EXUCHIBATA, a peça (texto integral)


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“…Qual cisne Branco em noite de lua

Peça Teatral de Spirito Santo /1994


Guarnição do encouraçado ‘Minas Gerais’, como a esquadra dominanda, armada para o que desse e viesse.

(Leia resenha da peça neste link)

Cena 01
Kizumba
Exu Tranca Rua

Platéia entrando. No palco, a cena inteiramente montada está “congelada”.

Cena reproduz um motim popular numa rua do Rio em 1904. Barricada com pedaços de móveis velhos, caixotes, etc., está formada Em parte destacada da cena, dois negros capoeiristas, em posição de comando, ao lado de partes de um bonde virado. Fincada no bonde, uma vara com um trapo de pano vermelho simulando uma bandeira.

Á frente desta cena, ocultando-a parcialmente, a reprodução do quadro ampliado da capa de um Jornal segundo descrição a seguir.

Manchete está escrita numa longa faixa, sui

spensa por dois atores em pernas de pau, tomando todo o comprimento superior do palco :

JORNAL DO COMMÉRCIO

12 de Novembro de 1904
EXPLODE A REVOLTA DA VACINA!
Populacho em fúria faz quebra-quebra na cidade!

Abaixo da faixa, atores ou figurantes seguram alguns painéis quadrangulares, ficando ocultos atrás deles. Painéis reproduzem detalhes diversos da diagramação da capa do jornal (blocos de textos, charges, anúncios, etc.)

A composição com os painéis e a faixa, deve cobrir quase que, inteiramente a boca de cena, inclusive na sua altura, deixando vazia apenas um trecho quadrangular, onde se poderá ver enquadrado como uma foto, o pedaço da cena com os dois capoeiristas e parte do bonde com a
bandeira.

Inteiramente silenciosa e imóvel, a cena deve permanecer assim o tempo suficiente para criar um tensão inicial na platéia.

Após este tempo, som de um apito da polícia.

Grupo de policiais irrompe na cena com estardalhaço. Um deles carrega um cartaz onde se lê:

CENSURADO PELO GOVERNO !

Elementos cenográficos da “capa” se dissolvem, sendo desmontados desordenadamente e com rapidez. Cena atrás deles explode em gritos.

Fumaça e correria. Alguns policiais entram em cena portando espadas e dando tiros de  mosquete nos manifestantes. Pequenos objetos como rolhas, são lançados no chão por estes manifestantes. Policiais caem, tropeçando nos objetos. Em todas as situações, os dois  capoeiristas estão em posições de destaque, comandando o motim. Outros manifestantes também lutam com passes de capoeira.

Manifestantes vão sendo dominados. Muitos estão caídos como se feridos.

Gritos, ruídos e fumaça vão se dissipando até cena se congelar de novo.

Figurante vestido como um esfarrapado profeta louco, cruza lentamente a cena congelada, portando duas tabuletas seguras como “tábuas da lei”. Nelas se lê:

Tabuleta 01
Este país da Bruzundanga
parece de Deus deslembrado
Nele o povo anda na canga
amarelo, pobre, esfaimado

Tabuleta 02
No ano que tem dois sete
Ele por força voltará
e oito ninguém sofrerá
pois castigos já são sete
e oito ninguém sofrerá

Cena ainda congelada. Som de tambores e berimbaus vem surgindo ao fundo, crescendo, de fora da cena.

Os dois capoeiristas – Manduka e Pata Preta- separam-se dos demais e simulam jogar capoeira na frente da cena que, vai se descongelando lentamente.

Policiais orientam rudemente ações de “limpeza” do palco, realizadas pelos atores e figurantes. Feridos são retirados. Cena se prolonga com o retorno gradativo daqueles que vão saindo para as coxias, de forma que sempre haja o movimento de limpeza do palco durante toda a cena a seguir.

Capoeiristas durante as falas, interrompem o jogo. Cena atrás deles se congela nestes momentos. Quando voltam a jogar, após cada fala, cena atrás deles se descongela.

Sempre alternando movimentos e falas, capoeiristas se dirigem à platéia:)

Manduka: (olhando para os policiais)

_Pulhas! Na pernada não vem cá. Mandaro meu pai pra guerra do Paraguai. O véio caiu lá mesmo…um magote de capoeiras caiu por lá, adefendendo o Brasil. Agora eles falam que nós é da arruaça e do motim. Queriam o quê? Eles vem de espada e mosquetão. Queriam o quê? Que nós aceitasse morar na rua, no tempo? Derrubaram um muro aqui, na Praça da Harmonia, em cima de gente viva! Pulhas! Pra matar índio no Paraguai nós serve. Aqui, se nós se adefende deles, eles atacam e… tome chibata!

(Volta o jogo até congelar )

Pata Preta:

_ De primeiro eu até ria. Meganha correndo, com a espada calada na bunda, entre as pernas, igualzinho a um rabo…eu gozava! Chegava rolar no chão de tanto rir. Depois, foi me dando raiva. Fiquei dez dias no hospício, sabem porque? Tava descalço, andando no Rossio, cheio de parati. O meganha chegou e me deu umas três porretadas. Pronto! Dei banda nele…Ah,ah,ah! Caiu sentado na lama, o desgraçado. Daí corri.

Me pegaram. Fiquei lá no meio dos malucos, comendo o maior fubá. Quer dizer…Andar descalço é crime, né? agora…dar porretada na cabeça de negro é o que? Se agente fica na rua, sem casa…já tá descalço, né?…Pra agüentar, ora…só tomando muito parati. Quer dizer…nós tá no crime sem querer. Pegam a gente e botam adonde? No hospício, na casa de correção, na Presiganga, mandam nós pro Acre, pros bichos comer. De modos que comigo é assim: Chegou, bateu? Eu também dou porrada! E…tome chibata!

(Volta o jogo até congelar )

Manduka:

_A verdade eu falo agora. Querem derrubar nossa casa. Eles falam que é pr´uma tal de saúde pública. Pública de quem? Sem casa como é que a gente pode ter saúde? Meu avô foi escravo. Carregava na cabeça um barril de merda da família do sinhō, da Rua Direita até o cais Pharoux. O senhor morreu duma febre que deu lá, naquele tempo. A casa do finado, do sinhō do meu avô foi derrubada? Que nada. Tá lá até hoje…podre, fedida.

Não tô aqui por que quero.  Trouxeram meu avô pra cá. A gente se adefende com o pé, com a mão, com um pedaço de pau, com o que for. Me dá casa nova, me dá sapato, me dá camisa que eu bato palma pra saúde pública. Se me der bordoada, eu devolvo, eu pago, dou porrada também! E…tome chibata!

(Palco neste momento deve estar totalmente limpo. Ouve-se novamente o som de histéricos apitos da polícia. Capoeiristas correm para fora de cena, perseguidos por policiais.)

Cena 02
MUSEKE
Exu Marabô

(Penumbra. Novas partes do cenário, transferidas dos bastidores para o palco, fazem com que ele tenha agora dois níveis, sendo o superior composto por um praticável ou jirau móvel, dividido de alguma forma em dois espaços distintos, acessados por intermédio de escadas também móveis.

Metade deste jirau, reproduz um coreto tradicional, em cuja parte central bem no topo, um figurante coloca um letreiro. )

BATALHA DAS FLORES
GOVERNO PEREIRA PASSOS
1906

Música de bandinha, surge dos bastidores, crescendo. Parte do lado do palco, o mesmo onde está o coreto, mantém o bonde da cena anterior recomposto, ao lado da mesma coxia onde estava, sendo acessível aos atores através dos bastidores.

Saindo da coxia e atravessando o bonde, como se dele desembarcassem, muitas pessoas entram e cena, todas com os rostos pintados de branco. Algumas delas ficam por um tempo, dependuradas nos balaustres do bonde que, assim como tudo neste lado da cena, está ornamentado com flores. As pessoas estão muito bem vestidas (roupas de domingo), portando chapéus, bengalas, guarda-sóis, bambolês e bicicletas, tudo enfeitado. Músicos de uma bandinha também entram por ali.

O fluxo constante de pessoas pode ser conseguido através da circulação delas do palco para os bastidores, de onde retornam de novo ao palco, com ligeiras alterações de figurinos e adereços. As pessoas vão se aglomerando em torno do coreto, fazendo grande alarido. Luz neste ambiente é feérica Sob luz mortiça e no outro lado do palco simetricamente dividido, a parte inferior do jirau representa o pátio de uma casa de cômodos, no qual deve estar à vista algo que se assemelhe à fachada de um cortiço.

Um pequeno chafariz, algumas tinas de roupa, cadeiras, além de varais de roupas cruzados pelo espaço mas ainda vazios, podem completar o cenário.  Focos nos participantes da festa no coreto. Um grupo de autoridades se aproxima, vindo detrás da platéia. Grupo de policiais faz escolta.

Participantes da festa, do palco, aplaudem e dão vivas entusiásticas. Participante grita:

Participante:

_ Viva o Prefeito Pereira Passos!

Todos respondem em coro.

Grupo de autoridades sobe ao palco e se fixa no centro do coreto. Fotógrafo com máquina “lambe-lambe” assume boca de cena. Autoridades se imobilizam diante do fotógrafo, esperando a foto. Explosão do flash fotográfico sinaliza inversão da luz nos ambientes. Na penumbra, cena do coreto prossegue com movimentos normais mas, sem ruídos.

Luz da casa de cômodos cresce. Pátio da casa de cômodos começa a ser ocupado por homens vestidos com roupas sujas, trazendo alguns dos adereços citados que vão sendo largados pelo pátio. Alguns destes homens são marinheiros. Outros homens entram trazendo carrinhos de mão tipo “burro-sem-rabo” e grandes sacos de carvão.

Ruídos da cena são apenas os produzidos pelas ações descritas. Alguns homens entram na casa e desaparecem nos bastidores. A maioria senta ao lado do chafariz, fumando lentamente. Todos parecem cansados. Mulheres começam a sair da casa e estendem roupas nos varais. Num dos cantos uma mulher lava roupa numa tina.

Homens e mulheres vão se recolhendo para o interior da casa até que toda o pátio fique vazio.

Nova explosão de flash fotográfico. Nova inversão de luz nos cenários.

Burburinho na cena do coreto volta forte. Luz forte se concentra no centro do coreto onde se destaca uma autoridade de barbicha.

Prefeito faz discurso inflamado:

Pereira Passos:

_ A população do Rio que, na sua quase unanimidade, felizmente ama o asseio e a compostura, espera ansiosa pela terminação desse hábito selvagem e abjeto, que nos impunham as sovaqueiras suadas, apenas defendida por uma camisa de meia rota e enojante de suja, do vexame de uma súcia de cafajestes, em pés no chão, quando um calçado está hoje a 5 mil réis o par e há tamancos por todos os preços. Na Europa, ninguém tem a insolência e o despudor de vir às ruas de Paris, Berlim, de Roma, de Lisboa, etc. …em pés no chão e desavergonhadamente em mangas de camisa!

Aplausos frenéticos de novo. Participantes ficam agitados. Prefeito prossegue:

Prefeito Pereira Passos:

_O Rio de Janeiro principalmente vai passar e…já está passando por uma transformação radical. A velha cidade, feia, suja, tem os seus dias contados! Não é outro, tenho-lhes dito, o verdadeiro sentido de civilização e progresso do que nossos detratores tem chamado, levianamente de “bota a baixo”!

Coro de participantes (gritando) :

_ Bota a baixo! Bota a baixo! Bota a baixo! Bota a baixo!

Participantes vão ficando agressivos e começam a ocupar o cenário da casa de cômodos,  depredando-o. Policiais tentam impedir, sem muita convicção e não conseguem. Platéia começa desmontar todo o pátio da casa. Policiais resolvem também a ajudar no vandalismo.

Participantes da batalha das flores vão ocupando toda a cena, Luz acompanha este movimento de expansão da cena e vai tomando também todo o espaço cênico. Prefeito é carregado em júbilo pelos participantes, que vão saindo com ele pelo lado onde estava o pátio da casa.

Alarido da saída dos participantes da batalha da flores prossegue ainda um pouco, mesmo depois da cena estar vazia.

Com o silêncio, homens e mulheres que moravam na casa de cômodos, voltam à cena como garis da época, limpam os restos de adereços que sobraram no palco e recolhem as partes do jirau.

Luz vai caindo até o black out.

Cena 03
ZUNGA
Pomba Gira

Música de Ragtime em piano comum e percussão típica. Fundo da cena simula linha do mar e parte do convés de um navio do início do século.

Predominância de preto e branco nas cores em todo cenário e figurino. Personagens brancos, têm os rostos pintados nesta cor.

Todos os movimentos das personagens são esquemáticos, quase mímicos.

Cena simula uma seqüência de cinema mudo.

Português bigodudo entra em cena de ceroulas, boné característico e tamancos. Caminha até o centro da cena de forma cômica. Só aí demonstra perceber que está de ceroulas. Cobre a bunda e púbis com as mãos e foge para uma das coxias. Antes de sumir faz sinal para que a platéia o aguarde.

Português volta com o corpo coberto por dois painéis de anúncio de cinema. No painel da frente se lê:

“Cinematógrapho Avenida e Pathè Films Apresentam A sensacional película!!

KALUNGA, O MARUJO DO BARULHO”

Português vira de costas. Segundo painel é lido:

Hoje:

KALUNGA E OS TENENTES DO DIABO

Português sai de cena mas voltará sempre com novos letreiros que formarão as legendas do filme mudo.

Grupo de tenentes da marinha entra desajeitadamente no palco, um deles faz soar um apito característico, chamando alguém que está oculto na coxia, do lado oposto ao que entrara o  português. Um dos tenentes faz a mímica como se falasse. Português mostra letreiro:

MARUJO, APRESENTE-SE!

Pessoa chamada não se apresenta. Um dos tenentes agita no ar uma chibata. Apito soa  novamente. Tenente repete o chamado, com mais ênfase.

Português mostra de novo o letreiro:

MARUJO, APRESENTE-SE!

Entra em cena o marujo Kalunga. Negro, baixinho, fazendo graça para a platéia. Tropeça, finge que está com medo dos tenentes, Perfila-se e faz desajeitada continência para eles. Um dos tenentes faz mímica de grito, dirigindo-se aos outros.

Português mostra letreiro:

A BARRICA! A BARRICA!

Dois tenentes vão até a coxia e retornam com uma grande barrica posta sobre um chassi com rodinhas. Viram para a platéia um lado da barrica onde se vê um orifício. Tenentes apontam o orifício para a platéia. Ordenam a Kalunga que se aproxime. Letreiro anuncia a ordem:

ENTRE NA BARRICA, MARUJO! É UMA ORDEM!

Kalunga reluta. É pego por um dos tenentes, se desvencilha, corre pelo palco. Muita comicidade na perseguição. Corre em torno da barrica até ser pego pelos os tenentes. É posto à força dentro da barrica que é levada com ele dentro para fora do palco. Tenentes saem com a barrica, rindo e indicando com gestos, que vão sodomizar o marujo . Letreiro anuncia:

ORDENS…SÃO ORDENS!

Breve momento de cena deserta. Kalunga coloca a cabeça para fora dos bastidores, do lado oposto ao do que está a barrica. Kalunga assume o palco e faz sinal para que platéia fique em silêncio. Eufórico, faz suspense, aponta para o lado onde está a barrica. Pede a platéia que espere atenta.

Luz na direção da coxia onde está a barrica. Gemidos lascivos são ouvidos, vindos do lado onde está a barrica. Logo após os gemidos, um grito desesperado de dor.

Kalunga simula riso divertido, cobrindo boca para não ser ouvido, insinuando sempre com mímica o que está ocorrendo na coxia. Gritos de desespero de todos os tenentes.

