Brasil Afro #2 e o Zumbi fake book


O grande encontro de 'Bois Caiman' onde começou a revolução do Haiti

O grande encontro de ‘Bois Caiman’ onde começou a revolução do Haiti

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Palmares revisitado

(Leia também – e logo – os posts #01 e #03 desta série)

Há poucos anos atrás, numa solenidade festiva em Brasília na sede da Fundação Palmares (como se sabe, uma instituição do governo do Brasil voltada para a cultura dos afro descendentes) resolvi prestar mais atenção numa apresentação gravada que sempre , algo incomodado, ouvia meio assim por alto, nas solenidades da entidade pelo Brasil a fora. Nela, na tal apresentação, um locutor repassava com a voz empolada de civismo o que seria a história oficial do grande líder da nosso maior e mais perene complexo de cidadelas de escravos rebelados: Zumbi de Palmares:

“… Embora tenha nascido livre, (Zumbi) foi capturado quando tinha por volta de sete anos de idade. Entregue a um padre católico, recebeu o batismo e ganhou o nome de Francisco, aprendeu a língua portuguesa e a religião católica, chegando a ajudar o padre na celebração da missa. Porém, aos 15 anos de idade, voltou para viver no quilombo.”

(História oficial de Zumbi de Palmares. Vários autores)

O incômodo um belo dia deu lugar ao susto. O insight chegou como nos chegam todos os ‘eurecas’ desta vida: uma luz imaginária piscando, piscando e logo se acendendo, ardendo os olhos e a cuca, quase queimando a nossa mufa. Caramba! Como não havia me dado conta daquilo antes?

(Na verdade já me dera conta sim, mas ressabiado, precisava juntar ainda alguns cacos, mesmo embaçados que fossem, alguns poucos subsídios teóricos para poder duvidar, questionar com propriedade. Temia que me tomassem por doido varrido ou delirante, como sempre fazem nestas horas os patrulheiros ideológicos de ocasião. Faltava o ‘eureca’ crucial e inquestionável).

Podem dizer então que tudo começou com um surto de rebeldia adolescente ou algo assim bem intempestivo, mas convenhamos que é isto mesmo que agita e move o mundo de lugar. A insubmissão e o questionamento, o arroubo quase infantil de criancinhas ‘pé no saco’:

_ O que, Tio? Por quê, Tio? Pois sim, Tio! Como não, Tio?

Estas coisas surgem de repente, mas amadurecem como qualquer fruto. Afinal foram muitos anos chafurdando livre e empiricamente, neste esmiuçamento ‘cri cri‘ de detetive forense de série de TV, fuçando estas coisas enrustidas da cultura negra do Brasil.

Pulgas atrás das orelhas. Fazer o que?

Uma pesquisa insana, em suma – todo mundo que mexe com isto sabe – porque as perguntas são milhares, mas a maioria das respostas não estão, absolutamente onde deveriam estar, muito menos nos livros de história do Brasil

Ah…Se tudo na velha fosse bonito como o arco dela!

A enormidade da surpresa, esta sim, precisava ser explicada. Ora, o problema era que a versão da história de Zumbi de Palmares – acatada como oficial pela maior e mais referendada entidade de cultura negra do país – tinha todos os elementos de ser totalmente inverossímil, infundada, falsa mesmo, como conversa pra boi dormir ou aquelas histórias do arco da velha.

E vejam só meu dilema: Como embasar um ponto de vista assim tão iconoclasta, propor uma revisão tão paradigmática, diante de uma versão profundamente estabelecida como verdade absoluta, corroborada por livros e mais livros (alguns até mesmo escritos por mui eminentes historiadores negros do Brasil) jamais questionados nestes termos. Como desmontar uma versão mítica, supostamente heróica, incrustada na mente de – quase – todos nós por meio de séculos de incansáveis reiterações?

Difícil, não é não? Mas sério, gente! Juro que posso explicar – provar – cada tim tim mal ajambrado desta história.

E o pior de tudo – e não há de ser nada – é que terei de fazê-lo quase sem nenhum livro brasileiro conhecido em que me basear. Existem sim revisões da história oficial do negro no Brasil, mas são abordagens, do ponto de vista crítico, muito tímidas, a maioria resgatando ainda muito vagamente a importância da cultura bantu. Diretamente sobre o Quilombo de Palmares, contudo, neste foco em que decidi abordar o tema, rigorosamente – e isto foi uma surpresa absoluta para mim – nenhum trabalho com informações realmente novas foi encontrado.

O que me queimava a mufa é compreensível que seja aceito por pessoas comuns, mas de modo algum poderia ter sido corroborado por argutos historiadores. Este ‘plot’, este leit motiv, este cerne do argumento da história nunca lhes pareceu conhecido não?

Um ‘Story Line’ fajuto:

“…Aprendeu (Zumbi) a língua portuguesa e a religião católica, chegando a ajudar o padre na celebração da missa. Porém, aos 15 anos de idade, voltou para viver no quilombo.”

Nossa senhora! Isto é um mito completamente cristão, não é não? E o que é pior: Ela, esta versão oficial da história de Zumbi de Palmares, na verdade ofende e desmerece a memória dos quilombolas (e em conseqüência a memória das lutas e anseios de todos negros do país) sabem por quê? É que em seu argumento central ela sugere, quase afirma que, para que o Quilombo de Palmares alcançasse o sucesso político e estratégico que alcançou, foi necessário que o seu líder máximo – Zumbi – fosse formado, educado como branco (aculturado, melhor que se diga) por um padre europeu.

