EXUCHIBATA, a peça (texto integral)


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“…Qual cisne Branco em noite de lua

Peça Teatral de Spirito Santo /1994


Guarnição do encouraçado ‘Minas Gerais’, como a esquadra dominanda, armada para o que desse e viesse.

(Leia resenha da peça neste link)

Cena 01
Kizumba
Exu Tranca Rua

Platéia entrando. No palco, a cena inteiramente montada está “congelada”.

Cena reproduz um motim popular numa rua do Rio em 1904. Barricada com pedaços de móveis velhos, caixotes, etc., está formada Em parte destacada da cena, dois negros capoeiristas, em posição de comando, ao lado de partes de um bonde virado. Fincada no bonde, uma vara com um trapo de pano vermelho simulando uma bandeira.

Á frente desta cena, ocultando-a parcialmente, a reprodução do quadro ampliado da capa de um Jornal segundo descrição a seguir.

Manchete está escrita numa longa faixa, sui

spensa por dois atores em pernas de pau, tomando todo o comprimento superior do palco :

JORNAL DO COMMÉRCIO

12 de Novembro de 1904
EXPLODE A REVOLTA DA VACINA!
Populacho em fúria faz quebra-quebra na cidade!

Abaixo da faixa, atores ou figurantes seguram alguns painéis quadrangulares, ficando ocultos atrás deles. Painéis reproduzem detalhes diversos da diagramação da capa do jornal (blocos de textos, charges, anúncios, etc.)

A composição com os painéis e a faixa, deve cobrir quase que, inteiramente a boca de cena, inclusive na sua altura, deixando vazia apenas um trecho quadrangular, onde se poderá ver enquadrado como uma foto, o pedaço da cena com os dois capoeiristas e parte do bonde com a
bandeira.

Inteiramente silenciosa e imóvel, a cena deve permanecer assim o tempo suficiente para criar um tensão inicial na platéia.

Após este tempo, som de um apito da polícia.

Grupo de policiais irrompe na cena com estardalhaço. Um deles carrega um cartaz onde se lê:

CENSURADO PELO GOVERNO !

Elementos cenográficos da “capa” se dissolvem, sendo desmontados desordenadamente e com rapidez. Cena atrás deles explode em gritos.

Fumaça e correria. Alguns policiais entram em cena portando espadas e dando tiros de  mosquete nos manifestantes. Pequenos objetos como rolhas, são lançados no chão por estes manifestantes. Policiais caem, tropeçando nos objetos. Em todas as situações, os dois  capoeiristas estão em posições de destaque, comandando o motim. Outros manifestantes também lutam com passes de capoeira.

Manifestantes vão sendo dominados. Muitos estão caídos como se feridos.

Gritos, ruídos e fumaça vão se dissipando até cena se congelar de novo.

Figurante vestido como um esfarrapado profeta louco, cruza lentamente a cena congelada, portando duas tabuletas seguras como “tábuas da lei”. Nelas se lê:

Tabuleta 01
Este país da Bruzundanga
parece de Deus deslembrado
Nele o povo anda na canga
amarelo, pobre, esfaimado

Tabuleta 02
No ano que tem dois sete
Ele por força voltará
e oito ninguém sofrerá
pois castigos já são sete
e oito ninguém sofrerá

Cena ainda congelada. Som de tambores e berimbaus vem surgindo ao fundo, crescendo, de fora da cena.

Os dois capoeiristas – Manduka e Pata Preta- separam-se dos demais e simulam jogar capoeira na frente da cena que, vai se descongelando lentamente.

Policiais orientam rudemente ações de “limpeza” do palco, realizadas pelos atores e figurantes. Feridos são retirados. Cena se prolonga com o retorno gradativo daqueles que vão saindo para as coxias, de forma que sempre haja o movimento de limpeza do palco durante toda a cena a seguir.

Capoeiristas durante as falas, interrompem o jogo. Cena atrás deles se congela nestes momentos. Quando voltam a jogar, após cada fala, cena atrás deles se descongela.

Sempre alternando movimentos e falas, capoeiristas se dirigem à platéia:)

Manduka: (olhando para os policiais)

_Pulhas! Na pernada não vem cá. Mandaro meu pai pra guerra do Paraguai. O véio caiu lá mesmo…um magote de capoeiras caiu por lá, adefendendo o Brasil. Agora eles falam que nós é da arruaça e do motim. Queriam o quê? Eles vem de espada e mosquetão. Queriam o quê? Que nós aceitasse morar na rua, no tempo? Derrubaram um muro aqui, na Praça da Harmonia, em cima de gente viva! Pulhas! Pra matar índio no Paraguai nós serve. Aqui, se nós se adefende deles, eles atacam e… tome chibata!

(Volta o jogo até congelar )

Pata Preta:

_ De primeiro eu até ria. Meganha correndo, com a espada calada na bunda, entre as pernas, igualzinho a um rabo…eu gozava! Chegava rolar no chão de tanto rir. Depois, foi me dando raiva. Fiquei dez dias no hospício, sabem porque? Tava descalço, andando no Rossio, cheio de parati. O meganha chegou e me deu umas três porretadas. Pronto! Dei banda nele…Ah,ah,ah! Caiu sentado na lama, o desgraçado. Daí corri.

Me pegaram. Fiquei lá no meio dos malucos, comendo o maior fubá. Quer dizer…Andar descalço é crime, né? agora…dar porretada na cabeça de negro é o que? Se agente fica na rua, sem casa…já tá descalço, né?…Pra agüentar, ora…só tomando muito parati. Quer dizer…nós tá no crime sem querer. Pegam a gente e botam adonde? No hospício, na casa de correção, na Presiganga, mandam nós pro Acre, pros bichos comer. De modos que comigo é assim: Chegou, bateu? Eu também dou porrada! E…tome chibata!

(Volta o jogo até congelar )

Manduka:

_A verdade eu falo agora. Querem derrubar nossa casa. Eles falam que é pr´uma tal de saúde pública. Pública de quem? Sem casa como é que a gente pode ter saúde? Meu avô foi escravo. Carregava na cabeça um barril de merda da família do sinhō, da Rua Direita até o cais Pharoux. O senhor morreu duma febre que deu lá, naquele tempo. A casa do finado, do sinhō do meu avô foi derrubada? Que nada. Tá lá até hoje…podre, fedida.

Não tô aqui por que quero.  Trouxeram meu avô pra cá. A gente se adefende com o pé, com a mão, com um pedaço de pau, com o que for. Me dá casa nova, me dá sapato, me dá camisa que eu bato palma pra saúde pública. Se me der bordoada, eu devolvo, eu pago, dou porrada também! E…tome chibata!

(Palco neste momento deve estar totalmente limpo. Ouve-se novamente o som de histéricos apitos da polícia. Capoeiristas correm para fora de cena, perseguidos por policiais.)

Cena 02
MUSEKE
Exu Marabô

(Penumbra. Novas partes do cenário, transferidas dos bastidores para o palco, fazem com que ele tenha agora dois níveis, sendo o superior composto por um praticável ou jirau móvel, dividido de alguma forma em dois espaços distintos, acessados por intermédio de escadas também móveis.

Metade deste jirau, reproduz um coreto tradicional, em cuja parte central bem no topo, um figurante coloca um letreiro. )

BATALHA DAS FLORES
GOVERNO PEREIRA PASSOS
1906

Música de bandinha, surge dos bastidores, crescendo. Parte do lado do palco, o mesmo onde está o coreto, mantém o bonde da cena anterior recomposto, ao lado da mesma coxia onde estava, sendo acessível aos atores através dos bastidores.

Saindo da coxia e atravessando o bonde, como se dele desembarcassem, muitas pessoas entram e cena, todas com os rostos pintados de branco. Algumas delas ficam por um tempo, dependuradas nos balaustres do bonde que, assim como tudo neste lado da cena, está ornamentado com flores. As pessoas estão muito bem vestidas (roupas de domingo), portando chapéus, bengalas, guarda-sóis, bambolês e bicicletas, tudo enfeitado. Músicos de uma bandinha também entram por ali.

O fluxo constante de pessoas pode ser conseguido através da circulação delas do palco para os bastidores, de onde retornam de novo ao palco, com ligeiras alterações de figurinos e adereços. As pessoas vão se aglomerando em torno do coreto, fazendo grande alarido. Luz neste ambiente é feérica Sob luz mortiça e no outro lado do palco simetricamente dividido, a parte inferior do jirau representa o pátio de uma casa de cômodos, no qual deve estar à vista algo que se assemelhe à fachada de um cortiço.

Um pequeno chafariz, algumas tinas de roupa, cadeiras, além de varais de roupas cruzados pelo espaço mas ainda vazios, podem completar o cenário.  Focos nos participantes da festa no coreto. Um grupo de autoridades se aproxima, vindo detrás da platéia. Grupo de policiais faz escolta.

Participantes da festa, do palco, aplaudem e dão vivas entusiásticas. Participante grita:

Participante:

_ Viva o Prefeito Pereira Passos!

Todos respondem em coro.

Grupo de autoridades sobe ao palco e se fixa no centro do coreto. Fotógrafo com máquina “lambe-lambe” assume boca de cena. Autoridades se imobilizam diante do fotógrafo, esperando a foto. Explosão do flash fotográfico sinaliza inversão da luz nos ambientes. Na penumbra, cena do coreto prossegue com movimentos normais mas, sem ruídos.

Luz da casa de cômodos cresce. Pátio da casa de cômodos começa a ser ocupado por homens vestidos com roupas sujas, trazendo alguns dos adereços citados que vão sendo largados pelo pátio. Alguns destes homens são marinheiros. Outros homens entram trazendo carrinhos de mão tipo “burro-sem-rabo” e grandes sacos de carvão.

Ruídos da cena são apenas os produzidos pelas ações descritas. Alguns homens entram na casa e desaparecem nos bastidores. A maioria senta ao lado do chafariz, fumando lentamente. Todos parecem cansados. Mulheres começam a sair da casa e estendem roupas nos varais. Num dos cantos uma mulher lava roupa numa tina.

Homens e mulheres vão se recolhendo para o interior da casa até que toda o pátio fique vazio.

Nova explosão de flash fotográfico. Nova inversão de luz nos cenários.

Burburinho na cena do coreto volta forte. Luz forte se concentra no centro do coreto onde se destaca uma autoridade de barbicha.

Prefeito faz discurso inflamado:

Pereira Passos:

_ A população do Rio que, na sua quase unanimidade, felizmente ama o asseio e a compostura, espera ansiosa pela terminação desse hábito selvagem e abjeto, que nos impunham as sovaqueiras suadas, apenas defendida por uma camisa de meia rota e enojante de suja, do vexame de uma súcia de cafajestes, em pés no chão, quando um calçado está hoje a 5 mil réis o par e há tamancos por todos os preços. Na Europa, ninguém tem a insolência e o despudor de vir às ruas de Paris, Berlim, de Roma, de Lisboa, etc. …em pés no chão e desavergonhadamente em mangas de camisa!

Aplausos frenéticos de novo. Participantes ficam agitados. Prefeito prossegue:

Prefeito Pereira Passos:

_O Rio de Janeiro principalmente vai passar e…já está passando por uma transformação radical. A velha cidade, feia, suja, tem os seus dias contados! Não é outro, tenho-lhes dito, o verdadeiro sentido de civilização e progresso do que nossos detratores tem chamado, levianamente de “bota a baixo”!

Coro de participantes (gritando) :

_ Bota a baixo! Bota a baixo! Bota a baixo! Bota a baixo!

Participantes vão ficando agressivos e começam a ocupar o cenário da casa de cômodos,  depredando-o. Policiais tentam impedir, sem muita convicção e não conseguem. Platéia começa desmontar todo o pátio da casa. Policiais resolvem também a ajudar no vandalismo.

Participantes da batalha das flores vão ocupando toda a cena, Luz acompanha este movimento de expansão da cena e vai tomando também todo o espaço cênico. Prefeito é carregado em júbilo pelos participantes, que vão saindo com ele pelo lado onde estava o pátio da casa.

Alarido da saída dos participantes da batalha da flores prossegue ainda um pouco, mesmo depois da cena estar vazia.

Com o silêncio, homens e mulheres que moravam na casa de cômodos, voltam à cena como garis da época, limpam os restos de adereços que sobraram no palco e recolhem as partes do jirau.

Luz vai caindo até o black out.

Cena 03
ZUNGA
Pomba Gira

Música de Ragtime em piano comum e percussão típica. Fundo da cena simula linha do mar e parte do convés de um navio do início do século.

Predominância de preto e branco nas cores em todo cenário e figurino. Personagens brancos, têm os rostos pintados nesta cor.

Todos os movimentos das personagens são esquemáticos, quase mímicos.

Cena simula uma seqüência de cinema mudo.

Português bigodudo entra em cena de ceroulas, boné característico e tamancos. Caminha até o centro da cena de forma cômica. Só aí demonstra perceber que está de ceroulas. Cobre a bunda e púbis com as mãos e foge para uma das coxias. Antes de sumir faz sinal para que a platéia o aguarde.

Português volta com o corpo coberto por dois painéis de anúncio de cinema. No painel da frente se lê:

“Cinematógrapho Avenida e Pathè Films Apresentam A sensacional película!!

KALUNGA, O MARUJO DO BARULHO”

Português vira de costas. Segundo painel é lido:

Hoje:

KALUNGA E OS TENENTES DO DIABO

Português sai de cena mas voltará sempre com novos letreiros que formarão as legendas do filme mudo.

Grupo de tenentes da marinha entra desajeitadamente no palco, um deles faz soar um apito característico, chamando alguém que está oculto na coxia, do lado oposto ao que entrara o  português. Um dos tenentes faz a mímica como se falasse. Português mostra letreiro:

MARUJO, APRESENTE-SE!

Pessoa chamada não se apresenta. Um dos tenentes agita no ar uma chibata. Apito soa  novamente. Tenente repete o chamado, com mais ênfase.

Português mostra de novo o letreiro:

MARUJO, APRESENTE-SE!

Entra em cena o marujo Kalunga. Negro, baixinho, fazendo graça para a platéia. Tropeça, finge que está com medo dos tenentes, Perfila-se e faz desajeitada continência para eles. Um dos tenentes faz mímica de grito, dirigindo-se aos outros.

Português mostra letreiro:

A BARRICA! A BARRICA!

Dois tenentes vão até a coxia e retornam com uma grande barrica posta sobre um chassi com rodinhas. Viram para a platéia um lado da barrica onde se vê um orifício. Tenentes apontam o orifício para a platéia. Ordenam a Kalunga que se aproxime. Letreiro anuncia a ordem:

ENTRE NA BARRICA, MARUJO! É UMA ORDEM!

Kalunga reluta. É pego por um dos tenentes, se desvencilha, corre pelo palco. Muita comicidade na perseguição. Corre em torno da barrica até ser pego pelos os tenentes. É posto à força dentro da barrica que é levada com ele dentro para fora do palco. Tenentes saem com a barrica, rindo e indicando com gestos, que vão sodomizar o marujo . Letreiro anuncia:

ORDENS…SÃO ORDENS!

Breve momento de cena deserta. Kalunga coloca a cabeça para fora dos bastidores, do lado oposto ao do que está a barrica. Kalunga assume o palco e faz sinal para que platéia fique em silêncio. Eufórico, faz suspense, aponta para o lado onde está a barrica. Pede a platéia que espere atenta.

Luz na direção da coxia onde está a barrica. Gemidos lascivos são ouvidos, vindos do lado onde está a barrica. Logo após os gemidos, um grito desesperado de dor.

Kalunga simula riso divertido, cobrindo boca para não ser ouvido, insinuando sempre com mímica o que está ocorrendo na coxia. Gritos de desespero de todos os tenentes.

Kalunga solta gargalhadas (sem som) Tenentes entram, perseguindo Kalunga com raiva. Kalunga foge, dá uma volta completa pelos bastidores e volta à cena. Tenentes, ao atravessar o palco, deixam que se veja enormes lagostas vermelhas, balançando, presas nas braguilhas como se tivessem sido mordidos.

Atrás do grupo que sai finalmente de cena, entra o português com letreiro :

É O FIM!

Luz caindo até curto black out.

Luz volta. Placa do filme postada num canto, indica a saída do cinematógrafo.

Político e mulher elegantes, entram em cena como se estivessem saindo do cinema mas, apenas simulam estar andando pela rua enquanto conversam.

Detalhes da rua – placas, letreiros, postes, quiosque, etc.- são adereços carregados por atores e figurantes que desfilam com eles pelo palco, como se a rua girasse num ciclorama.

Mendigos abordam o casal mas são repelidos com elegância. Carroceiros cortam a cena com carrinhos “burro-sem-rabo” cheios de tralhas. Quiosque se imobiliza e grupo de populares entram em cena para ocupar o balcão.

Bebem, comem e conversam. Vão ficando bêbados. Palco vai se enchendo de figurantes caracterizados como prostitutas, marinheiros, vendedores ambulantes, etc.

Burburinho se reduz para a fala do político.

Político: (Irritado)

_ Achei a película execrável!

Mulher:

_ O que, Chèrie?

Político:

_ Detestável! Uma bodega! É o que digo sempre…É assim que
nossos ideais de progresso dão sempre com os burros n’agua!

Mulher:

_ Mas era só uma sátira, chèrie!! Até que bem hilariante…Um  pouco grosseira talvez  mas…divertida. Muito divertida!

Político:

_ Existem temas mais apropriados. Zombam das instituições, isto sim. A armada devia coibir estes excessos!

Mulher:

_Não seja tolo, chèrie! É uma película norte-americana. Aquela armada não é a nossa. Deve ser a inglesa…sei lá!

Político:

_ Mas é como se fosse. A vida dos marujos, afinal não é tão dura assim. Ainda ontem estes homens não eram mais que escravos. Hoje têm soldo, trabalho digno, viajam o mundo e…

Grupo de bêbados irrompe numa sonora gargalhada. Casal olha para o quiosque surpreso, como se achasse que riram deles.

Mulher:

_ Oui, mon amour! Você está certo. São abusos sim mas, você não relaxa nunca? Detesto este teu fanatismo pelo trabalho na Câmara, esses debates. Você se acha a palmatória do mundo. Um dia você vai e o Brasil fica por aí, oh…belo e faceiro. Viu como todo mundo se divertiu lá no cinematógrafo? Até os velhos mais caquéticos riram à larga. Você devia deixar a política na escrivaninha da câmara, isto sim. O importante, chèrie, é o…savoir vivre!

Homem:

_ Vocês, mulheres…acham que tudo se resolve com savoir vivre e art nouveau. Pensam que isto vai…colorir as mazelas do país? Isto aqui, minha cara, não é a França não. Olhe para esta gente (apontando para o quiosque ) Não se civiliza nunca, viu? Se a gente dorme, é capaz de acordar com os excrementos deles em nossa própria porta. Nossa art nouveau, nossa belle époque, hum…só se for com muita água e sabão!

Pessoal do quiosque passa a olhar o casal com hostilidade. Casal se assusta e vai se retirando.

Mulher:

_A propósito, mon amour…Podíamos ir à tua garçonière! O que achas? Tomamos um banho de sais e…Você não sairá cedo amanhã, não?

Homem:

_ Infelizmente sim!

Mulher:

_Oh, non!

Homem:

_ Sim, sim! Irei agora contigo mas, pela manhã…Imagine que o jornalista João do Rio nos aprontou mais uma. Desafiou-nos, a todos nós da Câmara e, pelos jornais, a acompanhá-lo numa inspeção sanitária, a uma destas espeluncas da cidade. Disse ele que se chamam…Zungas. São lugares fétidos, imundos, nem queira saber o quanto. De modos que terei que ir ao beco dos ferreiros amanhã. Não posso medrar. Só espero que…os sais de hoje, me livrem de um impaludismo amanhã!

Mulher:

_Oh…oui, oui! Os sais de França fazem milagres, chèrie!

InBêbados fazem algazarra. Xingam o casal que sai rápido de cena. Dono do quiosque fecha as janelas, expulsa os bêbados que saem protestando.

Último bêbado mostra um letreiro:

DIA SEGUINTE. NO ZUNGA

Penumbra. Jiraus retornam. Reproduzem agora o interior de uma hospedaria barata, tipo “cabeça de porco”. O espaço cênico, está agora totalmente ocupado pelos atores com esteiras, redes e camas improvisadas. O nível superior, dividido, de alguma forma em planos ou espaços distintos, é acessado por intermédio de escadas.

A maioria dos atores e figurantes, vestidos com trapos imundos ou seminus, vão entrando lentamente e ocupando os dois níveis do espaço, deitando-se silenciosamente, demonstrando cansaço. Alguns se deitam simplesmente no chão. Entre eles estão alguns marinheiros.

Brigam entre si por melhores espaços. São brigas surdas, com movimentos bruscos e tensos. Burburinho contido de vozes tossindo, e reclamando e depois, respirando ou roncando, prosseguem até o silêncio.

Penumbra é rompida por luz forte e súbita. Grupo de policiais, vindos dos bastidores, irrompe no recinto seguido por homens engravatados. Policiais afastam rudemente com cassetetes, as pessoas que estão no caminho.

Alguns fingem dormir, outros envergonhados, sentam-se cabisbaixos. Só se ouvem as vozes dos policiais e inspetores. Entre eles está o cronista João do Rio que fala:

João do Rio:

_ Eis aí, senhores, o vosso século 20! Nosso alentado progresso. Não lhes disse que o Brasil escondia a idade média em suas entranhas?

Alguns inspetores puxam lenços para tapar os narizes, com nojo. Outros  hesitam em avançar. Político do cinematógrafo fala para os demais:

Político:

_ Vamos senhores! É preciso não ter pejo. Vejam a realidade crua, nojenta. Sintam o seu cheiro, seu miasma infecto. Como vêem, não exageramos em nossos discursos na câmara. Urge ou não urge acabar logo com estes antros? Pois venham Srs.! Avancem!

Polca “Rato, rato” em compasso bem lento, soa no ambiente. Grupo circula pelos corpos caídos, desviando de uns e de outros, Na subida da escada, alguns hóspedes estão apoiados, fingindo dormir num corrimão. Mulheres, sentadas nos degraus da escada, escondem as pernas, cuidadosamente.

No andar superior, muitos homens deitados estão quase nus, enquanto que longo banco de madeira, um grupo cochila sentado, com os antebraços apoiados numa corda esticada, cujo nó é rompido bruscamente, por um dos policiais. Pessoas que cochilam na corda despencam no chão. Os despertos ficam de pé num salto, assustados.

Inspetores vão se retirando em silêncio. Policiais abrem caminho com os cassetetes. A esta altura todos já estão acordados e se comportam entre envergonhados e assustados. Cena vai voltando à penumbra lentamente.

Pessoas vão voltando a seus lugares, lenta e silenciosamente. Polca prossegue mais um pouco e vai descendo com a luz até o black out.

Cena 04
KURIMBA!
Exu Veludo

Luz volta. No palco uma mesa, em cima dela uma moringa, um lampião, um cinzeiro com um cigarro aceso, alguns papéis e uma garrafa de cachaça.

Sentado na mesa o marinheiro João Cândido, com a túnica da farda desabotoada e descalço. Som de batidas na porta. A batida é ritmada, como um senha. João responde:

João Cândido:

_ Pode chegar! Tô aqui!

Três outros marujos entram e sobem uma das escadas do jirau. Cumprimentam-se efusivamente e se sentam. Bebem cachaça e conversam com João, preocupados.

Líder marujo 01:

_ Uma coisa é certa. A marinha sabe, gente. Desde que a gente voltou da Inglaterra que ela sabe.

Líder marujo 02: _ Pois é. Eles devem ter mandado a gente pra lá, só pra ver se arrefecia a idéia do motim. É isso. Só pode ser. Olha…É melhor adiar isso.

João Cândido:

_ Que é isso, gente! Que adiar o quê…Calma. ´Cês lembram daquele sindicalista inglês, lá no estaleiro de New Castle…O Laughton, lembram? Pois ele já tinha me dito que a Marinha andava meio ressabiada mas…não com a gente. Se nos mandaram p´ra Inglaterra é porque botaram esperança na gente, claro! Que desconfiança o que, ora! É só a gente fazer tudo direito, sem apavoramento, com paciência!

Líder marujo 01:

_ Mas João…é arriscado, homem. A inglesada foi amiga, muito solidária e tal e coisa mas…eles estão lá, né ? E nós aqui! A gente pode ser preso, condenado…Pode até ser morto, fuzilado! Tua
casa já tá vigiada, tu sabia? A gente espera outra chance. É melhor adiar a revolução, né mesmo?

João Cândido:

_ Que nada! E se a Marinha souber? E daí? Eles devem estar achando que é fogo de palha nosso, homem. Acham que a gente não tem capacidade pra organizar, comandar a tropa. Olha só…eu já marquei com o Marcolino. Marquei pra hoje, lá naquele candomblé do Santo Cristo. A gente pode conversar todo mundo lá. Toma umas cachaça, pede proteção pra oxalá, pra Exu, sei lá? Vamo em frente que eu sei que vai dar… Calma, gente.

Líder marujo 03:

_ Tá certo, tá certo! Mas nós vamos ter que mudar o endereço do comitê. Tua casa tá mesmo vigiada. Aqui na Saúde não dá não…Não dá mais.

João Cândido:

_ Papo furado…Mas ´cês não tem imaginação mesmo, heim! Eles acham que nós somos um bando de pés lascados. Fica calmo, homem. Já temos plano, já temos data…o que vocês querem mais? ´Cês tem que confiar aqui no timoneiro, ora! Vão, vão logo. Lá no Marcolino a gente se vê, tá bom?

Marujos se levantam e descem. Um deles volta e pega a garrafa de cachaça. João apaga o lampião e desce com eles, deixando a cena às escuras.

Ruído de sereia de navio. Alguém bate numa porta. Voz responde:

Voz: (Em off ) _ De quem se trata? Apresente-se!

Ninguém responde ou se apresenta. Oficial da Marinha aparece se aproximando de uma porta. iluminada. Abre a porta e não vê ninguém. Algo chama a sua atenção no chão. Encontra um bilhete na soleira da porta.

Oficial pega papel e fixa o olhar nele, como se lesse.

Voz (lendo bilhete, em off ):

_”Venho por meio desta linhas, pedir não maltratar mais a guarnição
deste navio que tanto se esforça para trazê-lo limpo. Aqui ninguém é
salteador nem ladrão. Desejamos paz e amor. Ninguém é escravo de
oficiais e …chega de chibata. Cuidado.
Assinado:
Mão Negra “

Oficial tem reação preocupada. Black out.

Tambores de candomblé tocam forte para Exu, ocultos da cena. Luz
crescendo.

Mulheres, participantes do culto – Ekedis – montam ritualísticamente o cenário com a instalação de um peji (oratório). Nele velas são acesas, vasilhas de comida para os orixás- ebós – são colocadas , etc. Logo após a montagem, Ekedis saem e retornam junto a um grupo maior de Yaôs, dançando e cantando ao som dos atabaques. Cena deve reproduzir elementos essenciais do ritual de uma “saída de Exu”.

Algumas pessoas estão “possuídas” e dançam em transe. Pessoa que está sendo iniciada entra em cena paramentada como Exu. Não se consegue ver quem está sob os paramentos. Ritual vai assumindo clima de grande êxtase. Grito de sacerdote-ogã – interrompe o ritual. Grupo de Ekedis e Yaôs, vai se retirando da cena dançando.

Pessoa vestida de Exu vai se despindo dos paramentos. Sob eles vai aparecendo uma farda de marinheiro. Já totalmente despido dos paramentos, se percebe que o iniciando é João Cândido.

João Cândido: (para a platéia )

_ Meu nome é João Cândido Felisberto, gaúcho, marinheiro de primeira classe da gloriosa Marinha do Brasil.

Estive na guerra do Paraguai e sobrevivi. Quando o Brasil mandou construir na Inglaterra os três encouraçados mais modernos do mundo, eu estava lá, na guarnição. O meu navio é o Minas Gerais, sou o timoneiro do melhor navio do mundo. É por isso que eu digo. Não sou nenhum desqualificado não. O que eu não sou e nunca fui mesmo é Pai João. Tá tudo aí pra todo mundo ver. Tratam a gente feito cachorro. Não dá mais. Chega de chibata! Se o governo não vê ou finge que não vê, eu vejo e, tenho nojo do que vejo.

Black out. João Cândido desce para a platéia e se junta ao público, para assistir a cena a seguir.

Som dos tambores vai crescendo. Parte do Jirau, deslocada para o palco por figurantes vestidos de marinheiros, representa de novo o convés de um navio do início do século. Há no conjunto um grande mastro de navio bem à vista.

Grande grupo de marujos entra em cena, assumindo posições no navio, sob o comando de oficiais. Ordens gritadas pelos oficiais são ouvidos. Oficial comandante, em posição de destaque, grita, apontando para uma coxia:

Oficial Comandante:

_ Aos ferros! Acorrentem o negro no mastro ! Aos ferros com ele, já! Dois cabos entram em cena com um marujo amarrado. Oficial comandante ordena para os demais oficiais:

Oficial Comandante:

_ Em formatura!

Oficial repete a ordem. Marinheiros formam. Silêncio na cena. Marujo é preso ao mastro e  começam a açoitá-lo com chibatas. Tambores de candomblé marcam o ritmo das chibatadas .Oficial ordena que a tropa dê as costas para o marujo açoitado.

Oficial Comandante:

_ Meia Volta…Volver!

Tropa não obedece a ordem e fica imóvel. Oficial insiste em vão. Demais oficiais se agitam tensos.

