Brasil Afro #03 – Ainda Palmares e um necessário parentese africano


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Clique na foto e a amplie. Fique chapadão como eu. Na gravura do pintor holandês Olferd Dapper, uma vista panoramica da incrível – e enorme – capital do ‘reino’ do Loango no século 17. O Loango era um sobado suserano (um reino menor e subalterno) do grande Reino do Kongo que, pode-se ver agora, devia ser muito maior do que imaginávamos.

(Leia os sensacionais posts #01, #o2 e desta série)

Se liga galera: Negros não nascem de pés de repolho

Eu sei. Promessa é dívida. Fiquei de desvendar um segredo crucial desta saga angolana no Brasil: O mito do menino Zumbi sequestrado.

Vou cumpri-lo, claro, mas me dei conta agora mesmo de que vocês estão – como eu estava –boiando totalmente nesta história, na História maiúscula desta gente preta que deu no que somos hoje todos nós.

Incrível, mas vocês não sabem de nada. Cegos em tiroteio. Também não é para menos: Ninguém se deu ao trabalho de colocar esta parte da nossa história num livro didático. Numa ou noutra tese de doutores ela está, mas quem lê teses de doutores? O certo é que – sabe-se lá quem – falsearam, forjaram e omitiram totalmente de nós alguns detalhes.

Negros não nasceram de pés de repolho, não é mesmo? Estamos aqui porque nossos parentes vieram de algum lugar.

Daí ficarmos assim, achando que nosso jeito africano de ser surgiu – sem desmerecer os silvícolas ameríndios que também somos – da improvisação, do atavismo de um bando de selvagens de tanga, arco e flecha, envolvidos em ritos bárbaros e trazidos à força para um ‘civilizado’ Brasil.

Mentira deslavada, sabe-se lá por quem lançada. E nem nos interessa mais saber por quê. Cuidemos de, cabalmente desmenti-las e pronto. Vocês verão que o segredo impressionante que estou guardando sobre a farsa do menino Zumbi sequestrado – o tcham tcham tcham tcham desta série – fará muito mais sentido depois deste mergulho na mais remota história de nós mesmos, negros e brancos do Brasil.

Não precisa nem dizer: Eu sei que você, brasileiro (ou angolano), estudou bastante história portuguesa no ginásio. Dom Sebastião, o venturoso, batalha de Alcacerkibir, sei lá, estas coisas aí bem ‘trás-os-montes’. É hora de perguntar então (pelo menos os brasileiros): Porque não nos ensinaram a história de Angola?

A hora é esta então: Em vez da história da nobreza portuguesa, coloquemos  em foco, aqui e agora, a história gloriosa de nossa própria e preta nobreza de descendentes de lá dos ‘trás-os-oceanos’.

Sim por que, no século 17 – época na qual o Kilombo de Palmares cresceu e prosperou – Angola e Brasil eram praticamente uma colônia só. Tudo nos unia, até mesmo as guerras. A maioria esmagadora dos negros de Palmares veio dos reinos do Kongo e de Angola.

Ué?! Não te contaram isto não?

Há um lençol pudico, uma névoa de censura envergonhada cobrindo o nosso espelho étnico neste em em muitos outros aspectos – e este é o tema central desta série de posts – nossa imagem africana real precisa ser revelada. Vamos pensar mais nisto então, enquanto corremos atrás do que nos diz respeito?

África. Século 12, 13, por aí:

Ndongo, reinos do Kongo e de Angola

Tendo Lukenyi Lua Nzama como mãe e Nimi a Nzima como pai, Nimi a Lukenyi, tido como o patriarca do povo Kimbundo, pelo que se conta, era um moço caçador que vindo dos lados do rio Kwangu se estabelecera com sua gente em Lemba, localidade perto do Matadi, bem próximo ao estuário do Rio Kongo. As migrações africanas que geraram o que seria mais tarde o império do Kongo, com um dos clãs chefiados por este Nimi a Lukenyi foram contemporâneas ás invasões bárbaras na Europa no século 14, mais ou menos na mesma época de Joana D’arc, na França.

Em Janeiro de 1482 D. João II, já entronizado como rei, ordena que o navegador Diogo Cão parta em viagem de prospecção e “descobrimento” da costa de África. Em 1483 ele chega à foz do Rio Zaire. Volta uns meses depois e se depara com muitos nativos com os quais não consegue estabelecer muita conversa, exceto sugerir que voltará daí a pouco tempo e que gostaria de conhecer o rei de todo aquele país. Deixa por lá desta vez quatro padres franciscanos com a incumbência de irem até onde reside o rei do lugar.

Em Abril de 1484 Cão sai de Lisboa para a segunda expedição a África. Nesta sua volta ao Kongo, aguarda por muito tempo pela chegada de padres que havia deixado na viagem anterior. Não há sinal dos franciscanos. Gente totalmente desconhecida para os habitantes da terra os padres haviam sido levados á presença do soberano local no interior da selva e de lá não puderam se afastar, segundo disseram mais tarde, por causa da enorme curiosidade dos nativos pelo que eles contaram acerca dos estranhos hábitos dos brancos, além da curiosidade que eles mesmos tiveram acerca dos hábitos dos nativos.

Deduzindo talvez (os textos são ambíguos quanto a isto) que os padres poderiam ter sido capturados ou mortos, Diogo decide levar como reféns em seu retorno para Portugal, um grupo de naturais da terra que, também por mera curiosidade, haviam entrado no navio. Os documentos afirmam que entre estes curiosos visitantes do navio, naturalmente uma expedição com o intuito de investigar quem eram aqueles homens ‘albinos’, estava Kassuta, o filho do atual soberano local, Nzinga Nkuwu.

Levados á Lisboa, direto para a presença do rei e, por conta do longo tempo da viagem, já falando alguma coisa de português, Kassuta, filho de Nzinga Nkuwu e seu séquito ficam em Portugal por cerca de dois anos, segundo os relatos portugueses sendo muito bem tratados na Corte de Lisboa. Bem vestidos á moda local e convertidos ao cristianismo, este embaixadores involuntários teriam sido encorajadas á servirem de intérpretes dos portugueses que os devolvem ao Kongo em 1487.

Desta vez Digo Cão é realmente levado á Mbanza Kongo (‘Mbanza’ significa ‘capital’ na língua local, o kimbundo) do que passou a ser conhecido como o Reino do Kongo. Recebido com uma grande festa, os portugueses reencontram sãos e salvos os quatro padres franciscanos. O rei do Kongo reencontra com muita alegria os seus compatriotas e seu filho que, embora vestidos de forma tão espalhafatosa, depois de encantados com a influencia dos costumes de Portugal, parecem estar muito bem.

Inicia-se assim, com pompa e circunstância, o que o historiador inglês Basil Davidson chamou de os ‘anos de provação‘ para o sudoeste da África. Em 19 de Dezembro 1490, o sucessor de Diogo Cão, Gonçalo de Sousa, sai de Lisboa para mais uma viagem à costa africana, mas morre a meio caminho sendo o comando entregue a Rui de Sousa.

A cronologia dos ‘anos de provação’ 1

A história africana desta época, no que diz respeito á nós, brasileiros, começa portanto em 1482 com o MweneKongo Nzinga a Nkuwu 2 (pai de Kassuta), reinando sobre a vasta região denominada Kongo no tempo em que o primeiro navegador português Diogo Cão, chegou ao Matadi. A era de Nzinga Nkuwu, batizado de D. João da Silva (D. João ‘Da Selva’), em homenagem a D.João II, rei de Portugal (o D.João ‘da Cidade’), como não poderia deixar de ser, foi marcada por muitos conflitos e divergências ligados a sua sucessão, demasiadamente influenciada pelo seu interesse pelas coisas de Portugal, fortemente defendidos por seu filho Kassuta.

É provavelmente este príncipe Kassuta que, voltando para o Kongo educado sob os moldes cristãos, maravilhado com a cultura portuguesa aprendida em Lisboa durante a interesseira hospitalidade do rei D. João II, quem mais tarde coroado como o rei MweneKongo Nzinga a Mbemba (D.Afonso I), transfere a capital (Mbanza) e inicia o sangrento processo de certa sujeição do Kongo aos interesses de Portugal. No ano de 1512 D.Afonso I, escreve ao Papa Júlio II, submetendo-se ao cristianismo e apresentando seu filho D. Henrique como seu representante.