Nada contra a civilização cristã ocidental, mas vamos e venhamos, aquele pessoal de Palmares descendia de gente com séculos e mais séculos de história original. África, gente! Parem para pensar: O berço da humanidade. Se tocaram agora?

O recorte do herói mítico que, tal qual um Jesus Cristo ‘black power’ ou um Moisés negão eleito por Deus para salvar seu povo é altamente popular, mas convenhamos: carece de sentido naquelas e em quaisquer outras circunstancias em se tratando da história transatlântica de um povo africano, de cultura tão diversa da dos europeus.

As perguntas que me incandesceram mufa foram, portanto as seguintes (perguntem-se vocês também, se de mim duvidarem, mesmo que por um instante):

1- Seria historicamente comprovável a hipótese de um menino, descendente do principal líder do quilombo de Palmares ter sido sequestrado sem que ninguém se desse conta ou comunicasse o fato?

2- Seria possível a criação e a manutenção por quase um século de uma experiência política e estratégica tão exitosa como foi o Quilombo de Palmares, por parte de milhares de negros escravos, sem que estes se baseassem em sólidas referencias anteriores de organização social, comunitária e militar – regras rígidas de sucessão inclusive- ligadas ao seu mais que remoto passado africano?

3- No contexto de uma sociedade com semelhantes características sócio históricas, teria sido possível um menino negro aculturado, com identidade ou origem genética impossível de ser estabelecida, educado por um padre católico, assumir aos 15 anos (ou 20, tanto faz) o comando de um articuladíssimo e eficiente conjunto de cidadelas rebeldes?

Nenhuma destas hipóteses – pasmem – podem ser comprovadas, carecendo, portanto, totalmente de fundamento. Na verdade, se formos nos basear numa pesquisa mais aprofundada (como esta que estou propondo aqui) todas estas hipóteses, com toda certeza terão que ser declaradas mera e rasteira ficção historiográfica.

É o que devíamos fazer. E logo.

Bem, isto tudo é para explicar que este artigo é apenas uma introdução a uma pesquisa independente, talvez solitária e ainda em curso e que vai precisar de outras evidencias para ser considerada inquestionável, mas que já pode ser lançada por aí . Sim, porque é por aí mesmo que a História real avança: aos trancos e barrancos, pelo caminho das pedras.

Só um aspecto a historiografia brasileira terá que aceitar como falha flagrante e indesculpável de sua metodologia: A maioria esmagadora dos títulos a que tive acesso para embasar meus pontos de vista sobre estes incidentes que ligam, indelevelmente à África ao Brasil, apesar de estarem facilmente disponíveis aos especialistas interessados que poderiam ter proposto teses e livros a partir deles, são quase todos absolutamente estrangeiros (europeus e africanos)

Respondendo à perguntas pra lá de cabulosas

As cartas do padre Antonio de Melo

”…O padre não tratava o pretinho como escravo. ’O padre criou o menino, batizando-o como Francisco. Com a educação recebida, aos 10 anos já sabia latim e português e aos 12 era coroinha. Em uma carta, o padre refere-se ao menino como dono de um “engenho jamais imaginado na sua raça” e que bem poucas vezes encontrara em brancos. Certa manhã do ano de 1670, então com 15 anos Zumbi resolve se emancipar e parte em busca de seu destino, viver com os negros de Palmares…”

(História oficial de Zumbi de Palmares. Vários autores)

Nada foi encontrado nos documentos oficiais analisados sobre nosso herói negro mais recorrente, personagem de tantos sambas-enredo, Zumbi de Palmares, que comprovasse a veracidade de dados desta sua suposta biografia, contidos na versão insistentemente aludida pela maioria dos autores que trataram do tema e admitida, até mesmo, como disse acima, pelo movimento negro e todos os órgãos oficiais interessados na superação do racismo no Brasil.

Dos muitos filhos, netos ou prováveis sobrinhos de Ganga Zumba identificados e citados nos documentos portugueses e holandeses da época, existem pelo menos quatro filhos adultos que teriam sido presos ou mortos (Zambi ou Zumbi, Acainene, Acaiuba, Tuculo) há também o líder do mocambo Acotirene, que deve se referir a mais um membro da família de Ganga Zumba, o rei, filho mais velho de Aqualtune, a rainha-mãe.São citados ainda por outros autores Zangui, Maiolo, Engana Colomim, Camoanga, Cabanga, Gone, Gongolo, Quiloange, Quissama, todos líderes de mocambos (e observem nos negritos como é bastante recorrente a semelhança fonética entre a maioria dos nomes e os vocábulos ‘Nkanga’ e ‘Nzambi‘ ).

Observamos também a ocorrencia de nomes comuns em Angola – como Kiluange, por exemplo – que remetem ao nome de um grande chefe angolano – Ndambi Kilwange, ‘manikongo‘ líder da guerras contra Portugal no século 16 e que, segundo algumas fontes era o próprio pai da Rainha Jinga.

A grande questão é que, a julgar pelo cruzamento dos dados extraídos de documentos da época disponíveis, principalmente relatórios de expedições invasoras, nenhuma entre estas quase 20 pessoas pôde ser associada, da forma mais remota que fosse, àquela criança descrita nas supostas cartas do padre Antonio Melo.