Kalunga solta gargalhadas (sem som) Tenentes entram, perseguindo Kalunga com raiva. Kalunga foge, dá uma volta completa pelos bastidores e volta à cena. Tenentes, ao atravessar o palco, deixam que se veja enormes lagostas vermelhas, balançando, presas nas braguilhas como se tivessem sido mordidos.

Atrás do grupo que sai finalmente de cena, entra o português com letreiro :

É O FIM!

Luz caindo até curto black out.

Luz volta. Placa do filme postada num canto, indica a saída do cinematógrafo.

Político e mulher elegantes, entram em cena como se estivessem saindo do cinema mas, apenas simulam estar andando pela rua enquanto conversam.

Detalhes da rua – placas, letreiros, postes, quiosque, etc.- são adereços carregados por atores e figurantes que desfilam com eles pelo palco, como se a rua girasse num ciclorama.

Mendigos abordam o casal mas são repelidos com elegância. Carroceiros cortam a cena com carrinhos “burro-sem-rabo” cheios de tralhas. Quiosque se imobiliza e grupo de populares entram em cena para ocupar o balcão.

Bebem, comem e conversam. Vão ficando bêbados. Palco vai se enchendo de figurantes caracterizados como prostitutas, marinheiros, vendedores ambulantes, etc.

Burburinho se reduz para a fala do político.

Político: (Irritado)

_ Achei a película execrável!

Mulher:

_ O que, Chèrie?

Político:

_ Detestável! Uma bodega! É o que digo sempre…É assim que
nossos ideais de progresso dão sempre com os burros n’agua!

Mulher:

_ Mas era só uma sátira, chèrie!! Até que bem hilariante…Um  pouco grosseira talvez  mas…divertida. Muito divertida!

Político:

_ Existem temas mais apropriados. Zombam das instituições, isto sim. A armada devia coibir estes excessos!

Mulher:

_Não seja tolo, chèrie! É uma película norte-americana. Aquela armada não é a nossa. Deve ser a inglesa…sei lá!

Político:

_ Mas é como se fosse. A vida dos marujos, afinal não é tão dura assim. Ainda ontem estes homens não eram mais que escravos. Hoje têm soldo, trabalho digno, viajam o mundo e…

Grupo de bêbados irrompe numa sonora gargalhada. Casal olha para o quiosque surpreso, como se achasse que riram deles.

Mulher:

_ Oui, mon amour! Você está certo. São abusos sim mas, você não relaxa nunca? Detesto este teu fanatismo pelo trabalho na Câmara, esses debates. Você se acha a palmatória do mundo. Um dia você vai e o Brasil fica por aí, oh…belo e faceiro. Viu como todo mundo se divertiu lá no cinematógrafo? Até os velhos mais caquéticos riram à larga. Você devia deixar a política na escrivaninha da câmara, isto sim. O importante, chèrie, é o…savoir vivre!

Homem:

_ Vocês, mulheres…acham que tudo se resolve com savoir vivre e art nouveau. Pensam que isto vai…colorir as mazelas do país? Isto aqui, minha cara, não é a França não. Olhe para esta gente (apontando para o quiosque ) Não se civiliza nunca, viu? Se a gente dorme, é capaz de acordar com os excrementos deles em nossa própria porta. Nossa art nouveau, nossa belle époque, hum…só se for com muita água e sabão!

Pessoal do quiosque passa a olhar o casal com hostilidade. Casal se assusta e vai se retirando.

Mulher:

_A propósito, mon amour…Podíamos ir à tua garçonière! O que achas? Tomamos um banho de sais e…Você não sairá cedo amanhã, não?

Homem:

_ Infelizmente sim!

Mulher:

_Oh, non!

Homem:

_ Sim, sim! Irei agora contigo mas, pela manhã…Imagine que o jornalista João do Rio nos aprontou mais uma. Desafiou-nos, a todos nós da Câmara e, pelos jornais, a acompanhá-lo numa inspeção sanitária, a uma destas espeluncas da cidade. Disse ele que se chamam…Zungas. São lugares fétidos, imundos, nem queira saber o quanto. De modos que terei que ir ao beco dos ferreiros amanhã. Não posso medrar. Só espero que…os sais de hoje, me livrem de um impaludismo amanhã!

Mulher:

_Oh…oui, oui! Os sais de França fazem milagres, chèrie!

InBêbados fazem algazarra. Xingam o casal que sai rápido de cena. Dono do quiosque fecha as janelas, expulsa os bêbados que saem protestando.

Último bêbado mostra um letreiro:

DIA SEGUINTE. NO ZUNGA

Penumbra. Jiraus retornam. Reproduzem agora o interior de uma hospedaria barata, tipo “cabeça de porco”. O espaço cênico, está agora totalmente ocupado pelos atores com esteiras, redes e camas improvisadas. O nível superior, dividido, de alguma forma em planos ou espaços distintos, é acessado por intermédio de escadas.

A maioria dos atores e figurantes, vestidos com trapos imundos ou seminus, vão entrando lentamente e ocupando os dois níveis do espaço, deitando-se silenciosamente, demonstrando cansaço. Alguns se deitam simplesmente no chão. Entre eles estão alguns marinheiros.

Brigam entre si por melhores espaços. São brigas surdas, com movimentos bruscos e tensos. Burburinho contido de vozes tossindo, e reclamando e depois, respirando ou roncando, prosseguem até o silêncio.

Penumbra é rompida por luz forte e súbita. Grupo de policiais, vindos dos bastidores, irrompe no recinto seguido por homens engravatados. Policiais afastam rudemente com cassetetes, as pessoas que estão no caminho.

Alguns fingem dormir, outros envergonhados, sentam-se cabisbaixos. Só se ouvem as vozes dos policiais e inspetores. Entre eles está o cronista João do Rio que fala:

João do Rio:

_ Eis aí, senhores, o vosso século 20! Nosso alentado progresso. Não lhes disse que o Brasil escondia a idade média em suas entranhas?

Alguns inspetores puxam lenços para tapar os narizes, com nojo. Outros  hesitam em avançar. Político do cinematógrafo fala para os demais:

Político:

_ Vamos senhores! É preciso não ter pejo. Vejam a realidade crua, nojenta. Sintam o seu cheiro, seu miasma infecto. Como vêem, não exageramos em nossos discursos na câmara. Urge ou não urge acabar logo com estes antros? Pois venham Srs.! Avancem!

Polca “Rato, rato” em compasso bem lento, soa no ambiente. Grupo circula pelos corpos caídos, desviando de uns e de outros, Na subida da escada, alguns hóspedes estão apoiados, fingindo dormir num corrimão. Mulheres, sentadas nos degraus da escada, escondem as pernas, cuidadosamente.

No andar superior, muitos homens deitados estão quase nus, enquanto que longo banco de madeira, um grupo cochila sentado, com os antebraços apoiados numa corda esticada, cujo nó é rompido bruscamente, por um dos policiais. Pessoas que cochilam na corda despencam no chão. Os despertos ficam de pé num salto, assustados.

Inspetores vão se retirando em silêncio. Policiais abrem caminho com os cassetetes. A esta altura todos já estão acordados e se comportam entre envergonhados e assustados. Cena vai voltando à penumbra lentamente.

Pessoas vão voltando a seus lugares, lenta e silenciosamente. Polca prossegue mais um pouco e vai descendo com a luz até o black out.

Cena 04
KURIMBA!
Exu Veludo

Luz volta. No palco uma mesa, em cima dela uma moringa, um lampião, um cinzeiro com um cigarro aceso, alguns papéis e uma garrafa de cachaça.

Sentado na mesa o marinheiro João Cândido, com a túnica da farda desabotoada e descalço. Som de batidas na porta. A batida é ritmada, como um senha. João responde:

João Cândido:

_ Pode chegar! Tô aqui!

Três outros marujos entram e sobem uma das escadas do jirau. Cumprimentam-se efusivamente e se sentam. Bebem cachaça e conversam com João, preocupados.

Líder marujo 01:

_ Uma coisa é certa. A marinha sabe, gente. Desde que a gente voltou da Inglaterra que ela sabe.

Líder marujo 02: _ Pois é. Eles devem ter mandado a gente pra lá, só pra ver se arrefecia a idéia do motim. É isso. Só pode ser. Olha…É melhor adiar isso.

João Cândido:

_ Que é isso, gente! Que adiar o quê…Calma. ´Cês lembram daquele sindicalista inglês, lá no estaleiro de New Castle…O Laughton, lembram? Pois ele já tinha me dito que a Marinha andava meio ressabiada mas…não com a gente. Se nos mandaram p´ra Inglaterra é porque botaram esperança na gente, claro! Que desconfiança o que, ora! É só a gente fazer tudo direito, sem apavoramento, com paciência!

Líder marujo 01:

_ Mas João…é arriscado, homem. A inglesada foi amiga, muito solidária e tal e coisa mas…eles estão lá, né ? E nós aqui! A gente pode ser preso, condenado…Pode até ser morto, fuzilado! Tua
casa já tá vigiada, tu sabia? A gente espera outra chance. É melhor adiar a revolução, né mesmo?

João Cândido:

_ Que nada! E se a Marinha souber? E daí? Eles devem estar achando que é fogo de palha nosso, homem. Acham que a gente não tem capacidade pra organizar, comandar a tropa. Olha só…eu já marquei com o Marcolino. Marquei pra hoje, lá naquele candomblé do Santo Cristo. A gente pode conversar todo mundo lá. Toma umas cachaça, pede proteção pra oxalá, pra Exu, sei lá? Vamo em frente que eu sei que vai dar… Calma, gente.

Líder marujo 03:

_ Tá certo, tá certo! Mas nós vamos ter que mudar o endereço do comitê. Tua casa tá mesmo vigiada. Aqui na Saúde não dá não…Não dá mais.

João Cândido:

_ Papo furado…Mas ´cês não tem imaginação mesmo, heim! Eles acham que nós somos um bando de pés lascados. Fica calmo, homem. Já temos plano, já temos data…o que vocês querem mais? ´Cês tem que confiar aqui no timoneiro, ora! Vão, vão logo. Lá no Marcolino a gente se vê, tá bom?

Marujos se levantam e descem. Um deles volta e pega a garrafa de cachaça. João apaga o lampião e desce com eles, deixando a cena às escuras.

Ruído de sereia de navio. Alguém bate numa porta. Voz responde:

Voz: (Em off ) _ De quem se trata? Apresente-se!

Ninguém responde ou se apresenta. Oficial da Marinha aparece se aproximando de uma porta. iluminada. Abre a porta e não vê ninguém. Algo chama a sua atenção no chão. Encontra um bilhete na soleira da porta.

Oficial pega papel e fixa o olhar nele, como se lesse.

Voz (lendo bilhete, em off ):

_”Venho por meio desta linhas, pedir não maltratar mais a guarnição
deste navio que tanto se esforça para trazê-lo limpo. Aqui ninguém é
salteador nem ladrão. Desejamos paz e amor. Ninguém é escravo de
oficiais e …chega de chibata. Cuidado.
Assinado:
Mão Negra “

Oficial tem reação preocupada. Black out.

Tambores de candomblé tocam forte para Exu, ocultos da cena. Luz
crescendo.

Mulheres, participantes do culto – Ekedis – montam ritualísticamente o cenário com a instalação de um peji (oratório). Nele velas são acesas, vasilhas de comida para os orixás- ebós – são colocadas , etc. Logo após a montagem, Ekedis saem e retornam junto a um grupo maior de Yaôs, dançando e cantando ao som dos atabaques. Cena deve reproduzir elementos essenciais do ritual de uma “saída de Exu”.

Algumas pessoas estão “possuídas” e dançam em transe. Pessoa que está sendo iniciada entra em cena paramentada como Exu. Não se consegue ver quem está sob os paramentos. Ritual vai assumindo clima de grande êxtase. Grito de sacerdote-ogã – interrompe o ritual. Grupo de Ekedis e Yaôs, vai se retirando da cena dançando.

Pessoa vestida de Exu vai se despindo dos paramentos. Sob eles vai aparecendo uma farda de marinheiro. Já totalmente despido dos paramentos, se percebe que o iniciando é João Cândido.

João Cândido: (para a platéia )

_ Meu nome é João Cândido Felisberto, gaúcho, marinheiro de primeira classe da gloriosa Marinha do Brasil.

Estive na guerra do Paraguai e sobrevivi. Quando o Brasil mandou construir na Inglaterra os três encouraçados mais modernos do mundo, eu estava lá, na guarnição. O meu navio é o Minas Gerais, sou o timoneiro do melhor navio do mundo. É por isso que eu digo. Não sou nenhum desqualificado não. O que eu não sou e nunca fui mesmo é Pai João. Tá tudo aí pra todo mundo ver. Tratam a gente feito cachorro. Não dá mais. Chega de chibata! Se o governo não vê ou finge que não vê, eu vejo e, tenho nojo do que vejo.

Black out. João Cândido desce para a platéia e se junta ao público, para assistir a cena a seguir.

Som dos tambores vai crescendo. Parte do Jirau, deslocada para o palco por figurantes vestidos de marinheiros, representa de novo o convés de um navio do início do século. Há no conjunto um grande mastro de navio bem à vista.

Grande grupo de marujos entra em cena, assumindo posições no navio, sob o comando de oficiais. Ordens gritadas pelos oficiais são ouvidos. Oficial comandante, em posição de destaque, grita, apontando para uma coxia:

Oficial Comandante:

_ Aos ferros! Acorrentem o negro no mastro ! Aos ferros com ele, já! Dois cabos entram em cena com um marujo amarrado. Oficial comandante ordena para os demais oficiais:

Oficial Comandante:

_ Em formatura!

Oficial repete a ordem. Marinheiros formam. Silêncio na cena. Marujo é preso ao mastro e  começam a açoitá-lo com chibatas. Tambores de candomblé marcam o ritmo das chibatadas .Oficial ordena que a tropa dê as costas para o marujo açoitado.

Oficial Comandante:

_ Meia Volta…Volver!

Tropa não obedece a ordem e fica imóvel. Oficial insiste em vão. Demais oficiais se agitam tensos.

Líder Marujo: (gritando)

_ É agora!

Tropa desfaz a formatura e cerca oficiais que puxam pistolas e espadas. Marinheiros gritam:

Marinheiros:

_ Liberdade! Abaixo a chibata! Abaixo a chibata!

Música de tambores. Tumulto no convés. Oficial corre para a boca de cena e grita para o público:

Oficial Comandante:

_ Motim! Motim!

Silêncio. Oficiais são dominados. Alguns estão caídos, feridos ou mortos.

Foco de luz segue João Cândido que volta ao convés-palco. Marinheiros formam para ele, perfilados reverentemente. João Cândido amarra um lenço vermelho no pescoço e, com um gesto, manda que desfaçam a reverencia e a formatura. Marinheiros começam a desmontar o cenário da luta, saindo de cena, onde somente João Cândido permanece.

Tambores soam mais fortes. Ekedis e Yaôs voltando à cena dançando, cercam João Cândido e vestem nele de novo os paramentos rituais. Grupo dança freneticamente. Marujos voltam à cena
Ogã lança pipocas sobre alguns marujos que entram em imediatamente êxtase, como se  incorporados. Todo o grupo parece estar incorporado. João Cândido, vestido de Exu, dança no meio deles.

Som brusco de um apito da polícia. Policiais entram em cena. Tambores cessam.

Policiais chutam ebós e peji. Cena é evacuada pelos policiais com violência.

Black out.