As divergências internas suscitadas pela total submissão da nobreza do Kongo aos interesses de Portugal, acabou provocando um cisma de grandes proporções entre os reinos vassalos (comandados por membros da mesma família ou clã) e a população em geral. Duas correntes principais se formaram. A primeira, que era integrada por aqueles que aceitavam a influência estrangeira, queria modificar tudo no Kongo, suas instituições, sua religião, etc. e era comandada por Nzinga a Mbemba (o mais velho, segundo na linha de sucessão). A outra corrente, liderada por Nzinga A Mpanzu (o mais novo, primeiro na linha de sucessão) se esforçava então para combater tudo que fosse estranho aos costumes tradicionais da terra.

Nzinga a Mpanzu que é o herdeiro legítimo á sucessão do pai, assume o seu lugar mas é logo deposto pelo irmão Kassuta, com a ajuda de padres  jesuítas, agentes de Portugal. Nzinga Mpanzu acaba sendo expulso da mbanza (sede) Kongo, tendo que se refugiar no reino vizinho, terras do Muene Nsundi. Nzinga a Mbemba (Kassuta), já cristianizado, recebe então o nome de D.Afonso I e assume o trono ali por volta de 1506.

Nzinga a Mbemba não era simplesmente um rei subserviente, ele era na verdade um tipo ingênuo de visionário, que se julgando grande amigo de D.Manoel I, rei de Portugal – com quem trocava ampla correspondência, sob o tratamento mútuo de “Irmãos Reais” – imaginava poder obter certas vantagens comerciais e tecnológicas dos brancos.

Suas decisões devem ser compreendidas, portanto no âmbito de uma conjuntura política na qual alguns reinos que deviam vassalagem ao Kongo, conspiravam intensamente contra a liderança dele, Nzinga Mbemba, que acabou vendo na aliança com Portugal sua melhor garantia para manter e perpetuar seu poder. É neste contexto que Mbemba, ‘rei do Kongo’ chega a declarar numa carta á D.Manoel o seu desejo de obter a tecnologia para a construção de caravelas, com o fim óbvio de expandir suas fronteiras comerciais e se impor diante de reinos rebeldes e impérios vizinhos.

É assim que, mesmo tendo que enfrentar o agravamento dos conflitos daqueles que, além de questionar sua liderança, não aceitam de modo algum à sujeição da região ao estrangeiro, Nzinga Nkuwu aposta na sua trágica ligação com Portugal.

Diogo Cão volta ao Matadi outras vezes. Numa delas, em 1491, consegue penetrar nas terras do Reino do Nsoyo, vassalo do Kongo, onde convence o Mwene Nsoyo (título do governante local) das vantagens dele se converter também ao cristianismo para gozar da amizade e da gratidão de Portugal. Diogo Cão traz consigo desta vez muitos agentes de sua cruzada de dominação cultural, entre os quais alguns padres e aliados nativos (cristianizados durante o processo de cooptação da família real do Kongo), além de paramentos católicos em profusão. O Mwene Soyio e toda a sua família são então batizados. O Mwene Nsoyo recebe o nome de D. Manoel, cabendo a seu filho o nome de D. Antônio.

Nzinga Mpemba e a gênese do afro catolicismo angolano

A era de Nzinga a Mbemba é marcada também pelo aprofundamento da ligação da cúpula ou nobreza do Kongo com a igreja Católica Apostólica Romana, representada pelos interesses do Cardeal D. Henrique,  importante líder católico, jesuíta e senhor-mor da inquisição em Portugal e que, muito se empenhou junto a Santa Sé em Roma pela sagração de D.Henrique I, filho de Nzinga a Mbemba como bispo de Utica em maio de 1518 aos 23 anos de idade.

A extraordinária missão diplomática que leva o jovem de 18 anos carrega muitos presentes de marfim, peles raras e finos têxteis de ráfia do Congo e é acompanhada por uma comitiva trezentos e vinte cativos selecionados pelos portugueses.

A missão chegou á Lisboa de onde foi enviada, por terra, até a Itália, atravessando os Alpes á pé e chegando sã e salva ao Vaticano em 1513. O Papa Júlio II havia falecido sucedendo-lhe Leão X. que é quem em Maio de 1518, sobre a recomendação de quatro cardeais do Vaticano, consagra o filho do rei do Congo, como Bispo de Utica aos 23 anos de Idade. D.Henrique regressa ao Congo em 1521 do Kongo, morre em 1538.

A bem da verdade, esta política de colonização cultural, era levada a cabo no Kongo, não só pela coroa portuguesa, mas por seu agente principal: a ordem dos jesuítas, cujo objetivo central era montar na África missões semelhantes as criadas nas colônias europeias da América do Sul e tinha como estratégia essencial, fomentar a discórdia e desestabilizar a já combalida unidade entre os povos da região, afim de facilitar a conquista militar e territorial que se seguiria à dominação religiosa e ideológica da elite do Kongo.

Em nome da imposição de uma ordem cultural cristã hegemônica, uma era de cruel repressão ás práticas culturais tradicionais é empreendida pelo rei do Kongo, sob as ordens dos padres da ordem jesuítica dos e portugueses. Grande parte dos sacerdotes e médicos tradicionais (Ngangas e Kimbandas) é exterminada por meio de uma série programada de assassinatos. Uma longa série de conflitos e golpes de estado provocados pela inconciliáveis divergências entre sobas nacionalistas e a incondicional aliança do rei com os portugueses, lança o império do Kongo no caos.

A partir desta época, pelo pouco que se pode apreender a partir da enorme ambiguidade da documentação, o que se conhecia como Reino do Kongo passou a ser apenas uma espécie de protetorado português, com importância reduzida no contexto das lutas pela independência da região, posto que passou a ser ocupado pelo ‘Reino d’Amgola’, assim chamado pelos portugueses por conta do título de seus governantes: ‘Ngolas‘. Os títulos Mwenekongo (Rei do Kongo) e MweneNgola (rei do Ndongo) passaram então a se confundir. Os Portugueses e jesuítas que não se conformaram com esta nova  conjuntura ensaiaram um cruento golpe de estado, tentando devolver o poder a seu preposto rei do Kongo D.Alvaro I.

Ao que parece esta dinastia ligada a Ngola Ndambi (D.Alvaro I) é o clã mais importante da região do Kongo e do Ndongo, pelo menos até a morte de Nzinga Mbandi, a rainha Jinga (neta deste Ngola Ndambi) em 1663 3 . Pelo que se sabe até agora, o clã Nzinga do Ndongo assume o poder (tendo em alguns períodos total ascendência sobre o Kongo) a partir de Ngola Ndambi em 1570. Os documentos são confusos em relação a genealogia dos reinos do Kongo e Ndongo-Matamba (‘Reino d’Amgola’) nesta época. Ao que parece, alguns documentos omitem ou confundem o nome ‘angolano‘ de certos manikongos (que pertenceriam ao clã do Ndongo) com o nome de seus títulos nobiliárquicos na língua local (Kimbundo).

Ao que tudo indica portanto teriam existido dois períodos principais na história da região: Um no qual reis títeres de Portugal governaram o Kongo em crescente litígio com o clã do Ndongo-Matamba, e outro no qual os chamados Ngolas, ora se aliaram ora combateram Portugal, governando (ou tendo parentes governando) o Kongo como Manikongos de fato ou seja, o poder do império a partir de certa época, passou a ser (se já não era) exercido exclusivamente por membros de famílias oriundas do povo da região do Ndongo – Matamba.

O período de predominância desta dinastia relacionada ao Ndongo-Matamba, parece se acentuar quando o representante português Paulo Dias de Novais foi aprisionado e o golpe perpetrado pelos portugueses e jesuítas totalmente rechaçado pela população que, em 1568 numa espécie de guerra civil expulsou o Mwenekongo 4 , D. Álvaro I ,seus aliados e todos os estrangeiros para a ilha de Luanda no Reino de Angola na embocadura do Rio Nzaidi)

Novamente aqui, a grande confusão sobre os nomes de quem, efetivamente, governava o Kongo pode significar que o poder real na região estava sofrendo de muitos questionamentos e conflitos entre clãs e facções, podendo significar que conviviam num mesmo período reis do Ndongo (com algum tipo de ascendência sobre o poder no Kongo) e reis títeres, que tentavam governar o Kongo a serviço de Portugal.

Como o nome português destes eventuais reis títeres (principalmente os da dinastia dos ‘Álvaros‘) aparecem em alguns documentos como contemporâneos – ou mesmo homônimos- de supostos reis Ngolas do clã do Ndongo (o que ocorre notadamente com Ngola Nbambi e seu filho Ngola Ndambi Kiluanji Kia Samba), O mais provável é que tenham sido do clã do Ndongo todos os governantes da região compreendida pelos dois reinos, á partir da época de Paulo Dias e Novais.