…” muitas entradas, de fato, se fizeram aos quilombos a partir de 1654, ano da expulsão dos holandeses, até 1657, mas, cronologicamente, não se sabe a data certa em que elas se realizaram ou por não ter havido diário de operações, ou por terem eles se perdido…”

(Trechos de um relatório de expedição contra Palmares extraídos do livro de Mário Martins de Freitas “ O Reino negro de Palmares”, Biblioteca do Exército Editora, Rio de Janeiro 1988.)

…”Depois vieram as expedições comandadas pelos holandeses Rodolfo Baro (1664) e João Blaer (1645). Em seguida, o governo de Pernambuco passou a tratar Palmares como um “caso de polícia”, adotando medidas mais “enérgicas”, comandadas por militares locais, as expedições ocorridas nesse período foram, segundo o autor, maiores, mas não atingiram os resultados esperados, tendo acontecido, inclusive, um período de “trégua” entre 1667 e 1671”.

(Laura Peraza Mendes – ‘Guerras contra Palmares: um estudo das expedições realizadas entre 1654 e 1695’)

Existe num documento uma alusão a dois filhos de Ganga Zona (irmão de Ganga Zumba) que teriam sido adotados pelo governador da capitania no ato da ratificação do acordo de Cacaú e batizados com o sobrenome do governador Aires de Souza Castro, mas nada indica que fossem adultos ou capazes de, logo a seguir, assumirem a função de Nkanga a Nzumbi, ou qualquer outro posto relevante no quilombo, cuja atribuição, sabe-se hoje, devia obedecer à práticas socioculturais africanas, pelo menos da maneira como supomos, também vigentes na sociedade de Palmares na ocasião.

Como nos dão conta diversos documentos consultados acerca da similaridade óbvia entre os hábitos sociais dos kimbundos do Reino de Angola e do Kongo nos séculos 16 e 17 e os dos quilombolas de Palmares, existiram vários indivíduos que, com nomes ou funções precedidas pelo título Nkanga (a confusão semântica com o vocábulo ‘Nganga’ /’senhor’ é muito recorrente)  como reparamos anteriormente, foram realmente chefes de alguma localidade ou exerciam alguma função importante no complexo de quilombos (Nganga Zumba, Nganga Zona, Nganga Muissa, etc.). Neste sentido, em nossas prospecções a palavra Ganga Zumba parece ser mesmo uma expressão genérica, diretamente originada de…

Nkanga a Nzumbi.

Nkanga (Nganga) = sacerdote, sagrado, Santo

Nzumbi= entidade, fantasma, Espírito =

Espírito Santo.

A tradução literal do termo Nkanga a Nzumbi (termo do kimbundo angolano) vocábulo que pode, mais acertadamente estar relacionado ao personagem Zumbi de Palmares, poderia ser portanto Espírito Santo.

_Como assim, Spírito Santo?_ Dirão vocês.

Calma! Surprendam-se sem pudores. Eu também fiquei surpreso – na verdade ‘chapado’ – com esta estranha conclusão’, mas como naquele aviso de filmes ela não passa de mera coincidência.

O nome (‘Nkanga‘) seria uma espécie de título de origem com toda certeza católica – daí a coincidencia – que supomos estar fortemente relacionada a alguma linhagem de inspiração jesuítica de reis ou sobas – ‘Manikongos’ – cristianizados, iniciada em época remota (que poderia mesmo remontar ao século 16) e que identificaria o ‘rei’ ou chefe com poderes religiosos e militares, francamente utilizado em algumas culturas do Reino do Kongo (e também no Reino de Angola) ainda durante este período.   

Aliás, isto pode ser constatado facilmente analisando a lista dos mandatários dos reinos do Kongo e de Angola do século 16 em diante.  A quantidade de ‘Nkangas‘ na lista é impressiomnte. O fato de se usar a mesma palavra para definir ou ‘sacerdote‘ quando se referindo a ‘padre‘ (católico) é também uma eloquente evidencia a nos encaminha para estas conclusões.

Segundo esta regra protocolar, portanto, todo supremo mandatário poderia ser reconhecido pelo povo como um ser divino, possuidor de poderes – e obrigações – religiosas, conceito africano original, que teria sido mantido vigente (reciclado, sincretizado) mesmo após a cristianização da aristocracia congoleza ou angolana de então (com os termos católicos traduzidos  para o kimbundo local) e, deste modo transplantado para o Brasil de Palmares.

O fato é que se a rigor (como acabamos de constatar acima) não existem informações documentais confiáveis (o menino, futuro Zumbi, supostamente sequestrado teria nascido entre 1655 e 1662) acerca das fracassadas expedições ocorridas contra o Quilombo de Palmares entre 1654 e 1662 .