Cena 05
KALUNGA!
Exu Rei

Ainda no black out, som de batidas numa porta. Homem vestido de mordomo entra, iluminando a cena, com um candelabro. Candelabro mostra outro homem que chega. Ele se veste elegantemente, de casaca e está cansado mas, eufórico como se tivesse chegando de uma festa.
Homem se senta numa poltrona, retira os sapatos e as calças, ficando só de casaca, ceroulas e meias. Mordomo se dirige a ele, ansioso:

Mordomo: ( sotaque francês, apreensivo )

_ Monsieur Presidente, por favor!

Hermes da Fonseca:

_ Ora bolas, Jean Claude! Não vês que estou exausto?

Mordomo: (esbaforido)

_ Pardon, Monsieur Hermès..Pardon! Ces très important. A armada…A Marinha…

Hermes da Fonseca: (Desatento, irritado )

_ Vá, homem! Desembucha, sô!

Mordomo: (Trêmulo)

_ Passarram um rádio, excelência!..Mon dieu! A Armada…a Armada se rebelou! Os marrujos dizem que querrem…o fim das torturras, ou algo assim. Ameaçam bombardear a cidade, excelência! Bombarrdear a cidade!

Hermes da Fonseca: ( se levantando assustado )

_ Com os diabos! Bombardear a cidade! Mas o que pensam? Acabo de tomar posse. Ficaram loucos? Cambada de insolentes, corja! (andando de uma lado para o outro) Anda Jean Claude! Vá, anda! Me traz o automóvel…Me chama todo o ministério, o Estado Maior…(notando o candelabro ) A luz, que foi feito da luz do Palácio?

Mordomo:

_Por Dieu, Monsieur! Tivemos que apagar tudo. O palácio é o alvo principal dos bandidos!

Hermes da Fonseca: ( aturdido )

_ Vai, homem! Me traz também o…Rui Barbosa! Ave Maria, vá! Traga todos…Não…Deixe estar. Eu vou junto até eles. Depressa, homem…Diabos!

Mordomo sai na frente afobado, levando o candelabro e seguido pelo presidente.

Hermes da Fonseca: (Puxando o mordomo para trás)

_Volte.! Volte aqui, homem! Preciso vestir minhas calças!

Os dois saem, deixando a cena às escuras.

Luz sobre o fundo branco da cena, reproduz céu avermelhado. Vindas de lados opostos, das duas coxias, as partes separadas do jirau entram forradas com longos panos, de forma que se assemelhem à proas de dois grandes navios que, avançam lentamente em sentido transversal ao palco, até quase se tocarem. A caracterizar os navios, o nome das embarcações (“Bahia” e “São Paulo”), simulações de âncoras e canhões, etc. As proas avançam um pouco à frente do céu e na parte superior delas, no nível do que seriam os conveses, marinheiros gritam e acenam eufóricos, lançando os bonéscaxangás para o alto.

Todos os marujos trazem lenços ou trapos vermelhos no pescoço ou nos bolsos das túnicas. Os navios têm flâmulas vermelhas desfraldadas.

Na parte baixa da cena – o palco – cenário reproduz também detalhes de um outro convés, contendo bem visível o nome do navio (“Minas Gerais”), da mesma forma ocupado por marinheiros eufóricos. O conjunto cenográfico simula o encontro de três navios de guerra. No centro do convés-palco, um marujo negro saúda os marinheiros dos navios de cima, acenado a espada levantada. A maioria dos marujos são negros mulatos ou morenos. Todos portam fuzis ou espadas.

Dos dois navios do fundo são lançadas escadas de cordas. Por elas descem dois marinheiros, líderes dos navios. Marinheiros que desceram abraçam o do convés do palco que usa um uniforme surrado e está descalço.

Marujo descalço – João Cândido – fala para os que desceram.

João Cândido:

_ A oficialidade teve algumas baixas aqui no Minas Gerais. Se defenderam como puderam. Amanhã mandamos os corpos para a terra. Agora não tem mais jeito…O governo vai ter que ceder. Mão Negra! Cadê o manifesto? Tá pronto? Deixa eu ler.

Mão Negra: (passando um rolo de papel para João)

_ É bom ler mesmo, pra todo mundo ouvir. Vai valer o escrito. Quem quiser desertar da luta, a hora é esta. Agora é ganhar ou morrer!

Silêncio. João Cândido olha o papel com se o lesse. Grande estandarte com o texto ampliado do manifesto, é lançado de cima de um dos navios:

“Rio de Janeiro, 22 de novembro de 1910
Il.mo. Ex.mo. Sr. Presidente da República Brasileira.
Cumpre-nos informar a V.Excia., como Chefe da Nação Brasileira:

Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podendo mais suportar a escravidão na Marinha Brasileira, a falta de proteção que a Pátria nos dá; e até então não nos chegou; rompemos o negro véu que nos cobria os olhos de patriótico e enganado povo.

Achando-se todos os navios em nosso poder, mandamos esta honrada mensagem para que V.Excia. faça aos Marinheiros Brasileiros possuirmos os direitos sagrados que as leis da República nos facultam, acabando com a desordem e nos dando outros gozos que venham engrandecer a Marinha Brasileira; bem assim como: retirar os oficiais incompetentes e indignos de servir a Nação Brasileira.

Reformar o código Imoral e Vergonhoso que nos rege, afim de que desapareça a chibata, o bolo, e outros castigos  semelhantes; aumentar nosso soldo, educar os marinheiros que não tem competência para vestir a orgulhosa farda, mandar por em vigor a tabela de serviço que a acompanha.

Tem V.Excia. o prazo de 12 horas para mandar-nos resposta satisfatória, sob pena de ver a pátria aniquilada.

22 de novembro de 1910
Nota: Não poderá ser interrompida ida e volta do mensageiro.
Marinheiros

Marinheiros aplaudem. Desfaz-se a formação dos navios, com o recolhimento das partes do jirau que carregam suas tripulações que, saem de cena eufóricas com entraram.

Fundo da cena está agora azulado. Silhueta do pão de açúcar é projetada sobre este fundo. Num dos cantos da boca de cena, são colocadas peças de um cais.

Música para dança. Grandes estandartes de pano, simulando cascos de navios, manipuladas por grupo de marujos-dançarinos, aparecem em cena representando o movimento de uma esquadra.  O sentido estético da dança deve ser bastante suave e lírico. Canhão cenográfico apontado para o alto é empurrado para o centro da cena, oculto pelos estandartes da dança.

Figurantes e atores, caracterizados como populares, policiais, soldados, mulheres elegantes, homens engravatados, trabalhadores, etc., vão ocupando os dois cantos da cena, principalmente ao lado do cais, como se tivessem sido atraídos pela dança da esquadra.

Quando a assistência do “cais” estiver bem embevecida, dançarinos abrem bruscamente um claro entre os estandartes, deixando a luz acentuar a existência do canhão.

Canhão atira com grande estrondo e todos, figurantes e dançarinos debandam da cena assustados. Luz pisca e fixa-se em black out.

Luz volta. Fundo da cena assume tom azulado. Junto com a silhueta do Pão de Açúcar aparecem agora silhuetas de navios de guerra ancorados ao largo. Grupo de autoridades civis e militares, seguindo um almirante vestido pomposamente e com chapéu característico, olha do cais para a esquadra ao fundo com alguns binóculos e lunetas. Um oficial cochicha algo no ouvido do almirante, apontando para uma das coxias. Almirante faz sinal para que alguém se aproxime.

Dois fuzileiros trazem um marujo aos solavancos. Almirante manda que o soltem. Marujo se perfila para o almirante e fala:

Marujo:

_Sou o emissário do marinheiro João Cândido Felisberto. Trago uma mensagem urgente da esquadra.

Fuzileiros seguram o marujo e o sacolejam de novo. Almirante de novo manda soltá-lo. Marujo olha com desdém para os fuzileiros.

Marujo retira um papel de um tubo e entrega ao almirante que o lê. Demais oficiais cercam o Almirante, curiosos. Almirante fica possesso.

Almirante:

_ Nunca! Jamais! Ah, mas…Esta gentalha não vai nos…

Antes que almirante conclua a frase, som de zumbido de um tiro de canhão  corta o ar. Estrondo de explosão do tiro, logo em seguida. Autoridades fogem para fora de cena. Black out.

Luz crescendo lentamente. Música. Cena vai sendo ocupada por populares,  homens elegantes conversando, policiais, senhoras com guarda-sóis,  melindrosas, todos passeando tranqüilamente. Alguns portam adereços que  caracterizem detalhes de uma grande avenida: tabuletas de lojas, fachadas  de quiosques, vitrines, postes, triciclos, bicicletas etc.. Fachada do bonde  pode ser reposta em cena.

Um homem portando um cartaz de propaganda circula entre os populares,  gritando pregão:

Homem do cartaz:

_ Não percam! Não percam! Estréia hoje! Benjamim de Oliveira no Circo Spinelli! A Vingança do marujo! A vingança do Marujo! Sensacional espetáculo teatral! Não percam, hoje!

Cartaz:

O Circo Spinelli orgulhosamente
apresenta o sensacional espetáculo teatral:


A VINGANÇA DO MARUJO

Com o fabuloso, o insuperável palhaço negro BENJAMIN DE OLIVEIRA.  Não percam!

Além da voz do homem-cartaz e da música, nenhum outro som é inteligível  na cena. O que se ouve é apenas o burburinho das conversas dos populares.

De repente, outro som do zumbido de tiro de canhão é ouvido. Black out  simultâneo a explosão de outro tiro. Gritos histéricos e correria dos populares. Cena é evacuada, ficando inteiramente vazia.

Luz geral. Dupla de palhaços entra em cena e desenha um grande círculo de  giz, tomando todo o diâmetro do palco, exceto um pequena área em torno, onde se acomodará uma claque de figurantes.

Música de banda circense. Foco ilumina mestre de cerimônias devidamente fardado,  anunciando:

Mestre de Cerimônias:

_Senhoras e senhores! Ladies and gentlemen! O meu cordiaaaal Boaaa noooite! O grande circo Spinelli tem a honra, o inenarrável orgulho de apresentar nesta memorável noite…(rufos de tarol )…O sensacional espetáculo…A vingança do Marujo! E para interpretá-lo, ele…o inigualável…o fabuloso…o insuperável ator e clown (banda ataca acorde de suspense) …Benjamim…de O..li..vei…raaaa!.

Bandinha segue com uma marcha bem alegre. Aplausos entusiasmados da claque.

Dupla de palhaços traz ao palco-picadeiro, o elenco em fila indiana formado pelos personagens do espetáculo: Ator-benjamim-Almirante Negro, com espada e chapéu próprio; ator-senador Rui Barbosa, vestindo casaca; ator- senador Pinheiro Machado, também de casaca; ator-senador Alfredo Ellis, vestindo terno bem justo; coro de marujos descalços; coro de senadores de chapéus coco e casacas.

Atores-senadores sentam em caixotes deixados no chão pelos palhaços. Cada caixote possui o nome do senador respectivo escrito em letras grandes. Os dois coros, em lados opostos, ficam em pé atrás dos senadores e do Almirante Negro .

Um dos palhaços, sob o rufar do tarol da bandinha, mostra para a platéia,  com um risinho de chacota, o seguinte letreiro:

Letreiro:

Numa sessão do Senado Federal,
um debate DECISIVO para o Brasil

Ficando em pé em seu caixote, diante dos outros senadores, dirigindo-se também à platéia real do espetáculo, Rui Barbosa discursa:

Rui Barbosa:

_Quero crer que o governo, único responsável pela constrangedora situação atual, onde a indefinição se fez a irmã mais legítima da covardia, compreenda que o que trouxemos aqui, para esta magna casa, nada mais foram que provas…fatos absolutamente concretos e científicos, que atestam, definitivamente que…as figuras divinas, celestiais e diáfanas a que chamamos anjos…nada mais são do que fêmeas! Virgens sublimes como a mãe de Deus! Fêmeas! Insofismavelmente eu digo! (esmurrando a própria mão, com ênfase) Digo e afirmo sim!…São fêmeas todos os anjos do céu!

Claque interrompe com gargalhadas, apupos e aplausos.

Pinheiro Machado:

_ Conceda-me o ilustre colega um aparte.

Rui Barbosa: ( com irritação)

_ Que não seja longo, Senador.

Pinheiro Machado:

_ Chamo a atenção dos presentes para o seguinte. A situação difícil que se criou, o foi pela teimosia de homens como o ilustre senador da Bahia. Poderia mesmo dizer que é a turronice do excelentíssimo senhor Rui Barbosa que nos leva a este tão grave impasse. (aplausos da claque o interrompem ) Machos, eu afirmo! São machos os anjos do céu. (exaltando-se) Posso prová-lo apenas com minhas convicções.

E os bigodes, senhoras e senhores? Os respeitáveis  cavanhaques dos arcanjos, valorosos guardiões do céu? E as espadas longuíssimas que alguns deles empunham, com a força de verdadeiros homens que são? Machos, volto a enfatizar! Que órgão reprodutor teria aquele que, cumprindo os desígnios de Deus, em nome da ordem no Paraíso, expulsou Adão e Eva para os castigos terrenos? Bagos, senhoras e senhores! Bagos como os que temos nós, ferrenhos defensores da ordem e das instituições.

(Claque aplaude e apupa freneticamente )

Rui Barbosa: (também se exaltando )

_ Respeito, senhor Senador! Exijo respeito nesta casa! As ofensas de um caudilho…de um oligarca…não me atingem. Não me rebaixarei diante de suas ignomínias!

Exaltação de ânimos se generaliza. Um dos palhaços entra no picadeiro e cochicha algo no ouvido do senador Alfredo Ellis que, tenta transmitir imediatamente aos colegas.

Alfredo Ellis:

_ Atenção senhores! Temos a nossa porta uma comissão de marinheiros que…

Burburinho na claque. Senador prossegue aos berros.

Alfredo Ellis:

_ Por favor! Silêncio, por favor! Os marinheiros querem denunciar supostos maltratos sofridos por eles na Armada.

Senadores protestam por terem sido interrompidos. Palhaço sai do picadeiro e retorna, cochichando agora no ouvido de Pinheiro Machado que fica subitamente histérico.

Pinheiro Machado:

_ É grave, senhores! Muito grave! Os marujos afirmam que tem… valha-nos Deus! toda a esquadra sob o seu poder! Questão de ordem!! Questão de Ordem!!

Claque e senadores: (Burburinho)

_Oh!

Banda toca acordes dissonantes e cessa a música. Rufos de caixa. Suspense. Clima de número de corda bamba. Grupo de marinheiros, comandados pelo Almirante Negro, com pistolas, espadas e mosquetes, invade o picadeiro. Almirante negro levanta a espada, assustando os senadores que caem por sobre o coro e a claque.

Almirante Negro: (tirando o chapéu)

_ Sei que não somos anjos, senhores! Peço desculpas por interromper vosso trabalho mas…é que temos importante mensagem para o Governo.

Coro de marujos se aproxima do centro do picadeiro, se posiciona, empunhando e acenando as armas:

Coro de marujos: ( Cantando)

Chega de morrer de trabalhar, yayá
chega de comer couve com fubá, yoyô
chibata bateu, doeu, sarou
sarou, doeu
doeu, sarou o ponta pegou em quem bateu

Coro prossegue, baixinho. Pinheiro Machado se aproxima do Almirante Negro, solícito.

Pinheiro Machado:

_ Poderiam os Srs. nos descrever o esse tal Castigo da Chibata que, tal como dizem, seria praticado em nossa armada?

Banda toca melodia de música anterior, como um fundo de anúncio comercial.

Narrador em off, descreve o castigo. Coro de marujos, distribuídos no picadeiro, reproduz numa pantomima, tudo que está sendo narrado, como se fosse um número de circo. Chibatas maiores, similares as descritas na narração, são usadas para ilustrar o número.

