Arapuca de Nfofó


1176238614_galinha_dangolaAi que saudades da bivó

Minha bisavó era praticamente uma criança quando veio para o Brasil. Era uma negrinha magricela, mas, tão magricela que, quando os brancos chegaram, tremia tanto de medo que não conseguiu nem correr.

Ela dizia que eles chegavam de mansinho, como quem não quer nada, como que cercando uma caça mansa qualquer e ficavam acenando lenços encarnados, escondidos no meio do capinzal.

Quando os benguela mais curiosos (ô gente curiosa estes benguela! Chegavam a perder os dentes de tanto morder as coisas que não conheciam, só para sentir o gosto que elas tinham) iam ver do que se tratava… Pou! O laço caía, o benguela trupicava, esperneava, até que, amarrado com os outros numa fila, ia seguindo por uma trilha da selva, até chegar na praia, até chegar no navio que, depois da eternidade mais comprida deste mundo, chegava aqui no Brasil.

Esta história que conto pra vocês agora (como gostava de contar história a velhinha de quem eu tive o que puxar) é uma história que ela contou pro meu avô que contou pro meu pai que contou pra mim e que eu, repassador de histórias que sou, conto pra todo mundo que quiser ler o que escrevo aqui.

(Até ontem isto era segredo de família, mas deixa pra lá. Isso era uma vez e segredo de três o diabo fez).

A incrível história da arapuca Nfofó

Vocês conhecem o Nfofó? Não? Pois o Nfofó (numidasimilus meleagris) era uma espécie de galináceo vistoso, primo-irmão da galinha d’angola (numida meleagris) – vocês conhecem a galinha d’angola?- pois o nfofó era um pouco maior, com a penugem mais escura, com umas pintas amarronzadas como ferrugem ou pinta de leopardo. Uma belezura de bicho, se poderia dizer.

Dizem que era uma ave arisca a mais não poder, cismada. Quando assustada tentava, mas, não voava mais que meio metro, coitada. Não se acostumava em viver perto de gente de jeito nenhum e por esta razão era considerado um bicho chucro, selvagem (não que fosse bicho brabo não, muito pelo contrário). O certo é que os Nfofós viviam em bandos, escondidos no meio do mato.

Um detalhe importantíssimo, interessante mesmo para os meus parentes benguela (cuja vasta consciência ecológica não chegava ao ponto de se descuidar de sua prioridade absoluta: a própria sobrevivência) era, sem dúvida nenhuma, a saborosa carne do Nfofó.

Foi por esta prosaica razão, entre outras, que os Nfofós foram rareando, rareando, até se tornarem apenas uma deliciosa lembrança gustativa nos sonhos senis de minha bisavó.

Mas, a culpa da extinção dos Nfofós não foi de forma alguma – é preciso ressalvar – só dos benguela ou de qualquer outro ser humano que um dia teve o glorioso prazer de comer aquela iguaria.

Foi o que minha bisavó defendeu até à morte.

O cronista austríaco Kurt Böhler Hoffbauer que visitou o território benguela em fevereiro de 1883, a serviço do Kaiser Franz Josef, nos conta, cabalmente, que o cheiro dos ovos do Nfofó era muito forte, insuportável mesmo, porém, na mesma medida, irresistível aos homens, provocando neles uma estranha sensação afrodisíaca.

A lenda dizia, no entanto que este odor característico ficava impregnado no corpo de quem comesse os ovos por dias e dias, á fio, semanas talvez. Depois de dissipado do corpo, o cheiro maldito continuava, para sempre na mente das parceiras de quem comeu os ovos, impossibilitando qualquer contato íntimo para o resto da vida. Era, obviamente, um castigo atroz para os benguela, fornicadores contumazes e notórios que eram (ou ainda  são até hoje, quem sabe). Hoffbauer observou nas notas de seu relato que:

“… Der kraft schmertz die manner hunger anreidzend, über unwiderstehlicht form, aber die gegessen später, in der schweiB unbeweglich eine grosse abneigung in der frauen mache…” na tradução livre:…” (O forte odor dos ovos estimulava, de forma irresistível, a gula dos machos humanos mas, após a sua ingestão, impregnado no suor de que os comeu, provocava uma aversão maior ainda nas fêmeas…)”

(in ‘Das Angolanisches ganze leben’, Hoffenabuer, K.B.
GanzeWelt Verlag – Köln, Deustschland 1883)

Aquele talvez fosse um inteligente e caprichoso artifício da natureza para a preservação dos Nfofós: Salvavam-se os ovos ou o hábito de comê-los extinguiria de vez com raça dos benguela. No entanto, do jeito que os humanos gostam de tudo que é proibido (como se sabe, em nós a inteligência e estupidez são atributos gêmeos) a solução da natureza era um frágil artifício.

É o que veremos á seguir.

Minha bisavó dizia que, embora os mais jovens fugissem dos ovos de Nfofó com sabedoria digna dos mais velhos (a quem eles deixavam o castigo de comê-los) muitos benguela se lixavam para a lenda. Com o tempo então, a maldição dos ovos teve que ser repassada também para a carne do Nfofó, ou seja, para o Nfofó como um todo.