Líder Marujo: (gritando)

_ É agora!

Tropa desfaz a formatura e cerca oficiais que puxam pistolas e espadas. Marinheiros gritam:

Marinheiros:

_ Liberdade! Abaixo a chibata! Abaixo a chibata!

Música de tambores. Tumulto no convés. Oficial corre para a boca de cena e grita para o público:

Oficial Comandante:

_ Motim! Motim!

Silêncio. Oficiais são dominados. Alguns estão caídos, feridos ou mortos.

Foco de luz segue João Cândido que volta ao convés-palco. Marinheiros formam para ele, perfilados reverentemente. João Cândido amarra um lenço vermelho no pescoço e, com um gesto, manda que desfaçam a reverencia e a formatura. Marinheiros começam a desmontar o cenário da luta, saindo de cena, onde somente João Cândido permanece.

Tambores soam mais fortes. Ekedis e Yaôs voltando à cena dançando, cercam João Cândido e vestem nele de novo os paramentos rituais. Grupo dança freneticamente. Marujos voltam à cena
Ogã lança pipocas sobre alguns marujos que entram em imediatamente êxtase, como se  incorporados. Todo o grupo parece estar incorporado. João Cândido, vestido de Exu, dança no meio deles.

Som brusco de um apito da polícia. Policiais entram em cena. Tambores cessam.

Policiais chutam ebós e peji. Cena é evacuada pelos policiais com violência.

Black out.

Cena 05
KALUNGA!
Exu Rei

Ainda no black out, som de batidas numa porta. Homem vestido de mordomo entra, iluminando a cena, com um candelabro. Candelabro mostra outro homem que chega. Ele se veste elegantemente, de casaca e está cansado mas, eufórico como se tivesse chegando de uma festa.
Homem se senta numa poltrona, retira os sapatos e as calças, ficando só de casaca, ceroulas e meias. Mordomo se dirige a ele, ansioso:

Mordomo: ( sotaque francês, apreensivo )

_ Monsieur Presidente, por favor!

Hermes da Fonseca:

_ Ora bolas, Jean Claude! Não vês que estou exausto?

Mordomo: (esbaforido)

_ Pardon, Monsieur Hermès..Pardon! Ces très important. A armada…A Marinha…

Hermes da Fonseca: (Desatento, irritado )

_ Vá, homem! Desembucha, sô!

Mordomo: (Trêmulo)

_ Passarram um rádio, excelência!..Mon dieu! A Armada…a Armada se rebelou! Os marrujos dizem que querrem…o fim das torturras, ou algo assim. Ameaçam bombardear a cidade, excelência! Bombarrdear a cidade!

Hermes da Fonseca: ( se levantando assustado )

_ Com os diabos! Bombardear a cidade! Mas o que pensam? Acabo de tomar posse. Ficaram loucos? Cambada de insolentes, corja! (andando de uma lado para o outro) Anda Jean Claude! Vá, anda! Me traz o automóvel…Me chama todo o ministério, o Estado Maior…(notando o candelabro ) A luz, que foi feito da luz do Palácio?

Mordomo:

_Por Dieu, Monsieur! Tivemos que apagar tudo. O palácio é o alvo principal dos bandidos!

Hermes da Fonseca: ( aturdido )

_ Vai, homem! Me traz também o…Rui Barbosa! Ave Maria, vá! Traga todos…Não…Deixe estar. Eu vou junto até eles. Depressa, homem…Diabos!

Mordomo sai na frente afobado, levando o candelabro e seguido pelo presidente.

Hermes da Fonseca: (Puxando o mordomo para trás)

_Volte.! Volte aqui, homem! Preciso vestir minhas calças!

Os dois saem, deixando a cena às escuras.

Luz sobre o fundo branco da cena, reproduz céu avermelhado. Vindas de lados opostos, das duas coxias, as partes separadas do jirau entram forradas com longos panos, de forma que se assemelhem à proas de dois grandes navios que, avançam lentamente em sentido transversal ao palco, até quase se tocarem. A caracterizar os navios, o nome das embarcações (“Bahia” e “São Paulo”), simulações de âncoras e canhões, etc. As proas avançam um pouco à frente do céu e na parte superior delas, no nível do que seriam os conveses, marinheiros gritam e acenam eufóricos, lançando os bonéscaxangás para o alto.

Todos os marujos trazem lenços ou trapos vermelhos no pescoço ou nos bolsos das túnicas. Os navios têm flâmulas vermelhas desfraldadas.

Na parte baixa da cena – o palco – cenário reproduz também detalhes de um outro convés, contendo bem visível o nome do navio (“Minas Gerais”), da mesma forma ocupado por marinheiros eufóricos. O conjunto cenográfico simula o encontro de três navios de guerra. No centro do convés-palco, um marujo negro saúda os marinheiros dos navios de cima, acenado a espada levantada. A maioria dos marujos são negros mulatos ou morenos. Todos portam fuzis ou espadas.

Dos dois navios do fundo são lançadas escadas de cordas. Por elas descem dois marinheiros, líderes dos navios. Marinheiros que desceram abraçam o do convés do palco que usa um uniforme surrado e está descalço.

Marujo descalço – João Cândido – fala para os que desceram.

João Cândido:

_ A oficialidade teve algumas baixas aqui no Minas Gerais. Se defenderam como puderam. Amanhã mandamos os corpos para a terra. Agora não tem mais jeito…O governo vai ter que ceder. Mão Negra! Cadê o manifesto? Tá pronto? Deixa eu ler.

Mão Negra: (passando um rolo de papel para João)

_ É bom ler mesmo, pra todo mundo ouvir. Vai valer o escrito. Quem quiser desertar da luta, a hora é esta. Agora é ganhar ou morrer!

Silêncio. João Cândido olha o papel com se o lesse. Grande estandarte com o texto ampliado do manifesto, é lançado de cima de um dos navios:

“Rio de Janeiro, 22 de novembro de 1910
Il.mo. Ex.mo. Sr. Presidente da República Brasileira.
Cumpre-nos informar a V.Excia., como Chefe da Nação Brasileira:

Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podendo mais suportar a escravidão na Marinha Brasileira, a falta de proteção que a Pátria nos dá; e até então não nos chegou; rompemos o negro véu que nos cobria os olhos de patriótico e enganado povo.

Achando-se todos os navios em nosso poder, mandamos esta honrada mensagem para que V.Excia. faça aos Marinheiros Brasileiros possuirmos os direitos sagrados que as leis da República nos facultam, acabando com a desordem e nos dando outros gozos que venham engrandecer a Marinha Brasileira; bem assim como: retirar os oficiais incompetentes e indignos de servir a Nação Brasileira.

Reformar o código Imoral e Vergonhoso que nos rege, afim de que desapareça a chibata, o bolo, e outros castigos  semelhantes; aumentar nosso soldo, educar os marinheiros que não tem competência para vestir a orgulhosa farda, mandar por em vigor a tabela de serviço que a acompanha.

Tem V.Excia. o prazo de 12 horas para mandar-nos resposta satisfatória, sob pena de ver a pátria aniquilada.

22 de novembro de 1910
Nota: Não poderá ser interrompida ida e volta do mensageiro.
Marinheiros

Marinheiros aplaudem. Desfaz-se a formação dos navios, com o recolhimento das partes do jirau que carregam suas tripulações que, saem de cena eufóricas com entraram.

Fundo da cena está agora azulado. Silhueta do pão de açúcar é projetada sobre este fundo. Num dos cantos da boca de cena, são colocadas peças de um cais.

Música para dança. Grandes estandartes de pano, simulando cascos de navios, manipuladas por grupo de marujos-dançarinos, aparecem em cena representando o movimento de uma esquadra.  O sentido estético da dança deve ser bastante suave e lírico. Canhão cenográfico apontado para o alto é empurrado para o centro da cena, oculto pelos estandartes da dança.

Figurantes e atores, caracterizados como populares, policiais, soldados, mulheres elegantes, homens engravatados, trabalhadores, etc., vão ocupando os dois cantos da cena, principalmente ao lado do cais, como se tivessem sido atraídos pela dança da esquadra.

Quando a assistência do “cais” estiver bem embevecida, dançarinos abrem bruscamente um claro entre os estandartes, deixando a luz acentuar a existência do canhão.

Canhão atira com grande estrondo e todos, figurantes e dançarinos debandam da cena assustados. Luz pisca e fixa-se em black out.

Luz volta. Fundo da cena assume tom azulado. Junto com a silhueta do Pão de Açúcar aparecem agora silhuetas de navios de guerra ancorados ao largo. Grupo de autoridades civis e militares, seguindo um almirante vestido pomposamente e com chapéu característico, olha do cais para a esquadra ao fundo com alguns binóculos e lunetas. Um oficial cochicha algo no ouvido do almirante, apontando para uma das coxias. Almirante faz sinal para que alguém se aproxime.

Dois fuzileiros trazem um marujo aos solavancos. Almirante manda que o soltem. Marujo se perfila para o almirante e fala:

Marujo:

_Sou o emissário do marinheiro João Cândido Felisberto. Trago uma mensagem urgente da esquadra.

Fuzileiros seguram o marujo e o sacolejam de novo. Almirante de novo manda soltá-lo. Marujo olha com desdém para os fuzileiros.

Marujo retira um papel de um tubo e entrega ao almirante que o lê. Demais oficiais cercam o Almirante, curiosos. Almirante fica possesso.

Almirante:

_ Nunca! Jamais! Ah, mas…Esta gentalha não vai nos…

Antes que almirante conclua a frase, som de zumbido de um tiro de canhão  corta o ar. Estrondo de explosão do tiro, logo em seguida. Autoridades fogem para fora de cena. Black out.

Luz crescendo lentamente. Música. Cena vai sendo ocupada por populares,  homens elegantes conversando, policiais, senhoras com guarda-sóis,  melindrosas, todos passeando tranqüilamente. Alguns portam adereços que  caracterizem detalhes de uma grande avenida: tabuletas de lojas, fachadas  de quiosques, vitrines, postes, triciclos, bicicletas etc.. Fachada do bonde  pode ser reposta em cena.

Um homem portando um cartaz de propaganda circula entre os populares,  gritando pregão:

Homem do cartaz:

_ Não percam! Não percam! Estréia hoje! Benjamim de Oliveira no Circo Spinelli! A Vingança do marujo! A vingança do Marujo! Sensacional espetáculo teatral! Não percam, hoje!

Cartaz:

O Circo Spinelli orgulhosamente
apresenta o sensacional espetáculo teatral:


A VINGANÇA DO MARUJO

Com o fabuloso, o insuperável palhaço negro BENJAMIN DE OLIVEIRA.  Não percam!

Além da voz do homem-cartaz e da música, nenhum outro som é inteligível  na cena. O que se ouve é apenas o burburinho das conversas dos populares.

De repente, outro som do zumbido de tiro de canhão é ouvido. Black out  simultâneo a explosão de outro tiro. Gritos histéricos e correria dos populares. Cena é evacuada, ficando inteiramente vazia.

Luz geral. Dupla de palhaços entra em cena e desenha um grande círculo de  giz, tomando todo o diâmetro do palco, exceto um pequena área em torno, onde se acomodará uma claque de figurantes.

Música de banda circense. Foco ilumina mestre de cerimônias devidamente fardado,  anunciando:

Mestre de Cerimônias:

_Senhoras e senhores! Ladies and gentlemen! O meu cordiaaaal Boaaa noooite! O grande circo Spinelli tem a honra, o inenarrável orgulho de apresentar nesta memorável noite…(rufos de tarol )…O sensacional espetáculo…A vingança do Marujo! E para interpretá-lo, ele…o inigualável…o fabuloso…o insuperável ator e clown (banda ataca acorde de suspense) …Benjamim…de O..li..vei…raaaa!.

Bandinha segue com uma marcha bem alegre. Aplausos entusiasmados da claque.

Dupla de palhaços traz ao palco-picadeiro, o elenco em fila indiana formado pelos personagens do espetáculo: Ator-benjamim-Almirante Negro, com espada e chapéu próprio; ator-senador Rui Barbosa, vestindo casaca; ator- senador Pinheiro Machado, também de casaca; ator-senador Alfredo Ellis, vestindo terno bem justo; coro de marujos descalços; coro de senadores de chapéus coco e casacas.

Atores-senadores sentam em caixotes deixados no chão pelos palhaços. Cada caixote possui o nome do senador respectivo escrito em letras grandes. Os dois coros, em lados opostos, ficam em pé atrás dos senadores e do Almirante Negro .

Um dos palhaços, sob o rufar do tarol da bandinha, mostra para a platéia,  com um risinho de chacota, o seguinte letreiro:

Letreiro:

Numa sessão do Senado Federal,
um debate DECISIVO para o Brasil

Ficando em pé em seu caixote, diante dos outros senadores, dirigindo-se também à platéia real do espetáculo, Rui Barbosa discursa:

Rui Barbosa:

_Quero crer que o governo, único responsável pela constrangedora situação atual, onde a indefinição se fez a irmã mais legítima da covardia, compreenda que o que trouxemos aqui, para esta magna casa, nada mais foram que provas…fatos absolutamente concretos e científicos, que atestam, definitivamente que…as figuras divinas, celestiais e diáfanas a que chamamos anjos…nada mais são do que fêmeas! Virgens sublimes como a mãe de Deus! Fêmeas! Insofismavelmente eu digo! (esmurrando a própria mão, com ênfase) Digo e afirmo sim!…São fêmeas todos os anjos do céu!

Claque interrompe com gargalhadas, apupos e aplausos.

Pinheiro Machado:

_ Conceda-me o ilustre colega um aparte.

Rui Barbosa: ( com irritação)

_ Que não seja longo, Senador.

Pinheiro Machado:

_ Chamo a atenção dos presentes para o seguinte. A situação difícil que se criou, o foi pela teimosia de homens como o ilustre senador da Bahia. Poderia mesmo dizer que é a turronice do excelentíssimo senhor Rui Barbosa que nos leva a este tão grave impasse. (aplausos da claque o interrompem ) Machos, eu afirmo! São machos os anjos do céu. (exaltando-se) Posso prová-lo apenas com minhas convicções.

E os bigodes, senhoras e senhores? Os respeitáveis  cavanhaques dos arcanjos, valorosos guardiões do céu? E as espadas longuíssimas que alguns deles empunham, com a força de verdadeiros homens que são? Machos, volto a enfatizar! Que órgão reprodutor teria aquele que, cumprindo os desígnios de Deus, em nome da ordem no Paraíso, expulsou Adão e Eva para os castigos terrenos? Bagos, senhoras e senhores! Bagos como os que temos nós, ferrenhos defensores da ordem e das instituições.

(Claque aplaude e apupa freneticamente )

Rui Barbosa: (também se exaltando )

_ Respeito, senhor Senador! Exijo respeito nesta casa! As ofensas de um caudilho…de um oligarca…não me atingem. Não me rebaixarei diante de suas ignomínias!

Exaltação de ânimos se generaliza. Um dos palhaços entra no picadeiro e cochicha algo no ouvido do senador Alfredo Ellis que, tenta transmitir imediatamente aos colegas.

Alfredo Ellis:

_ Atenção senhores! Temos a nossa porta uma comissão de marinheiros que…

Burburinho na claque. Senador prossegue aos berros.

Alfredo Ellis:

_ Por favor! Silêncio, por favor! Os marinheiros querem denunciar supostos maltratos sofridos por eles na Armada.

Senadores protestam por terem sido interrompidos. Palhaço sai do picadeiro e retorna, cochichando agora no ouvido de Pinheiro Machado que fica subitamente histérico.

Pinheiro Machado:

_ É grave, senhores! Muito grave! Os marujos afirmam que tem… valha-nos Deus! toda a esquadra sob o seu poder! Questão de ordem!! Questão de Ordem!!

Claque e senadores: (Burburinho)

_Oh!

Banda toca acordes dissonantes e cessa a música. Rufos de caixa. Suspense. Clima de número de corda bamba. Grupo de marinheiros, comandados pelo Almirante Negro, com pistolas, espadas e mosquetes, invade o picadeiro. Almirante negro levanta a espada, assustando os senadores que caem por sobre o coro e a claque.

Almirante Negro: (tirando o chapéu)

_ Sei que não somos anjos, senhores! Peço desculpas por interromper vosso trabalho mas…é que temos importante mensagem para o Governo.

Coro de marujos se aproxima do centro do picadeiro, se posiciona, empunhando e acenando as armas:

Coro de marujos: ( Cantando)

Chega de morrer de trabalhar, yayá
chega de comer couve com fubá, yoyô
chibata bateu, doeu, sarou
sarou, doeu
doeu, sarou o ponta pegou em quem bateu

Coro prossegue, baixinho. Pinheiro Machado se aproxima do Almirante Negro, solícito.

Pinheiro Machado:

_ Poderiam os Srs. nos descrever o esse tal Castigo da Chibata que, tal como dizem, seria praticado em nossa armada?

Banda toca melodia de música anterior, como um fundo de anúncio comercial.

Narrador em off, descreve o castigo. Coro de marujos, distribuídos no picadeiro, reproduz numa pantomima, tudo que está sendo narrado, como se fosse um número de circo. Chibatas maiores, similares as descritas na narração, são usadas para ilustrar o número.

Narrador:

_ Pegue uma corda mediana, de linho e a atravesse em toda a extensão com agulhas de aço das mais resistentes. Deixe livre das agulhas apenas um espaço para a empunhadura. Para inchar a corda, deixe-a de molho, até que só apareçam as pontas das agulhas. O faltoso tratado à Chibata, fica assim… como uma tainha, lanhada para ser salgada. Civilize o seu marujo. Use Chi-ba-ta. Chibata! Não estraga, não quebra, não mata!

Claque faz algazarra, vaia o número, e se junta aos marinheiros, revoltada.

Parlamentares isolados, se afastam assustados, cochichando. Algazarra aumenta com tiros dos marujos dados para o alto. Parlamentares fogem para as coxias. Claque e marujos gritam:

Claque e marujos:

_ Anistia! Anistia!

Em meio a um grande tumulto, senadores voltam à cena, apavorados. Um deles traz na mão um documento. Passando de mão em mão, todas elas trêmulas, o documento chega até os marujos que o entregam ao Almirante Negro que lê em silêncio. Silêncio na cena também é total.

Rufos de caixa. Marujos se acercam do Almirante Negro . Breve momento de espera. Gritos de marujos e da claque explodem na cena:

Marujos e claque:

_ Viva a anistia! Viva a anistia!

Banda de música volta com a marchinha, agora bem mais vibrante. Claque aplaude de pé. Coro de marujos carregam o Almirante Negro nos ombros, aclamado e saem de cena comemorando. Dupla de palhaços retira os senadores e seu coro de cena com empurrões e gozações. Luz e música vão caindo. Black out.

Cena 06
PRESIGANGA
Pomba Gira das almas

Gravação do hino “Cisne Branco” tocado por banda militar. Luz somente na boca de cena. Grupo de sete marinheiros entra no palco em fila indiana, carregando estandartes enrolados. O tamanho destes estandartes é no comprimento, o da extensão dos braços levantados dos marinheiros até o limite do chão, tendo na largura, tamanho que permita que ,quando
desenrolados, cubram toda a cena atrás deles. Num dos lados os estandartes são inteiramente pretos. No outro, têm manchetes de jornal reproduzidas, uma em cada um. Os marinheiros desenrolam os estandartes em seqüência, da direita para a esquerda.

Manchetes:

27 de novembro de 1910
TERMINOU, DEFINITIVAMENTE
A SUBLEVAÇÃO DOS MARUJOS!

28 de Novembro de 1910
VASSOURADA NA ARMADA!
Governo decreta exclusão de marinheiros a bem
da disciplina na Esquadra.

10 e Dezembro de 1910
NOVA REBELIÃO NA ARMADA!
Batalhão Naval em armas!

10 de Dezembro de 1910
FORÇAS LEGAIS MASSACRAM REBELDES DO
BATALHÃO NAVAL!
Marujos da Chibata leais ao governo.

10 de Dezembro de 1910
MARUJOS DA CHIBATA DIZEM QUE A REVOLTA DOBATALHÃO NAVAL FOI UMA FARSA!

10 de Dezembro de 1910
ESTADO DE SÍTIO!
Exército e policiais prendem rebeldes e arruaceiros.

10 de Dezembro de 1910
PRESO AO DESEMBARCAR O MARINHEIRO JOÃO CÂNDIDO!
Todos os rebeldes da Chibata encarcerados!

Black out breve. Marinheiros viram os estandartes com os lados negros voltados para o público. Luz volta. Marinheiros exibem as tarjas negras por um instante e saem de cena da mesma forma como entraram, deixando á vista a cena seguinte, que foi inteiramente montada por figurantes e atores, enquanto esteve encoberta pelos estandartes das manchetes. Música cessa.

Ópera “Taunhauser” de Wagner soando na cena. Três mesas comuns, dispostas em pontos destacados do palco, com oficiais do exército sentados, atendendo a filas de prisioneiros. Duas destas filas são formadas por populares e outra, em ponto destacado da cena, só por marinheiros.

Os marujos estão com os uniformes incompletos e amarrotados. Alguns populares estão em trajes de dormir. Os presos não falam e só se ouvem os gritos dos soldados e oficiais organizando as filas.

Todo o elenco deve estar em cena. Grupos que já passaram pela triagem nas mesas, voltam às filas contornando os bastidores, demonstrando grande fluxo de prisioneiros.

Grupo heterogêneo de prisioneiros ruidosos, aparecem de repente. São prostitutas, mendigos, motorneiros de bonde, malandros e capoeiristas.

Guardas tentam por o grupo nas filas mas estes reagem com um tumulto.  Guardas batem em alguns do grupo, inclusive numa mulher que foge para a platéia. Guarda a persegue. Tumulto se agrava e oficial grita ameaças.

Oficial:

_É a Presiganga! É a Presiganga! Vocês vão embarcar…Não adianta! É tudo vagabundo aqui. A ordem é mandar vocês todos pra bem longe do mundo!

Guardas dominam a fila com a ameaça das armas. Outra mulher corre para a boca de cena.

Mulher 01:

_É governo de gente sem mãe. Se tivesse, a mãe devia era estar lá com gente, na zona. (falando com a outra que está na platéia: ) Não é Jerusa? Nem o diabo me põe nesta fila. Sente só…fede a defunto.(mostrando o braço) olha só a bordoada que me deram! Vão ter que explicar que crime político é este que eu fiz pra ser pega assim, pelo Estado de Sítio…Ou será que a gente se virar já é ameaça a segurança nacional? Eu tô dizendo. É tudo frouxo, Jerusa! É governo de merda!

Guarda desce à platéia e corre atrás da segunda mulher. Outro agarra a que falou na boca de cena. Mulher da platéia ao ser agarrada grita:

Mulher 02:

_ Larga, larga! Seu cachorro! Tu só é homem de mosquete na mão. Borra botas! Xibungo!

Guardas dominam as mulheres que são devolvidas para a fila, puxadas pelos cabelos. Prisioneiros se aquietam. Oficial da mesa dos marinheiros chama guardas.

Oficial:

_ Mais dois guardas aqui! (para dois guardas )Escoltem esta cambada pro cais. Cadê os marujos? (para outro guarda )Separa eles…Confere aí guarda. Traz as nove gracinhas até aqui!

Guarda traz os marinheiros amarrados com cordas nos pulsos. Marinheiros estão assustados. Oficial se dirige aos marujos com sarcasmo:

Oficial:

_ Vão passear de barquinho? Não sabiam? Pois vão sim, suas gracinhas Vão pro navio “Satélite”, sabem qual é? Hum…Pois se preparem. Quero ver vocês fazerem rebelião na boca de tubarão.

Luz caindo. Som de sereia de navio. Filas vão sendo encaminhadas pelos guardas para fora de cena. Alguns prisioneiros tentam reagir, xingam os guardas, se debatem. Os últimos tumultos vão se diluindo, encobertos pelo som insistente da sereia de um navio e pelo black out.

Som de sereia de navio prossegue no black out, espaçadamente. Coro de vozes afinadas canta “noite Feliz” em alemão.

“Heilligue nacht
Stile nacht
Alles schläft
Einsam wacht
Nur das traurigue
kindlein schläft
Rut gehrut
auf die wiglein schläft
Schlafe in himmlischer ruhn
schlafe in himmlischer ruhn”

Coro vai repetindo a canção, solfejando. Grande estandarte de pano, como o perfil do casco de um grande barco puxado por atores, avança lentamente em sentido longitudinal ao palco, quase na linha da boca de cena. Na superfície do pano-barco está escrito o seu nome: “Satélite”.

Atrás deste pano-barco, atores e figurantes iluminados por trás, formam silhuetas de um grupo de prisioneiros dominados por soldados armados de fuzis e espadas. Algumas sombras de soldados circulam pelo espaço como a montar guarda.

Com a canção ao fundo e os sons esparsos de tiros e gritos, as ações principais descritas pelo texto narrado a seguir, também serão reproduzidas por movimentos das silhuetas projetadas no pano-barco

Voz narra o texto sem nenhuma emoção particular:

Narrador: ( em off )

_ …”A partida do porto do Rio de Janeiro, foi a 25 de Dezembro, pelas onze horas da noite. A descarga do navio iniciou por volta da meia noite de 24 e terminou por volta das 22 horas do dia 25 e, ato contínuo se deu o embarque do pessoal para os porões que estavam imundos, devido ao carregamento de açúcar bruto…Nestas condições partimos, levando 105  ex-marinheiros, 292 vagabundos, quarenta e quatro
mulheres e cinqüenta praças do exército.

No dia 26, adoeceu um dos nossos foguistas. Fiz subir um dos
prisioneiros afim de substituir o doente. Este denunciou que nos porões se tramava uma revolta, comandada pelo ex-marinheiro Hernani Pereira dos Santos, vulgo “Sete”. No dia 27. Com os inquéritos, alguns marinheiros foram algemados.

No dia 1 de janeiro, quando entrava o ano de 1911, estávamos já fora da barra e me afastei da costa para serem fuzilados seis homens, o que fizeram às duas horas da manhã porém dois, sendo um o “Chaminé”, se atiraram ao mar, morrendo afogados, visto que estavam com os pés amarrados.

No dia 2 de janeiro, às 23 horas, foram fuzilados mais dois marinheiros.  Ao todo foram mortos 9 bandidos que conduzíamos…

No dia 3 de Fevereiro, foram entregues ao Capitão Rondon, duzentos homens, conforme ordem do governo. Os restantes, teriam que descer com eles, deixando-os pelas margens do rio. Os seringueiros, ao longo do rio, iam pedindo homens e assim, no mesmo dia, ficamos livres das garras de tão perversos bandidos.

Navio “Satélite”
Rio de Janeiro, 5 de Março de 1911
Diário de bordo do
Capitão Carlos Brandão Storry

Ao final da narração e suas ações respectivas, pano-barco sai de cena lentamente, junto com a luz e a canção, ficando o palco inteiramente às escuras.

Cena 7
Katumbi

Exu das sete encruzilhadas

Dois oficiais e alguns fuzileiros navais entram em cena iluminando-a com uma lanterna de navio. Trazem consigo 18 marinheiros presos. Os marujos estão todos amarrados, descalços e sujos. São empurrados através da grande porta de uma masmorra. Toda a cena é iluminada apenas pela lanterna.

Porta da masmorra é fechada. Fuzileiros batem nela com o cabo dos fuzis. Oficial fala:

Oficial 01:

_ Malta! Corja de rebeldes de merda! Deram sorte de não terem sido embarcados para o Amazonas. São protegidos, não é? Diz que até ministro inglês defendeu vocês. ´Tá certo. A gente não vai esquecer este detalhe.

Fuzileiro 01:

_ Agora é com vocês, cambada!

Fuzileiros riem.

Oficial 2:

_Vão apodrecer agora aí dentro! Quando estiver fedendo, cheirando mal, eu mando pegar vocês, tá certo?

Fuzileiro 02:

_ Vamos ver agora, né gente? A valentia dessa negrada. Vão jogar capoeira com o capeta!

Todos soltam gargalhadas.

Oficial 01: ( Aproximando o rosto da porta )

_ Tem muito João aí? Só tem um não é mesmo? Quando não tiver mais nenhuma raça de João aí dentro, a gente solta todo mundo, tá bom? Quero esse tal de João Cândido morto, acabado! Ele não diz que é almirante? Pois agora ele vai ser almirante é no céu ou…nos quintos dos infernos!

Oficial 02: ( chamando os outros para se retirarem )

_ Agora é com vocês, seus bostas!

Fuzileiros e oficiais saem com a lanterna.

Luz de cena sobe um pouco, revelando o interior da masmorra. A porta é grossa e pesada, parece ser de ferro, com uma pequena abertura. Os marinheiros presos, largados pelo chão, parecem dormir. Estão inertes, deitados ou agachados com as cabeças entre as pernas.

Som de vozes cantando e instrumentos de percussão, começa a soar como se viesse de longe. A música é a de um bloco de carnaval mas, a harmonia das vozes é lúgubre e o andamento do ritmo é arrastado e marcial.

Luz sobe mais, junto com o volume da música que se aproxima. Figuras fantasiadas vão surgindo, os rostos são pálidos, pintados de branco, como fantasmas. São pierrôs, colombinas, melindrosas, arlequins e outras figuras típicas de carnavais antigos. Comandando o bloco, que está dividido em dois grupos, duas figuras fantasiadas de militares, com roupas semelhantes as de oficiais da marinha.