Narrador:

_ Pegue uma corda mediana, de linho e a atravesse em toda a extensão com agulhas de aço das mais resistentes. Deixe livre das agulhas apenas um espaço para a empunhadura. Para inchar a corda, deixe-a de molho, até que só apareçam as pontas das agulhas. O faltoso tratado à Chibata, fica assim… como uma tainha, lanhada para ser salgada. Civilize o seu marujo. Use Chi-ba-ta. Chibata! Não estraga, não quebra, não mata!

Claque faz algazarra, vaia o número, e se junta aos marinheiros, revoltada.

Parlamentares isolados, se afastam assustados, cochichando. Algazarra aumenta com tiros dos marujos dados para o alto. Parlamentares fogem para as coxias. Claque e marujos gritam:

Claque e marujos:

_ Anistia! Anistia!

Em meio a um grande tumulto, senadores voltam à cena, apavorados. Um deles traz na mão um documento. Passando de mão em mão, todas elas trêmulas, o documento chega até os marujos que o entregam ao Almirante Negro que lê em silêncio. Silêncio na cena também é total.

Rufos de caixa. Marujos se acercam do Almirante Negro . Breve momento de espera. Gritos de marujos e da claque explodem na cena:

Marujos e claque:

_ Viva a anistia! Viva a anistia!

Banda de música volta com a marchinha, agora bem mais vibrante. Claque aplaude de pé. Coro de marujos carregam o Almirante Negro nos ombros, aclamado e saem de cena comemorando. Dupla de palhaços retira os senadores e seu coro de cena com empurrões e gozações. Luz e música vão caindo. Black out.

Cena 06
PRESIGANGA
Pomba Gira das almas

Gravação do hino “Cisne Branco” tocado por banda militar. Luz somente na boca de cena. Grupo de sete marinheiros entra no palco em fila indiana, carregando estandartes enrolados. O tamanho destes estandartes é no comprimento, o da extensão dos braços levantados dos marinheiros até o limite do chão, tendo na largura, tamanho que permita que ,quando
desenrolados, cubram toda a cena atrás deles. Num dos lados os estandartes são inteiramente pretos. No outro, têm manchetes de jornal reproduzidas, uma em cada um. Os marinheiros desenrolam os estandartes em seqüência, da direita para a esquerda.

Manchetes:

27 de novembro de 1910
TERMINOU, DEFINITIVAMENTE
A SUBLEVAÇÃO DOS MARUJOS!

28 de Novembro de 1910
VASSOURADA NA ARMADA!
Governo decreta exclusão de marinheiros a bem
da disciplina na Esquadra.

10 e Dezembro de 1910
NOVA REBELIÃO NA ARMADA!
Batalhão Naval em armas!

10 de Dezembro de 1910
FORÇAS LEGAIS MASSACRAM REBELDES DO
BATALHÃO NAVAL!
Marujos da Chibata leais ao governo.

10 de Dezembro de 1910
MARUJOS DA CHIBATA DIZEM QUE A REVOLTA DOBATALHÃO NAVAL FOI UMA FARSA!

10 de Dezembro de 1910
ESTADO DE SÍTIO!
Exército e policiais prendem rebeldes e arruaceiros.

10 de Dezembro de 1910
PRESO AO DESEMBARCAR O MARINHEIRO JOÃO CÂNDIDO!
Todos os rebeldes da Chibata encarcerados!

Black out breve. Marinheiros viram os estandartes com os lados negros voltados para o público. Luz volta. Marinheiros exibem as tarjas negras por um instante e saem de cena da mesma forma como entraram, deixando á vista a cena seguinte, que foi inteiramente montada por figurantes e atores, enquanto esteve encoberta pelos estandartes das manchetes. Música cessa.

Ópera “Taunhauser” de Wagner soando na cena. Três mesas comuns, dispostas em pontos destacados do palco, com oficiais do exército sentados, atendendo a filas de prisioneiros. Duas destas filas são formadas por populares e outra, em ponto destacado da cena, só por marinheiros.

Os marujos estão com os uniformes incompletos e amarrotados. Alguns populares estão em trajes de dormir. Os presos não falam e só se ouvem os gritos dos soldados e oficiais organizando as filas.

Todo o elenco deve estar em cena. Grupos que já passaram pela triagem nas mesas, voltam às filas contornando os bastidores, demonstrando grande fluxo de prisioneiros.

Grupo heterogêneo de prisioneiros ruidosos, aparecem de repente. São prostitutas, mendigos, motorneiros de bonde, malandros e capoeiristas.

Guardas tentam por o grupo nas filas mas estes reagem com um tumulto.  Guardas batem em alguns do grupo, inclusive numa mulher que foge para a platéia. Guarda a persegue. Tumulto se agrava e oficial grita ameaças.

Oficial:

_É a Presiganga! É a Presiganga! Vocês vão embarcar…Não adianta! É tudo vagabundo aqui. A ordem é mandar vocês todos pra bem longe do mundo!

Guardas dominam a fila com a ameaça das armas. Outra mulher corre para a boca de cena.

Mulher 01:

_É governo de gente sem mãe. Se tivesse, a mãe devia era estar lá com gente, na zona. (falando com a outra que está na platéia: ) Não é Jerusa? Nem o diabo me põe nesta fila. Sente só…fede a defunto.(mostrando o braço) olha só a bordoada que me deram! Vão ter que explicar que crime político é este que eu fiz pra ser pega assim, pelo Estado de Sítio…Ou será que a gente se virar já é ameaça a segurança nacional? Eu tô dizendo. É tudo frouxo, Jerusa! É governo de merda!

Guarda desce à platéia e corre atrás da segunda mulher. Outro agarra a que falou na boca de cena. Mulher da platéia ao ser agarrada grita:

Mulher 02:

_ Larga, larga! Seu cachorro! Tu só é homem de mosquete na mão. Borra botas! Xibungo!

Guardas dominam as mulheres que são devolvidas para a fila, puxadas pelos cabelos. Prisioneiros se aquietam. Oficial da mesa dos marinheiros chama guardas.

Oficial:

_ Mais dois guardas aqui! (para dois guardas )Escoltem esta cambada pro cais. Cadê os marujos? (para outro guarda )Separa eles…Confere aí guarda. Traz as nove gracinhas até aqui!

Guarda traz os marinheiros amarrados com cordas nos pulsos. Marinheiros estão assustados. Oficial se dirige aos marujos com sarcasmo:

Oficial:

_ Vão passear de barquinho? Não sabiam? Pois vão sim, suas gracinhas Vão pro navio “Satélite”, sabem qual é? Hum…Pois se preparem. Quero ver vocês fazerem rebelião na boca de tubarão.

Luz caindo. Som de sereia de navio. Filas vão sendo encaminhadas pelos guardas para fora de cena. Alguns prisioneiros tentam reagir, xingam os guardas, se debatem. Os últimos tumultos vão se diluindo, encobertos pelo som insistente da sereia de um navio e pelo black out.

Som de sereia de navio prossegue no black out, espaçadamente. Coro de vozes afinadas canta “noite Feliz” em alemão.

“Heilligue nacht
Stile nacht
Alles schläft
Einsam wacht
Nur das traurigue
kindlein schläft
Rut gehrut
auf die wiglein schläft
Schlafe in himmlischer ruhn
schlafe in himmlischer ruhn”

Coro vai repetindo a canção, solfejando. Grande estandarte de pano, como o perfil do casco de um grande barco puxado por atores, avança lentamente em sentido longitudinal ao palco, quase na linha da boca de cena. Na superfície do pano-barco está escrito o seu nome: “Satélite”.

Atrás deste pano-barco, atores e figurantes iluminados por trás, formam silhuetas de um grupo de prisioneiros dominados por soldados armados de fuzis e espadas. Algumas sombras de soldados circulam pelo espaço como a montar guarda.

Com a canção ao fundo e os sons esparsos de tiros e gritos, as ações principais descritas pelo texto narrado a seguir, também serão reproduzidas por movimentos das silhuetas projetadas no pano-barco

Voz narra o texto sem nenhuma emoção particular:

Narrador: ( em off )

_ …”A partida do porto do Rio de Janeiro, foi a 25 de Dezembro, pelas onze horas da noite. A descarga do navio iniciou por volta da meia noite de 24 e terminou por volta das 22 horas do dia 25 e, ato contínuo se deu o embarque do pessoal para os porões que estavam imundos, devido ao carregamento de açúcar bruto…Nestas condições partimos, levando 105  ex-marinheiros, 292 vagabundos, quarenta e quatro
mulheres e cinqüenta praças do exército.

No dia 26, adoeceu um dos nossos foguistas. Fiz subir um dos
prisioneiros afim de substituir o doente. Este denunciou que nos porões se tramava uma revolta, comandada pelo ex-marinheiro Hernani Pereira dos Santos, vulgo “Sete”. No dia 27. Com os inquéritos, alguns marinheiros foram algemados.

No dia 1 de janeiro, quando entrava o ano de 1911, estávamos já fora da barra e me afastei da costa para serem fuzilados seis homens, o que fizeram às duas horas da manhã porém dois, sendo um o “Chaminé”, se atiraram ao mar, morrendo afogados, visto que estavam com os pés amarrados.

No dia 2 de janeiro, às 23 horas, foram fuzilados mais dois marinheiros.  Ao todo foram mortos 9 bandidos que conduzíamos…

No dia 3 de Fevereiro, foram entregues ao Capitão Rondon, duzentos homens, conforme ordem do governo. Os restantes, teriam que descer com eles, deixando-os pelas margens do rio. Os seringueiros, ao longo do rio, iam pedindo homens e assim, no mesmo dia, ficamos livres das garras de tão perversos bandidos.

Navio “Satélite”
Rio de Janeiro, 5 de Março de 1911
Diário de bordo do
Capitão Carlos Brandão Storry

Ao final da narração e suas ações respectivas, pano-barco sai de cena lentamente, junto com a luz e a canção, ficando o palco inteiramente às escuras.

Cena 7
Katumbi

Exu das sete encruzilhadas

Dois oficiais e alguns fuzileiros navais entram em cena iluminando-a com uma lanterna de navio. Trazem consigo 18 marinheiros presos. Os marujos estão todos amarrados, descalços e sujos. São empurrados através da grande porta de uma masmorra. Toda a cena é iluminada apenas pela lanterna.

Porta da masmorra é fechada. Fuzileiros batem nela com o cabo dos fuzis. Oficial fala:

Oficial 01:

_ Malta! Corja de rebeldes de merda! Deram sorte de não terem sido embarcados para o Amazonas. São protegidos, não é? Diz que até ministro inglês defendeu vocês. ´Tá certo. A gente não vai esquecer este detalhe.

Fuzileiro 01:

_ Agora é com vocês, cambada!

Fuzileiros riem.

Oficial 2:

_Vão apodrecer agora aí dentro! Quando estiver fedendo, cheirando mal, eu mando pegar vocês, tá certo?

Fuzileiro 02:

_ Vamos ver agora, né gente? A valentia dessa negrada. Vão jogar capoeira com o capeta!

Todos soltam gargalhadas.

Oficial 01: ( Aproximando o rosto da porta )

_ Tem muito João aí? Só tem um não é mesmo? Quando não tiver mais nenhuma raça de João aí dentro, a gente solta todo mundo, tá bom? Quero esse tal de João Cândido morto, acabado! Ele não diz que é almirante? Pois agora ele vai ser almirante é no céu ou…nos quintos dos infernos!

Oficial 02: ( chamando os outros para se retirarem )

_ Agora é com vocês, seus bostas!

Fuzileiros e oficiais saem com a lanterna.

Luz de cena sobe um pouco, revelando o interior da masmorra. A porta é grossa e pesada, parece ser de ferro, com uma pequena abertura. Os marinheiros presos, largados pelo chão, parecem dormir. Estão inertes, deitados ou agachados com as cabeças entre as pernas.

Som de vozes cantando e instrumentos de percussão, começa a soar como se viesse de longe. A música é a de um bloco de carnaval mas, a harmonia das vozes é lúgubre e o andamento do ritmo é arrastado e marcial.

Luz sobe mais, junto com o volume da música que se aproxima. Figuras fantasiadas vão surgindo, os rostos são pálidos, pintados de branco, como fantasmas. São pierrôs, colombinas, melindrosas, arlequins e outras figuras típicas de carnavais antigos. Comandando o bloco, que está dividido em dois grupos, duas figuras fantasiadas de militares, com roupas semelhantes as de oficiais da marinha.

Uma delas está com o rosto coberto com uma máscara de diabinho de carnaval, a outra da mesma forma usa uma máscara de morcego. As duas figuras que comandam o bloco, carregam longas tripas de pano preenchidas com areia e bexigas e com elas golpeiam o chão com violência.

Grupo chefiado pelo diabinho, carrega latas de talco com os quais vão enevoando a cena. O grupo do diabinho carrega também um estandarte onde se lê:

ALA DO CAL VIRGEM

O segundo grupo, com seringas de água, parecendo grandes frascos de lança-perfume, vão molhando o chão e os prisioneiros. No seu estandarte se lê:

ALA DO ÁCIDO FÊNICO

Luz adicional projeta sombras das figuras nas paredes. Com o barulho, João Cândido é o único a despertar. Levanta-se apavorado.

Figuras do bloco o assediam.

Desesperado, João corre de um lado para o outro. Foliões o perseguem, rindo debochados. João tenta se proteger encostando na parede. Foliões-fantasmas vão acuando João na parede, para assustá-lo ainda mais. João é cercado pelos dois grupos e desaparece no meio deles e da névoa de talco. João dá um grito de desespero.

Black out. Figuras desaparecem.

Luz voltando. João está estático, no mesmo lugar onde foi acuado. Olha para o vazio. Luz agora ilumina toda a masmorra enevoada. Tossindo, um dos presos-Pau da Lira-acorda olha para João que parece estar em choque. Circula o olhar pela masmorra. Sacode os outros presos  que não se movem porque estão mortos.

Pau da Lira, sempre tossindo se aproxima de João que parece não percebêlo. Abraça João e fala:

Pau de Lira:

_ Só tem nós, João! Só tem nós! Olha que tristeza! Tá tudo inchado que nem sapo. Morreu todo mundo, João! Que covardia! Vai até aporta, bate nela com força, grita:

Pau da Lira:

_ Acode aqui, gente! Misericórdia!(olha para João que está apático e não ajuda a gritar) Ai, João…me ajuda a gritar! A gente acaba morrendo também. Ai meu Deus!

João Cândido: (desorientado )

_ Ajudar pra quê? Eu já morri, Pau da Lira! Eu também tô morto, homem. É verdade! ´Cê não vê? (olhando os mortos, sacudindo um ou outro ) De que adianta viver agora? Me diz! Grita, grita! Pode gritar…Diz que o João Cândido já morreu!

Luz caindo até black out. Alguns segundos de silêncio e escuridão. Barulho de molho chaves. Barulho forte da porta de ferro se abrindo no Black out. Voz na cena às escuras.

Fuzileiro:

_Tenente! Corre aqui! Virge Maria! Cruz credo! Que fedor desgraçado!

Tenente:

_ Entra logo, anda! Ai meu Deus do céu! Vê se sobrou algum desgraçado vivo! O governo agora quer esse tal do João Cândido vivo! Tá o maior escândalo na imprensa. Vai! Rápido!

Música característica da década de 60. Luz voltando lentamente mostra o fundo da cena iluminado de azul, com a silhueta do pão de açúcar e o cais num dos cantos do palco.

Luz crescendo. Atores e figurantes entram na cena com pequenas barracas de feira  desmontáveis e grandes cestos de peixe. Entre eles está um peixeiro negro, velho parecendo ter mais de setenta anos.