Dois anos depois, logo após a tentativa de golpe por parte dos portugueses e dos jesuítas (1570), D.Alvaro I / Ngola Ndambi (ou Mpangu-a-Nimi Lukeni lua Mvemba) pede de ajuda ao rei de Portugal (D.Sebastião e ao seu tutor Cardeal D. Henrique, jesuíta e senhor-mor da inquisição em Portugal) que enviando prontamente 600 soldados comandados por Francisco de Gouvêa o recolocam no poder.

1575. Paulo Dias de Novais (que havia sido libertado) volta a Luanda. Havia assumido o poder o filho de Ngola Ndambi, Ngola Ndambi Kiluanji Kia Samba (ou, como o pai, Mpangu-a-Nimi Lukeni lua Mvemba) conhecido como D. Alvaro II. Ngola Kiluangi, liberta Francisco de Gouvêa, comandante da expedição que socorreu os aliados de Portugal, que estava também preso até então. Kiluangi também muda a Mbanza de Kakulo para o reino vizinho, o Mbaka e, em Junho 1575, manda uma embaixada de boas vindas a Paulo Dias de Novais.

Poucos anos depois, no entanto, pressionado pela grande insatisfação da população com os invasores, ele decide trair estes invasores, promovendo o cerco militar aos portugueses em Anzele em 1579. Em Janeiro 1584 chegam a Massangano os reforços militares e munições solicitados por Paulo Dias de Novais. 20 de Julho 1585 O Rei Ngola Kiluangi retira do seu acampamento de Cabaça. Ngola Kiluanji Kia Samba morre em 1587.

O próximo MweneKongo, filho de Ndambi Kiluanji e seu sucessor é Mpanzu a Lukenyi que assume o posto de MweneKongo sob o nome de D.Álvaro III, a princípio não ratificando nem derrubando os acordos anteriores, do mesmo modo pretendendo consultar a população. Lukenyi acaba  decidindo avisar ao Soba do Reino de Ndongo para tomar muito cuidado com os portugueses, pois eles querem mesmo é tomar o reino do Ndongo (Angola) e todo o império do Kongo para si. Uma guerra de libertação nacional se anuncia.

Reino de ‘Amgola’ e Palmares. Tudo junto e misturado?

Consideremos neste preâmbulo que, enquanto isso, no Brasil de 1597 já se falava no  famigerado Kilombo de Palmares.

O soba do Ndongo é Ngola Ndambi, também filho de Ndambi Kiluanji. Inicia-se assim, com a associação entre os irmãos Mpanzu a Lukenyi do Kongo e Ngola Ndambi do poderoso reino do Ndongo, uma nova era de resistência ao invasor português. No entanto Ngola Ndambi, segundo algumas versões após se ver acometido de problemas mentais, morre assassinado. A maioria dos relatos atribuem seu assassinato à sua irmã Nzinga Mbandi, filha de mãe Jaga (etnia também conhecida como Mbangala) com pai Kimbundo (Kiluanji). Jinga (Nzinga)é soba em Matamba, reino ao lado do Ndongo, que ela, após a morte do irmão, naturalmente anexa ao seu.

Acerca do shakespereano episódio que culmina com a morte de Ngola Mbandi, uma versão diferente da acima citada é defendida por Manoel Pedro Pacavira (escritor angolano e um dos biógrafos de Nzinga Mbandi), que sugere que o envenenamento teria sido instigado por uma concubina de Ngola Ndambi chamada Nda Kaniinii Ka Kiluanji, oriunda de Pamba (no Mbaka), apoiada pelos portugueses (que teriam sido os verdadeiros mentores do complô) com o objetivo de por como soberano dos Kimbundos um Ngola mais obediente aos interesses de Portugal. Auto proclamado Mwenengola, o filho de Nda Kaniinii foi logo deposto por uma rebelião popular que aclamou e entronizou uma mulher, sua irmã: Nzinga Mbandi.

Na verdade, ao que se sabe, o protocolo que regia a sucessão entre os povos da região – baseado em princípios matrilineares – era muito rígido. No caso, o filho da filha mais velha do rei Nzinga Mbandi (Jinga) teria que ser o sucessor natural. Morto este, por causas atribuídas ao irmão de Jinga, interessado em ser ele o sucessor, seria este o incidente cujo trágico desfecho, obrigou a ascensão da impressionante mulher que foi Nzinga Mbandi.

Jinga, contudo já havia aparecido na história um pouco antes como a carismática embaixatriz do reino do Ndongo que, a serviço do irmão (o mesmo a quem teria supostamente assassinado) vai a Luanda conferenciar com o governador português João Correia de Souza. Como era hábito na ocasião (e as circunstancias deste hábito são motivo de muita controvérsia) adota a fé católica e é batizada como Anna de Souza.

Um acordo de paz é firmado com os portugueses, mas não deve ter sido lá muito vantajoso para os do Reino e Angola, porque foi rompido assim que Jinga tomou o lugar do irmão morto. É assim, como soberana geral dos Kimbundos que Nzinga Mbandi comandará a luta contra o invasor português até ser provisoriamente derrotada em 1629.

Isolada no interior de Matamba, Jinga só reaparece em 1641, estrategicamente aliada aos holandeses, que haviam invadido as terras de lá como invadiram as daqui. Nos episódios que ficaram conhecidos como as ‘Guerras d’Angola’ muitos reinos e sobados de região se aliaram á Jinga, entre eles se destacaram, segundo os relatos disponíveis, Cassange, Cafuxe, Quijilo, Sambangombe, Calumbo, Molundo, Acamahoto e depois Quissama, além do próprio Kongo.

Mais ou menos desde 1616, quando Luiz Mendes de Vasconcelos assume, no lugar de João Correia de Souza, o posto de governador geral do ‘Reino d’Amgola’, guerreiros Jagas (Mbangalas) aprisionados nas guerras contra os portugueses, começaram a ser enviados para os canaviais de Pernambuco, no nordeste do Brasil. Sabe-se que foram quarenta os precursores do Kilombo de Palmares.

As pessoas deste grupo precursor que se embrenhou na Serra da Barriga no início do século 17, em algum momento anterior a 1630, muito provavelmente vieram de Angola, numa destas levas de prisioneiros de guerra. O certo é que durante todo o longo hiato entre 1629, quando Jinga se recolhe inativa às montanhas de Matamba e 1641, quando ela retoma decisivamente à guerra, aliada aos holandeses, prisioneiros de guerra jagas e kimbundo continuaram a ser mandados em massa para o Brasil pelos portugueses.

Na verdade todo este período das guerras anticolonialistas em Angola (1630/45) foi marcado, predominantemente, pelo translado para o Brasil de prisioneiros de guerra. Estando toda região em torno de Luanda (além do interior do Kongo) conflagrada pela guerra contra Portugal, empreendida, ao mesmo tempo, por sobas do Kongo e do Ndongo-Matamba (além de sobados aliados) e engrossada, a partir de 1641, pela presença de tropas holandesas, era evidente (não fosse fato histórico comprovado) que o fluxo convencional de escravos, antes preados ou vendidos por sobas locais, estivesse totalmente interrompido.

Desta feita, os escravos trazidos para Pernambuco passaram a ser, portanto de um tipo muito particular de gente: homens e mulheres adultos,  guerreiros experientes (talvez até mesmo alguns membros da elite ou nobreza do reinos daquele contexto territorial, de uma mesma área sociocultural portanto), aprisionados após batalhas e rapidamente recambiados para cá, separados como joio do trigo (deportados), segundo as duras leis previstas pela coroa portuguesa para o caso .

Uma espécie de elite, portanto. Com forte espírito de grupo. Este status de degredados, ‘prisioneiros de guerra’, obviamente muda totalmente a maneira de se encarar a organização social, militar e política o Kilombo de Palmares.

Unidos pelo patriotismo e valores culturais e históricos rigidamente estabelecidos; organizados, disciplinados e motivados pelas lutas nas quais estiveram envolvidos em Angola, consideremos, pois que foram estes escravos, que formaram a população que, por meio das fugas em massa passou a habitar a Serra da Barriga.

Consideremos do mesmo modo que, iniciando-se estas fugas já antes de 1630, estas pessoas tiveram muitas dezenas de anos para se estabelecer na região, criando modos bem articulados de vida, com amplas possibilidades de recriar inclusive, os elementos fundamentais de sua cultura original africana.