Uma delas está com o rosto coberto com uma máscara de diabinho de carnaval, a outra da mesma forma usa uma máscara de morcego. As duas figuras que comandam o bloco, carregam longas tripas de pano preenchidas com areia e bexigas e com elas golpeiam o chão com violência.

Grupo chefiado pelo diabinho, carrega latas de talco com os quais vão enevoando a cena. O grupo do diabinho carrega também um estandarte onde se lê:

ALA DO CAL VIRGEM

O segundo grupo, com seringas de água, parecendo grandes frascos de lança-perfume, vão molhando o chão e os prisioneiros. No seu estandarte se lê:

ALA DO ÁCIDO FÊNICO

Luz adicional projeta sombras das figuras nas paredes. Com o barulho, João Cândido é o único a despertar. Levanta-se apavorado.

Figuras do bloco o assediam.

Desesperado, João corre de um lado para o outro. Foliões o perseguem, rindo debochados. João tenta se proteger encostando na parede. Foliões-fantasmas vão acuando João na parede, para assustá-lo ainda mais. João é cercado pelos dois grupos e desaparece no meio deles e da névoa de talco. João dá um grito de desespero.

Black out. Figuras desaparecem.

Luz voltando. João está estático, no mesmo lugar onde foi acuado. Olha para o vazio. Luz agora ilumina toda a masmorra enevoada. Tossindo, um dos presos-Pau da Lira-acorda olha para João que parece estar em choque. Circula o olhar pela masmorra. Sacode os outros presos  que não se movem porque estão mortos.

Pau da Lira, sempre tossindo se aproxima de João que parece não percebêlo. Abraça João e fala:

Pau de Lira:

_ Só tem nós, João! Só tem nós! Olha que tristeza! Tá tudo inchado que nem sapo. Morreu todo mundo, João! Que covardia! Vai até aporta, bate nela com força, grita:

Pau da Lira:

_ Acode aqui, gente! Misericórdia!(olha para João que está apático e não ajuda a gritar) Ai, João…me ajuda a gritar! A gente acaba morrendo também. Ai meu Deus!

João Cândido: (desorientado )

_ Ajudar pra quê? Eu já morri, Pau da Lira! Eu também tô morto, homem. É verdade! ´Cê não vê? (olhando os mortos, sacudindo um ou outro ) De que adianta viver agora? Me diz! Grita, grita! Pode gritar…Diz que o João Cândido já morreu!

Luz caindo até black out. Alguns segundos de silêncio e escuridão. Barulho de molho chaves. Barulho forte da porta de ferro se abrindo no Black out. Voz na cena às escuras.

Fuzileiro:

_Tenente! Corre aqui! Virge Maria! Cruz credo! Que fedor desgraçado!

Tenente:

_ Entra logo, anda! Ai meu Deus do céu! Vê se sobrou algum desgraçado vivo! O governo agora quer esse tal do João Cândido vivo! Tá o maior escândalo na imprensa. Vai! Rápido!

Música característica da década de 60. Luz voltando lentamente mostra o fundo da cena iluminado de azul, com a silhueta do pão de açúcar e o cais num dos cantos do palco.

Luz crescendo. Atores e figurantes entram na cena com pequenas barracas de feira  desmontáveis e grandes cestos de peixe. Entre eles está um peixeiro negro, velho parecendo ter mais de setenta anos.

Peixeiros montam a barracas no palco com grande alarido e em muitos gritos de pregão. A cada barraca montada e abastecida, os pregões vão se avolumando, até que toda a cena esteja tomada de barracas e vendedores de peixe gritando.

Alarido vai se reduzindo com a entrada de policiais à paisana que circulam pela feira, olhando desconfiadamente para todos os peixeiros.

Dois homens brancos, de terno e gravata, entram pela platéia, sempre perguntando algo a alguém do público. No palco, sua perguntas começam a ser ditas em voz alta. Burburinho da feira prossegue ao fundo em baixo volume. Música cessa.

Homens de terno -Jornalistas -perguntam a um peixeiro:

Jornalista 01:

_… João Cândido. O senhor conhece?

Peixeiro: (apontando a última barraca )

_ O João daqui é aquele ali, ó! Só não sei se é Cândido. Deve ser. Eu tô nessa feira de novo.. Sabe como é..

Jornalistas não esperam peixeiro acabar. Se aproximam rapidamente até a barraca apontada, ansiosos. João usa um chapéu de palha, um avental branco e longas luvas e botas de borracha.

Jornalista 02: ( para João )

_ Bom dia! O senhor não é o João Cândido Felisberto, o Almirante Negro?

João Cândido: (Sem levantar a cabeça, desconfiado)

_Almirante eu não sou não senhor mas…João Cândido, bom…sou eu mesmo.(encarando os homens ) Os senhores são da polícia, não é mesmo?

Jornalistas sorrindo sem graça.

Jornalista 01:

_ Não, não! O que é isso, seu Cândido? Nós somos é da imprensa. Do “Correio da Manhã”, sabe? É que a gente queria entrevistar o senhor e…mostrar uma coisa ( tirando um jornal dobrado do bolso de trás da calça ) Bom…é que…

Jornalista 02: (pegando o jornal do outro e dando a João )

_ Não sei se o senhor já sabe mas…

João pega o jornal e olha. Fica triste com o que lê.

Jornalista 01:

_ Sinto muito, seu Cândido. Muito mesmo! Vão desmontar o navio, o “Minas Gerais” vai virar ferro velho, sucata. Amanhã mesmo vão deslocar ele para o estaleiro. É por isso que a gente quer fazer uma matéria com o senhor. Como é que o senhor vive? Depois de tanto tempo…O que o senhor acha?

João não responde. Policiais a paisana se aproximaram do grupo e ficaram perto, fingindo escolher peixes na barraca. João olha para os policiais, tira o avental e as luvas e se retira de cena, seguido pelos jornalistas. Policiais vão atrás

Burburinho da feira cresce de novo. Luz vai caindo devagar. Barracas vão sendo desmontadas. Burburinho vai caindo durante o desmonte da feira. Luz se apaga totalmente quando o palco estiver limpo.

Música “O lago dos Cisnes”. Luz retornando. Fundo da cena com silhueta do pão de Açúcar é cortado pelo pano-barco bem esfarrapado. Trazido pelos atores ele avança em direção a uma das coxias. Encouraçado deve ter a maior altura possível e vai penetrando na cena lentamente. Nele se percebe o desenho de âncoras e a inscrição:

ENCOURAÇADO MINAS GERAIS

Ruído longo de sereia de navio. Figurantes esticam longas e estreitas tiras de tecido no sentido longitudinal ao palco e no nível do chão, fazendo com que elas tremulem, simulando ondas. João Cândido sentado, remando um bote azul e branco, como um” barquinho de Iemanjá”, é puxado da coxia oposta a que vem o navio, indo ao seu encontro.

João segue de braços abertos para encontrar o navio e no momento do encontro, faz como quem o abraça e acaricia.

Música cresce. Neblina. Pano-navio some de um lado. João segue remando para o outro, cabisbaixo, lentamente, seguido por um canhão de luz que vai se apagando. Música vai saindo também suavemente.

Fundo da cena agora é branco e sem silhuetas. Luz retorna bem forte. Vindos de trás da platéia e em grande reboliço, um grupo de “Clóvis” com fantasias vermelhas e brancas entra em cena com estardalhaço, batendo no chão com bexigas e soprando apitos estridentes.

Já no palco, organizam-se numa pose, como se fosse para uma foto. Acima das cabeças dos demais, um dos “Clóvis” levanta uma tabuleta onde se lê:

RIO DE JANEIRO, SÃO JOÃO DE MERITI 1969
MORREU O ALMIRANTE NEGRO!

Som de sirene da polícia. “Clóvis” fogem em debandada de cena. Policiais entram, revistam o palco e as coxias e somem também.

Diabinho de carnaval, circula pelo palco batendo com a chibata no piso. Numa das coxias, traz pela mão um ator fantasiado de Morte. Morte apita para outra coxia e uma pequena bateria de escola de samba entra em cena. Na frente da escola, um abre-alas onde se lê:

O GRES EXU DE MERITI AGRADECE A IMPRENSA FALADA,
ESCRITA E TELEVISADA E PEDE PASSAGEM,
APRESENTANDO O SEU ENREDO:

O ALMIRANTE NEGRO.

Restante do elenco entra em cena dançando. Todos trazem na mão barquinhos em dobraduras de jornal. Estão vestidos com roupas do espetáculo, de forma que se tenha em cena representados, grande parte dos personagens das ruas e dos carnavais do Rio do início do século. Estão em cena colombinas, motorneiros de bonde, prostitutas, marinheiros, pierrôs,
arlequins, melindrosas e índios, além é claro do Diabinho, dos Clóvis e da Morte que já estavam em cena. Diabinho sai do palco por um instante.

Barquinho de Iemanjá, é trazido para a cena. No corpo do barco se lê:

C7
CRUZADOR JOÃO CÂNDIDO FELISBERTO
MARINHA FANTÁSTICA DO BRASIL

Diabinho reaparece vestindo uma túnica e um chapéu de almirante, tudo muito cintilante de lantejoulas e perfilando-se em frente ao barquinho de Iemanjá, deposita nele o chapéu e a túnica de almirante que vestia .

Elenco e bateria de samba, como num bloco de carnaval, acompanha o barquinho para fora de cena, sempre dançando e cantando. Barquinhos de jornal são largados no chão espalhados.
Elenco continua a cantar e tocar nos bastidores. Luz vai caindo. Música cessa.

Voz verdadeira de João Cândido, gravada em fita ecoa na cena:

João Cândido: ( off )

_ Eu, João Cândido Felisberto, por seis dias parei o Brasil!

Som gravado de tempestade e trovões. Som longo de sereia de navio. Canhão de luz vai se fechando, enquadrando um só dos barquinhos de papel deixados no palco.

Silêncio. Marujo Kalunga, seguido pelo canhão de luz, volta a cena, finge enxugar uma lágrima, pega o barquinho, coloca no bolso e mostra última tabuleta do filme mudo:

NO SÉTIMO DIA, JOÃO DESCANSOU.

Canhão de luz, enquadrando o marujo kalunga com a tabuleta, vai se fechando

FIM

Praça Seca, Rio de Janeiro
© Spírito Santo, Dezembro 1994

————–

Notas finais:

Exu Chibata, texto escrito em 1994,  tem como proposta principal o estabelecimento de um  diálogo estético ou dramatúrgico entre algumas das linguagens e mídias mais em voga na época em que se passa a ação do espetáculo (início do século 20, entre 1904 e 1910) dialogo estético este que,  de certo modo aproxima a proposta de um  ‘gênero’ teatral muito em voga na mesma ocasião: O  Circo-Teatro.

Época de grande efervescência cultural e artística contrapontuada por grandes conflitos sociais. O eixo dramático principal da peça envolve os incidentes ligados a chamada Revolta da Chibata, comandada por João Cândido Felisberto (o ‘Almirante Negro’) contextualizada neste conturbado período no qual, enquanto no Brasil se tentava afirmar a ferro e fogo o regime republicano recém proclamado, o mundo europeu começava a se agitar com as graves divergências que culminariam com a sangrenta primeira guerra mundial.

A epoca é também marcada fortemente pelo doloroso processo de transição das relações sociais na cidade do Rio de Janeiro, na qual uma imensa massa populacional negra, ainda mal refeita da escravidão abolida há apenas uma década, começava já a experimentar as insidiosas restrições do recém inventado racismo.

Os aspectos estéticos principais, referentes a proposta estética sugerida para o espetáculo, estão ligados também aos elementos mais aparentes da chamada Belle Époque, da Art Nouveaux, do Cinema Mudo, da Mímica e da Pantomima (linguagens que inserem o espetáculo no âmbito de um teatro essencialmente imagético  no qual as falas não são exatamente fundamentais).

Neste mesmo sentido primordialmente imagético, a proposta tenta se associar também a certas formas e maneirismos do popularíssimo Circo-Teatro – um ‘Circo-Teatro’  idealizado, diga-se – forma  implantada no Brasil por atores circenses geniais como Polydoro,  Benjamim de Oliveira e  Eduardo de Oliveira.

São importantes também a utilização de certas soluções cênicas baseadas nas estéticas mais evidentes do carnaval de rua do Rio de Janeiro, nos rituais do Candomblé e na obra do artista plástico e ex-marujo Arthur Bispo do Rosário.

Registro Biblioteca Nacional 2349087 / 1994Rio de Janeiro 1994Ficha técnicaTexto e concepção cênica :  Spírito SantoFontes bibliográficas consultadas: Tia Ciata e a pequena África do Rio de Janeiro – Roberto MouraCarnavais de Guerra – Dulce TupiLiteratura como missão- Nicolau SevcenkoA Revolta da Chibata – Edmar Morel

Lima Barreto –  Obras completasQuatro dias de Rebelião –  Joel RufinoO negro no Brasil. Da senzala à guerra do Paraguai – Júlio José ChiavenatoBenjamim de Oliveira, o palhaço negro – dados orais da Pesquisa de João Siqueira.O negro da Chibata – Fernando Granato-Fontes audiovisuais consultadas (para concepção estética e cenográfica )Áudio de depoimento de João Cândido – Museu da Imagem e do Som- Rio de Janeiro 1968Belle Èpoque e Art-Nouveaux – no Rio de Janeiro do início do século 20 – Iconografia / Obra de Arthur Bispo do Rosário – Museu do Inconsciente / Hospital Psiquiátrico Pedro Segundo/R JRitual de saída de Exu – Terreiro Axé Shangò Bomi, R.J -Arquivo Vissungo 1996Depoimento de Aniceto Menezes – Arquivo Vissungo 1982Escolas de Samba e Carnaval Carioca dos anos 60- Iconografia / DiversosFilmografia / O Cinema Mudo de Carlitos,  ‘Comedy Capers’, United Artists, etc.-EEUU O encouraçado Potenkim – Serguei Eisenstein, URSS-Filme

Apoio pesquisa: Néia Daniel de Alcântara

Brasil Afro #03 – Ainda Palmares e um necessário parentese africano


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Clique na foto e a amplie. Fique chapadão como eu. Na gravura do pintor holandês Olferd Dapper, uma vista panoramica da incrível – e enorme – capital do ‘reino’ do Loango no século 17. O Loango era um sobado suserano (um reino menor e subalterno) do grande Reino do Kongo que, pode-se ver agora, devia ser muito maior do que imaginávamos.

(Leia os sensacionais posts #01, #o2 e desta série)

Se liga galera: Negros não nascem de pés de repolho

Eu sei. Promessa é dívida. Fiquei de desvendar um segredo crucial desta saga angolana no Brasil: O mito do menino Zumbi sequestrado.

Vou cumpri-lo, claro, mas me dei conta agora mesmo de que vocês estão – como eu estava –boiando totalmente nesta história, na História maiúscula desta gente preta que deu no que somos hoje todos nós.

Incrível, mas vocês não sabem de nada. Cegos em tiroteio. Também não é para menos: Ninguém se deu ao trabalho de colocar esta parte da nossa história num livro didático. Numa ou noutra tese de doutores ela está, mas quem lê teses de doutores? O certo é que – sabe-se lá quem – falsearam, forjaram e omitiram totalmente de nós alguns detalhes.

Negros não nasceram de pés de repolho, não é mesmo? Estamos aqui porque nossos parentes vieram de algum lugar.

Daí ficarmos assim, achando que nosso jeito africano de ser surgiu – sem desmerecer os silvícolas ameríndios que também somos – da improvisação, do atavismo de um bando de selvagens de tanga, arco e flecha, envolvidos em ritos bárbaros e trazidos à força para um ‘civilizado’ Brasil.

Mentira deslavada, sabe-se lá por quem lançada. E nem nos interessa mais saber por quê. Cuidemos de, cabalmente desmenti-las e pronto. Vocês verão que o segredo impressionante que estou guardando sobre a farsa do menino Zumbi sequestrado – o tcham tcham tcham tcham desta série – fará muito mais sentido depois deste mergulho na mais remota história de nós mesmos, negros e brancos do Brasil.

Não precisa nem dizer: Eu sei que você, brasileiro (ou angolano), estudou bastante história portuguesa no ginásio. Dom Sebastião, o venturoso, batalha de Alcacerkibir, sei lá, estas coisas aí bem ‘trás-os-montes’. É hora de perguntar então (pelo menos os brasileiros): Porque não nos ensinaram a história de Angola?

A hora é esta então: Em vez da história da nobreza portuguesa, coloquemos  em foco, aqui e agora, a história gloriosa de nossa própria e preta nobreza de descendentes de lá dos ‘trás-os-oceanos’.

Sim por que, no século 17 – época na qual o Kilombo de Palmares cresceu e prosperou – Angola e Brasil eram praticamente uma colônia só. Tudo nos unia, até mesmo as guerras. A maioria esmagadora dos negros de Palmares veio dos reinos do Kongo e de Angola.

Ué?! Não te contaram isto não?

Há um lençol pudico, uma névoa de censura envergonhada cobrindo o nosso espelho étnico neste em em muitos outros aspectos – e este é o tema central desta série de posts – nossa imagem africana real precisa ser revelada. Vamos pensar mais nisto então, enquanto corremos atrás do que nos diz respeito?

África. Século 12, 13, por aí:

Ndongo, reinos do Kongo e de Angola

Tendo Lukenyi Lua Nzama como mãe e Nimi a Nzima como pai, Nimi a Lukenyi, tido como o patriarca do povo Kimbundo, pelo que se conta, era um moço caçador que vindo dos lados do rio Kwangu se estabelecera com sua gente em Lemba, localidade perto do Matadi, bem próximo ao estuário do Rio Kongo. As migrações africanas que geraram o que seria mais tarde o império do Kongo, com um dos clãs chefiados por este Nimi a Lukenyi foram contemporâneas ás invasões bárbaras na Europa no século 14, mais ou menos na mesma época de Joana D’arc, na França.

Em Janeiro de 1482 D. João II, já entronizado como rei, ordena que o navegador Diogo Cão parta em viagem de prospecção e “descobrimento” da costa de África. Em 1483 ele chega à foz do Rio Zaire. Volta uns meses depois e se depara com muitos nativos com os quais não consegue estabelecer muita conversa, exceto sugerir que voltará daí a pouco tempo e que gostaria de conhecer o rei de todo aquele país. Deixa por lá desta vez quatro padres franciscanos com a incumbência de irem até onde reside o rei do lugar.

Em Abril de 1484 Cão sai de Lisboa para a segunda expedição a África. Nesta sua volta ao Kongo, aguarda por muito tempo pela chegada de padres que havia deixado na viagem anterior. Não há sinal dos franciscanos. Gente totalmente desconhecida para os habitantes da terra os padres haviam sido levados á presença do soberano local no interior da selva e de lá não puderam se afastar, segundo disseram mais tarde, por causa da enorme curiosidade dos nativos pelo que eles contaram acerca dos estranhos hábitos dos brancos, além da curiosidade que eles mesmos tiveram acerca dos hábitos dos nativos.

Deduzindo talvez (os textos são ambíguos quanto a isto) que os padres poderiam ter sido capturados ou mortos, Diogo decide levar como reféns em seu retorno para Portugal, um grupo de naturais da terra que, também por mera curiosidade, haviam entrado no navio. Os documentos afirmam que entre estes curiosos visitantes do navio, naturalmente uma expedição com o intuito de investigar quem eram aqueles homens ‘albinos’, estava Kassuta, o filho do atual soberano local, Nzinga Nkuwu.

Levados á Lisboa, direto para a presença do rei e, por conta do longo tempo da viagem, já falando alguma coisa de português, Kassuta, filho de Nzinga Nkuwu e seu séquito ficam em Portugal por cerca de dois anos, segundo os relatos portugueses sendo muito bem tratados na Corte de Lisboa. Bem vestidos á moda local e convertidos ao cristianismo, este embaixadores involuntários teriam sido encorajadas á servirem de intérpretes dos portugueses que os devolvem ao Kongo em 1487.

Desta vez Digo Cão é realmente levado á Mbanza Kongo (‘Mbanza’ significa ‘capital’ na língua local, o kimbundo) do que passou a ser conhecido como o Reino do Kongo. Recebido com uma grande festa, os portugueses reencontram sãos e salvos os quatro padres franciscanos. O rei do Kongo reencontra com muita alegria os seus compatriotas e seu filho que, embora vestidos de forma tão espalhafatosa, depois de encantados com a influencia dos costumes de Portugal, parecem estar muito bem.

Inicia-se assim, com pompa e circunstância, o que o historiador inglês Basil Davidson chamou de os ‘anos de provação‘ para o sudoeste da África. Em 19 de Dezembro 1490, o sucessor de Diogo Cão, Gonçalo de Sousa, sai de Lisboa para mais uma viagem à costa africana, mas morre a meio caminho sendo o comando entregue a Rui de Sousa.

A cronologia dos ‘anos de provação’ 1

A história africana desta época, no que diz respeito á nós, brasileiros, começa portanto em 1482 com o MweneKongo Nzinga a Nkuwu 2 (pai de Kassuta), reinando sobre a vasta região denominada Kongo no tempo em que o primeiro navegador português Diogo Cão, chegou ao Matadi. A era de Nzinga Nkuwu, batizado de D. João da Silva (D. João ‘Da Selva’), em homenagem a D.João II, rei de Portugal (o D.João ‘da Cidade’), como não poderia deixar de ser, foi marcada por muitos conflitos e divergências ligados a sua sucessão, demasiadamente influenciada pelo seu interesse pelas coisas de Portugal, fortemente defendidos por seu filho Kassuta.

É provavelmente este príncipe Kassuta que, voltando para o Kongo educado sob os moldes cristãos, maravilhado com a cultura portuguesa aprendida em Lisboa durante a interesseira hospitalidade do rei D. João II, quem mais tarde coroado como o rei MweneKongo Nzinga a Mbemba (D.Afonso I), transfere a capital (Mbanza) e inicia o sangrento processo de certa sujeição do Kongo aos interesses de Portugal. No ano de 1512 D.Afonso I, escreve ao Papa Júlio II, submetendo-se ao cristianismo e apresentando seu filho D. Henrique como seu representante.

As divergências internas suscitadas pela total submissão da nobreza do Kongo aos interesses de Portugal, acabou provocando um cisma de grandes proporções entre os reinos vassalos (comandados por membros da mesma família ou clã) e a população em geral. Duas correntes principais se formaram. A primeira, que era integrada por aqueles que aceitavam a influência estrangeira, queria modificar tudo no Kongo, suas instituições, sua religião, etc. e era comandada por Nzinga a Mbemba (o mais velho, segundo na linha de sucessão). A outra corrente, liderada por Nzinga A Mpanzu (o mais novo, primeiro na linha de sucessão) se esforçava então para combater tudo que fosse estranho aos costumes tradicionais da terra.

Nzinga a Mpanzu que é o herdeiro legítimo á sucessão do pai, assume o seu lugar mas é logo deposto pelo irmão Kassuta, com a ajuda de padres  jesuítas, agentes de Portugal. Nzinga Mpanzu acaba sendo expulso da mbanza (sede) Kongo, tendo que se refugiar no reino vizinho, terras do Muene Nsundi. Nzinga a Mbemba (Kassuta), já cristianizado, recebe então o nome de D.Afonso I e assume o trono ali por volta de 1506.

Nzinga a Mbemba não era simplesmente um rei subserviente, ele era na verdade um tipo ingênuo de visionário, que se julgando grande amigo de D.Manoel I, rei de Portugal – com quem trocava ampla correspondência, sob o tratamento mútuo de “Irmãos Reais” – imaginava poder obter certas vantagens comerciais e tecnológicas dos brancos.

Suas decisões devem ser compreendidas, portanto no âmbito de uma conjuntura política na qual alguns reinos que deviam vassalagem ao Kongo, conspiravam intensamente contra a liderança dele, Nzinga Mbemba, que acabou vendo na aliança com Portugal sua melhor garantia para manter e perpetuar seu poder. É neste contexto que Mbemba, ‘rei do Kongo’ chega a declarar numa carta á D.Manoel o seu desejo de obter a tecnologia para a construção de caravelas, com o fim óbvio de expandir suas fronteiras comerciais e se impor diante de reinos rebeldes e impérios vizinhos.

É assim que, mesmo tendo que enfrentar o agravamento dos conflitos daqueles que, além de questionar sua liderança, não aceitam de modo algum à sujeição da região ao estrangeiro, Nzinga Nkuwu aposta na sua trágica ligação com Portugal.

Diogo Cão volta ao Matadi outras vezes. Numa delas, em 1491, consegue penetrar nas terras do Reino do Nsoyo, vassalo do Kongo, onde convence o Mwene Nsoyo (título do governante local) das vantagens dele se converter também ao cristianismo para gozar da amizade e da gratidão de Portugal. Diogo Cão traz consigo desta vez muitos agentes de sua cruzada de dominação cultural, entre os quais alguns padres e aliados nativos (cristianizados durante o processo de cooptação da família real do Kongo), além de paramentos católicos em profusão. O Mwene Soyio e toda a sua família são então batizados. O Mwene Nsoyo recebe o nome de D. Manoel, cabendo a seu filho o nome de D. Antônio.

Nzinga Mpemba e a gênese do afro catolicismo angolano

A era de Nzinga a Mbemba é marcada também pelo aprofundamento da ligação da cúpula ou nobreza do Kongo com a igreja Católica Apostólica Romana, representada pelos interesses do Cardeal D. Henrique,  importante líder católico, jesuíta e senhor-mor da inquisição em Portugal e que, muito se empenhou junto a Santa Sé em Roma pela sagração de D.Henrique I, filho de Nzinga a Mbemba como bispo de Utica em maio de 1518 aos 23 anos de idade.

A extraordinária missão diplomática que leva o jovem de 18 anos carrega muitos presentes de marfim, peles raras e finos têxteis de ráfia do Congo e é acompanhada por uma comitiva trezentos e vinte cativos selecionados pelos portugueses.

A missão chegou á Lisboa de onde foi enviada, por terra, até a Itália, atravessando os Alpes á pé e chegando sã e salva ao Vaticano em 1513. O Papa Júlio II havia falecido sucedendo-lhe Leão X. que é quem em Maio de 1518, sobre a recomendação de quatro cardeais do Vaticano, consagra o filho do rei do Congo, como Bispo de Utica aos 23 anos de Idade. D.Henrique regressa ao Congo em 1521 do Kongo, morre em 1538.

A bem da verdade, esta política de colonização cultural, era levada a cabo no Kongo, não só pela coroa portuguesa, mas por seu agente principal: a ordem dos jesuítas, cujo objetivo central era montar na África missões semelhantes as criadas nas colônias europeias da América do Sul e tinha como estratégia essencial, fomentar a discórdia e desestabilizar a já combalida unidade entre os povos da região, afim de facilitar a conquista militar e territorial que se seguiria à dominação religiosa e ideológica da elite do Kongo.

Em nome da imposição de uma ordem cultural cristã hegemônica, uma era de cruel repressão ás práticas culturais tradicionais é empreendida pelo rei do Kongo, sob as ordens dos padres da ordem jesuítica dos e portugueses. Grande parte dos sacerdotes e médicos tradicionais (Ngangas e Kimbandas) é exterminada por meio de uma série programada de assassinatos. Uma longa série de conflitos e golpes de estado provocados pela inconciliáveis divergências entre sobas nacionalistas e a incondicional aliança do rei com os portugueses, lança o império do Kongo no caos.

A partir desta época, pelo pouco que se pode apreender a partir da enorme ambiguidade da documentação, o que se conhecia como Reino do Kongo passou a ser apenas uma espécie de protetorado português, com importância reduzida no contexto das lutas pela independência da região, posto que passou a ser ocupado pelo ‘Reino d’Amgola’, assim chamado pelos portugueses por conta do título de seus governantes: ‘Ngolas‘. Os títulos Mwenekongo (Rei do Kongo) e MweneNgola (rei do Ndongo) passaram então a se confundir. Os Portugueses e jesuítas que não se conformaram com esta nova  conjuntura ensaiaram um cruento golpe de estado, tentando devolver o poder a seu preposto rei do Kongo D.Alvaro I.

Ao que parece esta dinastia ligada a Ngola Ndambi (D.Alvaro I) é o clã mais importante da região do Kongo e do Ndongo, pelo menos até a morte de Nzinga Mbandi, a rainha Jinga (neta deste Ngola Ndambi) em 1663 3 . Pelo que se sabe até agora, o clã Nzinga do Ndongo assume o poder (tendo em alguns períodos total ascendência sobre o Kongo) a partir de Ngola Ndambi em 1570. Os documentos são confusos em relação a genealogia dos reinos do Kongo e Ndongo-Matamba (‘Reino d’Amgola’) nesta época. Ao que parece, alguns documentos omitem ou confundem o nome ‘angolano‘ de certos manikongos (que pertenceriam ao clã do Ndongo) com o nome de seus títulos nobiliárquicos na língua local (Kimbundo).

Ao que tudo indica portanto teriam existido dois períodos principais na história da região: Um no qual reis títeres de Portugal governaram o Kongo em crescente litígio com o clã do Ndongo-Matamba, e outro no qual os chamados Ngolas, ora se aliaram ora combateram Portugal, governando (ou tendo parentes governando) o Kongo como Manikongos de fato ou seja, o poder do império a partir de certa época, passou a ser (se já não era) exercido exclusivamente por membros de famílias oriundas do povo da região do Ndongo – Matamba.