Logo, se teria havido pouco depois  desta época ‘um período de “trégua” entre 1667 e 1671 (pouco se sabe sobre os anos entre 1663 e 1666) de onde teria, vindo as recorrentes informações que dariam conta de que um filho do rei Ganga Zumba, recém nascido ainda (ou já com 7 anos de idade) teria sido sequestrado nesta ocasião? Ao que parece, tudo se origina mesmo – sem querer desmerecer a renomada fonte – da seguinte enganosa revelação:

“…E por isso teria havido tantos Zumbis. Eu efetivamente entendia que não. Até que um dia, por mero acaso_ e a pesquisa histórica depende muito de sorte também e do acaso , eu encontrei uma consulta do Conselho Ultramarino, órgão de assessoria ao rei, em que se dizia ao rei que todas as certidões que diziam ter sido morto um Zumbi eram falsas, forjadas para que os chefes das expedições recebessem as mercês do rei. Verificou-se que Zumbi continuava vivo. Este foi o ponto de partida para estabelecer a identidade de Zumbi. Até que encontrei as cartas do padre Antonio Melo…”

(Decio Freitas, autor de “Palmares, a guerra dos escravos” em entrevista á ‘Folha on line Brasil 500’.)

A respeito precisamente do heróico personagem a quem as cartas citadas acima se referiam, há que se considerar que diversos relatórios militares da época já haviam sido unânimes em atestar que este ‘Zumbi‘  já estaria ativo em Palmares, em época mesmo anterior ao acordo de Cucaú datado de 1678 (tendo sido inclusive ferido em combate). Havia até um mocambo com o seu nome (Zambi ou Zumbi), o que seria, naquele tempo, o mesmo que dizer: habitado e comandado por ele.

O fato é que não existem fundamentos nem provas documentais para confirmar, em qualquer um de seus aspectos, a fabulosa história do padre Antonio Melo. A sustentá-la apenas o beneplácito dos pesquisadores diante de hipóteses tão infundadas quanto providenciais a certos setores do pensamento acadêmico brasileiro – e talvez resida aí alguma eventual intenção oculta nas supostas cartas- para quem, ainda hoje, faz sentido a pergunta que até hoje não quer calar:

Como o negro escravizado no Brasil, não tendo passado, origem, nem história, poderia constituir e manter durante tanto tempo, uma sociedade tão complexa e, em sua conturbada época, tão estável e perene quanto foi o Quilombo de Palmares?

Tentando explicar o que a ingenuidade etnocentrista, infelizmente julga inexplicável até hoje, um documento chegava a especular:

”…Tal habilidade aparecerá nas paliçadas e fossos, feitas em torno do quilombo, com paus pontiagudos colocados para matar invasores, e aí já estamos 1694. Zumbi, portanto, tudo indica, nasceu livre. Não fica claro se o padre que criou Zumbi conheceu, leu, as grandes utopias (e se informou sobre aquilo a Zumbi) dos grandes escritores do passado, tais como: Platão, com a sua República, antes da era cristã; Thomas Morus (More), com a sua Utopia, 1478 / 1535 ; Tommaso Campanella, com Cidade do Sol, 1568 / 1639 e, finalmente, Francis Bacon, com Nova Atlântida, 1561 / 1626. Saliente-se, aqui, que as obras acima citadas foram sobre maneiras de se organizar um Estado, e nada tinham de inocentes, e lidas no mundo inteiro”

O ‘Segredo’ da Condessa Schönborn

O argumento da história central, aquela que gera todas as outras versões sobre as cartas do padre Antonio de Melo (muitas delas acrescidas de detalhes que não se sabe bem de onde surgiram) parece estar baseado na mera suposição (uma lenda urbana da época, talvez apócrifa), de que certo padre de Porto Calvo teria escrito uma ou duas cartas contando a saga de uma criança negra sequestrada numa expedição contra o quilombo em 1662 (certos autores, sem nenhuma evidencia apresentada – talvez fazendo ‘contas de chegar’ – falam que o fato teria se dado numa expedição em 1662).

“…Durante uma expedição contra Palmares, comandada por Brás da Rocha, foi raptado ainda recém-nascido e entregue ao padre Antônio Melo, vigário de Porto Calvo, que o criou sob o nome de Francisco.

Na dificuldade de se encontrar uma origem segura para a história , quem buscar notícias sobre o paradeiro das cartas do padre Antonio Melo , terá o dissabor de descobrir apenas uma segunda história, também providencialmente complementar à primeira e, contudo mais implausível ainda:

(Na verdade – tcham, tcham, tcham, tcham – já desvendamos a origem segura da lenda, que é como os leitores verão em breve -num post a seguir – absolutamente surpreendente!)

“Arquivo revela que Zumbi sabia latim!

A condessa de Schönborn, 65, nascida Graziela de Cadaval, é conhecida entre os pesquisadores e ”caçadores” de documentos como a guardiã dos arquivos da casa da marquesa de Cadaval, sua mãe. São cerca de 5.000 livros e conjuntos de documentos reunidos nos últimos seis séculos e guardados em Muge, 80 quilômetros a leste de Lisboa. …Anos atrás, dezenas de documentos foram roubados por um ”pesquisador disfarçado de paralítico em cadeira de rodas”. Desde então, só convidados vigiados pela condessa pesquisam os manuscritos tombados pelo Estado.

Entre esses papéis (roubados) estariam duas cartas preciosas que permitem imaginar Zumbi no seu tempo de menino. Foram escritas pelo padre Antonio de Melo em 1696 e 1698, quando já corria a notícia da morte de Zumbi. As cartas, não localizadas pela condessa, foram copiadas em 1978 a pedido do historiador gaúcho Décio Freitas.