Entre 1641/42 o Mwenekongo Kimpaku (ou Nkanga-a-Lukeni, segundo alguns relatos) tratado de D. Garcia Afonso II (irmão de Jinga, pertencente portanto a mesma família real do Reino de Ndongo) reúne tropas com vários sobas vizinhos, entre os quais Nambua-Kalombe (que é preso é tem a cabeça cortada) para atacar os portugueses. Em 1646 Kimpaku reafirma a aliança natural com a irmã Nzinga Mbandi. Da aliança participa também o soba do reino de Nsoyo, segundo alguns relatos, tio dos dois e portanto, irmão (ou cunhado) de Ndambi Kiluanji.

As relações de parentesco entre estas figuras não são, absolutamente fortuitas. As regras protocolares de sucessão, descritas acima como sendo muito rígidas, determinavam papéis bem determinados para a filha do rei (rainha mãe, na prática, pois o próximo rei deveria ser, obrigatoriamente seu filho e para o irmão do rei cujo filho seria o sucessor na ausência do outro sobrinho do rei.

Estas regras, segundo indícios em documentos antigos, que remontam a fundação dos dois reinos principais da região (Kongo e Angola) foram criadas no passado bem remoto, por volta do século 12 ou 13, quando da unificação de povos que desceram do Camarões com os povos que já habitavam a área.

O que sugerimos, já de forma enfática é que com muita probabilidade, não haveria porque estas regras não serem repetidas no Brasil pelos líderes palmarinos, havendo inclusive fortes indícios de que eles pudessem ser, mais do que meros escravos aleatoriamente rebelados, criadores de formas de organização originais ditadas pelas circunstancias, ao contrário, um grupo cultural e socialmente articulado desde sua origem na África, quem sabe até mesmo (ainda que remotamente) de algum modo parentes entre si e das pessoas que compunham a casta dirigente nos Reinos do Kongo e de Angola.

Os ainda mal contados incidentes ligados a cisão entre os chamados ‘Zumbi’ (o jovem) e ‘Ganga Zumba’ (o velho) envolvendo o irmão deste conhecido como Ganga Zona (tio dos filhos de Ganga Zumba, portanto), sugerem um conflito de sucessão fortemente assemelhado ao que ocorreu com Jinga (mãe do sucessor natural) e seu irmão Ngola Ndambi (o usurpador), inclusive com o incidente do envenenamento, como vimos e a rigor uma prática bastante recorrente na história política dos reinos do Kongo e de Angola.

Instigante demais esta história não é não? Podemos depois de conhecê-la afirmar inclusive que, ao que tudo indica, será virtualmente impossível entender a cultura e a história do negro do Brasil sem mergulhar na história dos reinos do Kongo e de Angola dos séculos 15, 16 e 17.

Spírito Santo

Julho de 2006 (com ligeiras revisões em Novembro 2010)

Leia aqui no link o post final desta série

 

 

O Bagulho é doido, mas a Favela é que é a Droga/Post #02


Creative Commons LicenseTodo o conteúdo original deste blog está assegurado sob uma Licença Creative Commons."Futebol na favela" - Pintura näif de Helena dos Santos Coelho - 'Talentos da Terceira idade, edição 2009

“Futebol na favela” – Pintura näif de Helena dos Santos Coelho – ‘Talentos da Terceira idade, edição 2009

Ih!!!Bingo!

(Leia aqui o #post 01 )

_”Tava arregado! –Disse o refém-testemunha, descrevendo o que os bandidos diziam no hotel em São Conrado, aos berros, revoltados com os PMs que teriam quebrado o acordo estabelecido com o batalhão para deixar o bonde passar à vontade, toda sexta feira de baile funk, do Vidigal para a Rocinha.

Não sei de nada, não vi nada. Façam de conta que não está mais aqui quem falou.

Voltando ao ramerrão das mui discutíveis UPPs, é básico portanto a gente refletir que o ‘xis’ da questão, também neste caso da batalha de  São Conrado está em descobrir, em minúcias – e encarar de frente- no que consistem e o quanto são profundas estas relações promíscuas que se estabeleceram entre a cidade ‘oficial’ e a cidade ‘clandestina’ no Rio de Janeiro (já que uma está, umbelicalmente ligada à outra) a ponto de nos lançar na situação tão incontrolável como esta em que nos encontramos.

(E vejam bem: não estamos aqui para parafrasear aquele já tão badalado conceito do Zuenir Ventura de ‘Cidade Partida’. Isto, infelizmente já é hoje um conceito inteiramente superado, atropelado que foi pelos fatos. O Rio de Janeiro, ao que tudo indica, perdeu há muito tempo qualquer chance de ter suas duas metades reunidas, ‘pacificadas’ como dizem hoje estes cínicos. A sociedade carioca, esgarçou, exacerbou  demais da conta a sua dicotomia entre riqueza e pobreza.

(Aliás, a propósito, sempre que escuto este papo de ‘paz e amor’ entre os ‘desiguais’ e/ou ‘diferentes’, me vem à cabeça aquela musiquinha terrível do Chico e do Vinícius (e também do ‘Garoto‘, mas ele eu perdôo), piegas e hipócrita mais não poder):

…E aí me dá uma tristeza
No meu peito
Feito um despeito
De eu não ter como lutar

E eu que não creio
Peço a Deus por minha gente
É gente humilde
Que vontade de chorar

Não vai adiantar. Sob qualquer ponto de vista que se analise, a cidade do Rio de Janeiro tem problemas dramáticos e quase insolúveis a médio prazo.  Pegando o aspecto o urbanístico, por exemplo, a gente esbarra com a agudização do verdadeiro apartheid que se estabeleceu por aqui.

O que fazer? Remover, erradicar favelas? Onde colocar as pessoas? Com que recursos realizar todas as obras de infraestrutura necessárias para realojá-las? Reurbanizar as favelas? Como assim? Se é favela, jamais poderá ser bairro. Os conceitos são excludentes entre si. Isto é um sofisma sem tamanho. Pura cascata.

Entre outras características de história da carochinha, a filosofia– na verdade não muito mais que uma tática policial de curto prazo, no sentido militar do termo – o que está por trás das UPPs parece não estar, nem de longe relacionado a esta premissa fundamental que nos aparece como sendo irrecorrível e que nos sugerem muitas perguntas pra lá de capciosas.

Seria possível resolver um problema tão complexo de forma tão simples, reduzindo-o a simples ocupação de partes determinadas do imenso território favelado como numa guerra convencional? O problema poderia mesmo ser reduzido simplesmente ao desalojamento do chamado ‘poder paralelo’ destes nossos quase sempre fuleiros bandos de traficantes?

Vocês eu não sei, mas eu acho terminantemente que não.

Caindo no macro mundão do problema, observemos que estudos bem recentes dão conta de que são cerca de 200 milhões os usuários contumazes de drogas no mundo, a cifra apavorante de cerca de 5% da população mundial, um mercado consumidor gigantesco, do qual o Brasil, evidentemente participa com um número considerável de ‘consumidores’.

Pois bem, onde está concentrada a maior parte destes… ’consumidores’ brasileiros? Posso responder de cara, na lata: Nas ‘áreas nobres’ das nossas grandes cidades. Neste contexto, todo mundo está também careca de saber que a zona sul do Rio de Janeiro talvez seja o nosso maior mercado consumidor (digo ‘talvez’, porque, assustadoramente, a disputa entre nossas grandes capitais, para se saber quem consome mais drogas anda bem acirrada).

E reparem: O perfil destes ‘consumidores‘ vorazes de drogas ilícitas é gente, majoritariamente branca e bem fornida de condições sociais, culturais, financeiras e tudo o mais.

Olhando a questão ainda do ponto de vista macro, portanto – e pedindo perdão por ter que apavorá-los mais ainda – reproduzimos aqui a palavra de um especialista (olhando, bem entendido, apenas para um dos ângulos comerciais da coisa):

“…com intuito mais específico, se pretende explorar quais as relações e até que ponto existe uma simbiose entre as organizações que exploram o comércio de drogas ilícitas, o sistema bancário, que realiza a lavagem de dinheiro, e o sistema financeiro, onde o dinheiro se transforma em capital. Simbiose no sentido de que embora sejam organizações dissimilares convivem numa relação mutuamente benéfica…

Uma abordagem geo-econômica e geo-política talvez permita encaminhar a idéia de que essa simbiose se apóia na contradição, presente na origem e no desenvolvimento do sistema capitalista, entre processos de transnacionalização e formação de mercados mundiais (no nosso caso, dinheiro e drogas) e o estado nacional.”

Sacou? Veja então agora então pelo ângulo das relações fundiárias, ou seja, você acha mesmo que, neste contexto de conflagração de interesses tão poderosos,  a população original das áreas eventualmente… ’pacificadas’ vai conseguir manter seu território e suas propriedades (ou ‘posses‘) intactas?