O período de predominância desta dinastia relacionada ao Ndongo-Matamba, parece se acentuar quando o representante português Paulo Dias de Novais foi aprisionado e o golpe perpetrado pelos portugueses e jesuítas totalmente rechaçado pela população que, em 1568 numa espécie de guerra civil expulsou o Mwenekongo 4 , D. Álvaro I ,seus aliados e todos os estrangeiros para a ilha de Luanda no Reino de Angola na embocadura do Rio Nzaidi)

Novamente aqui, a grande confusão sobre os nomes de quem, efetivamente, governava o Kongo pode significar que o poder real na região estava sofrendo de muitos questionamentos e conflitos entre clãs e facções, podendo significar que conviviam num mesmo período reis do Ndongo (com algum tipo de ascendência sobre o poder no Kongo) e reis títeres, que tentavam governar o Kongo a serviço de Portugal.

Como o nome português destes eventuais reis títeres (principalmente os da dinastia dos ‘Álvaros‘) aparecem em alguns documentos como contemporâneos – ou mesmo homônimos- de supostos reis Ngolas do clã do Ndongo (o que ocorre notadamente com Ngola Nbambi e seu filho Ngola Ndambi Kiluanji Kia Samba), O mais provável é que tenham sido do clã do Ndongo todos os governantes da região compreendida pelos dois reinos, á partir da época de Paulo Dias e Novais.

Dois anos depois, logo após a tentativa de golpe por parte dos portugueses e dos jesuítas (1570), D.Alvaro I / Ngola Ndambi (ou Mpangu-a-Nimi Lukeni lua Mvemba) pede de ajuda ao rei de Portugal (D.Sebastião e ao seu tutor Cardeal D. Henrique, jesuíta e senhor-mor da inquisição em Portugal) que enviando prontamente 600 soldados comandados por Francisco de Gouvêa o recolocam no poder.

1575. Paulo Dias de Novais (que havia sido libertado) volta a Luanda. Havia assumido o poder o filho de Ngola Ndambi, Ngola Ndambi Kiluanji Kia Samba (ou, como o pai, Mpangu-a-Nimi Lukeni lua Mvemba) conhecido como D. Alvaro II. Ngola Kiluangi, liberta Francisco de Gouvêa, comandante da expedição que socorreu os aliados de Portugal, que estava também preso até então. Kiluangi também muda a Mbanza de Kakulo para o reino vizinho, o Mbaka e, em Junho 1575, manda uma embaixada de boas vindas a Paulo Dias de Novais.

Poucos anos depois, no entanto, pressionado pela grande insatisfação da população com os invasores, ele decide trair estes invasores, promovendo o cerco militar aos portugueses em Anzele em 1579. Em Janeiro 1584 chegam a Massangano os reforços militares e munições solicitados por Paulo Dias de Novais. 20 de Julho 1585 O Rei Ngola Kiluangi retira do seu acampamento de Cabaça. Ngola Kiluanji Kia Samba morre em 1587.

O próximo MweneKongo, filho de Ndambi Kiluanji e seu sucessor é Mpanzu a Lukenyi que assume o posto de MweneKongo sob o nome de D.Álvaro III, a princípio não ratificando nem derrubando os acordos anteriores, do mesmo modo pretendendo consultar a população. Lukenyi acaba  decidindo avisar ao Soba do Reino de Ndongo para tomar muito cuidado com os portugueses, pois eles querem mesmo é tomar o reino do Ndongo (Angola) e todo o império do Kongo para si. Uma guerra de libertação nacional se anuncia.

Reino de ‘Amgola’ e Palmares. Tudo junto e misturado?

Consideremos neste preâmbulo que, enquanto isso, no Brasil de 1597 já se falava no  famigerado Kilombo de Palmares.

O soba do Ndongo é Ngola Ndambi, também filho de Ndambi Kiluanji. Inicia-se assim, com a associação entre os irmãos Mpanzu a Lukenyi do Kongo e Ngola Ndambi do poderoso reino do Ndongo, uma nova era de resistência ao invasor português. No entanto Ngola Ndambi, segundo algumas versões após se ver acometido de problemas mentais, morre assassinado. A maioria dos relatos atribuem seu assassinato à sua irmã Nzinga Mbandi, filha de mãe Jaga (etnia também conhecida como Mbangala) com pai Kimbundo (Kiluanji). Jinga (Nzinga)é soba em Matamba, reino ao lado do Ndongo, que ela, após a morte do irmão, naturalmente anexa ao seu.

Acerca do shakespereano episódio que culmina com a morte de Ngola Mbandi, uma versão diferente da acima citada é defendida por Manoel Pedro Pacavira (escritor angolano e um dos biógrafos de Nzinga Mbandi), que sugere que o envenenamento teria sido instigado por uma concubina de Ngola Ndambi chamada Nda Kaniinii Ka Kiluanji, oriunda de Pamba (no Mbaka), apoiada pelos portugueses (que teriam sido os verdadeiros mentores do complô) com o objetivo de por como soberano dos Kimbundos um Ngola mais obediente aos interesses de Portugal. Auto proclamado Mwenengola, o filho de Nda Kaniinii foi logo deposto por uma rebelião popular que aclamou e entronizou uma mulher, sua irmã: Nzinga Mbandi.

Na verdade, ao que se sabe, o protocolo que regia a sucessão entre os povos da região – baseado em princípios matrilineares – era muito rígido. No caso, o filho da filha mais velha do rei Nzinga Mbandi (Jinga) teria que ser o sucessor natural. Morto este, por causas atribuídas ao irmão de Jinga, interessado em ser ele o sucessor, seria este o incidente cujo trágico desfecho, obrigou a ascensão da impressionante mulher que foi Nzinga Mbandi.

Jinga, contudo já havia aparecido na história um pouco antes como a carismática embaixatriz do reino do Ndongo que, a serviço do irmão (o mesmo a quem teria supostamente assassinado) vai a Luanda conferenciar com o governador português João Correia de Souza. Como era hábito na ocasião (e as circunstancias deste hábito são motivo de muita controvérsia) adota a fé católica e é batizada como Anna de Souza.

Um acordo de paz é firmado com os portugueses, mas não deve ter sido lá muito vantajoso para os do Reino e Angola, porque foi rompido assim que Jinga tomou o lugar do irmão morto. É assim, como soberana geral dos Kimbundos que Nzinga Mbandi comandará a luta contra o invasor português até ser provisoriamente derrotada em 1629.

Isolada no interior de Matamba, Jinga só reaparece em 1641, estrategicamente aliada aos holandeses, que haviam invadido as terras de lá como invadiram as daqui. Nos episódios que ficaram conhecidos como as ‘Guerras d’Angola’ muitos reinos e sobados de região se aliaram á Jinga, entre eles se destacaram, segundo os relatos disponíveis, Cassange, Cafuxe, Quijilo, Sambangombe, Calumbo, Molundo, Acamahoto e depois Quissama, além do próprio Kongo.

Mais ou menos desde 1616, quando Luiz Mendes de Vasconcelos assume, no lugar de João Correia de Souza, o posto de governador geral do ‘Reino d’Amgola’, guerreiros Jagas (Mbangalas) aprisionados nas guerras contra os portugueses, começaram a ser enviados para os canaviais de Pernambuco, no nordeste do Brasil. Sabe-se que foram quarenta os precursores do Kilombo de Palmares.

As pessoas deste grupo precursor que se embrenhou na Serra da Barriga no início do século 17, em algum momento anterior a 1630, muito provavelmente vieram de Angola, numa destas levas de prisioneiros de guerra. O certo é que durante todo o longo hiato entre 1629, quando Jinga se recolhe inativa às montanhas de Matamba e 1641, quando ela retoma decisivamente à guerra, aliada aos holandeses, prisioneiros de guerra jagas e kimbundo continuaram a ser mandados em massa para o Brasil pelos portugueses.

Na verdade todo este período das guerras anticolonialistas em Angola (1630/45) foi marcado, predominantemente, pelo translado para o Brasil de prisioneiros de guerra. Estando toda região em torno de Luanda (além do interior do Kongo) conflagrada pela guerra contra Portugal, empreendida, ao mesmo tempo, por sobas do Kongo e do Ndongo-Matamba (além de sobados aliados) e engrossada, a partir de 1641, pela presença de tropas holandesas, era evidente (não fosse fato histórico comprovado) que o fluxo convencional de escravos, antes preados ou vendidos por sobas locais, estivesse totalmente interrompido.

Desta feita, os escravos trazidos para Pernambuco passaram a ser, portanto de um tipo muito particular de gente: homens e mulheres adultos,  guerreiros experientes (talvez até mesmo alguns membros da elite ou nobreza do reinos daquele contexto territorial, de uma mesma área sociocultural portanto), aprisionados após batalhas e rapidamente recambiados para cá, separados como joio do trigo (deportados), segundo as duras leis previstas pela coroa portuguesa para o caso .

Uma espécie de elite, portanto. Com forte espírito de grupo. Este status de degredados, ‘prisioneiros de guerra’, obviamente muda totalmente a maneira de se encarar a organização social, militar e política o Kilombo de Palmares.

Unidos pelo patriotismo e valores culturais e históricos rigidamente estabelecidos; organizados, disciplinados e motivados pelas lutas nas quais estiveram envolvidos em Angola, consideremos, pois que foram estes escravos, que formaram a população que, por meio das fugas em massa passou a habitar a Serra da Barriga.

Consideremos do mesmo modo que, iniciando-se estas fugas já antes de 1630, estas pessoas tiveram muitas dezenas de anos para se estabelecer na região, criando modos bem articulados de vida, com amplas possibilidades de recriar inclusive, os elementos fundamentais de sua cultura original africana.

Entre 1641/42 o Mwenekongo Kimpaku (ou Nkanga-a-Lukeni, segundo alguns relatos) tratado de D. Garcia Afonso II (irmão de Jinga, pertencente portanto a mesma família real do Reino de Ndongo) reúne tropas com vários sobas vizinhos, entre os quais Nambua-Kalombe (que é preso é tem a cabeça cortada) para atacar os portugueses. Em 1646 Kimpaku reafirma a aliança natural com a irmã Nzinga Mbandi. Da aliança participa também o soba do reino de Nsoyo, segundo alguns relatos, tio dos dois e portanto, irmão (ou cunhado) de Ndambi Kiluanji.

As relações de parentesco entre estas figuras não são, absolutamente fortuitas. As regras protocolares de sucessão, descritas acima como sendo muito rígidas, determinavam papéis bem determinados para a filha do rei (rainha mãe, na prática, pois o próximo rei deveria ser, obrigatoriamente seu filho e para o irmão do rei cujo filho seria o sucessor na ausência do outro sobrinho do rei.

Estas regras, segundo indícios em documentos antigos, que remontam a fundação dos dois reinos principais da região (Kongo e Angola) foram criadas no passado bem remoto, por volta do século 12 ou 13, quando da unificação de povos que desceram do Camarões com os povos que já habitavam a área.

O que sugerimos, já de forma enfática é que com muita probabilidade, não haveria porque estas regras não serem repetidas no Brasil pelos líderes palmarinos, havendo inclusive fortes indícios de que eles pudessem ser, mais do que meros escravos aleatoriamente rebelados, criadores de formas de organização originais ditadas pelas circunstancias, ao contrário, um grupo cultural e socialmente articulado desde sua origem na África, quem sabe até mesmo (ainda que remotamente) de algum modo parentes entre si e das pessoas que compunham a casta dirigente nos Reinos do Kongo e de Angola.

Os ainda mal contados incidentes ligados a cisão entre os chamados ‘Zumbi’ (o jovem) e ‘Ganga Zumba’ (o velho) envolvendo o irmão deste conhecido como Ganga Zona (tio dos filhos de Ganga Zumba, portanto), sugerem um conflito de sucessão fortemente assemelhado ao que ocorreu com Jinga (mãe do sucessor natural) e seu irmão Ngola Ndambi (o usurpador), inclusive com o incidente do envenenamento, como vimos e a rigor uma prática bastante recorrente na história política dos reinos do Kongo e de Angola.

Instigante demais esta história não é não? Podemos depois de conhecê-la afirmar inclusive que, ao que tudo indica, será virtualmente impossível entender a cultura e a história do negro do Brasil sem mergulhar na história dos reinos do Kongo e de Angola dos séculos 15, 16 e 17.

Spírito Santo

Julho de 2006 (com ligeiras revisões em Novembro 2010)

Leia aqui no link o post final desta série

 

 

Brasil Afro #2 e o Zumbi fake book


O grande encontro de 'Bois Caiman' onde começou a revolução do Haiti

O grande encontro de ‘Bois Caiman’ onde começou a revolução do Haiti

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Palmares revisitado

(Leia também – e logo – os posts #01 e #03 desta série)

Há poucos anos atrás, numa solenidade festiva em Brasília na sede da Fundação Palmares (como se sabe, uma instituição do governo do Brasil voltada para a cultura dos afro descendentes) resolvi prestar mais atenção numa apresentação gravada que sempre , algo incomodado, ouvia meio assim por alto, nas solenidades da entidade pelo Brasil a fora. Nela, na tal apresentação, um locutor repassava com a voz empolada de civismo o que seria a história oficial do grande líder da nosso maior e mais perene complexo de cidadelas de escravos rebelados: Zumbi de Palmares:

“… Embora tenha nascido livre, (Zumbi) foi capturado quando tinha por volta de sete anos de idade. Entregue a um padre católico, recebeu o batismo e ganhou o nome de Francisco, aprendeu a língua portuguesa e a religião católica, chegando a ajudar o padre na celebração da missa. Porém, aos 15 anos de idade, voltou para viver no quilombo.”

(História oficial de Zumbi de Palmares. Vários autores)

O incômodo um belo dia deu lugar ao susto. O insight chegou como nos chegam todos os ‘eurecas’ desta vida: uma luz imaginária piscando, piscando e logo se acendendo, ardendo os olhos e a cuca, quase queimando a nossa mufa. Caramba! Como não havia me dado conta daquilo antes?

(Na verdade já me dera conta sim, mas ressabiado, precisava juntar ainda alguns cacos, mesmo embaçados que fossem, alguns poucos subsídios teóricos para poder duvidar, questionar com propriedade. Temia que me tomassem por doido varrido ou delirante, como sempre fazem nestas horas os patrulheiros ideológicos de ocasião. Faltava o ‘eureca’ crucial e inquestionável).

Podem dizer então que tudo começou com um surto de rebeldia adolescente ou algo assim bem intempestivo, mas convenhamos que é isto mesmo que agita e move o mundo de lugar. A insubmissão e o questionamento, o arroubo quase infantil de criancinhas ‘pé no saco’:

_ O que, Tio? Por quê, Tio? Pois sim, Tio! Como não, Tio?

Estas coisas surgem de repente, mas amadurecem como qualquer fruto. Afinal foram muitos anos chafurdando livre e empiricamente, neste esmiuçamento ‘cri cri‘ de detetive forense de série de TV, fuçando estas coisas enrustidas da cultura negra do Brasil.

Pulgas atrás das orelhas. Fazer o que?

Uma pesquisa insana, em suma – todo mundo que mexe com isto sabe – porque as perguntas são milhares, mas a maioria das respostas não estão, absolutamente onde deveriam estar, muito menos nos livros de história do Brasil

Ah…Se tudo na velha fosse bonito como o arco dela!

A enormidade da surpresa, esta sim, precisava ser explicada. Ora, o problema era que a versão da história de Zumbi de Palmares – acatada como oficial pela maior e mais referendada entidade de cultura negra do país – tinha todos os elementos de ser totalmente inverossímil, infundada, falsa mesmo, como conversa pra boi dormir ou aquelas histórias do arco da velha.

E vejam só meu dilema: Como embasar um ponto de vista assim tão iconoclasta, propor uma revisão tão paradigmática, diante de uma versão profundamente estabelecida como verdade absoluta, corroborada por livros e mais livros (alguns até mesmo escritos por mui eminentes historiadores negros do Brasil) jamais questionados nestes termos. Como desmontar uma versão mítica, supostamente heróica, incrustada na mente de – quase – todos nós por meio de séculos de incansáveis reiterações?

Difícil, não é não? Mas sério, gente! Juro que posso explicar – provar – cada tim tim mal ajambrado desta história.

E o pior de tudo – e não há de ser nada – é que terei de fazê-lo quase sem nenhum livro brasileiro conhecido em que me basear. Existem sim revisões da história oficial do negro no Brasil, mas são abordagens, do ponto de vista crítico, muito tímidas, a maioria resgatando ainda muito vagamente a importância da cultura bantu. Diretamente sobre o Quilombo de Palmares, contudo, neste foco em que decidi abordar o tema, rigorosamente – e isto foi uma surpresa absoluta para mim – nenhum trabalho com informações realmente novas foi encontrado.

O que me queimava a mufa é compreensível que seja aceito por pessoas comuns, mas de modo algum poderia ter sido corroborado por argutos historiadores. Este ‘plot’, este leit motiv, este cerne do argumento da história nunca lhes pareceu conhecido não?

Um ‘Story Line’ fajuto:

“…Aprendeu (Zumbi) a língua portuguesa e a religião católica, chegando a ajudar o padre na celebração da missa. Porém, aos 15 anos de idade, voltou para viver no quilombo.”

Nossa senhora! Isto é um mito completamente cristão, não é não? E o que é pior: Ela, esta versão oficial da história de Zumbi de Palmares, na verdade ofende e desmerece a memória dos quilombolas (e em conseqüência a memória das lutas e anseios de todos negros do país) sabem por quê? É que em seu argumento central ela sugere, quase afirma que, para que o Quilombo de Palmares alcançasse o sucesso político e estratégico que alcançou, foi necessário que o seu líder máximo – Zumbi – fosse formado, educado como branco (aculturado, melhor que se diga) por um padre europeu.

Nada contra a civilização cristã ocidental, mas vamos e venhamos, aquele pessoal de Palmares descendia de gente com séculos e mais séculos de história original. África, gente! Parem para pensar: O berço da humanidade. Se tocaram agora?

O recorte do herói mítico que, tal qual um Jesus Cristo ‘black power’ ou um Moisés negão eleito por Deus para salvar seu povo é altamente popular, mas convenhamos: carece de sentido naquelas e em quaisquer outras circunstancias em se tratando da história transatlântica de um povo africano, de cultura tão diversa da dos europeus.

As perguntas que me incandesceram mufa foram, portanto as seguintes (perguntem-se vocês também, se de mim duvidarem, mesmo que por um instante):

1- Seria historicamente comprovável a hipótese de um menino, descendente do principal líder do quilombo de Palmares ter sido sequestrado sem que ninguém se desse conta ou comunicasse o fato?

2- Seria possível a criação e a manutenção por quase um século de uma experiência política e estratégica tão exitosa como foi o Quilombo de Palmares, por parte de milhares de negros escravos, sem que estes se baseassem em sólidas referencias anteriores de organização social, comunitária e militar – regras rígidas de sucessão inclusive- ligadas ao seu mais que remoto passado africano?

3- No contexto de uma sociedade com semelhantes características sócio históricas, teria sido possível um menino negro aculturado, com identidade ou origem genética impossível de ser estabelecida, educado por um padre católico, assumir aos 15 anos (ou 20, tanto faz) o comando de um articuladíssimo e eficiente conjunto de cidadelas rebeldes?

Nenhuma destas hipóteses – pasmem – podem ser comprovadas, carecendo, portanto, totalmente de fundamento. Na verdade, se formos nos basear numa pesquisa mais aprofundada (como esta que estou propondo aqui) todas estas hipóteses, com toda certeza terão que ser declaradas mera e rasteira ficção historiográfica.

É o que devíamos fazer. E logo.

Bem, isto tudo é para explicar que este artigo é apenas uma introdução a uma pesquisa independente, talvez solitária e ainda em curso e que vai precisar de outras evidencias para ser considerada inquestionável, mas que já pode ser lançada por aí . Sim, porque é por aí mesmo que a História real avança: aos trancos e barrancos, pelo caminho das pedras.

Só um aspecto a historiografia brasileira terá que aceitar como falha flagrante e indesculpável de sua metodologia: A maioria esmagadora dos títulos a que tive acesso para embasar meus pontos de vista sobre estes incidentes que ligam, indelevelmente à África ao Brasil, apesar de estarem facilmente disponíveis aos especialistas interessados que poderiam ter proposto teses e livros a partir deles, são quase todos absolutamente estrangeiros (europeus e africanos)

Respondendo à perguntas pra lá de cabulosas

As cartas do padre Antonio de Melo

”…O padre não tratava o pretinho como escravo. ’O padre criou o menino, batizando-o como Francisco. Com a educação recebida, aos 10 anos já sabia latim e português e aos 12 era coroinha. Em uma carta, o padre refere-se ao menino como dono de um “engenho jamais imaginado na sua raça” e que bem poucas vezes encontrara em brancos. Certa manhã do ano de 1670, então com 15 anos Zumbi resolve se emancipar e parte em busca de seu destino, viver com os negros de Palmares…”

(História oficial de Zumbi de Palmares. Vários autores)

Nada foi encontrado nos documentos oficiais analisados sobre nosso herói negro mais recorrente, personagem de tantos sambas-enredo, Zumbi de Palmares, que comprovasse a veracidade de dados desta sua suposta biografia, contidos na versão insistentemente aludida pela maioria dos autores que trataram do tema e admitida, até mesmo, como disse acima, pelo movimento negro e todos os órgãos oficiais interessados na superação do racismo no Brasil.

Dos muitos filhos, netos ou prováveis sobrinhos de Ganga Zumba identificados e citados nos documentos portugueses e holandeses da época, existem pelo menos quatro filhos adultos que teriam sido presos ou mortos (Zambi ou Zumbi, Acainene, Acaiuba, Tuculo) há também o líder do mocambo Acotirene, que deve se referir a mais um membro da família de Ganga Zumba, o rei, filho mais velho de Aqualtune, a rainha-mãe.São citados ainda por outros autores Zangui, Maiolo, Engana Colomim, Camoanga, Cabanga, Gone, Gongolo, Quiloange, Quissama, todos líderes de mocambos (e observem nos negritos como é bastante recorrente a semelhança fonética entre a maioria dos nomes e os vocábulos ‘Nkanga’ e ‘Nzambi‘ ).

Observamos também a ocorrencia de nomes comuns em Angola – como Kiluange, por exemplo – que remetem ao nome de um grande chefe angolano – Ndambi Kilwange, ‘manikongo‘ líder da guerras contra Portugal no século 16 e que, segundo algumas fontes era o próprio pai da Rainha Jinga.

A grande questão é que, a julgar pelo cruzamento dos dados extraídos de documentos da época disponíveis, principalmente relatórios de expedições invasoras, nenhuma entre estas quase 20 pessoas pôde ser associada, da forma mais remota que fosse, àquela criança descrita nas supostas cartas do padre Antonio Melo.

…” muitas entradas, de fato, se fizeram aos quilombos a partir de 1654, ano da expulsão dos holandeses, até 1657, mas, cronologicamente, não se sabe a data certa em que elas se realizaram ou por não ter havido diário de operações, ou por terem eles se perdido…”

(Trechos de um relatório de expedição contra Palmares extraídos do livro de Mário Martins de Freitas “ O Reino negro de Palmares”, Biblioteca do Exército Editora, Rio de Janeiro 1988.)

…”Depois vieram as expedições comandadas pelos holandeses Rodolfo Baro (1664) e João Blaer (1645). Em seguida, o governo de Pernambuco passou a tratar Palmares como um “caso de polícia”, adotando medidas mais “enérgicas”, comandadas por militares locais, as expedições ocorridas nesse período foram, segundo o autor, maiores, mas não atingiram os resultados esperados, tendo acontecido, inclusive, um período de “trégua” entre 1667 e 1671”.

(Laura Peraza Mendes – ‘Guerras contra Palmares: um estudo das expedições realizadas entre 1654 e 1695’)

Existe num documento uma alusão a dois filhos de Ganga Zona (irmão de Ganga Zumba) que teriam sido adotados pelo governador da capitania no ato da ratificação do acordo de Cacaú e batizados com o sobrenome do governador Aires de Souza Castro, mas nada indica que fossem adultos ou capazes de, logo a seguir, assumirem a função de Nkanga a Nzumbi, ou qualquer outro posto relevante no quilombo, cuja atribuição, sabe-se hoje, devia obedecer à práticas socioculturais africanas, pelo menos da maneira como supomos, também vigentes na sociedade de Palmares na ocasião.

Como nos dão conta diversos documentos consultados acerca da similaridade óbvia entre os hábitos sociais dos kimbundos do Reino de Angola e do Kongo nos séculos 16 e 17 e os dos quilombolas de Palmares, existiram vários indivíduos que, com nomes ou funções precedidas pelo título Nkanga (a confusão semântica com o vocábulo ‘Nganga’ /’senhor’ é muito recorrente)  como reparamos anteriormente, foram realmente chefes de alguma localidade ou exerciam alguma função importante no complexo de quilombos (Nganga Zumba, Nganga Zona, Nganga Muissa, etc.). Neste sentido, em nossas prospecções a palavra Ganga Zumba parece ser mesmo uma expressão genérica, diretamente originada de…

Nkanga a Nzumbi.

Nkanga (Nganga) = sacerdote, sagrado, Santo

Nzumbi= entidade, fantasma, Espírito =

Espírito Santo.

A tradução literal do termo Nkanga a Nzumbi (termo do kimbundo angolano) vocábulo que pode, mais acertadamente estar relacionado ao personagem Zumbi de Palmares, poderia ser portanto Espírito Santo.

_Como assim, Spírito Santo?_ Dirão vocês.

Calma! Surprendam-se sem pudores. Eu também fiquei surpreso – na verdade ‘chapado’ – com esta estranha conclusão’, mas como naquele aviso de filmes ela não passa de mera coincidência.

O nome (‘Nkanga‘) seria uma espécie de título de origem com toda certeza católica – daí a coincidencia – que supomos estar fortemente relacionada a alguma linhagem de inspiração jesuítica de reis ou sobas – ‘Manikongos’ – cristianizados, iniciada em época remota (que poderia mesmo remontar ao século 16) e que identificaria o ‘rei’ ou chefe com poderes religiosos e militares, francamente utilizado em algumas culturas do Reino do Kongo (e também no Reino de Angola) ainda durante este período.   

Aliás, isto pode ser constatado facilmente analisando a lista dos mandatários dos reinos do Kongo e de Angola do século 16 em diante.  A quantidade de ‘Nkangas‘ na lista é impressiomnte. O fato de se usar a mesma palavra para definir ou ‘sacerdote‘ quando se referindo a ‘padre‘ (católico) é também uma eloquente evidencia a nos encaminha para estas conclusões.

Segundo esta regra protocolar, portanto, todo supremo mandatário poderia ser reconhecido pelo povo como um ser divino, possuidor de poderes – e obrigações – religiosas, conceito africano original, que teria sido mantido vigente (reciclado, sincretizado) mesmo após a cristianização da aristocracia congoleza ou angolana de então (com os termos católicos traduzidos  para o kimbundo local) e, deste modo transplantado para o Brasil de Palmares.

O fato é que se a rigor (como acabamos de constatar acima) não existem informações documentais confiáveis (o menino, futuro Zumbi, supostamente sequestrado teria nascido entre 1655 e 1662) acerca das fracassadas expedições ocorridas contra o Quilombo de Palmares entre 1654 e 1662 .

Logo, se teria havido pouco depois  desta época ‘um período de “trégua” entre 1667 e 1671 (pouco se sabe sobre os anos entre 1663 e 1666) de onde teria, vindo as recorrentes informações que dariam conta de que um filho do rei Ganga Zumba, recém nascido ainda (ou já com 7 anos de idade) teria sido sequestrado nesta ocasião? Ao que parece, tudo se origina mesmo – sem querer desmerecer a renomada fonte – da seguinte enganosa revelação:

“…E por isso teria havido tantos Zumbis. Eu efetivamente entendia que não. Até que um dia, por mero acaso_ e a pesquisa histórica depende muito de sorte também e do acaso , eu encontrei uma consulta do Conselho Ultramarino, órgão de assessoria ao rei, em que se dizia ao rei que todas as certidões que diziam ter sido morto um Zumbi eram falsas, forjadas para que os chefes das expedições recebessem as mercês do rei. Verificou-se que Zumbi continuava vivo. Este foi o ponto de partida para estabelecer a identidade de Zumbi. Até que encontrei as cartas do padre Antonio Melo…”

(Decio Freitas, autor de “Palmares, a guerra dos escravos” em entrevista á ‘Folha on line Brasil 500’.)

A respeito precisamente do heróico personagem a quem as cartas citadas acima se referiam, há que se considerar que diversos relatórios militares da época já haviam sido unânimes em atestar que este ‘Zumbi‘  já estaria ativo em Palmares, em época mesmo anterior ao acordo de Cucaú datado de 1678 (tendo sido inclusive ferido em combate). Havia até um mocambo com o seu nome (Zambi ou Zumbi), o que seria, naquele tempo, o mesmo que dizer: habitado e comandado por ele.

O fato é que não existem fundamentos nem provas documentais para confirmar, em qualquer um de seus aspectos, a fabulosa história do padre Antonio Melo. A sustentá-la apenas o beneplácito dos pesquisadores diante de hipóteses tão infundadas quanto providenciais a certos setores do pensamento acadêmico brasileiro – e talvez resida aí alguma eventual intenção oculta nas supostas cartas- para quem, ainda hoje, faz sentido a pergunta que até hoje não quer calar:

Como o negro escravizado no Brasil, não tendo passado, origem, nem história, poderia constituir e manter durante tanto tempo, uma sociedade tão complexa e, em sua conturbada época, tão estável e perene quanto foi o Quilombo de Palmares?

