da crucificação eminente – estivessem.

“_ Ebande êh! Kandebon gexá! Eiô! Eiô!”

Mas não. Tio Oswaldo não fora invocado, chamado, coisíssima nenhuma. Difícil de acreditar, mas aquilo era nada mais nada menos que uma… ‘abrição de caminho’, uma evocação a uma entidade, um santo destes com aspas, sabe-se lá quem, chamado por uma espécie de hospitaleiro ‘venha a nós o vosso reino’ kimbandista, exatamente, o inverso de um exorcismo de verdade, de um descarrego em si. Insondáveis são os desígnios de Deus.

“_Para sempre seja louvado!”

—————–—–

Só podia ser isto sim porque, lá pelas tantas, Oswaldo Advogado tirou um charuto imenso do bolso interno do paletó, acendeu a coisa com o seu barulhento isqueiro ‘ronson’ e colocou nos lábios túrgidos da tresloucada dama, delicadamente.

Clec-clec!

E todos puderam ver aquela boca carnuda com o batom borrado – agora sabemos bem porque – tragando, fundamente aquele chumaço gordo, roliço, marrom e fálico, voluptuosamente, como se a fumaça do fumarento tabaco, fosse para o seu corpo ensandecido, o mais puro e perfumoso ar.

E gargalhou secamente, a princípio quase sem som, depois bem alto. Sob o coro irreverente das velas e lâmpadas que bruxuleavam todas, sem perdão ou respeito algum pela casa de Cristo Nosso Senhor.

(Também, respeito ali, com o ato profano consumado… nem adiantava mais).

Até porque foi muito rápida a apoteose: Ela aspergiu a fumaça numa nuvem ampla, rebolando as belas ancas com as mãos nas cadeiras, espalhando a névoa branca do charuto por todo o altar, benzendo-o às avessas por assim dizer, já que, no fundo no fundo, para todos os efeitos, todo ritual religioso serve sempre para cultuar o mesmo profético e recorrente criador de todas as coisas, cujo codinome é Deus.

E soltando então a sua última e mais posessa gargalhada, a inusitada e escrachada dama por fim gritou poderosa:

_ ‘Eparrei, Iansã!’

————-

Foi assim, juro que foi.

O então marido conformou-se logo de ter casado com uma Pomba Gira, às vezes endiabrada e amancebada dama – quiçá simbólica – de deus e o mundo (sim porque discretos e comedidos, dos muitos supostos homens dela, jamais algum achou de se manifestar).

Maria Padilha ela sempre fora, Fazer o que? Mas só o era nas horas mortas, quando montada como um cavalo de umbanda, incorporada pela entidade, sempre que sacudida por alguma irresistível ou irrecorrível emoção.

Por isto nunca casara, se escondendo como o diabo da cruz da fama de reles mulher-da-vida que o estigma da sua sina lhe impregnara, esperançosa de que, mais dia menos dia, a paixão sincera de um homem bom, por fim, como um bálsamo, desvanecesse o seu karma mediúnico e como o amor de um príncipe desencantado a redimisse, virando ele sim, o seu cavalo, servo conformado por se assim dizer.

O que eu sei mesmo é que, custasse o que custasse aos noivos, se sacramentado estava o casamento, sacramentado ficou. Foram felizes para sempre, tentem acreditar.

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Oswaldo Advogado manteve a cara mais cínica deste mundo durante os acalorados – e até abusados – comentários que rolaram no botequim sobre sua sobrinha. Mas, sabem como é: Doutor que é doutor não ensina… aconselha:

Pedindo silêncio, sempre o último a falar, Oswaldo Advogado vaticinou:

“_… Sabe gente? Por dúvida das vias, tragam sempre à mão um bom charuto, de preferência, um ‘puro’ de Havana, que possa apetecer tanto a Ele (ou, a Ela) quanto a… Aquele. É que nunca se sabe da vida pregressa, dos antecedentes, da situação, digamos… reputacional enfim, da alma que se quer advogar. E data vênia tenho dito, amém!”

Spírito Santo
Out 2008