“…A discussão fundiária, no entanto, tem adquirido vigor sobretudo como consequência da ação do governo de retomar o controle territorial das favelas com as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs).

Por exemplo, o Instituto Atlântico, dirigido pelo economista Paulo Rabello de Castro, propôs ao prefeito Eduardo Paes e ao vice-governador Luiz Fernando Pezão um projeto-piloto no Morro do Cantagalo, em Copacabana.

O plano inclui cadastramento geral dos moradores e o levantamento da topografia detalhada com o objetivo de conceder a titulação plena dos possuidores de lotes e unidades residenciais. São 1.456 domicílios e cerca de 5 mil moradores, 79% dos quais vivem lá há mais de 20 anos, informa o instituto. O argumento é que a ocupação fundiária passa a ser uma exigência da ocupação territorial. O território, antes dominado pelos traficantes, precisa ter dono, ressalta Paulo Rabello de Castro….”

———–

“…Para a professora Sonia Rabello, os moradores das favelas costumam ver com desconfiança a regularização fundiária. Primeiro, diz ela, porque isso significa entrar num mundo complexo ao qual não estão habituados, o terreno dos cartórios, dos advogados e da Justiça. Outro fator, segundo a professora, é que o título de propriedade pode, no médio e longo prazos, ser um fator de expulsão dessa população.

Para Sonia Rabello, todas as áreas de favelas só não foram ocupadas pela especulação imobiliária ou porque não tinham título ou porque não tinham lotes suficientes. O que garantiu a ocupação das favelas foi a impossibilidade de ocupação formal. A especialista lembra que, nesses casos, o direito de posse é garantido pelo uso, não por uma eventual titulação.

Enquadrem estes conceitos técnicos especializados no modelo de nossa micro-sociedade e descabelem-se logo, enquanto é tempo. E são mais de mil favelas, lembram-se? Destas, pelo menos 20 são de grande porte. Fizeram a conta?

Transferindo as quadrilhas de traficantes daqui para ali, mediante estes misteriosos acordos, vocês acreditam mesmo que o governo estadual está interessado em ‘pacificar’ e ‘humanizar’ favelas? A Polícia Militar teria efetivos para ‘pacificar’, pelo menos em parte, todo este universo de favelas? Considerem, por exemplo, a Rocinha, com cerca de 150.000 habitantes e várias centenas de becos e vielas.

Recentemente o exército brasileiro recusou propostas de intervenção da Força Nacional de Segurança no problema por causa do alto risco de corrupção da tropa (no entanto, como se sabe, topou a mesma parada na favela de Citè Soleil, no Haiti).

Quando se fala desta mesma ocupação por policiais militares, o que lhe vem à cabeça? Dá para se sentir seguro? Pois o secretário José Mariano Beltrame disse a pouco que seriam necessários, só para ocupar a Rocinha, 1.800 novos PMS.  Favelas sitiadas é o que ele propõe, como se fazia com bairros do Iraque no tempo do Bush? Durante quanto tempo? A que custo?

Fico pasmo. Ou o secretário pirou ou está blefando, certo?

Você já olhou bem para a geografia e as dimensões assustadoras de um mar de construções mal ajambradas como o Jacarezinho, a Mangueira? Você acha possível haver dominação e controle militar em espaços urbanos assim tão caóticos sem haver algum tipo de… ‘Acordo’ entre as partes?

E que boi adormece com esta história?

Se você acredita mesmo que a maioria das favelas do Rio de Janeiro vai virar parque temático, com elevadores panorâmicos e teleféricos metálicos e cintilantes, de onde vamos pode ver felizes crioulinhos indo e vindo para suas felizes escolas high tech, pilotando skates, com as suas felizes mãezinhas, ‘prendas domésticas’ indo e vindo para o aconchego de amplas bibliotecas com internet banda larga, ou mesmo para bem equipadas academias de ginástica, pilotando motinhas Honda, o problema é seu.

Tudo bem. Você deve ser destes que acreditam em Papai Noel, Branca de Neve, Disco Voador, estas coisas (o que, convenhamos, não é nenhum pecado, claro… até porque, em Disco Voador até eu acredito)

Mas se você, como eu, está cansado de ser enganado, raciocine. No âmbito de uma população total de mais ou menos 6.000.000 de habitantes – segundo o último censo – a população favelada do Rio atinge a cifra estúpida de 1,09 milhão de pessoas. Ou seja, no barato, 18,7% da população carioca reside em favelas. Especialistas que estudam o assunto afirmam, contudo que o número pode ser bem maior, podendo ser orçado aí por volta dos 1,5 milhão de pessoas ou seja: mais que 20% da população carioca seria favelada.

A conta, contudo pode aumentar muito se incluirmos neste cômputo outros tantos e tantos milhões de pessoas que residem em bairros muito pobres – quase favelas, como os bairros da Zona Oeste, por exemplo – que engolfados por ‘comunidades provisórias ’circundantes, se favelizarão também em muito breve.

Observem com atenção que as favelas cariocas, nesta sua nova e avassaladora fase de expansão, crescem no entorno de bairros convencionais, como parasitas que se alimentam da pequena rede de serviços pré existentes, escolas, comercio, postos de saúde, sobrecarregando a infra estutura do bairro até sufocá-lo, como uma jibóia. É esta, com certeza a dinâmica da formação dos chamados ‘complexos’ de comunidades faveladas.

Faça, portanto como eu: jogue a propaganda eleitoral – o nome dela já diz tudo: é ‘gratuita’, no sentido de irresponsável e cretina – no lixo onde ela merece estar e pense em profundidade, sem paixão, como gente grande.

Em suma: Se não se desmontou o mercado de drogas que segue impávido, de vento em popa e sem prejuízos visíveis – se não se forneceu, concretamente trabalho decente, residência digna, educação de qualidade, saneamento básico e saúde para a imensa maioria dos habitantes do Rio de Janeiro que hoje – vale sempre lembrar – é favelada e se não há a menor condição estratégica de se ocupar militarmente a maior parte do território de nossa cidade, no que eles querem mesmo que a gente acredite?

E vocês crédulos? Estão mesmo acreditando ou estão se acumpliciando porque acham que vão levar algum tipo de vantagem neste arranjo… quero dizer…Acordo?

Olha minha gente, quem avisa amigo é: Acabada a nossa – tomara que – feliz Copa do Mundo e os – tomara que – felizes Jogos Olímpicos o que será de nossas pobres almas? E se o  bagulho for bem mais doido do que a nossa capacidade de suportá-lo?

Parece papo de viciado prometendo largar o vício, de pé junto, mas não largando nunca não é não? Viciados em favela, será que é o que somos? Se for isto, a luz vermelha está acesa e há sintomas fortes de overdose à vista!

E se problema afetar o coração da cidade? Parada respiratória, cardíaca e…Babau! O Rio de Janeiro irá para um belo de um beleléu. Creiam-me e perdoem-me, de antemão, pois, gostem ou não gostem da conversa, caros amigos: alarmismo também é cultura.

Spírito Santo
Agosto 2010

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(Desculpem voltar, mas…não é que é bingo de novo?):

Pezão, nosso vice-governador, numa entrevista hoje (28/08), em O Globo:

_”…Não é sem droga (se referindo à função das UPPs). Droga existe a nível mundial; ninguém vai conseguir acabar. Mas nós vamos conseguir tirar o fuzil das ruas do Rio de Janeiro”

Ora, ora… Mas não era sobre isto mesmo que eu falava?

Usemos a lógica mais elementar: Se o fuzil está nas ruas porque há tráfico de drogas, uma mercadoria ilícita de altíssimo valor comercial, onde há drogas, portanto terá de haver, necessariamente traficantes armados.

Logo, onde há traficantes há, evidentemente disputa pela posse ou pela repressão da venda da mercadoria refinada e/ou guardada nestes entrepostos. É , pois, da natureza desta disputa pelo mercado da droga haver sempre armas e violencia.

Conclue-se então que, para se deslocar as armas (tirá-las das ruas do Rio, como diz o político) só se for deslocando os entrepostos, intervindo diretamente na distribuição em suma, mas como garantir que isto poderia mesmo ser feito, se o tráfico de drogas é bandido, clandestino?

Cabe, portanto perguntar: Estaria o vice governador sugerindo que o governo do Rio pretende transferir os entrepostos para outros lugares? Quais seriam estes lugares? Seriam os ‘complexos‘ de favelas da periferia ou seria o interior do Estado? Deus do céu!

Loucos de pedra! irresponsáveis!

E a distribuição da droga – o tráfico propriamente dito – para os consumidores daqui da cidade ‘oficial‘, como seria organizada? Quem controlaria este tráfico já que, acabar com ele não é, assumidamente a pretensão do Estado?