Tentando explicar o que a ingenuidade etnocentrista, infelizmente julga inexplicável até hoje, um documento chegava a especular:

”…Tal habilidade aparecerá nas paliçadas e fossos, feitas em torno do quilombo, com paus pontiagudos colocados para matar invasores, e aí já estamos 1694. Zumbi, portanto, tudo indica, nasceu livre. Não fica claro se o padre que criou Zumbi conheceu, leu, as grandes utopias (e se informou sobre aquilo a Zumbi) dos grandes escritores do passado, tais como: Platão, com a sua República, antes da era cristã; Thomas Morus (More), com a sua Utopia, 1478 / 1535 ; Tommaso Campanella, com Cidade do Sol, 1568 / 1639 e, finalmente, Francis Bacon, com Nova Atlântida, 1561 / 1626. Saliente-se, aqui, que as obras acima citadas foram sobre maneiras de se organizar um Estado, e nada tinham de inocentes, e lidas no mundo inteiro”

O ‘Segredo’ da Condessa Schönborn

O argumento da história central, aquela que gera todas as outras versões sobre as cartas do padre Antonio de Melo (muitas delas acrescidas de detalhes que não se sabe bem de onde surgiram) parece estar baseado na mera suposição (uma lenda urbana da época, talvez apócrifa), de que certo padre de Porto Calvo teria escrito uma ou duas cartas contando a saga de uma criança negra sequestrada numa expedição contra o quilombo em 1662 (certos autores, sem nenhuma evidencia apresentada – talvez fazendo ‘contas de chegar’ – falam que o fato teria se dado numa expedição em 1662).

“…Durante uma expedição contra Palmares, comandada por Brás da Rocha, foi raptado ainda recém-nascido e entregue ao padre Antônio Melo, vigário de Porto Calvo, que o criou sob o nome de Francisco.

Na dificuldade de se encontrar uma origem segura para a história , quem buscar notícias sobre o paradeiro das cartas do padre Antonio Melo , terá o dissabor de descobrir apenas uma segunda história, também providencialmente complementar à primeira e, contudo mais implausível ainda:

(Na verdade – tcham, tcham, tcham, tcham – já desvendamos a origem segura da lenda, que é como os leitores verão em breve -num post a seguir – absolutamente surpreendente!)

“Arquivo revela que Zumbi sabia latim!

A condessa de Schönborn, 65, nascida Graziela de Cadaval, é conhecida entre os pesquisadores e ”caçadores” de documentos como a guardiã dos arquivos da casa da marquesa de Cadaval, sua mãe. São cerca de 5.000 livros e conjuntos de documentos reunidos nos últimos seis séculos e guardados em Muge, 80 quilômetros a leste de Lisboa. …Anos atrás, dezenas de documentos foram roubados por um ”pesquisador disfarçado de paralítico em cadeira de rodas”. Desde então, só convidados vigiados pela condessa pesquisam os manuscritos tombados pelo Estado.

Entre esses papéis (roubados) estariam duas cartas preciosas que permitem imaginar Zumbi no seu tempo de menino. Foram escritas pelo padre Antonio de Melo em 1696 e 1698, quando já corria a notícia da morte de Zumbi. As cartas, não localizadas pela condessa, foram copiadas em 1978 a pedido do historiador gaúcho Décio Freitas.

..Na época das cartas, o presidente do Conselho Ultramarino era Nuno Pereira Álvares de Melo, que foi o primeiro duque de Cadaval, e por isso os documentos foram guardados pela família. Ao longo do tempo, parte do arquivo dos Cadavais foi se perdendo. Em fins do século 17, um incêndio destruiu o palácio da família. Depois, com a invasão napoleônica, muitos papéis foram trazidos para o Brasil. Em 1964, as famílias dividiram o que restava do arquivo. Metade ficou com a condessa e o restante foi para o duque de Cadaval. Há notícias de leilões de documentos nos últimos anos…”

(Do enviado a Muge (Portugal) Aureliano Biancarelli para Folha Online – Brasil 500)

O que esta história complementar nos dá conta em suma é que, as famosas cartas deste misterioso e desconhecido padre Antonio Melo talvez não possam ter jamais a sua autenticidade – ou mesmo a sua própria existência – comprovada porque, de uma forma ou de outra, por furto, extravio, por culpa de um incêndio ou um acidente fortuito qualquer, os originais teriam se perdido para sempre.

Como se vê, são bastante controversas as questões suscitadas por abordagens históricas que, deliberadamente ou não, subestimam ou omitem a óbvia ligação da cultura das comunidades quilombolas do século 17 com sua matriz africana mais imediata. A principal destas questões talvez seja a grande insistência com que elas foram sendo inseridas, com foros de verdade histórica absoluta, no contexto dos vários estudos existentes sobre o assunto, a despeito de sua evidente carência de fundamentos.

Entre dezenas de documentos disponíveis, a simples leitura, por exemplo, de uma das cartas do Padre Antônio Vieira (estas sim, autênticas), notório e influente agente dos interesses ultramarinos de Portugal além de importante autoridade eclesiástica, poderia esclarecer muito sobre esta questão. Pode-se destacar em especial dentre estas cartas de Vieira, aquela escrita em julho de 1687, em resposta a uma consulta do rei de Portugal, indeciso quanto a oferta de mais um acordo de paz aos palmarinos, sugerido por certo padre italiano de Recife:

“Muito me admiro… que sem outra informação dos superiores desta província, houvesse por bem a proposta feita por um padre particular de ir á Palmares… este padre é um religioso italiano de não muitos anos, e, posto que de bom espírito e fervoroso, de pouca ou nenhuma experiência nestas matérias. Já outro de maior capacidade teve este pensamento e posto em consulta, julgaram todos ser impossível e inútil por várias razões. Primeira: Porque se isto fosse possível, havia de ser por meio de padres nativos de Angola que, todos, os quais crêem e deles se fiam, e entendem, como sua própria pátria e língua…” .

A propósito, as evidências sobre a existência de certa similaridade entre os hábitos culturais praticados no Brasil pelos líderes palmarinos e os de seus conterrâneos na conturbada Angola do século 17 (hipótese aventada como vimos pelo próprio padre Antônio Vieira) estão se tornando cada dia mais candentes, principalmente se admitirmos a possibilidade de alguns líderes do quilombo da capitania de Pernambuco terem sido prisioneiros de guerra (soldados portanto e não escravos comuns), removidos para os Brasil no contexto da cruenta guerra colonial que sacudia o chamado ‘Reino D’Amgola’ naquela época.

Ao contrário do que ocorreu com as cartas de Vieira, o mais surpreendente é que a existência das outras cartas, supostamente atribuídas ao outro padre Antonio (e seu inusitado conteúdo) tenha sido um fato completamente desconhecido durante 300 anos.

E sobre o total desaparecimento dos originais das referidas cartas, logo que foram enfim descobertas, o que dizer? Por isto mesmo, mais do que com as controvérsias do incidente em si, talvez devêssemos nos preocupar mesmo é com as péssimas conseqüências advindas de sua eventual intenção etnocentrista, tão compreensíveis no contexto de uma colônia européia no século 17, quanto inaceitáveis neste nosso emancipado Brasil do século 21.

Sobrava-nos apenas a palavra solitária do já falecido Decio Freitas, incansável e meticuloso pesquisador que, pelo que sabe até agora, teria sido o único a ter acesso as cartas em poder da condessa o que, em se tratando de fato histórico desta relevância, infelizmente, não deve servir ainda, como prova cabal de coisa alguma.

Aliás, mesmo que tenham realmente existido, por conta do alto grau de improbabilidade dos incidentes por elas descritos, estas cartas não poderiam ter adquirido jamais, a importância que lhes deu a nossa história oficial.

“…A Torre do Tombo, o mais importante acervo do país (Portugal), tem inúmeros catálogos diferentes. O principal, os ”Manuscritos da Livraria”, não traz os documentos por ordem alfabética. Obedece a cronologia de entrada no acervo. Milhares de documentos das antigas casas de nobres ainda não foram catalogados. Não se pode confiar no que já foi informatizado.

Segundo o computador, a carta do rei que dá a patente de mestre de campo a Domingos Jorge Velho deveria estar na folha 426 do códice nove do ”Registro Geral das Mercês”. Foi encontrada pela Folha no verso da folha 246. A maioria dos documentos sobre Palmares pertence ao Arquivo Histórico Ultramarino. Ali estão as cópias dos papéis que seguiam às colônias. Muitos dos originais, destinados às capitanias do Brasil, desapareceram no tempo… Os documentos pouco ou nada contribuíram para traçar o perfil do homem Zumbi.”

(Jair Rattner especial para a Folha On Line, de Lisboa)

O que nos parece inquestionável contudo é que, a morte definitiva do último Nkanga a Nzumbi de Palmares, o sucessor de Ganga Zumbase deu mesmo em 20 de novembro de 1695 quando um de seus ajudantes de ordens (e seu suposto genro) é preso numa escaramuça e aceita traí-lo em troca de perdão. O traidor identificado como o mulato Antonio Soares, viveu em paz em Recife até morrer de velho.

Na hipótese de ser factível, pelo menos em parte, a versão dos fatos aqui apresentada, a dinastia que governou a região do Império do Kongo pelo menos a partir de 1545 (ano de nascimento de Ngola Ndambi, avô da valorosa Nzinga Mbandi, a rainha Jinga), reconstruída no Brasil num formidável fenômeno de transculturação, com a rainha Aqualtune mãe de Ganga Zumba ou com Mateus Ndambi, sogro do rei, teria durado no total mais de 150 anos (dos quais cerca de cem só no Brasil), havendo sobrevivido, após a morte de Jinga, pelo menos até 1695, apogeu e glória de seu último representante conhecido: O Nganga Nzumbi degolado em Recife.

“…ficando só mente (Zumbi) com Vinte negros, dos quais mandou catorse pa. Os postos das emboscadas que esta gente uza no seu modo de guerra, e hindo com seis que lhe restaram a se ocultar no sumidouro, que artefiçiosa mente avia fabricado, achou tomada a paçagem; pelejou valeroza e desesperadamente matando hum homem ferindo alguns e não querendo Renderce nem os companheiros, foy preciso Matallos e só hum se apanhou vivo, enviouçeme a cabeça do zumbi que determinei se puzese num páo no lugar mais público desta praça a satisfazer os ofendidos e justamente queixosoz e atemorisar os negros que supretisiozamente julgavão este immortal… “

(Ds G.a Real pesoa de Vmagde.Como todos desejamos. Pernco.14 de Março de 1696” Caetano de Mello de Castro – Governador da capitania de Pernambuco )

Surpreendentemente – ah! como é bom por água na boca dos curiosos! –  tendo como pista apenas as datas e o nome suposto deste Zumbi fake aculturado – que se chamaria Francisco, lembram-se? – conseguimos em textos angolanos, portugueses e italianos a chave, a prova mais do que cabal – se é que isto é mesmo possível – da gênese real desta farsa absurda – displicente talvez , muito mais do que fraudulenta – do ‘zumbi menino sequestrado’.

Mais isto …tcham, tcham, tcham, tcham!…. como já disse, será o tema do próximo episódio desta série.

Spírito Santo
Rio de Janeiro, Julho de 2006 (com pitacos novos em Novembro de 2010)

Nota: Na foto acima grande encontro em ‘Bois de Caiman’, bosque onde a revolução do Haiti foi deflagrada. Veja neste link o que isto – mesmo remotamente-  pode ter a ver com Palmares e reflita.

Leia post #03 neste link

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Se você curte analisar bibliografias e notas de rodapé, este texto possui uma relação bem completa deste tipo de referencia que você pode ler neste link

Basil Davidson: Morre o filho branco da Mãe Negra


Bristol, 9 de Novembro de 1914 – Londres, 9 de Julho de 2010

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Morre o grande amigo da mãe África

A lembrança está marcada em mim como e tivesse sido a fogo tatuada, nítida como se fosse hoje. Agora mesmo, contando isto para vocês, me vem o cheiro do papel do livro que comprei novinho, estalando, na Livraria Camões, no térreo do Edifício Av Central, no centro do Rio de Janeiro.

“Mãe Negra- Basil Davidson”

O cheiro acre da tinta e  do papel portugueses, o mesmo cheiro que impregnava todo o ambiente da tradicional livraria (até hoje existe) especializada em literatura africana, livros e mais livros, revistas (entre elas a antológica e literária  ‘Revista África’) mapas, tudo que quisesse ler sobre Portugal e suas ainda colônias em franco e acelerado processo de descolonização sim, porém marcado ainda por cruentas lutas de libertação. O cheiro disto tudo, ainda hoje está impregnado em mim, não sei se na pele, nas narinas  ou se apenas na memória, só sei que para sempre.

Egito, Sudão,  Kilwa, Angola, , Guiné Bissau, Nigéria, Benin, Moçambique, Zimbabwe…nenhum sentido haveria na história destas terras que tanta gente nos mandaram como escravos, se não fosse aquele livro fulgurante,  fulminante que comprei naquele dia remoto na década de 1970.

Mãe Negra, de Basil Davidson continha toda a verdade omitida pelos livros de história que havia lido antes em toda a minha vida. Nunca mais abri um livro didático de História do Brasil depois daquele dia. Era óbvio que o Brasil real jamais esteve nos meus livros e cadernos de escola. Fiquei achando que que havia lido apenas lixo e mentiras até então.

Até hoje leio historiadores brasileiros com desconfiança e certo ‘pé atrás’, alguns até com mal disfarçado desprezo, confesso. Porque aceitam omitir e falsear tanto algo tão importante quanto a nossa própria história e suas nuances mais orgulhosas? Porque não foram capazes de ser historiadores de verdade como Basil?

A morte de Basil Davidson no dia 9 de Julho passado deixará uma saudade enorme em mim e em tantos outros como eu que, por intermédio dele, descobrimos a natureza complexa da África que havia latente em nós. Ela, a saudade de Basil,  será mitigada apenas pelo cheiro ocre dos livros da Livraria Camões que guardo comigo como ouro em folhas de papel.

De certo modo, ler aquele livro claro e incisivo dele, aquela historiografia incisiva, precisa, me contando a saga de uma África grandiosa assolada por tão vorazes e covardes predadores europeus, antes  apenas imaginada ou sonhada por nós, militantes por uma negritude brasileira ainda ingênua de propósitos, me libertou completamente e me inspira até hoje. É uma das mais mais vivas brasas entre as minhas mais fogosas lembranças.

É por isto – por causa da saudade de gente como eu –  que o mundo inteiro está lendo agora mesmo a história honrosa de Basil, o amigo da África e este mesmo mundo inteiro esquecerá num lapso, jamais lerá um um pingo de ‘i’ que seja da história dos outros, destes reles historiadores que  tanto tentaram nos enganar com mentiras falsamente cívicas, bajuladores da pátria alheia, desestoriadoriadores, descontadores, engendradores de apagões mentais.

“…Minha mãe
tu me ensinaste a esperar
como esperaste paciente
nas horas difíceis.
Mas em mim
a vida matou esta mística esperança
eu não espero.
Sou aquele por quem se espera
A esperança somos nós, os teus filhos
nascidos para um fé que alimenta a vida…”

(Agostinho Neto)

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Basil Davidson: Espião, resistente anti-fascista repórter e historiador de África

Maputo, Quarta-Feira, 18 de Agosto de 2010/Notícias

(Extraído de ‘Moçambique para todos’)

Owei Lakemfa

Basil Risbridge Davidson não foi um santo, tipo o que evoca a figura do herói Ernesto Che Guevara. Não foi um Tarzan, deambulando pelas selvas de África, nem tão-pouco um missionário de uma estranha confissão religiosa que evangelizou o continente à expensa da sua terra, da sua cultura, sangue e riqueza.

Não foi um neo-colonialista, que em nome do FMI ou do Banco Mundial passava a prescrever receitas expiradas para todas as enfermidades africanas. Antes, Davidson foi um intelectual comprometido, que estudou e escreveu honestamente sobre África e os seus povos, sobre a sua história ancestral e contemporânea, sobre os seus ancestrais; sobre lideres africanos convictos tais como Samora Machel e criminosos como Mobutu Sesse Seko.

Não foi um cientista social desinteressado que estudou África à distância, quando os nossos povos vertiam sangue nas guerras de libertação em Moçambique e na Guiné-Bissau, ele esteve fisicamente nos campos de batalha. Dos mais de trinta livros que escreveu não abarcavam apenas uma vertente teórica, mas eram guias práticos para muitos africanos; ajudou a moldar a visão política de muitos jovens africanos na década de 1970 e 1980.  Ele abriu a mente de muitos africanos sobre o rico manancial historial, desde aos tempos pré-coloniais, passando para o período das guerras anti-coloniais aos encarniçados combates para a libertação, envolvendo as forças patrióticas do continente e os fidalgos representantes de Lisboa, Bruxelas, Paris, Londres e Joanesburgo.

Curiosamente, atendendo aos seus antecedentes, Basil Davidson era umas das mais suspeitas e improváveis vozes a levantar-se a favor da consciencialização e libertação em África. Ele era tenente-coronel na reforma do Exército, inglês que combateu na segunda Guerra Mundial, tendo ajudado os movimentos de resistência na Hungria, Jugoslávia e Itália. Chegou a ser espião britânico, trabalhou para M15, especializou-se em sabotagem e foi prisioneiro de guerra, que beneficiou com o processo de troca de presos com a Itália.

Basil Davidson, que trabalhou como repórter para muitos órgãos de imprensa, decidiu, a partir de 1951, documentar o continente africano. O seu interesse inicial foi a Europa do Leste, mas depois inclinou-se para a África e foi neste continente onde deixou um legado a várias gerações. O seu primeiro encontro com África foi no Cairo, Egipto, onde se tinha deslocado ainda como soldado e espião para arranjar logística para a resistência eslava.

O avião em que viajou tinha feito escalas na região de Bathurst (antiga designação da cidade de Lagos) e num local que, para ele, passou a ser “algures no norte da Nigéria, um ponto desconhecido do mapa, tanto quanto eu pude descobrir”. O avião, dizia, “tinha feito um voo, abaixa altitude, sobre em paisagens, planícies e vastas extensões de terra desprovidas de populações”. Basil Davidson disse que tinha saído para um passeio: “À distância, vieram sobre mim imagens da presença de uma barreira estreita e alta, o muro de uma cidade…tinha sido construída de barro, paus e circundava toda a cidade perdida algures em África, que descobri mais tarde ser a cidade de Kano, com mais de 700 anos, senão mais…e que não havia nenhuma história em África, tanto quanto eu sabia”.

Assim foi como a sua curiosidade por África cresceu. Os seus estudos e escritos acerca do continente estavam para absorver os últimos dois terços dos seus 95 anos que marcaram a sua passagem pela terra, que começou no dia 9 de Novembro de 1914 e terminou no dia 9 de Julho de 2010.

Ao procurar provar que África tinha uma rica História pré colonial, Basil Davidson escreveu numerosos livros, que incluíam estudos sobre os antigos reinos do Egipto, de Kush, de Nok, sobre culturas e impérios do Mali, Ghana, Songhai. Tudo isto consta de livros como “A redescoberta da velha África”, “Mãe África”, o “Passado africano e os africanos”.

Davidson escreveu sobre a ruptura dos impérios africanos, forçados a entrar num ciclo de nações-Estados, tendo questionado se “deve a África renovar a proliferação de nações e as disputas nacionalistas…os povos africanos tinham seguido, no passado, o seu próprio caminho, e nada indica que não venham fazê-lo novamente de forma construtiva e criativa”. Mas a África não seguiu o seu velho caminho, antes optou por aquilo que foi ditado pelas as suas antigas potências coloniais. Davidson sentiu-se atormentado com esta perspectiva.

Ao analisar a tragédia do continente, especialmente nos anos de 1970 e 1980, lamentou que “o declínio de valores morais e políticos daqueles que clamavam falar em nome de África era tão rápido quanto generalizado”. Ao mesmo tempo que reconhecia a imensa autoridade moral de líderes como Julius Nyerere, Basil Davidson notou em líderes como Samuel Doe, da Libéria, Ibrahim Babangida, da Nigéria, Idi Amin, do Uganda, Jean Bedel Bokassa, da República Centro-Africana, e Macias Nguema da Guiné-Equatorial o que chegou a caracterizar como “um fenómeno excessivamente patológico que apareceu no período colonial e pós colonial jogado por individualidades que tinham a autoridade e carisma para chegarem ao poder, mas sem a sabedoria para controlá-lo.

Tais figuras agarraram-se ao poder e surgiu a ambição, quer por mais poder, quer pelos seus frutos”.

Um dos seus legados duradoiros foi a forma documentada como retratou a luta de libertação nas colónias portuguesas, as lições para África e o que se pôde aprender com a teoria da guerra popular. Por exemplo, ele tinha descrito uma acção audaciosa desencadeada por combatentes do então movimento PAIGC no aeroporto de Bissau, numa altura em que as autoridades coloniais portuguesas tinham fortificado as áreas circundantes do aeroporto com vedações e campos minados. O movimento conseguiu destruir aviões que se encontravam na placa aeroportuária, nos hangares, sem que tivessem provocado danos humanos. Uma das lições, do audacioso ataque, dizia Davidson, era que a invulnerabilidade estava do lado da guerrilha e não do lado colonial.

Basil Davidson defendia que “todas as guerras eram perversas”, mas que “uma bem dirigida guerra de auto-defesa” – distinta de qualquer acto terrorista – pode resultar em ganhos, mesmo em circunstâncias mais adversas”.

O historiador britânico advogava que uma ideologia de libertação não pode ser desenvolvida sem “a potencialidade da consciencialização de um povo, num específico tempo e determinado lugar”. Basil Davidson, com as suas obras “O fardo do homem negro”, a “Causa do povo: uma história de guerrilhas em África”, “As cidades perdidas de África”, “África Ocidental antes da era colonial: uma história até 1850”, “África” (que veio a ser adaptada em série televisiva) e “África na História”, plantou o seu legado no solo africano e no mundo intelectual.

Owei Lakemfa

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Galdino e o quarto escuro


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Não é, confesso, mas bem que este poderia ser Galdino Cabinda

Não é, confesso, mas bem que este poderia ser Galdino Cabinda

O inferno do escriba é aqui

Parece o céu de uma vida vivida só na flauta, mas escrever – com perdão da palavra – é phoda.

Escrever sobre o que? Me digam. Para quem? Publicar, difundir onde? E como? Deus do céu! Só mesmo sendo como eu que escrevo por vício, na compulsão franco-atiradora de pelos cotovelos sair dizendo as coisas que me vem à telha, com a mais sincera das emoções.

Existem uns macetes que a gente aprende às turras com as páginas em branco, nas surras do dia a dia: O ofício, mesmo aos diletantes, exige alguma dose de pragmatismo sim. Aprendi isto escrevendo umas poucas peças e roteiros para teatro e cinema, linguagens rígidas, cheias de filigranas técnicas e rubricas.

Existiria algo mais virtual e louco do que escrever tão meticulosamente, apenas supondo que alguém, um belo dia, vai dispender tempo e – com de novo o perdão da palavra – saco de ler uma história já toda formatadinha para ser encenada num palco ou filmada por muitas luzes, câmeras e atores, escrita pelo ilustre quase desconhecido que é você? Pura piração, não é não?

Foi por isto que, cansado de ver gavetas e HDs cheios de calhamaços de papéis e bits de histórias formatadas nesta ou naquela linguagem arrumadinha, decidi simplesmente contar histórias como aqueles contadores comuns contam, coloquialmente, como ao pé de uma fogueira quentinha, para todo mundo entender.

Daí – que alívio!- o problema passa a não ser mais meu. Quem quiser achar que a história se parece mesmo com um filme ou com uma peça de teatro que me convença ou que monte ou imagine na sua própria cabeça as imagens que lá bem entender.

Então é assim: É bem isto que este argumento como todo argumento é: Um filme imaginado, sugerido, olhado pelo velho diafragma de uma máquina fotográfica caixote, das antigas, querendo falar das fotos que jamais foram feitas de um – por isto mesmo-  invisível êxodo de escravos da servidão da roça para a rebeldia da Corte do Rio, da tontice mais épica do eito para a esperteza do Ganho na cidade grande (e isto tudo com graça e propriedade) num cenário de manguezais exuberantes, num século 19 em que uma natureza vizinha  e tão conhecida da gente do Rio – a baía da Guanabara, hoje degradada como que – emoldurava uma história de um Brasil escravista que foi o que foi como teima ainda ser.

É tudo mentira, certo? Tramas inventadas, mas se quiserem, simplesmente imaginem que foi assim tim tim por tim tim e se divirtam sem culpa.

Galdino e o quarto escuro

Argumento cinematográfico para um eventual longa metragem

Por Spirito Santo

Rio de Janeiro, entre 17 e 20 de Maio de 1888. Encarcerado, justo quando todos os escravos acabavam de ser libertados pela lei Áurea, sob severo interrogatório na Casa de Detenção da Corte, acusado de ser um rebelde quilombola, o negro ‘de ganho’ Galdino Cabinda, vai desembuchando a história de como, justo ele, tão sabido quanto despachado, apesar de completamente inocente, foi se envolver numa enrascada cabeluda como aquela, cujo desfecho, como saberemos adiante, deu no que deu.

Entre respostas sinceras ou mentirosas (arrancadas sob pancada no interrogatório) e coisas que ele fala simplesmente porque quer falar, iremos nos dando conta da complicada rede de circunstâncias que fizeram de Galdino Cabinda o personagem central desta história.

A história – na qual não há mesmo jeito de se distinguir o que é verdade do que é mentira – pode começar na Europa, mais precisamente em Lille, França, onde num certo dia de Março de 1888, fim de inverno, o jovem “photógrapho paizagista” Jean-Phillippe Brumeux, impressionou-se vivamente com as litografias publicadas num luxuoso livro, baseadas nas imagens do seu  conterrâneo, o grande Victor Frond, que andara produzindo belas fotografias de escravos nas fazendas de café da região do Vale do Paraíba o Sul, na província do Rio de Janeiro.

Estimulado também pelas idéias libertárias de Frond – que fora um fervoroso ativista  republicano – Jean Phillippe viaja para a Corte brasileira, afim de ganhar algum dinheiro fotografando autoridades e figurões do Império e, ao mesmo tempo, documentar a dura vida dos escravos na Corte.

Logo que chega ao Rio, Jean Phillippe procura Louis Jacques Dapaix (uma alusão ao nome de um dos precursores da fotografia, Louis Jacques Daguerre), o dono de um estabelecimento que aluga equipamento fotográfico e teria sido recomendado à Jean Phillippe por um amigo de seu pai.

Influenciado pelas notícias de turbulentos incidentes que ocorrem na província vizinha á Corte nesta ocasião, ele decide mudar radicalmente seus planos, deixando o negócio de retratos para mais tarde, a fim de partir direto para o interior, ao encontro das turbas de escravos que,  segundo aquelas mesmas notícias, se encaminhavam em êxodo para á Corte.

Necessitando de um escravo para alugar, Jean Phillippe conhece numa bodega da Corte o bem falante (e já nosso conhecido) ‘negro de ganho’ Galdino Cabinda que aceita a função de guia e  carregador.

Galdino sugere a Jean que rumem para a cidade de Nossa Senhora do Pilar, onde ele conhece a portuguesa Maria da Luz Müller, 40 anos, mais conhecida como Maria ‘Mula’, uma ex prostituta mulher do comerciante cego Rui do Serro D’Alferes, seus antigos senhores, que poderiam  hospedá-los.

A cidade fica na baixada que separa a Corte do interior da província, próxima a fazenda do  Barão de Iguaçu e as terras dos monges beneditinos, onde existe, num vasto manguezal coberto de pântanos e uma intrincada malha de rios e córregos, o até então invencível Quilombo do Bomba, conhecido também como Quilombo de Iguaçu.

É, pois Galdino, quem narrará em flashbacks distribuídos ao longo do filme, a história toda, de Jean Phillippe a Rui D’Alferes, de Maria Mula e até de si mesmo, a partir dos dados á seguir:

Rui Amancio do Serro D’Alferes, comerciante brasileiro, cego, 55 anos, havia sido um grande distribuidor de cachaça e fumo de rolo em Ouro Preto e veio para a Corte tentado a implantar o mesmo negócio por aqui. Se esbordoou por conta da concorrência com uns padres  capuchinhos, que monopolizavam este comércio na Corte.

Foi por isto que resolveu entrar para o negócio da lenha, se mudando para as bandas do Nossa senhora do Pilar nas vizinhanças do Rio Sarapuí. Não foi muito bem, a princípio mas, com o aumento das fugas de escravos e o crescimento dos quilombos na região, não conseguindo competir com os contrabandistas de lenha, decidiu mancomunar-se com eles, atividade na qual Galdino foi muito útil, como intermediário.

Assim foi que, apesar de o ser vias tortas, Rui D’Alferes ficou rico. O grande azar do cego eram os ardis pensados e perpetrados por sua esposa Maria Da Luz ‘Mula’, mas disso ele nada soube até morrer, atropelado por um tílburi, na porta do seu armazém.

Maria Da Luz ‘Mula’ conheceu Rui Amancio ainda na Corte. Ele, muito prestativo, sempre se oferecia para levar a meretriz até o sobrado onde ela vivia, perto do Campo, tarde da noite, quando terminava a ‘viração’. Ela, uma teuto-portuguesinha faceira, neta de um suíço cristão novo, que fugira de Lisboa no tempo da inquisição (o Mula vinha de Müller, sobrenome suíço dela, mas o povo maldoso dizia que vinha mesmo era do fato de haver sempre alguém  montado em cima dela).