Hoffbauer chega a reproduzir em seu livro, uma gravura benguela da época (na verdade uma gravura flamenga, muito antiga), retratando o Nfofó como uma espécie de entidade maligna e assustadora. Nada disso, contudo, adiantaria por que, entre todos os nossos tolos instintos, o da sobrevivência sempre foi o mais estúpido: mesmo sabendo que podemos morrer disso, se é só isto que temos para comer, na ânsia de sobreviver, é exatamente isto que comeremos e é, fatalmente, disto que morreremos.

Gravura 1856 - in ‘Das Angolanisches ganze leben’, Hoffenabuer, K.B.

Gravura 1856 – in ‘Das Angolanisches ganze leben’, Hoffenabuer, K.B.

Ficava o dito pela lenda como não dito então.

O fato é que se comia muito fartamente Nfofós naquele tempo. Para comê-los, tínhamos que caçá-los, saber seus hábitos e suas manias, para então poder inventar uma armadilha para apanhar o bicho. Daí a arapuca do Nfofó cuja minuciosa descrição cuido de relatar a seguir.

O nome Nfofó, como vocês já devem ter intuído, é onomatopéico, ou seja, vinha do som que ele emitia quando estava com medo, assustado. Como ele era, apesar de arisco, um bicho danado de curioso, levava muitos sustos em sua curta vida.

Esta curiosidade atávica, hábito mais característico do Nfofó, foi como também se pode intuir, a sua ruína.

Com know how desenvolvido pelos benguela em muitos anos – séculos talvez – a Arapuca de Nfofó (‘nfobulobulo’ em idioma benguela), tinha no tempo de minha bisavó a forma de uma caixa triangular de gravetos habilmente atados com um cipó especial, chamado por eles de ‘lukululu’ (‘ngnosis selvaticus’). Havia na caixa uma portinhola á guiza de guilhotina, firmemente tencionada por uma vara longa, que os benguela chamavam pelo curioso nome de ‘kalapulo’ (de provável procedência lusitana).

Nestes aspectos até que a arapuca de Nfofó era uma armadilha bem comum. O que a tornava única, era o fato de ser profusamente enfeitada com penas de pássaros locais, de variadas cores, além de muitos chocalhos, feitos com pequeninas cabaças contendo sementes, muito leves, que faziam ruído a qualquer brisa ou vento que soprasse.

Diante de um chamariz e de uma armadilha, ao mesmo tempo, era curiosidade então que pegava o Nfofó pelo pé.

Um dos dados mais curiosos da tática de caça ao Nfofó era que, ao invés de esconder o nfobulobulo como deveria fazer com qualquer arapuca, a prática mais comum era deixá-lo bem visível, próximo á vegetação cerrada onde os bandos de nfofós se escondiam. Um deles sempre percebia a arapuca e tomado de insuportável atração, corria para ela aos berros:

_”Nfofó! Nfofó! Nfofó!”

Todo o bando, mesmo escondido, entrava a em polvorosa gritando num especial alarido, chamando a atenção do caçador que, podia estar a alguns metros dali, tranquilamente dedicado a outros afazeres. A cena que se seguia, até há pouco tempo, enchia de água a boca de minha querida bisavózinha:

O nfofó precursor, aquele que primeiro viu a arapuca, olhava por alguns instantes para ela, extasiado de pavor. Espevitado, abria o bico em desespero, repetindo:

_”Nfofó! Nfofó! Nfofó! Te digo! Te digo! Te digo!”

(Este ‘te digo’ era outra sutil diferença entre os sons onomatopéicos do nfofó e da galinha d’angola que, como se sabe fala ‘Tô fraco’ Tô fraco! Tô fraco!”)

Logo em seguida, o Nfofó precursor corria para o bando e voltava correndo para a arapuca, acompanhado agora por mais um curioso. O caçador, neste exato momento, punha a arapuca para funcionar e pronto, o primeiro nfofó ficava ali, estrangulado, enquanto o histérico sobrevivente corria para o bando, no mesmo ritual:

_”Nfofó! Nfofó! Nfofó! Te digo! Te digo! Te digo!”

Pegava-se assim, um a um, todo o bando de pobres nfofós.

Hoje em dia – é claro – não existem mais nfofós em Angola. Minha bisavó dizia também (mas isto eu não consegui provar ainda) que vem do nome nfofó a palavra brasileira fofoca que, neste caso, seria mais uma interessante contribuição das línguas africanas ao português falado no Brasil.

Pelo menos no que diz respeito ao jeito da arapuca pegar o nfofó (no caso dos fofoqueiros em si, dos ‘disse-me-disses’, dos ‘língua-de-trapos’, dos ‘leva-e traz’ e dos incontáveis ‘um-sete-uns’ e trambiqueiros deste nosso Brasil, bem que a minha bisavó podia ter razão.

Spírito Santo

Rio, 24 de julho de 1993
(com ligeiros retoques em 2007)

NOTA IMPORTANTÍSSIMA!

Caro favor leitor, leia por favor as notas abaixo (o terceiro comentário a este post) que são do seu absoluto interesse para a compreensão total deste texto: