Salada Mista


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Foto Tadeu Brunelli
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Elogio á Mestiçagem, Democracia Racial e outros picantes ingredientes

“ O Neguinho gostou da filha da ‘madame’
Que nós tratamos de Sinhá.
Senhorita também gostou do Neguinho
Mas o Neguinho não tem dinheiro pra gastar
A ‘madame’ tem preconceito de cor
Não pode aceitar este amor.
Senhorita foi morar lá na ‘Colina’
Com o Neguinho
Que hoje é compositor.”

(Samba de Noel Rosa de Oliveira, e Abelardo da Silva, anos 60)

Existem várias analogias culinárias que podem ser feitas quando se fala das diferenças sócio culturais existentes na composição da população de um país e suas diversas possibilidades de mistura, amálgama, (no Brasil uma questão tornada particularmente complexa por conta de nossa peculiar estratificação sócio racial). Já foram tentadas várias receitas para tão ansiada refeição mas, até agora, nenhuma realmente apeteceu à clientela.

A primeira – e mais óbvia- analogia que me ocorre é a do Omelete, aquela que diz que para fazer um é preciso ‘quebrar os ovos’ . É a mais radical e cruel porque cria um problema terrível para a galinha, mãe eventual dos pobres pintinhos que nasceriam. A outra, mais ‘light’ é a da Vitamina, na qual um liquidificador mistura tudo numa pasta uniforme, fazendo os ingredientes originais, geralmente frutas ou legumes da estação, perderem inteiramente a, digamos assim, identidade.

Para mim, a mais pertinente é mesmo esta que uso agora, principalmente por causa da certa dose de ironia que ela contém: A Salada Mista. Nela os ingredientes se misturam, partilham algum tempero comum, mas mantêm-se íntegros, apesar de estarem picados em muitos pedacinhos. Acho a Salada Mista uma boa analogia para Diversidade Cultural.

Esta questão, a nosso ver, mãe de quase todas as contradições e conflitos brasileiros, está na discussão sobre as influências exercidas pelas culturas ditas ‘hegemônicas’ sobre culturas ditas mais frágeis (ingrediente principal da xenofobia). Neste ‘conversê’ sem fim sobre preservar ou não preservar a nossa ‘cultura popular’, ainda chamada por alguns de ‘Folclore (esta palavrinha tão vã que mais esconde do que explica o que quer mesmo dizer ‘Cultura do povo’).

Está na violência urbana, na contagem de corpos e nas balas perdidas que animam nossos debates cotidianos (afinal, quem morre mais, o favelado trabalhador quiçá traficante ou a classe média trabalhadora quiçá consumidora de drogas?). Está até nas conversas sobre o futuro de nossas crianças (afinal, um negão de 13 anos, com um metro e oitenta de altura merece ou não ser tratado como uma criança?). Está, em suma, contaminando todos os espaços do nosso cada vez mais tenso dia a dia.

O tema, passeando cada vez mais pelas entrelinhas deste nosso site, talvez seja hoje a mais importante questão brasileira: Entender, timtim-por-timtim, a maneira como, dividindo o Brasil em castas raciais se construiu (e se mantêm até hoje) uma das sociedades mais desiguais do planeta e, de como agora, extremamente divididos, porém, perdidos no mesmo ‘mato sem cachorro’, vamos nos livrar da arapuca social na qual, por pura babaquice e egoísmo nos metemos.

A conversa passeia também – e principalmente até- pelas centenas de subterfúgios e ‘panos quentes’ que boa parte de nossa elite bem pensante, a nossa indefectível Academia (ou ‘inteligentsia’, para usar, na falta de outro melhor, um termo já bem arcaico) e mesmo a nossa sociedade como um todo, se utilizam para desconversar, tergiversar e manter as coisas exatamente como estão.

Como estamos falando de gente, de cultura humana, a esta altura deve caber bem a pergunta: Qual receita seria a mais recomendada para conseguirmos (em se tratando de Brasil, é claro), uma sociedade sem conflitos sócio culturais tão violentos? (O garçom mais próximo pode fazer a pergunta : )

_ ‘Omelete, Vitamina ou a Salada Mista, freguês?’

A VITAMINA
Descrevendo as receitas

…”Ao que parece o termo (Democracia racial) foi usado pela primeira vez por Arthur Ramos (1943), em 1941, durante um seminário de discussão sobre a democracia no mundo pós-fascista (Campos 2002). Roger Bastide, num artigo publicado no Diário de S. Paulo em 31 de março de 1944, no qual se reporta a uma visita feita a Gilberto Freyre, em Apipucos, Recife, também usa a expressão, o que indica que apenas nos 1940 ela começa a ser utilizada pelos intelectuais. Teriam Ramos ou Bastide cunhado a expressão ou a ouvido de Freyre? Provavelmente, trata-se de uma tradução livre das idéias de Freyre sobre a democracia brasileira. Este, como é sabido, desde o meados dos 1930, já falava em “democracia social” com o exato sentido que Ramos e Bastide emprestavam à “democracia racial”; ainda que, nos seus escritos, Gilberto utilize a expressão sinônima “democracia étnica” apenas a partir de suas conferências na Universidade da Bahia, em 1943.

(Texto-tese de Antonio Sérgio Alfredo Guimarães -Departamento de Sociologia /Universidade de São Paulo)

Dos anos mais efervescentes do movimento abolicionista no Brasil à década de 30 do século seguinte, uma nova iguaria apeteceu a certa bem apessoada rapaziada: Elegantes em seus librés (logo depois envergando vistosos fraques em conferências internacionais), estes jovens rapazes gritariam em coro para o garçom:

_ ‘A vitamina, senhor! Vitamina para todos!’

É que preconizavam com um empenho falsamente cívico o que de melhor se poderia fazer com os escravos: desaparecer com aquela ‘mancha negra’ transformando os africanos, progressivamente (num processo de cem anos, diziam os mais cartesianos), em seres mistos, nem brancos nem pretos, mestiços (as teorias não explicam se no preparo da receita desapareceriam também os brancos).

A história da tese que ficou conhecida como ‘elogio á mestiçagem’, irmã dileta desta outra tese controversa, a ‘Democracia Racial’ é antiga. Ela esteve muito em voga até os anos 30 do século passado (na verdade ainda hoje é defendida por alguns seguidores). Seus principais formuladores, de uma ponta á outra, foram intelectuais como Silvio Romero, Graça Aranha, Joaquim Nabuco e, já no século 20 também entre outros, o sociólogo oficial do Brasil Gilberto Freyre.

Como se sabe, estas paradigmáticas teorias nasceram, pelo menos como conceito, como uma proposta que resolveria o problema gerado por aquela massa enorme de seres humanos negros que o sistema de trabalho escravo arrancou da África e espalhou pelo mundo, uma massa humana liberta por injunções muito mais econômicas do que humanitárias e, portanto a boca pequena considerada ainda pouco mais que escória.
Lentz, um dos personagens centrais do livro Canaã de Graça Aranha afirma a certa altura:

_”O homem brasileiro não é um factor do progresso: é um híbrido. E a civilização não se fará jamais nas raças inferiores” (…) “Não acredito que da fusão com espécies radicalmente incapazes resulte uma raça sobre que se possa desenvolver a civilização. Será sempre uma cultura inferior, civilização de mulatos, eternos escravos em revoltas e quedas. Enquanto não se eliminar a raça que é o produto de tal fusão, a civilização será sempre um mistério, o artificio (…) Até agora, não vejo probalidade da raça negra atingir a civilização dos brancos”.

Ao que Milkau, o personagem antagonista contrapunha, fazendo o seu ‘elogio da mestiçagem’:

_”O tempo da África chegará. As raças civilizam-se pela fusão; é no encontro das raças adiantadas com as raças selvagens, que está o repouso conservador, o milagre do rejuvenescimento da civilização “(…) Eu tenho para mim que o progresso se fará num evolução constante e indefinida”

O mito do homem mestiço: Eis aqui o que parece ser enfim a chave de tudo para esta corrente de pensamento. A quem interessaria tamanha utopia? A inexistência total de diferenças biotipicas ou (‘estético-raciais’) seria cientificamente possível? A simples padronização ‘racial’ das pessoas removeria, num passe de mágica, as diferenças sociais? Se não, para que serviria então?

É preciso, contudo, situar a questão em seu devido contexto histórico porque, se no campo da precária biologia do século 19, se considerava cabal a existência de superioridade racial entre seres humanos (que justificaria a assimilação – ou a diluição – de uma raça pela outra), hoje até o próprio conceito absoluto sobre a existência de raças humanas está superado. Assim, propor ou sugerir a ‘mestiçagem’ como solução para tão candente problema social, não era naquela época, uma idéia tão absurda assim. Menos mal.

É nesse contexto que devem ser considerados, por exemplo, certos aspectos bem sucedidos da sociologia de Gilberto Freyre (o que não deve redimir, de forma alguma, a perniciosidade e os equívocos clássicos de sua ideologia)

O OMELETE
(Pobres dos pintinhos)

Assim, ali por volta de 1930, 40, alguns europeus de bigodinhos, reunidos numa mesa ao fundo, ao serem inquiridos pelo garçom responderiam excitados:

_’Omeletes, senhor!’ De sobremesa, Vitaminas!’

É que para uns não havia jeito melhor de melhorar a raça humana do que separar os espécimes ‘superiores’, os ‘puro sangue’, os de ‘pedigree’ e desaparecer com o resto, inclusive os ‘vira-latas’, transformando a ralé em torrada, num forno crematório qualquer.

Para outros, contudo, o desaparecimento dos ‘inferiores’ deveria se dar por meio de métodos mais científicos ou ‘humanitários’: Um liquidificador genético resolveria o problema. Um projeto que, como veremos a seguir, não tinha mesmo nada de científico (e muito menos de humanitário).

(Aqui, antes de tudo, uma necessária afirmação de firme e ampla discordância diante dos partidários da Vitamina ou da Mestiçagem. É preciso – me permitam – fazer uso da ênfase nesta hora, á este ponto de uma questão que é por razões óbvias, crucial).

Frisemos que o contexto onde atuaram Gobineau, Lombroso, Chamberlain, Nina Rodrigues e, porque não dizer, Gilberto Freyre, foi o mesmo que gerou as teorias nazistas na década de 30. Não foram idéias apenas simplificadoras’ ou ‘evolucionistas’. Foram idéias profunda e claramente interessadas em criar um novo paradigma de civilização, um método ‘científico’ para a classificação e a sujeição de pessoas, num novo ambiente geopolítico denominado Colonialismo.

Apenas para exemplificar o alto grau de assumida perniciosidade destas idéias, basta citar o trabalho militante do próprio Gilberto Freyre, no final da década de 30 do século 20, a serviço do governo ditatorial de Antonio de Oliveira Salazar, como um dos ideólogos que contribuiram para a criação e a implantação de um sistema institucional de controle e subjugação das populações das colônias de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau e Príncipe denominado ‘Lei do Indigenato’, código similar aquele engendrado pelos africâners, na África do Sul, que dispensa comentários: o insidioso ‘Apartheid’.

O antropólogo angolano José Maianga, em texto publicado pela Revista afro-lusitana África, a este respeito nos esclarece cabalmente o seguinte:

“O indigenato, institucionalizado pelo regime salazarista (‘Estatuto dos Indígenas Portugueses das Províncias da Guiné, Angola e Moçambique’) era um diploma aplicado apenas às situações jurídicas dos indígenas africanos num país que, constitucionalmente, se dizia subordinado ‘à moral ao direito e às garantias e liberdades individuais’.

Este diploma traduzia, sem dúvida, a sujeição plena dos africanos ao colonizador e a uma prática assimiliacionista que se afundava no mar de contradições por onde navegava…”

As afirmações não são de forma alguma novas. Alguns estudiosos estão no momento fazendo uma ampla revisão da obra de Freyre neste mesmo sentido. As idéias originais dele, no entanto, impregnadas em quase tudo que se escreveu sobre o negro – e os pobres- do Brasil -, estão infelizmente, ainda em voga por aí e, o que é pior, defendidas por novas teorias e embasamentos que tentam afirmar Freyre como uma espécie de gênio mal lido e incompreendido.

Não é possível, portanto, entender os processos de evolução da cultura brasileira, por exemplo, dissociando-os deste contexto sombrio que o cineasta Ingmar Bergmam, muito apropriadamente chamou num filme clássico de “O Ovo da Serpente”

No Haiti não existem ‘brancos’. Lá, a classe média ‘mulâtre’ oprime os ‘mais’ negros. O nazismo separava pessoas absolutamente brancas e as mandava á morte, baseando-se em diferenças físicas cosméticas: um nariz mais adunco, olhos pretos, etc. Claro que racismo não tem nenhum fundamento ‘científico’ ou ‘biológico’. Se baseia em pretextos, desculpas esfarrapadas.’Mitos’ em suma. Um cuidado que deve ser observado por todos que se dedicam a este assunto.

Ingênuas, marcadas talvez por certa dose de crueldade e frieza sim, mas, de modo algum absurdas para a época, as propostas que animaram os sociólogos da primeira metade do século perderam a força exatamente quando se soube o que de fato elas representavam: Grosseiros equívocos. É isto que torna mais surpreendente o fato de existirem ainda hoje correntes de pensamento defendendo propostas semelhantes no Brasil, em pleno século 21, quando a panela de pressão da nossa conturbada sociedade já apita o sinal óbvio que diz:

_‘Cuidado! Abra a válvula que estamos prestes a explodir’.

A SALADA MISTA
e a sabedoria dos gibis

Há também, pode-se observar embutida na argumentação, uma forçada e esdrúxula associação entre ‘nacionalismo retrógrado’ (de novo a xenofobia) e a ‘admissão de que há racismo no Brasil’. Admitir ou sugerir com um pouco mais de ênfase a existência de racismo no Brasil seria um comportamento ‘ultrapassado’, ‘de modè, expediente muito usado como uma – muito eficiente inclusive- tática para se desqualificar discursos antagônicos.

Esta questão, aliás, traz á luz o que parece ser o segundo eixo da questão: Afinal, porque será que em certos setores de nossa ‘inteligentsia’, se nega tanto e de forma tão estranhamente peremptória (com argumentos tão mal fundamentados), a existência de racismo no Brasil? Existiriam intenções nessa negativa tão insistente?

Negar a existência do monstro, todo mundo sabe, não vai jamais matar o bicho.

É preciso aprofundar também outros aspectos cruciais do racismo brasileiro (na verdade de todos os racismos). O fato de cientificamente não existirem raças não significa que não exista racismo. Não é um argumento pertinente nem mesmo aceitável. Vamos combinar, francamente: Racismo é um estúpido instrumento de dominação social, uma praga da humanidade.

A sociedade brasileira é altamente excludente, certo? Não é preciso ser uma sumidade acadêmica para identificar qual é o instrumento de exclusão mais eficiente utilizado por aqui. Bingo para quem disser Racismo.

E vamos acabar também com esta falsa dicotomia: Problema Racial e Problema Social não são conceitos opostos ou divergentes. Um é a carne, o outro é a unha. Um não poderia, de modo algum, existir sem o outro.

Para qualquer um que sofre racismo ‘na pele’ fica evidente que o racista usa apenas um pretexto covarde, para discriminar: É fácil: Basta destacar uma diferença biológica qualquer e subestimá-la, demonizá-la, impondo uma marca, um estigma para identificar os portadores daquela suposta ‘deficiência’. O fisicamente diferente é declarado inferior e pronto.

Do ponto de vista de quem quer discriminar, dependendo de seu interesse, ‘negros’ serão portanto, todos aqueles que, visivelmente, não se parecerem com ‘brancos’. No exercício da discriminação não existem ‘mulatos’, ‘mestiços’, ‘pardos’, todos são’ marrons’, inferiores, não por terem este ou aquele tom de pele, mas porque ‘não são brancos’. Ponto

Quando em minoria, no entanto, diante de algum interesse, alguma vantagem a ser obtida junto aos ‘marrons’, a hierarquização das ‘cores’ passa a ser muito proveitosa para a ‘raça’ hegemônica (a que está no poder). Pura política.

A história humana está cheia de estratagemas como estes, nos quais com a finalidade de obter vantagens junto a um grupo estranho, nos associamos a um amigo ‘nativo’. É uma prática recorrente demais para não ser notada. Até mesmo nos saudosos gibis da infância de alguns de nós o arquetípico estratagema aparece.

Quem não sacou isto na função dramática do índio ‘Tonto’, amigão do Zorro norte americano ou na fidelidade á toda prova do gigante ’Lotar’, guarda costas do Mandrake. Quem não notou esta solidariedade esperta, interessada, no olhar do Fantasma, ‘Espirito- Que- Anda’ para o pigmeu Guran, seu fiel aliado, do alto do seu trono na caverna da caveira?

Descontando a paranóia nacionalista de alguns, no âmbito de nossa cultura contemporânea isto pode estar ocorrendo também com alguma frequência. Você louva, aprende, assimila e pratica a cultura que um dia foi exclusiva (não que o pobre coitado quisesse se isolar) do negro ou do índio, do nordestino – tanto faz- mas não se importa muito que ele permaneça ad infinitun socialmente excluído, lá ‘no morro’, na selva ou no sertão.

No processo você aprende a fazer Samba, Maracatu, a tomar chá do Santo Daime e a ficar doidão sem culpa. É bom. É politicamente correto. Dá a você certo charme democrático, uma espécie de certificado de ‘responsabilidade social’ mas, e daí?

 O problema é que ‘Ele’, o ‘Outro’, continua lá no seu canto, estressado de carências, fazendo o seu Funk pesadão. Cria-se assim (colocando os não brancos todos no mesmo saco) uma espécie de ‘Cultura negra sem negros’ e a gente não sabe muito bem no que isto vai dar. Se o cara não ficar rico fazendo Hip Hop, pode um belo dia dar um tiro em você.

Se for mesmo, como julgamos, além de uma mistificação cultural, uma impossibilidade genética em termos (não existem raças humanas, lembram-se?), A Mestiçagem, como conceito democratizador não passa mesmo é de um cruel sofisma. E esta tem sido a lógica do Sistema de castas ‘raciais’ no Brasil.

Todas as receitas de democracia racial (com ou sem eufemismo) em voga atualmente contêm um mesmo e azedo ingrediente, um mal crônico que lhes tira todo o sabor: Redistribuem valores culturais, garantindo a certo grupo certas vantagens deles advindas, sem mudar as pessoas de lugar na pirâmide. Os que possuem quase tudo passam a possuir mais ainda. É a lógica fria de nossa elite predadora. A lei do mais forte. Qual é a novidade nisto aí?

(Agora, sem maniqueísmos, por favor)

Todo mundo sabe que este comportamento não é uma coisa assim percebida, exercida individualmente, mas, é um procedimento, praticado pela grande maioria dos ‘brancos’ do Brasil, diariamente, muitas vezes até de forma ingênua, um comportamento padrão, arraigado, especializado por séculos de prática.

E saibam também que não é uma coisa fácil de extirpar não. É exatamente este o conteúdo subreptício, a essência de conceitos como a chamada ‘democracia racial’ e seus sucedâneos: dar sustentação, argumentos, justificativa teórica para esta deslavada contradição.

(Cabe aqui inclusive duas perguntinhas pra lá de capciosas: Ao propor a miscigenação geral como panacéia para os males do Brasil, da mesma forma que o ‘negro’, o ‘branco’ também desapareceria? Propor assim, de forma tão efetiva o desaparecimento de uma ou de outra ‘raça’ não é, classicamente, o mesmo que exercer racismo?)

Teorias… Um perigo latente para qualquer democracia, ainda mais a nossa que está patinando em sua reconstrução.

Como sempre – e pra finalizar- o melhor é dizer isto tudo com um Samba.

“Todo mundo era bom
todo mundo era legal
lá só dava gente bem
madame e fulano de tal
quando no meio da festa
reclamei com o Samuel:
Você diz que esta gente é honesta?
Já roubaram meu chapéu!

Não fico mais
em sua casa ô Samuel
aqui só tem eu de preto
mas não faço este papel
Não fico mais
em sua casa ô Samuel.
Você vai pagar meu chapéu”.

(Samba muito popular nos anos 70)

Spírito Santo

Abril,  2007

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A Síndrome do Gueto


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Foto: Escravidão século 19 – Biblioteca do Congresso dos EUA

Movimentos ‘Brancos’ ou Movimentos ‘Negros’? Teorizando sobre mazelas sociais indizíveis

Sei lá porque (acho que é um trauma do colégio interno ou da prisão), maior baixo astral, mas o fato é que sempre penso nisto e senti agora mesmo um impulso incontrolável de falar com alguém sobre o assunto.

O Gheto de Varsóvia é a referencia mais vívida e emblemática: Na circunscrição daquele espaço cercado pela polícia nazista, um microcosmos social transbordando de psicopatias e neuroses sobre as quais, até hoje, ninguém quer falar.

O clima é de urgência. Cada dia é um dia. Sabiam, mas agora ninguém sabe mais, exatamente como é ‘lá fora’, o que ocorre ‘lá fora’, a dimensão e a natureza terrível do que está por vir.

Os colaboracionistas com tarjas identificativas nos braços; uns servindo de polícia, controlando os próprios vizinhos, outros se ocupando do tráfego de carroças e pessoas, da distribuição de comida, todos pensando que vão conseguir se safar, salvar a si e a família pelo menos da fome e por isto fazem jogo das tropas de ocupação.

Políticos espertos (até alguns líderes religiosos) na pele de agentes comunitários ‘um-sete-uns’ criam ou dirigem instituições – muito parecidas com as ONGs modernas – que intermediam informações trocadas por indignas migalhas ou mesmo pela honra, pela moral, por valores que deveriam ser inegociáveis, enfim.

No fundo não passam de atenuadores de conflitos que cumprem apenas o papel de cobrir com ‘panos quentes’ a indignação e a ânsia de revolta que grassa o pensamento das pessoas.

O Gheto é isto: De um lado a submissão conformada da maioria e do outro a resistência louca de um punhado de insanos suicidas que pega em armas por alguma razão.

(E aqui o olhar servil e malvado do camponês denunciando o esconderijo de Che Guevara na selva da Bolívia é a lembrança mais pungente)

É que nestes casos denunciar os rebeldes vira uma mercadoria valiosa. Vale um queijo, um pouco de presunto, uma garrafa de vinho. Como condenar, censurar os que se submetem a isto, os que se aviltam para tentar sobreviver? Uns mais ardilosos e canalhas até que se dão bem. Chegam até a enriquecer um pouco – isto se considerarmos o pouco que é necessário para se sentir rico num ambiente miserável como este.

No fundo a maioria compactua, abaixa a cabeça e se submete. Nem se dá conta da eventual imoralidade de seus atos, da iniquidade de sua traição àqueles semelhantes que se rebelaram e que por isto irão, com toda certeza morrer.

Na verdade, a esta maioria, se lhe fosse dada a chance de escapar, não saberia nem mesmo para onde ir, porque ir, tão envolvida que está pela propaganda viva, pulsante nas coisas descritas pelo momento, pelo dia a dia.

_‘As coisas que são o que são e está acabado’_ É o que toda maioria diz.

Adaptada às circunstâncias, aprisionada em si mesma, a maioria presa fácil da Síndrome do Gueto.

Não lhe parece familiar este filme?

…Não. Não falo deste filme colorido de Hollywood. Falo daquele nosso filme íntimo real e brasileiro que está em cartaz num cinema bem perto de você.

(Pronto. Se já não sabia, você agora sabe muito bem do que estou falando. Podemos enveredar então pela outra ponta do assunto).

Enunciado completo da questão:
Entranhas da estranheza. Sintomatologia

Síndrome: Distúrbio ou doença – individual ou social – contingência irrecorrível, estado de coisas anormal, conjuntura aguda, quase inescapável, a qual um indivíduo ou um grupo social está acometido, caracterizada pela conjunção de um número determinado de fatores, especialmente articulados que, condenam o indivíduo e/ou o seu grupo a um destino indesejado e quase sempre inexorável. Exemplos:

  • Distúrbios ou doenças individuais: Aids (Síndrome da Deficiência Imunológica Adquirida), Síndrome do pânico, distúrbios psicológicos ou neuro-químicos em geral, esquizofrenias, psicopatias diversas (Síndrome de Estocolmo, aquela do sequestrado tomado de admiração pelo sequestrador).
  • Distúrbios ou doenças sociais: Analfabetismo, carência alimentar (subnutrição), alienação cultural aguda (aculturação)… Racismo, etc.

Gueto: Espaço restrito, físico ou simbólico, para o qual foi alijado ou no qual, deliberadamente foi confinado um grupo social, que por este intermédio passou a ficar isolado, de um lado de seu meio social e/ou cultural original e, de outro lado, isolado também do convívio com a sociedade em geral, vista de forma ampla.

Esta subjugação do grupo confinado neste gueto, neste espaço de exclusão, se dá por força de dispositivos do mesmo modo físicos, concretos (tal como muros ou cercas de contenção, repressão policial, etc.) ou simbólicos, mentais (tais como campanhas sistemáticas de difamação, privação de acesso à educação formal, procedimentos segregacionistas abertos ou dissimuladas, racismo, etc.).

Muito eficientes ao longo do tempo, estes dispositivos, geralmente impostos por um grupo social hegemônico por força de forte pressão psicológica e expedientes culturais subliminares os mais diversos, muitas vezes acabam sendo até mesmo tolerados, aceitos – ou passam despercebidos – por aqueles que, expostos a eles durante muito tempo, acabam subjugados por muitas gerações.

Síndrome do Gueto: Estado mental ou comportamental manifestado por indivíduos submetidos às condições gerais e especiais acima citadas, principalmente no campo de suas relações psico-sociais e culturais, marcadas indelevelmente pelas consequências nefastas do prolongado isolamento ao qual o grupo está ou esteve submetido.

Espécie de circulo vicioso, este estado de coisas impede ou dificulta aos indivíduos destes grupos (e até mesmo às associações de indivíduos criadas para defender seus interesses) a compreensão da natureza complexa de seus problemas, a ponto de dificultar o encontro de soluções eficientes que possam efetivamente romper o estado de coisas estabelecido, tornando estes indivíduos ou grupos, presas fáceis, quase cúmplices da manutenção ininterrupta de seu estado de subjugação.

Tratando-se de um estado de coisas de natureza social, embora anômalo, ou seja, do ponto de vista das regras básicas do conceito Humanidade, um estado de coisas injusto, a Síndrome do Gueto pode ser vista como sendo uma nítida política de exclusão social, deliberada, perpetrada por certos grupos ou classes sociais contra os outros, com o intuito de subjugá-los, justificando, plenamente o ensejo e o direito dos grupos prejudicados, por meio do estudo meticuloso de sua condição de excluídos, de buscar estratégias (que são a princípio políticas já que, em casos mais agudos, até mesmo estratégias para-militares ou violentas podem ser necessárias) para quebrar o jugo dos hegemonistas.

Exemplos emblemáticos de grupos sociais afetados pela Síndrome do Gueto ao longo da história:

  • Hebreus ou Judeus subjugados por egípcios no tempo dos faraós
  • Indigenas norte-americanos – e sul americanos – e africanos de diversas etnias subjugados pelos colonizadores brancos nas Américas e na África nos século 18 e 19, confinados em reservas ou territórios militarmente controlados
  • Fazendas de escravos nas Américas (como as de algodão nos EUA ou as do ciclo do café brasileiro)
  • Judeus aprisionados em guetos de criados pelos nazistas na segunda guerra mundial (como o Gueto de Varsóvia)
  • Emigrantes contidos em bairros de deserdados (como o velho Harlen de Nova York), etc.
  • Populações aprisionadas em Guetos e ‘bantustões’ implantados pelo governo racista da África do Sul durante o regime do Apartheid (como Soweto)
  • Palestinos subjugados pelo estado israelense na faixa de Gaza
  • Euro-muçulmanos subjugados – e massacrados- por sérvios e croatas na partilha nacionalista da ex-Iuguslávia.
  • Negros e nordestinos alijados para morar em ‘Morros’, ‘Favelas’, ‘Comunidades’e ‘Complexos’ de pobres no Rio de Janeiro, Brasil

O conceito, portanto está lançado. Este é, pois o tema proposto: a análise meticulosa da natureza desta síndrome em todas as suas nuances e melindres, afim de que se escape da armadilha estratégica que o combate ao racismo no Brasil parece estar confinado.

A luta contra o renitente racismo à brasileira estaria de algum modo, comprometida, travada por esta síndrome? Toco no assunto só de relance abaixo.

Anos de chumbo. A clausura impregnada em nós

Nos tão bem lembrados – e em certa medida saudosos – anos 70, a questão só assumiu contornos de emergência revolucionária para uns poucos. Lutar contra a ditadura era uma necessidade indiscutível e inadiável sim, prioridade absoluta para aquela parcela bem pensante de nossa sociedade, mas lutar contra o racismo não.

Tabu embutido no discurso da esquerda brasileira o tema foi, ora discretamente omitido, ora desestimulado com veemência, tratado como uma questão menor, ‘reacionária’ até, que só serviria mesmo para… ‘atrasar’ a luta.

Refletindo já a visão distorcida – que, aliás, predomina sobre o assunto até hoje – sendo a maior parte desta camada ‘bem pensante’ composta por pessoas auto declaradas ‘brancas’ (ninguém parava para pensar – ou fingia não saber – porque diabos a sociedade brasileira estava dividida assim).

O fato é que a discussão sobre o racismo era considerada, francamente secundária, ‘superestrutural’ como se dizia, quase um estorvo diante das grandes e sagradas questões nacionais.

(Não devia ser assim, mas pimenta nos olhos dos outros sempre foi refresco).

Como estaria se dando em Cuba e em outras mais longínquas plagas, o socialismo tão ansiado, assim que implantado por aqui, naturalmente se incumbiria de anular as eventuais e prosaicas (residuais para muitos) divergências raciais.

Justiça social total e automática. Esta era a utopia que parecia a verdade mais líquida e certa deste mundo. Dá até angústia pensar hoje em dia na solidão dos minguados velhos militantes negros da ocasião, calejados de exemplos frustrados desde a mal ajambrada abolição da escravatura.

Melancólicas lembranças daquele malhar em ferro frio do pessoal do Teatro Experimental do Negro nos anos 40/50, dos vetustos senhores da Frente Negra Brasileira dos anos 30, ingênuos quase comunistas, quase integralistas, vendo uma após outra as gerações de negros, filhos, netos, passarem a juventude inteira sem referências ideológicas válidas, curtindo a incômoda sensação de que, para vencer a barreira quase invisível do racismo o jeito mesmo era buscar uma saída individual, sem tocar publicamente no problema, sublimando-o na subserviente crença de que, estudando o negro chegaria ‘’.

_’Lá onde?’_ Pensavam e esbravejavam minguados rebeldes como Solano Trindade, Abdias do Nascimento, Olímpio Marques dos Santos e uns poucos outros mais.

Eu mesmo, jovem militante subalterno de algumas poucas lutas puramente sociais, tomado por esta mesma negação do problema racial que não via ou não queria ver, me ressentia calado da subestimação com que as lideranças tratavam do problema que eu, mesmo sem assumir frontalmente, percebia estar grudado em nós como craca em casco de navio, enrustido em todas as relações que se estabeleciam entre as pessoas no Brasil, independentemente delas serem da ‘esquerda’ ou da ‘direita’.

Líamos o mesmo Karl Marx, mas, entendíamos marxismos diferentes. Como nas teses originais do alemão, inspiradas que foram na realidade européia, a questão do racismo não aparecia claramente expressa, os mais brancos de nós interpretavam o racismo como sendo uma espécie de problema cultural apenas subjacente, estritamente brasileiro, passível de fácil remédio com programas sócio educacionais pontuais.

Nós, os mínimos – embora mal letrados – quase marxistas negros do pedaço, não nos arvoraríamos jamais de, aquela altura dos acontecimentos, corrigir semelhantes filigranas nas teses do ‘mestre’ do materialismo dialético.

A chapa estava quente demais. As pessoas morriam de verdade, envolvidas naquela aventura. Amargavam as dores todas da cadeia, da tortura. Perdida de antemão, sabemos agora, contudo que aquilo era luta mesmo, luta à vera, gritariam para nós nas assembléias, se ousássemos levantar a voz para propor qualquer aprofundamento da questão.

Contudo, o exemplo mais candente da relevância deste ressentimento era facilmente perceptível na condição subalterna a que eram relegados os gatos pingados negros da ‘organização’.

Para ‘Uns‘ tarefas subalternas, posições subalternas até num simples ‘comício relâmpago’, práticas nas quais os ‘Outros‘ (às vezes – pasmem! – vestindo ternos de ‘tweed’ em pleno verão carioca) nas portas das fábricas faziam os prolixos discursos incitando greves contra os ‘patrões exploradores da mais valia operária’ enquanto que os  ‘Uns‘, disfarçados de mendigos, operários ou camelôs, entravam mudos e saiam calados, fazendo a ‘segurança da ação’, prontos a, se fosse o caso, segurar o trem pesado da repressão.

(Desnecessário se dizer no caso quem eram ‘uns’ e quem eram os ‘outros’).

Para cada tempo um fundo sentimento
Ser negro naqueles anos de chumbo

Fortes, intrínsecas e renitentes as premissas básicas do Racismo à brasileira já apareciam ali, claríssimas, só os cegos (os que não queriam ver) não viam. O símbolo mais evidente do caráter doentio desta renitência podia ser simbolizado por aqueles militantes ‘revolucionários’ que, sabia-se à boca pequena, quando ainda não ingressos na clandestinidade, mantinham empregadas domésticas em suas próprias casas.

Dizem até que alguns contratavam discretas arrumadeiras diaristas para limpar os ‘aparelhos’, limitando-se apenas a tratá-las como ‘iguais’, vez por outra as brindando com pequenos regalos e exortações à conscientização de seu papel de escravas dos ‘outros’ (por suposto, nunca ‘deles’).

Talvez tenha sido por isto que aquele renovado Movimento Negro dos anos 70, aparentava já na sua origem, aquela forte vocação ‘Black is beatifull’, curtindo mais Lhuter King do que Malcom X, tendendo mais para o fashion ‘Black Power’ do que para o enfático ‘O Negro no Poder’.

Subestimando por julgar arcaica e ‘out‘ cultura dos nossos avós sambistas, alguns de nós ignoravam ou repudiavam do mesmo modo, o caráter francamente racista da ‘juventude branca’ de esquerda, que de forma vanguardista propunha uma revolução social rumo a uma sociedade sem classes.

‘Renegar o velho‘, ‘renegar o branco‘, estas eram as palavras de ordem subentendidas em algumas de nossas falas. E daí como consequência o efeito terrível: Aculturados, misturamos assim alhos com bugalhos.

Foi incrível, mas cega pela aversão ao racismo renitente e enrustido dos ‘movimentos brancos‘, esta parte mais proeminente da militância negra parece que foi perdendo também o sentido de sua luta, o foco de seus próprios interesses sociais mais evidentes, ao negar – como uma pequeno-burguesia destas bem egoístas e chinfrim– o eterno sonho da revolução social, mesmo quando ela já estava sendo feita, exatamente por exemplares sociedades negras contemporâneas, aquelas mesmas antepassadas diretas dos negros do Brasil (Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau).

(Aliás, quem por aqui se importava com Nelson Mandela na década de 70?)

Zumbi por certo, nestas horas, se revolvia no túmulo ultrajado por ter seu revolucionário nome evocado em vão (isto sem se falar no mesmo revolver do corpo do Oswaldão do Araguaia).

As ideias de libertação sócio racial, na luta de todos para todos (do vitorioso ideário do ANC de Mandela), acabaram assim trocadas pelas contidas ideias de ascensão social individual, segundo um modelo de luta calcado no que havia de mais aparente no comportamento de uma minoria negra, que reivindicava direitos civis nos EUA.

A mal disfarçada tentativa de criar aqui uma classe média negra, uma elite negra, uma casta de intermediários entre os milhões de negros pobres e a hegemonia branca – como se pode ver ainda hoje – claramente era (como o é ainda) totalmente improvável no contexto de uma população afro-descendente tão numerosa quanto tão meticulosamente segregada como a nossa.

Assim como uma maioria equivocadamente se julgando minoria, pensando como minoria (como se dava, por razões bem menos prosaicas em Varsóvia), esta minúscula liderança negra foi facilmente inviabilizada e corrompida, cooptada enfim como qualquer ‘panelinha’ social oportunista.

Pois foi assim que a Síndrome do Gueto, se apossando sorrateiramente daquelas nossas mentes mais vadias e românticas, que sonhavam em sozinhas chegar ‘lá’, nos levou a este deu no que deu.

O isolamento político de uma geração inteira de hoje maduros líderes negros que, animados naquela época pelas emocionantes palavras de ordem dasMarchas para Zumbi, se empenharam no vão intento de ser a antítese perfeita e acabada da esquerda ‘branca’, acabando mesmo como tributários subalternos das plataformas pretensamente esquerdistas do PT (e de outros partidos menores, também supostamente de esquerda) tendo que amargar hoje as lamúrias tardias de um ou outro líder-orixá caído na lama, dentre os poucos que…chegaram ‘‘.

Como, ao que supomos, ficou provado, não bastava mesmo ser negro e favelado.  Seja lá qual fosse a revolução de cada um, o dístico rebelde nunca poderia ser apagado:

_ ‘hay siempre que endurecerse sin perder a ternura – e a ética, a vergonha na cara – jamás.’

(Melancólicas e tardias constatações, reconheço. E é por isto que peço tempo. Depois o papo segue de onde parou, num outro post ou até onde esta penosa conversa nos levar.)

Spírito Santo
Abril 2010

(Hoje, 2019, infelizmente não consegui mudar uma vírgula)

EXUCHIBATA, a peça (texto integral)


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“…Qual cisne Branco em noite de lua

Peça Teatral de Spirito Santo /1994


Guarnição do encouraçado ‘Minas Gerais’, como a esquadra dominanda, armada para o que desse e viesse.

(Leia resenha da peça neste link)

Cena 01
Kizumba
Exu Tranca Rua

Platéia entrando. No palco, a cena inteiramente montada está “congelada”.

Cena reproduz um motim popular numa rua do Rio em 1904. Barricada com pedaços de móveis velhos, caixotes, etc., está formada Em parte destacada da cena, dois negros capoeiristas, em posição de comando, ao lado de partes de um bonde virado. Fincada no bonde, uma vara com um trapo de pano vermelho simulando uma bandeira.

Á frente desta cena, ocultando-a parcialmente, a reprodução do quadro ampliado da capa de um Jornal segundo descrição a seguir.

Manchete está escrita numa longa faixa, sui

spensa por dois atores em pernas de pau, tomando todo o comprimento superior do palco :

JORNAL DO COMMÉRCIO

12 de Novembro de 1904
EXPLODE A REVOLTA DA VACINA!
Populacho em fúria faz quebra-quebra na cidade!

Abaixo da faixa, atores ou figurantes seguram alguns painéis quadrangulares, ficando ocultos atrás deles. Painéis reproduzem detalhes diversos da diagramação da capa do jornal (blocos de textos, charges, anúncios, etc.)

A composição com os painéis e a faixa, deve cobrir quase que, inteiramente a boca de cena, inclusive na sua altura, deixando vazia apenas um trecho quadrangular, onde se poderá ver enquadrado como uma foto, o pedaço da cena com os dois capoeiristas e parte do bonde com a
bandeira.

Inteiramente silenciosa e imóvel, a cena deve permanecer assim o tempo suficiente para criar um tensão inicial na platéia.

Após este tempo, som de um apito da polícia.

Grupo de policiais irrompe na cena com estardalhaço. Um deles carrega um cartaz onde se lê:

CENSURADO PELO GOVERNO !

Elementos cenográficos da “capa” se dissolvem, sendo desmontados desordenadamente e com rapidez. Cena atrás deles explode em gritos.

Fumaça e correria. Alguns policiais entram em cena portando espadas e dando tiros de  mosquete nos manifestantes. Pequenos objetos como rolhas, são lançados no chão por estes manifestantes. Policiais caem, tropeçando nos objetos. Em todas as situações, os dois  capoeiristas estão em posições de destaque, comandando o motim. Outros manifestantes também lutam com passes de capoeira.

Manifestantes vão sendo dominados. Muitos estão caídos como se feridos.

Gritos, ruídos e fumaça vão se dissipando até cena se congelar de novo.

Figurante vestido como um esfarrapado profeta louco, cruza lentamente a cena congelada, portando duas tabuletas seguras como “tábuas da lei”. Nelas se lê:

Tabuleta 01
Este país da Bruzundanga
parece de Deus deslembrado
Nele o povo anda na canga
amarelo, pobre, esfaimado

Tabuleta 02
No ano que tem dois sete
Ele por força voltará
e oito ninguém sofrerá
pois castigos já são sete
e oito ninguém sofrerá

Cena ainda congelada. Som de tambores e berimbaus vem surgindo ao fundo, crescendo, de fora da cena.

Os dois capoeiristas – Manduka e Pata Preta- separam-se dos demais e simulam jogar capoeira na frente da cena que, vai se descongelando lentamente.

Policiais orientam rudemente ações de “limpeza” do palco, realizadas pelos atores e figurantes. Feridos são retirados. Cena se prolonga com o retorno gradativo daqueles que vão saindo para as coxias, de forma que sempre haja o movimento de limpeza do palco durante toda a cena a seguir.

Capoeiristas durante as falas, interrompem o jogo. Cena atrás deles se congela nestes momentos. Quando voltam a jogar, após cada fala, cena atrás deles se descongela.

Sempre alternando movimentos e falas, capoeiristas se dirigem à platéia:)

Manduka: (olhando para os policiais)

_Pulhas! Na pernada não vem cá. Mandaro meu pai pra guerra do Paraguai. O véio caiu lá mesmo…um magote de capoeiras caiu por lá, adefendendo o Brasil. Agora eles falam que nós é da arruaça e do motim. Queriam o quê? Eles vem de espada e mosquetão. Queriam o quê? Que nós aceitasse morar na rua, no tempo? Derrubaram um muro aqui, na Praça da Harmonia, em cima de gente viva! Pulhas! Pra matar índio no Paraguai nós serve. Aqui, se nós se adefende deles, eles atacam e… tome chibata!

(Volta o jogo até congelar )

Pata Preta:

_ De primeiro eu até ria. Meganha correndo, com a espada calada na bunda, entre as pernas, igualzinho a um rabo…eu gozava! Chegava rolar no chão de tanto rir. Depois, foi me dando raiva. Fiquei dez dias no hospício, sabem porque? Tava descalço, andando no Rossio, cheio de parati. O meganha chegou e me deu umas três porretadas. Pronto! Dei banda nele…Ah,ah,ah! Caiu sentado na lama, o desgraçado. Daí corri.

Me pegaram. Fiquei lá no meio dos malucos, comendo o maior fubá. Quer dizer…Andar descalço é crime, né? agora…dar porretada na cabeça de negro é o que? Se agente fica na rua, sem casa…já tá descalço, né?…Pra agüentar, ora…só tomando muito parati. Quer dizer…nós tá no crime sem querer. Pegam a gente e botam adonde? No hospício, na casa de correção, na Presiganga, mandam nós pro Acre, pros bichos comer. De modos que comigo é assim: Chegou, bateu? Eu também dou porrada! E…tome chibata!

(Volta o jogo até congelar )

Manduka:

_A verdade eu falo agora. Querem derrubar nossa casa. Eles falam que é pr´uma tal de saúde pública. Pública de quem? Sem casa como é que a gente pode ter saúde? Meu avô foi escravo. Carregava na cabeça um barril de merda da família do sinhō, da Rua Direita até o cais Pharoux. O senhor morreu duma febre que deu lá, naquele tempo. A casa do finado, do sinhō do meu avô foi derrubada? Que nada. Tá lá até hoje…podre, fedida.

Não tô aqui por que quero.  Trouxeram meu avô pra cá. A gente se adefende com o pé, com a mão, com um pedaço de pau, com o que for. Me dá casa nova, me dá sapato, me dá camisa que eu bato palma pra saúde pública. Se me der bordoada, eu devolvo, eu pago, dou porrada também! E…tome chibata!

(Palco neste momento deve estar totalmente limpo. Ouve-se novamente o som de histéricos apitos da polícia. Capoeiristas correm para fora de cena, perseguidos por policiais.)

Cena 02
MUSEKE
Exu Marabô

(Penumbra. Novas partes do cenário, transferidas dos bastidores para o palco, fazem com que ele tenha agora dois níveis, sendo o superior composto por um praticável ou jirau móvel, dividido de alguma forma em dois espaços distintos, acessados por intermédio de escadas também móveis.

Metade deste jirau, reproduz um coreto tradicional, em cuja parte central bem no topo, um figurante coloca um letreiro. )

BATALHA DAS FLORES
GOVERNO PEREIRA PASSOS
1906

Música de bandinha, surge dos bastidores, crescendo. Parte do lado do palco, o mesmo onde está o coreto, mantém o bonde da cena anterior recomposto, ao lado da mesma coxia onde estava, sendo acessível aos atores através dos bastidores.

Saindo da coxia e atravessando o bonde, como se dele desembarcassem, muitas pessoas entram e cena, todas com os rostos pintados de branco. Algumas delas ficam por um tempo, dependuradas nos balaustres do bonde que, assim como tudo neste lado da cena, está ornamentado com flores. As pessoas estão muito bem vestidas (roupas de domingo), portando chapéus, bengalas, guarda-sóis, bambolês e bicicletas, tudo enfeitado. Músicos de uma bandinha também entram por ali.

O fluxo constante de pessoas pode ser conseguido através da circulação delas do palco para os bastidores, de onde retornam de novo ao palco, com ligeiras alterações de figurinos e adereços. As pessoas vão se aglomerando em torno do coreto, fazendo grande alarido. Luz neste ambiente é feérica Sob luz mortiça e no outro lado do palco simetricamente dividido, a parte inferior do jirau representa o pátio de uma casa de cômodos, no qual deve estar à vista algo que se assemelhe à fachada de um cortiço.

Um pequeno chafariz, algumas tinas de roupa, cadeiras, além de varais de roupas cruzados pelo espaço mas ainda vazios, podem completar o cenário.  Focos nos participantes da festa no coreto. Um grupo de autoridades se aproxima, vindo detrás da platéia. Grupo de policiais faz escolta.

Participantes da festa, do palco, aplaudem e dão vivas entusiásticas. Participante grita:

Participante:

_ Viva o Prefeito Pereira Passos!

Todos respondem em coro.

Grupo de autoridades sobe ao palco e se fixa no centro do coreto. Fotógrafo com máquina “lambe-lambe” assume boca de cena. Autoridades se imobilizam diante do fotógrafo, esperando a foto. Explosão do flash fotográfico sinaliza inversão da luz nos ambientes. Na penumbra, cena do coreto prossegue com movimentos normais mas, sem ruídos.

Luz da casa de cômodos cresce. Pátio da casa de cômodos começa a ser ocupado por homens vestidos com roupas sujas, trazendo alguns dos adereços citados que vão sendo largados pelo pátio. Alguns destes homens são marinheiros. Outros homens entram trazendo carrinhos de mão tipo “burro-sem-rabo” e grandes sacos de carvão.

Ruídos da cena são apenas os produzidos pelas ações descritas. Alguns homens entram na casa e desaparecem nos bastidores. A maioria senta ao lado do chafariz, fumando lentamente. Todos parecem cansados. Mulheres começam a sair da casa e estendem roupas nos varais. Num dos cantos uma mulher lava roupa numa tina.

Homens e mulheres vão se recolhendo para o interior da casa até que toda o pátio fique vazio.

Nova explosão de flash fotográfico. Nova inversão de luz nos cenários.

Burburinho na cena do coreto volta forte. Luz forte se concentra no centro do coreto onde se destaca uma autoridade de barbicha.

Prefeito faz discurso inflamado:

Pereira Passos:

_ A população do Rio que, na sua quase unanimidade, felizmente ama o asseio e a compostura, espera ansiosa pela terminação desse hábito selvagem e abjeto, que nos impunham as sovaqueiras suadas, apenas defendida por uma camisa de meia rota e enojante de suja, do vexame de uma súcia de cafajestes, em pés no chão, quando um calçado está hoje a 5 mil réis o par e há tamancos por todos os preços. Na Europa, ninguém tem a insolência e o despudor de vir às ruas de Paris, Berlim, de Roma, de Lisboa, etc. …em pés no chão e desavergonhadamente em mangas de camisa!

Aplausos frenéticos de novo. Participantes ficam agitados. Prefeito prossegue:

Prefeito Pereira Passos:

_O Rio de Janeiro principalmente vai passar e…já está passando por uma transformação radical. A velha cidade, feia, suja, tem os seus dias contados! Não é outro, tenho-lhes dito, o verdadeiro sentido de civilização e progresso do que nossos detratores tem chamado, levianamente de “bota a baixo”!

Coro de participantes (gritando) :

_ Bota a baixo! Bota a baixo! Bota a baixo! Bota a baixo!

Participantes vão ficando agressivos e começam a ocupar o cenário da casa de cômodos,  depredando-o. Policiais tentam impedir, sem muita convicção e não conseguem. Platéia começa desmontar todo o pátio da casa. Policiais resolvem também a ajudar no vandalismo.

Participantes da batalha das flores vão ocupando toda a cena, Luz acompanha este movimento de expansão da cena e vai tomando também todo o espaço cênico. Prefeito é carregado em júbilo pelos participantes, que vão saindo com ele pelo lado onde estava o pátio da casa.

Alarido da saída dos participantes da batalha da flores prossegue ainda um pouco, mesmo depois da cena estar vazia.

Com o silêncio, homens e mulheres que moravam na casa de cômodos, voltam à cena como garis da época, limpam os restos de adereços que sobraram no palco e recolhem as partes do jirau.

Luz vai caindo até o black out.

Cena 03
ZUNGA
Pomba Gira

Música de Ragtime em piano comum e percussão típica. Fundo da cena simula linha do mar e parte do convés de um navio do início do século.

Predominância de preto e branco nas cores em todo cenário e figurino. Personagens brancos, têm os rostos pintados nesta cor.

Todos os movimentos das personagens são esquemáticos, quase mímicos.

Cena simula uma seqüência de cinema mudo.

Português bigodudo entra em cena de ceroulas, boné característico e tamancos. Caminha até o centro da cena de forma cômica. Só aí demonstra perceber que está de ceroulas. Cobre a bunda e púbis com as mãos e foge para uma das coxias. Antes de sumir faz sinal para que a platéia o aguarde.

Português volta com o corpo coberto por dois painéis de anúncio de cinema. No painel da frente se lê:

“Cinematógrapho Avenida e Pathè Films Apresentam A sensacional película!!

KALUNGA, O MARUJO DO BARULHO”

Português vira de costas. Segundo painel é lido:

Hoje:

KALUNGA E OS TENENTES DO DIABO

Português sai de cena mas voltará sempre com novos letreiros que formarão as legendas do filme mudo.

Grupo de tenentes da marinha entra desajeitadamente no palco, um deles faz soar um apito característico, chamando alguém que está oculto na coxia, do lado oposto ao que entrara o  português. Um dos tenentes faz a mímica como se falasse. Português mostra letreiro:

MARUJO, APRESENTE-SE!

Pessoa chamada não se apresenta. Um dos tenentes agita no ar uma chibata. Apito soa  novamente. Tenente repete o chamado, com mais ênfase.

Português mostra de novo o letreiro:

MARUJO, APRESENTE-SE!

Entra em cena o marujo Kalunga. Negro, baixinho, fazendo graça para a platéia. Tropeça, finge que está com medo dos tenentes, Perfila-se e faz desajeitada continência para eles. Um dos tenentes faz mímica de grito, dirigindo-se aos outros.

Português mostra letreiro:

A BARRICA! A BARRICA!

Dois tenentes vão até a coxia e retornam com uma grande barrica posta sobre um chassi com rodinhas. Viram para a platéia um lado da barrica onde se vê um orifício. Tenentes apontam o orifício para a platéia. Ordenam a Kalunga que se aproxime. Letreiro anuncia a ordem:

ENTRE NA BARRICA, MARUJO! É UMA ORDEM!

Kalunga reluta. É pego por um dos tenentes, se desvencilha, corre pelo palco. Muita comicidade na perseguição. Corre em torno da barrica até ser pego pelos os tenentes. É posto à força dentro da barrica que é levada com ele dentro para fora do palco. Tenentes saem com a barrica, rindo e indicando com gestos, que vão sodomizar o marujo . Letreiro anuncia:

ORDENS…SÃO ORDENS!

Breve momento de cena deserta. Kalunga coloca a cabeça para fora dos bastidores, do lado oposto ao do que está a barrica. Kalunga assume o palco e faz sinal para que platéia fique em silêncio. Eufórico, faz suspense, aponta para o lado onde está a barrica. Pede a platéia que espere atenta.

Luz na direção da coxia onde está a barrica. Gemidos lascivos são ouvidos, vindos do lado onde está a barrica. Logo após os gemidos, um grito desesperado de dor.

Kalunga simula riso divertido, cobrindo boca para não ser ouvido, insinuando sempre com mímica o que está ocorrendo na coxia. Gritos de desespero de todos os tenentes.

Kalunga solta gargalhadas (sem som) Tenentes entram, perseguindo Kalunga com raiva. Kalunga foge, dá uma volta completa pelos bastidores e volta à cena. Tenentes, ao atravessar o palco, deixam que se veja enormes lagostas vermelhas, balançando, presas nas braguilhas como se tivessem sido mordidos.

Atrás do grupo que sai finalmente de cena, entra o português com letreiro :

É O FIM!

Luz caindo até curto black out.

Luz volta. Placa do filme postada num canto, indica a saída do cinematógrafo.

Político e mulher elegantes, entram em cena como se estivessem saindo do cinema mas, apenas simulam estar andando pela rua enquanto conversam.

Detalhes da rua – placas, letreiros, postes, quiosque, etc.- são adereços carregados por atores e figurantes que desfilam com eles pelo palco, como se a rua girasse num ciclorama.

Mendigos abordam o casal mas são repelidos com elegância. Carroceiros cortam a cena com carrinhos “burro-sem-rabo” cheios de tralhas. Quiosque se imobiliza e grupo de populares entram em cena para ocupar o balcão.

Bebem, comem e conversam. Vão ficando bêbados. Palco vai se enchendo de figurantes caracterizados como prostitutas, marinheiros, vendedores ambulantes, etc.

Burburinho se reduz para a fala do político.

Político: (Irritado)

_ Achei a película execrável!

Mulher:

_ O que, Chèrie?

Político:

_ Detestável! Uma bodega! É o que digo sempre…É assim que
nossos ideais de progresso dão sempre com os burros n’agua!

Mulher:

_ Mas era só uma sátira, chèrie!! Até que bem hilariante…Um  pouco grosseira talvez  mas…divertida. Muito divertida!

Político:

_ Existem temas mais apropriados. Zombam das instituições, isto sim. A armada devia coibir estes excessos!

Mulher:

_Não seja tolo, chèrie! É uma película norte-americana. Aquela armada não é a nossa. Deve ser a inglesa…sei lá!

Político:

_ Mas é como se fosse. A vida dos marujos, afinal não é tão dura assim. Ainda ontem estes homens não eram mais que escravos. Hoje têm soldo, trabalho digno, viajam o mundo e…

Grupo de bêbados irrompe numa sonora gargalhada. Casal olha para o quiosque surpreso, como se achasse que riram deles.

Mulher:

_ Oui, mon amour! Você está certo. São abusos sim mas, você não relaxa nunca? Detesto este teu fanatismo pelo trabalho na Câmara, esses debates. Você se acha a palmatória do mundo. Um dia você vai e o Brasil fica por aí, oh…belo e faceiro. Viu como todo mundo se divertiu lá no cinematógrafo? Até os velhos mais caquéticos riram à larga. Você devia deixar a política na escrivaninha da câmara, isto sim. O importante, chèrie, é o…savoir vivre!

Homem:

_ Vocês, mulheres…acham que tudo se resolve com savoir vivre e art nouveau. Pensam que isto vai…colorir as mazelas do país? Isto aqui, minha cara, não é a França não. Olhe para esta gente (apontando para o quiosque ) Não se civiliza nunca, viu? Se a gente dorme, é capaz de acordar com os excrementos deles em nossa própria porta. Nossa art nouveau, nossa belle époque, hum…só se for com muita água e sabão!

Pessoal do quiosque passa a olhar o casal com hostilidade. Casal se assusta e vai se retirando.

Mulher:

_A propósito, mon amour…Podíamos ir à tua garçonière! O que achas? Tomamos um banho de sais e…Você não sairá cedo amanhã, não?

Homem:

_ Infelizmente sim!

Mulher:

_Oh, non!

Homem:

_ Sim, sim! Irei agora contigo mas, pela manhã…Imagine que o jornalista João do Rio nos aprontou mais uma. Desafiou-nos, a todos nós da Câmara e, pelos jornais, a acompanhá-lo numa inspeção sanitária, a uma destas espeluncas da cidade. Disse ele que se chamam…Zungas. São lugares fétidos, imundos, nem queira saber o quanto. De modos que terei que ir ao beco dos ferreiros amanhã. Não posso medrar. Só espero que…os sais de hoje, me livrem de um impaludismo amanhã!

Mulher:

_Oh…oui, oui! Os sais de França fazem milagres, chèrie!

InBêbados fazem algazarra. Xingam o casal que sai rápido de cena. Dono do quiosque fecha as janelas, expulsa os bêbados que saem protestando.

Último bêbado mostra um letreiro:

DIA SEGUINTE. NO ZUNGA

Penumbra. Jiraus retornam. Reproduzem agora o interior de uma hospedaria barata, tipo “cabeça de porco”. O espaço cênico, está agora totalmente ocupado pelos atores com esteiras, redes e camas improvisadas. O nível superior, dividido, de alguma forma em planos ou espaços distintos, é acessado por intermédio de escadas.

A maioria dos atores e figurantes, vestidos com trapos imundos ou seminus, vão entrando lentamente e ocupando os dois níveis do espaço, deitando-se silenciosamente, demonstrando cansaço. Alguns se deitam simplesmente no chão. Entre eles estão alguns marinheiros.

Brigam entre si por melhores espaços. São brigas surdas, com movimentos bruscos e tensos. Burburinho contido de vozes tossindo, e reclamando e depois, respirando ou roncando, prosseguem até o silêncio.

Penumbra é rompida por luz forte e súbita. Grupo de policiais, vindos dos bastidores, irrompe no recinto seguido por homens engravatados. Policiais afastam rudemente com cassetetes, as pessoas que estão no caminho.

Alguns fingem dormir, outros envergonhados, sentam-se cabisbaixos. Só se ouvem as vozes dos policiais e inspetores. Entre eles está o cronista João do Rio que fala:

João do Rio:

_ Eis aí, senhores, o vosso século 20! Nosso alentado progresso. Não lhes disse que o Brasil escondia a idade média em suas entranhas?

Alguns inspetores puxam lenços para tapar os narizes, com nojo. Outros  hesitam em avançar. Político do cinematógrafo fala para os demais:

Político:

_ Vamos senhores! É preciso não ter pejo. Vejam a realidade crua, nojenta. Sintam o seu cheiro, seu miasma infecto. Como vêem, não exageramos em nossos discursos na câmara. Urge ou não urge acabar logo com estes antros? Pois venham Srs.! Avancem!

Polca “Rato, rato” em compasso bem lento, soa no ambiente. Grupo circula pelos corpos caídos, desviando de uns e de outros, Na subida da escada, alguns hóspedes estão apoiados, fingindo dormir num corrimão. Mulheres, sentadas nos degraus da escada, escondem as pernas, cuidadosamente.

No andar superior, muitos homens deitados estão quase nus, enquanto que longo banco de madeira, um grupo cochila sentado, com os antebraços apoiados numa corda esticada, cujo nó é rompido bruscamente, por um dos policiais. Pessoas que cochilam na corda despencam no chão. Os despertos ficam de pé num salto, assustados.

Inspetores vão se retirando em silêncio. Policiais abrem caminho com os cassetetes. A esta altura todos já estão acordados e se comportam entre envergonhados e assustados. Cena vai voltando à penumbra lentamente.

Pessoas vão voltando a seus lugares, lenta e silenciosamente. Polca prossegue mais um pouco e vai descendo com a luz até o black out.

Cena 04
KURIMBA!
Exu Veludo

Luz volta. No palco uma mesa, em cima dela uma moringa, um lampião, um cinzeiro com um cigarro aceso, alguns papéis e uma garrafa de cachaça.

Sentado na mesa o marinheiro João Cândido, com a túnica da farda desabotoada e descalço. Som de batidas na porta. A batida é ritmada, como um senha. João responde:

João Cândido:

_ Pode chegar! Tô aqui!

Três outros marujos entram e sobem uma das escadas do jirau. Cumprimentam-se efusivamente e se sentam. Bebem cachaça e conversam com João, preocupados.

Líder marujo 01:

_ Uma coisa é certa. A marinha sabe, gente. Desde que a gente voltou da Inglaterra que ela sabe.

Líder marujo 02: _ Pois é. Eles devem ter mandado a gente pra lá, só pra ver se arrefecia a idéia do motim. É isso. Só pode ser. Olha…É melhor adiar isso.

João Cândido:

_ Que é isso, gente! Que adiar o quê…Calma. ´Cês lembram daquele sindicalista inglês, lá no estaleiro de New Castle…O Laughton, lembram? Pois ele já tinha me dito que a Marinha andava meio ressabiada mas…não com a gente. Se nos mandaram p´ra Inglaterra é porque botaram esperança na gente, claro! Que desconfiança o que, ora! É só a gente fazer tudo direito, sem apavoramento, com paciência!

Líder marujo 01:

_ Mas João…é arriscado, homem. A inglesada foi amiga, muito solidária e tal e coisa mas…eles estão lá, né ? E nós aqui! A gente pode ser preso, condenado…Pode até ser morto, fuzilado! Tua
casa já tá vigiada, tu sabia? A gente espera outra chance. É melhor adiar a revolução, né mesmo?

João Cândido:

_ Que nada! E se a Marinha souber? E daí? Eles devem estar achando que é fogo de palha nosso, homem. Acham que a gente não tem capacidade pra organizar, comandar a tropa. Olha só…eu já marquei com o Marcolino. Marquei pra hoje, lá naquele candomblé do Santo Cristo. A gente pode conversar todo mundo lá. Toma umas cachaça, pede proteção pra oxalá, pra Exu, sei lá? Vamo em frente que eu sei que vai dar… Calma, gente.

Líder marujo 03:

_ Tá certo, tá certo! Mas nós vamos ter que mudar o endereço do comitê. Tua casa tá mesmo vigiada. Aqui na Saúde não dá não…Não dá mais.

João Cândido:

_ Papo furado…Mas ´cês não tem imaginação mesmo, heim! Eles acham que nós somos um bando de pés lascados. Fica calmo, homem. Já temos plano, já temos data…o que vocês querem mais? ´Cês tem que confiar aqui no timoneiro, ora! Vão, vão logo. Lá no Marcolino a gente se vê, tá bom?

Marujos se levantam e descem. Um deles volta e pega a garrafa de cachaça. João apaga o lampião e desce com eles, deixando a cena às escuras.

Ruído de sereia de navio. Alguém bate numa porta. Voz responde:

Voz: (Em off ) _ De quem se trata? Apresente-se!

Ninguém responde ou se apresenta. Oficial da Marinha aparece se aproximando de uma porta. iluminada. Abre a porta e não vê ninguém. Algo chama a sua atenção no chão. Encontra um bilhete na soleira da porta.

Oficial pega papel e fixa o olhar nele, como se lesse.

Voz (lendo bilhete, em off ):

_”Venho por meio desta linhas, pedir não maltratar mais a guarnição
deste navio que tanto se esforça para trazê-lo limpo. Aqui ninguém é
salteador nem ladrão. Desejamos paz e amor. Ninguém é escravo de
oficiais e …chega de chibata. Cuidado.
Assinado:
Mão Negra “

Oficial tem reação preocupada. Black out.

Tambores de candomblé tocam forte para Exu, ocultos da cena. Luz
crescendo.

Mulheres, participantes do culto – Ekedis – montam ritualísticamente o cenário com a instalação de um peji (oratório). Nele velas são acesas, vasilhas de comida para os orixás- ebós – são colocadas , etc. Logo após a montagem, Ekedis saem e retornam junto a um grupo maior de Yaôs, dançando e cantando ao som dos atabaques. Cena deve reproduzir elementos essenciais do ritual de uma “saída de Exu”.

Algumas pessoas estão “possuídas” e dançam em transe. Pessoa que está sendo iniciada entra em cena paramentada como Exu. Não se consegue ver quem está sob os paramentos. Ritual vai assumindo clima de grande êxtase. Grito de sacerdote-ogã – interrompe o ritual. Grupo de Ekedis e Yaôs, vai se retirando da cena dançando.

Pessoa vestida de Exu vai se despindo dos paramentos. Sob eles vai aparecendo uma farda de marinheiro. Já totalmente despido dos paramentos, se percebe que o iniciando é João Cândido.

João Cândido: (para a platéia )

_ Meu nome é João Cândido Felisberto, gaúcho, marinheiro de primeira classe da gloriosa Marinha do Brasil.

Estive na guerra do Paraguai e sobrevivi. Quando o Brasil mandou construir na Inglaterra os três encouraçados mais modernos do mundo, eu estava lá, na guarnição. O meu navio é o Minas Gerais, sou o timoneiro do melhor navio do mundo. É por isso que eu digo. Não sou nenhum desqualificado não. O que eu não sou e nunca fui mesmo é Pai João. Tá tudo aí pra todo mundo ver. Tratam a gente feito cachorro. Não dá mais. Chega de chibata! Se o governo não vê ou finge que não vê, eu vejo e, tenho nojo do que vejo.

Black out. João Cândido desce para a platéia e se junta ao público, para assistir a cena a seguir.

Som dos tambores vai crescendo. Parte do Jirau, deslocada para o palco por figurantes vestidos de marinheiros, representa de novo o convés de um navio do início do século. Há no conjunto um grande mastro de navio bem à vista.

Grande grupo de marujos entra em cena, assumindo posições no navio, sob o comando de oficiais. Ordens gritadas pelos oficiais são ouvidos. Oficial comandante, em posição de destaque, grita, apontando para uma coxia:

Oficial Comandante:

_ Aos ferros! Acorrentem o negro no mastro ! Aos ferros com ele, já! Dois cabos entram em cena com um marujo amarrado. Oficial comandante ordena para os demais oficiais:

Oficial Comandante:

_ Em formatura!

Oficial repete a ordem. Marinheiros formam. Silêncio na cena. Marujo é preso ao mastro e  começam a açoitá-lo com chibatas. Tambores de candomblé marcam o ritmo das chibatadas .Oficial ordena que a tropa dê as costas para o marujo açoitado.

Oficial Comandante:

_ Meia Volta…Volver!

Tropa não obedece a ordem e fica imóvel. Oficial insiste em vão. Demais oficiais se agitam tensos.

Líder Marujo: (gritando)

_ É agora!

Tropa desfaz a formatura e cerca oficiais que puxam pistolas e espadas. Marinheiros gritam:

Marinheiros:

_ Liberdade! Abaixo a chibata! Abaixo a chibata!

Música de tambores. Tumulto no convés. Oficial corre para a boca de cena e grita para o público:

Oficial Comandante:

_ Motim! Motim!

Silêncio. Oficiais são dominados. Alguns estão caídos, feridos ou mortos.

Foco de luz segue João Cândido que volta ao convés-palco. Marinheiros formam para ele, perfilados reverentemente. João Cândido amarra um lenço vermelho no pescoço e, com um gesto, manda que desfaçam a reverencia e a formatura. Marinheiros começam a desmontar o cenário da luta, saindo de cena, onde somente João Cândido permanece.

Tambores soam mais fortes. Ekedis e Yaôs voltando à cena dançando, cercam João Cândido e vestem nele de novo os paramentos rituais. Grupo dança freneticamente. Marujos voltam à cena
Ogã lança pipocas sobre alguns marujos que entram em imediatamente êxtase, como se  incorporados. Todo o grupo parece estar incorporado. João Cândido, vestido de Exu, dança no meio deles.

Som brusco de um apito da polícia. Policiais entram em cena. Tambores cessam.

Policiais chutam ebós e peji. Cena é evacuada pelos policiais com violência.

Black out.

Cena 05
KALUNGA!
Exu Rei

Ainda no black out, som de batidas numa porta. Homem vestido de mordomo entra, iluminando a cena, com um candelabro. Candelabro mostra outro homem que chega. Ele se veste elegantemente, de casaca e está cansado mas, eufórico como se tivesse chegando de uma festa.
Homem se senta numa poltrona, retira os sapatos e as calças, ficando só de casaca, ceroulas e meias. Mordomo se dirige a ele, ansioso:

Mordomo: ( sotaque francês, apreensivo )

_ Monsieur Presidente, por favor!

Hermes da Fonseca:

_ Ora bolas, Jean Claude! Não vês que estou exausto?

Mordomo: (esbaforido)

_ Pardon, Monsieur Hermès..Pardon! Ces très important. A armada…A Marinha…

Hermes da Fonseca: (Desatento, irritado )

_ Vá, homem! Desembucha, sô!

Mordomo: (Trêmulo)

_ Passarram um rádio, excelência!..Mon dieu! A Armada…a Armada se rebelou! Os marrujos dizem que querrem…o fim das torturras, ou algo assim. Ameaçam bombardear a cidade, excelência! Bombarrdear a cidade!

Hermes da Fonseca: ( se levantando assustado )

_ Com os diabos! Bombardear a cidade! Mas o que pensam? Acabo de tomar posse. Ficaram loucos? Cambada de insolentes, corja! (andando de uma lado para o outro) Anda Jean Claude! Vá, anda! Me traz o automóvel…Me chama todo o ministério, o Estado Maior…(notando o candelabro ) A luz, que foi feito da luz do Palácio?

Mordomo:

_Por Dieu, Monsieur! Tivemos que apagar tudo. O palácio é o alvo principal dos bandidos!

Hermes da Fonseca: ( aturdido )

_ Vai, homem! Me traz também o…Rui Barbosa! Ave Maria, vá! Traga todos…Não…Deixe estar. Eu vou junto até eles. Depressa, homem…Diabos!

Mordomo sai na frente afobado, levando o candelabro e seguido pelo presidente.

Hermes da Fonseca: (Puxando o mordomo para trás)

_Volte.! Volte aqui, homem! Preciso vestir minhas calças!

Os dois saem, deixando a cena às escuras.

Luz sobre o fundo branco da cena, reproduz céu avermelhado. Vindas de lados opostos, das duas coxias, as partes separadas do jirau entram forradas com longos panos, de forma que se assemelhem à proas de dois grandes navios que, avançam lentamente em sentido transversal ao palco, até quase se tocarem. A caracterizar os navios, o nome das embarcações (“Bahia” e “São Paulo”), simulações de âncoras e canhões, etc. As proas avançam um pouco à frente do céu e na parte superior delas, no nível do que seriam os conveses, marinheiros gritam e acenam eufóricos, lançando os bonéscaxangás para o alto.

Todos os marujos trazem lenços ou trapos vermelhos no pescoço ou nos bolsos das túnicas. Os navios têm flâmulas vermelhas desfraldadas.

Na parte baixa da cena – o palco – cenário reproduz também detalhes de um outro convés, contendo bem visível o nome do navio (“Minas Gerais”), da mesma forma ocupado por marinheiros eufóricos. O conjunto cenográfico simula o encontro de três navios de guerra. No centro do convés-palco, um marujo negro saúda os marinheiros dos navios de cima, acenado a espada levantada. A maioria dos marujos são negros mulatos ou morenos. Todos portam fuzis ou espadas.

Dos dois navios do fundo são lançadas escadas de cordas. Por elas descem dois marinheiros, líderes dos navios. Marinheiros que desceram abraçam o do convés do palco que usa um uniforme surrado e está descalço.

Marujo descalço – João Cândido – fala para os que desceram.

João Cândido:

_ A oficialidade teve algumas baixas aqui no Minas Gerais. Se defenderam como puderam. Amanhã mandamos os corpos para a terra. Agora não tem mais jeito…O governo vai ter que ceder. Mão Negra! Cadê o manifesto? Tá pronto? Deixa eu ler.

Mão Negra: (passando um rolo de papel para João)

_ É bom ler mesmo, pra todo mundo ouvir. Vai valer o escrito. Quem quiser desertar da luta, a hora é esta. Agora é ganhar ou morrer!

Silêncio. João Cândido olha o papel com se o lesse. Grande estandarte com o texto ampliado do manifesto, é lançado de cima de um dos navios:

“Rio de Janeiro, 22 de novembro de 1910
Il.mo. Ex.mo. Sr. Presidente da República Brasileira.
Cumpre-nos informar a V.Excia., como Chefe da Nação Brasileira:

Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podendo mais suportar a escravidão na Marinha Brasileira, a falta de proteção que a Pátria nos dá; e até então não nos chegou; rompemos o negro véu que nos cobria os olhos de patriótico e enganado povo.

Achando-se todos os navios em nosso poder, mandamos esta honrada mensagem para que V.Excia. faça aos Marinheiros Brasileiros possuirmos os direitos sagrados que as leis da República nos facultam, acabando com a desordem e nos dando outros gozos que venham engrandecer a Marinha Brasileira; bem assim como: retirar os oficiais incompetentes e indignos de servir a Nação Brasileira.

Reformar o código Imoral e Vergonhoso que nos rege, afim de que desapareça a chibata, o bolo, e outros castigos  semelhantes; aumentar nosso soldo, educar os marinheiros que não tem competência para vestir a orgulhosa farda, mandar por em vigor a tabela de serviço que a acompanha.

Tem V.Excia. o prazo de 12 horas para mandar-nos resposta satisfatória, sob pena de ver a pátria aniquilada.

22 de novembro de 1910
Nota: Não poderá ser interrompida ida e volta do mensageiro.
Marinheiros

Marinheiros aplaudem. Desfaz-se a formação dos navios, com o recolhimento das partes do jirau que carregam suas tripulações que, saem de cena eufóricas com entraram.

Fundo da cena está agora azulado. Silhueta do pão de açúcar é projetada sobre este fundo. Num dos cantos da boca de cena, são colocadas peças de um cais.

Música para dança. Grandes estandartes de pano, simulando cascos de navios, manipuladas por grupo de marujos-dançarinos, aparecem em cena representando o movimento de uma esquadra.  O sentido estético da dança deve ser bastante suave e lírico. Canhão cenográfico apontado para o alto é empurrado para o centro da cena, oculto pelos estandartes da dança.

Figurantes e atores, caracterizados como populares, policiais, soldados, mulheres elegantes, homens engravatados, trabalhadores, etc., vão ocupando os dois cantos da cena, principalmente ao lado do cais, como se tivessem sido atraídos pela dança da esquadra.

Quando a assistência do “cais” estiver bem embevecida, dançarinos abrem bruscamente um claro entre os estandartes, deixando a luz acentuar a existência do canhão.

Canhão atira com grande estrondo e todos, figurantes e dançarinos debandam da cena assustados. Luz pisca e fixa-se em black out.

Luz volta. Fundo da cena assume tom azulado. Junto com a silhueta do Pão de Açúcar aparecem agora silhuetas de navios de guerra ancorados ao largo. Grupo de autoridades civis e militares, seguindo um almirante vestido pomposamente e com chapéu característico, olha do cais para a esquadra ao fundo com alguns binóculos e lunetas. Um oficial cochicha algo no ouvido do almirante, apontando para uma das coxias. Almirante faz sinal para que alguém se aproxime.

Dois fuzileiros trazem um marujo aos solavancos. Almirante manda que o soltem. Marujo se perfila para o almirante e fala:

Marujo:

_Sou o emissário do marinheiro João Cândido Felisberto. Trago uma mensagem urgente da esquadra.

Fuzileiros seguram o marujo e o sacolejam de novo. Almirante de novo manda soltá-lo. Marujo olha com desdém para os fuzileiros.

Marujo retira um papel de um tubo e entrega ao almirante que o lê. Demais oficiais cercam o Almirante, curiosos. Almirante fica possesso.

Almirante:

_ Nunca! Jamais! Ah, mas…Esta gentalha não vai nos…

Antes que almirante conclua a frase, som de zumbido de um tiro de canhão  corta o ar. Estrondo de explosão do tiro, logo em seguida. Autoridades fogem para fora de cena. Black out.

Luz crescendo lentamente. Música. Cena vai sendo ocupada por populares,  homens elegantes conversando, policiais, senhoras com guarda-sóis,  melindrosas, todos passeando tranqüilamente. Alguns portam adereços que  caracterizem detalhes de uma grande avenida: tabuletas de lojas, fachadas  de quiosques, vitrines, postes, triciclos, bicicletas etc.. Fachada do bonde  pode ser reposta em cena.

Um homem portando um cartaz de propaganda circula entre os populares,  gritando pregão:

Homem do cartaz:

_ Não percam! Não percam! Estréia hoje! Benjamim de Oliveira no Circo Spinelli! A Vingança do marujo! A vingança do Marujo! Sensacional espetáculo teatral! Não percam, hoje!

Cartaz:

O Circo Spinelli orgulhosamente
apresenta o sensacional espetáculo teatral:


A VINGANÇA DO MARUJO

Com o fabuloso, o insuperável palhaço negro BENJAMIN DE OLIVEIRA.  Não percam!

Além da voz do homem-cartaz e da música, nenhum outro som é inteligível  na cena. O que se ouve é apenas o burburinho das conversas dos populares.

De repente, outro som do zumbido de tiro de canhão é ouvido. Black out  simultâneo a explosão de outro tiro. Gritos histéricos e correria dos populares. Cena é evacuada, ficando inteiramente vazia.

Luz geral. Dupla de palhaços entra em cena e desenha um grande círculo de  giz, tomando todo o diâmetro do palco, exceto um pequena área em torno, onde se acomodará uma claque de figurantes.

Música de banda circense. Foco ilumina mestre de cerimônias devidamente fardado,  anunciando:

Mestre de Cerimônias:

_Senhoras e senhores! Ladies and gentlemen! O meu cordiaaaal Boaaa noooite! O grande circo Spinelli tem a honra, o inenarrável orgulho de apresentar nesta memorável noite…(rufos de tarol )…O sensacional espetáculo…A vingança do Marujo! E para interpretá-lo, ele…o inigualável…o fabuloso…o insuperável ator e clown (banda ataca acorde de suspense) …Benjamim…de O..li..vei…raaaa!.

Bandinha segue com uma marcha bem alegre. Aplausos entusiasmados da claque.

Dupla de palhaços traz ao palco-picadeiro, o elenco em fila indiana formado pelos personagens do espetáculo: Ator-benjamim-Almirante Negro, com espada e chapéu próprio; ator-senador Rui Barbosa, vestindo casaca; ator- senador Pinheiro Machado, também de casaca; ator-senador Alfredo Ellis, vestindo terno bem justo; coro de marujos descalços; coro de senadores de chapéus coco e casacas.

Atores-senadores sentam em caixotes deixados no chão pelos palhaços. Cada caixote possui o nome do senador respectivo escrito em letras grandes. Os dois coros, em lados opostos, ficam em pé atrás dos senadores e do Almirante Negro .

Um dos palhaços, sob o rufar do tarol da bandinha, mostra para a platéia,  com um risinho de chacota, o seguinte letreiro:

Letreiro:

Numa sessão do Senado Federal,
um debate DECISIVO para o Brasil

Ficando em pé em seu caixote, diante dos outros senadores, dirigindo-se também à platéia real do espetáculo, Rui Barbosa discursa:

Rui Barbosa:

_Quero crer que o governo, único responsável pela constrangedora situação atual, onde a indefinição se fez a irmã mais legítima da covardia, compreenda que o que trouxemos aqui, para esta magna casa, nada mais foram que provas…fatos absolutamente concretos e científicos, que atestam, definitivamente que…as figuras divinas, celestiais e diáfanas a que chamamos anjos…nada mais são do que fêmeas! Virgens sublimes como a mãe de Deus! Fêmeas! Insofismavelmente eu digo! (esmurrando a própria mão, com ênfase) Digo e afirmo sim!…São fêmeas todos os anjos do céu!

Claque interrompe com gargalhadas, apupos e aplausos.

Pinheiro Machado:

_ Conceda-me o ilustre colega um aparte.

Rui Barbosa: ( com irritação)

_ Que não seja longo, Senador.

Pinheiro Machado:

_ Chamo a atenção dos presentes para o seguinte. A situação difícil que se criou, o foi pela teimosia de homens como o ilustre senador da Bahia. Poderia mesmo dizer que é a turronice do excelentíssimo senhor Rui Barbosa que nos leva a este tão grave impasse. (aplausos da claque o interrompem ) Machos, eu afirmo! São machos os anjos do céu. (exaltando-se) Posso prová-lo apenas com minhas convicções.

E os bigodes, senhoras e senhores? Os respeitáveis  cavanhaques dos arcanjos, valorosos guardiões do céu? E as espadas longuíssimas que alguns deles empunham, com a força de verdadeiros homens que são? Machos, volto a enfatizar! Que órgão reprodutor teria aquele que, cumprindo os desígnios de Deus, em nome da ordem no Paraíso, expulsou Adão e Eva para os castigos terrenos? Bagos, senhoras e senhores! Bagos como os que temos nós, ferrenhos defensores da ordem e das instituições.

(Claque aplaude e apupa freneticamente )

Rui Barbosa: (também se exaltando )

_ Respeito, senhor Senador! Exijo respeito nesta casa! As ofensas de um caudilho…de um oligarca…não me atingem. Não me rebaixarei diante de suas ignomínias!

Exaltação de ânimos se generaliza. Um dos palhaços entra no picadeiro e cochicha algo no ouvido do senador Alfredo Ellis que, tenta transmitir imediatamente aos colegas.

Alfredo Ellis:

_ Atenção senhores! Temos a nossa porta uma comissão de marinheiros que…

Burburinho na claque. Senador prossegue aos berros.

Alfredo Ellis:

_ Por favor! Silêncio, por favor! Os marinheiros querem denunciar supostos maltratos sofridos por eles na Armada.

Senadores protestam por terem sido interrompidos. Palhaço sai do picadeiro e retorna, cochichando agora no ouvido de Pinheiro Machado que fica subitamente histérico.

Pinheiro Machado:

_ É grave, senhores! Muito grave! Os marujos afirmam que tem… valha-nos Deus! toda a esquadra sob o seu poder! Questão de ordem!! Questão de Ordem!!

Claque e senadores: (Burburinho)

_Oh!

Banda toca acordes dissonantes e cessa a música. Rufos de caixa. Suspense. Clima de número de corda bamba. Grupo de marinheiros, comandados pelo Almirante Negro, com pistolas, espadas e mosquetes, invade o picadeiro. Almirante negro levanta a espada, assustando os senadores que caem por sobre o coro e a claque.

Almirante Negro: (tirando o chapéu)

_ Sei que não somos anjos, senhores! Peço desculpas por interromper vosso trabalho mas…é que temos importante mensagem para o Governo.

Coro de marujos se aproxima do centro do picadeiro, se posiciona, empunhando e acenando as armas:

Coro de marujos: ( Cantando)

Chega de morrer de trabalhar, yayá
chega de comer couve com fubá, yoyô
chibata bateu, doeu, sarou
sarou, doeu
doeu, sarou o ponta pegou em quem bateu

Coro prossegue, baixinho. Pinheiro Machado se aproxima do Almirante Negro, solícito.

Pinheiro Machado:

_ Poderiam os Srs. nos descrever o esse tal Castigo da Chibata que, tal como dizem, seria praticado em nossa armada?

Banda toca melodia de música anterior, como um fundo de anúncio comercial.

Narrador em off, descreve o castigo. Coro de marujos, distribuídos no picadeiro, reproduz numa pantomima, tudo que está sendo narrado, como se fosse um número de circo. Chibatas maiores, similares as descritas na narração, são usadas para ilustrar o número.

Narrador:

_ Pegue uma corda mediana, de linho e a atravesse em toda a extensão com agulhas de aço das mais resistentes. Deixe livre das agulhas apenas um espaço para a empunhadura. Para inchar a corda, deixe-a de molho, até que só apareçam as pontas das agulhas. O faltoso tratado à Chibata, fica assim… como uma tainha, lanhada para ser salgada. Civilize o seu marujo. Use Chi-ba-ta. Chibata! Não estraga, não quebra, não mata!

Claque faz algazarra, vaia o número, e se junta aos marinheiros, revoltada.

Parlamentares isolados, se afastam assustados, cochichando. Algazarra aumenta com tiros dos marujos dados para o alto. Parlamentares fogem para as coxias. Claque e marujos gritam:

Claque e marujos:

_ Anistia! Anistia!

Em meio a um grande tumulto, senadores voltam à cena, apavorados. Um deles traz na mão um documento. Passando de mão em mão, todas elas trêmulas, o documento chega até os marujos que o entregam ao Almirante Negro que lê em silêncio. Silêncio na cena também é total.

Rufos de caixa. Marujos se acercam do Almirante Negro . Breve momento de espera. Gritos de marujos e da claque explodem na cena:

Marujos e claque:

_ Viva a anistia! Viva a anistia!

Banda de música volta com a marchinha, agora bem mais vibrante. Claque aplaude de pé. Coro de marujos carregam o Almirante Negro nos ombros, aclamado e saem de cena comemorando. Dupla de palhaços retira os senadores e seu coro de cena com empurrões e gozações. Luz e música vão caindo. Black out.

Cena 06
PRESIGANGA
Pomba Gira das almas

Gravação do hino “Cisne Branco” tocado por banda militar. Luz somente na boca de cena. Grupo de sete marinheiros entra no palco em fila indiana, carregando estandartes enrolados. O tamanho destes estandartes é no comprimento, o da extensão dos braços levantados dos marinheiros até o limite do chão, tendo na largura, tamanho que permita que ,quando
desenrolados, cubram toda a cena atrás deles. Num dos lados os estandartes são inteiramente pretos. No outro, têm manchetes de jornal reproduzidas, uma em cada um. Os marinheiros desenrolam os estandartes em seqüência, da direita para a esquerda.

Manchetes:

27 de novembro de 1910
TERMINOU, DEFINITIVAMENTE
A SUBLEVAÇÃO DOS MARUJOS!

28 de Novembro de 1910
VASSOURADA NA ARMADA!
Governo decreta exclusão de marinheiros a bem
da disciplina na Esquadra.

10 e Dezembro de 1910
NOVA REBELIÃO NA ARMADA!
Batalhão Naval em armas!

10 de Dezembro de 1910
FORÇAS LEGAIS MASSACRAM REBELDES DO
BATALHÃO NAVAL!
Marujos da Chibata leais ao governo.

10 de Dezembro de 1910
MARUJOS DA CHIBATA DIZEM QUE A REVOLTA DOBATALHÃO NAVAL FOI UMA FARSA!

10 de Dezembro de 1910
ESTADO DE SÍTIO!
Exército e policiais prendem rebeldes e arruaceiros.

10 de Dezembro de 1910
PRESO AO DESEMBARCAR O MARINHEIRO JOÃO CÂNDIDO!
Todos os rebeldes da Chibata encarcerados!

Black out breve. Marinheiros viram os estandartes com os lados negros voltados para o público. Luz volta. Marinheiros exibem as tarjas negras por um instante e saem de cena da mesma forma como entraram, deixando á vista a cena seguinte, que foi inteiramente montada por figurantes e atores, enquanto esteve encoberta pelos estandartes das manchetes. Música cessa.

Ópera “Taunhauser” de Wagner soando na cena. Três mesas comuns, dispostas em pontos destacados do palco, com oficiais do exército sentados, atendendo a filas de prisioneiros. Duas destas filas são formadas por populares e outra, em ponto destacado da cena, só por marinheiros.

Os marujos estão com os uniformes incompletos e amarrotados. Alguns populares estão em trajes de dormir. Os presos não falam e só se ouvem os gritos dos soldados e oficiais organizando as filas.

Todo o elenco deve estar em cena. Grupos que já passaram pela triagem nas mesas, voltam às filas contornando os bastidores, demonstrando grande fluxo de prisioneiros.

Grupo heterogêneo de prisioneiros ruidosos, aparecem de repente. São prostitutas, mendigos, motorneiros de bonde, malandros e capoeiristas.

Guardas tentam por o grupo nas filas mas estes reagem com um tumulto.  Guardas batem em alguns do grupo, inclusive numa mulher que foge para a platéia. Guarda a persegue. Tumulto se agrava e oficial grita ameaças.

Oficial:

_É a Presiganga! É a Presiganga! Vocês vão embarcar…Não adianta! É tudo vagabundo aqui. A ordem é mandar vocês todos pra bem longe do mundo!

Guardas dominam a fila com a ameaça das armas. Outra mulher corre para a boca de cena.

Mulher 01:

_É governo de gente sem mãe. Se tivesse, a mãe devia era estar lá com gente, na zona. (falando com a outra que está na platéia: ) Não é Jerusa? Nem o diabo me põe nesta fila. Sente só…fede a defunto.(mostrando o braço) olha só a bordoada que me deram! Vão ter que explicar que crime político é este que eu fiz pra ser pega assim, pelo Estado de Sítio…Ou será que a gente se virar já é ameaça a segurança nacional? Eu tô dizendo. É tudo frouxo, Jerusa! É governo de merda!

Guarda desce à platéia e corre atrás da segunda mulher. Outro agarra a que falou na boca de cena. Mulher da platéia ao ser agarrada grita:

Mulher 02:

_ Larga, larga! Seu cachorro! Tu só é homem de mosquete na mão. Borra botas! Xibungo!

Guardas dominam as mulheres que são devolvidas para a fila, puxadas pelos cabelos. Prisioneiros se aquietam. Oficial da mesa dos marinheiros chama guardas.

Oficial:

_ Mais dois guardas aqui! (para dois guardas )Escoltem esta cambada pro cais. Cadê os marujos? (para outro guarda )Separa eles…Confere aí guarda. Traz as nove gracinhas até aqui!

Guarda traz os marinheiros amarrados com cordas nos pulsos. Marinheiros estão assustados. Oficial se dirige aos marujos com sarcasmo:

Oficial:

_ Vão passear de barquinho? Não sabiam? Pois vão sim, suas gracinhas Vão pro navio “Satélite”, sabem qual é? Hum…Pois se preparem. Quero ver vocês fazerem rebelião na boca de tubarão.

Luz caindo. Som de sereia de navio. Filas vão sendo encaminhadas pelos guardas para fora de cena. Alguns prisioneiros tentam reagir, xingam os guardas, se debatem. Os últimos tumultos vão se diluindo, encobertos pelo som insistente da sereia de um navio e pelo black out.

Som de sereia de navio prossegue no black out, espaçadamente. Coro de vozes afinadas canta “noite Feliz” em alemão.

“Heilligue nacht
Stile nacht
Alles schläft
Einsam wacht
Nur das traurigue
kindlein schläft
Rut gehrut
auf die wiglein schläft
Schlafe in himmlischer ruhn
schlafe in himmlischer ruhn”

Coro vai repetindo a canção, solfejando. Grande estandarte de pano, como o perfil do casco de um grande barco puxado por atores, avança lentamente em sentido longitudinal ao palco, quase na linha da boca de cena. Na superfície do pano-barco está escrito o seu nome: “Satélite”.

Atrás deste pano-barco, atores e figurantes iluminados por trás, formam silhuetas de um grupo de prisioneiros dominados por soldados armados de fuzis e espadas. Algumas sombras de soldados circulam pelo espaço como a montar guarda.

Com a canção ao fundo e os sons esparsos de tiros e gritos, as ações principais descritas pelo texto narrado a seguir, também serão reproduzidas por movimentos das silhuetas projetadas no pano-barco

Voz narra o texto sem nenhuma emoção particular:

Narrador: ( em off )

_ …”A partida do porto do Rio de Janeiro, foi a 25 de Dezembro, pelas onze horas da noite. A descarga do navio iniciou por volta da meia noite de 24 e terminou por volta das 22 horas do dia 25 e, ato contínuo se deu o embarque do pessoal para os porões que estavam imundos, devido ao carregamento de açúcar bruto…Nestas condições partimos, levando 105  ex-marinheiros, 292 vagabundos, quarenta e quatro
mulheres e cinqüenta praças do exército.

No dia 26, adoeceu um dos nossos foguistas. Fiz subir um dos
prisioneiros afim de substituir o doente. Este denunciou que nos porões se tramava uma revolta, comandada pelo ex-marinheiro Hernani Pereira dos Santos, vulgo “Sete”. No dia 27. Com os inquéritos, alguns marinheiros foram algemados.

No dia 1 de janeiro, quando entrava o ano de 1911, estávamos já fora da barra e me afastei da costa para serem fuzilados seis homens, o que fizeram às duas horas da manhã porém dois, sendo um o “Chaminé”, se atiraram ao mar, morrendo afogados, visto que estavam com os pés amarrados.

No dia 2 de janeiro, às 23 horas, foram fuzilados mais dois marinheiros.  Ao todo foram mortos 9 bandidos que conduzíamos…

No dia 3 de Fevereiro, foram entregues ao Capitão Rondon, duzentos homens, conforme ordem do governo. Os restantes, teriam que descer com eles, deixando-os pelas margens do rio. Os seringueiros, ao longo do rio, iam pedindo homens e assim, no mesmo dia, ficamos livres das garras de tão perversos bandidos.

Navio “Satélite”
Rio de Janeiro, 5 de Março de 1911
Diário de bordo do
Capitão Carlos Brandão Storry

Ao final da narração e suas ações respectivas, pano-barco sai de cena lentamente, junto com a luz e a canção, ficando o palco inteiramente às escuras.

Cena 7
Katumbi

Exu das sete encruzilhadas

Dois oficiais e alguns fuzileiros navais entram em cena iluminando-a com uma lanterna de navio. Trazem consigo 18 marinheiros presos. Os marujos estão todos amarrados, descalços e sujos. São empurrados através da grande porta de uma masmorra. Toda a cena é iluminada apenas pela lanterna.

Porta da masmorra é fechada. Fuzileiros batem nela com o cabo dos fuzis. Oficial fala:

Oficial 01:

_ Malta! Corja de rebeldes de merda! Deram sorte de não terem sido embarcados para o Amazonas. São protegidos, não é? Diz que até ministro inglês defendeu vocês. ´Tá certo. A gente não vai esquecer este detalhe.

Fuzileiro 01:

_ Agora é com vocês, cambada!

Fuzileiros riem.

Oficial 2:

_Vão apodrecer agora aí dentro! Quando estiver fedendo, cheirando mal, eu mando pegar vocês, tá certo?

Fuzileiro 02:

_ Vamos ver agora, né gente? A valentia dessa negrada. Vão jogar capoeira com o capeta!

Todos soltam gargalhadas.

Oficial 01: ( Aproximando o rosto da porta )

_ Tem muito João aí? Só tem um não é mesmo? Quando não tiver mais nenhuma raça de João aí dentro, a gente solta todo mundo, tá bom? Quero esse tal de João Cândido morto, acabado! Ele não diz que é almirante? Pois agora ele vai ser almirante é no céu ou…nos quintos dos infernos!

Oficial 02: ( chamando os outros para se retirarem )

_ Agora é com vocês, seus bostas!

Fuzileiros e oficiais saem com a lanterna.

Luz de cena sobe um pouco, revelando o interior da masmorra. A porta é grossa e pesada, parece ser de ferro, com uma pequena abertura. Os marinheiros presos, largados pelo chão, parecem dormir. Estão inertes, deitados ou agachados com as cabeças entre as pernas.

Som de vozes cantando e instrumentos de percussão, começa a soar como se viesse de longe. A música é a de um bloco de carnaval mas, a harmonia das vozes é lúgubre e o andamento do ritmo é arrastado e marcial.

Luz sobe mais, junto com o volume da música que se aproxima. Figuras fantasiadas vão surgindo, os rostos são pálidos, pintados de branco, como fantasmas. São pierrôs, colombinas, melindrosas, arlequins e outras figuras típicas de carnavais antigos. Comandando o bloco, que está dividido em dois grupos, duas figuras fantasiadas de militares, com roupas semelhantes as de oficiais da marinha.

Uma delas está com o rosto coberto com uma máscara de diabinho de carnaval, a outra da mesma forma usa uma máscara de morcego. As duas figuras que comandam o bloco, carregam longas tripas de pano preenchidas com areia e bexigas e com elas golpeiam o chão com violência.

Grupo chefiado pelo diabinho, carrega latas de talco com os quais vão enevoando a cena. O grupo do diabinho carrega também um estandarte onde se lê:

ALA DO CAL VIRGEM

O segundo grupo, com seringas de água, parecendo grandes frascos de lança-perfume, vão molhando o chão e os prisioneiros. No seu estandarte se lê:

ALA DO ÁCIDO FÊNICO

Luz adicional projeta sombras das figuras nas paredes. Com o barulho, João Cândido é o único a despertar. Levanta-se apavorado.

Figuras do bloco o assediam.

Desesperado, João corre de um lado para o outro. Foliões o perseguem, rindo debochados. João tenta se proteger encostando na parede. Foliões-fantasmas vão acuando João na parede, para assustá-lo ainda mais. João é cercado pelos dois grupos e desaparece no meio deles e da névoa de talco. João dá um grito de desespero.

Black out. Figuras desaparecem.

Luz voltando. João está estático, no mesmo lugar onde foi acuado. Olha para o vazio. Luz agora ilumina toda a masmorra enevoada. Tossindo, um dos presos-Pau da Lira-acorda olha para João que parece estar em choque. Circula o olhar pela masmorra. Sacode os outros presos  que não se movem porque estão mortos.

Pau da Lira, sempre tossindo se aproxima de João que parece não percebêlo. Abraça João e fala:

Pau de Lira:

_ Só tem nós, João! Só tem nós! Olha que tristeza! Tá tudo inchado que nem sapo. Morreu todo mundo, João! Que covardia! Vai até aporta, bate nela com força, grita:

Pau da Lira:

_ Acode aqui, gente! Misericórdia!(olha para João que está apático e não ajuda a gritar) Ai, João…me ajuda a gritar! A gente acaba morrendo também. Ai meu Deus!

João Cândido: (desorientado )

_ Ajudar pra quê? Eu já morri, Pau da Lira! Eu também tô morto, homem. É verdade! ´Cê não vê? (olhando os mortos, sacudindo um ou outro ) De que adianta viver agora? Me diz! Grita, grita! Pode gritar…Diz que o João Cândido já morreu!

Luz caindo até black out. Alguns segundos de silêncio e escuridão. Barulho de molho chaves. Barulho forte da porta de ferro se abrindo no Black out. Voz na cena às escuras.

Fuzileiro:

_Tenente! Corre aqui! Virge Maria! Cruz credo! Que fedor desgraçado!

Tenente:

_ Entra logo, anda! Ai meu Deus do céu! Vê se sobrou algum desgraçado vivo! O governo agora quer esse tal do João Cândido vivo! Tá o maior escândalo na imprensa. Vai! Rápido!

Música característica da década de 60. Luz voltando lentamente mostra o fundo da cena iluminado de azul, com a silhueta do pão de açúcar e o cais num dos cantos do palco.

Luz crescendo. Atores e figurantes entram na cena com pequenas barracas de feira  desmontáveis e grandes cestos de peixe. Entre eles está um peixeiro negro, velho parecendo ter mais de setenta anos.

Peixeiros montam a barracas no palco com grande alarido e em muitos gritos de pregão. A cada barraca montada e abastecida, os pregões vão se avolumando, até que toda a cena esteja tomada de barracas e vendedores de peixe gritando.

Alarido vai se reduzindo com a entrada de policiais à paisana que circulam pela feira, olhando desconfiadamente para todos os peixeiros.

Dois homens brancos, de terno e gravata, entram pela platéia, sempre perguntando algo a alguém do público. No palco, sua perguntas começam a ser ditas em voz alta. Burburinho da feira prossegue ao fundo em baixo volume. Música cessa.

Homens de terno -Jornalistas -perguntam a um peixeiro:

Jornalista 01:

_… João Cândido. O senhor conhece?

Peixeiro: (apontando a última barraca )

_ O João daqui é aquele ali, ó! Só não sei se é Cândido. Deve ser. Eu tô nessa feira de novo.. Sabe como é..

Jornalistas não esperam peixeiro acabar. Se aproximam rapidamente até a barraca apontada, ansiosos. João usa um chapéu de palha, um avental branco e longas luvas e botas de borracha.

Jornalista 02: ( para João )

_ Bom dia! O senhor não é o João Cândido Felisberto, o Almirante Negro?

João Cândido: (Sem levantar a cabeça, desconfiado)

_Almirante eu não sou não senhor mas…João Cândido, bom…sou eu mesmo.(encarando os homens ) Os senhores são da polícia, não é mesmo?

Jornalistas sorrindo sem graça.

Jornalista 01:

_ Não, não! O que é isso, seu Cândido? Nós somos é da imprensa. Do “Correio da Manhã”, sabe? É que a gente queria entrevistar o senhor e…mostrar uma coisa ( tirando um jornal dobrado do bolso de trás da calça ) Bom…é que…

Jornalista 02: (pegando o jornal do outro e dando a João )

_ Não sei se o senhor já sabe mas…

João pega o jornal e olha. Fica triste com o que lê.

Jornalista 01:

_ Sinto muito, seu Cândido. Muito mesmo! Vão desmontar o navio, o “Minas Gerais” vai virar ferro velho, sucata. Amanhã mesmo vão deslocar ele para o estaleiro. É por isso que a gente quer fazer uma matéria com o senhor. Como é que o senhor vive? Depois de tanto tempo…O que o senhor acha?

João não responde. Policiais a paisana se aproximaram do grupo e ficaram perto, fingindo escolher peixes na barraca. João olha para os policiais, tira o avental e as luvas e se retira de cena, seguido pelos jornalistas. Policiais vão atrás

Burburinho da feira cresce de novo. Luz vai caindo devagar. Barracas vão sendo desmontadas. Burburinho vai caindo durante o desmonte da feira. Luz se apaga totalmente quando o palco estiver limpo.

Música “O lago dos Cisnes”. Luz retornando. Fundo da cena com silhueta do pão de Açúcar é cortado pelo pano-barco bem esfarrapado. Trazido pelos atores ele avança em direção a uma das coxias. Encouraçado deve ter a maior altura possível e vai penetrando na cena lentamente. Nele se percebe o desenho de âncoras e a inscrição:

ENCOURAÇADO MINAS GERAIS

Ruído longo de sereia de navio. Figurantes esticam longas e estreitas tiras de tecido no sentido longitudinal ao palco e no nível do chão, fazendo com que elas tremulem, simulando ondas. João Cândido sentado, remando um bote azul e branco, como um” barquinho de Iemanjá”, é puxado da coxia oposta a que vem o navio, indo ao seu encontro.

João segue de braços abertos para encontrar o navio e no momento do encontro, faz como quem o abraça e acaricia.

Música cresce. Neblina. Pano-navio some de um lado. João segue remando para o outro, cabisbaixo, lentamente, seguido por um canhão de luz que vai se apagando. Música vai saindo também suavemente.

Fundo da cena agora é branco e sem silhuetas. Luz retorna bem forte. Vindos de trás da platéia e em grande reboliço, um grupo de “Clóvis” com fantasias vermelhas e brancas entra em cena com estardalhaço, batendo no chão com bexigas e soprando apitos estridentes.

Já no palco, organizam-se numa pose, como se fosse para uma foto. Acima das cabeças dos demais, um dos “Clóvis” levanta uma tabuleta onde se lê:

RIO DE JANEIRO, SÃO JOÃO DE MERITI 1969
MORREU O ALMIRANTE NEGRO!

Som de sirene da polícia. “Clóvis” fogem em debandada de cena. Policiais entram, revistam o palco e as coxias e somem também.

Diabinho de carnaval, circula pelo palco batendo com a chibata no piso. Numa das coxias, traz pela mão um ator fantasiado de Morte. Morte apita para outra coxia e uma pequena bateria de escola de samba entra em cena. Na frente da escola, um abre-alas onde se lê:

O GRES EXU DE MERITI AGRADECE A IMPRENSA FALADA,
ESCRITA E TELEVISADA E PEDE PASSAGEM,
APRESENTANDO O SEU ENREDO:

O ALMIRANTE NEGRO.

Restante do elenco entra em cena dançando. Todos trazem na mão barquinhos em dobraduras de jornal. Estão vestidos com roupas do espetáculo, de forma que se tenha em cena representados, grande parte dos personagens das ruas e dos carnavais do Rio do início do século. Estão em cena colombinas, motorneiros de bonde, prostitutas, marinheiros, pierrôs,
arlequins, melindrosas e índios, além é claro do Diabinho, dos Clóvis e da Morte que já estavam em cena. Diabinho sai do palco por um instante.

Barquinho de Iemanjá, é trazido para a cena. No corpo do barco se lê:

C7
CRUZADOR JOÃO CÂNDIDO FELISBERTO
MARINHA FANTÁSTICA DO BRASIL

Diabinho reaparece vestindo uma túnica e um chapéu de almirante, tudo muito cintilante de lantejoulas e perfilando-se em frente ao barquinho de Iemanjá, deposita nele o chapéu e a túnica de almirante que vestia .

Elenco e bateria de samba, como num bloco de carnaval, acompanha o barquinho para fora de cena, sempre dançando e cantando. Barquinhos de jornal são largados no chão espalhados.
Elenco continua a cantar e tocar nos bastidores. Luz vai caindo. Música cessa.

Voz verdadeira de João Cândido, gravada em fita ecoa na cena:

João Cândido: ( off )

_ Eu, João Cândido Felisberto, por seis dias parei o Brasil!

Som gravado de tempestade e trovões. Som longo de sereia de navio. Canhão de luz vai se fechando, enquadrando um só dos barquinhos de papel deixados no palco.

Silêncio. Marujo Kalunga, seguido pelo canhão de luz, volta a cena, finge enxugar uma lágrima, pega o barquinho, coloca no bolso e mostra última tabuleta do filme mudo:

NO SÉTIMO DIA, JOÃO DESCANSOU.

Canhão de luz, enquadrando o marujo kalunga com a tabuleta, vai se fechando

FIM

Praça Seca, Rio de Janeiro
© Spírito Santo, Dezembro 1994

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Notas finais:

Exu Chibata, texto escrito em 1994,  tem como proposta principal o estabelecimento de um  diálogo estético ou dramatúrgico entre algumas das linguagens e mídias mais em voga na época em que se passa a ação do espetáculo (início do século 20, entre 1904 e 1910) dialogo estético este que,  de certo modo aproxima a proposta de um  ‘gênero’ teatral muito em voga na mesma ocasião: O  Circo-Teatro.

Época de grande efervescência cultural e artística contrapontuada por grandes conflitos sociais. O eixo dramático principal da peça envolve os incidentes ligados a chamada Revolta da Chibata, comandada por João Cândido Felisberto (o ‘Almirante Negro’) contextualizada neste conturbado período no qual, enquanto no Brasil se tentava afirmar a ferro e fogo o regime republicano recém proclamado, o mundo europeu começava a se agitar com as graves divergências que culminariam com a sangrenta primeira guerra mundial.

A epoca é também marcada fortemente pelo doloroso processo de transição das relações sociais na cidade do Rio de Janeiro, na qual uma imensa massa populacional negra, ainda mal refeita da escravidão abolida há apenas uma década, começava já a experimentar as insidiosas restrições do recém inventado racismo.

Os aspectos estéticos principais, referentes a proposta estética sugerida para o espetáculo, estão ligados também aos elementos mais aparentes da chamada Belle Époque, da Art Nouveaux, do Cinema Mudo, da Mímica e da Pantomima (linguagens que inserem o espetáculo no âmbito de um teatro essencialmente imagético  no qual as falas não são exatamente fundamentais).

Neste mesmo sentido primordialmente imagético, a proposta tenta se associar também a certas formas e maneirismos do popularíssimo Circo-Teatro – um ‘Circo-Teatro’  idealizado, diga-se – forma  implantada no Brasil por atores circenses geniais como Polydoro,  Benjamim de Oliveira e  Eduardo de Oliveira.

São importantes também a utilização de certas soluções cênicas baseadas nas estéticas mais evidentes do carnaval de rua do Rio de Janeiro, nos rituais do Candomblé e na obra do artista plástico e ex-marujo Arthur Bispo do Rosário.

Registro Biblioteca Nacional 2349087 / 1994Rio de Janeiro 1994Ficha técnicaTexto e concepção cênica :  Spírito SantoFontes bibliográficas consultadas: Tia Ciata e a pequena África do Rio de Janeiro – Roberto MouraCarnavais de Guerra – Dulce TupiLiteratura como missão- Nicolau SevcenkoA Revolta da Chibata – Edmar Morel

Lima Barreto –  Obras completasQuatro dias de Rebelião –  Joel RufinoO negro no Brasil. Da senzala à guerra do Paraguai – Júlio José ChiavenatoBenjamim de Oliveira, o palhaço negro – dados orais da Pesquisa de João Siqueira.O negro da Chibata – Fernando Granato-Fontes audiovisuais consultadas (para concepção estética e cenográfica )Áudio de depoimento de João Cândido – Museu da Imagem e do Som- Rio de Janeiro 1968Belle Èpoque e Art-Nouveaux – no Rio de Janeiro do início do século 20 – Iconografia / Obra de Arthur Bispo do Rosário – Museu do Inconsciente / Hospital Psiquiátrico Pedro Segundo/R JRitual de saída de Exu – Terreiro Axé Shangò Bomi, R.J -Arquivo Vissungo 1996Depoimento de Aniceto Menezes – Arquivo Vissungo 1982Escolas de Samba e Carnaval Carioca dos anos 60- Iconografia / DiversosFilmografia / O Cinema Mudo de Carlitos,  ‘Comedy Capers’, United Artists, etc.-EEUU O encouraçado Potenkim – Serguei Eisenstein, URSS-Filme

Apoio pesquisa: Néia Daniel de Alcântara

Kwame Opoku: A consciencia do homem é negra


Foto de Fernando Rabelo - Folha Press

Brasil e consciência negra.

(Para a africana Lucia Kudielela)

Há muitos anos atrás quando eu vivia em Viena Áustria, Kwame Opoku do Ghana, um grande e bom amigo que fiz por lá (na Europa, bem entendido), resolveu confessar toda a sua contrariedade com a insistência com que eu justificava coisas que não conseguira realizar no Brasil, alegando como impedimento incontornável o racismo.

Advogado na sede da ONU em Viena, velho adepto das grandes causas africanas de nosso tempo, tive a honra de admirar na casa dele, fotos suas com Amílcar Cabral, Nelson Mandela, Sam Nujoma e tantas outras enormes e memoráveis figuras do renascimento africano  as quais, de algum modo meu amigo esteve ligado por dever de ofício ou militância. Estar perto de uma pessoa associada tão diretamente à história moderna do negro africano me fazia ficar exultante. Sentia-me assim também muito próximo daqueles gigantes lutadores pela liberdade dos homens, orgulhos da raça humana, heróis da minha geração.

Mas demorei muito a assimilar a contrariedade de Kwame. Ela me constrangia e envergonhava bastante. Sentia-me enquanto negro brasileiro um pouco diminuído, num sentimento de inferioridade estranho para uma pessoa como eu que sempre se vangloriou de sua combatividade, seu engajamento político, de sua militância enfim.

Mesmo orgulhoso de, inusitadamente ser o professor de marimba africana de um africano real – Pasmem, mas é isto mesmo! Bem antes de ser meu amigo, o já velho Kwame (desconfio eu um membro destacado de alguma casta da nobreza ashanti, segundo pude testemunhar numa festa de reverentes conterrâneos seus) fora educado num liceu de Accra, onde havia tocado piano. Um africano refinado como europeu, digamos assim, mais, sobretudo um africano com um recôndito desejo de aprender a tocar um instrumento musical de sua cultura ancestral.

Kwame comprou o instrumento que – imaginem!- eu mesmo havia fabricado no Brasil e  levado para Viena. Um ano depois  Kwame acabou se tornando meu aluno, numa inusitada relação cultural invertida entre um brasileiro afro-descendente e um africano ‘legítimo’.
Isto me animava e redimia um pouco, mas devo reconhecer que demorei algum tempo mais para compreender de onde vinha aquele sentimento de quase desprezo de Kwame pelas minhas lamúrias de negro brasileiro revoltado.

_” Há racismo lá no Brasil? E vocês, sendo tantos como são, aceitam?”_

Era esta a admoestação mais recorrente que ele me fazia, querendo dizer com isto que talvez nós estivéssemos sendo condescendentes demais, omissos demais diante das afrontas e impedimentos que o racismo nos impunha. Jamais consegui convencê-lo da força insuperável das amarras que nos tolhiam.

Jamais me recuperei daquela sensação de fera afrontada. Fiquei até hoje achando que talvez falte mesmo em nós, brasileiros – e isto estava explícito no sentimento honesto de Kwame, o africano – a  consciência do que significa ser mesmo um afro-descendente, um negro-africano desgarrado, além da vívida sensação que temos do estigma, da pecha de ignorantes, despreparados e submissos que carregamos nas costas.

Reconheçamos que só os nossos antepassados africanos, trazidos para o Brasil como escravos, manietados e subjugados pela força bruta, é que tiveram o direito de incorporar, de assimilar, de se curvar diante da opressão (mesmo fingidamente que fosse, saltando para trás como os capoeiristas negaceando o golpe) por necessidades de sobrevivência física.

Reconheçamos, sobretudo que, mesmo assim, mesmo podendo se acovardar diante da força bruta e da morte, muitos de nossos antepassados ainda assim, insubmissos morreram, lutando, apenas para nos legar as lições e o sangue de sua descendência.

Sei que são palavras amargas no dia em se deveria apenas  exaltar nosso orgulho, mas me ocorreu dizer agora mesmo que falta-nos talvez e ainda – a consciência negra plena e profunda – o traquejo para manejar ferramentas válidas da insubordinação e da revolta, a consciência ampla dos nossos direitos – não de negros tão somente, mas de homens – direitos básicos humanos enfim, ainda hoje quase que apenas concedidos por brancos ‘bons’, ‘solidários’ ou ‘piedosos’ – e muitos o são honestamente, coitados – e quase nunca conquistados pelo esforço organizado de nós mesmos, a reboque de nossas geralmente pífias lideranças, oportunisticamente aboletadas nos poleiros do poder.

Talvez falte a nós, negros brasileiros, o instinto africano de romper enfim, de uma vez por todas, com a escravidão emocional que ainda está entranhada em nós. A consciência de que, haja o que houver, façam o que fizerem para nos submeter, somos e seremos livres sempre sim.

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Depois desta estada em Viena – ironicamentea pátria de Adolf Hitler – trocando lições de negritude com Kwame Opoku, o africano, passei sempre a observar melhor a diferença sutil que existe entre ter consciência negra e ter a consciência de ser negro.

A primeira consciência (a de ter) reside na profunda e refletida compreensão dos valores morais, éticos, sociais, culturais enfim contidos na herança africana de irmãos na diáspora, a busca incessante pela essência de ter a África simbólica dentro de nós, de ter humanidade enfim, onde quer que se esteja neste vasto mundo. A consciência de si per si, de sermos nós mesmos os reis, cada qual com mais um rei seu na barriga.

A segunda consciência (a de ser) seria manter a alma inquebrantável, a consciência ideológica limpa, adquirida na convivência com a exclusão social reiterada e o racismo num país que tem negros, mas que também tem – fazer o que? – brancos, na busca de saídas para fazer a ‘coisa certa’ junto com a maioria – e não no oco de uma minoria ‘negra’ de ocasião, no convescote de uma casta sórdida – para romper as barreiras mentais de nossa submissão, daquela escravidão emocional que nos aniquila e avilta a todos.

A consciência sócio racial de jamais ficar trancado no gueto escuro de nós mesmos, na síndrome da dicotomia que, separando maquiavelicamente negros de brancos, perpetua  e legitima a desigualdade, assim justificada pelas alegadas diferenças de um – a branca elite – supostamente sempre superior aos demais – todos aqueles que não sendo brancos, passam a ser negros, simplesmente por exclusão.

A consciência plena de saber se colocar acima deste mundo de iniquidades que o racismo introjetou nas cabeças de nós todos, negros e ‘brancos’ do Brasil.

A consciência enfim de que, para todos os efeitos, o Brasil é essencialmente um país com negros, que só atingirá o ansiado sucesso de seu processo  civilizatório (como dizia o saudoso Darcy Ribeiro) no dia em que tiver consciência de sua natureza pan-africana, super humana  de ser, quando tiver, definitivamente se assumido  como Brasil brasileiro de todos nós.

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Nunca mais vi Kwame Opoku, o africano. Dele tenho notícias esparsas, sei, por exemplo, que se aposentou do trabalho na ONU. Depois que deixei de vê-lo muita coisa mudou. Mandela foi libertado, por exemplo.  A África do Sul virou uma grande nação. Angola caminha para isto, a África sofrida ainda em certos bolsões renitentes de ditadura e pobreza também e sobretudo, anda.

Desejaria nos Dias da Consciência Negra no Brasil que nós, os negros e os brancos deste nosso país de sonhos perfeitamente realizáveis e angústias passageiras, fizéssemos um exame de consciência e partíssemos para a luta às nossas próprias custas e riscos, certos de que assim –  e só assim – a vitória será certa.

Spírito Santo
Novembro 2010

Brasil Afro #03 – Ainda Palmares e um necessário parentese africano


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Clique na foto e a amplie. Fique chapadão como eu. Na gravura do pintor holandês Olferd Dapper, uma vista panoramica da incrível – e enorme – capital do ‘reino’ do Loango no século 17. O Loango era um sobado suserano (um reino menor e subalterno) do grande Reino do Kongo que, pode-se ver agora, devia ser muito maior do que imaginávamos.

(Leia os sensacionais posts #01, #o2 e desta série)

Se liga galera: Negros não nascem de pés de repolho

Eu sei. Promessa é dívida. Fiquei de desvendar um segredo crucial desta saga angolana no Brasil: O mito do menino Zumbi sequestrado.

Vou cumpri-lo, claro, mas me dei conta agora mesmo de que vocês estão – como eu estava –boiando totalmente nesta história, na História maiúscula desta gente preta que deu no que somos hoje todos nós.

Incrível, mas vocês não sabem de nada. Cegos em tiroteio. Também não é para menos: Ninguém se deu ao trabalho de colocar esta parte da nossa história num livro didático. Numa ou noutra tese de doutores ela está, mas quem lê teses de doutores? O certo é que – sabe-se lá quem – falsearam, forjaram e omitiram totalmente de nós alguns detalhes.

Negros não nasceram de pés de repolho, não é mesmo? Estamos aqui porque nossos parentes vieram de algum lugar.

Daí ficarmos assim, achando que nosso jeito africano de ser surgiu – sem desmerecer os silvícolas ameríndios que também somos – da improvisação, do atavismo de um bando de selvagens de tanga, arco e flecha, envolvidos em ritos bárbaros e trazidos à força para um ‘civilizado’ Brasil.

Mentira deslavada, sabe-se lá por quem lançada. E nem nos interessa mais saber por quê. Cuidemos de, cabalmente desmenti-las e pronto. Vocês verão que o segredo impressionante que estou guardando sobre a farsa do menino Zumbi sequestrado – o tcham tcham tcham tcham desta série – fará muito mais sentido depois deste mergulho na mais remota história de nós mesmos, negros e brancos do Brasil.

Não precisa nem dizer: Eu sei que você, brasileiro (ou angolano), estudou bastante história portuguesa no ginásio. Dom Sebastião, o venturoso, batalha de Alcacerkibir, sei lá, estas coisas aí bem ‘trás-os-montes’. É hora de perguntar então (pelo menos os brasileiros): Porque não nos ensinaram a história de Angola?

A hora é esta então: Em vez da história da nobreza portuguesa, coloquemos  em foco, aqui e agora, a história gloriosa de nossa própria e preta nobreza de descendentes de lá dos ‘trás-os-oceanos’.

Sim por que, no século 17 – época na qual o Kilombo de Palmares cresceu e prosperou – Angola e Brasil eram praticamente uma colônia só. Tudo nos unia, até mesmo as guerras. A maioria esmagadora dos negros de Palmares veio dos reinos do Kongo e de Angola.

Ué?! Não te contaram isto não?

Há um lençol pudico, uma névoa de censura envergonhada cobrindo o nosso espelho étnico neste em em muitos outros aspectos – e este é o tema central desta série de posts – nossa imagem africana real precisa ser revelada. Vamos pensar mais nisto então, enquanto corremos atrás do que nos diz respeito?

África. Século 12, 13, por aí:

Ndongo, reinos do Kongo e de Angola

Tendo Lukenyi Lua Nzama como mãe e Nimi a Nzima como pai, Nimi a Lukenyi, tido como o patriarca do povo Kimbundo, pelo que se conta, era um moço caçador que vindo dos lados do rio Kwangu se estabelecera com sua gente em Lemba, localidade perto do Matadi, bem próximo ao estuário do Rio Kongo. As migrações africanas que geraram o que seria mais tarde o império do Kongo, com um dos clãs chefiados por este Nimi a Lukenyi foram contemporâneas ás invasões bárbaras na Europa no século 14, mais ou menos na mesma época de Joana D’arc, na França.

Em Janeiro de 1482 D. João II, já entronizado como rei, ordena que o navegador Diogo Cão parta em viagem de prospecção e “descobrimento” da costa de África. Em 1483 ele chega à foz do Rio Zaire. Volta uns meses depois e se depara com muitos nativos com os quais não consegue estabelecer muita conversa, exceto sugerir que voltará daí a pouco tempo e que gostaria de conhecer o rei de todo aquele país. Deixa por lá desta vez quatro padres franciscanos com a incumbência de irem até onde reside o rei do lugar.

Em Abril de 1484 Cão sai de Lisboa para a segunda expedição a África. Nesta sua volta ao Kongo, aguarda por muito tempo pela chegada de padres que havia deixado na viagem anterior. Não há sinal dos franciscanos. Gente totalmente desconhecida para os habitantes da terra os padres haviam sido levados á presença do soberano local no interior da selva e de lá não puderam se afastar, segundo disseram mais tarde, por causa da enorme curiosidade dos nativos pelo que eles contaram acerca dos estranhos hábitos dos brancos, além da curiosidade que eles mesmos tiveram acerca dos hábitos dos nativos.

Deduzindo talvez (os textos são ambíguos quanto a isto) que os padres poderiam ter sido capturados ou mortos, Diogo decide levar como reféns em seu retorno para Portugal, um grupo de naturais da terra que, também por mera curiosidade, haviam entrado no navio. Os documentos afirmam que entre estes curiosos visitantes do navio, naturalmente uma expedição com o intuito de investigar quem eram aqueles homens ‘albinos’, estava Kassuta, o filho do atual soberano local, Nzinga Nkuwu.

Levados á Lisboa, direto para a presença do rei e, por conta do longo tempo da viagem, já falando alguma coisa de português, Kassuta, filho de Nzinga Nkuwu e seu séquito ficam em Portugal por cerca de dois anos, segundo os relatos portugueses sendo muito bem tratados na Corte de Lisboa. Bem vestidos á moda local e convertidos ao cristianismo, este embaixadores involuntários teriam sido encorajadas á servirem de intérpretes dos portugueses que os devolvem ao Kongo em 1487.

Desta vez Digo Cão é realmente levado á Mbanza Kongo (‘Mbanza’ significa ‘capital’ na língua local, o kimbundo) do que passou a ser conhecido como o Reino do Kongo. Recebido com uma grande festa, os portugueses reencontram sãos e salvos os quatro padres franciscanos. O rei do Kongo reencontra com muita alegria os seus compatriotas e seu filho que, embora vestidos de forma tão espalhafatosa, depois de encantados com a influencia dos costumes de Portugal, parecem estar muito bem.

Inicia-se assim, com pompa e circunstância, o que o historiador inglês Basil Davidson chamou de os ‘anos de provação‘ para o sudoeste da África. Em 19 de Dezembro 1490, o sucessor de Diogo Cão, Gonçalo de Sousa, sai de Lisboa para mais uma viagem à costa africana, mas morre a meio caminho sendo o comando entregue a Rui de Sousa.

A cronologia dos ‘anos de provação’ 1

A história africana desta época, no que diz respeito á nós, brasileiros, começa portanto em 1482 com o MweneKongo Nzinga a Nkuwu 2 (pai de Kassuta), reinando sobre a vasta região denominada Kongo no tempo em que o primeiro navegador português Diogo Cão, chegou ao Matadi. A era de Nzinga Nkuwu, batizado de D. João da Silva (D. João ‘Da Selva’), em homenagem a D.João II, rei de Portugal (o D.João ‘da Cidade’), como não poderia deixar de ser, foi marcada por muitos conflitos e divergências ligados a sua sucessão, demasiadamente influenciada pelo seu interesse pelas coisas de Portugal, fortemente defendidos por seu filho Kassuta.

É provavelmente este príncipe Kassuta que, voltando para o Kongo educado sob os moldes cristãos, maravilhado com a cultura portuguesa aprendida em Lisboa durante a interesseira hospitalidade do rei D. João II, quem mais tarde coroado como o rei MweneKongo Nzinga a Mbemba (D.Afonso I), transfere a capital (Mbanza) e inicia o sangrento processo de certa sujeição do Kongo aos interesses de Portugal. No ano de 1512 D.Afonso I, escreve ao Papa Júlio II, submetendo-se ao cristianismo e apresentando seu filho D. Henrique como seu representante.

As divergências internas suscitadas pela total submissão da nobreza do Kongo aos interesses de Portugal, acabou provocando um cisma de grandes proporções entre os reinos vassalos (comandados por membros da mesma família ou clã) e a população em geral. Duas correntes principais se formaram. A primeira, que era integrada por aqueles que aceitavam a influência estrangeira, queria modificar tudo no Kongo, suas instituições, sua religião, etc. e era comandada por Nzinga a Mbemba (o mais velho, segundo na linha de sucessão). A outra corrente, liderada por Nzinga A Mpanzu (o mais novo, primeiro na linha de sucessão) se esforçava então para combater tudo que fosse estranho aos costumes tradicionais da terra.

Nzinga a Mpanzu que é o herdeiro legítimo á sucessão do pai, assume o seu lugar mas é logo deposto pelo irmão Kassuta, com a ajuda de padres  jesuítas, agentes de Portugal. Nzinga Mpanzu acaba sendo expulso da mbanza (sede) Kongo, tendo que se refugiar no reino vizinho, terras do Muene Nsundi. Nzinga a Mbemba (Kassuta), já cristianizado, recebe então o nome de D.Afonso I e assume o trono ali por volta de 1506.

Nzinga a Mbemba não era simplesmente um rei subserviente, ele era na verdade um tipo ingênuo de visionário, que se julgando grande amigo de D.Manoel I, rei de Portugal – com quem trocava ampla correspondência, sob o tratamento mútuo de “Irmãos Reais” – imaginava poder obter certas vantagens comerciais e tecnológicas dos brancos.

Suas decisões devem ser compreendidas, portanto no âmbito de uma conjuntura política na qual alguns reinos que deviam vassalagem ao Kongo, conspiravam intensamente contra a liderança dele, Nzinga Mbemba, que acabou vendo na aliança com Portugal sua melhor garantia para manter e perpetuar seu poder. É neste contexto que Mbemba, ‘rei do Kongo’ chega a declarar numa carta á D.Manoel o seu desejo de obter a tecnologia para a construção de caravelas, com o fim óbvio de expandir suas fronteiras comerciais e se impor diante de reinos rebeldes e impérios vizinhos.

É assim que, mesmo tendo que enfrentar o agravamento dos conflitos daqueles que, além de questionar sua liderança, não aceitam de modo algum à sujeição da região ao estrangeiro, Nzinga Nkuwu aposta na sua trágica ligação com Portugal.

Diogo Cão volta ao Matadi outras vezes. Numa delas, em 1491, consegue penetrar nas terras do Reino do Nsoyo, vassalo do Kongo, onde convence o Mwene Nsoyo (título do governante local) das vantagens dele se converter também ao cristianismo para gozar da amizade e da gratidão de Portugal. Diogo Cão traz consigo desta vez muitos agentes de sua cruzada de dominação cultural, entre os quais alguns padres e aliados nativos (cristianizados durante o processo de cooptação da família real do Kongo), além de paramentos católicos em profusão. O Mwene Soyio e toda a sua família são então batizados. O Mwene Nsoyo recebe o nome de D. Manoel, cabendo a seu filho o nome de D. Antônio.

Nzinga Mpemba e a gênese do afro catolicismo angolano

A era de Nzinga a Mbemba é marcada também pelo aprofundamento da ligação da cúpula ou nobreza do Kongo com a igreja Católica Apostólica Romana, representada pelos interesses do Cardeal D. Henrique,  importante líder católico, jesuíta e senhor-mor da inquisição em Portugal e que, muito se empenhou junto a Santa Sé em Roma pela sagração de D.Henrique I, filho de Nzinga a Mbemba como bispo de Utica em maio de 1518 aos 23 anos de idade.

A extraordinária missão diplomática que leva o jovem de 18 anos carrega muitos presentes de marfim, peles raras e finos têxteis de ráfia do Congo e é acompanhada por uma comitiva trezentos e vinte cativos selecionados pelos portugueses.

A missão chegou á Lisboa de onde foi enviada, por terra, até a Itália, atravessando os Alpes á pé e chegando sã e salva ao Vaticano em 1513. O Papa Júlio II havia falecido sucedendo-lhe Leão X. que é quem em Maio de 1518, sobre a recomendação de quatro cardeais do Vaticano, consagra o filho do rei do Congo, como Bispo de Utica aos 23 anos de Idade. D.Henrique regressa ao Congo em 1521 do Kongo, morre em 1538.

A bem da verdade, esta política de colonização cultural, era levada a cabo no Kongo, não só pela coroa portuguesa, mas por seu agente principal: a ordem dos jesuítas, cujo objetivo central era montar na África missões semelhantes as criadas nas colônias europeias da América do Sul e tinha como estratégia essencial, fomentar a discórdia e desestabilizar a já combalida unidade entre os povos da região, afim de facilitar a conquista militar e territorial que se seguiria à dominação religiosa e ideológica da elite do Kongo.

Em nome da imposição de uma ordem cultural cristã hegemônica, uma era de cruel repressão ás práticas culturais tradicionais é empreendida pelo rei do Kongo, sob as ordens dos padres da ordem jesuítica dos e portugueses. Grande parte dos sacerdotes e médicos tradicionais (Ngangas e Kimbandas) é exterminada por meio de uma série programada de assassinatos. Uma longa série de conflitos e golpes de estado provocados pela inconciliáveis divergências entre sobas nacionalistas e a incondicional aliança do rei com os portugueses, lança o império do Kongo no caos.

A partir desta época, pelo pouco que se pode apreender a partir da enorme ambiguidade da documentação, o que se conhecia como Reino do Kongo passou a ser apenas uma espécie de protetorado português, com importância reduzida no contexto das lutas pela independência da região, posto que passou a ser ocupado pelo ‘Reino d’Amgola’, assim chamado pelos portugueses por conta do título de seus governantes: ‘Ngolas‘. Os títulos Mwenekongo (Rei do Kongo) e MweneNgola (rei do Ndongo) passaram então a se confundir. Os Portugueses e jesuítas que não se conformaram com esta nova  conjuntura ensaiaram um cruento golpe de estado, tentando devolver o poder a seu preposto rei do Kongo D.Alvaro I.

Ao que parece esta dinastia ligada a Ngola Ndambi (D.Alvaro I) é o clã mais importante da região do Kongo e do Ndongo, pelo menos até a morte de Nzinga Mbandi, a rainha Jinga (neta deste Ngola Ndambi) em 1663 3 . Pelo que se sabe até agora, o clã Nzinga do Ndongo assume o poder (tendo em alguns períodos total ascendência sobre o Kongo) a partir de Ngola Ndambi em 1570. Os documentos são confusos em relação a genealogia dos reinos do Kongo e Ndongo-Matamba (‘Reino d’Amgola’) nesta época. Ao que parece, alguns documentos omitem ou confundem o nome ‘angolano‘ de certos manikongos (que pertenceriam ao clã do Ndongo) com o nome de seus títulos nobiliárquicos na língua local (Kimbundo).

Ao que tudo indica portanto teriam existido dois períodos principais na história da região: Um no qual reis títeres de Portugal governaram o Kongo em crescente litígio com o clã do Ndongo-Matamba, e outro no qual os chamados Ngolas, ora se aliaram ora combateram Portugal, governando (ou tendo parentes governando) o Kongo como Manikongos de fato ou seja, o poder do império a partir de certa época, passou a ser (se já não era) exercido exclusivamente por membros de famílias oriundas do povo da região do Ndongo – Matamba.

O período de predominância desta dinastia relacionada ao Ndongo-Matamba, parece se acentuar quando o representante português Paulo Dias de Novais foi aprisionado e o golpe perpetrado pelos portugueses e jesuítas totalmente rechaçado pela população que, em 1568 numa espécie de guerra civil expulsou o Mwenekongo 4 , D. Álvaro I ,seus aliados e todos os estrangeiros para a ilha de Luanda no Reino de Angola na embocadura do Rio Nzaidi)

Novamente aqui, a grande confusão sobre os nomes de quem, efetivamente, governava o Kongo pode significar que o poder real na região estava sofrendo de muitos questionamentos e conflitos entre clãs e facções, podendo significar que conviviam num mesmo período reis do Ndongo (com algum tipo de ascendência sobre o poder no Kongo) e reis títeres, que tentavam governar o Kongo a serviço de Portugal.

Como o nome português destes eventuais reis títeres (principalmente os da dinastia dos ‘Álvaros‘) aparecem em alguns documentos como contemporâneos – ou mesmo homônimos- de supostos reis Ngolas do clã do Ndongo (o que ocorre notadamente com Ngola Nbambi e seu filho Ngola Ndambi Kiluanji Kia Samba), O mais provável é que tenham sido do clã do Ndongo todos os governantes da região compreendida pelos dois reinos, á partir da época de Paulo Dias e Novais.

Dois anos depois, logo após a tentativa de golpe por parte dos portugueses e dos jesuítas (1570), D.Alvaro I / Ngola Ndambi (ou Mpangu-a-Nimi Lukeni lua Mvemba) pede de ajuda ao rei de Portugal (D.Sebastião e ao seu tutor Cardeal D. Henrique, jesuíta e senhor-mor da inquisição em Portugal) que enviando prontamente 600 soldados comandados por Francisco de Gouvêa o recolocam no poder.

1575. Paulo Dias de Novais (que havia sido libertado) volta a Luanda. Havia assumido o poder o filho de Ngola Ndambi, Ngola Ndambi Kiluanji Kia Samba (ou, como o pai, Mpangu-a-Nimi Lukeni lua Mvemba) conhecido como D. Alvaro II. Ngola Kiluangi, liberta Francisco de Gouvêa, comandante da expedição que socorreu os aliados de Portugal, que estava também preso até então. Kiluangi também muda a Mbanza de Kakulo para o reino vizinho, o Mbaka e, em Junho 1575, manda uma embaixada de boas vindas a Paulo Dias de Novais.

Poucos anos depois, no entanto, pressionado pela grande insatisfação da população com os invasores, ele decide trair estes invasores, promovendo o cerco militar aos portugueses em Anzele em 1579. Em Janeiro 1584 chegam a Massangano os reforços militares e munições solicitados por Paulo Dias de Novais. 20 de Julho 1585 O Rei Ngola Kiluangi retira do seu acampamento de Cabaça. Ngola Kiluanji Kia Samba morre em 1587.

O próximo MweneKongo, filho de Ndambi Kiluanji e seu sucessor é Mpanzu a Lukenyi que assume o posto de MweneKongo sob o nome de D.Álvaro III, a princípio não ratificando nem derrubando os acordos anteriores, do mesmo modo pretendendo consultar a população. Lukenyi acaba  decidindo avisar ao Soba do Reino de Ndongo para tomar muito cuidado com os portugueses, pois eles querem mesmo é tomar o reino do Ndongo (Angola) e todo o império do Kongo para si. Uma guerra de libertação nacional se anuncia.

Reino de ‘Amgola’ e Palmares. Tudo junto e misturado?

Consideremos neste preâmbulo que, enquanto isso, no Brasil de 1597 já se falava no  famigerado Kilombo de Palmares.

O soba do Ndongo é Ngola Ndambi, também filho de Ndambi Kiluanji. Inicia-se assim, com a associação entre os irmãos Mpanzu a Lukenyi do Kongo e Ngola Ndambi do poderoso reino do Ndongo, uma nova era de resistência ao invasor português. No entanto Ngola Ndambi, segundo algumas versões após se ver acometido de problemas mentais, morre assassinado. A maioria dos relatos atribuem seu assassinato à sua irmã Nzinga Mbandi, filha de mãe Jaga (etnia também conhecida como Mbangala) com pai Kimbundo (Kiluanji). Jinga (Nzinga)é soba em Matamba, reino ao lado do Ndongo, que ela, após a morte do irmão, naturalmente anexa ao seu.

Acerca do shakespereano episódio que culmina com a morte de Ngola Mbandi, uma versão diferente da acima citada é defendida por Manoel Pedro Pacavira (escritor angolano e um dos biógrafos de Nzinga Mbandi), que sugere que o envenenamento teria sido instigado por uma concubina de Ngola Ndambi chamada Nda Kaniinii Ka Kiluanji, oriunda de Pamba (no Mbaka), apoiada pelos portugueses (que teriam sido os verdadeiros mentores do complô) com o objetivo de por como soberano dos Kimbundos um Ngola mais obediente aos interesses de Portugal. Auto proclamado Mwenengola, o filho de Nda Kaniinii foi logo deposto por uma rebelião popular que aclamou e entronizou uma mulher, sua irmã: Nzinga Mbandi.

Na verdade, ao que se sabe, o protocolo que regia a sucessão entre os povos da região – baseado em princípios matrilineares – era muito rígido. No caso, o filho da filha mais velha do rei Nzinga Mbandi (Jinga) teria que ser o sucessor natural. Morto este, por causas atribuídas ao irmão de Jinga, interessado em ser ele o sucessor, seria este o incidente cujo trágico desfecho, obrigou a ascensão da impressionante mulher que foi Nzinga Mbandi.

Jinga, contudo já havia aparecido na história um pouco antes como a carismática embaixatriz do reino do Ndongo que, a serviço do irmão (o mesmo a quem teria supostamente assassinado) vai a Luanda conferenciar com o governador português João Correia de Souza. Como era hábito na ocasião (e as circunstancias deste hábito são motivo de muita controvérsia) adota a fé católica e é batizada como Anna de Souza.

Um acordo de paz é firmado com os portugueses, mas não deve ter sido lá muito vantajoso para os do Reino e Angola, porque foi rompido assim que Jinga tomou o lugar do irmão morto. É assim, como soberana geral dos Kimbundos que Nzinga Mbandi comandará a luta contra o invasor português até ser provisoriamente derrotada em 1629.

Isolada no interior de Matamba, Jinga só reaparece em 1641, estrategicamente aliada aos holandeses, que haviam invadido as terras de lá como invadiram as daqui. Nos episódios que ficaram conhecidos como as ‘Guerras d’Angola’ muitos reinos e sobados de região se aliaram á Jinga, entre eles se destacaram, segundo os relatos disponíveis, Cassange, Cafuxe, Quijilo, Sambangombe, Calumbo, Molundo, Acamahoto e depois Quissama, além do próprio Kongo.

Mais ou menos desde 1616, quando Luiz Mendes de Vasconcelos assume, no lugar de João Correia de Souza, o posto de governador geral do ‘Reino d’Amgola’, guerreiros Jagas (Mbangalas) aprisionados nas guerras contra os portugueses, começaram a ser enviados para os canaviais de Pernambuco, no nordeste do Brasil. Sabe-se que foram quarenta os precursores do Kilombo de Palmares.

As pessoas deste grupo precursor que se embrenhou na Serra da Barriga no início do século 17, em algum momento anterior a 1630, muito provavelmente vieram de Angola, numa destas levas de prisioneiros de guerra. O certo é que durante todo o longo hiato entre 1629, quando Jinga se recolhe inativa às montanhas de Matamba e 1641, quando ela retoma decisivamente à guerra, aliada aos holandeses, prisioneiros de guerra jagas e kimbundo continuaram a ser mandados em massa para o Brasil pelos portugueses.

Na verdade todo este período das guerras anticolonialistas em Angola (1630/45) foi marcado, predominantemente, pelo translado para o Brasil de prisioneiros de guerra. Estando toda região em torno de Luanda (além do interior do Kongo) conflagrada pela guerra contra Portugal, empreendida, ao mesmo tempo, por sobas do Kongo e do Ndongo-Matamba (além de sobados aliados) e engrossada, a partir de 1641, pela presença de tropas holandesas, era evidente (não fosse fato histórico comprovado) que o fluxo convencional de escravos, antes preados ou vendidos por sobas locais, estivesse totalmente interrompido.

Desta feita, os escravos trazidos para Pernambuco passaram a ser, portanto de um tipo muito particular de gente: homens e mulheres adultos,  guerreiros experientes (talvez até mesmo alguns membros da elite ou nobreza do reinos daquele contexto territorial, de uma mesma área sociocultural portanto), aprisionados após batalhas e rapidamente recambiados para cá, separados como joio do trigo (deportados), segundo as duras leis previstas pela coroa portuguesa para o caso .

Uma espécie de elite, portanto. Com forte espírito de grupo. Este status de degredados, ‘prisioneiros de guerra’, obviamente muda totalmente a maneira de se encarar a organização social, militar e política o Kilombo de Palmares.

Unidos pelo patriotismo e valores culturais e históricos rigidamente estabelecidos; organizados, disciplinados e motivados pelas lutas nas quais estiveram envolvidos em Angola, consideremos, pois que foram estes escravos, que formaram a população que, por meio das fugas em massa passou a habitar a Serra da Barriga.

Consideremos do mesmo modo que, iniciando-se estas fugas já antes de 1630, estas pessoas tiveram muitas dezenas de anos para se estabelecer na região, criando modos bem articulados de vida, com amplas possibilidades de recriar inclusive, os elementos fundamentais de sua cultura original africana.

Entre 1641/42 o Mwenekongo Kimpaku (ou Nkanga-a-Lukeni, segundo alguns relatos) tratado de D. Garcia Afonso II (irmão de Jinga, pertencente portanto a mesma família real do Reino de Ndongo) reúne tropas com vários sobas vizinhos, entre os quais Nambua-Kalombe (que é preso é tem a cabeça cortada) para atacar os portugueses. Em 1646 Kimpaku reafirma a aliança natural com a irmã Nzinga Mbandi. Da aliança participa também o soba do reino de Nsoyo, segundo alguns relatos, tio dos dois e portanto, irmão (ou cunhado) de Ndambi Kiluanji.

As relações de parentesco entre estas figuras não são, absolutamente fortuitas. As regras protocolares de sucessão, descritas acima como sendo muito rígidas, determinavam papéis bem determinados para a filha do rei (rainha mãe, na prática, pois o próximo rei deveria ser, obrigatoriamente seu filho e para o irmão do rei cujo filho seria o sucessor na ausência do outro sobrinho do rei.

Estas regras, segundo indícios em documentos antigos, que remontam a fundação dos dois reinos principais da região (Kongo e Angola) foram criadas no passado bem remoto, por volta do século 12 ou 13, quando da unificação de povos que desceram do Camarões com os povos que já habitavam a área.

O que sugerimos, já de forma enfática é que com muita probabilidade, não haveria porque estas regras não serem repetidas no Brasil pelos líderes palmarinos, havendo inclusive fortes indícios de que eles pudessem ser, mais do que meros escravos aleatoriamente rebelados, criadores de formas de organização originais ditadas pelas circunstancias, ao contrário, um grupo cultural e socialmente articulado desde sua origem na África, quem sabe até mesmo (ainda que remotamente) de algum modo parentes entre si e das pessoas que compunham a casta dirigente nos Reinos do Kongo e de Angola.

Os ainda mal contados incidentes ligados a cisão entre os chamados ‘Zumbi’ (o jovem) e ‘Ganga Zumba’ (o velho) envolvendo o irmão deste conhecido como Ganga Zona (tio dos filhos de Ganga Zumba, portanto), sugerem um conflito de sucessão fortemente assemelhado ao que ocorreu com Jinga (mãe do sucessor natural) e seu irmão Ngola Ndambi (o usurpador), inclusive com o incidente do envenenamento, como vimos e a rigor uma prática bastante recorrente na história política dos reinos do Kongo e de Angola.

Instigante demais esta história não é não? Podemos depois de conhecê-la afirmar inclusive que, ao que tudo indica, será virtualmente impossível entender a cultura e a história do negro do Brasil sem mergulhar na história dos reinos do Kongo e de Angola dos séculos 15, 16 e 17.

Spírito Santo

Julho de 2006 (com ligeiras revisões em Novembro 2010)

Leia aqui no link o post final desta série

 

 

Brasil Afro #2 e o Zumbi fake book


O grande encontro de 'Bois Caiman' onde começou a revolução do Haiti

O grande encontro de ‘Bois Caiman’ onde começou a revolução do Haiti

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Palmares revisitado

(Leia também – e logo – os posts #01 e #03 desta série)

Há poucos anos atrás, numa solenidade festiva em Brasília na sede da Fundação Palmares (como se sabe, uma instituição do governo do Brasil voltada para a cultura dos afro descendentes) resolvi prestar mais atenção numa apresentação gravada que sempre , algo incomodado, ouvia meio assim por alto, nas solenidades da entidade pelo Brasil a fora. Nela, na tal apresentação, um locutor repassava com a voz empolada de civismo o que seria a história oficial do grande líder da nosso maior e mais perene complexo de cidadelas de escravos rebelados: Zumbi de Palmares:

“… Embora tenha nascido livre, (Zumbi) foi capturado quando tinha por volta de sete anos de idade. Entregue a um padre católico, recebeu o batismo e ganhou o nome de Francisco, aprendeu a língua portuguesa e a religião católica, chegando a ajudar o padre na celebração da missa. Porém, aos 15 anos de idade, voltou para viver no quilombo.”

(História oficial de Zumbi de Palmares. Vários autores)

O incômodo um belo dia deu lugar ao susto. O insight chegou como nos chegam todos os ‘eurecas’ desta vida: uma luz imaginária piscando, piscando e logo se acendendo, ardendo os olhos e a cuca, quase queimando a nossa mufa. Caramba! Como não havia me dado conta daquilo antes?

(Na verdade já me dera conta sim, mas ressabiado, precisava juntar ainda alguns cacos, mesmo embaçados que fossem, alguns poucos subsídios teóricos para poder duvidar, questionar com propriedade. Temia que me tomassem por doido varrido ou delirante, como sempre fazem nestas horas os patrulheiros ideológicos de ocasião. Faltava o ‘eureca’ crucial e inquestionável).

Podem dizer então que tudo começou com um surto de rebeldia adolescente ou algo assim bem intempestivo, mas convenhamos que é isto mesmo que agita e move o mundo de lugar. A insubmissão e o questionamento, o arroubo quase infantil de criancinhas ‘pé no saco’:

_ O que, Tio? Por quê, Tio? Pois sim, Tio! Como não, Tio?

Estas coisas surgem de repente, mas amadurecem como qualquer fruto. Afinal foram muitos anos chafurdando livre e empiricamente, neste esmiuçamento ‘cri cri‘ de detetive forense de série de TV, fuçando estas coisas enrustidas da cultura negra do Brasil.

Pulgas atrás das orelhas. Fazer o que?

Uma pesquisa insana, em suma – todo mundo que mexe com isto sabe – porque as perguntas são milhares, mas a maioria das respostas não estão, absolutamente onde deveriam estar, muito menos nos livros de história do Brasil

Ah…Se tudo na velha fosse bonito como o arco dela!

A enormidade da surpresa, esta sim, precisava ser explicada. Ora, o problema era que a versão da história de Zumbi de Palmares – acatada como oficial pela maior e mais referendada entidade de cultura negra do país – tinha todos os elementos de ser totalmente inverossímil, infundada, falsa mesmo, como conversa pra boi dormir ou aquelas histórias do arco da velha.

E vejam só meu dilema: Como embasar um ponto de vista assim tão iconoclasta, propor uma revisão tão paradigmática, diante de uma versão profundamente estabelecida como verdade absoluta, corroborada por livros e mais livros (alguns até mesmo escritos por mui eminentes historiadores negros do Brasil) jamais questionados nestes termos. Como desmontar uma versão mítica, supostamente heróica, incrustada na mente de – quase – todos nós por meio de séculos de incansáveis reiterações?

Difícil, não é não? Mas sério, gente! Juro que posso explicar – provar – cada tim tim mal ajambrado desta história.

E o pior de tudo – e não há de ser nada – é que terei de fazê-lo quase sem nenhum livro brasileiro conhecido em que me basear. Existem sim revisões da história oficial do negro no Brasil, mas são abordagens, do ponto de vista crítico, muito tímidas, a maioria resgatando ainda muito vagamente a importância da cultura bantu. Diretamente sobre o Quilombo de Palmares, contudo, neste foco em que decidi abordar o tema, rigorosamente – e isto foi uma surpresa absoluta para mim – nenhum trabalho com informações realmente novas foi encontrado.

O que me queimava a mufa é compreensível que seja aceito por pessoas comuns, mas de modo algum poderia ter sido corroborado por argutos historiadores. Este ‘plot’, este leit motiv, este cerne do argumento da história nunca lhes pareceu conhecido não?

Um ‘Story Line’ fajuto:

“…Aprendeu (Zumbi) a língua portuguesa e a religião católica, chegando a ajudar o padre na celebração da missa. Porém, aos 15 anos de idade, voltou para viver no quilombo.”

Nossa senhora! Isto é um mito completamente cristão, não é não? E o que é pior: Ela, esta versão oficial da história de Zumbi de Palmares, na verdade ofende e desmerece a memória dos quilombolas (e em conseqüência a memória das lutas e anseios de todos negros do país) sabem por quê? É que em seu argumento central ela sugere, quase afirma que, para que o Quilombo de Palmares alcançasse o sucesso político e estratégico que alcançou, foi necessário que o seu líder máximo – Zumbi – fosse formado, educado como branco (aculturado, melhor que se diga) por um padre europeu.

Nada contra a civilização cristã ocidental, mas vamos e venhamos, aquele pessoal de Palmares descendia de gente com séculos e mais séculos de história original. África, gente! Parem para pensar: O berço da humanidade. Se tocaram agora?

O recorte do herói mítico que, tal qual um Jesus Cristo ‘black power’ ou um Moisés negão eleito por Deus para salvar seu povo é altamente popular, mas convenhamos: carece de sentido naquelas e em quaisquer outras circunstancias em se tratando da história transatlântica de um povo africano, de cultura tão diversa da dos europeus.

As perguntas que me incandesceram mufa foram, portanto as seguintes (perguntem-se vocês também, se de mim duvidarem, mesmo que por um instante):

1- Seria historicamente comprovável a hipótese de um menino, descendente do principal líder do quilombo de Palmares ter sido sequestrado sem que ninguém se desse conta ou comunicasse o fato?

2- Seria possível a criação e a manutenção por quase um século de uma experiência política e estratégica tão exitosa como foi o Quilombo de Palmares, por parte de milhares de negros escravos, sem que estes se baseassem em sólidas referencias anteriores de organização social, comunitária e militar – regras rígidas de sucessão inclusive- ligadas ao seu mais que remoto passado africano?

3- No contexto de uma sociedade com semelhantes características sócio históricas, teria sido possível um menino negro aculturado, com identidade ou origem genética impossível de ser estabelecida, educado por um padre católico, assumir aos 15 anos (ou 20, tanto faz) o comando de um articuladíssimo e eficiente conjunto de cidadelas rebeldes?

Nenhuma destas hipóteses – pasmem – podem ser comprovadas, carecendo, portanto, totalmente de fundamento. Na verdade, se formos nos basear numa pesquisa mais aprofundada (como esta que estou propondo aqui) todas estas hipóteses, com toda certeza terão que ser declaradas mera e rasteira ficção historiográfica.

É o que devíamos fazer. E logo.

Bem, isto tudo é para explicar que este artigo é apenas uma introdução a uma pesquisa independente, talvez solitária e ainda em curso e que vai precisar de outras evidencias para ser considerada inquestionável, mas que já pode ser lançada por aí . Sim, porque é por aí mesmo que a História real avança: aos trancos e barrancos, pelo caminho das pedras.

Só um aspecto a historiografia brasileira terá que aceitar como falha flagrante e indesculpável de sua metodologia: A maioria esmagadora dos títulos a que tive acesso para embasar meus pontos de vista sobre estes incidentes que ligam, indelevelmente à África ao Brasil, apesar de estarem facilmente disponíveis aos especialistas interessados que poderiam ter proposto teses e livros a partir deles, são quase todos absolutamente estrangeiros (europeus e africanos)

Respondendo à perguntas pra lá de cabulosas

As cartas do padre Antonio de Melo

”…O padre não tratava o pretinho como escravo. ’O padre criou o menino, batizando-o como Francisco. Com a educação recebida, aos 10 anos já sabia latim e português e aos 12 era coroinha. Em uma carta, o padre refere-se ao menino como dono de um “engenho jamais imaginado na sua raça” e que bem poucas vezes encontrara em brancos. Certa manhã do ano de 1670, então com 15 anos Zumbi resolve se emancipar e parte em busca de seu destino, viver com os negros de Palmares…”

(História oficial de Zumbi de Palmares. Vários autores)

Nada foi encontrado nos documentos oficiais analisados sobre nosso herói negro mais recorrente, personagem de tantos sambas-enredo, Zumbi de Palmares, que comprovasse a veracidade de dados desta sua suposta biografia, contidos na versão insistentemente aludida pela maioria dos autores que trataram do tema e admitida, até mesmo, como disse acima, pelo movimento negro e todos os órgãos oficiais interessados na superação do racismo no Brasil.

Dos muitos filhos, netos ou prováveis sobrinhos de Ganga Zumba identificados e citados nos documentos portugueses e holandeses da época, existem pelo menos quatro filhos adultos que teriam sido presos ou mortos (Zambi ou Zumbi, Acainene, Acaiuba, Tuculo) há também o líder do mocambo Acotirene, que deve se referir a mais um membro da família de Ganga Zumba, o rei, filho mais velho de Aqualtune, a rainha-mãe.São citados ainda por outros autores Zangui, Maiolo, Engana Colomim, Camoanga, Cabanga, Gone, Gongolo, Quiloange, Quissama, todos líderes de mocambos (e observem nos negritos como é bastante recorrente a semelhança fonética entre a maioria dos nomes e os vocábulos ‘Nkanga’ e ‘Nzambi‘ ).

Observamos também a ocorrencia de nomes comuns em Angola – como Kiluange, por exemplo – que remetem ao nome de um grande chefe angolano – Ndambi Kilwange, ‘manikongo‘ líder da guerras contra Portugal no século 16 e que, segundo algumas fontes era o próprio pai da Rainha Jinga.

A grande questão é que, a julgar pelo cruzamento dos dados extraídos de documentos da época disponíveis, principalmente relatórios de expedições invasoras, nenhuma entre estas quase 20 pessoas pôde ser associada, da forma mais remota que fosse, àquela criança descrita nas supostas cartas do padre Antonio Melo.

…” muitas entradas, de fato, se fizeram aos quilombos a partir de 1654, ano da expulsão dos holandeses, até 1657, mas, cronologicamente, não se sabe a data certa em que elas se realizaram ou por não ter havido diário de operações, ou por terem eles se perdido…”

(Trechos de um relatório de expedição contra Palmares extraídos do livro de Mário Martins de Freitas “ O Reino negro de Palmares”, Biblioteca do Exército Editora, Rio de Janeiro 1988.)

…”Depois vieram as expedições comandadas pelos holandeses Rodolfo Baro (1664) e João Blaer (1645). Em seguida, o governo de Pernambuco passou a tratar Palmares como um “caso de polícia”, adotando medidas mais “enérgicas”, comandadas por militares locais, as expedições ocorridas nesse período foram, segundo o autor, maiores, mas não atingiram os resultados esperados, tendo acontecido, inclusive, um período de “trégua” entre 1667 e 1671”.

(Laura Peraza Mendes – ‘Guerras contra Palmares: um estudo das expedições realizadas entre 1654 e 1695’)

Existe num documento uma alusão a dois filhos de Ganga Zona (irmão de Ganga Zumba) que teriam sido adotados pelo governador da capitania no ato da ratificação do acordo de Cacaú e batizados com o sobrenome do governador Aires de Souza Castro, mas nada indica que fossem adultos ou capazes de, logo a seguir, assumirem a função de Nkanga a Nzumbi, ou qualquer outro posto relevante no quilombo, cuja atribuição, sabe-se hoje, devia obedecer à práticas socioculturais africanas, pelo menos da maneira como supomos, também vigentes na sociedade de Palmares na ocasião.

Como nos dão conta diversos documentos consultados acerca da similaridade óbvia entre os hábitos sociais dos kimbundos do Reino de Angola e do Kongo nos séculos 16 e 17 e os dos quilombolas de Palmares, existiram vários indivíduos que, com nomes ou funções precedidas pelo título Nkanga (a confusão semântica com o vocábulo ‘Nganga’ /’senhor’ é muito recorrente)  como reparamos anteriormente, foram realmente chefes de alguma localidade ou exerciam alguma função importante no complexo de quilombos (Nganga Zumba, Nganga Zona, Nganga Muissa, etc.). Neste sentido, em nossas prospecções a palavra Ganga Zumba parece ser mesmo uma expressão genérica, diretamente originada de…

Nkanga a Nzumbi.

Nkanga (Nganga) = sacerdote, sagrado, Santo

Nzumbi= entidade, fantasma, Espírito =

Espírito Santo.

A tradução literal do termo Nkanga a Nzumbi (termo do kimbundo angolano) vocábulo que pode, mais acertadamente estar relacionado ao personagem Zumbi de Palmares, poderia ser portanto Espírito Santo.

_Como assim, Spírito Santo?_ Dirão vocês.

Calma! Surprendam-se sem pudores. Eu também fiquei surpreso – na verdade ‘chapado’ – com esta estranha conclusão’, mas como naquele aviso de filmes ela não passa de mera coincidência.

O nome (‘Nkanga‘) seria uma espécie de título de origem com toda certeza católica – daí a coincidencia – que supomos estar fortemente relacionada a alguma linhagem de inspiração jesuítica de reis ou sobas – ‘Manikongos’ – cristianizados, iniciada em época remota (que poderia mesmo remontar ao século 16) e que identificaria o ‘rei’ ou chefe com poderes religiosos e militares, francamente utilizado em algumas culturas do Reino do Kongo (e também no Reino de Angola) ainda durante este período.   

Aliás, isto pode ser constatado facilmente analisando a lista dos mandatários dos reinos do Kongo e de Angola do século 16 em diante.  A quantidade de ‘Nkangas‘ na lista é impressiomnte. O fato de se usar a mesma palavra para definir ou ‘sacerdote‘ quando se referindo a ‘padre‘ (católico) é também uma eloquente evidencia a nos encaminha para estas conclusões.

Segundo esta regra protocolar, portanto, todo supremo mandatário poderia ser reconhecido pelo povo como um ser divino, possuidor de poderes – e obrigações – religiosas, conceito africano original, que teria sido mantido vigente (reciclado, sincretizado) mesmo após a cristianização da aristocracia congoleza ou angolana de então (com os termos católicos traduzidos  para o kimbundo local) e, deste modo transplantado para o Brasil de Palmares.

O fato é que se a rigor (como acabamos de constatar acima) não existem informações documentais confiáveis (o menino, futuro Zumbi, supostamente sequestrado teria nascido entre 1655 e 1662) acerca das fracassadas expedições ocorridas contra o Quilombo de Palmares entre 1654 e 1662 .

Logo, se teria havido pouco depois  desta época ‘um período de “trégua” entre 1667 e 1671 (pouco se sabe sobre os anos entre 1663 e 1666) de onde teria, vindo as recorrentes informações que dariam conta de que um filho do rei Ganga Zumba, recém nascido ainda (ou já com 7 anos de idade) teria sido sequestrado nesta ocasião? Ao que parece, tudo se origina mesmo – sem querer desmerecer a renomada fonte – da seguinte enganosa revelação:

“…E por isso teria havido tantos Zumbis. Eu efetivamente entendia que não. Até que um dia, por mero acaso_ e a pesquisa histórica depende muito de sorte também e do acaso , eu encontrei uma consulta do Conselho Ultramarino, órgão de assessoria ao rei, em que se dizia ao rei que todas as certidões que diziam ter sido morto um Zumbi eram falsas, forjadas para que os chefes das expedições recebessem as mercês do rei. Verificou-se que Zumbi continuava vivo. Este foi o ponto de partida para estabelecer a identidade de Zumbi. Até que encontrei as cartas do padre Antonio Melo…”

(Decio Freitas, autor de “Palmares, a guerra dos escravos” em entrevista á ‘Folha on line Brasil 500’.)

A respeito precisamente do heróico personagem a quem as cartas citadas acima se referiam, há que se considerar que diversos relatórios militares da época já haviam sido unânimes em atestar que este ‘Zumbi‘  já estaria ativo em Palmares, em época mesmo anterior ao acordo de Cucaú datado de 1678 (tendo sido inclusive ferido em combate). Havia até um mocambo com o seu nome (Zambi ou Zumbi), o que seria, naquele tempo, o mesmo que dizer: habitado e comandado por ele.

O fato é que não existem fundamentos nem provas documentais para confirmar, em qualquer um de seus aspectos, a fabulosa história do padre Antonio Melo. A sustentá-la apenas o beneplácito dos pesquisadores diante de hipóteses tão infundadas quanto providenciais a certos setores do pensamento acadêmico brasileiro – e talvez resida aí alguma eventual intenção oculta nas supostas cartas- para quem, ainda hoje, faz sentido a pergunta que até hoje não quer calar:

Como o negro escravizado no Brasil, não tendo passado, origem, nem história, poderia constituir e manter durante tanto tempo, uma sociedade tão complexa e, em sua conturbada época, tão estável e perene quanto foi o Quilombo de Palmares?

Tentando explicar o que a ingenuidade etnocentrista, infelizmente julga inexplicável até hoje, um documento chegava a especular:

”…Tal habilidade aparecerá nas paliçadas e fossos, feitas em torno do quilombo, com paus pontiagudos colocados para matar invasores, e aí já estamos 1694. Zumbi, portanto, tudo indica, nasceu livre. Não fica claro se o padre que criou Zumbi conheceu, leu, as grandes utopias (e se informou sobre aquilo a Zumbi) dos grandes escritores do passado, tais como: Platão, com a sua República, antes da era cristã; Thomas Morus (More), com a sua Utopia, 1478 / 1535 ; Tommaso Campanella, com Cidade do Sol, 1568 / 1639 e, finalmente, Francis Bacon, com Nova Atlântida, 1561 / 1626. Saliente-se, aqui, que as obras acima citadas foram sobre maneiras de se organizar um Estado, e nada tinham de inocentes, e lidas no mundo inteiro”

O ‘Segredo’ da Condessa Schönborn

O argumento da história central, aquela que gera todas as outras versões sobre as cartas do padre Antonio de Melo (muitas delas acrescidas de detalhes que não se sabe bem de onde surgiram) parece estar baseado na mera suposição (uma lenda urbana da época, talvez apócrifa), de que certo padre de Porto Calvo teria escrito uma ou duas cartas contando a saga de uma criança negra sequestrada numa expedição contra o quilombo em 1662 (certos autores, sem nenhuma evidencia apresentada – talvez fazendo ‘contas de chegar’ – falam que o fato teria se dado numa expedição em 1662).

“…Durante uma expedição contra Palmares, comandada por Brás da Rocha, foi raptado ainda recém-nascido e entregue ao padre Antônio Melo, vigário de Porto Calvo, que o criou sob o nome de Francisco.

Na dificuldade de se encontrar uma origem segura para a história , quem buscar notícias sobre o paradeiro das cartas do padre Antonio Melo , terá o dissabor de descobrir apenas uma segunda história, também providencialmente complementar à primeira e, contudo mais implausível ainda:

(Na verdade – tcham, tcham, tcham, tcham – já desvendamos a origem segura da lenda, que é como os leitores verão em breve -num post a seguir – absolutamente surpreendente!)

“Arquivo revela que Zumbi sabia latim!

A condessa de Schönborn, 65, nascida Graziela de Cadaval, é conhecida entre os pesquisadores e ”caçadores” de documentos como a guardiã dos arquivos da casa da marquesa de Cadaval, sua mãe. São cerca de 5.000 livros e conjuntos de documentos reunidos nos últimos seis séculos e guardados em Muge, 80 quilômetros a leste de Lisboa. …Anos atrás, dezenas de documentos foram roubados por um ”pesquisador disfarçado de paralítico em cadeira de rodas”. Desde então, só convidados vigiados pela condessa pesquisam os manuscritos tombados pelo Estado.

Entre esses papéis (roubados) estariam duas cartas preciosas que permitem imaginar Zumbi no seu tempo de menino. Foram escritas pelo padre Antonio de Melo em 1696 e 1698, quando já corria a notícia da morte de Zumbi. As cartas, não localizadas pela condessa, foram copiadas em 1978 a pedido do historiador gaúcho Décio Freitas.

..Na época das cartas, o presidente do Conselho Ultramarino era Nuno Pereira Álvares de Melo, que foi o primeiro duque de Cadaval, e por isso os documentos foram guardados pela família. Ao longo do tempo, parte do arquivo dos Cadavais foi se perdendo. Em fins do século 17, um incêndio destruiu o palácio da família. Depois, com a invasão napoleônica, muitos papéis foram trazidos para o Brasil. Em 1964, as famílias dividiram o que restava do arquivo. Metade ficou com a condessa e o restante foi para o duque de Cadaval. Há notícias de leilões de documentos nos últimos anos…”

(Do enviado a Muge (Portugal) Aureliano Biancarelli para Folha Online – Brasil 500)

O que esta história complementar nos dá conta em suma é que, as famosas cartas deste misterioso e desconhecido padre Antonio Melo talvez não possam ter jamais a sua autenticidade – ou mesmo a sua própria existência – comprovada porque, de uma forma ou de outra, por furto, extravio, por culpa de um incêndio ou um acidente fortuito qualquer, os originais teriam se perdido para sempre.

Como se vê, são bastante controversas as questões suscitadas por abordagens históricas que, deliberadamente ou não, subestimam ou omitem a óbvia ligação da cultura das comunidades quilombolas do século 17 com sua matriz africana mais imediata. A principal destas questões talvez seja a grande insistência com que elas foram sendo inseridas, com foros de verdade histórica absoluta, no contexto dos vários estudos existentes sobre o assunto, a despeito de sua evidente carência de fundamentos.

Entre dezenas de documentos disponíveis, a simples leitura, por exemplo, de uma das cartas do Padre Antônio Vieira (estas sim, autênticas), notório e influente agente dos interesses ultramarinos de Portugal além de importante autoridade eclesiástica, poderia esclarecer muito sobre esta questão. Pode-se destacar em especial dentre estas cartas de Vieira, aquela escrita em julho de 1687, em resposta a uma consulta do rei de Portugal, indeciso quanto a oferta de mais um acordo de paz aos palmarinos, sugerido por certo padre italiano de Recife:

“Muito me admiro… que sem outra informação dos superiores desta província, houvesse por bem a proposta feita por um padre particular de ir á Palmares… este padre é um religioso italiano de não muitos anos, e, posto que de bom espírito e fervoroso, de pouca ou nenhuma experiência nestas matérias. Já outro de maior capacidade teve este pensamento e posto em consulta, julgaram todos ser impossível e inútil por várias razões. Primeira: Porque se isto fosse possível, havia de ser por meio de padres nativos de Angola que, todos, os quais crêem e deles se fiam, e entendem, como sua própria pátria e língua…” .

A propósito, as evidências sobre a existência de certa similaridade entre os hábitos culturais praticados no Brasil pelos líderes palmarinos e os de seus conterrâneos na conturbada Angola do século 17 (hipótese aventada como vimos pelo próprio padre Antônio Vieira) estão se tornando cada dia mais candentes, principalmente se admitirmos a possibilidade de alguns líderes do quilombo da capitania de Pernambuco terem sido prisioneiros de guerra (soldados portanto e não escravos comuns), removidos para os Brasil no contexto da cruenta guerra colonial que sacudia o chamado ‘Reino D’Amgola’ naquela época.

Ao contrário do que ocorreu com as cartas de Vieira, o mais surpreendente é que a existência das outras cartas, supostamente atribuídas ao outro padre Antonio (e seu inusitado conteúdo) tenha sido um fato completamente desconhecido durante 300 anos.

E sobre o total desaparecimento dos originais das referidas cartas, logo que foram enfim descobertas, o que dizer? Por isto mesmo, mais do que com as controvérsias do incidente em si, talvez devêssemos nos preocupar mesmo é com as péssimas conseqüências advindas de sua eventual intenção etnocentrista, tão compreensíveis no contexto de uma colônia européia no século 17, quanto inaceitáveis neste nosso emancipado Brasil do século 21.

Sobrava-nos apenas a palavra solitária do já falecido Decio Freitas, incansável e meticuloso pesquisador que, pelo que sabe até agora, teria sido o único a ter acesso as cartas em poder da condessa o que, em se tratando de fato histórico desta relevância, infelizmente, não deve servir ainda, como prova cabal de coisa alguma.

Aliás, mesmo que tenham realmente existido, por conta do alto grau de improbabilidade dos incidentes por elas descritos, estas cartas não poderiam ter adquirido jamais, a importância que lhes deu a nossa história oficial.

“…A Torre do Tombo, o mais importante acervo do país (Portugal), tem inúmeros catálogos diferentes. O principal, os ”Manuscritos da Livraria”, não traz os documentos por ordem alfabética. Obedece a cronologia de entrada no acervo. Milhares de documentos das antigas casas de nobres ainda não foram catalogados. Não se pode confiar no que já foi informatizado.

Segundo o computador, a carta do rei que dá a patente de mestre de campo a Domingos Jorge Velho deveria estar na folha 426 do códice nove do ”Registro Geral das Mercês”. Foi encontrada pela Folha no verso da folha 246. A maioria dos documentos sobre Palmares pertence ao Arquivo Histórico Ultramarino. Ali estão as cópias dos papéis que seguiam às colônias. Muitos dos originais, destinados às capitanias do Brasil, desapareceram no tempo… Os documentos pouco ou nada contribuíram para traçar o perfil do homem Zumbi.”

(Jair Rattner especial para a Folha On Line, de Lisboa)

O que nos parece inquestionável contudo é que, a morte definitiva do último Nkanga a Nzumbi de Palmares, o sucessor de Ganga Zumbase deu mesmo em 20 de novembro de 1695 quando um de seus ajudantes de ordens (e seu suposto genro) é preso numa escaramuça e aceita traí-lo em troca de perdão. O traidor identificado como o mulato Antonio Soares, viveu em paz em Recife até morrer de velho.

Na hipótese de ser factível, pelo menos em parte, a versão dos fatos aqui apresentada, a dinastia que governou a região do Império do Kongo pelo menos a partir de 1545 (ano de nascimento de Ngola Ndambi, avô da valorosa Nzinga Mbandi, a rainha Jinga), reconstruída no Brasil num formidável fenômeno de transculturação, com a rainha Aqualtune mãe de Ganga Zumba ou com Mateus Ndambi, sogro do rei, teria durado no total mais de 150 anos (dos quais cerca de cem só no Brasil), havendo sobrevivido, após a morte de Jinga, pelo menos até 1695, apogeu e glória de seu último representante conhecido: O Nganga Nzumbi degolado em Recife.

“…ficando só mente (Zumbi) com Vinte negros, dos quais mandou catorse pa. Os postos das emboscadas que esta gente uza no seu modo de guerra, e hindo com seis que lhe restaram a se ocultar no sumidouro, que artefiçiosa mente avia fabricado, achou tomada a paçagem; pelejou valeroza e desesperadamente matando hum homem ferindo alguns e não querendo Renderce nem os companheiros, foy preciso Matallos e só hum se apanhou vivo, enviouçeme a cabeça do zumbi que determinei se puzese num páo no lugar mais público desta praça a satisfazer os ofendidos e justamente queixosoz e atemorisar os negros que supretisiozamente julgavão este immortal… “

(Ds G.a Real pesoa de Vmagde.Como todos desejamos. Pernco.14 de Março de 1696” Caetano de Mello de Castro – Governador da capitania de Pernambuco )

Surpreendentemente – ah! como é bom por água na boca dos curiosos! –  tendo como pista apenas as datas e o nome suposto deste Zumbi fake aculturado – que se chamaria Francisco, lembram-se? – conseguimos em textos angolanos, portugueses e italianos a chave, a prova mais do que cabal – se é que isto é mesmo possível – da gênese real desta farsa absurda – displicente talvez , muito mais do que fraudulenta – do ‘zumbi menino sequestrado’.

Mais isto …tcham, tcham, tcham, tcham!…. como já disse, será o tema do próximo episódio desta série.

Spírito Santo
Rio de Janeiro, Julho de 2006 (com pitacos novos em Novembro de 2010)

Nota: Na foto acima grande encontro em ‘Bois de Caiman’, bosque onde a revolução do Haiti foi deflagrada. Veja neste link o que isto – mesmo remotamente-  pode ter a ver com Palmares e reflita.

Leia post #03 neste link

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Se você curte analisar bibliografias e notas de rodapé, este texto possui uma relação bem completa deste tipo de referencia que você pode ler neste link

Patrulha ideológica às avessas



Voltando à cumplicidade dos intelectuais

Ninguém em sã consciência está deixando de observar que, afora a suja política brasileira atual como um todo, há certa onda de irresponsável amoralidade nesta enorme popularidade do presidente Lula e de sua campanha a reeleição por meio de uma candidata preposta.

Afinal, dando respaldo a esta candidatura, ajudando a construí-la e vendê-la para a população, está um grupo bem articulado de pessoas adultas e letradas, muitas delas renomados intelectuais e artistas que, de modo algum podem ser vistos como ingênuos idealistas iludidos pela propaganda. Não são cegos.

Com – vá lá – honrosas excessões como Oscar Niemeyer, por exemplo, ao que parece não são mais aqueles idealistas do passado. São pragmáticos agora. Os índices de aparelhamento da máquina pública por parte do governo na área da Cultura, mesmo com a suposta abrangencia democrática da Lei Rouanet, são enormes. Basta frisar que os maiores patrocinadores via lei Rouanet são as grandes estatais (Petrobras, Banco do Brasil, Caixa Econômica, Correios, etc.).

De certo modo, se observarmos bem atentamente, a maior parte do controle da cultura do país está sob as rédeas do Estado. Isto não é um mal em si, claro. Tem lugares em que assim funciona. O ‘Mercado’, afeito a vários interesses, não consegue gerir bem ou democraticamente estas questões.

A questão é saber – e decidir nas eleições – QUEM é este Estado. A idoneidade de quem governa.

Quem for idealista que atire a primeira pedra

O fato é que muitos são cúmplices do que está instalado, isto sim. Assumiram claramente esta posição que é, sobre vários ângulos, indesculpável. Embora tenham todo o direito de duvidar da idoneidade dos seus opositores ligados ao PSDB, sabem que as denúncias existentes no Ministério público contra o PT são graves e factíveis, sabem também que os sucessos exclusivos dos 8 anos do governo Lula ou são inexistentes ou são exagerados pela propaganda e que, tanto quanto as de Serra, muitas promessas de campanha atuais são irrealizáveis, mas fingem que não sabem para ganhar a eleição.

Estão agora juntos que nem pão quente ao lado do governo. Ao que parece temem o desmonte do esquema atual por um governo que não seja o do PT. Sabem do mesmo modo e por outro lado, o risco institucional que certas idéias expressas pelo PT representam para o futuro imediato do Brasil. O mais estranho é que o histórico das lutas passadas, protagonizadas por muitos deles, não se coaduna com este flerte com idéias tão atrasadas. Sabem, portanto muito bem o que estão fazendo: Brincam com o fogo.

Sabem também, com toda certeza que ondas de progresso econômico – temperados com clientelismo de ocasião – não são exatamente parâmetros válidos de boa gestão governamental nem garantia de boa maré econômica ou financeira em médio prazo.

É bom que se recorde que os índices de popularidade de todos os déspotas do tempo da ditadura militar (Castello Branco, Costa e Silva, Junta militar, Garrastazu Médici e João Figueiredo) – exatamente como ocorre agora com este índice de 82% do Lula – era altíssimo e que o chamado ‘Milagre Econômico’ da Ditadura deixou marcas profundas em nossa economia – e em nossa cultura e na sociedade em geral – por muitos anos à frente.

Sabem de tudo isto, mas cada qual, talvez por força de alguma razão muito particular ainda omissa, resolveu justificar e apostar na adesão irresponsável ao que pode vir ser o atraso. Quem se importa? Farinha pouca meu pirão primeiro.

Gostam de levar vantagem em tudo, morou?

Spírito Santo
Outubro 2010

O Bagulho é doido, mas a Favela é que é a Droga/Post #02


Creative Commons LicenseTodo o conteúdo original deste blog está assegurado sob uma Licença Creative Commons."Futebol na favela" - Pintura näif de Helena dos Santos Coelho - 'Talentos da Terceira idade, edição 2009

“Futebol na favela” – Pintura näif de Helena dos Santos Coelho – ‘Talentos da Terceira idade, edição 2009

Ih!!!Bingo!

(Leia aqui o #post 01 )

_”Tava arregado! –Disse o refém-testemunha, descrevendo o que os bandidos diziam no hotel em São Conrado, aos berros, revoltados com os PMs que teriam quebrado o acordo estabelecido com o batalhão para deixar o bonde passar à vontade, toda sexta feira de baile funk, do Vidigal para a Rocinha.

Não sei de nada, não vi nada. Façam de conta que não está mais aqui quem falou.

Voltando ao ramerrão das mui discutíveis UPPs, é básico portanto a gente refletir que o ‘xis’ da questão, também neste caso da batalha de  São Conrado está em descobrir, em minúcias – e encarar de frente- no que consistem e o quanto são profundas estas relações promíscuas que se estabeleceram entre a cidade ‘oficial’ e a cidade ‘clandestina’ no Rio de Janeiro (já que uma está, umbelicalmente ligada à outra) a ponto de nos lançar na situação tão incontrolável como esta em que nos encontramos.

(E vejam bem: não estamos aqui para parafrasear aquele já tão badalado conceito do Zuenir Ventura de ‘Cidade Partida’. Isto, infelizmente já é hoje um conceito inteiramente superado, atropelado que foi pelos fatos. O Rio de Janeiro, ao que tudo indica, perdeu há muito tempo qualquer chance de ter suas duas metades reunidas, ‘pacificadas’ como dizem hoje estes cínicos. A sociedade carioca, esgarçou, exacerbou  demais da conta a sua dicotomia entre riqueza e pobreza.

(Aliás, a propósito, sempre que escuto este papo de ‘paz e amor’ entre os ‘desiguais’ e/ou ‘diferentes’, me vem à cabeça aquela musiquinha terrível do Chico e do Vinícius (e também do ‘Garoto‘, mas ele eu perdôo), piegas e hipócrita mais não poder):

…E aí me dá uma tristeza
No meu peito
Feito um despeito
De eu não ter como lutar

E eu que não creio
Peço a Deus por minha gente
É gente humilde
Que vontade de chorar

Não vai adiantar. Sob qualquer ponto de vista que se analise, a cidade do Rio de Janeiro tem problemas dramáticos e quase insolúveis a médio prazo.  Pegando o aspecto o urbanístico, por exemplo, a gente esbarra com a agudização do verdadeiro apartheid que se estabeleceu por aqui.

O que fazer? Remover, erradicar favelas? Onde colocar as pessoas? Com que recursos realizar todas as obras de infraestrutura necessárias para realojá-las? Reurbanizar as favelas? Como assim? Se é favela, jamais poderá ser bairro. Os conceitos são excludentes entre si. Isto é um sofisma sem tamanho. Pura cascata.

Entre outras características de história da carochinha, a filosofia– na verdade não muito mais que uma tática policial de curto prazo, no sentido militar do termo – o que está por trás das UPPs parece não estar, nem de longe relacionado a esta premissa fundamental que nos aparece como sendo irrecorrível e que nos sugerem muitas perguntas pra lá de capciosas.

Seria possível resolver um problema tão complexo de forma tão simples, reduzindo-o a simples ocupação de partes determinadas do imenso território favelado como numa guerra convencional? O problema poderia mesmo ser reduzido simplesmente ao desalojamento do chamado ‘poder paralelo’ destes nossos quase sempre fuleiros bandos de traficantes?

Vocês eu não sei, mas eu acho terminantemente que não.

Caindo no macro mundão do problema, observemos que estudos bem recentes dão conta de que são cerca de 200 milhões os usuários contumazes de drogas no mundo, a cifra apavorante de cerca de 5% da população mundial, um mercado consumidor gigantesco, do qual o Brasil, evidentemente participa com um número considerável de ‘consumidores’.

Pois bem, onde está concentrada a maior parte destes… ’consumidores’ brasileiros? Posso responder de cara, na lata: Nas ‘áreas nobres’ das nossas grandes cidades. Neste contexto, todo mundo está também careca de saber que a zona sul do Rio de Janeiro talvez seja o nosso maior mercado consumidor (digo ‘talvez’, porque, assustadoramente, a disputa entre nossas grandes capitais, para se saber quem consome mais drogas anda bem acirrada).

E reparem: O perfil destes ‘consumidores‘ vorazes de drogas ilícitas é gente, majoritariamente branca e bem fornida de condições sociais, culturais, financeiras e tudo o mais.

Olhando a questão ainda do ponto de vista macro, portanto – e pedindo perdão por ter que apavorá-los mais ainda – reproduzimos aqui a palavra de um especialista (olhando, bem entendido, apenas para um dos ângulos comerciais da coisa):

“…com intuito mais específico, se pretende explorar quais as relações e até que ponto existe uma simbiose entre as organizações que exploram o comércio de drogas ilícitas, o sistema bancário, que realiza a lavagem de dinheiro, e o sistema financeiro, onde o dinheiro se transforma em capital. Simbiose no sentido de que embora sejam organizações dissimilares convivem numa relação mutuamente benéfica…

Uma abordagem geo-econômica e geo-política talvez permita encaminhar a idéia de que essa simbiose se apóia na contradição, presente na origem e no desenvolvimento do sistema capitalista, entre processos de transnacionalização e formação de mercados mundiais (no nosso caso, dinheiro e drogas) e o estado nacional.”

Sacou? Veja então agora então pelo ângulo das relações fundiárias, ou seja, você acha mesmo que, neste contexto de conflagração de interesses tão poderosos,  a população original das áreas eventualmente… ’pacificadas’ vai conseguir manter seu território e suas propriedades (ou ‘posses‘) intactas?

“…A discussão fundiária, no entanto, tem adquirido vigor sobretudo como consequência da ação do governo de retomar o controle territorial das favelas com as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs).

Por exemplo, o Instituto Atlântico, dirigido pelo economista Paulo Rabello de Castro, propôs ao prefeito Eduardo Paes e ao vice-governador Luiz Fernando Pezão um projeto-piloto no Morro do Cantagalo, em Copacabana.

O plano inclui cadastramento geral dos moradores e o levantamento da topografia detalhada com o objetivo de conceder a titulação plena dos possuidores de lotes e unidades residenciais. São 1.456 domicílios e cerca de 5 mil moradores, 79% dos quais vivem lá há mais de 20 anos, informa o instituto. O argumento é que a ocupação fundiária passa a ser uma exigência da ocupação territorial. O território, antes dominado pelos traficantes, precisa ter dono, ressalta Paulo Rabello de Castro….”

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“…Para a professora Sonia Rabello, os moradores das favelas costumam ver com desconfiança a regularização fundiária. Primeiro, diz ela, porque isso significa entrar num mundo complexo ao qual não estão habituados, o terreno dos cartórios, dos advogados e da Justiça. Outro fator, segundo a professora, é que o título de propriedade pode, no médio e longo prazos, ser um fator de expulsão dessa população.

Para Sonia Rabello, todas as áreas de favelas só não foram ocupadas pela especulação imobiliária ou porque não tinham título ou porque não tinham lotes suficientes. O que garantiu a ocupação das favelas foi a impossibilidade de ocupação formal. A especialista lembra que, nesses casos, o direito de posse é garantido pelo uso, não por uma eventual titulação.

Enquadrem estes conceitos técnicos especializados no modelo de nossa micro-sociedade e descabelem-se logo, enquanto é tempo. E são mais de mil favelas, lembram-se? Destas, pelo menos 20 são de grande porte. Fizeram a conta?

Transferindo as quadrilhas de traficantes daqui para ali, mediante estes misteriosos acordos, vocês acreditam mesmo que o governo estadual está interessado em ‘pacificar’ e ‘humanizar’ favelas? A Polícia Militar teria efetivos para ‘pacificar’, pelo menos em parte, todo este universo de favelas? Considerem, por exemplo, a Rocinha, com cerca de 150.000 habitantes e várias centenas de becos e vielas.

Recentemente o exército brasileiro recusou propostas de intervenção da Força Nacional de Segurança no problema por causa do alto risco de corrupção da tropa (no entanto, como se sabe, topou a mesma parada na favela de Citè Soleil, no Haiti).

Quando se fala desta mesma ocupação por policiais militares, o que lhe vem à cabeça? Dá para se sentir seguro? Pois o secretário José Mariano Beltrame disse a pouco que seriam necessários, só para ocupar a Rocinha, 1.800 novos PMS.  Favelas sitiadas é o que ele propõe, como se fazia com bairros do Iraque no tempo do Bush? Durante quanto tempo? A que custo?

Fico pasmo. Ou o secretário pirou ou está blefando, certo?

Você já olhou bem para a geografia e as dimensões assustadoras de um mar de construções mal ajambradas como o Jacarezinho, a Mangueira? Você acha possível haver dominação e controle militar em espaços urbanos assim tão caóticos sem haver algum tipo de… ‘Acordo’ entre as partes?

E que boi adormece com esta história?

Se você acredita mesmo que a maioria das favelas do Rio de Janeiro vai virar parque temático, com elevadores panorâmicos e teleféricos metálicos e cintilantes, de onde vamos pode ver felizes crioulinhos indo e vindo para suas felizes escolas high tech, pilotando skates, com as suas felizes mãezinhas, ‘prendas domésticas’ indo e vindo para o aconchego de amplas bibliotecas com internet banda larga, ou mesmo para bem equipadas academias de ginástica, pilotando motinhas Honda, o problema é seu.

Tudo bem. Você deve ser destes que acreditam em Papai Noel, Branca de Neve, Disco Voador, estas coisas (o que, convenhamos, não é nenhum pecado, claro… até porque, em Disco Voador até eu acredito)

Mas se você, como eu, está cansado de ser enganado, raciocine. No âmbito de uma população total de mais ou menos 6.000.000 de habitantes – segundo o último censo – a população favelada do Rio atinge a cifra estúpida de 1,09 milhão de pessoas. Ou seja, no barato, 18,7% da população carioca reside em favelas. Especialistas que estudam o assunto afirmam, contudo que o número pode ser bem maior, podendo ser orçado aí por volta dos 1,5 milhão de pessoas ou seja: mais que 20% da população carioca seria favelada.

A conta, contudo pode aumentar muito se incluirmos neste cômputo outros tantos e tantos milhões de pessoas que residem em bairros muito pobres – quase favelas, como os bairros da Zona Oeste, por exemplo – que engolfados por ‘comunidades provisórias ’circundantes, se favelizarão também em muito breve.

Observem com atenção que as favelas cariocas, nesta sua nova e avassaladora fase de expansão, crescem no entorno de bairros convencionais, como parasitas que se alimentam da pequena rede de serviços pré existentes, escolas, comercio, postos de saúde, sobrecarregando a infra estutura do bairro até sufocá-lo, como uma jibóia. É esta, com certeza a dinâmica da formação dos chamados ‘complexos’ de comunidades faveladas.

Faça, portanto como eu: jogue a propaganda eleitoral – o nome dela já diz tudo: é ‘gratuita’, no sentido de irresponsável e cretina – no lixo onde ela merece estar e pense em profundidade, sem paixão, como gente grande.

Em suma: Se não se desmontou o mercado de drogas que segue impávido, de vento em popa e sem prejuízos visíveis – se não se forneceu, concretamente trabalho decente, residência digna, educação de qualidade, saneamento básico e saúde para a imensa maioria dos habitantes do Rio de Janeiro que hoje – vale sempre lembrar – é favelada e se não há a menor condição estratégica de se ocupar militarmente a maior parte do território de nossa cidade, no que eles querem mesmo que a gente acredite?

E vocês crédulos? Estão mesmo acreditando ou estão se acumpliciando porque acham que vão levar algum tipo de vantagem neste arranjo… quero dizer…Acordo?

Olha minha gente, quem avisa amigo é: Acabada a nossa – tomara que – feliz Copa do Mundo e os – tomara que – felizes Jogos Olímpicos o que será de nossas pobres almas? E se o  bagulho for bem mais doido do que a nossa capacidade de suportá-lo?

Parece papo de viciado prometendo largar o vício, de pé junto, mas não largando nunca não é não? Viciados em favela, será que é o que somos? Se for isto, a luz vermelha está acesa e há sintomas fortes de overdose à vista!

E se problema afetar o coração da cidade? Parada respiratória, cardíaca e…Babau! O Rio de Janeiro irá para um belo de um beleléu. Creiam-me e perdoem-me, de antemão, pois, gostem ou não gostem da conversa, caros amigos: alarmismo também é cultura.

Spírito Santo
Agosto 2010

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(Desculpem voltar, mas…não é que é bingo de novo?):

Pezão, nosso vice-governador, numa entrevista hoje (28/08), em O Globo:

_”…Não é sem droga (se referindo à função das UPPs). Droga existe a nível mundial; ninguém vai conseguir acabar. Mas nós vamos conseguir tirar o fuzil das ruas do Rio de Janeiro”

Ora, ora… Mas não era sobre isto mesmo que eu falava?

Usemos a lógica mais elementar: Se o fuzil está nas ruas porque há tráfico de drogas, uma mercadoria ilícita de altíssimo valor comercial, onde há drogas, portanto terá de haver, necessariamente traficantes armados.

Logo, onde há traficantes há, evidentemente disputa pela posse ou pela repressão da venda da mercadoria refinada e/ou guardada nestes entrepostos. É , pois, da natureza desta disputa pelo mercado da droga haver sempre armas e violencia.

Conclue-se então que, para se deslocar as armas (tirá-las das ruas do Rio, como diz o político) só se for deslocando os entrepostos, intervindo diretamente na distribuição em suma, mas como garantir que isto poderia mesmo ser feito, se o tráfico de drogas é bandido, clandestino?

Cabe, portanto perguntar: Estaria o vice governador sugerindo que o governo do Rio pretende transferir os entrepostos para outros lugares? Quais seriam estes lugares? Seriam os ‘complexos‘ de favelas da periferia ou seria o interior do Estado? Deus do céu!

Loucos de pedra! irresponsáveis!

E a distribuição da droga – o tráfico propriamente dito – para os consumidores daqui da cidade ‘oficial‘, como seria organizada? Quem controlaria este tráfico já que, acabar com ele não é, assumidamente a pretensão do Estado?

Perguntas…muitas perguntas sem respostas, que não sejam mais assustadoras ainda.

Acho que só se topassem discutir e combinar isto tudo com os comandos de traficantes (e os comandos de milícias), num grande seminário, uma cúpula bandida, um…’Acordão‘.

Sugiro de cara – prendendo o riso – o Hotel Intercontinental, em São Conrado.

Spirito Santo

Setembro 2010

O Bagulho é doido, mas a Favela é que é a Droga


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Pegue – ainda andando – o Bonde da Batalha de São Conrado

Todo mundo da Zona Sul, em pânico já falou, escreveu, leu, tremeu enquanto o pau comeu. Pois então parem de tremer, só um pouquinho e vejam de novo a cena aí em baixo, em câmera lenta, comigo.

Calma! Take easy! (Cadê o diazepan, o bromazepan, desta gente? E o lexotan, o psicosedin, o somalium, o tensil, o valium? Ai, ai! Help! Help! I need somebody help!… E eu? Cadê o meu isordil?)

Ué? Mas não estava uma calmaria só com esta história de UPPs pra lá UPPs pra cá? A política de segurança adotada contra a violencia urbana – com a tomada de doril, a sumida zastrás da bandidagem, cedendo pacificamente – esportivamente até – o território para as redentoras UPPs?

Até eu, bruto, grosso que só vendo, com esta minha má vontade proverbial (que os lulistas mais fanáticos dizem ser ‘insana’ e ‘gratuita’) me animando para com as nossas atuais autoridades constituídas, já baixando a bola crítica ao ler as animadoras reportagens propagandísticas sobre UPPs, com dificuldade para discernir, entre o que era trigo da mais pura verdade do que era joio da mais deslavada propaganda eleitoral, nesta história de pacificação das ‘comunidades sitiadas pelo poder paralelo’.

Sim porque, com foros de descoberta da cura do câncer, da decodificação do último caco da pedra da roseta, do fechamento do buraco na camada de ozônio, a violência urbana dava toda a pinta de que desapareceria sim, no lapso de uma mágica com ar de malandragem mandraqueana, como uma paradigmática política, a mais certeira e verdadeira deste mundo.

Daí:Pum! Pá!Pá!Pá!Pá!

Correria, reféns, cena de cinema. Não fossem as armas high tech e as roupas de grife da bandidagem, ia ficar parecendo aqueles reids de cangaceiros de filme da Vera Cruz, que eram por sua vez – quem se lembra?- copiados dos filmes de far west classe ‘C’, com aqueles bandidos mexicanos suados, barbados, invadindo a cidade às gargalhadas, dando tiros a esmo e soltando gritinhos histéricos, como mariachis cantando ‘cucurucucu paloma’.

Pois sim. A não ser os da assistência, quais gritinhos histéricos você ouviu? Zero. Nenhum. Berros, urros matraqueados de fuzis de assalto, AR15, AK47 FAL, isto sim foi que se ouviu. A bandidagem desenvolta gritando os palavrões mais cabeludos deste mundo.

Mas foi mal sim, não foi? Em plena manhã de sábado em pleno ‘Rio-que-mora-no-mar’ aquela bandidada toda, saltando daquelas vans de roupa preta como se fosse assim um bando de ninjas tropicais de cara limpa, saídas de uma locação de favela de um filme do Van Damme, do Will Smith, do Stallone. Vieram de onde aqueles bárbaros vândalos? De um baile funk nas ‘serras de veludo’, do alto lá do ‘Rio que NÃO sorri de tudo’, foi o que a imprensa divulgou.

Bárbaros! Vândalos! Onde é que já se viu? Não sabem mais onde é o seu lugar? Concordo e me solidarizo com a bacanada. Juro por Deus.

Que não foi nada fofo, isto não foi não. Um terror quase médio oriental. Uma chusma de talibans desgovernados, sem nenhum bin laden pra gente chamar de nosso, para colocar a culpa e mandar – como um bode bíblico – para uma montanha remota de um Paquistão destes qualquer, ou um Bangu 1, 2, 3, 4, 5, 6…, para purgar todos os pecados deste nosso abilolado Brasil de quase primeiro mundo.

O lado bom – é gente, dependendo do ponto de vista, tudo tem sempre um lado bom – é que a gente pode baixar um pouco a bola sim, sair desta euforia tão dilmista, desta conversa fiada governista de paz e amor sem sacanagem, para tentar fazer uma análise mais realista e franca da situação.

Estão mesmo a fim de cair na real? Acompanhem então no meu modesto e imparcial raciocínio os dados que todo mundo está careca de saber, mas finge esquecer.

O buraco – vou logo avisando – é bem mais embaixo

O Rio de Janeiro tem mais de 1000 favelas, certo? (e para quem duvida a lista está aqui mesmo para ser conferida). É um número tão absurdo, mas tão absurdo para uma cidade com apenas cerca de 1.224,56 km2  que, para caber no espaço que ocupam (sem ferir as leis da física) muitas destas favelas se juntaram umas às outras, como um turbilhão de moléculas, criando células urbanas amorfas e agigantadas, sendo chamadas hoje quase cinicamente de… ‘complexos’ (o que, cá entre nós, assim meio sem querer, acabou virando uma palavra bastante apropriada para o caso – cujas mumunhas mais impressionantes nós mesmos, aliás, já esmiuçamos por aqui)

Indo mais fundo ainda na questão, vamos combinar então que uma favela não passa muito de um amontoado de habitações imprensadas umas nas outras, nas quais reside um aglomerado aparentemente desarticulado de pessoas, as quais, por uma contingência natural de sua condição de seres vivos (nem precisavam ser humanos) se organizaram de uma forma ou de outra até assumiram uma feição de uma micro-cidade.

É uma questão de lógica mesmo, gente. Pessoas demais – aquelas a quem a sociedade nega tudo, inclusive espaço para morar- ocupando espaço de menos. Isto, numa física mais elementar ainda, costuma ser igual à pressão e, em algum prazo (o tempo do pavio) explosão.

Esta ‘sub-cidade’ , esta bomba sempre prestes a fazer ‘Bum!’ – apartada que está da ‘cidade oficial’ – desenvolveu, evidentemente uma economia própria, clandestina, do mesmo modo que criou relações políticas e culturais anárquicas, clandestinas também (e talvez este seja o único aspecto positivo da história) tudo isto estruturado em torno de uma instancia de poder dita ‘paralela’, espontaneamente surgida ou – como ocorre na maioria das vezes – instalada ali por meio da força bruta, de uma invasão armada, militarizada, mas de qualquer modo representando um poder, efetivamente instituído, com um complexo protocolo de interesses e relações – não importa mais se promíscuas ou não – estabelecidas tanto internamente (no seio do que se chama eufemisticamente de ‘comunidade‘) quanto com o mundo exterior (no nosso caso, a aqui chamada cidade ‘oficial’).

Agora deu para entender, não deu? Posso divagar um pouco então.

‘Zu’, comandante ‘bicho solto’ do Kilombo Louco.

Ouvindo o secretario de Segurança do Rio de Janeiro José Mariano Beltrame dizer hoje que sabe muito bem onde mora o ‘Nem‘ da Rocinha (e até mesmo o que existe dentro da casa dele) antes de cair na gargalhada, pensei: E daí? Isto qualquer zé mané pode saber. Não é segredo para ninguém. Isto não é vantagem que se alardeie assim, como uma suprema glória estratégica. Ele devia era ter vergonha de dizer um disparate destes, que não prende ‘Nem‘ para ‘preservar a população’ de constrangimentos e… balas perdidas. Que chantagem! Que cinismo!

Me lembrei no ato que, eu mesmo, trabalhando durante algum tempo na década de 1990 dentro de uma destas cidadelas clandestinas, por dever de ofício, pude ter um contato bem direto, privando da intimidade mesmo, com um destes ‘sobas’ de favela igualzinho ao ‘Nem‘.

A experiência (que já narrei anteriormente no post deste link) me permitiu observar alguns fatores cruciais, fundamentais mesmo para se compreender o quanto é cabeludo o problema.

Zu” (o codinome deste bam bam bam de favela já falecido, barbaramente assassinado) se apresentou a mim anunciando, sem meias palavras, que era o “presidente da associação de moradores de dia e o chefe do tráfico de noite”.

Os demais integrantes da quadrilha – cerca de 15 a 20 homens, no máximo – todos bem jovens ainda os quais, do mesmo modo, conheci bem de perto, tinham aquela ocupação precária como único emprego possível. Um número indeterminado de outros moradores, donos de biroscas, cozinheiras que vendiam quentinhas para o bando, de uma maneira ou de outra, também dependia daquele negócio para sobreviver.

E tinham as ‘tchuchucas’ que pescavam favores, lascas e prendas da negadinha bandida; o pastor que salvava os não bandidos do demônio (e amealhava os dízimos dos coitados); um mundo de gente desamparada, vivendo como mariposas na aba do ‘movimento‘. Fazer o que?

Nunca me esquecerei de uma garotada mal entrada na adolescencia, que vi uma vez sentada num degrau à porta da ‘Boca‘. Trabalhavam na chamada ‘endolação‘, preparando e embalando a cocaína para a distribuição. Haviam manchas estranhas, enormes, de um roxo enegrecido estigmatizando os antebraços e as mãos daqueles garotos esquálidos.

As manchas – soube depois – eram provenientes da manipulação do produto químico que usavam na decomposição da cocaína, algo como amônia, não sei bem.

Os rostos encaveirados daqueles garotos, todos negros, um pouco pelo cansaço, um pouco pelo algo de droga que consumiam, tinham um que de caras de zumbies de filme de terror norte americano. Estavam sentados ali imóveis me olhando, exaustos como num intervalo da filmagem de um thriller no qual Michael Jackson algum conseguiria injetar glamour.

(Estranho como ainda bem antes do advento fúnebre do crack, esta negadinha  já se parecia com os bandos de zumbizinhos craqueados e moribundos de hoje).

Deste mesmo negócio sujo viviam advogados ‘de porta de xadrez’ , alcaguetes de polícia (quase sempre agentes duplos) e um grupo enorme de PMs além, é claro, do próprio comandante do batalhão da área. ‘Zu“, pessoalmente me falou sobre isto em certa feita, apontando de longe um PM numa guarita de uma rua chic, próxima à favela me dizendo:

_’ A’lá! Tá vendo? São tudo uns cú-de-galinha. Sabem quem sou eu, mas não podem fazer nada porque tem o acordo’.

Até mesmo a creche do local, totalmente abandonada pela prefeitura da cidade ‘oficial’ dependia bastante de uma ou outra ajuda do caixa do tráfico, segundo eu mesmo pude constatar realizando ‘inspeções‘ solicitadas pelo próprio ‘Zu‘, cioso e interessado em me provar que tinha mesmo alguma…’responsabilidade social’. E quem ia duvidar ou discordar dele? Eu?

Outra característica curiosa do poder especial do xerife ‘Zu’, a ele delegado pelas… especiais circunstancias (havia participado da invasão armada ao local, desalojando a quadrilha anterior com uma chacina) era o alto grau de sumarismo da justiça local, por ele assumida, a ferro e fogo.

A condição de entreposto de drogas, uma mercadoria de tão alto valor comercial, que precisava ser defendida assim, militarmente, obrigava ‘Zu’ a difundir e a manter ativo um código de leis absolutamente terrorista onde a pena de morte era quase sempre a única pena admitida e aplicável.

Qualquer manifestação de ponderação ou ‘salomonismo’ por parte dele, o ‘líder’ seria sempre encarada como um sintoma de vacilação, deixando-o com a fama de frouxo, incitando a cobiça dos inimigos invejosos, ficando portanto vulnerável aos ataques de quadrilhas integradas por rivais externos ou internos.

A regra mais fundamental do caráter sui generis daquela micro-sociedade clandestina, a base política de sua sobrevivência era, portanto o chamado ‘Acordo’. Espécie de tratado de paz, de acerto diplomático estabelecido com agentes intermediários da autoridade constituída, o poder oficial, ‘exterior‘.

Este ‘Acordo‘ (que no âmbito estrito da Policia Militar do Rio de Janeiro, foi depois tornado público no filme ‘Tropa de Elite’) é que dava garantias a ‘Zu’ de poder contar com total segurança para tocar seus negócios, desde que dentro dos limites de seus domínios territoriais.

O ‘Acordo’ (ah…qual é? Porque será que insisto em falar disto se todo mundo já sabe)  era – como ainda é – baseado no pagamento de um valor periódico (mensal, semanal) uma ‘comissão’ rigidamente estipulada entre as partes. Chamado de ‘PP’ na gíria – ‘pronto pagamento’– a palavra parece ter sido extraída do jargão do Jogo do Bicho , ou seja, era um ‘pro labore’ sem nota ou recibo. O pior da história é que esta prática parece estar indelevelmente arraigada entre nós, como marca histórica mesmo, vigente que é há muito tempo, desde os tempos de D.João Charuto.

Gosto de fazer uma analogia entre nossas favelas com o exemplo dos quilombos de escravos fugidos do Brasil colonial (afinal, o modelito bem que deve ter sido inspirado nisto aí) porque a História do Brasil, mesmo esta ‘chapa branca’, convencional, já constatou que para que estes quilombos pudessem durar tanto tempo (Palmares , por exemplo, o quilombo mais célebre, chegou a durar quase um século), certo nível de promiscuidade nas relações comerciais e ‘políticas’ entre eles e a sociedade ‘oficial’ tinha, necessariamente de existir.

(Cheguei mesmo a chamar numa canção esta comparação entre os quilombos de ontem e o as favelas de hoje de ‘Kilombo Louco’, com as favelas de hoje representando uma exacerbação de nossa psicopatia social, nossa mania – melhor dizendo, nosso  vício –  imoral e renitente de excluir a maioria de nossa gente em benefício de uma reles minoria.)

“…Kilombo louco!
Cada favela um Brasil
Kilombo louco!
Mateus, quem pariu?
Depois da lança e bodoque
a pistola Glock, a metralhadora e o fuzil”

A grande tragédia brasileira – mais trágica ainda porque está sendo agora mesmo, subestimada, irresponsavelmente tolerada por nosso corrompido eleitorado nas eleições atuais – é que esta prática acaba de se tornar – mais ainda do que já era – infelizmente, generalizadamente nacional.

Ela é recorrente tanto no âmbito das relações comezinhas entre a polícia e os bandidos descritas no microcosmo das favelas que acabo de descrever – sua provável gênese – quanto no âmbito das relações entre autoridades constituídas em geral e máfias de contraventores de qualquer ordem ou tipo principalmente – como se pode constatar no episódio dos mensalões de Brasília – no âmbito da política e de todos os níveis da administração pública, da Presidência da República a mais inexpressiva prefeiturinha municipal.

Bem, mas isto a julgar pela direção em os ventos das eleições presidenciais estão soprando, está virando uma carroça pesada demais para os puros de coração que, fatalmente terão que empurrar com a barriga – e nós nas tripas – mais este bonde de mazelas republicanas, por mais alguns anos.

…Isto para os que ainda estiverem neste mundo (ou que tenham ainda alguma barriga com que empurrar alguma coisa).

Ai!

(Pronto. Podem voltar a respirar agora. Podem sair de baixo da cama. O tiroteio por enquanto amainou. Ai que alívio! Meu isordil chegou, a pressão arterial baixou… Ufa! Depois eu volto e sigo o bonde no post #02 deste papo)

Spírito Santo
27 de Agosto 2010 (dia do eu 6.3 turbinado)

Galdino e o quarto escuro


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Não é, confesso, mas bem que este poderia ser Galdino Cabinda

Não é, confesso, mas bem que este poderia ser Galdino Cabinda

O inferno do escriba é aqui

Parece o céu de uma vida vivida só na flauta, mas escrever – com perdão da palavra – é phoda.

Escrever sobre o que? Me digam. Para quem? Publicar, difundir onde? E como? Deus do céu! Só mesmo sendo como eu que escrevo por vício, na compulsão franco-atiradora de pelos cotovelos sair dizendo as coisas que me vem à telha, com a mais sincera das emoções.

Existem uns macetes que a gente aprende às turras com as páginas em branco, nas surras do dia a dia: O ofício, mesmo aos diletantes, exige alguma dose de pragmatismo sim. Aprendi isto escrevendo umas poucas peças e roteiros para teatro e cinema, linguagens rígidas, cheias de filigranas técnicas e rubricas.

Existiria algo mais virtual e louco do que escrever tão meticulosamente, apenas supondo que alguém, um belo dia, vai dispender tempo e – com de novo o perdão da palavra – saco de ler uma história já toda formatadinha para ser encenada num palco ou filmada por muitas luzes, câmeras e atores, escrita pelo ilustre quase desconhecido que é você? Pura piração, não é não?

Foi por isto que, cansado de ver gavetas e HDs cheios de calhamaços de papéis e bits de histórias formatadas nesta ou naquela linguagem arrumadinha, decidi simplesmente contar histórias como aqueles contadores comuns contam, coloquialmente, como ao pé de uma fogueira quentinha, para todo mundo entender.

Daí – que alívio!- o problema passa a não ser mais meu. Quem quiser achar que a história se parece mesmo com um filme ou com uma peça de teatro que me convença ou que monte ou imagine na sua própria cabeça as imagens que lá bem entender.

Então é assim: É bem isto que este argumento como todo argumento é: Um filme imaginado, sugerido, olhado pelo velho diafragma de uma máquina fotográfica caixote, das antigas, querendo falar das fotos que jamais foram feitas de um – por isto mesmo-  invisível êxodo de escravos da servidão da roça para a rebeldia da Corte do Rio, da tontice mais épica do eito para a esperteza do Ganho na cidade grande (e isto tudo com graça e propriedade) num cenário de manguezais exuberantes, num século 19 em que uma natureza vizinha  e tão conhecida da gente do Rio – a baía da Guanabara, hoje degradada como que – emoldurava uma história de um Brasil escravista que foi o que foi como teima ainda ser.

É tudo mentira, certo? Tramas inventadas, mas se quiserem, simplesmente imaginem que foi assim tim tim por tim tim e se divirtam sem culpa.

Galdino e o quarto escuro

Argumento cinematográfico para um eventual longa metragem

Por Spirito Santo

Rio de Janeiro, entre 17 e 20 de Maio de 1888. Encarcerado, justo quando todos os escravos acabavam de ser libertados pela lei Áurea, sob severo interrogatório na Casa de Detenção da Corte, acusado de ser um rebelde quilombola, o negro ‘de ganho’ Galdino Cabinda, vai desembuchando a história de como, justo ele, tão sabido quanto despachado, apesar de completamente inocente, foi se envolver numa enrascada cabeluda como aquela, cujo desfecho, como saberemos adiante, deu no que deu.

Entre respostas sinceras ou mentirosas (arrancadas sob pancada no interrogatório) e coisas que ele fala simplesmente porque quer falar, iremos nos dando conta da complicada rede de circunstâncias que fizeram de Galdino Cabinda o personagem central desta história.

A história – na qual não há mesmo jeito de se distinguir o que é verdade do que é mentira – pode começar na Europa, mais precisamente em Lille, França, onde num certo dia de Março de 1888, fim de inverno, o jovem “photógrapho paizagista” Jean-Phillippe Brumeux, impressionou-se vivamente com as litografias publicadas num luxuoso livro, baseadas nas imagens do seu  conterrâneo, o grande Victor Frond, que andara produzindo belas fotografias de escravos nas fazendas de café da região do Vale do Paraíba o Sul, na província do Rio de Janeiro.

Estimulado também pelas idéias libertárias de Frond – que fora um fervoroso ativista  republicano – Jean Phillippe viaja para a Corte brasileira, afim de ganhar algum dinheiro fotografando autoridades e figurões do Império e, ao mesmo tempo, documentar a dura vida dos escravos na Corte.

Logo que chega ao Rio, Jean Phillippe procura Louis Jacques Dapaix (uma alusão ao nome de um dos precursores da fotografia, Louis Jacques Daguerre), o dono de um estabelecimento que aluga equipamento fotográfico e teria sido recomendado à Jean Phillippe por um amigo de seu pai.

Influenciado pelas notícias de turbulentos incidentes que ocorrem na província vizinha á Corte nesta ocasião, ele decide mudar radicalmente seus planos, deixando o negócio de retratos para mais tarde, a fim de partir direto para o interior, ao encontro das turbas de escravos que,  segundo aquelas mesmas notícias, se encaminhavam em êxodo para á Corte.

Necessitando de um escravo para alugar, Jean Phillippe conhece numa bodega da Corte o bem falante (e já nosso conhecido) ‘negro de ganho’ Galdino Cabinda que aceita a função de guia e  carregador.

Galdino sugere a Jean que rumem para a cidade de Nossa Senhora do Pilar, onde ele conhece a portuguesa Maria da Luz Müller, 40 anos, mais conhecida como Maria ‘Mula’, uma ex prostituta mulher do comerciante cego Rui do Serro D’Alferes, seus antigos senhores, que poderiam  hospedá-los.

A cidade fica na baixada que separa a Corte do interior da província, próxima a fazenda do  Barão de Iguaçu e as terras dos monges beneditinos, onde existe, num vasto manguezal coberto de pântanos e uma intrincada malha de rios e córregos, o até então invencível Quilombo do Bomba, conhecido também como Quilombo de Iguaçu.

É, pois Galdino, quem narrará em flashbacks distribuídos ao longo do filme, a história toda, de Jean Phillippe a Rui D’Alferes, de Maria Mula e até de si mesmo, a partir dos dados á seguir:

Rui Amancio do Serro D’Alferes, comerciante brasileiro, cego, 55 anos, havia sido um grande distribuidor de cachaça e fumo de rolo em Ouro Preto e veio para a Corte tentado a implantar o mesmo negócio por aqui. Se esbordoou por conta da concorrência com uns padres  capuchinhos, que monopolizavam este comércio na Corte.

Foi por isto que resolveu entrar para o negócio da lenha, se mudando para as bandas do Nossa senhora do Pilar nas vizinhanças do Rio Sarapuí. Não foi muito bem, a princípio mas, com o aumento das fugas de escravos e o crescimento dos quilombos na região, não conseguindo competir com os contrabandistas de lenha, decidiu mancomunar-se com eles, atividade na qual Galdino foi muito útil, como intermediário.

Assim foi que, apesar de o ser vias tortas, Rui D’Alferes ficou rico. O grande azar do cego eram os ardis pensados e perpetrados por sua esposa Maria Da Luz ‘Mula’, mas disso ele nada soube até morrer, atropelado por um tílburi, na porta do seu armazém.

Maria Da Luz ‘Mula’ conheceu Rui Amancio ainda na Corte. Ele, muito prestativo, sempre se oferecia para levar a meretriz até o sobrado onde ela vivia, perto do Campo, tarde da noite, quando terminava a ‘viração’. Ela, uma teuto-portuguesinha faceira, neta de um suíço cristão novo, que fugira de Lisboa no tempo da inquisição (o Mula vinha de Müller, sobrenome suíço dela, mas o povo maldoso dizia que vinha mesmo era do fato de haver sempre alguém  montado em cima dela).

Tão prestativo Rui era que Maria ‘Mula’ acabou largando a vida ‘fácil’ para encarar a vida mais fácil ainda, de se casar com ele. Passou a ajudá-lo no armazém, controlando cada vintém que entrava dizendo que com o espírito regrado dela, o casal ficaria mais rico ainda. Só não controlava mesmo as recaídas de ‘mulher da vida’ que tinha, sempre que algum garanhão conhecido ou mais audacioso, se aproveitando que o ceguinho não percebia nada, passava a mão nela ou a atentava com olhares libidinosos. Foi numa dessas que conheceu Galdino o  negro de ganho que, alugado por Rui para ser caixeiro, acabou mesmo foi se encaixando nas graças dela, que parou de vez com as escapulidas com qualquer um, para ser só dele, do  Galdino (e do ceguinho, é claro).

Assim foram também fazendo filhos, que se juntaram aos filhos do ceguinho (os dois que saíram com o cabelo duro de Galdino, viviam com as cabeças raspadas). Cercavam o mais velho dos filhos do ceguinho de cuidados para ele não chamar a atenção do pai. Tinham medo dele perguntar em voz alta que história era aquela de haverem dois irmãos pretos e dois brancos na família, se Rui e Maria eram brancos de dar pena. Neste suspense, não viam a hora de fugir logo dali.

Galdino, partilhando com Maria ‘Mula’ a cama e a mesa, não demorou muito a descobrir que ela desviava dinheiro do marido. Ela não teve mesmo outra saída senão se acumpliciar com ele, para poder continuar a roubar o ceguinho em paz, de grão em grão.

O ceguinho no entanto, um belo dia, descobriu o sumiço do dinheiro pondo tudo a perder para os amantes. O único jeito foi Galdino fugir para não ser preso, assumindo sozinho a culpa pelo furto.

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Ao sugerir ao francês o destino de Pilar, Galdino pretendia aproveitar a viagem para se   reconciliar com Maria ‘Mula’ que, agora viúva, poderia recebê-lo, desta vez até como uma  espécie de marido de fato, franqueando-lhe, evidentemente, a parte que lhe cabia do furto já que ele, por conta da abolição eminente, em breve não seria mais um escravo fugido.

Mas antes disso tudo ser revelado, em viagem interior á dentro, junto com Galdino, Jean  Phillippe consegue recolher, principalmente no trecho entre Inhaúma, (quase na Corte) e Irajá e Pavuna (no limite com a região da baixada), uma série de flagrantes do êxodo de escravos para a Corte e do desmoronamento do sistema de trabalho escravo. Entre outros fatos – todos  inteiramente inventados – os seguintes podem ser inseridos no roteiro:

Uma família desgarrada (homem e esposa com filhos pequenos procurando outros dois filhos adolescentes) tenta se reestruturar no êxodo. Vão se encontrando durante o trajeto do filme.

Um dos filhos desgarrados integra a tropa de quilombolas que se verá no filme. Ao ser fotografado por Jean, o rapaz conta que fugiu e ingressou no quilombo depois que o filho do senhor o esbofeteou na frente da mãe que, ao defendê-lo, foi esbofeteada também. Ao ver a foto da família, mostrada por Galdino, o menino pousa a espingarda no chão e surpreso, chora.

Um soldado mulato, quase branco, integrante da tropa que patrulha a estrada em busca de quilombolas e bandoleiros, pergunta, discretamente, aos passantes vindos do Pilar, se  conhecem uma escrava chamada Altamira, que lhe disseram ser sua mãe e que seria escrava de uma das fazendas das redondezas.

Vez por outra grupo de soldados a cavalo persegue e subjuga um escravo entre os que seguem no êxodo, que acusam ser um quilombola. No trajeto do êxodo, escravos maltrapilhos,  perseguidos são vistos escondidos em grotões da estrada.

Grupo de escravos que carrega numa carroça legumes, aves e hortaliças, para uma fazenda próxima da estrada, é atacado por mulheres e crianças da turba faminta. O escravo que conduz a carroça espanta o cavalo com a carroça para os lados da fazenda. Cavalo desembestado tropeça e cai, carroça cai sobre ele que estrebucha e morre. Turba saqueia os legumes, as aves e as hortaliças.

Quase noite, grupo de escravos famintos destrincha o cavalo morto na estrada. Num acampamento noturno, com a carne do cavalo sendo assada, escravos dançam e cantam em roda em torno de uma fogueira.

Um escravo, excitado, conta para todos da roda, em detalhes e de modo engraçado, como perseguiu por semanas e, por fim, matou o capataz que o atormentara anos á fio.

Escravos que carregavam a carga saqueada choram, temendo ser castigados pelo senhor que dizem ser muito severo, por causa da perda dos víveres e a suposta fuga. Galdino e Jean Phillippe, sensibilizados, se comprometem então em seguir com os escravos até a fazenda para, como era prática na época, ‘apadrinhá-los’ (testemunhar a seu favor).

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Seguindo o grupo de escravos, Jean-Phillippe e Galdino chegam ás terras do fazendeiro  Merenciano D’Alencastro e Manso, o barão de Massarambá, um ferrenho escravista que  desconfia que os estranhos são ligados aos abolicionistas. Galdino o convencerá de que o francês trabalha na verdade para ’O Redemptor da Nação’ um jornal pró-escravista da Corte, envolvido numa campanha de apoio a fazendeiros que como Merenciano estão prestes a falir com a abolição.

Assim, Jean Phillippe conseguirá registrar o dia á dia da fazenda. Muitas fotos do fazendeiro, de sua família e de seus escravos serão produzidas nesta ocasião. Durante as longas seções de fotos, com imagens narradas em off, Merenciano contará para Jean Phillippe as melhores partes de seu passado, a partir de, entre outros, os dados seguintes que são, como os anteriores, inteiramente inventados:

Hoje já velho e acabado, o senhor de escravos, Merenciano Augusto D’Alencastro e Manso,  Português de 65 anos se tornou barão de Massarambá porque certa feita, há uns 20 anos atrás, mandou servir água fresca, bolo de milho, refresco de lima, café, pudim e outras iguarias, para a comitiva do Imperador que, por acaso, para descansar do sol inclemente, estacionou num caramanchão de suas terras, longe da casa grande (o imperador não quis ir até a casa, apesar da insistência de Merenciano). Na ocasião D. Pedro II foi recepcionado por um grupo de lindas mucamas, mandadas pelo fazendeiro num carro de boi enfeitado com folhas de palmeira, com um convite escrito num bilhete além de vistosas bandejas onde as escravas levavam os acepipes.

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Nos dias que se sucedem á chegada de Jean Phillippe e Galdino, engrossa o fluxo de escravos retirantes que passa pelas terras de Merenciano. Engrossam também os grupos de quilombolas, com a adesão de muitos escravos que não tem para onde ir. O clima da fazenda vai ficando, por isto, cada vez mais tenso. Os escravos de Merenciano se dividem entre os que querem ficar na fazenda e os que querem fugir para a Corte ou mesmo se juntar aos quilombolas.

Um grupo de Quilombolas, mancomunados com escravos aliados, invade e saqueia a fazenda de Merenciano, levando consigo tudo que julgam ser de valor, inclusive o equipamento e o   material fotográfico de Jean-Phillippe. A caixa com as chapas que registram esta parte da viagem vão junto no botim. A polícia só chegou no dia seguinte.

Jean-Phillippe e Galdino não tem outra alternativa senão seguir para a área onde os Quilombolas se homiziam, para negociar o resgate do material. Valem-se da experiência de Galdino que,  como todo ‘escravo de ganho’ que atuou na região, conhece as trilhas e os córregos que levam aos esconderijos dos quilombolas. São interceptados no caminho por sentinelas e levados  presos para a sede do quilombo, numa ilhota remota e quase inacessível, no centro do  manguezal.

Remexendo na bagagem de Jean-Phillippe os quilombolas já haviam encontrado as chapas  fotográficas. Fascinados com as imagens, já as haviam levado para Manelão Kakumbe, o líder do quilombo que, mais fascinado ainda, logo que fica sabendo que o branco de fala enrolada era o autor das imagens, exige como condição para libertá-los, que Jean-Phillippe continue com eles para registrar a vida do Quilombo.

Manelão Kakumbe e Galdino se reconhecem de antigas transações e acabam se tornando bons amigos. A história do chefe quilombola, vista também em imagens de flashback, será contada por ele mesmo em conversas com Galdino:

Manelão Kacumbe escravo fugido da fazenda vizinha a de Merenciano, era assim apelidado porque dançava muito bem nos cacumbis que rolavam na fazenda, no tempo em que era escravo.

Ferreiro muito experiente, Manelão chegou com 15 anos no Brasil, vindo de Angola. Filho de um outro ferreiro, lá na África, já chegou aqui sabendo um pouco do ofício, o que fez com que ele conseguisse, rapidamente uma boa ocupação na fazenda, gozando de relativa liberdade, indo e vindo entre a fazenda da qual era escravo e a outra, vizinha, pertencente ao Barão Merenciano, para o qual, sempre que seu senhor autorizava, também prestava serviços.

Foi num desses serviços para Merenciano que Manelão se feriu na mão. Na hora de testar a peça de ferro que consertara, um dos burros da parelha que puxaria o monjolo, aferroado por um marimbondo, assustado desembestou, fazendo a engrenagem do monjolo esmagar parte da mão de Manelão (que, para esconder a mão mutilada, usa uma espécie de luva feita de couro de lagarto).

O capataz Felisberto Munhambano, havia percebido que o marimbondo poderia picar o cavalo. Foi ele quem estalou o chicote para espantar o animal e livrá-lo da ferroada. Manelão, cego de dor com a picada, julgou que o capataz (com o qual já tinha uma rixa antiga) havia assustado o cavalo de propósito, para feri-lo.

Penou muito se restabelecendo. Amargou a perda do serviço especializado que fazia para encarar pilonagem de café e roçado, até conseguir fugir da fazenda.

A rixa de Manelão com Felisberto é por causa de Mariinha Crioula, que fora sua, por algum tempo, mas que, assediada por Felisberto com a promessa de ajudar a alforriá-la, acabou trocando Manelão pelo capataz.

Mariinha Crioula, 25 anos, mulata, é exímia bordadeira que vive dentro da casa grande como escrava doméstica, desde que nasceu. Muitos na fazenda afirmam, a boca miúda, que ela é filha do Barão Merenciano, porque, de outra maneira, ficaria difícil explicar como ela, tão voluntariosa e impertinente que é, consegue manter tantas regalias. A história dela com Manelão dá bem a medida de seu caráter:

Assim que ela se fez crescidinha, ali pelos 15 anos, se muito, dos homens da fazenda, o mais vistoso para ela foi logo sendo Manelão que, a esta altura, já tinha lá os seus 25. Além de vistoso, sendo o melhor ferreiro das redondezas, Manelão era o mais bem colocado escravo da fazenda. Pois foi justo por isso que ela deu seus olhares mais oferecidos, até fisgar o bruto.

Felisberto Munhambano apareceu logo depois, vindo da fazenda do Barão de Iguaçu. Era moreno feito um índio, cabelo liso escorrido, porque vinha da costa de Moçambique, onde existem negros assim, misturados com indianos. Foi comprado por alto preço (cerca de $800.000,00, ela pode ouvir, detrás de uma porta) e logo se viu, pelas botas que ele usava, pelo jeitão arrogante que tinha, que já viera acertado para ser feitor, capataz.

Ninguém sabe dizer ao certo se foi Felisberto que assediou Mariinha ou se foi ela que arrastou as asinhas para ele. O certo é que, logo ela enjoou de Manelão e se bandeou para o capataz, acabando por se amasiar com ele. Manelão não se conformou jamais. Achando que a culpa era mesmo do capataz, tomou uma pinimba sem tamanho dele que, por sua vez, com a autoridade que lhe conferia a função, não perdia tempo para espicaçar o ferreiro, não deixando passar um deslize sequer, se não houvesse deslize, Felisberto inventava, fazendo questão de contar para o Barão tudo de errado que Manelão fizesse, por menor que fosse o erro. Viviam assim, feito gato e rato mas, ainda sem o ódio que só explodiu no dia do acidente.

No dia em que decidiu fugir, Manelão ainda tentou levar Mariinha consigo mas ela não quis, de jeito nenhum. Além do mais, Felisberto atravessou o seu caminho. Antes de desistir dominado pela frustração e pelo ódio Manelão ainda tentou matar o capataz com um ancinho, mas Felisberto, apenas ferido, escapou.

Por tudo isto, o que Manelão Kacumbe mais queria agora era que Maríinha o visse assim, poderoso de novo, chefe quilombola com o baú cheio de ouro e de contos de réis. As placas de retrato de Jean Phillippe se prestavam muito bem pra isso. Pena que a cara dele, do comandante de tudo aquilo ali, não pudesse ser revelada jamais. Pudesse…

De tão feliz, seria até capaz de não matar Felisberto. Capava-o apenas e pronto, se dando por satisfeito.

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Precisando de material fotográfico sobressalente, Jean Phillippe consegue que Manelão  Kakumbe autorize a ida de Galdino á Nossa Senhora do Pilar para encomendar o que falta e esperar o material chegar da corte.

Em Pilar, Galdino encontra enfim Maria Mula que, já sem dinheiro algum, lhe implora para seguir para o quilombo com os filhos. Galdino diz que isto não é possível, de jeito nenhum, deixando a mulher injuriada. Jean Phillippe, na volta de Galdino que se mostra um eficiente assistente, faz muitas imagens do grupo de quilombolas, registrando até algumas incursões de guerrilha contra comerciantes inimigos. A amizade entre Galdino e Manelão Kacumbe acaba sendo de muita valia também neste caso.

Não se conformando com a recusa de Galdino em levá-la com ele e se aproveitando da comoção causada na cidade pela última incursão dos quilombolas, Maria ‘Mula’ resolve denunciar para a polícia a localização exata do pouso atual dos quilombolas, sobre o qual Galdino, troncho de bêbado da noitada de cama e vinho que tiveram em Pilar, contou e recontou com todos os detalhes.

Manelão Kakumbe e Galdino Cabinda, no alto do morrinho do qual se descortina a baixada  verde, tomada pelo mangue e a malha de córregos, discutem, acaloradamente.

Galdino diz que não. Manelão diz que sim, que vai retirar de dentro daquela caixa preta o registro do seu rosto, feito a sua revelia por Jean Phillippe. É que se a sua foto chega ás mãos da polícia, acaba o seu sossego de andar livre pela região, incógnito.

Manelão sacode a caixa como um louco e é repreendido por Galdino que cuida da tralha do francês como se fosse sua. É quando os tiros, a revoada de pássaros e uma lufada de fumaça subindo das árvores, fazem com que eles larguem a câmera ali mesmo, no chão para correr. Galdino, ciente de suas obrigações volta para pegar o material.

Descem o morro em desabalada carreira para se juntar ao resto do grupo onde já está Jean Phillippe. Entram nos botes escondidos na vegetação do mangue e partem em fuga, se  espalhando pelos córregos, soltando impropérios e respondendo ao fogo com tiros, flechas e lanças.

É que, em vez de o ser somente pela a polícia, o manguezal está sendo atacado, de surpresa, por tropas da Guarda nacional, vindas da Corte. Durante as escaramuças (uma desabalada fuga de botes cruzando córregos e sendo espingardeados), o bote onde estão Jean e Galdino, bate numa raiz do mangue e tomba, fora da vista dos soldados.

Meio mergulhados no limbo, Galdino e Jean conseguem salvar a caixa de fotos e o equipamento e deslizam na água em silêncio, quase sem respirar. Mas o escravo, que é quem carrega a caixa, acaba sendo surpreendido e golpeado na cabeça por um soldado de um grupo que estava emboscado num canto do mangue.

Dos males o pior pois, é aí que o infortúnio acontece: A caixa com todas as chapas fotográficas que registravam a viagem, cai e afunda na lama do fundo do pântano.

A maioria dos rebeldes escapa, desaparecendo rapidamente pelas curvas dos córregos. Misturado aos poucos negros que são capturados, Galdino, acusado de ser quilombola, é

levado para a Casa de Detenção da Corte de onde como sabemos, em depoimentos à polícia, nos dará conta de todos os traços da história.

História transcorrida, vida seguida. Também ferido nas escaramuças Jean-Phillippe só fica  sabendo da sorte de Galdino quando chega na Corte. Tendo que insistir muito com a polícia para testemunhar a favor dele, Jean só consegue libertá-lo alguns dias depois. É que, segundo a polícia, Galdino não estava colaborando muito com as investigações, que visavam descobrir a identidade do bandoleiro que, a depender dele, eles jamais sonhariam que se chamava Manelão Kakumbe.

A volta de Jean-Phillippe para a Corte e o reencontro com Galdino, se dará entre os dias 17 e 20 de maio de 1888 (quando ocorre uma grande festa popular na Corte descrita por Robert Conrad) A idéia é acabar o filme durante esta festa, a alegria das ruas contrastando com a desilusão de Jean-Phillippe (que voltará para a França com as mãos abanando) e Galdino (que ficará por aqui, ao Deus dará).

Maria ‘Mula’ – agora famosa também como alcaguete de quilombolas, com tantos fugitivos á solta pela região – ganhou dinheiro da ‘verba secreta’ da ‘4a seção’ da polícia e escafedeu-se no mundo mais os filhos (um dia, quem sabe, Galdino não encontra os que são dele por aí?)

O disparar de um flash de pólvora revelará o retrato de Galdino, Manelão e Jean Phillippe, tirado por Monsieur Dapaix, última imagem proposta para este filme eventual. Este retrato seria, portanto a única lembrança concreta, material, que ficaria para os personagens da emocionante aventura que teriam vivido e que, para todos os efeitos, pelo sim ou pelo não, termina mesmo por aqui.

E ‘c’est fini’.