..Na época das cartas, o presidente do Conselho Ultramarino era Nuno Pereira Álvares de Melo, que foi o primeiro duque de Cadaval, e por isso os documentos foram guardados pela família. Ao longo do tempo, parte do arquivo dos Cadavais foi se perdendo. Em fins do século 17, um incêndio destruiu o palácio da família. Depois, com a invasão napoleônica, muitos papéis foram trazidos para o Brasil. Em 1964, as famílias dividiram o que restava do arquivo. Metade ficou com a condessa e o restante foi para o duque de Cadaval. Há notícias de leilões de documentos nos últimos anos…”

(Do enviado a Muge (Portugal) Aureliano Biancarelli para Folha Online – Brasil 500)

O que esta história complementar nos dá conta em suma é que, as famosas cartas deste misterioso e desconhecido padre Antonio Melo talvez não possam ter jamais a sua autenticidade – ou mesmo a sua própria existência – comprovada porque, de uma forma ou de outra, por furto, extravio, por culpa de um incêndio ou um acidente fortuito qualquer, os originais teriam se perdido para sempre.

Como se vê, são bastante controversas as questões suscitadas por abordagens históricas que, deliberadamente ou não, subestimam ou omitem a óbvia ligação da cultura das comunidades quilombolas do século 17 com sua matriz africana mais imediata. A principal destas questões talvez seja a grande insistência com que elas foram sendo inseridas, com foros de verdade histórica absoluta, no contexto dos vários estudos existentes sobre o assunto, a despeito de sua evidente carência de fundamentos.

Entre dezenas de documentos disponíveis, a simples leitura, por exemplo, de uma das cartas do Padre Antônio Vieira (estas sim, autênticas), notório e influente agente dos interesses ultramarinos de Portugal além de importante autoridade eclesiástica, poderia esclarecer muito sobre esta questão. Pode-se destacar em especial dentre estas cartas de Vieira, aquela escrita em julho de 1687, em resposta a uma consulta do rei de Portugal, indeciso quanto a oferta de mais um acordo de paz aos palmarinos, sugerido por certo padre italiano de Recife:

“Muito me admiro… que sem outra informação dos superiores desta província, houvesse por bem a proposta feita por um padre particular de ir á Palmares… este padre é um religioso italiano de não muitos anos, e, posto que de bom espírito e fervoroso, de pouca ou nenhuma experiência nestas matérias. Já outro de maior capacidade teve este pensamento e posto em consulta, julgaram todos ser impossível e inútil por várias razões. Primeira: Porque se isto fosse possível, havia de ser por meio de padres nativos de Angola que, todos, os quais crêem e deles se fiam, e entendem, como sua própria pátria e língua…” .

A propósito, as evidências sobre a existência de certa similaridade entre os hábitos culturais praticados no Brasil pelos líderes palmarinos e os de seus conterrâneos na conturbada Angola do século 17 (hipótese aventada como vimos pelo próprio padre Antônio Vieira) estão se tornando cada dia mais candentes, principalmente se admitirmos a possibilidade de alguns líderes do quilombo da capitania de Pernambuco terem sido prisioneiros de guerra (soldados portanto e não escravos comuns), removidos para os Brasil no contexto da cruenta guerra colonial que sacudia o chamado ‘Reino D’Amgola’ naquela época.

Ao contrário do que ocorreu com as cartas de Vieira, o mais surpreendente é que a existência das outras cartas, supostamente atribuídas ao outro padre Antonio (e seu inusitado conteúdo) tenha sido um fato completamente desconhecido durante 300 anos.

E sobre o total desaparecimento dos originais das referidas cartas, logo que foram enfim descobertas, o que dizer? Por isto mesmo, mais do que com as controvérsias do incidente em si, talvez devêssemos nos preocupar mesmo é com as péssimas conseqüências advindas de sua eventual intenção etnocentrista, tão compreensíveis no contexto de uma colônia européia no século 17, quanto inaceitáveis neste nosso emancipado Brasil do século 21.

Sobrava-nos apenas a palavra solitária do já falecido Decio Freitas, incansável e meticuloso pesquisador que, pelo que sabe até agora, teria sido o único a ter acesso as cartas em poder da condessa o que, em se tratando de fato histórico desta relevância, infelizmente, não deve servir ainda, como prova cabal de coisa alguma.

Aliás, mesmo que tenham realmente existido, por conta do alto grau de improbabilidade dos incidentes por elas descritos, estas cartas não poderiam ter adquirido jamais, a importância que lhes deu a nossa história oficial.

“…A Torre do Tombo, o mais importante acervo do país (Portugal), tem inúmeros catálogos diferentes. O principal, os ”Manuscritos da Livraria”, não traz os documentos por ordem alfabética. Obedece a cronologia de entrada no acervo. Milhares de documentos das antigas casas de nobres ainda não foram catalogados. Não se pode confiar no que já foi informatizado.

Segundo o computador, a carta do rei que dá a patente de mestre de campo a Domingos Jorge Velho deveria estar na folha 426 do códice nove do ”Registro Geral das Mercês”. Foi encontrada pela Folha no verso da folha 246. A maioria dos documentos sobre Palmares pertence ao Arquivo Histórico Ultramarino. Ali estão as cópias dos papéis que seguiam às colônias. Muitos dos originais, destinados às capitanias do Brasil, desapareceram no tempo… Os documentos pouco ou nada contribuíram para traçar o perfil do homem Zumbi.”