Peixeiros montam a barracas no palco com grande alarido e em muitos gritos de pregão. A cada barraca montada e abastecida, os pregões vão se avolumando, até que toda a cena esteja tomada de barracas e vendedores de peixe gritando.

Alarido vai se reduzindo com a entrada de policiais à paisana que circulam pela feira, olhando desconfiadamente para todos os peixeiros.

Dois homens brancos, de terno e gravata, entram pela platéia, sempre perguntando algo a alguém do público. No palco, sua perguntas começam a ser ditas em voz alta. Burburinho da feira prossegue ao fundo em baixo volume. Música cessa.

Homens de terno -Jornalistas -perguntam a um peixeiro:

Jornalista 01:

_… João Cândido. O senhor conhece?

Peixeiro: (apontando a última barraca )

_ O João daqui é aquele ali, ó! Só não sei se é Cândido. Deve ser. Eu tô nessa feira de novo.. Sabe como é..

Jornalistas não esperam peixeiro acabar. Se aproximam rapidamente até a barraca apontada, ansiosos. João usa um chapéu de palha, um avental branco e longas luvas e botas de borracha.

Jornalista 02: ( para João )

_ Bom dia! O senhor não é o João Cândido Felisberto, o Almirante Negro?

João Cândido: (Sem levantar a cabeça, desconfiado)

_Almirante eu não sou não senhor mas…João Cândido, bom…sou eu mesmo.(encarando os homens ) Os senhores são da polícia, não é mesmo?

Jornalistas sorrindo sem graça.

Jornalista 01:

_ Não, não! O que é isso, seu Cândido? Nós somos é da imprensa. Do “Correio da Manhã”, sabe? É que a gente queria entrevistar o senhor e…mostrar uma coisa ( tirando um jornal dobrado do bolso de trás da calça ) Bom…é que…

Jornalista 02: (pegando o jornal do outro e dando a João )

_ Não sei se o senhor já sabe mas…

João pega o jornal e olha. Fica triste com o que lê.

Jornalista 01:

_ Sinto muito, seu Cândido. Muito mesmo! Vão desmontar o navio, o “Minas Gerais” vai virar ferro velho, sucata. Amanhã mesmo vão deslocar ele para o estaleiro. É por isso que a gente quer fazer uma matéria com o senhor. Como é que o senhor vive? Depois de tanto tempo…O que o senhor acha?

João não responde. Policiais a paisana se aproximaram do grupo e ficaram perto, fingindo escolher peixes na barraca. João olha para os policiais, tira o avental e as luvas e se retira de cena, seguido pelos jornalistas. Policiais vão atrás

Burburinho da feira cresce de novo. Luz vai caindo devagar. Barracas vão sendo desmontadas. Burburinho vai caindo durante o desmonte da feira. Luz se apaga totalmente quando o palco estiver limpo.

Música “O lago dos Cisnes”. Luz retornando. Fundo da cena com silhueta do pão de Açúcar é cortado pelo pano-barco bem esfarrapado. Trazido pelos atores ele avança em direção a uma das coxias. Encouraçado deve ter a maior altura possível e vai penetrando na cena lentamente. Nele se percebe o desenho de âncoras e a inscrição:

ENCOURAÇADO MINAS GERAIS

Ruído longo de sereia de navio. Figurantes esticam longas e estreitas tiras de tecido no sentido longitudinal ao palco e no nível do chão, fazendo com que elas tremulem, simulando ondas. João Cândido sentado, remando um bote azul e branco, como um” barquinho de Iemanjá”, é puxado da coxia oposta a que vem o navio, indo ao seu encontro.

João segue de braços abertos para encontrar o navio e no momento do encontro, faz como quem o abraça e acaricia.

Música cresce. Neblina. Pano-navio some de um lado. João segue remando para o outro, cabisbaixo, lentamente, seguido por um canhão de luz que vai se apagando. Música vai saindo também suavemente.

Fundo da cena agora é branco e sem silhuetas. Luz retorna bem forte. Vindos de trás da platéia e em grande reboliço, um grupo de “Clóvis” com fantasias vermelhas e brancas entra em cena com estardalhaço, batendo no chão com bexigas e soprando apitos estridentes.

Já no palco, organizam-se numa pose, como se fosse para uma foto. Acima das cabeças dos demais, um dos “Clóvis” levanta uma tabuleta onde se lê:

RIO DE JANEIRO, SÃO JOÃO DE MERITI 1969
MORREU O ALMIRANTE NEGRO!

Som de sirene da polícia. “Clóvis” fogem em debandada de cena. Policiais entram, revistam o palco e as coxias e somem também.

Diabinho de carnaval, circula pelo palco batendo com a chibata no piso. Numa das coxias, traz pela mão um ator fantasiado de Morte. Morte apita para outra coxia e uma pequena bateria de escola de samba entra em cena. Na frente da escola, um abre-alas onde se lê:

O GRES EXU DE MERITI AGRADECE A IMPRENSA FALADA,
ESCRITA E TELEVISADA E PEDE PASSAGEM,
APRESENTANDO O SEU ENREDO:

O ALMIRANTE NEGRO.

Restante do elenco entra em cena dançando. Todos trazem na mão barquinhos em dobraduras de jornal. Estão vestidos com roupas do espetáculo, de forma que se tenha em cena representados, grande parte dos personagens das ruas e dos carnavais do Rio do início do século. Estão em cena colombinas, motorneiros de bonde, prostitutas, marinheiros, pierrôs,
arlequins, melindrosas e índios, além é claro do Diabinho, dos Clóvis e da Morte que já estavam em cena. Diabinho sai do palco por um instante.

Barquinho de Iemanjá, é trazido para a cena. No corpo do barco se lê:

C7
CRUZADOR JOÃO CÂNDIDO FELISBERTO
MARINHA FANTÁSTICA DO BRASIL

Diabinho reaparece vestindo uma túnica e um chapéu de almirante, tudo muito cintilante de lantejoulas e perfilando-se em frente ao barquinho de Iemanjá, deposita nele o chapéu e a túnica de almirante que vestia .

Elenco e bateria de samba, como num bloco de carnaval, acompanha o barquinho para fora de cena, sempre dançando e cantando. Barquinhos de jornal são largados no chão espalhados.
Elenco continua a cantar e tocar nos bastidores. Luz vai caindo. Música cessa.

Voz verdadeira de João Cândido, gravada em fita ecoa na cena:

João Cândido: ( off )

_ Eu, João Cândido Felisberto, por seis dias parei o Brasil!

Som gravado de tempestade e trovões. Som longo de sereia de navio. Canhão de luz vai se fechando, enquadrando um só dos barquinhos de papel deixados no palco.

Silêncio. Marujo Kalunga, seguido pelo canhão de luz, volta a cena, finge enxugar uma lágrima, pega o barquinho, coloca no bolso e mostra última tabuleta do filme mudo:

NO SÉTIMO DIA, JOÃO DESCANSOU.

Canhão de luz, enquadrando o marujo kalunga com a tabuleta, vai se fechando

FIM

Praça Seca, Rio de Janeiro
© Spírito Santo, Dezembro 1994

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Notas finais:

Exu Chibata, texto escrito em 1994,  tem como proposta principal o estabelecimento de um  diálogo estético ou dramatúrgico entre algumas das linguagens e mídias mais em voga na época em que se passa a ação do espetáculo (início do século 20, entre 1904 e 1910) dialogo estético este que,  de certo modo aproxima a proposta de um  ‘gênero’ teatral muito em voga na mesma ocasião: O  Circo-Teatro.

Época de grande efervescência cultural e artística contrapontuada por grandes conflitos sociais. O eixo dramático principal da peça envolve os incidentes ligados a chamada Revolta da Chibata, comandada por João Cândido Felisberto (o ‘Almirante Negro’) contextualizada neste conturbado período no qual, enquanto no Brasil se tentava afirmar a ferro e fogo o regime republicano recém proclamado, o mundo europeu começava a se agitar com as graves divergências que culminariam com a sangrenta primeira guerra mundial.

A epoca é também marcada fortemente pelo doloroso processo de transição das relações sociais na cidade do Rio de Janeiro, na qual uma imensa massa populacional negra, ainda mal refeita da escravidão abolida há apenas uma década, começava já a experimentar as insidiosas restrições do recém inventado racismo.

Os aspectos estéticos principais, referentes a proposta estética sugerida para o espetáculo, estão ligados também aos elementos mais aparentes da chamada Belle Époque, da Art Nouveaux, do Cinema Mudo, da Mímica e da Pantomima (linguagens que inserem o espetáculo no âmbito de um teatro essencialmente imagético  no qual as falas não são exatamente fundamentais).

Neste mesmo sentido primordialmente imagético, a proposta tenta se associar também a certas formas e maneirismos do popularíssimo Circo-Teatro – um ‘Circo-Teatro’  idealizado, diga-se – forma  implantada no Brasil por atores circenses geniais como Polydoro,  Benjamim de Oliveira e  Eduardo de Oliveira.

São importantes também a utilização de certas soluções cênicas baseadas nas estéticas mais evidentes do carnaval de rua do Rio de Janeiro, nos rituais do Candomblé e na obra do artista plástico e ex-marujo Arthur Bispo do Rosário.

Registro Biblioteca Nacional 2349087 / 1994Rio de Janeiro 1994Ficha técnicaTexto e concepção cênica :  Spírito SantoFontes bibliográficas consultadas: Tia Ciata e a pequena África do Rio de Janeiro – Roberto MouraCarnavais de Guerra – Dulce TupiLiteratura como missão- Nicolau SevcenkoA Revolta da Chibata – Edmar Morel

Lima Barreto –  Obras completasQuatro dias de Rebelião –  Joel RufinoO negro no Brasil. Da senzala à guerra do Paraguai – Júlio José ChiavenatoBenjamim de Oliveira, o palhaço negro – dados orais da Pesquisa de João Siqueira.O negro da Chibata – Fernando Granato-Fontes audiovisuais consultadas (para concepção estética e cenográfica )Áudio de depoimento de João Cândido – Museu da Imagem e do Som- Rio de Janeiro 1968Belle Èpoque e Art-Nouveaux – no Rio de Janeiro do início do século 20 – Iconografia / Obra de Arthur Bispo do Rosário – Museu do Inconsciente / Hospital Psiquiátrico Pedro Segundo/R JRitual de saída de Exu – Terreiro Axé Shangò Bomi, R.J -Arquivo Vissungo 1996Depoimento de Aniceto Menezes – Arquivo Vissungo 1982Escolas de Samba e Carnaval Carioca dos anos 60- Iconografia / DiversosFilmografia / O Cinema Mudo de Carlitos,  ‘Comedy Capers’, United Artists, etc.-EEUU O encouraçado Potenkim – Serguei Eisenstein, URSS-Filme

Apoio pesquisa: Néia Daniel de Alcântara

EXU CHIBATA – Resenha da peça


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(Na foto João Cândido é conduzido preso por um oficial da polícia – atentem para o sorriso orgulhoso de João diante da atenção dos populares em torno, expressando abertamente a sua admiração para com o ‘Almirante Negro’)

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Em 2010 se comemorará 100 anos de um dos incidentes mais importantes de nossa história: A Revolta da Chibata, rebelião de marinheiros ocorrida em 1910, liderada, entre outros por João Cândido Felisberto, timoneiro do maior navio de guerra do Brasil na época e conhecido popularmente como o ‘Almirante Negro‘.

É bastante provável que as comemorações deste fato tão empolgante – e tão significativo para a afirmação da nossa democracia –  empolguem o país inteiro, de norte a sul, marcando o reconhecimento definitivo e inquestionável de João Cândido Felisberto como um dos mais importantes heróis da nossa pátria Brasil.

A montagem da peça Teatral resenhada abaixo por seu próprio autor, inspirada neste empolgante acontecimento histórico bem que poderia ser um destes eventos.

Com toda certeza contudo, a peça poderá ser vista em Abril no teatro do Centro Cultural Laura Alvin, no ciclo de leituras dramatizadas de teatro ‘Negro Olhar‘ (veja o site do projeto neste link)

No elenco as emblemáticas figuras de Ruth de Souza, Haroldo Costa, Milton Gonçalves além de uma garotada da pesada (atores e atrizes) selecionados especialmente para a ocasião.

Na programação também constarão textos dos dramaturgos Aimè Cesaire (Martinica, Caribe) e Amiri Baraka ( EUA). Não percam!

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Exu Chibata é uma peça teatral escrita em 1994 (leia texto integral neste link) que tem como proposta principal o estabelecimento de um diálogo estético e dramatúrgico entre algumas das linguagens e mídias mais em voga na época em que se passa a ação do espetáculo (início do século 20, entre 1904 e 1910) época de grande efervescência cultural e artística contrapontuada por grandes conflitos sociais.

O eixo dramático principal da peça envolve os incidentes ligados a chamada Revolta da Chibata, comandada por João Cândido Felisberto (o ‘Almirante Negro’) contextualizada neste conturbado período no qual, enquanto no Brasil se tentava afirmar a ferro e fogo o regime republicano recém proclamado, o mundo europeu começava a se agitar com as graves divergências que culminariam com a sangrenta primeira guerra mundial.

A epoca é também marcada fortemente pelo doloroso processo de transição das relações sociais na cidade do Rio de Janeiro, na qual uma imensa massa populacional negra, ainda mal refeita da escravidão abolida há apenas uma década, começava já a experimentar as insidiosas restrições do recém inventado racismo.

Os aspectos principais, referentes a proposta estética sugerida para o espetáculo, estão ligados também aos elementos mais aparentes da chamada Belle Époque, do Cinema Mudo, da Mímica e da Pantomima (linguagens que inserem o espetáculo no âmbito de um teatro essencialmente imagético, no qual as falas não são exatamente fundamentais).

Neste mesmo sentido primordialmente imagético, a proposta tenta se associar também a certas formas e maneirismos do Circo convencional e do popularíssimo Circo-teatro (forma implantada no Brasil por atores e palhaços geniais como Benjamim de Oliveira e Eduardo das Neves). São importantes também a utilização de certas soluções cênicas baseadas nas estéticas mais evidentes do carnaval de rua do Rio de Janeiro, nos rituais do Candomblé e na obra do artista plástico e ex-marujo Arthur Bispo do Rosário.

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EXU CHIBATA –

Qual cisne Branco em noite de lua / Peça Teatral de Spirito Santo Registro Biblioteca Nacional 2349087 / 1994

Rio de Janeiro 1994

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Cinema em Branco & Preto -Take 01


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Imagem popular: Visibilidade zero

(Exterior/Noite)

Entre outras e mais dramáticas consequências, a pobreza continuada e generalizada, na qual se permite que viva grande parte de nossa população, criou para a mídia do Brasil uma espécie de perturbadora “impropriedade estética”, causada pela contradição evidente entre a imagem real de povo não-branco, que efetivamente somos, e aquela imagem virtual, manipulada por intermédio de diversos artifícios, que insistimos em propalar para mundo como sendo o nosso look ideal.

Por que nos espaços da mídia (vista aqui como o conjunto de mecanismos de difusão social e cultural independentes) o Brasil aparece sempre assim, mascarado, fantasiado de uma outra coisa que não é ele mesmo?

Acreditem, esta não é uma conversa de filigranas ou irrelevâncias. Visibilidade é um axioma midiático por excelência, já que, a rigor, se um fato ou problema está invisível é porque ele não está acontecendo ou simplesmente jamais existiu.

Envergonhada talvez de nossa imagem real, nossa mídia – expressão mais evidente da maneira peculiar que a gente tem de olhar a nossa própria cara em espelhos simbólicos – tem demonstrado persistente intenção de falsear, justamente, o signo essencial de nossa personalidade: nosso biotipo, a cor de nossa pele, os traços físicos mais marcantes, aquela face original que todo povo que se preza costuma assumir como orgulho nacional e patrimônio estético irretocável.