Tão prestativo Rui era que Maria ‘Mula’ acabou largando a vida ‘fácil’ para encarar a vida mais fácil ainda, de se casar com ele. Passou a ajudá-lo no armazém, controlando cada vintém que entrava dizendo que com o espírito regrado dela, o casal ficaria mais rico ainda. Só não controlava mesmo as recaídas de ‘mulher da vida’ que tinha, sempre que algum garanhão conhecido ou mais audacioso, se aproveitando que o ceguinho não percebia nada, passava a mão nela ou a atentava com olhares libidinosos. Foi numa dessas que conheceu Galdino o  negro de ganho que, alugado por Rui para ser caixeiro, acabou mesmo foi se encaixando nas graças dela, que parou de vez com as escapulidas com qualquer um, para ser só dele, do  Galdino (e do ceguinho, é claro).

Assim foram também fazendo filhos, que se juntaram aos filhos do ceguinho (os dois que saíram com o cabelo duro de Galdino, viviam com as cabeças raspadas). Cercavam o mais velho dos filhos do ceguinho de cuidados para ele não chamar a atenção do pai. Tinham medo dele perguntar em voz alta que história era aquela de haverem dois irmãos pretos e dois brancos na família, se Rui e Maria eram brancos de dar pena. Neste suspense, não viam a hora de fugir logo dali.

Galdino, partilhando com Maria ‘Mula’ a cama e a mesa, não demorou muito a descobrir que ela desviava dinheiro do marido. Ela não teve mesmo outra saída senão se acumpliciar com ele, para poder continuar a roubar o ceguinho em paz, de grão em grão.

O ceguinho no entanto, um belo dia, descobriu o sumiço do dinheiro pondo tudo a perder para os amantes. O único jeito foi Galdino fugir para não ser preso, assumindo sozinho a culpa pelo furto.

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Ao sugerir ao francês o destino de Pilar, Galdino pretendia aproveitar a viagem para se   reconciliar com Maria ‘Mula’ que, agora viúva, poderia recebê-lo, desta vez até como uma  espécie de marido de fato, franqueando-lhe, evidentemente, a parte que lhe cabia do furto já que ele, por conta da abolição eminente, em breve não seria mais um escravo fugido.

Mas antes disso tudo ser revelado, em viagem interior á dentro, junto com Galdino, Jean  Phillippe consegue recolher, principalmente no trecho entre Inhaúma, (quase na Corte) e Irajá e Pavuna (no limite com a região da baixada), uma série de flagrantes do êxodo de escravos para a Corte e do desmoronamento do sistema de trabalho escravo. Entre outros fatos – todos  inteiramente inventados – os seguintes podem ser inseridos no roteiro:

Uma família desgarrada (homem e esposa com filhos pequenos procurando outros dois filhos adolescentes) tenta se reestruturar no êxodo. Vão se encontrando durante o trajeto do filme.

Um dos filhos desgarrados integra a tropa de quilombolas que se verá no filme. Ao ser fotografado por Jean, o rapaz conta que fugiu e ingressou no quilombo depois que o filho do senhor o esbofeteou na frente da mãe que, ao defendê-lo, foi esbofeteada também. Ao ver a foto da família, mostrada por Galdino, o menino pousa a espingarda no chão e surpreso, chora.

Um soldado mulato, quase branco, integrante da tropa que patrulha a estrada em busca de quilombolas e bandoleiros, pergunta, discretamente, aos passantes vindos do Pilar, se  conhecem uma escrava chamada Altamira, que lhe disseram ser sua mãe e que seria escrava de uma das fazendas das redondezas.

Vez por outra grupo de soldados a cavalo persegue e subjuga um escravo entre os que seguem no êxodo, que acusam ser um quilombola. No trajeto do êxodo, escravos maltrapilhos,  perseguidos são vistos escondidos em grotões da estrada.

Grupo de escravos que carrega numa carroça legumes, aves e hortaliças, para uma fazenda próxima da estrada, é atacado por mulheres e crianças da turba faminta. O escravo que conduz a carroça espanta o cavalo com a carroça para os lados da fazenda. Cavalo desembestado tropeça e cai, carroça cai sobre ele que estrebucha e morre. Turba saqueia os legumes, as aves e as hortaliças.

Quase noite, grupo de escravos famintos destrincha o cavalo morto na estrada. Num acampamento noturno, com a carne do cavalo sendo assada, escravos dançam e cantam em roda em torno de uma fogueira.

Um escravo, excitado, conta para todos da roda, em detalhes e de modo engraçado, como perseguiu por semanas e, por fim, matou o capataz que o atormentara anos á fio.

Escravos que carregavam a carga saqueada choram, temendo ser castigados pelo senhor que dizem ser muito severo, por causa da perda dos víveres e a suposta fuga. Galdino e Jean Phillippe, sensibilizados, se comprometem então em seguir com os escravos até a fazenda para, como era prática na época, ‘apadrinhá-los’ (testemunhar a seu favor).

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Seguindo o grupo de escravos, Jean-Phillippe e Galdino chegam ás terras do fazendeiro  Merenciano D’Alencastro e Manso, o barão de Massarambá, um ferrenho escravista que  desconfia que os estranhos são ligados aos abolicionistas. Galdino o convencerá de que o francês trabalha na verdade para ’O Redemptor da Nação’ um jornal pró-escravista da Corte, envolvido numa campanha de apoio a fazendeiros que como Merenciano estão prestes a falir com a abolição.

Assim, Jean Phillippe conseguirá registrar o dia á dia da fazenda. Muitas fotos do fazendeiro, de sua família e de seus escravos serão produzidas nesta ocasião. Durante as longas seções de fotos, com imagens narradas em off, Merenciano contará para Jean Phillippe as melhores partes de seu passado, a partir de, entre outros, os dados seguintes que são, como os anteriores, inteiramente inventados:

Hoje já velho e acabado, o senhor de escravos, Merenciano Augusto D’Alencastro e Manso,  Português de 65 anos se tornou barão de Massarambá porque certa feita, há uns 20 anos atrás, mandou servir água fresca, bolo de milho, refresco de lima, café, pudim e outras iguarias, para a comitiva do Imperador que, por acaso, para descansar do sol inclemente, estacionou num caramanchão de suas terras, longe da casa grande (o imperador não quis ir até a casa, apesar da insistência de Merenciano). Na ocasião D. Pedro II foi recepcionado por um grupo de lindas mucamas, mandadas pelo fazendeiro num carro de boi enfeitado com folhas de palmeira, com um convite escrito num bilhete além de vistosas bandejas onde as escravas levavam os acepipes.

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Nos dias que se sucedem á chegada de Jean Phillippe e Galdino, engrossa o fluxo de escravos retirantes que passa pelas terras de Merenciano. Engrossam também os grupos de quilombolas, com a adesão de muitos escravos que não tem para onde ir. O clima da fazenda vai ficando, por isto, cada vez mais tenso. Os escravos de Merenciano se dividem entre os que querem ficar na fazenda e os que querem fugir para a Corte ou mesmo se juntar aos quilombolas.

Um grupo de Quilombolas, mancomunados com escravos aliados, invade e saqueia a fazenda de Merenciano, levando consigo tudo que julgam ser de valor, inclusive o equipamento e o   material fotográfico de Jean-Phillippe. A caixa com as chapas que registram esta parte da viagem vão junto no botim. A polícia só chegou no dia seguinte.

Jean-Phillippe e Galdino não tem outra alternativa senão seguir para a área onde os Quilombolas se homiziam, para negociar o resgate do material. Valem-se da experiência de Galdino que,  como todo ‘escravo de ganho’ que atuou na região, conhece as trilhas e os córregos que levam aos esconderijos dos quilombolas. São interceptados no caminho por sentinelas e levados  presos para a sede do quilombo, numa ilhota remota e quase inacessível, no centro do  manguezal.

Remexendo na bagagem de Jean-Phillippe os quilombolas já haviam encontrado as chapas  fotográficas. Fascinados com as imagens, já as haviam levado para Manelão Kakumbe, o líder do quilombo que, mais fascinado ainda, logo que fica sabendo que o branco de fala enrolada era o autor das imagens, exige como condição para libertá-los, que Jean-Phillippe continue com eles para registrar a vida do Quilombo.

Manelão Kakumbe e Galdino se reconhecem de antigas transações e acabam se tornando bons amigos. A história do chefe quilombola, vista também em imagens de flashback, será contada por ele mesmo em conversas com Galdino:

Manelão Kacumbe escravo fugido da fazenda vizinha a de Merenciano, era assim apelidado porque dançava muito bem nos cacumbis que rolavam na fazenda, no tempo em que era escravo.

Ferreiro muito experiente, Manelão chegou com 15 anos no Brasil, vindo de Angola. Filho de um outro ferreiro, lá na África, já chegou aqui sabendo um pouco do ofício, o que fez com que ele conseguisse, rapidamente uma boa ocupação na fazenda, gozando de relativa liberdade, indo e vindo entre a fazenda da qual era escravo e a outra, vizinha, pertencente ao Barão Merenciano, para o qual, sempre que seu senhor autorizava, também prestava serviços.

Foi num desses serviços para Merenciano que Manelão se feriu na mão. Na hora de testar a peça de ferro que consertara, um dos burros da parelha que puxaria o monjolo, aferroado por um marimbondo, assustado desembestou, fazendo a engrenagem do monjolo esmagar parte da mão de Manelão (que, para esconder a mão mutilada, usa uma espécie de luva feita de couro de lagarto).

O capataz Felisberto Munhambano, havia percebido que o marimbondo poderia picar o cavalo. Foi ele quem estalou o chicote para espantar o animal e livrá-lo da ferroada. Manelão, cego de dor com a picada, julgou que o capataz (com o qual já tinha uma rixa antiga) havia assustado o cavalo de propósito, para feri-lo.

Penou muito se restabelecendo. Amargou a perda do serviço especializado que fazia para encarar pilonagem de café e roçado, até conseguir fugir da fazenda.

A rixa de Manelão com Felisberto é por causa de Mariinha Crioula, que fora sua, por algum tempo, mas que, assediada por Felisberto com a promessa de ajudar a alforriá-la, acabou trocando Manelão pelo capataz.

Mariinha Crioula, 25 anos, mulata, é exímia bordadeira que vive dentro da casa grande como escrava doméstica, desde que nasceu. Muitos na fazenda afirmam, a boca miúda, que ela é filha do Barão Merenciano, porque, de outra maneira, ficaria difícil explicar como ela, tão voluntariosa e impertinente que é, consegue manter tantas regalias. A história dela com Manelão dá bem a medida de seu caráter:

Assim que ela se fez crescidinha, ali pelos 15 anos, se muito, dos homens da fazenda, o mais vistoso para ela foi logo sendo Manelão que, a esta altura, já tinha lá os seus 25. Além de vistoso, sendo o melhor ferreiro das redondezas, Manelão era o mais bem colocado escravo da fazenda. Pois foi justo por isso que ela deu seus olhares mais oferecidos, até fisgar o bruto.

Felisberto Munhambano apareceu logo depois, vindo da fazenda do Barão de Iguaçu. Era moreno feito um índio, cabelo liso escorrido, porque vinha da costa de Moçambique, onde existem negros assim, misturados com indianos. Foi comprado por alto preço (cerca de $800.000,00, ela pode ouvir, detrás de uma porta) e logo se viu, pelas botas que ele usava, pelo jeitão arrogante que tinha, que já viera acertado para ser feitor, capataz.

Ninguém sabe dizer ao certo se foi Felisberto que assediou Mariinha ou se foi ela que arrastou as asinhas para ele. O certo é que, logo ela enjoou de Manelão e se bandeou para o capataz, acabando por se amasiar com ele. Manelão não se conformou jamais. Achando que a culpa era mesmo do capataz, tomou uma pinimba sem tamanho dele que, por sua vez, com a autoridade que lhe conferia a função, não perdia tempo para espicaçar o ferreiro, não deixando passar um deslize sequer, se não houvesse deslize, Felisberto inventava, fazendo questão de contar para o Barão tudo de errado que Manelão fizesse, por menor que fosse o erro. Viviam assim, feito gato e rato mas, ainda sem o ódio que só explodiu no dia do acidente.

No dia em que decidiu fugir, Manelão ainda tentou levar Mariinha consigo mas ela não quis, de jeito nenhum. Além do mais, Felisberto atravessou o seu caminho. Antes de desistir dominado pela frustração e pelo ódio Manelão ainda tentou matar o capataz com um ancinho, mas Felisberto, apenas ferido, escapou.

Por tudo isto, o que Manelão Kacumbe mais queria agora era que Maríinha o visse assim, poderoso de novo, chefe quilombola com o baú cheio de ouro e de contos de réis. As placas de retrato de Jean Phillippe se prestavam muito bem pra isso. Pena que a cara dele, do comandante de tudo aquilo ali, não pudesse ser revelada jamais. Pudesse…

De tão feliz, seria até capaz de não matar Felisberto. Capava-o apenas e pronto, se dando por satisfeito.

————–

Precisando de material fotográfico sobressalente, Jean Phillippe consegue que Manelão  Kakumbe autorize a ida de Galdino á Nossa Senhora do Pilar para encomendar o que falta e esperar o material chegar da corte.

Em Pilar, Galdino encontra enfim Maria Mula que, já sem dinheiro algum, lhe implora para seguir para o quilombo com os filhos. Galdino diz que isto não é possível, de jeito nenhum, deixando a mulher injuriada. Jean Phillippe, na volta de Galdino que se mostra um eficiente assistente, faz muitas imagens do grupo de quilombolas, registrando até algumas incursões de guerrilha contra comerciantes inimigos. A amizade entre Galdino e Manelão Kacumbe acaba sendo de muita valia também neste caso.

Não se conformando com a recusa de Galdino em levá-la com ele e se aproveitando da comoção causada na cidade pela última incursão dos quilombolas, Maria ‘Mula’ resolve denunciar para a polícia a localização exata do pouso atual dos quilombolas, sobre o qual Galdino, troncho de bêbado da noitada de cama e vinho que tiveram em Pilar, contou e recontou com todos os detalhes.

Manelão Kakumbe e Galdino Cabinda, no alto do morrinho do qual se descortina a baixada  verde, tomada pelo mangue e a malha de córregos, discutem, acaloradamente.

Galdino diz que não. Manelão diz que sim, que vai retirar de dentro daquela caixa preta o registro do seu rosto, feito a sua revelia por Jean Phillippe. É que se a sua foto chega ás mãos da polícia, acaba o seu sossego de andar livre pela região, incógnito.

Manelão sacode a caixa como um louco e é repreendido por Galdino que cuida da tralha do francês como se fosse sua. É quando os tiros, a revoada de pássaros e uma lufada de fumaça subindo das árvores, fazem com que eles larguem a câmera ali mesmo, no chão para correr. Galdino, ciente de suas obrigações volta para pegar o material.

Descem o morro em desabalada carreira para se juntar ao resto do grupo onde já está Jean Phillippe. Entram nos botes escondidos na vegetação do mangue e partem em fuga, se  espalhando pelos córregos, soltando impropérios e respondendo ao fogo com tiros, flechas e lanças.

É que, em vez de o ser somente pela a polícia, o manguezal está sendo atacado, de surpresa, por tropas da Guarda nacional, vindas da Corte. Durante as escaramuças (uma desabalada fuga de botes cruzando córregos e sendo espingardeados), o bote onde estão Jean e Galdino, bate numa raiz do mangue e tomba, fora da vista dos soldados.

Meio mergulhados no limbo, Galdino e Jean conseguem salvar a caixa de fotos e o equipamento e deslizam na água em silêncio, quase sem respirar. Mas o escravo, que é quem carrega a caixa, acaba sendo surpreendido e golpeado na cabeça por um soldado de um grupo que estava emboscado num canto do mangue.

Dos males o pior pois, é aí que o infortúnio acontece: A caixa com todas as chapas fotográficas que registravam a viagem, cai e afunda na lama do fundo do pântano.

A maioria dos rebeldes escapa, desaparecendo rapidamente pelas curvas dos córregos. Misturado aos poucos negros que são capturados, Galdino, acusado de ser quilombola, é

levado para a Casa de Detenção da Corte de onde como sabemos, em depoimentos à polícia, nos dará conta de todos os traços da história.

História transcorrida, vida seguida. Também ferido nas escaramuças Jean-Phillippe só fica  sabendo da sorte de Galdino quando chega na Corte. Tendo que insistir muito com a polícia para testemunhar a favor dele, Jean só consegue libertá-lo alguns dias depois. É que, segundo a polícia, Galdino não estava colaborando muito com as investigações, que visavam descobrir a identidade do bandoleiro que, a depender dele, eles jamais sonhariam que se chamava Manelão Kakumbe.

A volta de Jean-Phillippe para a Corte e o reencontro com Galdino, se dará entre os dias 17 e 20 de maio de 1888 (quando ocorre uma grande festa popular na Corte descrita por Robert Conrad) A idéia é acabar o filme durante esta festa, a alegria das ruas contrastando com a desilusão de Jean-Phillippe (que voltará para a França com as mãos abanando) e Galdino (que ficará por aqui, ao Deus dará).

Maria ‘Mula’ – agora famosa também como alcaguete de quilombolas, com tantos fugitivos á solta pela região – ganhou dinheiro da ‘verba secreta’ da ‘4a seção’ da polícia e escafedeu-se no mundo mais os filhos (um dia, quem sabe, Galdino não encontra os que são dele por aí?)

O disparar de um flash de pólvora revelará o retrato de Galdino, Manelão e Jean Phillippe, tirado por Monsieur Dapaix, última imagem proposta para este filme eventual. Este retrato seria, portanto a única lembrança concreta, material, que ficaria para os personagens da emocionante aventura que teriam vivido e que, para todos os efeitos, pelo sim ou pelo não, termina mesmo por aqui.

E ‘c’est fini’.

O Kilombo, o angu e seus caroços


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Charge alemã de 1897. A legenda diz: "Uma tarde de domingo na África Ocidental" mostrando um mundo surreal nas colónias na África no qual os escravos são senhores. No anúncio: "Hoje:Grande banquete! 'Senhores como comida'!

Charge alemã de 1897. A legenda diz: "Uma tarde de domingo na África Ocidental" mostrando um mundo surreal nas colônias na África no qual os os negros são livres. No anúncio: "Hoje:Grande banquete! 'Senhores' (brancos) como comida'!

Remanescente de quilombo? Ih! É melhor esperar sentado!

Começo logo com uma paulada:

Com vocês Andressa Caldas e Luciana Garcia que em alentado texto no site Global.org fazem a introdução do nosso papo:

“… A Constituição Federal e a titulação das terras quilombolas

Como parte da própria reflexão sobre o Centenário da Abolição da Escravidão no Brasil, algumas reivindicações de organizações de movimentos negros e setores progressistas, levadas à Assembléia Constituinte de 1988, resultaram na aprovação de dispositivos constitucionais concebidos como formas de compensação e/ou reparação à opressão histórica sofrida.”

(Tá certo. Isto foi só uma ameaça. Agora é que vem a paulada):

Em 2001 Abdias do Nascimento, histórico e incansável líder do movimento negro do Brasil deu ao site da Rets (Rede Eletrônica do Terceiro Setor) a seguinte entrevista:

“Rets :

_Em 1980 o senhor apresentou sua tese sobre o quilombismo. O senhor ainda vê a forma de organização dos quilombos como um bom modelo de desenvolvimento para o país?

Abdias:

_Ainda vejo. Mas acho que eu apresentei o quilombismo de forma um pouco antecipada. A sociedade precisa ter um pouco mais de experiência para poder perceber a significação do quilombo e a prática do quilombismo. Muitas pessoas interessadas no assunto concordaram com as minhas teses, mas nenhuma delas procurou implementar uma organização como a que propus com o quilombismo.”

A tese de Abdias não é o foco de nossas elucubrações. Ela é polêmica e, de certo modo, datada, pois, estava visceralmente ancorada ainda na realidade política do negro brasileiro vista de forma bem ampla e pela ótica da luta contra os resquícios da Ditadura, já que era uma realidade – a do negro e a do racismo – que a anistia promulgada em 1979, na verdade só de leve se interessou em tocar.

O fato é que a conversa que vamos levar aqui com vocês, embora diga respeito à demandas pontuais criadas pela nova Constituição do Brasil (1988) para este assunto, apesar de toda a festa com que se costuma ‘enfeitar o pavão’ de nossa democratização, não sugere ainda um grande avanço na discussão desta questão, que já se arrasta desde 1888: A reparação dos malefícios e constrangimentos aos quais os escravos africanos sequestrados para o Brasil e  seus milhões de descendentes foram – e continuam sendo –  submetidos há quase quatro séculos.

Sabem como é, certo? O Brasil elitista é um racista aplicado e muito, mas muito renitente mesmo. Pentacampeão em exclusão social.

Entre todos os reparos que com certeza poderemos fazer numa inevitável comparação entre os dois momentos históricos – o do lançamento da quase comunista tese ‘Quilombismo de Abdias e o nosso hoje em dia cheio de remanescencias– uma triste constatação: Reduziu-se de forma drástica o protagonismo e a combatividade das lideranças do Movimento Negro no Brasil, aquelas que poderiam estar na vanguarda das reivindicações atuais. O lado constrangedor deste protagonismo esvaziado e subalterno, infelizmente está visível na cooptação de muitos, na corrupção de alguns e no baixo nível político-ideológico da maioria.

Talvez seja esta conjuntura constrangedora – franqueza dói mas não mata – a principal razão para que uma causa tão importante e particular como a luta pela posse da terra por parte de comunidades remanescentes de quilombos, esteja tão diluída em pendengas paralisantes, envolta nesta rede de ambiguidades e incongruências tão flagrantes, sendo muitas vezes desvirtuada, atrelada a causas e interesses outros, como um filho de pai desconhecido.

(E filho ‘feio’, como todo mundo sabe, não tem pai).

Dito isto, podemos relaxar um pouco. O papo agora pode ser mais ameno sim, já que o mundo não foi feito num só dia.

Ki-lombo= Kilombo= Quilombo = “Fortaleza

(literalmente em Kimbundo, uma das línguas principais faladas em Angola)

O termo – todo mundo por aqui acha – viria do nome dado ao complexo de comunidades de escravos rebelados conhecido como Quilombo de Palmares, nas imediações de Pernambuco nos primórdios de nossa colonização. Zumbi de Palmares lembram?

(Mas, ‘achismo’ como se vê, não é exatamente cultura.)

Pois neste caso então, saiba quem ainda não souber que a palavra vem de um contexto histórico bem mais distante e complexo, bem menos chegado ao ‘chavão’ (e estas sutis filigranas historiográficas podem mudar tudo em nossa maneira de entender o conceito). Mais do que se pensa, pelo menos.

Kilombo na verdade, com o estrito sentido de ‘fortaleza rebelde’ tudo indica, é uma palavra transposta para a realidade colonial brasileira, depois de ser adotada como jargão militar pelo exército português durante sua guerra suja contra os nacionalistas angolanos comandados pela rainha Nzinga Mbandi e outros sobas, reis ou mandatários locais ali por volta de 1630/40.

O que isto tem a ver? Tudo. E com muita coisa que nos diz respeito. É que existe uma questão muito cabeluda rolando no Brasil atual envolvendo o conceito ‘Quilombo’, no âmbito da regulamentação de leis que embasarão políticas públicas inspiradas na constituição de 1988, visando garantir a posse da terra, por meio de títulos de propriedade ao que se convencionou chamar de ‘comunidades remanescentes de quilombos’.

(… Mas espera aí… _ “que lombo!”_ não se refere à bela bunda de uma mulata bem gostosa?)

Ui!…Calma, calma. Ignorância racista também tem limite (embora não seja nada mal que haja ignorância para que a modesta sabedoria de alguns possa dar o ar de sua graça).

Mas ok, ok. Ninguém nasce sabendo. Sou paciente e dou outro exemplo para os mais leigos que eu:

Quilombo para iniciantes: Princípios ativos e componentes lógicos

(Leia e entenda bem a bula antes de usar)

Quando levamos uma paulada na cabeça, qual é o nome que damos àquele caroço doído que nos cresce na testa? (Não. Chifre não. Sem sacanagem que estou falando sério)

Anh? Calombo? Isto! Ka-lombo (olha…Esta foi uma sacação ‘newtoniana’, não foi não?). Racionem comigo então: Como ‘Ka’ em kimbundo é diminutivo, Lombo pode significar então… ‘protuberancia, correto? Pequena protuberância (se traduzirmos bunda como ‘lombo’ a dita significaria uma bela e média …tá, vocês já entenderam.)

Kilombo, Kalombo, Lombo e Bunda: Um contexto semântico bem afinado com o mais puro vernáculo angolano.

Daí Kilombo (Ki, assim como Ka é prefixo em kimbundo) pode ficar sendo, no dizer de um colonialista lusitano pelo menos, ‘fortaleza de pretos construída num lugar alto’.

(Deve ser, logicamente por isto que os quilombos no Brasil, pelo menos os mais perenes, eram feitos em serras bem altas. Reminiscências culturais, inteligência estratégica, guerreira trazida de lá dos cafundós de Angola.)

Viram só como são as coisas? Uma palavra não é apenas um som qualquer, um amontoado de fonemas. As palavras carregam muita história, sentidos. Saber valer-se do que elas tem para nos contar sobre o passado e o presente, costuma ajudar muito a gente a construir um bom futuro.

_E olha a Etimologia aí, gente!

Logo se vê, portanto, que não é nada desimportante se bater na tecla da semântica neste caso, não é não?  Matando a semântica original se mata o sentido, a alma da palavra que passa a significar… nada. Afinal de contas, nunca é demais repetir: Jesus não é Genésio. Berimbau não é gaita.

(E você é tão bobinho a ponto de acreditar mesmo que seja possível transformar em lei conceitos vagos e desprovidos de sentido?)

Então vamos lá! Todos juntos, comigo:

_”Ressemantizar é o cacete! Viva a cultura negra nacional!”

Pois não é isto que parece estar acontecendo neste caso? Todo mundo se acha careca de saber que ‘Quilombo‘ de algum modo hoje em dia é isto aí: Um território (um lote de terra que seja) ocupado por descendentes de escravos que, por conta de históricas necessidades de reparação em vias (?) de serem reconhecidas (a escravidão foi um regime juridicamente condenável, certo?), reivindicam, diretamente ou com o auxílio de intermediários, a posse das terras que ocupam.

O resto é o resto. Deveria ser motivo para outras reivindicações.

Mas é aquela história que todo mundo também já  sabe: Enquanto o douto elabora conceitos o leigo palpita, especula, mas ambos, ao fim de todas as contas não vão poder mesmo falar mais do que… ‘em tese’.

Vamos então abordar este assunto assim-assim, valeu? Sem delírios sabichões,  na base do mais modesto feijão com arroz, pisando em ovos alheios, se necessário, mas com todo carinho, sentindo na pele o drama da questão. Sem ser louco a ponto de me achar um Deus da verdade é, pois, em tese, em tese, que vos digo:

Histórico das mumunhas jurídicas sobre o tema Quilombo hoje

(Colocando alguns  pingos nos ‘ís’ )

E são ainda Andressa Caldas e Luciana Garcia que se referem,  claramente ao que para nós se transformou no caroço (ou… calombo? Êpa!De novo? ) crucial deste angu:

“…Introdução

“…No Brasil, existem mais de 2.200 comunidades afro-descendentes quilombolas, totalizando cerca de 2.5 milhões de pessoas… No que concerne à titulação dos territórios quilombolas, recente relatório independente da Comissão Pró-Índio de São Paulo (CPISP),”Ações Judiciais e Terras de Quilombo”, revela que até agosto de 2006 havia “310 processos de regularização de terras de quilombo perante o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária.

O levantamento da CPI-SP revela que 59% dos 310 processos abertos recebeu apenas um número de protocolo no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). Ou seja, em 182 processos nenhuma medida administrativa foi tomada no sentido de regularizar o território… “

…” A ressemantização do termo quilombo e sua inserção na Constituição Federal de 1988 vieram a traduzir os princípios de igualdade e cidadania negados aos afrodescendentes correspondendo, a cada um deles, os respectivos dispositivos legais:

i) Quilombo como direito à terra, enquanto suporte de residência e sustentabilidade, há muito almejadas, nas diversas unidades de agregação das famílias e núcleos populacionais compostos majoritariamente, mas não exclusivamente de afrodescendentes – CF/88 Artigo 68 do ADCT – sobre ´remanescentes das comunidades de quilombos; Quilombo como um conjunto de ações em políticas públicas e ampliação de cidadania, entendidas em suas várias dimensões – CF/88 – título I direitos e garantias fundamentais, título II, cap. II – dos direitos sociais;

ii) Quilombo como um conjunto de ações de proteção às manifestações culturais específicas – CF/88 – artigos 214 e 215 sobre patrimônio cultural brasileiro.

(Épa! É isto mesmo? O dispositivo se refere a manifestações culturais… específicas? Bem, vamos ter que cobrar que esta especificidade seja explicitada mais tarde.)

Mas o enunciado do dispositivo, mesmo sem explicitar nada da questão, por ele mesmo proposta, ainda insiste:

“…Assim, o artigo 68 dos Atos das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Federal de 1988 (ADCT) estabeleceu que:

“Art. 68. Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos.”

Ao que comentamos aqui (tentando imitar aquela ‘baba de quiabo’ dos advogados):

Ora, o que se chamou neste caso de ‘ressemantização’ parece com tudo menos uma alteração da semântica do que quer que seja. Fica claro que se tentou, tão somente aplicar o nome genérico de Quilombo (e, portanto banalizando o sentido estrito do conceito) a uma outra figura jurídica, inclusive já existente, qual seja o ‘direito genérico das populações afro descendentes (e não exatamente quilombo-descendentes no sentido lato) à posse da terra.