(Jair Rattner especial para a Folha On Line, de Lisboa)

O que nos parece inquestionável contudo é que, a morte definitiva do último Nkanga a Nzumbi de Palmares, o sucessor de Ganga Zumbase deu mesmo em 20 de novembro de 1695 quando um de seus ajudantes de ordens (e seu suposto genro) é preso numa escaramuça e aceita traí-lo em troca de perdão. O traidor identificado como o mulato Antonio Soares, viveu em paz em Recife até morrer de velho.

Na hipótese de ser factível, pelo menos em parte, a versão dos fatos aqui apresentada, a dinastia que governou a região do Império do Kongo pelo menos a partir de 1545 (ano de nascimento de Ngola Ndambi, avô da valorosa Nzinga Mbandi, a rainha Jinga), reconstruída no Brasil num formidável fenômeno de transculturação, com a rainha Aqualtune mãe de Ganga Zumba ou com Mateus Ndambi, sogro do rei, teria durado no total mais de 150 anos (dos quais cerca de cem só no Brasil), havendo sobrevivido, após a morte de Jinga, pelo menos até 1695, apogeu e glória de seu último representante conhecido: O Nganga Nzumbi degolado em Recife.

“…ficando só mente (Zumbi) com Vinte negros, dos quais mandou catorse pa. Os postos das emboscadas que esta gente uza no seu modo de guerra, e hindo com seis que lhe restaram a se ocultar no sumidouro, que artefiçiosa mente avia fabricado, achou tomada a paçagem; pelejou valeroza e desesperadamente matando hum homem ferindo alguns e não querendo Renderce nem os companheiros, foy preciso Matallos e só hum se apanhou vivo, enviouçeme a cabeça do zumbi que determinei se puzese num páo no lugar mais público desta praça a satisfazer os ofendidos e justamente queixosoz e atemorisar os negros que supretisiozamente julgavão este immortal… “

(Ds G.a Real pesoa de Vmagde.Como todos desejamos. Pernco.14 de Março de 1696” Caetano de Mello de Castro – Governador da capitania de Pernambuco )

Surpreendentemente – ah! como é bom por água na boca dos curiosos! –  tendo como pista apenas as datas e o nome suposto deste Zumbi fake aculturado – que se chamaria Francisco, lembram-se? – conseguimos em textos angolanos, portugueses e italianos a chave, a prova mais do que cabal – se é que isto é mesmo possível – da gênese real desta farsa absurda – displicente talvez , muito mais do que fraudulenta – do ‘zumbi menino sequestrado’.

Mais isto …tcham, tcham, tcham, tcham!…. como já disse, será o tema do próximo episódio desta série.

Spírito Santo
Rio de Janeiro, Julho de 2006 (com pitacos novos em Novembro de 2010)

Nota: Na foto acima grande encontro em ‘Bois de Caiman’, bosque onde a revolução do Haiti foi deflagrada. Veja neste link o que isto – mesmo remotamente-  pode ter a ver com Palmares e reflita.

Leia post #03 neste link

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Se você curte analisar bibliografias e notas de rodapé, este texto possui uma relação bem completa deste tipo de referencia que você pode ler neste link

O Kilombo, o angu e seus caroços


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Charge alemã de 1897. A legenda diz: "Uma tarde de domingo na África Ocidental" mostrando um mundo surreal nas colónias na África no qual os escravos são senhores. No anúncio: "Hoje:Grande banquete! 'Senhores como comida'!

Charge alemã de 1897. A legenda diz: "Uma tarde de domingo na África Ocidental" mostrando um mundo surreal nas colônias na África no qual os os negros são livres. No anúncio: "Hoje:Grande banquete! 'Senhores' (brancos) como comida'!

Remanescente de quilombo? Ih! É melhor esperar sentado!

Começo logo com uma paulada:

Com vocês Andressa Caldas e Luciana Garcia que em alentado texto no site Global.org fazem a introdução do nosso papo:

“… A Constituição Federal e a titulação das terras quilombolas

Como parte da própria reflexão sobre o Centenário da Abolição da Escravidão no Brasil, algumas reivindicações de organizações de movimentos negros e setores progressistas, levadas à Assembléia Constituinte de 1988, resultaram na aprovação de dispositivos constitucionais concebidos como formas de compensação e/ou reparação à opressão histórica sofrida.”

(Tá certo. Isto foi só uma ameaça. Agora é que vem a paulada):

Em 2001 Abdias do Nascimento, histórico e incansável líder do movimento negro do Brasil deu ao site da Rets (Rede Eletrônica do Terceiro Setor) a seguinte entrevista:

“Rets :

_Em 1980 o senhor apresentou sua tese sobre o quilombismo. O senhor ainda vê a forma de organização dos quilombos como um bom modelo de desenvolvimento para o país?

Abdias:

_Ainda vejo. Mas acho que eu apresentei o quilombismo de forma um pouco antecipada. A sociedade precisa ter um pouco mais de experiência para poder perceber a significação do quilombo e a prática do quilombismo. Muitas pessoas interessadas no assunto concordaram com as minhas teses, mas nenhuma delas procurou implementar uma organização como a que propus com o quilombismo.”

A tese de Abdias não é o foco de nossas elucubrações. Ela é polêmica e, de certo modo, datada, pois, estava visceralmente ancorada ainda na realidade política do negro brasileiro vista de forma bem ampla e pela ótica da luta contra os resquícios da Ditadura, já que era uma realidade – a do negro e a do racismo – que a anistia promulgada em 1979, na verdade só de leve se interessou em tocar.