Racismo é pouco – e vago – para definir esta estranha disposição de nossos meios de difusão cultural para, sub-repticiamente, ir sabotando a nossa autoimagem. Que diabo de paranóia seria esta? Por que ficar durante séculos como uma espécie de “país michael jackson”, tentando esconder debaixo de um tapete pra lá de puído o perfil mulato inzoneiro da maioria de nossos charmosos habitantes? Seríamos uma sociedade acometida por uma espécie de vitiligo moral?

Você viu quantas vezes, nos livros escolares, a cara do João Cândido, o almirante negro da Revolta da Chibata, um herói brasileiro tão ou mais significativo do que aquele tristonho alferes Tiradentes? E a cara do negro Oswaldão, aquele líder militar da guerrilha do Araguaia (se é que você sabe o que foi isto), aquela revolta que deu errado mas que contribuiu para a escalação de alguns de seus sobreviventes (a maioria já caída em desgraças éticas, é verdade) para o primeiro escalão do atual governo do país?

Como se poderá forjar um verdadeiro orgulho nacional, amor à pátria, sem a ampla difusão da imagem destes heróis de nossa nacionalidade, tenham lá a cor que tiverem?

Não se pode negar que, no âmbito de nossa mídia ligeira, aquela voltada para o jornalismo superficial e comezinho do dia a dia, o merchandising rasteiro, o jingle espirituoso, o outdoor de subúrbio, alguns traços, ainda que tímidos, de nosso perfil étnico têm aparecido.

Neste jornalismo ligeiro predomina, infelizmente, uma defensiva e, apesar de justificável, raivosa depreciação do outro. A pauta, como sempre, tem sido aquele rol de personagens não-brancos, atores eternos e subalternos de nossas piores mazelas, da violência urbana, do crime “organizado”, do jovem traficante armado com um fuzil de guerra, bandido assassino, defendido pela jovem favelada de shortinho leg, com o bebê no colo, aquela que jogava pedras no poder público, como uma louca, até o grand finale: a hollywoodiana imagem da carcaça retorcida de um ônibus em chamas (antes de haver o poder SS das milícias, é claro).

Para distensionar os ânimos e os espíritos, no restante desta mídia ligeira, nos anúncios de magazines femininos, nos programas de fofocas televisivas, nos outdoors etc. é concedido mais espaço a aspectos, digamos assim, arejados e mundanos: belas mulatas – geralmente sós –, jovens negros musculosos – acompanhados por falsas louras desinibidas – mulatos, morenos, morenas (muitas morenas), diversas imagens “etnicamente corretas”, no fundo apenas apelativas, porque subliminarmente tendem a associar raça negra e mestiçagem a sexo aberrante, como anúncio de açougue light, animalizando o Outro, do mesmo modo como se fazia no tempo da escravidão. É coisa de gente normal, isso?

Câmera discreta

Estereotipando e generalizando na sua cobertura sobre o dia a dia do Brasil real, os aspectos mais exteriores de nossa dramática questão social – muitas vezes de maneira histérica e sensacionalista –, tornando desta forma totalmente invisíveis todos os outros aspectos positivos, o cotidiano e a cultura das pessoas não-brancas deste país, nossa mídia nada mais faz do que propaganda de guerra, incitando a opinião pública normal contra o outro, o anormal, mais ou menos como o fez a imprensa standard de Bush, justificando bombas e barbaridades na invasão e na ocupação do Iraque.

Seriam cidadãos americanos os nossos brancos normais? Seriam anormais fedayns iraquianos os nossos marginais não-brancos? Claro que não.

Como agravante, naqueles aspectos sociologicamente mais profundos que caracterizam a aceitação de nossa imagem nacional efetiva, não é difícil detectar-se a existência daqueles sutis artifícios usados para identificar e separar as coisas apropriadas para serem mostradas, daquelas que devem ser cuidadosamente maquiadas, editadas ou, simplesmente, escondidas dos olhos das pessoas “de bem”.

Um conjunto de elementos estéticos, que são fashion, style, low profile, positivos em suma ou que, simplesmente, funcionam, isolado de um outro conjunto de coisas que não devem ser mostradas, de jeito nenhum (a não ser em ocasiões socialmente corretas), porque são down, feias, incômodas e que, do ponto de vista comercial são, portanto negativas, não funcionam, sendo impróprias ao consumo – ou não recomendadas – aos olhos daqueles indivíduos considerados normais.

E quem seriam neste contexto tão patologicamente televisivo os normais do Brasil? São aqueles 30% que estão em pleno gozo de seus direitos de renda e cidadania, gente que, até prova em contrário, é predominantemente branca, beneficiária, como vimos, de um sistema de cotas firmemente assentado em mais de 500 anos de exclusão e invisibilização do Outro.

A questão básica portanto passa a ser: por que, no contexto desta separação entre aqueles que têm daqueles que não têm – uma separação que, apesar de odiosa, poderia ter como atenuante o fato de ser naturalmente apenas social – o componente étnico, racial é tão determinante? Será inteligente (para não dizer justo ou correto) insistir numa imagem nacional tão despudoradamente falsa como esta que nossa mídia difunde, uma imagem calcada no perfil étnico dos brancos, tornando virtualmente invisível todos os, digamos, 70% restantes de não-brancos?

Afinal, serve para que a imagem daquele olhar constrangido do crioulinho magrelo, que tenta fazer malabarismo no sinal fechado? O que podemos fazer com esta imagem tão perturbadora senão deletá-la de nosso HD emocional, assim que o sinal se abrir? Não seria porque ela, do jeito como a tratamos, não serve para vender nada, senão a nossa brasileiríssima iniquidade?

Deve ser por isso que, do ponto de vista estritamente imagético, daqueles registros sobre nós mesmos que legaremos à posteridade, a maioria esmagadora dos elementos culturais, por exemplo o teatro, a literatura, as telenovelas etc., continuam a ser, ad infinitum, simbolizados na maior parte das vezes, por personagens e atores do perfil étnico hegemônico.

Na literatura, entre a mais recente exceção à regra – Paulo Lins – e a última já se vão mais de um século. Antes de Cidade de Deus, a última foi aquela que narrava a pungente dicotomia entre a luz e a escuridão, representada pelo simbólico conflito ideológico latente, na obra de dois de nossos maiores escritores, ambos negros: Machado de Assis, aquele que ascendeu na sociedade branca tornando literariamente invisível, de forma brilhante, sua própria negritude, e Lima Barreto, aquele que, ao contrário, morreu louco tentando iluminar, de forma não menos brilhante, a sua (e a nossa) própria condição racial e suburbana, em emocionados romances.

E é nesta angustiante dicotomia, entre a luz e a sombra, que vai vivendo a nossa vacilante, vadia e, por isto mesmo, tão cinematográfica alma brasileira.

(Uma confortável cadeira será necessária para assistir um pouco mais deste drama nos takes 02 e 03 desta história meio ‘film noir’. Desliguem os celulares, por favor)

Leia neste link o post 02 desta série:

Spírito Santo
Dez 2008

(Parcialmente publicado em O Observatório da Imprensa em 14/05/2003 e, posteriormente em www. overmundo.com.br)

CINEMA EM BRANCO & PRETO / take 3


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(Leia também os takes 01 e 02 )

Negativo revelado

”Um historiador chamou o período silencioso no cinema no Brasil (introduzido em 1898 pelo italiano Affonso Segretto) de “a bela época do cinema brasileiro”, dada a quantidade e diversidade da produção. …mas do ponto de vista do negro brasileiro, isso conta muito pouco. O cinema mudo coincide exatamente com o período áureo das teorias racistas, quando as religiões afro-brasileiras eram perseguidas pela polícia, e os mulatos claros usavam pan-cake para parecer brancos. Houve portanto poucos registros de negros em documentários.

Apesar da patente invisibilidade do negro nos documentários de nosso período silencioso, aludida e lamentada aqui por João Carlos Rodrigues, talvez já se tenha dito, anteriormente, que a rigor não pode ser considerada, de modo algum, incipiente- ou mesmo insuficiente – a presença da imagem do negro no cinema brasileiro de ficção.

Já nas imagens inaugurais desta nossa cinematografia ‘posada’, o negro estava lá, de alguma forma impresso. A lista de filmes é extensa, a ponto de podermos afirmar, com razoável convicção que, do ponto de vista essencialmente imagético, nunca houve, exatamente, racismo no cinema brasileiro.

Não conheço ninguém que tenha assistido, sequer a um fotograma do documentário (um docudrama talvez) “A vida de João Cândido, o marinheiro“, realizado segundo as poucas fontes disponíveis em 1912, com direção de Carlos Lambertini e, sabe-se lá talvez, inspirado no O encouraçado Potenkim’ filme clássico de 1906, realizado pelo russo Sergei Einsenstein.

Por conta da insuficiência de fontes aliás, o filme sobre João Cândido, acabou se confundindo com o documentário ‘A revolta da Esquadra’ também identificado como sendo de 1912, sensacional furo jornalístico do cinegrafista Alberto Mâncio Botelho (único fotógrafo a conseguir entrar no encouraçado Minas Gerais, nau capitânia da Revolta) que conseguiu entrevistar João Cândido líder dos amotinados da Marinha de Guerra, contra os castigos corporais.

É lícito se supor inclusive, que a maioria – senão todas – as imagens disponíveis hoje deste grande momento da história do Brasil, tenham sido registrados pelas câmeras deste grande precursor do documentarismo brasileiro que foi Alberto Mâncio Botelho.

Pois saibam que “A vida de João Cândido, o marinheiro” foi o primeiro filme censurado e proibido no Brasil por motivos políticos (certamente junto com o ‘Revolta da Esquadra’ de Botelho). A engrandecê-lo mais ainda, o fato de ter sido também o primeiro filme de ficção, no qual o negro apareceu como protagonista de sua própria história (não se tem a informação se os atores eram brancos pintados. Vamos acreditar que não).

…”Os atores (no tempo do cinema mudo no Brasil) ainda eram brancos pintados, como os minstrels americanos. Esse costume persistiu até bem mais tarde. No cinema, o verismo exige negros verdadeiros, e assim surgiram os primeiros atores profissionais, vindos dos palcos : Grande Otelo, Pérola Negra, Chocolate – os pseudônimos já ostentam a etnia, informando antes mesmo da própria imagem do intérprete. Mas seus personagens não cresceram de importância.”

Caras imagens esparsas de filmes invisíveis.

Além do imperdível ‘Encouraçado Potenkim’, alguns de nós já assistiram, contudo a pelo menos algumas das impactantes imagens de ‘O Nascimento de uma nação’ (The Birth of a nation ou, originalmente, The Clansman) de David Llewelyn Wark Griffith (D. W. Griffith), talvez a mais veemente propaganda racista já exibida pelo cinema, lançando as bases para a recriação da organização terrorista Ku Klux Klan, grupos de brancos que promoveram muitos linchamentos e enforcamentos de afro-americanos nos Estados Unidos.

Embora o filme de Griffith tenha sido um divisor de águas, lançando revolucionárias técnicas para a linguagem cinematográfica do futuro, surpreendentemente, no plano ideológico, estas imagens, ao que tudo indica, não tiveram relação direta alguma com o tema da invisibilidade do negro na mídia brasileira (no cinema inclusive).

As controversas ideias levantadas pelo filme, lançado no já distante ano de 1915, parecem ter somente entre nós – guardadas as devidas proporções – alguns tardios adeptos, veementes opositores das políticas de cotas e ações afirmativas no Brasil, cujo pensamento, ainda que de forma simbólica, pode ser alinhado com este emblemático trecho da sinopse do filme de Griffith publicada pela Wikipédia:

…”A controvérsia que o filme causou gira em torno da premissa de que a primeira Ku Klux Klan restauraria a ordem no sul do pós-guerra, que estaria “ameaçado” por afro-americanos “incontroláveis” e seus aliados: abolicionistas, mulatos e republicanos do norte.”

O fato é que, navegando num mar encapelado de preconceitos estéticos ligados ao biotipo de nossa população, não sabemos ainda a que atribuir esta hospitaleira ilha de diversidade cultural, este inesperado apego, quase fraterno, sempre existente em nosso cinema de ficção pela imagem do povo e do negro, em particular.

Atraído pela imagem de negros e despossuídos, tanto quanto pela pitoresca e dura vida de nossa população ‘carente’ em geral (cujos temas estão sempre presentes nos roteiros, desde os primórdios), este cinema foi sempre bastante popular (ou popularesco), desde a escolha de seus story lines, baseados desde o início em rumorosos casos que eletrizaram a maioria da população, sendo protagonizados por pessoas comuns, até a franca adoção de um conceito de ‘casting’ sem preconceitos biotípicos ou raciais aparentes.

Talvez a pista mais importante desta solidariedade do Cinema para com a imagem do negro do Brasil, a despeito do deslavado racismo das outras mídias, deva ser buscada em outras plagas, bem mais próximas de nós: A colônias italianas do Rio de Janeiro e São Paulo.

Com efeito, ao nos debruçarmos sobre a bases que formaram o nosso cinema, esbarraremos, fatalmente, numa lista enorme de ‘carcamanos’ emigrantes, gente simples, humilde e empreendedora que, construiu aqui praticamente tudo que precisávamos para ter cinema brasileiro.

De Paschoal, Gaetano, Alfonso e João Segreto, passando por Paulo Benedetti até Rogério Sganzerla, são centenas os nomes de italianos e ítalo-brasileiros envolvidos na arte de fazer filmes no Brasil, inventando equipamentos, processos fílmicos, dirigindo, cinegrafando ou atuando, a importância destes europeus na fundação de nosso cinema foi decisiva.

Empreendedorismo, pitadas de Anarquismo, de Comunismo, Socialismo e, logo mais adiante, Neo realismo, eis o que seriam as lentes abertas para a negritude em nossa cinematografia.

“ Fita apreendida

No dia 27 de junho de 1926 o jornal O Estado de S. Paulo publica uma matéria intitulada Exploração ignóbil. Um filme deprimente para o Brasil preparado pela companhia Dramática da Atriz Italia Almirante. A longa reportagem relata a apreensão de um rolo de filme com cerca de 150 metros cenas de batuque que foram feitas no Jardim da Aclimação, supostamente passadas numa senzala de uma fazenda de um nababo português.

“Em certo ponto, um artista não se contem e, por pilhéria, arrebata uma pretinha e sai com ela, dançando. Os dançadores se alvoroçam e o chefe do batuque separa o par, com ar feroz. Mas isso não o satisfaz e para vingar-se vai ao grupo de artistas, tira uma atriz e sai com ela, a dançar. Embalde os colegas tentam arrancá-la daqueles braços, da sanha daquela multidão andrajosa, suada, de catadura hedionda. Estabelece-se a luta.

E, aos gritos de toda a gente, aparece o fazendeiro, de botas, chapéu largo de cowboy, um tipo anacrônico, que arrebata a moça das mãos do preto, atira por terra o agressor e corta-o de rebenque, surdo às imprecações feitas de joelho. Enquanto o companheiro apanha os pretos fazem esgares de pavor”.

         (Em ‘Italianos no cinema brasileiro’ artigo de Márcio Galdino)

Positivo velado

Amir Labaki escreve:…”Numa conversa com Vinícius de Moraes, que o guiava para conhecer uma favela no Rio de Janeiro, Orson Welles fez um comentário sobre o que via, direto e profético:

_ “É um Frankenstein. É um monstro que vai se voltar contra vocês.”