Convenhamos que este direito à posse da terra é por demais genérico e redundante. Que se danem os regulamentadores! (aqueles que vão ter que dar seu jeito para dar nomes aos bois.)_ Parece nos dizer, curta e grossa, a nossa ‘boazinha’ constituição de 1988, certo?

Em suma, com a nítida finalidade de ampliar o leque dos beneficiários (quem pensou esta estratégia tão ingênua?), não se mudou apenas o nome da coisa, mudou-se a coisa de nome, o que é muito diferente e não significa, de modo algum ‘ressemantização’.

Ressemantizar’ seria adaptar o conceito à nossa época, sem desconsiderar (ou ‘ressignificar’ aleatoriamente) aspectos definidores – como a cultura ‘tradicional’ destes segmentos, por exemplo. Afinal, o dispositivo determina ou não determina a defesa de manifestações culturais… específicas?

Ao que nos parece, da forma como está proposta no dispositivo – que se pretende um instrumento legal – a medida acaba não tendo aplicabilidade jurídica especial alguma, sendo facilmente desqualificada por qualquer boa banca de advogados inimigos da causa, já que nele, no dispositivo, poderiam estar abrigados todos outros segmentos… ‘étnicos’ (o que, aliás, o próprio dispositivo admite em seu texto ser um critério vago), não conferindo à medida força alguma para fazer valer os direitos deste ou de qualquer grupo…’étnico’ em particular.

Nas barras frias de um tribunal em suma, baseado apenas em semelhantes argumentos tão pouco jurisprudenciais, um grupo ‘majoritariamente’ formado por quilombolas remanescentes, não teria, realmente chance alguma.

_”Terra para negros ex-quilombolas!” _ Será preciso dizer, com todas as letras, de forma cabal, com palavras passíveis de serem compreendidas, comprovadas e transformadas em lei.

Ora, é claro que esta conversinha de ‘ressemantizar’, ‘ressignificar’ tudo – por mais bem intencionada que seja – só podia dar no que deu.

Quem dá nome aos bois?

“Quem pariu mateus que o embalance”

É fácil falar, criticar, cobrar assim em cima deste muro de lamentações. Eu sei também que é preciso ir devagar com este andor. As intenções da maioria dos envolvidos são boas e as suscetibilidades são frágeis demais diante de críticas mais ácidas. Todo mundo quer ser o santo padroeiro desta história.

Sabem vocês, contudo, tanto quanto eu, que das melhores intenções está lotado inferno.

Porque esta questão não anda? Será que está planejada para não andar mesmo? Culpa desta desmobilização impressionante do outrora combativo Movimento Negro do Brasil, que teria emprestado para o Movimento Social como um todo, tornando genérica, esta bandeira que lhe era tão cara e exclusiva?

Seria culpa dos advogados, juízes e legisladores em geral que não conseguem entender a necessidade de se associar Justiça Social com Diversidade étnica? Ou seria culpa dos técnicos, antropólogos e historiadores, envolvidos em bizantinas questões acadêmico-conceituais que os levam a ideologizar, questionar  e ‘ressignificar’ o conceito de tudo nem sempre com as mais claras intenções?

Como nos diz um entendido sobre o tema:

“_ …esse assunto é o maior tabu entre os antropólogos. Existe digamos um código secreto, um espírito corporativo, uma pretensão de reserva de mercado para aqueles que lidam com a tal antropologia aplicada…

Ih! sai de baixo! Mais caroço à vista.

…Bem, mas isto é assunto para outras mangas num post que faremos logo a seguir (leia aqui o POST #02). Enquanto isto vão pensando aí que a pobre da bezerra ainda não morreu.

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(Em tempo: A palavra angu também vem de algum modo do Kimbundo, sabiam? Penso que vem de ‘iangu’ que quer dizer capim – ou couve picadinha – aquela que, além do caroço, engrossava o dito cujo na cuia do escravo. O engraçado é que a palavra não vem diretamente de ‘fubá’ não, embora ‘fubá’ também venha do kimbundo ‘fuba’, farinha de milho.

Recomendo contudo muito cuidado com os dicionários. Kalombo, por exemplo quer dizer hoje em Angola, literalmente, ‘mulher infecunda‘. A língua é a mãe de tudo, ou seja: Tem gente aí que precisa rever, totalmente os seus conceitos etimológicos… e ideológicos com urgencia. )

Ressignificar-se, diria.

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Depois o papo segue – e esquenta mais – Achei por bem linkar aqui a matéria fedida da revista ‘Veja já que os leitores mais ligados ao tema vão estrilar e com razão.

Calma rapaziada. Uma coisa a gente precisa reconhecer: para um oportunista agir é necessário que alguém crie a oportunidade, certo?

Ajoelhou? Tem que rezar.

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Fui mas volto já.

Spírito Santo
Maio 2010

A incrível guerra de Hans


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Hans Massaquoi entre colegas de turma em Hamburgo 1939

Hans Massaquoi entre colegas de turma em Hamburgo

A suástica bastarda e outras saias justas nazi-racistas

Você já ouviu falar num cara chamado Hans Jürgen Massaquoi? Nem eu tampouco. Coisa impressionante! Tantos anos cavucando estas coisas de negro e nunca ouvi falar desta história inacreditável. Chego a ela depois de esbarrar, quase sem querer nesta incrível e inusitada foto aí de cima: Um negrinho fofo, impávido e impoluto, aparentemente cheio de orgulho em ser fotografado com uma suástica no peito.

_”Was ist das? GroBe Skandal! Ein Neger Nazi? Was ist los? Nein! Nein! Nein! _Diria o Adolf, apoplético, desmunhecando e batendo os pézinhos.

A história oficial pouco se ateve sobre isto ainda (daí a nossa ignorância a respeito ser santa, certo?). No Brasil então nem se fala. Pelo que me consta, ao que parece estes tão interessantes e  subterrâneos episódios ocorridos durante a segunda guerra mundial nunca estiveram no campo de interesse de nossos moderninhos formadores de opinião. Vai saber porque?

“Negro, negro! Limpador de chaminé!”

(Ofensa racista popular na Alemanha dos anos 30/40)

“Mamãe, eu não sou ariano?” – perguntava Hans a sua mãe, aos oito anos de idade depois de ter sido proibido de brincar com as outras crianças na escola.”

Os fragmentos desta incrível saga de descendentes de africanos vivendo – e o que é mais impressionante – sobrevivendo, num país com leis racistas tão agressivas, às vezes  nos lembram muito (guardadas as devidas proporções, é claro) a mesma saga dos descendentes de africanos no Brasil.

(O que é assaz curioso porque o Brasil, para uns e outros nunca foi um país racista.)

Pois esta é a mais pura e verdadeira história de Hans Jürgen Massaquoi, cujos trechos extraídos de uma resenha de seu livro autobiográficoNeger, neger, schornsteinfeger!” (‘Destined to witness” na versão norte americana) disponibilizamos aqui. Está do mesmo modo disponível na rede trechos da versão do livro para o cinema, num filme realizado na Alemanha por Jörg Grünler em 2006.

Puxando o fio desta meada podemos descortinar um vasto mundo de iniqüidades e injustiças há muito sabidas, quando associadas a população judia na Alemanha nazista, mas que nunca havíamos, nem de longe, imaginado terem sido os mesmos infortúnios sofridos por milhares de pessoas negras engolfadas pela fervura daquele caldeirão de sandices.

Negros na Alemanha nazista? Nem pensar! Num ou noutro filme de um Fassbinder da vida, talvez, mas quase sempre soldados negros americanos, ja no finzinho da guerra, transando com uma loura pálida, de boca carnuda com baton carmim, numa cama amarfanhada na penumbra de algum conjugado de Berlim.

Nada de terror. Só tesão, sexo selvagem e lágrimas de despedida.

Talvez seja até por isto – o inusitado de uma situação tão incomum – que as histórias sobre negros na Alemanha nazista tenham se tornado, estranhamente tão obscuras quanto mal contadas.

Mais são muitas as histórias. Candentes, impressionantes, com ganchos nos levando a associá-las com outras tantas experiências individuais neste vasto contexto trágico da diáspora africana neste nosso mundo muito mais do Cão do que de Deus.

Algumas outras partes desta intrigante meada estamos também disponibilizando abaixo, em rápidas pinceladas, só para instigá-los, afim de que possamos juntos ir futucando e esmiuçando mais e mais (o que de nossa parte, dada a eletrizante e inusitada importância dos fatos aqui revelados,  faremos com toda certeza em posts a seguir.)

É só esperar para ler.

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Os trechos da resenha do livro de Massaquoi e demais informações sobre a vida de negros na Alemanha nazista contidos neste post foram extraídas do jornal El País e do site da Deuscht welle, traduzidos livremente por este vosso criado.

A guerra íntima de Bertha e Hans

Hans Jürgen Massaquoi nasceu em 19 de janeiro de 1926 em Hamburgo, filho de mãe alemã e pai liberiano. Tinha seis anos quando Hitler chegou ao poder. O pai de Hans era filho do cônsul da Libéria na Alemanha. Sua mãe, Bertha Baetz, era uma enfermeira de classe média baixa. O rico filho do diplomata africano interessou-se pela bela jovem ao vê-la em uma festa, e dessa relação nasceu o pequeno Hans.

Seu pai nunca se preocupou muito com ele e nunca lhe deu muita atenção, já que nessa época era um estudante universitário em Dublin. Mas seu refinado avô (o rei Momulu IV rei dos Vai, uma etnia liberiana), o primeiro diplomata africano na Europa, o acolheu em seu palacete de Hamburgo junto a seus tios e primos africanos. O patriarca se orgulhava de ter um neto alemão que falava o idioma local com perfeição.

Bertha com o filho Hans, tendo ao lado a foto do pai

Bertha com o filho Hans, tendo ao lado a foto do pai

“Eu associava a pele negra com superioridade, porque nossos serventes eram brancos” – diz Hans em sua autobiografia.

Seu destino mudou drasticamente quando o Führer assumiu o poder e expulsou os diplomatas africanos da Alemanha. Todo o clã Massaquoi regressou a seu país, Libéria, mas Bertha, a mãe de Hans decidiu ficar em sua pátria, porque o menino era doente e temia que viajando à África ele poderia morrer já que naquela época -e até hoje em dia- a África era um continente assolado pela malária. Praticamente sozinha, Bertha retomou seu trabalho de enfermeira e mudou-se com seu filho para a zona operária de Hamburgo.

Eu, que tinha aprendido a ver vantagens em meus traços raciais, de repente me vi obrigado a considerá-los um inconveniente”.

No início, nem ele nem sua mãe consideraram como uma ameaça à ascensão do nazismo. Era algo que não os preocupava, afinal eles eram alemães.

“Assim como toda criança, eu estava fascinado pela parafernália nazista. Os uniformes, as bandeiras e os desfiles me deixavam encantado. Para mim, para meus colegas, Hitler estava envolvido nessa auréola divina que lhe protegia de qualquer crítica”.

As coisas foram mudando pouco a pouco. Primeiro foram os letreiros afixados nos balanços  de praça proibindo crianças não-arianas de brincar. Depois, um misterioso desaparecimento de seus professores que eram judeus. Depois sua mãe foi despedida de seu trabalho “por ter concebido o filho de um africano”.

“Uma vez que as absurdas leis raciais entraram em vigor, ficou claro que minha vida ia se tornar muito difícil. Mas o amor e a proteção de minha mãe me deram a sustentação necessária”.

Em seu livro autobiográfico, Hans conta com detalhes as tentativas que fez para ser considerado um alemão comum. A cada vez que era recusado reagia negando o evidente, e esta situação o levaria ao absurdo de querer fazer parte das Hitlerjugend, as Juventudes hitleristas, uma mistura de tropa de escoteiros com organização paramilitar.

No dia que descobriu que lhe negaram a entrada exclusivamente por sua cor de pele, Hans abriu os olhos e começou a entender do que se tratava o nazismo. A partir daquele momento abandonou o desejo de ser aceito pelos nazistas e libertou-se da dependência afetiva de Hitler como onipotente figura paternal.

Hans com a mãe e primas

Ao começar a guerra, apesar de ser “indigno de usar o uniforme alemão”, esteve a ponto de se alistar no exército. Só não foi para a frente de batalha por ser considerado uma pessoa sem importância, o que agravou os seus problemas emocionais, já que sendo um homem jovem e sadio se envergonhava de não estar combatendo junto a seus compatriotas.

Foi enquanto trabalhava em uma fábrica de munição que Hans pode observar que a máquina de guerra alemã começava ruir. Em 1943, os aliados, com a Operação Gomorra, bombardearam intensamente Hamburgo durante dez dias, até deixar a cidade em escombros, onde morreram mais de 40 mil pessoas.

Hans estava tão deprimido que não fazia diferença morrer nas mãos da Gestapo ou do bombardeio aliado. De toda forma, a presença da Gestapo incomodou-o por muito tempo ainda e teve que conviver sob a constante ameaça de sua presença e interrogatórios. Desprezado por todos, era considerado um cidadão de segunda classe, a tal ponto que um dia uma multidão quis linchá-lo achando que era um piloto aliado.

O fim da guerra com a tomada de Hamburgo pelos britânicos significou também uma nova vida para Hans. Pela primeira vez em sua vida não sentia medo. O medo de ser humilhado, ridiculizado, degradado, a ver-se privado de sua dignidade.

Após a Segunda Guerra Mundial sobreviveu como saxofonista de jazz, depois emigrou a Libéria, o país de seu pai, e por fim ancorou nos Estados Unidos, país que o acolheu como cidadão e onde foi recrutado como pára-quedista e enviado à Guerra da Coréia durante dois anos.

Graças aos benefícios dos veteranos de guerra ingressou na Universidade de Illinois, onde estudou jornalismo, carreira à qual dedicou mais de quatro décadas vindo a se aposentar quando era diretor da famosa revista Ebony.

Ao final e apesar de tudo há de se considerar que o destino foi bastante benevolente com Hans Massaquoi. Olhando para o passado e recordando o horror também sofrido por outras inocentes etnias, ele pelo menos sobreviveu para contar a sua história.”

Hans Mossaquoi, como diretor da revista afro-americana 'Ebony'

Hans Mossaquoi, como diretor da revista afro-americana ‘Ebony’

Veja trailer do filme ‘Neger, neger, schornsteinfeger!” aqui

Spírito Santo
Maio 2010

A ciência da porta na cara


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Svante Pääbo, à direita, e equipe. Os sequenciadores do genoma do homem de neandertal – foto: cortesia Instituto Max-Planck (com brincadeirinha do autor)

A peleja do jornalista – quase ruivo – contra o aposentado negão

Uma tragédia do ‘racismo à brasileira’

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(Eu, na porta do banco, atrasadão)

_ Não. Não tenho nada de metálico aqui na bolsa não, porque, não pode?)

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O papo é seguinte:

“…O sequenciamento do genoma do homem de Neandertal anunciado nesta quinta-feira por uma equipe internacional de cientistas revelou cruzamentos com o humano moderno e traz uma nova luz sobre as características genéticas humanas únicas na evolução..”.

Agora leia – ou veja – a maliciosa matéria do jornal hoje da TV Globo (dirigido pelo neo- racista Ali Kamel) Se você não for um racista enrustido e não tiver sangue de barata, garanto que se sentirá tão revoltado quanto eu.

(E não precisa nem ser barrado na porta do banco onde mantém a sua conta)

Siga-me então. Vamos analisar friamente a notícia real, sem o enfoque tendencioso de Kamel & Cia:

“…A proporção de material genético herdado dos neandertals é de cerca de 1 a 4 por cento. É uma proporção pequena, mas muito real de ancestralidade nos não africanos (grifos meus) hoje”, disse a jornalistas por telefone David Reich, da Escola de Medicina de Harvard, em Boston, que participou do estudo.”

Deixa eu ver se entendi (e atenção para as entrelinhas abaixo, pois nelas é que está o cerne das intenções desta nova tese algo geneticista ou… eugenista, sei lá):

A tese original diz: O homem (ou a mulher, no caso) de Neandertal teve relações sexuais com o homo sapiens. Isto gerou uma carga de 1% a 4 % do DNA do Neandertal no genoma do homem moderno. Sacaram? Então podemos seguir no debate, ok?

(E eu ainda na porta do banco, duro, puto e constrangido

_Não sacaneia!Será que aliança de casado faz a porta apitar? Moedas?Tem um clips no meu bolso. Será que isto apita?)

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Ora, se o neandertal é um ‘homem’ estamos falando então do cruzamento entre duas espécies de seres humanos, certo? Um supostamente originado na África outro supostamente originado na Europa. E daí? Até aí morreu Neves.

No entanto, dita assim, bombasticamente a tese passa a ter um forte sintoma de ser dissimuladamente racista (ou está sendo deliberadamente distorcida na imprensa – como é o caso flagrante da TV Globo de Ali Kamel – para este fim), ou seja, parece que para alguns insanos racistas (como os deste link) a notícia serve para desmontar na cabeça dos mais desavisados, a tese científica que provou originalidade do genoma africano na raça humana. Sugiro que a notícia seja vista então com certas ressalvas, só por conta deste viés escorregadio.

Ressalvemos pois:

Para início de conversa não é preciso ser cientista para se saber que esta possibilidade (a do entre curso sexual entre mulheres ou homens oriundos da África com seres algo semelhantes oriundos da Europa) é perfeitamente factível. Aliás, estudos muito recorrentes e pertinentes já aludiram antes a possibilidade cientificamente provável do homem de Neandertal, o Homo Erectus e o homo Sapiens terem tido um período de certa convivência, uma certa contemporaneidade com evidente entre curso sexual entre uns e outros.

(Vale dizer para não perder o ensejo da graça que a transa sempre foi livre entre seres da mesma –ou quase- espécie – humana, certo? – porque esta é a lei mais básica da natureza. Vamos combinar inclusive que chega até a ser estranho que só tenham descoberto isto agora logo, também aí nenhuma novidade).

(E eu lá. Barrado , morto de vergonha. Uma fila enorme atrás de mim)

_ Abre esta porta, porra! Que trava automática é o cacete!Tô vendo que é o guarda ali que está travando!

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O que não está sendo considerado ou dito, contudo – e aí está a capciosidade da notícia tornada sem graça alguma pela pauta boba de Kamel & Cia.- é que o que as teorias que embasam o surgimento do homem na África dizem respeito a fatos de nossa evolução ocorridos milhares de anos antes deste provável entrecurso sexual…‘inter racial’.

(E eu, voltando a dar graça à tese, colocaria até o Homo Erectus nesta história, não exatamente como – se me permitem – numa suruba a três, mas como uma possibilidade não menos remota de que outras espécies poderiam ter também existido e se entrecruzado numa boa. Vamos botar então um pouquinho do DNA do coitado do Erectus também neste nosso genoma, tá certo? Por que não?)

Ou seja (agora sem sacanagem ou brincadeira) uma coisa – a origem remota do homem moderno ser a África – não tem nada a ver com a outra – a existência alegada de que houve entre curso sexual entre homens de diferentes origens planetárias em certo ponto de nossa evolução.

Ponto.

(E aqui, mesmo sendo uma afirmação risível, repetimos a açodada interpretação pautada pelos jornais da Rede Globo de hoje – jornais como sabemos, dirigidos pelo indefectível racista de plantão Ali Kamel – leiam atentos às segundas intenções, por favor):

Cena na TV: Repórter do jornal ‘Hoje’, todo orgulhoso (não sei de que) forçando o tom da notícia numa ênfase totalmente fora de propósito:

_ …”Portanto, só não tem DNA de neandertal quem é africano puro. O resto, segundo os cientistas, é sim parente dessa espécie que ganhou fama de ser meio “cabeça dura”. Os cabelos ruivos, por exemplo, são considerados uma das heranças dos neanderthais…”

Oh! Mas que jóia da manipulação de uma notícia! Em que universidade se ensina este tipo de jornalismo tão dissimulativo, como se dizia antigamente…marron? Na PUC do Rio?

Alguém aí avise, por favor a este pessoal que faz a pauta dos jornais da TV Globo que os homens de neandertais são considerados sim pelos cientistas ‘burros’, ‘ignorantes’, ‘desprovidos de inteligência’  e não, de modo algum, ‘cabeças duras’, que é uma outra coisa, impossível de ser atestada cientificamente, querendo dizer algo como ‘teimosos’, ‘desligados’. Porque esta proteção com os neandertais?

Sim, os antepassados diretos dos europeus modernos são considerados pela ciência menos inteligentes do que seus semelhantes homo sapiens, que viveram, originalmente na África. Mas isto é muito relativo e, mesmo sendo uma fato inquestionável (ao menos por enquanto) não quer dizer, absolutamente que uns sejam inferiores aos outros.

(Ah…este papo da natureza relativa da cultura humana é velho pra caramba, não é não?)

Somos todos tanto Neandertais quanto Erectus e Sapiens, ora bolas! Somos parentes e é por isto que somos da mesma…espécie (cansativo explicar estas baboseiras óbvias, sabiam?)

E daí? Isto dói em vocês (pensando neles, os daquela fila do banco)? A esta altura da história do Brasil vocês ainda se julgam assim tão… europeus? Que doença, gente! Que recalque!Que paranoia estúpida!

(E, cá entre nós, este negócio de ressaltar tão ‘babaovisticamente’ os possíveis ‘cabelos ruivos’ dos caras então…(ui!). Esta doeu no meu fígado)

(Não riam agora. Ainda não)

(E  eu ali, travado, suando bílis. Os brancos lá, disfarçando, olhando para os lados)

Então ta certo. Sair da fila eu não saio. Tiro o cinto, tiro a prótese dentária da boca, tiro cadarço do tênis…

——————

Traduzindo (se é que é necessário) a distorcida pauta intencional da equipe de Kamel. O que eles querem subliminarmente nos enfiar guela abaixo é o seguinte:

Ninguém (sugerindo que aqui no Brasil também, é claro) poderia reivindicar ascendência ‘puramente’ negra já que não existe esta ‘pureza’ racial desde o tempo das cavernas. A existência de DNA dos caucasianos homens de neandental (subrepticiamente o padrão eugênico do ‘homo arianus’ de Kamel & Cia., a julgar pela euforia com que a notícia foi dada) provaria isto.

(Observem também que a matéria não repete a taxa mínima deste DNA quase residual existente no genoma do neandertal sequenciado. Na verdade a pauta, sutilmente enfatiza exagerando, os 4%  e omitindo, cuidadosamente a faixa mínima e irrisória de 1%, que é perto do nada)

Gracinhas! O que torna mais risível ainda a tendenciosa pauta, contudo é que, se invertermos a ordem dos produtos (da tese no caso) poderíamos afirmar, do mesmo jeito – e sem mentir em uma vírgula sequer – o seguinte:

_ CIENTISTAS DESCOBREM QUE O HOMEM MODERNO TEM  DE 96 A 99 POR CENTO DO GENOMA DO HOMEM SAPIENS (que como se sabe é originário da África)!

_ POR CONSEGUINTE, A MESMA DESCOBERTA DÁ CONTA DE QUE TEMOS… APENAS… DE 1 A 4 POR CENTO DO GENOMA DO HOMEM DE NEANDERTAL (que é originário da Europa)!

Viram? Racismo não tem sentido. Eu já disse: Somos todos negões!

(Pronto. Podem rir agora)

Kamel & Cia. Apelam, é o que se vê, para o mais puro dos sofismas, como sempre fizeram (eles, os de O’ Globo já tentaram desqualificar a negritude evidente de Pelé e de nossa campeã olímpica Daiane dos Santos com este papo, lembram? Elizeu Fagundes de Carvalho, um biólogo da Uerj é o ‘cientista’ de plantão do grupo de Kamel & Cia., responsável pela difusão destas teses ‘científicas’ sofismáticas, eugenistas e estapafúrdias, dignas de um Mengele às avessas).

Invertem, distorcem o sentido da tese dos cientistas europeus e confundem a população, provavelmente no intuito de atrapalhar a presente discussão sobre cotas raciais e ações afirmativas para negros no Brasil. Jornalismo – e ciência – sem ética de gente  (com o perdão da franqueza) totalmente indecente e covarde porque não nos dá nem a chance, o direito de resposta para refutá-los, do alto que estão na cúpula de uma das maiores empresas jornalísticas do país.

O que me espanta na cara de pau deles é que a questão na verdade é por demais óbvia e nada, tem de surpreendente, pois há uma diferença de milhares de anos entre o surgimento efetivo do homem (que teve que se dar, primeiramente em algum lugar, específico, que se provou ser a África) e a sua dispersão pelo resto do mundo o que, muito provavelmente, gerou espécies subsequentes, variantes que se tornaram diferentes entre si por conta de fatores ligados a sucessivas adaptações ao meio ambiente. Qualquer ginasiano devia saber disto.

Darwin, velho de guerra – salvo as revisões dos ‘criacionistas’ e outras que não conheço – provou como isto se deu, de forma bem clara e cabal.

Aliás, causa enorme estranheza esta aparente insistência de certas correntes ideológicas e/ou pseudo cientificas na tentativa de legitimar a negação teórica da origem africana dos seres humanos. Qual é o problema? Porque esta aversão a sermos negros? Nós nem sabemos ainda se estes nossos antepassados foram, realmente negros como os africanos atuais. E se a a ciência um dia descobrir (como descobriram penas em dinossauros)  que eles foram louros, de olhos azuis? Será que Ali Kamel & Cia. iriam mudar, de mala e cuia, sua ascendência da Europa para a África?

Gente esquisita esta, não é não?

Há inclusive dados históricos bastante confiáveis – por serem do mesmo modo óbvios – de que a dispersão do homem rumo ás terras geladas do norte da Europa (o genoma do neandertal agora sequenciado é da região da Croácia) só pôde se realizar após a descoberta do fogo.

Sem o calor do fogo – oh! Que obviedade ! – o homem morreria congelado no inverno.

Logo um longo período de adaptação – com sucessivas migrações sazonais para partes mais quentes do planeta talvez – deve ter sido o processo mais evidente das transformações físicas pelas quais o primitivo homem africano – provavelmente negro sim – se transformou no homem europeu e no homem asiático.

Eu mesmo visitando um museu na Europa (Viena), como um Darwin tardio, me dei conta disto ao ver ao mesmo tempo, um urso preto, um pardo e um branco. A resposta estava ali, na minha cara: Claro que o meio em que passaram a viver, migrando daqui para ali, foi que operou aquelas tão significativas diferenças nos ursos.

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(Eu, chutando a vidraça:_ Destravem a porta giratória agora, porra!)

_Vou tirar a roupa toda então!Porra! Caralho!

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Portanto, para encerrar esta ‘conversa de macaco’ (na boa gíria, conversa mal intencionada) de Ali Kamel & Cia, leiam vocês mesmos, parte do que os cientistas europeus por meio da revista Science, REALMENTE disseram:

“…De 1% a 4% do genoma humano (2% de seus genes) provêm do homem de Neandertal, que apareceu há cerca de 400.000 anos e se extinguiu há 30.000 anos, precisaram cientistas em um estudo publicado na edição deste 7 de maio da revista americana ‘Science’.

O Neandertal é assim o primo mais próximo dos seres humanos.

…essa transferência genética deve ter ocorrido de 50.000 a 80.000 anos atrás, provavelmente quando os primeiros Homo sapiens saíram da África, berço da humanidade, coincidindo com a presença dos homens de Neandertal no Oriente Médio, antes de se dispersarem na Eurásia.

O fato de os genes do Neandertal aparecerem no genoma de indivíduos de origem europeia e asiática, mas não entre os africanos, sustenta essa hipótese.

Além disso, não foi encontrado nenhum gene de Homo sapiens no genoma Neandertal sequenciado a partir do DNA extraído de três ossos fossilizados provenientes da caverna Vindiglia, na Croácia, e que datam de 38.000 a 44.000 anos. Os ossos pertenciam a três mulheres.

Os cientistas compararam o genoma neandertal com o de cinco humanos modernos procedentes da África Meridional e Ocidental, assim como de França, China e Papua Nova Guiné. Também foi comparado com o genoma do chimpanzé, cujo DNA é 98,8% idêntico ao humano.”

…”Na comparação, o Neandertal mostrou-se geneticamente idêntico ao humano moderno em 99,7%, e ao chimpanzé em 98,8%. O antepassado comum do chimpanzé com o humano moderno e seu primo Neanderthal remonta a 5 ou 6 milhões de anos atrás.
O homem de Neandertal e o humano separaram-se durante um período situado entre 270.000 e 440.000 anos, conclui o estudo, destacando que ambas as espécies eram muito semelhantes. Mas as diferenças são sobretudo interessantes.

…”Segundo Richard Green, “a decodificação do genoma de Neandertal é uma mina de informação sobre a evolução recente da humanidade e será aproveitada nos próximos anos”.

(Eu já sem a roupa. Saindo na porrada com os guardas. Um guarda atirando: Pôu! Pôu!)

A fila de brancos se dispersando rapidamente. Três PMs entram na agência, bufando.)

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Mas o que a tese dos europeus afirma, sem entrelinhas? Vocês sacaram?