Perguntas…muitas perguntas sem respostas, que não sejam mais assustadoras ainda.

Acho que só se topassem discutir e combinar isto tudo com os comandos de traficantes (e os comandos de milícias), num grande seminário, uma cúpula bandida, um…’Acordão‘.

Sugiro de cara – prendendo o riso – o Hotel Intercontinental, em São Conrado.

Spirito Santo

Setembro 2010

O Bagulho é doido, mas a Favela é que é a Droga


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Pegue – ainda andando – o Bonde da Batalha de São Conrado

Todo mundo da Zona Sul, em pânico já falou, escreveu, leu, tremeu enquanto o pau comeu. Pois então parem de tremer, só um pouquinho e vejam de novo a cena aí em baixo, em câmera lenta, comigo.

Calma! Take easy! (Cadê o diazepan, o bromazepan, desta gente? E o lexotan, o psicosedin, o somalium, o tensil, o valium? Ai, ai! Help! Help! I need somebody help!… E eu? Cadê o meu isordil?)

Ué? Mas não estava uma calmaria só com esta história de UPPs pra lá UPPs pra cá? A política de segurança adotada contra a violencia urbana – com a tomada de doril, a sumida zastrás da bandidagem, cedendo pacificamente – esportivamente até – o território para as redentoras UPPs?

Até eu, bruto, grosso que só vendo, com esta minha má vontade proverbial (que os lulistas mais fanáticos dizem ser ‘insana’ e ‘gratuita’) me animando para com as nossas atuais autoridades constituídas, já baixando a bola crítica ao ler as animadoras reportagens propagandísticas sobre UPPs, com dificuldade para discernir, entre o que era trigo da mais pura verdade do que era joio da mais deslavada propaganda eleitoral, nesta história de pacificação das ‘comunidades sitiadas pelo poder paralelo’.

Sim porque, com foros de descoberta da cura do câncer, da decodificação do último caco da pedra da roseta, do fechamento do buraco na camada de ozônio, a violência urbana dava toda a pinta de que desapareceria sim, no lapso de uma mágica com ar de malandragem mandraqueana, como uma paradigmática política, a mais certeira e verdadeira deste mundo.

Daí:Pum! Pá!Pá!Pá!Pá!

Correria, reféns, cena de cinema. Não fossem as armas high tech e as roupas de grife da bandidagem, ia ficar parecendo aqueles reids de cangaceiros de filme da Vera Cruz, que eram por sua vez – quem se lembra?- copiados dos filmes de far west classe ‘C’, com aqueles bandidos mexicanos suados, barbados, invadindo a cidade às gargalhadas, dando tiros a esmo e soltando gritinhos histéricos, como mariachis cantando ‘cucurucucu paloma’.

Pois sim. A não ser os da assistência, quais gritinhos histéricos você ouviu? Zero. Nenhum. Berros, urros matraqueados de fuzis de assalto, AR15, AK47 FAL, isto sim foi que se ouviu. A bandidagem desenvolta gritando os palavrões mais cabeludos deste mundo.

Mas foi mal sim, não foi? Em plena manhã de sábado em pleno ‘Rio-que-mora-no-mar’ aquela bandidada toda, saltando daquelas vans de roupa preta como se fosse assim um bando de ninjas tropicais de cara limpa, saídas de uma locação de favela de um filme do Van Damme, do Will Smith, do Stallone. Vieram de onde aqueles bárbaros vândalos? De um baile funk nas ‘serras de veludo’, do alto lá do ‘Rio que NÃO sorri de tudo’, foi o que a imprensa divulgou.

Bárbaros! Vândalos! Onde é que já se viu? Não sabem mais onde é o seu lugar? Concordo e me solidarizo com a bacanada. Juro por Deus.

Que não foi nada fofo, isto não foi não. Um terror quase médio oriental. Uma chusma de talibans desgovernados, sem nenhum bin laden pra gente chamar de nosso, para colocar a culpa e mandar – como um bode bíblico – para uma montanha remota de um Paquistão destes qualquer, ou um Bangu 1, 2, 3, 4, 5, 6…, para purgar todos os pecados deste nosso abilolado Brasil de quase primeiro mundo.

O lado bom – é gente, dependendo do ponto de vista, tudo tem sempre um lado bom – é que a gente pode baixar um pouco a bola sim, sair desta euforia tão dilmista, desta conversa fiada governista de paz e amor sem sacanagem, para tentar fazer uma análise mais realista e franca da situação.

Estão mesmo a fim de cair na real? Acompanhem então no meu modesto e imparcial raciocínio os dados que todo mundo está careca de saber, mas finge esquecer.

O buraco – vou logo avisando – é bem mais embaixo

O Rio de Janeiro tem mais de 1000 favelas, certo? (e para quem duvida a lista está aqui mesmo para ser conferida). É um número tão absurdo, mas tão absurdo para uma cidade com apenas cerca de 1.224,56 km2  que, para caber no espaço que ocupam (sem ferir as leis da física) muitas destas favelas se juntaram umas às outras, como um turbilhão de moléculas, criando células urbanas amorfas e agigantadas, sendo chamadas hoje quase cinicamente de… ‘complexos’ (o que, cá entre nós, assim meio sem querer, acabou virando uma palavra bastante apropriada para o caso – cujas mumunhas mais impressionantes nós mesmos, aliás, já esmiuçamos por aqui)

Indo mais fundo ainda na questão, vamos combinar então que uma favela não passa muito de um amontoado de habitações imprensadas umas nas outras, nas quais reside um aglomerado aparentemente desarticulado de pessoas, as quais, por uma contingência natural de sua condição de seres vivos (nem precisavam ser humanos) se organizaram de uma forma ou de outra até assumiram uma feição de uma micro-cidade.

É uma questão de lógica mesmo, gente. Pessoas demais – aquelas a quem a sociedade nega tudo, inclusive espaço para morar- ocupando espaço de menos. Isto, numa física mais elementar ainda, costuma ser igual à pressão e, em algum prazo (o tempo do pavio) explosão.

Esta ‘sub-cidade’ , esta bomba sempre prestes a fazer ‘Bum!’ – apartada que está da ‘cidade oficial’ – desenvolveu, evidentemente uma economia própria, clandestina, do mesmo modo que criou relações políticas e culturais anárquicas, clandestinas também (e talvez este seja o único aspecto positivo da história) tudo isto estruturado em torno de uma instancia de poder dita ‘paralela’, espontaneamente surgida ou – como ocorre na maioria das vezes – instalada ali por meio da força bruta, de uma invasão armada, militarizada, mas de qualquer modo representando um poder, efetivamente instituído, com um complexo protocolo de interesses e relações – não importa mais se promíscuas ou não – estabelecidas tanto internamente (no seio do que se chama eufemisticamente de ‘comunidade‘) quanto com o mundo exterior (no nosso caso, a aqui chamada cidade ‘oficial’).

Agora deu para entender, não deu? Posso divagar um pouco então.

‘Zu’, comandante ‘bicho solto’ do Kilombo Louco.

Ouvindo o secretario de Segurança do Rio de Janeiro José Mariano Beltrame dizer hoje que sabe muito bem onde mora o ‘Nem‘ da Rocinha (e até mesmo o que existe dentro da casa dele) antes de cair na gargalhada, pensei: E daí? Isto qualquer zé mané pode saber. Não é segredo para ninguém. Isto não é vantagem que se alardeie assim, como uma suprema glória estratégica. Ele devia era ter vergonha de dizer um disparate destes, que não prende ‘Nem‘ para ‘preservar a população’ de constrangimentos e… balas perdidas. Que chantagem! Que cinismo!

Me lembrei no ato que, eu mesmo, trabalhando durante algum tempo na década de 1990 dentro de uma destas cidadelas clandestinas, por dever de ofício, pude ter um contato bem direto, privando da intimidade mesmo, com um destes ‘sobas’ de favela igualzinho ao ‘Nem‘.

A experiência (que já narrei anteriormente no post deste link) me permitiu observar alguns fatores cruciais, fundamentais mesmo para se compreender o quanto é cabeludo o problema.

Zu” (o codinome deste bam bam bam de favela já falecido, barbaramente assassinado) se apresentou a mim anunciando, sem meias palavras, que era o “presidente da associação de moradores de dia e o chefe do tráfico de noite”.

Os demais integrantes da quadrilha – cerca de 15 a 20 homens, no máximo – todos bem jovens ainda os quais, do mesmo modo, conheci bem de perto, tinham aquela ocupação precária como único emprego possível. Um número indeterminado de outros moradores, donos de biroscas, cozinheiras que vendiam quentinhas para o bando, de uma maneira ou de outra, também dependia daquele negócio para sobreviver.