O fato é que a conversa que vamos levar aqui com vocês, embora diga respeito à demandas pontuais criadas pela nova Constituição do Brasil (1988) para este assunto, apesar de toda a festa com que se costuma ‘enfeitar o pavão’ de nossa democratização, não sugere ainda um grande avanço na discussão desta questão, que já se arrasta desde 1888: A reparação dos malefícios e constrangimentos aos quais os escravos africanos sequestrados para o Brasil e  seus milhões de descendentes foram – e continuam sendo –  submetidos há quase quatro séculos.

Sabem como é, certo? O Brasil elitista é um racista aplicado e muito, mas muito renitente mesmo. Pentacampeão em exclusão social.

Entre todos os reparos que com certeza poderemos fazer numa inevitável comparação entre os dois momentos históricos – o do lançamento da quase comunista tese ‘Quilombismo de Abdias e o nosso hoje em dia cheio de remanescencias– uma triste constatação: Reduziu-se de forma drástica o protagonismo e a combatividade das lideranças do Movimento Negro no Brasil, aquelas que poderiam estar na vanguarda das reivindicações atuais. O lado constrangedor deste protagonismo esvaziado e subalterno, infelizmente está visível na cooptação de muitos, na corrupção de alguns e no baixo nível político-ideológico da maioria.

Talvez seja esta conjuntura constrangedora – franqueza dói mas não mata – a principal razão para que uma causa tão importante e particular como a luta pela posse da terra por parte de comunidades remanescentes de quilombos, esteja tão diluída em pendengas paralisantes, envolta nesta rede de ambiguidades e incongruências tão flagrantes, sendo muitas vezes desvirtuada, atrelada a causas e interesses outros, como um filho de pai desconhecido.

(E filho ‘feio’, como todo mundo sabe, não tem pai).

Dito isto, podemos relaxar um pouco. O papo agora pode ser mais ameno sim, já que o mundo não foi feito num só dia.

Ki-lombo= Kilombo= Quilombo = “Fortaleza

(literalmente em Kimbundo, uma das línguas principais faladas em Angola)

O termo – todo mundo por aqui acha – viria do nome dado ao complexo de comunidades de escravos rebelados conhecido como Quilombo de Palmares, nas imediações de Pernambuco nos primórdios de nossa colonização. Zumbi de Palmares lembram?

(Mas, ‘achismo’ como se vê, não é exatamente cultura.)

Pois neste caso então, saiba quem ainda não souber que a palavra vem de um contexto histórico bem mais distante e complexo, bem menos chegado ao ‘chavão’ (e estas sutis filigranas historiográficas podem mudar tudo em nossa maneira de entender o conceito). Mais do que se pensa, pelo menos.

Kilombo na verdade, com o estrito sentido de ‘fortaleza rebelde’ tudo indica, é uma palavra transposta para a realidade colonial brasileira, depois de ser adotada como jargão militar pelo exército português durante sua guerra suja contra os nacionalistas angolanos comandados pela rainha Nzinga Mbandi e outros sobas, reis ou mandatários locais ali por volta de 1630/40.

O que isto tem a ver? Tudo. E com muita coisa que nos diz respeito. É que existe uma questão muito cabeluda rolando no Brasil atual envolvendo o conceito ‘Quilombo’, no âmbito da regulamentação de leis que embasarão políticas públicas inspiradas na constituição de 1988, visando garantir a posse da terra, por meio de títulos de propriedade ao que se convencionou chamar de ‘comunidades remanescentes de quilombos’.

(… Mas espera aí… _ “que lombo!”_ não se refere à bela bunda de uma mulata bem gostosa?)

Ui!…Calma, calma. Ignorância racista também tem limite (embora não seja nada mal que haja ignorância para que a modesta sabedoria de alguns possa dar o ar de sua graça).

Mas ok, ok. Ninguém nasce sabendo. Sou paciente e dou outro exemplo para os mais leigos que eu:

Quilombo para iniciantes: Princípios ativos e componentes lógicos

(Leia e entenda bem a bula antes de usar)

Quando levamos uma paulada na cabeça, qual é o nome que damos àquele caroço doído que nos cresce na testa? (Não. Chifre não. Sem sacanagem que estou falando sério)

Anh? Calombo? Isto! Ka-lombo (olha…Esta foi uma sacação ‘newtoniana’, não foi não?). Racionem comigo então: Como ‘Ka’ em kimbundo é diminutivo, Lombo pode significar então… ‘protuberancia, correto? Pequena protuberância (se traduzirmos bunda como ‘lombo’ a dita significaria uma bela e média …tá, vocês já entenderam.)

Kilombo, Kalombo, Lombo e Bunda: Um contexto semântico bem afinado com o mais puro vernáculo angolano.

Daí Kilombo (Ki, assim como Ka é prefixo em kimbundo) pode ficar sendo, no dizer de um colonialista lusitano pelo menos, ‘fortaleza de pretos construída num lugar alto’.

(Deve ser, logicamente por isto que os quilombos no Brasil, pelo menos os mais perenes, eram feitos em serras bem altas. Reminiscências culturais, inteligência estratégica, guerreira trazida de lá dos cafundós de Angola.)