Havendo sido criado por volta de 1940, pelo governo brasileiro o Dia da Raça, no qual se criava o conceito algo eugenista da fusão harmônica de ‘três raças tristes’ (brancos, negros e índios, nesta ordem), havia uma intenção oficial de difundir a imagem de que o país era habitado, principalmente, por brancos, com uma taxa mínima de negros e mestiços (intenção a rigor, válida até os nossos dias, notadamente, entre racistas enrustidos)

Foi este, sem dúvida, um dos principais fatores que contribui para a ditadura Vargas acionar o Departamento de Estado Americano e provocar a interrupção do documentário It’s all true, que o festejado cineasta Orson Welles realizava no Brasil em 1942, descrevendo, principalmente, a saga de um grupo de jangadeiros liderados por um homem chamado ‘Jacaré’, do Ceará ao Rio de Janeiro, para denunciar ao governo brasileiro suas péssimas condições de vida.

Segundo o Departamento de propaganda do governo, Welles enfocava, demasiadamente, em seu filme, os negros e a cultura afro-brasileira (no caso, nordestinos – cafuzos para alguns – com a pele queimada de sol e favelados negros do Rio de Janeiro).

É ainda Labaki quem comenta:

…”Em 19 de maio de 1942, já filmando nas praias cearenses, advém a tragédia. A mesma jangada original da ida ao Rio foi virada por uma onda forte num dia de mar bravo. Os quatro homens caíram na água. Jacaré submergiu, voltou à tona, pediu socorro, nadou desorientado mar a dentro e desapareceu. Seu corpo jamais foi resgatado. “Jangadeiro deve morrer no mar” foi a manchete caimmyana de um jornal, atribuindo a citação ao próprio Jacaré.”

…Pressionado por todos os lados, com produtores descontentes com a extensão das filmagens, e políticos de cá e de lá furiosos com a ênfase na pobreza e na negritude do episódio sobre o Carnaval, Orson Welles terminou o que viera fazer e deixou o Brasil para nunca mais voltar.

Jamais concederam-lhe a oportunidade de finalizar “It`s All True”, editado parcialmente sete anos depois de sua morte.”

Banido, tornado quase invisível, durante muitos anos, os negativos do filme foram recuperados, mostrando imagens épicas fantásticas do nordeste brasileiro, com o movimento impressionista das velas e das ondas do mar do Ceará e da então capital federal, com fortes e trágicos contrastes e nuances de preto & branco.

Visto hoje, com distanciamento, ‘It’s all true’ nos aparece como um legítimo filme brasileiro, tão grande a influência que, sabe se lá por que mágicos meios, imprimiu em nossa filmografia posterior, notadamente no cinema de Glauber Rocha. Talvez fosse mesmo uma tendência, um fenômeno cinematográfico amplo e recorrente, num mundo que, bafejado pelos ventos abrasivos da guerra, impulsionava o cinema, inapelavelmente, para a reflexão em imagens, de valores universais essenciais, tais como a solidariedade humana, a diversidade cultural e a luta contra o racismo, a intolerância e a miséria, seja onde estivessem.

Ventos que, geraram em suma, o movimento denominado Neo-Realismo‘ italiano, famoso movimento cultural surgido no pós guerra cujas maiores expressões foram (olha a Itália de novo aí, gente!) Rosselini e De Sica.

Mesmo com o advento do Cinema Novo (segundo se diz, criado por Humberto Mauro) o cinema brasileiro segue tributário dos italianos.

Se algum pai houve não se sabe ao certo, mas, talvez ‘la Mamma’ de nosso cinema moderno tenha sido mesmo esta avassaladora influência neo-realista de De Sica e Rosselini, em seu amor desmedido pela imagem idílica do povo da itália, escurecido pelo sol do Mediterrâneo e entidade vítima de algozes muito cruéis (o nazi-fascismo que morria e o imperialismo capitalista que surgia voraz), num contexto de caos social impactante. Talvez tenha navegado por estas ondas portanto, a relativa aceitação de uma certa negritude em nosso cinema.

Mas, é bom se frisar que este Neo Realismo brasileiro, se impõe mesmo é com o lançamento de Rio 40 graus de Nelson Pereira dos Santos e, logo após, com Rio Zona Norte, do mesmo autor, seguidos pela série Cinco Vezes favela‘, filme produzido pelo vanguardista CPC da UNE (no embalo lançando os cineastas Leon Hirszman, Cacá Diegues  e até o Eduardo Coutinho – cujo filme ‘Cabra marcado para morrer’, da mesma época, por conta do golpe militar ficou inconcluso).

Reveja o cinema de Glauber Rocha e observe nos formidáveis planos-sequências, aquela visão de um povo heróico e retumbante, esturricado de sol e sede, enfrentando, estoicamente, as agruras da natureza e do cruel capitalismo anglo-saxão.

Isto tudo exposto, podemos dizer que sempre houve uma substancial presença de negros nas telas de cinema do Brasil sim, mas, não nos furtemos em perguntar:

_Como assim?

Vejam talvez que esta, talvez seja uma história boa demais para ser verdade. No cinema, como no Brasil, ‘nem tudo é verdade’.

Alma no olho

João Carlos Rodrigues, em seu livro aqui citado O negro brasileiro e o cinema – enumerou 12 arquétipos (ou estereótipos) invariavelmente, disponíveis para atores e atrizes negros no Brasil. Os mais importantes são os seguintes:

O Preto Velho, o Mártir da escravidão, o Nobre Selvagem, o Negro Revoltado, o Negro da Alma Branca (trágico elo entre oprimidos e opressores ), o Crioulo Doido (equivalente assexuado e cômico do Arlequim da Commedia dell’Arte ), a Musa Negra. Há dois com uma nítida conotação sexual exacerbada :O ameaçador Macho Negro ( Negão ) que povoa os sonhos racistas com estupros e violências ; a Mulata Sedutora ( Uma espécie de mulher-objeto cor de chocolate, desejada por todas as raças).

Na obra de João Carlos, todos os personagens negros e mulatos da ficção brasileira se enquadram em uma dessas categorias.

Assisti, por acaso, um dia destes, ao excelente e bem realizado ‘Também Somos Irmãos’, drama de José Carlos Burle com Grande Otelo, Aguinaldo Camargo, Agnaldo Rayol, Ruth de Souza e Jorge Dória, produzido pela valorosa companhia de cinema Atlântida em 1949. Embora velados, muitos dos estereótipos enumerados estavam lá.

Já foram de algum modo citados também outros filmes emblemáticos – com ou sobre negros – aqui mesmo nesta série. Entre eles Assalto ao Trem Pagador de Roberto Farias, Ganga Zumba (1964) de Carlos Diegues, Compasso de espera, direção de Antunes Filho (que conta o drama de um intelectual negro representado por Zózimo Bulbull, na megalópolis São Paulo, tentando integrar-se na sociedade branca). Podemos citar também Bahia de todos os santos (1960), de Trigueirinho Neto, Sinhá Moça (1953), direção de Tom Payne e Osvaldo Sampaio, O amuleto de Ogum (1974) e A tenda dos milagres (1977) ambos dirigidos por Nelson Pereira dos Santos, além de Xica da Silva (1976) e Quilombo de 1984 (o mito de Ganga Zumba de novo, também com a direção de Carlos Diegues, desta vez como super produção neo-tropicalista) e o digno Chico Rei (1985), de Walter Lima Junior – do qual este autor que vos fala, orgulhosamente participou, escrevendo a trilha sonora com seu grupo Vissungo (Wagner Tiso escreveria a trilha ‘branca‘, europeia) e coordenando grupos de congada na cena final.

Nesta vasta filmografia, dois fatos saltam aos olhos: Diretamente ligados à história, aos dramas, e ao modo de ser dos negros do Brasil, nenhum destes filmes foi dirigido por um diretor negro. Segundo: talvez por esta prosaica razão, em todos eles, de algum modo, os personagens negros são esquemáticos, estereotipados ou idealizados, quase sem nenhuma diferença do quadro de ‘arquétipos’ enumerado por João Carlos Rodrigues acima.

É fato também, portanto que o negro brasileiro está no cinema apenas com o corpo. Não está presente a sua alma. Seus olhos não se reconhecem nestes corpos travestidos por estereótipos os mais diversos, uns frutos do preconceito ou da ignorância, outros fruto da arrogância elitista de certa classe cinematográfica voltada excessivamente para uma visão estreita de nossa sociedade, contaminada por nossos vícios racistas mais recorrentes e sempre, renitentemente, presentes. Uma alma, senão branca, desvirtuada pela visão esquemática do filtro torto, com o qual a maioria de nossos cineastas enxerga a alma do negro (e, por extensão, dos pobres do Brasil).

As exceções a esta enigmática invisibilidade da alma do negro, dirigindo-se a si mesmo, em nossas telas, são poucas, entre elas, Cajado Filho (1912 – 1966), cenógrafo e roteirista de dezenas de filmes de sucesso, que dirigiu cinco longas metragens entre 1949 e 1958, todos infelizmente desaparecidos. Foi quase certamente o primeiro diretor negro do cinema brasileiro segundo João Carlos Rodrigues.

Com um hiato de muitos anos, temos também ‘As Aventuras amorosas de um padeiro’ de Waldir Onofre (cineasta que narra a alma suburbana da zona Oeste do Rio) ,’Alma no Olho’, de Zózimo Bulbull (Jorge da Silva), além de títulos esparsos por aí, a maioria de cineastas negros iniciantes, unidos, recentemente pelo Centro Afro Carioca de Cinema, criado por Zózimo Bulbull e Biza Vianna que, a partir de referências seminais do cinema africano, do senegalês Ousmane Sémbene, do nigeriano Ola Balogun (que filmou no Brasil nos anos 80 A Deusa Negra) e de Zezé Gamboa (prêmio do júri no Sundance Film Festival, em 2005), entre outros, todos reunidos num concorrido festival realizado no Cine Odeon (entre outros espaços), no Rio de Janeiro em novembro de 2007 e 2008, almejam quebrar o paradigma da ausência da alma negra no cinema do Brasil.

Dogmática feijoada

Na crônica das incongruências que este grupo de cineastas negros almeja superar, no intuito de provar que as idiossincrasias da alma popular brasileira (vale dizer a alma dos ‘não brancos’ do Brasil) não tem sido bem descrita pelos filtros do nosso cinema tradicional, existem casos clássicos, muito discutidos por seu caráter assaz constrangedor, como por exemplo, a salada antropológica, de cunho, grotescamente, tropicalista e gosto duvidoso (até como cinema) com que o sempre festejado Cacá Diegues tratou o Quilombo de Palmares, emblema de um episódio caro a alma libertária de todos os brasileiros (travessura estética repetida em 1999 no – vá lá – ‘pós modernista’ Orfeu com Toni Garrido).

E nem precisávamos falar também da, certamente bem preparada e articulada mulher que foi Xica da Silva, transformada em mera ‘mulata’ lasciva, quase prostituta, por – de novo ele – Cacá Diegues, o renitente cineasta que filmara também, alguns anos atrás, a imagem risível no filme Ganga Zumba de uma escrava africana usando hennè nos cabelos (Luiza Maranhão, grande atriz de tantos filmes emblemáticos como o já citado Assalto ao Trem Pagador).

Mas, quem se importava com estas continuístas filigranas de foco e enquadramento àquela altura dos acontecimentos, tomados que estávamos pelo sonho ufanista de termos com a Embrafilme, enfim, uma indústria cinematográfica de peso? Definitivamente, não pegava bem naquela época, falar mal do cinema nacional.

Felizmente, panorama cinematográfico brasileiro neste aspecto tão vexatório, neste cipoal de impropriedades estilísticas, pode estar prestes a mudar com a mais recente e incisiva – pelo menos como atitude – incursão representada pelas ações afirmativas tocadas, à própria conta e risco, por um grupo de cineastas e estudantes de cinema de São Paulo: O Dogma Feijoada.

Liderada pelos, relativamente, jovens cineastas paulistas Jeferson De e Noel de Carvalho, O Dogma Feijoada é uma ação que reúne cerca de 13 cineastas negros paulistas, a maioria representantes de uma inédita geração de alunos de cursos regulares de cinema, animada a quebrar os tabus conceituais e ideológicos mais recorrentes neste assunto, com muita disposição, embora ainda se baseando em ideias – apesar de, saudavelmente provocativas – em sua maioria, um tanto ou quanto insuficientes (redundantes até) – segundo se pode avaliar pelas sete ‘dogmáticas ‘ cláusulas que expomos a seguir:

‘Cinema Negro Brasileiro ou Dogma Feijoada

1- O filme tem de ser dirigido por um realizador negro brasileiro;
2- O protagonista deve ser negro;
3- A temática do filme tem de estar relacionada com a cultura negra brasileira;
4 -O filme tem de ter um cronograma exeqüível. Filmes-urgentes;
5- Personagens estereotipados (negros ou não) estão proibidos;
6- O roteiro deverá privilegiar o negro comum brasileiro;
7 – Super-heróis ou bandidos deverão ser evitados. ’

Mesmo considerando que – nem mesmo como ironia ou brincadeirinha com dinamarqueses- não se quebram paradigmas com dogmas (dogmática mesmo é a prática dos que estão do outro lado ) só nos resta desejar que, a partir desta entusiasmada galera do Dogma, a moviola simbólica deste nosso ainda inacabado filme noir (que por aqui, sem o menor suspense, parece sempre rodar para trás) avance mesmo, rumo a um cinema brasileiro completo em gentes e nuances; rico, com heróis e vilões sem máscaras ou pankaques; um cinema colorido, diversificado em temáticas e arquétipos, feito por todos e Paratodos (como o nome daqueles cine ‘poeiras’ de interior).

Enfim, sem mais delongas vulgares ou ‘The ends’ bregas e, sobretudo, sem ‘_ Óticas do povo, morou?’, só me resta gritar à guisa de corte final:

_Luzes, Câmeras e…ação!

Spírito Santo

Dez 2008

(Leia também os takes 01 e 02 )

CINEMA EM BRANCO & PRETO / Take 2


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Cinema para quem precisa

Interior/Dia

Voltando a nossa boa conversa do Take 01 desta série, o fato é que, para sermos justos, foi nas dimensões hospitaleiras do veículo cinema, da tela grande, que se asilaram e se tornaram visíveis muitos atores não-brancos fabulosos deste Brasil.

Neste âmbito de dramas empolgantes, tivemos Eliezer Gomes, o Tião Medonho (do clássico Assalto ao trem pagador de Roberto Farias), que foi também o caseiro psicopata de Anjo da Noite, de Walter Hugo Khouri, e o escravo-cavalo de Jeane Moreau (em Joana, a francesa de Cacá Diegues). Um ator autodidata, de ‘dimensões shakesperianas’, segundo disse um crítico na época, mas, quem se lembra? Pelo visto, poucos.

Belo e bravo cinema do Brasil. Bucólicas ou violentas imagens, suburbanas ou rurais, às vezes sagas grandiosas, nas quais os não-brancos apareceram sempre com a alma de certo modo inteira.

Generoso e ainda efêmero cinema nacional. Sempre tão precário como indústria.

De Bulbul à la Diniz

Se de vez em quando um mea-culpa doloroso é carpido pelos cerca de 30% de incluídos, geralmente isto se dá nas telas do cinema. É neste momento – como num rápido trailer – que a imagem dos 70% mais ‘feios’ aparece gloriosamente colorida, incômoda e corrosiva, tanto aplacando talvez culpas internas (como autoflagelação de mentirinha), quanto desmascarando, internacionalmente, nos Hollywoods e Berlins da vida, a cegueira extrema daquele Brasil ‘branco’, sarado e siliconado, que não cansa de olhar o outro Brasil pelo retrovisor.