E tinham as ‘tchuchucas’ que pescavam favores, lascas e prendas da negadinha bandida; o pastor que salvava os não bandidos do demônio (e amealhava os dízimos dos coitados); um mundo de gente desamparada, vivendo como mariposas na aba do ‘movimento‘. Fazer o que?

Nunca me esquecerei de uma garotada mal entrada na adolescencia, que vi uma vez sentada num degrau à porta da ‘Boca‘. Trabalhavam na chamada ‘endolação‘, preparando e embalando a cocaína para a distribuição. Haviam manchas estranhas, enormes, de um roxo enegrecido estigmatizando os antebraços e as mãos daqueles garotos esquálidos.

As manchas – soube depois – eram provenientes da manipulação do produto químico que usavam na decomposição da cocaína, algo como amônia, não sei bem.

Os rostos encaveirados daqueles garotos, todos negros, um pouco pelo cansaço, um pouco pelo algo de droga que consumiam, tinham um que de caras de zumbies de filme de terror norte americano. Estavam sentados ali imóveis me olhando, exaustos como num intervalo da filmagem de um thriller no qual Michael Jackson algum conseguiria injetar glamour.

(Estranho como ainda bem antes do advento fúnebre do crack, esta negadinha  já se parecia com os bandos de zumbizinhos craqueados e moribundos de hoje).

Deste mesmo negócio sujo viviam advogados ‘de porta de xadrez’ , alcaguetes de polícia (quase sempre agentes duplos) e um grupo enorme de PMs além, é claro, do próprio comandante do batalhão da área. ‘Zu“, pessoalmente me falou sobre isto em certa feita, apontando de longe um PM numa guarita de uma rua chic, próxima à favela me dizendo:

_’ A’lá! Tá vendo? São tudo uns cú-de-galinha. Sabem quem sou eu, mas não podem fazer nada porque tem o acordo’.

Até mesmo a creche do local, totalmente abandonada pela prefeitura da cidade ‘oficial’ dependia bastante de uma ou outra ajuda do caixa do tráfico, segundo eu mesmo pude constatar realizando ‘inspeções‘ solicitadas pelo próprio ‘Zu‘, cioso e interessado em me provar que tinha mesmo alguma…’responsabilidade social’. E quem ia duvidar ou discordar dele? Eu?

Outra característica curiosa do poder especial do xerife ‘Zu’, a ele delegado pelas… especiais circunstancias (havia participado da invasão armada ao local, desalojando a quadrilha anterior com uma chacina) era o alto grau de sumarismo da justiça local, por ele assumida, a ferro e fogo.

A condição de entreposto de drogas, uma mercadoria de tão alto valor comercial, que precisava ser defendida assim, militarmente, obrigava ‘Zu’ a difundir e a manter ativo um código de leis absolutamente terrorista onde a pena de morte era quase sempre a única pena admitida e aplicável.

Qualquer manifestação de ponderação ou ‘salomonismo’ por parte dele, o ‘líder’ seria sempre encarada como um sintoma de vacilação, deixando-o com a fama de frouxo, incitando a cobiça dos inimigos invejosos, ficando portanto vulnerável aos ataques de quadrilhas integradas por rivais externos ou internos.

A regra mais fundamental do caráter sui generis daquela micro-sociedade clandestina, a base política de sua sobrevivência era, portanto o chamado ‘Acordo’. Espécie de tratado de paz, de acerto diplomático estabelecido com agentes intermediários da autoridade constituída, o poder oficial, ‘exterior‘.

Este ‘Acordo‘ (que no âmbito estrito da Policia Militar do Rio de Janeiro, foi depois tornado público no filme ‘Tropa de Elite’) é que dava garantias a ‘Zu’ de poder contar com total segurança para tocar seus negócios, desde que dentro dos limites de seus domínios territoriais.

O ‘Acordo’ (ah…qual é? Porque será que insisto em falar disto se todo mundo já sabe)  era – como ainda é – baseado no pagamento de um valor periódico (mensal, semanal) uma ‘comissão’ rigidamente estipulada entre as partes. Chamado de ‘PP’ na gíria – ‘pronto pagamento’– a palavra parece ter sido extraída do jargão do Jogo do Bicho , ou seja, era um ‘pro labore’ sem nota ou recibo. O pior da história é que esta prática parece estar indelevelmente arraigada entre nós, como marca histórica mesmo, vigente que é há muito tempo, desde os tempos de D.João Charuto.

Gosto de fazer uma analogia entre nossas favelas com o exemplo dos quilombos de escravos fugidos do Brasil colonial (afinal, o modelito bem que deve ter sido inspirado nisto aí) porque a História do Brasil, mesmo esta ‘chapa branca’, convencional, já constatou que para que estes quilombos pudessem durar tanto tempo (Palmares , por exemplo, o quilombo mais célebre, chegou a durar quase um século), certo nível de promiscuidade nas relações comerciais e ‘políticas’ entre eles e a sociedade ‘oficial’ tinha, necessariamente de existir.

(Cheguei mesmo a chamar numa canção esta comparação entre os quilombos de ontem e o as favelas de hoje de ‘Kilombo Louco’, com as favelas de hoje representando uma exacerbação de nossa psicopatia social, nossa mania – melhor dizendo, nosso  vício –  imoral e renitente de excluir a maioria de nossa gente em benefício de uma reles minoria.)

“…Kilombo louco!
Cada favela um Brasil
Kilombo louco!
Mateus, quem pariu?
Depois da lança e bodoque
a pistola Glock, a metralhadora e o fuzil”

A grande tragédia brasileira – mais trágica ainda porque está sendo agora mesmo, subestimada, irresponsavelmente tolerada por nosso corrompido eleitorado nas eleições atuais – é que esta prática acaba de se tornar – mais ainda do que já era – infelizmente, generalizadamente nacional.

Ela é recorrente tanto no âmbito das relações comezinhas entre a polícia e os bandidos descritas no microcosmo das favelas que acabo de descrever – sua provável gênese – quanto no âmbito das relações entre autoridades constituídas em geral e máfias de contraventores de qualquer ordem ou tipo principalmente – como se pode constatar no episódio dos mensalões de Brasília – no âmbito da política e de todos os níveis da administração pública, da Presidência da República a mais inexpressiva prefeiturinha municipal.

Bem, mas isto a julgar pela direção em os ventos das eleições presidenciais estão soprando, está virando uma carroça pesada demais para os puros de coração que, fatalmente terão que empurrar com a barriga – e nós nas tripas – mais este bonde de mazelas republicanas, por mais alguns anos.

…Isto para os que ainda estiverem neste mundo (ou que tenham ainda alguma barriga com que empurrar alguma coisa).

Ai!

(Pronto. Podem voltar a respirar agora. Podem sair de baixo da cama. O tiroteio por enquanto amainou. Ai que alívio! Meu isordil chegou, a pressão arterial baixou… Ufa! Depois eu volto e sigo o bonde no post #02 deste papo)

Spírito Santo
27 de Agosto 2010 (dia do eu 6.3 turbinado)

É a Lama! É a Lama!



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1904. Foto de João Martins Torres : Trabalhadores contratados para retirar material da Encosta do Morro do Castelo no Centro do Rio de Janeiro, como parte do Bota Abaixo para a abertura da Avenida Central.

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Do Caos à Lama
O céu caindo sobre nossas cabeças

Não sei se existe um ranking, mas talvez o Rio de janeiro seja a cidade mais excludente do mundo.

Eternamente colonial a cidade parece ter sido planejada para manter sua imensa população pobre segregada de tudo, com uma parte habitando uma periferia da qual só se chega à parte rica – a urbe real – por meio de um sistema de túneis e a outra parte amontoada nos morros e encostas, como bandos de urubus espreitando as migalhas que cairão dos apartamentos e das mansões.

Como os supostos ricos daqui são escravistas renitentes (os habitantes da zona sul do Rio pensam que ainda estão na Corte do Império do Brasil), manteve-se aqui uma relação sórdida com os descendentes de escravos do pós-Abolição, mantendo-os totalmente à margem da sociedade, sem política de inclusão social alguma, nenhum direito de gente normal que não seja o de exercer a condição de eternos escravos domésticos ( ‘negros de ganho‘ como no passado) sem trabalho regular ou formal, sem educação, sem saúde, transformados em prestadores de todo tipo de serviço de baixa especialização (biscateiros, lavadeiras, seguranças, faxineiras, pedreiros, babás, cozinheiras, marceneiros, lixeiros, camelôs, bandidos, etc.)