Em suma, nada de muito novo na tese dos gringos, exceto que a nossa evolução teve uma história bem menos compartimentada (ou dicotomizada) do que se julgava. Ou seja, somos mais humanos e iguais ainda do que imaginávamos (o que, ironicamente lança mais obscuridade sobre tendências arcaicas e enrustidamente racistas como as de O’ Globo, Kamel, & Cia. Que alegam ser contrárias a existência de diferenças raciais, mas que usam isto com intenções nitidamente racistas, segregacionistas ou protelatórias – para barrar ações afirmativas )

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(Vou saindo. Na maca. O carro da defesa civil com luz vermelha girando e me deixando ainda mais tonto. Um montão de gente me olhando com aquela curiosidade mórbida, quase imbecil. Se querem saber, nesta ficção que fiz nos entreatos deste post eu não morri não. O tiro saiu pela culatra e o banco vai ter que me indenizar nuns…digamos assim… 50 mil paus.

É, mas foram babacas como estes que atiraram na cabeça do negão aposentado -vocês viram? – Ele usava um marca-passo, que é metálico, disseram que a porta travou. Mentira descarada.

O curioso é que, exatamente como no caso do aposentado, na fila de brancos da minha história fictícia ninguém se manifestou, repararam? Nem contra nem a favor. É muito comum isto. Ficam ali omissos, olhando para o relógio, se fingindo de mortos, se alguém puxar o mote são capazes até de aplaudir os guardas assassinos (enquanto isto o negão aposentado estava em coma irreversível).

E nesta Ali Kamel & Cia. Deitam e rolam.

Mas, não adianta. Tem nada não. Vade retro, rapeize do apartheid brasileiro!

O Homo Sapiens é negão, o Mengão é campeão e o Mengele já morreu! Quem manda aqui sou eu.

Spírito Santo
Maio 2010

Atenção: Veja o vídeo aqui e assine o ‘Manifesto Porta na Cara

Achtung! Mais um negão em Viena


“April macht zu viel”
‘Abril faz o que quer‘- ditado popular austríaco (ou alemão não lembro bem)

Não pude resistir à tentação de divulgar isto. Aos que não tiverem a gentil complacência de relevar mais este eventual deslize egocêntrico, justifico enfático:

Corujice também é cultura!

É nestas horas que gostaria de ver a cara de um anti-cotistas destes, estes racistas enrustidos que andam rebolando por aí, afirmando que os excluídos históricos do acesso à educação (negros, índios e afins) precisam esperar caladinhos, na fila, confiando piamente que, um belo dia (quando a galinha criar dentes?) políticas universalistas – ou ‘não racialistas’, no dizer daqueles próceres do jornal O’Globo – vão permitir que os nossos filhos entrem na universidade.

Caladinho é cacete. Digo alto para vocês todos ouvirem: Depois de entrar na UFRJ (e por acaso fora do programa de cotas), meu filhão, negão, acabou de entrar agora na Universidade de Viena, lá na Áustria.

Na base do ‘você sabia’, pra economizar o google de vocês, em verdade em verdade vos digo: Trata-se de uma das mais antigas universidades do mundo, criada em 1365, quando o Brasil, tal como o conhecemos, nem sonhava existir – ou seu ‘descoberto’, como se diz – Os portugueses, por sua vez, nem tinham ainda, a mais vaga idéia de que invadiriam o Kongo um dia e que para cá trariam meus antepassados africanos que de sua parte, séculos e séculos adiante, teriam o meu filhão como descendente ilustre. Dá pra imaginar?

Só pra se ter uma idéia, vaga ao menos, da dimensão da quase ‘façanha’ do ex-pimpolho (nada tão difícil. Foi só ele descobrir que tinha este direito e correr atrás), na lista de celebridades e sumidades mundiais que ali estudaram e se formaram, só encontrei um brasileiro, assim mesmo de ascendência austríaca, o crítico literário e libertário incorrigível Otto Maria Carpeaux (Otto Karpfen antes de fugir dos nazistas para o Brasil ). Veja a lista que fiz assim, só numa zapeada na wikipédia:

Gustav Mahler (músico), Gregor Mendel (músico), Papa Pio III, Otto Preminger (cineasta), Wilhelm Reich (psicanalista), Bruno Kreisky (ex primeiro ministro austríaco), Kurt Waldheim (ex primeiro ministro e secretario da ONU), Stefan Zweig (escritor), Otto Maria Carpeaux (crítico literário naturalizado brasileiro), Jörg Haider (‘moderno’ e célebre político neo nazista austríaco).

Procurar quantos negros brasileiros estudaram ali é a pesquisa mais fácil deste mundo:
Com quase toda certeza nenhum.

Se você considera válido este tipo de parâmetro, raciocina (ou ‘se liga’): A Universität Wien é um dos templos mais bem acabados do que se pode chamar de ‘cultura branca’, cultura européia, saber hegemônico (se é que me entendem) e é lá que, unicamente por conta de seus inalienáveis direitos de cidadão do mundo (e não por conta de nenhuma meritocracia elitista) o meu filhão negão vai estar.

(Aliás, deixei o neo-nazista Jörg Heider como último da lista só pra lembrar que a Áustria é a terra onde nasceu o Adolf Hitler, o anti-cotista mais famoso da história (suas cotas eram as Cotas da Morte) que, como também indigitado Heider, deve estar se revirando no túmulo de saber que tem mais um negão (já há muitos africanos estudando lá, fiquem sabendo) lendo clássicos da literatura universal naquela biblioteca belíssima e gigantesca, como as dos filmes do Harry Potter (desculpe a referencia adolescente, mas foi a mais forte que me ocorreu)

(Se bem que, sofismáticos empedernidos como são, os impagáveis anti-cotistas do Brasil vão tentar descontruir toda esta minha alegria para esbravejarem pomposos – e engulindo em seco – que este meu exemplo é, isto sim, a prova mais cabal do mundo de que cotas raciais e ações afirmativas são ‘inócuas e desnecessárias’:

_ ‘Olha só o caso deste garoto do Spírito. Conseguiu ingressar numa das melhores unicersidades do mundo por seus próprios… méritos”

Mentira. Digo e afirmo na cara de vocês (deles, no caso, os racistas enrustidos que pululam por aí). O programa ao qual o meu filhão se habilitou, está inserido num conceito de intercâmbio entre universidades da União Européia com universidades do antigo Terceiro Mundo, que visa, entre outras coisas, democratizar o acesso à educação e ao conhecimento para jovens oriundos de países subdesenvolvidos ou – vá lá – em vias de desenvolvimento como o Brasil, contexto no qual países africanos (apinhados de negros) e latino americanos (apinhados de negros, de índios e disto e daquilo de quem dizem não serem ‘brancos o suficiente’ para merecer um lugar ao sol) são os maiores beneficiários (países de porte médio da região da União Européia como Portugal, Croácia, Polônia, etc. também entram nesta dança)

Um óbvio e claríssimo sistema de cotas, portanto. Uma prova – aí sim – cabal de nossa vergonhosa e anacrônica, atrasada e estúpida mania de ficar excluindo gente, omitindo gente, matando gente de forma egoísta, na base da ‘farinha pouca, meu pirão primeiro’.

Ah, ah, ah, anticotistas, racistas de plantão! A vocês só resta ficar arrotando por aí que se formaram pela PUC, que seus filhos vão estudar na PUC. Que a PUC, que a PUC, que a PUC… E daí? Coisa mixuruca. Quem liga mais para esta hegemonia onipotente, tão colonial?

Perderam! Perderam! Meu filhão negão escapou da sanha excludente de vocês que, agora e mais uma vez, não perdem por esperar. Outros muitos escaparão.

_”Achtung! Nicht verboten! Auf wiedersehen!

Spírito Santo
Abril 2010

CINEMA EM BRANCO & PRETO / take 3


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(Leia também os takes 01 e 02 )

Negativo revelado

”Um historiador chamou o período silencioso no cinema no Brasil (introduzido em 1898 pelo italiano Affonso Segretto) de “a bela época do cinema brasileiro”, dada a quantidade e diversidade da produção. …mas do ponto de vista do negro brasileiro, isso conta muito pouco. O cinema mudo coincide exatamente com o período áureo das teorias racistas, quando as religiões afro-brasileiras eram perseguidas pela polícia, e os mulatos claros usavam pan-cake para parecer brancos. Houve portanto poucos registros de negros em documentários.

Apesar da patente invisibilidade do negro nos documentários de nosso período silencioso, aludida e lamentada aqui por João Carlos Rodrigues, talvez já se tenha dito, anteriormente, que a rigor não pode ser considerada, de modo algum, incipiente- ou mesmo insuficiente – a presença da imagem do negro no cinema brasileiro de ficção.

Já nas imagens inaugurais desta nossa cinematografia ‘posada’, o negro estava lá, de alguma forma impresso. A lista de filmes é extensa, a ponto de podermos afirmar, com razoável convicção que, do ponto de vista essencialmente imagético, nunca houve, exatamente, racismo no cinema brasileiro.

Não conheço ninguém que tenha assistido, sequer a um fotograma do documentário (um docudrama talvez) “A vida de João Cândido, o marinheiro“, realizado segundo as poucas fontes disponíveis em 1912, com direção de Carlos Lambertini e, sabe-se lá talvez, inspirado no O encouraçado Potenkim’ filme clássico de 1906, realizado pelo russo Sergei Einsenstein.

Por conta da insuficiência de fontes aliás, o filme sobre João Cândido, acabou se confundindo com o documentário ‘A revolta da Esquadra’ também identificado como sendo de 1912, sensacional furo jornalístico do cinegrafista Alberto Mâncio Botelho (único fotógrafo a conseguir entrar no encouraçado Minas Gerais, nau capitânia da Revolta) que conseguiu entrevistar João Cândido líder dos amotinados da Marinha de Guerra, contra os castigos corporais.

É lícito se supor inclusive, que a maioria – senão todas – as imagens disponíveis hoje deste grande momento da história do Brasil, tenham sido registrados pelas câmeras deste grande precursor do documentarismo brasileiro que foi Alberto Mâncio Botelho.

Pois saibam que “A vida de João Cândido, o marinheiro” foi o primeiro filme censurado e proibido no Brasil por motivos políticos (certamente junto com o ‘Revolta da Esquadra’ de Botelho). A engrandecê-lo mais ainda, o fato de ter sido também o primeiro filme de ficção, no qual o negro apareceu como protagonista de sua própria história (não se tem a informação se os atores eram brancos pintados. Vamos acreditar que não).

…”Os atores (no tempo do cinema mudo no Brasil) ainda eram brancos pintados, como os minstrels americanos. Esse costume persistiu até bem mais tarde. No cinema, o verismo exige negros verdadeiros, e assim surgiram os primeiros atores profissionais, vindos dos palcos : Grande Otelo, Pérola Negra, Chocolate – os pseudônimos já ostentam a etnia, informando antes mesmo da própria imagem do intérprete. Mas seus personagens não cresceram de importância.”

Caras imagens esparsas de filmes invisíveis.

Além do imperdível ‘Encouraçado Potenkim’, alguns de nós já assistiram, contudo a pelo menos algumas das impactantes imagens de ‘O Nascimento de uma nação’ (The Birth of a nation ou, originalmente, The Clansman) de David Llewelyn Wark Griffith (D. W. Griffith), talvez a mais veemente propaganda racista já exibida pelo cinema, lançando as bases para a recriação da organização terrorista Ku Klux Klan, grupos de brancos que promoveram muitos linchamentos e enforcamentos de afro-americanos nos Estados Unidos.

Embora o filme de Griffith tenha sido um divisor de águas, lançando revolucionárias técnicas para a linguagem cinematográfica do futuro, surpreendentemente, no plano ideológico, estas imagens, ao que tudo indica, não tiveram relação direta alguma com o tema da invisibilidade do negro na mídia brasileira (no cinema inclusive).

As controversas ideias levantadas pelo filme, lançado no já distante ano de 1915, parecem ter somente entre nós – guardadas as devidas proporções – alguns tardios adeptos, veementes opositores das políticas de cotas e ações afirmativas no Brasil, cujo pensamento, ainda que de forma simbólica, pode ser alinhado com este emblemático trecho da sinopse do filme de Griffith publicada pela Wikipédia:

…”A controvérsia que o filme causou gira em torno da premissa de que a primeira Ku Klux Klan restauraria a ordem no sul do pós-guerra, que estaria “ameaçado” por afro-americanos “incontroláveis” e seus aliados: abolicionistas, mulatos e republicanos do norte.”

O fato é que, navegando num mar encapelado de preconceitos estéticos ligados ao biotipo de nossa população, não sabemos ainda a que atribuir esta hospitaleira ilha de diversidade cultural, este inesperado apego, quase fraterno, sempre existente em nosso cinema de ficção pela imagem do povo e do negro, em particular.

Atraído pela imagem de negros e despossuídos, tanto quanto pela pitoresca e dura vida de nossa população ‘carente’ em geral (cujos temas estão sempre presentes nos roteiros, desde os primórdios), este cinema foi sempre bastante popular (ou popularesco), desde a escolha de seus story lines, baseados desde o início em rumorosos casos que eletrizaram a maioria da população, sendo protagonizados por pessoas comuns, até a franca adoção de um conceito de ‘casting’ sem preconceitos biotípicos ou raciais aparentes.

Talvez a pista mais importante desta solidariedade do Cinema para com a imagem do negro do Brasil, a despeito do deslavado racismo das outras mídias, deva ser buscada em outras plagas, bem mais próximas de nós: A colônias italianas do Rio de Janeiro e São Paulo.

Com efeito, ao nos debruçarmos sobre a bases que formaram o nosso cinema, esbarraremos, fatalmente, numa lista enorme de ‘carcamanos’ emigrantes, gente simples, humilde e empreendedora que, construiu aqui praticamente tudo que precisávamos para ter cinema brasileiro.

De Paschoal, Gaetano, Alfonso e João Segreto, passando por Paulo Benedetti até Rogério Sganzerla, são centenas os nomes de italianos e ítalo-brasileiros envolvidos na arte de fazer filmes no Brasil, inventando equipamentos, processos fílmicos, dirigindo, cinegrafando ou atuando, a importância destes europeus na fundação de nosso cinema foi decisiva.

Empreendedorismo, pitadas de Anarquismo, de Comunismo, Socialismo e, logo mais adiante, Neo realismo, eis o que seriam as lentes abertas para a negritude em nossa cinematografia.

“ Fita apreendida

No dia 27 de junho de 1926 o jornal O Estado de S. Paulo publica uma matéria intitulada Exploração ignóbil. Um filme deprimente para o Brasil preparado pela companhia Dramática da Atriz Italia Almirante. A longa reportagem relata a apreensão de um rolo de filme com cerca de 150 metros cenas de batuque que foram feitas no Jardim da Aclimação, supostamente passadas numa senzala de uma fazenda de um nababo português.

“Em certo ponto, um artista não se contem e, por pilhéria, arrebata uma pretinha e sai com ela, dançando. Os dançadores se alvoroçam e o chefe do batuque separa o par, com ar feroz. Mas isso não o satisfaz e para vingar-se vai ao grupo de artistas, tira uma atriz e sai com ela, a dançar. Embalde os colegas tentam arrancá-la daqueles braços, da sanha daquela multidão andrajosa, suada, de catadura hedionda. Estabelece-se a luta.

E, aos gritos de toda a gente, aparece o fazendeiro, de botas, chapéu largo de cowboy, um tipo anacrônico, que arrebata a moça das mãos do preto, atira por terra o agressor e corta-o de rebenque, surdo às imprecações feitas de joelho. Enquanto o companheiro apanha os pretos fazem esgares de pavor”.

         (Em ‘Italianos no cinema brasileiro’ artigo de Márcio Galdino)

Positivo velado

Amir Labaki escreve:…”Numa conversa com Vinícius de Moraes, que o guiava para conhecer uma favela no Rio de Janeiro, Orson Welles fez um comentário sobre o que via, direto e profético:

_ “É um Frankenstein. É um monstro que vai se voltar contra vocês.”

Havendo sido criado por volta de 1940, pelo governo brasileiro o Dia da Raça, no qual se criava o conceito algo eugenista da fusão harmônica de ‘três raças tristes’ (brancos, negros e índios, nesta ordem), havia uma intenção oficial de difundir a imagem de que o país era habitado, principalmente, por brancos, com uma taxa mínima de negros e mestiços (intenção a rigor, válida até os nossos dias, notadamente, entre racistas enrustidos)

Foi este, sem dúvida, um dos principais fatores que contribui para a ditadura Vargas acionar o Departamento de Estado Americano e provocar a interrupção do documentário It’s all true, que o festejado cineasta Orson Welles realizava no Brasil em 1942, descrevendo, principalmente, a saga de um grupo de jangadeiros liderados por um homem chamado ‘Jacaré’, do Ceará ao Rio de Janeiro, para denunciar ao governo brasileiro suas péssimas condições de vida.

Segundo o Departamento de propaganda do governo, Welles enfocava, demasiadamente, em seu filme, os negros e a cultura afro-brasileira (no caso, nordestinos – cafuzos para alguns – com a pele queimada de sol e favelados negros do Rio de Janeiro).

É ainda Labaki quem comenta:

…”Em 19 de maio de 1942, já filmando nas praias cearenses, advém a tragédia. A mesma jangada original da ida ao Rio foi virada por uma onda forte num dia de mar bravo. Os quatro homens caíram na água. Jacaré submergiu, voltou à tona, pediu socorro, nadou desorientado mar a dentro e desapareceu. Seu corpo jamais foi resgatado. “Jangadeiro deve morrer no mar” foi a manchete caimmyana de um jornal, atribuindo a citação ao próprio Jacaré.”

…Pressionado por todos os lados, com produtores descontentes com a extensão das filmagens, e políticos de cá e de lá furiosos com a ênfase na pobreza e na negritude do episódio sobre o Carnaval, Orson Welles terminou o que viera fazer e deixou o Brasil para nunca mais voltar.

Jamais concederam-lhe a oportunidade de finalizar “It`s All True”, editado parcialmente sete anos depois de sua morte.”

Banido, tornado quase invisível, durante muitos anos, os negativos do filme foram recuperados, mostrando imagens épicas fantásticas do nordeste brasileiro, com o movimento impressionista das velas e das ondas do mar do Ceará e da então capital federal, com fortes e trágicos contrastes e nuances de preto & branco.

Visto hoje, com distanciamento, ‘It’s all true’ nos aparece como um legítimo filme brasileiro, tão grande a influência que, sabe se lá por que mágicos meios, imprimiu em nossa filmografia posterior, notadamente no cinema de Glauber Rocha. Talvez fosse mesmo uma tendência, um fenômeno cinematográfico amplo e recorrente, num mundo que, bafejado pelos ventos abrasivos da guerra, impulsionava o cinema, inapelavelmente, para a reflexão em imagens, de valores universais essenciais, tais como a solidariedade humana, a diversidade cultural e a luta contra o racismo, a intolerância e a miséria, seja onde estivessem.

Ventos que, geraram em suma, o movimento denominado Neo-Realismo‘ italiano, famoso movimento cultural surgido no pós guerra cujas maiores expressões foram (olha a Itália de novo aí, gente!) Rosselini e De Sica.

Mesmo com o advento do Cinema Novo (segundo se diz, criado por Humberto Mauro) o cinema brasileiro segue tributário dos italianos.

Se algum pai houve não se sabe ao certo, mas, talvez ‘la Mamma’ de nosso cinema moderno tenha sido mesmo esta avassaladora influência neo-realista de De Sica e Rosselini, em seu amor desmedido pela imagem idílica do povo da itália, escurecido pelo sol do Mediterrâneo e entidade vítima de algozes muito cruéis (o nazi-fascismo que morria e o imperialismo capitalista que surgia voraz), num contexto de caos social impactante. Talvez tenha navegado por estas ondas portanto, a relativa aceitação de uma certa negritude em nosso cinema.

Mas, é bom se frisar que este Neo Realismo brasileiro, se impõe mesmo é com o lançamento de Rio 40 graus de Nelson Pereira dos Santos e, logo após, com Rio Zona Norte, do mesmo autor, seguidos pela série Cinco Vezes favela‘, filme produzido pelo vanguardista CPC da UNE (no embalo lançando os cineastas Leon Hirszman, Cacá Diegues  e até o Eduardo Coutinho – cujo filme ‘Cabra marcado para morrer’, da mesma época, por conta do golpe militar ficou inconcluso).

Reveja o cinema de Glauber Rocha e observe nos formidáveis planos-sequências, aquela visão de um povo heróico e retumbante, esturricado de sol e sede, enfrentando, estoicamente, as agruras da natureza e do cruel capitalismo anglo-saxão.

Isto tudo exposto, podemos dizer que sempre houve uma substancial presença de negros nas telas de cinema do Brasil sim, mas, não nos furtemos em perguntar:

_Como assim?

Vejam talvez que esta, talvez seja uma história boa demais para ser verdade. No cinema, como no Brasil, ‘nem tudo é verdade’.

Alma no olho

João Carlos Rodrigues, em seu livro aqui citado O negro brasileiro e o cinema – enumerou 12 arquétipos (ou estereótipos) invariavelmente, disponíveis para atores e atrizes negros no Brasil. Os mais importantes são os seguintes:

O Preto Velho, o Mártir da escravidão, o Nobre Selvagem, o Negro Revoltado, o Negro da Alma Branca (trágico elo entre oprimidos e opressores ), o Crioulo Doido (equivalente assexuado e cômico do Arlequim da Commedia dell’Arte ), a Musa Negra. Há dois com uma nítida conotação sexual exacerbada :O ameaçador Macho Negro ( Negão ) que povoa os sonhos racistas com estupros e violências ; a Mulata Sedutora ( Uma espécie de mulher-objeto cor de chocolate, desejada por todas as raças).

Na obra de João Carlos, todos os personagens negros e mulatos da ficção brasileira se enquadram em uma dessas categorias.

Assisti, por acaso, um dia destes, ao excelente e bem realizado ‘Também Somos Irmãos’, drama de José Carlos Burle com Grande Otelo, Aguinaldo Camargo, Agnaldo Rayol, Ruth de Souza e Jorge Dória, produzido pela valorosa companhia de cinema Atlântida em 1949. Embora velados, muitos dos estereótipos enumerados estavam lá.

Já foram de algum modo citados também outros filmes emblemáticos – com ou sobre negros – aqui mesmo nesta série. Entre eles Assalto ao Trem Pagador de Roberto Farias, Ganga Zumba (1964) de Carlos Diegues, Compasso de espera, direção de Antunes Filho (que conta o drama de um intelectual negro representado por Zózimo Bulbull, na megalópolis São Paulo, tentando integrar-se na sociedade branca). Podemos citar também Bahia de todos os santos (1960), de Trigueirinho Neto, Sinhá Moça (1953), direção de Tom Payne e Osvaldo Sampaio, O amuleto de Ogum (1974) e A tenda dos milagres (1977) ambos dirigidos por Nelson Pereira dos Santos, além de Xica da Silva (1976) e Quilombo de 1984 (o mito de Ganga Zumba de novo, também com a direção de Carlos Diegues, desta vez como super produção neo-tropicalista) e o digno Chico Rei (1985), de Walter Lima Junior – do qual este autor que vos fala, orgulhosamente participou, escrevendo a trilha sonora com seu grupo Vissungo (Wagner Tiso escreveria a trilha ‘branca‘, europeia) e coordenando grupos de congada na cena final.

Nesta vasta filmografia, dois fatos saltam aos olhos: Diretamente ligados à história, aos dramas, e ao modo de ser dos negros do Brasil, nenhum destes filmes foi dirigido por um diretor negro. Segundo: talvez por esta prosaica razão, em todos eles, de algum modo, os personagens negros são esquemáticos, estereotipados ou idealizados, quase sem nenhuma diferença do quadro de ‘arquétipos’ enumerado por João Carlos Rodrigues acima.

É fato também, portanto que o negro brasileiro está no cinema apenas com o corpo. Não está presente a sua alma. Seus olhos não se reconhecem nestes corpos travestidos por estereótipos os mais diversos, uns frutos do preconceito ou da ignorância, outros fruto da arrogância elitista de certa classe cinematográfica voltada excessivamente para uma visão estreita de nossa sociedade, contaminada por nossos vícios racistas mais recorrentes e sempre, renitentemente, presentes. Uma alma, senão branca, desvirtuada pela visão esquemática do filtro torto, com o qual a maioria de nossos cineastas enxerga a alma do negro (e, por extensão, dos pobres do Brasil).

As exceções a esta enigmática invisibilidade da alma do negro, dirigindo-se a si mesmo, em nossas telas, são poucas, entre elas, Cajado Filho (1912 – 1966), cenógrafo e roteirista de dezenas de filmes de sucesso, que dirigiu cinco longas metragens entre 1949 e 1958, todos infelizmente desaparecidos. Foi quase certamente o primeiro diretor negro do cinema brasileiro segundo João Carlos Rodrigues.

Com um hiato de muitos anos, temos também ‘As Aventuras amorosas de um padeiro’ de Waldir Onofre (cineasta que narra a alma suburbana da zona Oeste do Rio) ,’Alma no Olho’, de Zózimo Bulbull (Jorge da Silva), além de títulos esparsos por aí, a maioria de cineastas negros iniciantes, unidos, recentemente pelo Centro Afro Carioca de Cinema, criado por Zózimo Bulbull e Biza Vianna que, a partir de referências seminais do cinema africano, do senegalês Ousmane Sémbene, do nigeriano Ola Balogun (que filmou no Brasil nos anos 80 A Deusa Negra) e de Zezé Gamboa (prêmio do júri no Sundance Film Festival, em 2005), entre outros, todos reunidos num concorrido festival realizado no Cine Odeon (entre outros espaços), no Rio de Janeiro em novembro de 2007 e 2008, almejam quebrar o paradigma da ausência da alma negra no cinema do Brasil.

Dogmática feijoada

Na crônica das incongruências que este grupo de cineastas negros almeja superar, no intuito de provar que as idiossincrasias da alma popular brasileira (vale dizer a alma dos ‘não brancos’ do Brasil) não tem sido bem descrita pelos filtros do nosso cinema tradicional, existem casos clássicos, muito discutidos por seu caráter assaz constrangedor, como por exemplo, a salada antropológica, de cunho, grotescamente, tropicalista e gosto duvidoso (até como cinema) com que o sempre festejado Cacá Diegues tratou o Quilombo de Palmares, emblema de um episódio caro a alma libertária de todos os brasileiros (travessura estética repetida em 1999 no – vá lá – ‘pós modernista’ Orfeu com Toni Garrido).

E nem precisávamos falar também da, certamente bem preparada e articulada mulher que foi Xica da Silva, transformada em mera ‘mulata’ lasciva, quase prostituta, por – de novo ele – Cacá Diegues, o renitente cineasta que filmara também, alguns anos atrás, a imagem risível no filme Ganga Zumba de uma escrava africana usando hennè nos cabelos (Luiza Maranhão, grande atriz de tantos filmes emblemáticos como o já citado Assalto ao Trem Pagador).

Mas, quem se importava com estas continuístas filigranas de foco e enquadramento àquela altura dos acontecimentos, tomados que estávamos pelo sonho ufanista de termos com a Embrafilme, enfim, uma indústria cinematográfica de peso? Definitivamente, não pegava bem naquela época, falar mal do cinema nacional.

Felizmente, panorama cinematográfico brasileiro neste aspecto tão vexatório, neste cipoal de impropriedades estilísticas, pode estar prestes a mudar com a mais recente e incisiva – pelo menos como atitude – incursão representada pelas ações afirmativas tocadas, à própria conta e risco, por um grupo de cineastas e estudantes de cinema de São Paulo: O Dogma Feijoada.

Liderada pelos, relativamente, jovens cineastas paulistas Jeferson De e Noel de Carvalho, O Dogma Feijoada é uma ação que reúne cerca de 13 cineastas negros paulistas, a maioria representantes de uma inédita geração de alunos de cursos regulares de cinema, animada a quebrar os tabus conceituais e ideológicos mais recorrentes neste assunto, com muita disposição, embora ainda se baseando em ideias – apesar de, saudavelmente provocativas – em sua maioria, um tanto ou quanto insuficientes (redundantes até) – segundo se pode avaliar pelas sete ‘dogmáticas ‘ cláusulas que expomos a seguir:

‘Cinema Negro Brasileiro ou Dogma Feijoada

1- O filme tem de ser dirigido por um realizador negro brasileiro;
2- O protagonista deve ser negro;
3- A temática do filme tem de estar relacionada com a cultura negra brasileira;
4 -O filme tem de ter um cronograma exeqüível. Filmes-urgentes;
5- Personagens estereotipados (negros ou não) estão proibidos;
6- O roteiro deverá privilegiar o negro comum brasileiro;
7 – Super-heróis ou bandidos deverão ser evitados. ’

Mesmo considerando que – nem mesmo como ironia ou brincadeirinha com dinamarqueses- não se quebram paradigmas com dogmas (dogmática mesmo é a prática dos que estão do outro lado ) só nos resta desejar que, a partir desta entusiasmada galera do Dogma, a moviola simbólica deste nosso ainda inacabado filme noir (que por aqui, sem o menor suspense, parece sempre rodar para trás) avance mesmo, rumo a um cinema brasileiro completo em gentes e nuances; rico, com heróis e vilões sem máscaras ou pankaques; um cinema colorido, diversificado em temáticas e arquétipos, feito por todos e Paratodos (como o nome daqueles cine ‘poeiras’ de interior).

Enfim, sem mais delongas vulgares ou ‘The ends’ bregas e, sobretudo, sem ‘_ Óticas do povo, morou?’, só me resta gritar à guisa de corte final:

_Luzes, Câmeras e…ação!

Spírito Santo

Dez 2008

(Leia também os takes 01 e 02 )