O pior é que, ao que tudo indica, o grande e perturbador aspecto do problema não é ainda este. A coisa é ainda um pouco pior. Pasmem se ainda puderem mas, pelo que se vê exposto nesta mídia, é quase que, totalmente, ‘branca’ também a maioria das pessoas comuns visíveis, os transeuntes flagrados por câmaras fotográficas ou de TV, dando opiniões e entrevistas, frequentando praças de alimentação de shopping centers.

São também, majoritariamente, ‘brancos’, do mesmo modo, os frequentadores de bibliotecas, de cibercafés (lan houses de favela não contam, é claro), de bares genéricos ou temáticos, de centros culturais, assim como o são os professores universitários, os aposentados com dignidade, os funcionários públicos acima do último escalão, as socialites autênticas ou emergentes, as recepcionistas de lanchonete ou de butique, os modelos e manequins, os praticantes de cooper na orla, os ciclistas e motoristas de fim de semana, até os mortos nos acidentes de trânsito o são.

É sempre incrível para os estrangeiros que nos visitam, mas também é ‘branca’ a maior parte dos espectadores de cinema e teatro, os atletas de esportes radicais, assim como também são brancos a maioria das prostitutas do calçadão, os jogadores de frescobol, de voleibol, de basquetebol. Cá entre nós, já notaram que são cada vez menos negras também, até as empregadas das telenovelas?

Milton Santos, o brasileiro que chegou a ser considerado o maior geógrafo do mundo (ele mesmo, um dos muitos invisíveis gênios negros deste país), costumava perguntar onde estaríamos escondendo os nossos milhões de não-brancos. Em guetos infectos como na antiga África do Sul? Seriam mesmo guetos infectos as nossas milhares de favelas? Ou não?

A relativa invisibilidade de não-brancos em nossa televisão, aliás, é um episódio digno de várias novelas. Desde o tempo do dramalhão A cabana do pai Tomás, no qual ator Sérgio Cardoso apareceu pintado de preto, passando pelo beijo – até hoje escandaloso – do crioulo Zózimo Bulbul na ‘loura’ Leila Diniz, pouca coisa mudou.

Corte / Tela escura / Silêncio

O impressionante Aguinaldo Camargo, o nunca demasiadamente citado ícone Grande Otelo, Milton Gonçalves, Antônio Pompeu, os saudosos Marcos Vinícius, Norton Nascimento e Paulão Barbosa; Cosme dos Santos, Luiz Antônio Pilar, Maurício Gonçalves, Roque Pitanga, Lui Mendes, entre outros, são parte de uma dinastia de duas ou três gerações que, com raras exceções, sempre representou eternos estereótipos do bandido, do policial, do porteiro, do traficante, do motorista e, quase sempre, do indefectível escravo doméstico, assim meio Uncle Thomas, meio Pai João (escravo rebelde de novela, sempre morre sozinho, abandonado pelos irmãos de cor e de infortúnio).

Também para duas gerações de atrizes a mesma galeria de tipos chapados, estereotipados. Ruth de Souza, Léa Garcia, Chica Xavier, Zezé Mota, Neuza Borges, Zezeh Barboza, Iléa Ferraz, Mariah da Penha, Isabel Fillardis, Thaís Araújo, Maria Ceiça, Cida Moreno e – vá lá – Camila Pitanga, entre tantas outras, revezam-se em papéis similares, geralmente jovens mucamas oferecidas, velhas escravas resignadas (ou alegres e prestativas domésticas). Às vezes, para variar, desbocadas prostitutas.

A não ser quando representando escravos de alguma senzala de padrão global, os atores negros de nossa teledramaturgia quase nunca são ocupados assim, em grupo, em núcleos (como ocorreu aliás uma vez, quando uma família negra de classe média exibiu seus um tanto descoloridos conflitos na TV).

Geralmente as telenovelas, quando existem papéis específicos “para negros”, costumam ocupar de cada vez, apenas um ou dois atores ou atrizes negras “de plantão”. Este plantão envolve sempre a mesma galeria de personagens estereotipados citados, o que faz com que a carreira de ator ou atriz para negros no Brasil seja uma atividade de pouco ou nenhum futuro, atraente apenas para os loucos mais abnegados.

A natureza e a dinâmica dos mecanismos que acionam esta invisibilidade a que estão relegados os não-brancos em nossa teledramaturgia são dois grandes mistérios de nossa sociologia.

Tudo nasceria de um acordo tácito entre teledramaturgos? Seriam mecanismos regidos por secretos memorandos internos trocados entre a alta cúpula das emissoras? Estariam baseados em estratégias de comercialização, em pesquisas de mercado nas quais o consumidor não-branco apareceria como um segmento desinteressante ao mercado? Ou seria culpa da desmobilização política da classe, do conjunto de artistas negros, da opinião pública não-branca deste país?

Talvez seja esta a faceta mais cruel do racismo à brasileira: seu caráter de omertá, a lei do silêncio, instituição fantasmagórica, mas, onipresente, rígida e complexa apesar de não estar escrita; tácita; sórdida porém tolerável; seguida à risca por uma multidão de cúmplices, beneficiários de uma injustiça impossível de ser inteiramente identificada e compreendida pelas vítimas, porque não pode ser atribuída diretamente a ninguém, já que todos os indivíduos que a praticam aprendem, desde de criancinhas, a repetir o surrado discurso que diz:

“Se há racismo, os racistas são os outros”.

Plano Americano

Corte

De todo jeito, se todos nós sabemos que um rostinho levemente europeu definitivamente não corresponde ao perfil étnico da maioria de nossa população, o que estaria havendo então? Algum tipo de loucura, de neurose coletiva? Estaríamos vivendo todos um problema tão grave de autoestima que, mergulhados numa profunda crise de identidade, acabamos por nos atolar na paranoica negação de nossa própria imagem? Ou seria uma cínica e esperta “ação afirmativa” às avessas, algum corporativismo racista do tipo “primeiro o meu, depois o do judeu”?

Seja lá o que for, é bom que deixemos logo de ser brancos para sermos francos. Já não é possível encontrar inocentes neste roteiro de sutis omissões e comodismo interesseiro.

Se não nos surpreendemos mais com isto, indignemo-nos, pois!Dizem que um dia destes (bem antes da Obamania surgir, claro) um apatetado George W. Bush perguntou ao presidente do Brasil que o visitava:

_”É verdade que vocês tem mesmo negros por lá?”O ‘branco’ Lula, dizem, ficou vermelho e depois sorriu amarelo.Indignemo-nos pois, antes que, sem nenhuma imagem que represente a verdadeira cara do nosso Brasil cor de anil, em resposta a um destes Bushs da vida, só nos reste, dizer:

_ “Tivemos negros sim, mas, com o tempo, eles foram sumindo, sumindo…”

As conclusões mais enfáticas deste artigo, no plano de nossa vida cotidiana, no dia a dia, começam a carecer já de alguma revisão, no bom sentido. Tudo ainda muito incipiente, quase imperceptível. Contudo, seria este um reflexo das políticas de ação afirmativa, tão combatidas quanto ignoradas por nossa renitente mídia ligeira, sempre inerte e omissa como aquele cego que teima em não querer ver?

Deixando de lado este quase interminável rol de invisibilidades de nosso ‘apagão imagético’, siga então em frente e leia também os posts takes 01 e 03 deste eletrizante argumento.

Spírito Santo

Dezembro 2008

CINEMA EM BRANCO & PRETO / Take 1



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Benjamim de Oliveira, ator de ‘circo-teatro’ e palhaço negro (pintado de branco)
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Imagem popular: Visibilidade zero
Exterior/Noite

Entre outras e mais dramáticas conseqüências, a pobreza continuada e generalizada, na qual se permite que viva grande parte de nossa população, criou para a mídia do Brasil uma espécie de perturbadora “impropriedade estética”, causada pela contradição evidente entre a imagem real de povo não-branco, que efetivamente somos, e aquela imagem virtual, manipulada por intermédio de diversos artifícios, que insistimos em propalar para mundo como sendo o nosso look ideal.

Por que nos espaços da mídia (vista aqui como o conjunto de mecanismos de difusão social e cultural independentes) o Brasil aparece sempre assim, mascarado, fantasiado de uma outra coisa que não é ele mesmo?

Acreditem, esta não é uma conversa de filigranas ou irrelevâncias. Visibilidade é um axioma midiático por excelência, já que, a rigor, se um fato ou problema está invisível é porque ele não está acontecendo ou simplesmente jamais existiu.

Envergonhada talvez de nossa imagem real, nossa mídia – expressão mais evidente da maneira peculiar que a gente tem de olhar a nossa própria cara em espelhos simbólicos – tem demonstrado persistente intenção de falsear, justamente, o signo essencial de nossa personalidade: nosso biotipo, a cor de nossa pele, os traços físicos mais marcantes, aquela face original que todo povo que se preza costuma assumir como orgulho nacional e patrimônio estético intocável.

Racismo é pouco – e vago – para definir esta estranha disposição de nossos meios de difusão cultural para, sub-repticiamente, ir sabotando a nossa auto-imagem. Que diabo de paranóia seria esta? Por que ficar durante séculos como uma espécie de “país michael jackson”, tentando esconder debaixo de um tapete pra lá de puído o perfil mulato inzoneiro da maioria de nossos charmosos habitantes? Seríamos uma sociedade acometida por uma espécie de vitiligo moral?

Você viu quantas vezes, nos livros escolares, a cara do João Cândido, o almirante negro da Revolta da Chibata, um herói brasileiro tão ou mais significativo do que aquele tristonho alferes Tiradentes? E a cara do negro Oswaldão, aquele líder militar da guerrilha do Araguaia (se é que você sabe o que foi isto), aquela revolta que deu errado mas que contribuiu para a escalação de alguns de seus sobreviventes (a maioria já caída em desgraças éticas, é verdade) para o primeiro escalão do atual governo do país?

Como se poderá forjar um verdadeiro orgulho nacional, amor à pátria, sem a ampla difusão da imagem destes heróis de nossa nacionalidade, tenham lá a cor que tiverem?

Não se pode negar que, no âmbito de nossa mídia ligeira, aquela voltada para o jornalismo superficial e comezinho do dia-a-dia, o merchandising rasteiro, o jingle espirituoso, o outdoor de subúrbio, alguns traços, ainda que tímidos, de nosso perfil étnico têm aparecido.

Neste jornalismo ligeiro predomina, infelizmente, uma defensiva e, apesar de justificável, raivosa depreciação do outro. A pauta, como sempre, tem sido aquele rol de personagens não-brancos, atores eternos e subalternos de nossas piores mazelas, da violência urbana, do crime “organizado”, do jovem traficante armado com um fuzil de guerra, bandido assassino, defendido pela jovem favelada de shortinho leging, com o bebê no colo, aquela que jogava pedras no poder público, como uma louca, até o grand finale: a hollywoodiana imagem da carcaça retorcida de um ônibus em chamas (antes de haver o poder SS das milícias, é claro).

Para distensionar os ânimos e os espíritos, no restante desta mídia ligeira, nos anúncios de magazines femininos, nos programas de fofocas televisivas, nos outdoors etc. é concedido mais espaço a aspectos, digamos assim, arejados e mundanos: belas mulatas – geralmente sós –, jovens negros musculosos – acompanhados por falsas louras desinibidas – mulatos, morenos, morenas (muitas morenas), diversas imagens “etnicamente corretas”, no fundo apenas apelativas, porque subliminarmente tendem a associar raça negra e mestiçagem a sexo aberrante, como anúncio de açougue light, animalizando o outro, do mesmo modo como se fazia no tempo da escravidão. É coisa de gente normal, isso?

Câmera discreta

Estereotipando e generalizando na sua cobertura sobre o dia-a-dia do Brasil real, os aspectos mais exteriores de nossa dramática questão social – muitas vezes de maneira histérica e sensacionalista –, tornando desta forma totalmente invisíveis todos os outros aspectos positivos, o cotidiano e a cultura das pessoas não-brancas deste país, nossa mídia nada mais faz do que propaganda de guerra, incitando a opinião pública normal contra o outro, o anormal, mais ou menos como o fez a imprensa standard de Bush, justificando bombas e barbaridades na invasão (e na atual ocupação) do Iraque.

Seriam cidadãos americanos os nossos brancos normais? Seriam anormais fedayns iraquianos os nossos marginais não-brancos? Claro que não.

Como agravante, naqueles aspectos sociologicamente mais profundos que caracterizam a aceitação de nossa imagem nacional efetiva, não é difícil detectar-se a existência daqueles sutis artifícios usados para identificar e separar as coisas apropriadas para serem mostradas, daquelas que devem ser cuidadosamente maquiadas, editadas ou, simplesmente, escondidas dos olhos das pessoas “de bem”.

Um conjunto de elementos estéticos, que são fashion, style, low profile, positivos em suma ou que, simplesmente, funcionam, isolado de um outro conjunto de coisas que não devem ser mostradas, de jeito nenhum (a não ser em ocasiões socialmente corretas), porque são down, feias, incômodas e que, do ponto de vista comercial, são portanto negativas, não funcionam, sendo impróprias ao consumo – ou não recomendadas – aos olhos daqueles indivíduos considerados normais.

E quem seriam neste contexto tão patologicamente televisivo os normais do Brasil? São aqueles 30% que estão em pleno gozo de seus direitos de renda e cidadania, gente que, até prova em contrário, é predominantemente branca, beneficiária, como vimos, de um sistema de cotas firmemente assentado em mais de 500 anos de exclusão e invisibilização do outro.

A questão básica portanto passa a ser: por que, no contexto desta separação entre aqueles que têm daqueles que não têm – uma separação que, apesar de odiosa, poderia ter como atenuante o fato de ser naturalmente apenas social – o componente étnico, racial é tão determinante? Será inteligente (para não dizer justo ou correto) insistir numa imagem nacional tão despudoradamente falsa como esta que nossa mídia difunde, uma imagem calcada no perfil étnico dos brancos, tornando virtualmente invisível todos os, digamos, 70% restantes de não-brancos?

Afinal, serve para que a imagem daquele olhar constrangido do crioulinho magrelo, que tenta fazer malabarismo no sinal fechado? O que podemos fazer com esta imagem tão perturbadora senão deletá-la de nosso HD emocional, assim que o sinal se abrir? Não seria porque ela, do jeito como a tratamos, não serve para vender nada, senão a nossa brasileiríssima iniqüidade?

Deve ser por isso que, do ponto de vista estritamente imagético, daqueles registros sobre nós mesmos que legaremos à posteridade, a maioria esmagadora dos elementos culturais, por exemplo o teatro, a literatura, as telenovelas etc., continuam a ser, ad infinitum, simbolizados na maior parte das vezes, por personagens e atores do perfil étnico hegemônico.

Na literatura, entre a mais recente exceção à regra – Paulo Lins – e a última já se vão mais de um século. Antes de Cidade de Deus, a última foi aquela que narrava a pungente dicotomia entre a luz e a escuridão, representada pelo simbólico conflito ideológico latente, na obra de dois de nossos maiores escritores, ambos negros: Machado de Assis, aquele que ascendeu na sociedade branca tornando literariamente invisível, de forma brilhante, sua própria negritude, e Lima Barreto, aquele que, ao contrário, morreu louco tentando iluminar, de forma não menos brilhante, a sua (e a nossa) própria condição racial e suburbana, em emocionados romances.
E é nesta angustiante dicotomia, entre a luz e a sombra, que vai vivendo a nossa vacilante, vadia e, por isto mesmo, tão cinematográfica alma brasileira.

(Uma confortável cadeira será necessária para assistir um pouco mais deste drama no take 2 desta história meio ‘film noir’. Desliguem os celulares, por favor)

Spírito Santo

(Parcialmente publicado em O Observatório da Imprensa em 14/05/2003, http://www.oermundo.com.br e http://www.portal literal.com.br)