Para poder trabalhar e comer com os rendimentos tão miseráveis que amealham com seus ‘bicos’, os pagens e serviçais  tiveram que ir se alojando nas áreas próximas que sobraram baldias, os morros e as encostas da cidade, áreas historicamente desprezadas pela elite que, desde de quando D.João VI adotou os seus banhos de mar medicinais nos cafundós do Caju, gosta mesmo é de viver  no bem bom e na curtição da dolce vita à beira mar.

Do mesmo modo que mantinham senzalas ao lado de suas casas grandes patriarcais, os cariocas descendentes daquela pomposa aristocracia cortesã do tempo do império, fecharam os olhos à ocupação desordenada do solo urbano, permitindo que se formassem espécies de guetos-senzalas, comunidades de miseráveis que se aboletaram em barracos construídos com caixotes e folhas de zinco e depois em precárias casas de alvenaria, construídas nas encostas e morros das zonas Sul e Norte, de qualquer jeito, do dia para a noite, no mais completo e épico Deus-dará.

Como não podia deixar de ser, com um fluxo incessante de gente vinda da periferia e até mesmo de outros estados, atraída por enganosas oportunidades que a cidade teria a oferecer, estes morros logo ficaram superpovoados, acabando por  explodir as represadas  mazelas e feridas sociais, as mais pustulentas que ruminavam,  fazendo ferver um caldeirão de violência tão  exacerbada que gangs de traficantes de drogas, no auge insuportável de seu crescimento como instância de poder paralelo, passaram a dominar partes significativas do espaço urbano, como autoridades de fato.

O caos do Rio de Janeiro hoje é quase absoluto. Literalmente nossos problemas pós coloniais estão desmoronando sobre nossas cabeças.  Apavorada, a  elite bacaninha vê a água marron, a lama, o lixo e os dejetos mais absurdos, escorrerem sobre a decantada maravilhosidade que as autoridades constituídas da cidade alardeiam para o exterior.

Fazer o que? Avisar a gente sempre avisa – eu mesmo já cansei de escrever sobre isto – mas sabem como é:  A elite do Rio é estúpida e ignorante como toda elite de qualquer lugar. É gente que acha que estando acima do bem e do mal pode manter a situação indefinidamente sob controle, investindo apenas em polícia para conter à força, a circulação dos serviçais além dos muros invisíveis de seus guetos infectos e fedorentos.

Só agora, com as Olimpíadas e a Copa do Mundo chegando, depois do formidável abate de um helicóptero por snipes bandidos, começaram a refletir um pouco sobre a sinuca de bico em que se encontram. O máximo que conseguiram, no entanto foi tentar repetir a estratégia eugenista doBota Abaixo perpetrada pelo prefeito Pereira Passos no início do século 20, aquela ‘reforma urbana’ que expulsou os pobres do centro da cidade (o entorno da atual Avenida Rio Branco) para…para onde? Para alguns dos mesmos morros que desmoronam hoje, por obra das irrecorríveis leis da natureza.

E vejam só o que mais:

Entre outras mazelas, esta relação doentia criou também uma dependência total entre  ‘ricos’ e ‘pobres’, uma relação promíscua cujo símbolo maior é  o mercado das drogas.

Sejamos francos. A elite carioca – mais ainda talvez que a elite das outras grandes cidades do Brasil – além de ter ojeriza pelo trabalho braçal por conta de uma inapetência histórica, adquirida no tempo da escravidão – é hedonista e permissiva por natureza.

Moderna como se julga ser, esta pretensa elite acabou ficando viciada nas drogas que passou a consumir (principalmente a cocaína), de forma quase massiva, movimentando uma quantidade imensa de dinheiro escuso que para ser gerido, exigiu a formação de diversos comandos para-militares, que armados até os dentes,  articulam outros comércios paralelos e sucedâneos  como o tráfico de armas, de munição de guerra e os sequestros de pessoas, por exemplo.

(Você sabia que, curiosamente os traficantes chamam o seu negócio de ‘Movimento’?)

Como os pobres estão aí mesmo para todo o serviço (principalmente o sujo) já que foi isto que  lhes restou como alternativa de sobrevivência,  este mercado milionário se caracterizou sob a forma de uma divisão de tarefas onde quem estoca, controla e disponibiliza as mercadorias ilícitas é a negra bandidagem favelada e quem banca o mercado, consumindo a droga é a elite branca bem nascida, protegida e mediada por uma polícia corrupta, numa dicotomia que será em algum prazo explosiva.

Insanos. Querem por que querem esconder o problema debaixo do tapete, gastar o mínimo (para talvez desviar, roubar, o máximo) planejam maquiar, pintar a cidade de verde, amarelo, azul e branco para nesta estratégia cosmética imbecil, expulsar os pobres, de volta para bem longe do futuro, certos de que seu quadro de privilégios jamais será afetado.

Mas como? Como e para onde expulsarão quem já foi expulso no passado e que já é tão desvalido?

Não há mais espaço, nem na periferia, para isto. A cidade inteira está tomada, atravancada de problemas estruturais com gente saindo pelo ‘ladrão’. As favelas com suas precárias fronteiras já encostando umas nas outras se transformaram em ‘complexos’,  sub-cidades clandestinas, subterrâneas,  algumas com população tão numerosa quanto a de cidades de porte médio do resto do país. O lixo social que eles, os da elite, lançaram de suas janelas virou uma montanha preta imensa e nauseabunda, quase sem tamanho.

Excluir mais ainda os favelados do Rio seria, pois, um plano digno de sadomasoquistas, seres desumanos, com lepstopirose na alma.

E se esta montanha preta de iniquidades desmoronar, como está desmoronando agora nestas avalanches mais que simbólicas ? O  volume assustador de entulho pode afogar a cidade inteira num lodaçal histórico (um castigo bíblico, pois, como todo mundo deve saber, lama caindo do céu não tem preferência social. A lama é santa e democrática, afoga a todos igualmente porque é pública.)

Sim, a merda líquida que transborda dos esgotos do Rio é de todos nós.

Aparvalhada, a cidade é governada por administradores ineptos (no linguajar popular uns ‘merdinhas‘, uns ‘conversinhas‘) políticos carreiristas que preferem muito mais vender os peixes podres que viabilizam  suas eternas candidaturas do que fazer realmente algum bem, mesmo que corriqueiro, para a população que os elegeu.

É, meus amigos: A cidade do Rio de Janeiro pode estar se aproximando perigosamente do seu dilema mais terrível, do seu check mate de metrópole incompetente e inviável por sua própria culpa. A qualquer momento, basta uma fagulha e a situação pode ficar fora de controle. Este  caldo de cultura fedorento um dia entorna num indesejado ‘Viradão Carioca’.

Dê só uma olhada para a cara das vítimas dos atuais desabamentos e reflita. Não é preciso IBGE nenhum nos informar o óbvio. A estatística está aí, visível na TV,  gritando na nossa cara: Quem perdeu e cada vez está perdendo mais, morrendo mais, é a mesma negregada galera do período pré-abolição. É a escravidão aviltante ainda pulsando em nós.

Agora é fácil. Expulsamos os nossos seres-dejetos para bem longe da urbe chic, à custa  sabe-se lá de quantas ocupações ‘pacificadoras’, quantas UPPs.  A bandidagem recua da zona sul e se ajeita na periferia mais remota, montando ali seus arsenais e paiós em novas cidadelas.

Junte a tragédia de morros se dissolvendo com o sonho das ‘otoridades’ – e da elite – de expulsar a população favelada para o mais longe possível das Olimpíadas e da Copa do Mundo. Coloque pitadinhas de UPPs e tropas de elite, junte tudo com o medo pânico agora portado pelas pessoas que moram nestes morros, espantando-as para as partes planas da cidade e me diga o bicho que dá. O bicho é feio ou não é? Dá até medo.

A pergunta então é: E aí? O que faremos quando a Copa e as Olimpíadas acabarem? Gravamos um jingle ‘we are the world’ em ritmo de Samba e disputamos com o Haiti no tapa – ou no ‘cuspe em distancia’ – a grana da ajuda humanitária da ONU?

_”É a lama! É a Lama!_ cantaria um moderninho bloco do Carnaval de Santa Teresa parafraseando Tom Jobim, tentando abafar a voz rouca do Coronel Kurt que existe em cada um de nós (aquele piradão do filme  ‘Apocalipse Now“) , gritando para a avalanche de lama que escorre do cinzento céu desta cidade cada mais vazia de encantos mil:

_” É o Horror! É o Horror!”

Spírito Santo
Abril 2010

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