Viram só como são as coisas? Uma palavra não é apenas um som qualquer, um amontoado de fonemas. As palavras carregam muita história, sentidos. Saber valer-se do que elas tem para nos contar sobre o passado e o presente, costuma ajudar muito a gente a construir um bom futuro.

_E olha a Etimologia aí, gente!

Logo se vê, portanto, que não é nada desimportante se bater na tecla da semântica neste caso, não é não?  Matando a semântica original se mata o sentido, a alma da palavra que passa a significar… nada. Afinal de contas, nunca é demais repetir: Jesus não é Genésio. Berimbau não é gaita.

(E você é tão bobinho a ponto de acreditar mesmo que seja possível transformar em lei conceitos vagos e desprovidos de sentido?)

Então vamos lá! Todos juntos, comigo:

_”Ressemantizar é o cacete! Viva a cultura negra nacional!”

Pois não é isto que parece estar acontecendo neste caso? Todo mundo se acha careca de saber que ‘Quilombo‘ de algum modo hoje em dia é isto aí: Um território (um lote de terra que seja) ocupado por descendentes de escravos que, por conta de históricas necessidades de reparação em vias (?) de serem reconhecidas (a escravidão foi um regime juridicamente condenável, certo?), reivindicam, diretamente ou com o auxílio de intermediários, a posse das terras que ocupam.

O resto é o resto. Deveria ser motivo para outras reivindicações.

Mas é aquela história que todo mundo também já  sabe: Enquanto o douto elabora conceitos o leigo palpita, especula, mas ambos, ao fim de todas as contas não vão poder mesmo falar mais do que… ‘em tese’.

Vamos então abordar este assunto assim-assim, valeu? Sem delírios sabichões,  na base do mais modesto feijão com arroz, pisando em ovos alheios, se necessário, mas com todo carinho, sentindo na pele o drama da questão. Sem ser louco a ponto de me achar um Deus da verdade é, pois, em tese, em tese, que vos digo:

Histórico das mumunhas jurídicas sobre o tema Quilombo hoje

(Colocando alguns  pingos nos ‘ís’ )

E são ainda Andressa Caldas e Luciana Garcia que se referem,  claramente ao que para nós se transformou no caroço (ou… calombo? Êpa!De novo? ) crucial deste angu:

“…Introdução

“…No Brasil, existem mais de 2.200 comunidades afro-descendentes quilombolas, totalizando cerca de 2.5 milhões de pessoas… No que concerne à titulação dos territórios quilombolas, recente relatório independente da Comissão Pró-Índio de São Paulo (CPISP),”Ações Judiciais e Terras de Quilombo”, revela que até agosto de 2006 havia “310 processos de regularização de terras de quilombo perante o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária.

O levantamento da CPI-SP revela que 59% dos 310 processos abertos recebeu apenas um número de protocolo no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). Ou seja, em 182 processos nenhuma medida administrativa foi tomada no sentido de regularizar o território… “

…” A ressemantização do termo quilombo e sua inserção na Constituição Federal de 1988 vieram a traduzir os princípios de igualdade e cidadania negados aos afrodescendentes correspondendo, a cada um deles, os respectivos dispositivos legais:

i) Quilombo como direito à terra, enquanto suporte de residência e sustentabilidade, há muito almejadas, nas diversas unidades de agregação das famílias e núcleos populacionais compostos majoritariamente, mas não exclusivamente de afrodescendentes – CF/88 Artigo 68 do ADCT – sobre ´remanescentes das comunidades de quilombos; Quilombo como um conjunto de ações em políticas públicas e ampliação de cidadania, entendidas em suas várias dimensões – CF/88 – título I direitos e garantias fundamentais, título II, cap. II – dos direitos sociais;

ii) Quilombo como um conjunto de ações de proteção às manifestações culturais específicas – CF/88 – artigos 214 e 215 sobre patrimônio cultural brasileiro.

(Épa! É isto mesmo? O dispositivo se refere a manifestações culturais… específicas? Bem, vamos ter que cobrar que esta especificidade seja explicitada mais tarde.)

Mas o enunciado do dispositivo, mesmo sem explicitar nada da questão, por ele mesmo proposta, ainda insiste:

“…Assim, o artigo 68 dos Atos das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Federal de 1988 (ADCT) estabeleceu que:

“Art. 68. Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos.”

Ao que comentamos aqui (tentando imitar aquela ‘baba de quiabo’ dos advogados):

Ora, o que se chamou neste caso de ‘ressemantização’ parece com tudo menos uma alteração da semântica do que quer que seja. Fica claro que se tentou, tão somente aplicar o nome genérico de Quilombo (e, portanto banalizando o sentido estrito do conceito) a uma outra figura jurídica, inclusive já existente, qual seja o ‘direito genérico das populações afro descendentes (e não exatamente quilombo-descendentes no sentido lato) à posse da terra.

Convenhamos que este direito à posse da terra é por demais genérico e redundante. Que se danem os regulamentadores! (aqueles que vão ter que dar seu jeito para dar nomes aos bois.)_ Parece nos dizer, curta e grossa, a nossa ‘boazinha’ constituição de 1988, certo?

Em suma, com a nítida finalidade de ampliar o leque dos beneficiários (quem pensou esta estratégia tão ingênua?), não se mudou apenas o nome da coisa, mudou-se a coisa de nome, o que é muito diferente e não significa, de modo algum ‘ressemantização’.

Ressemantizar’ seria adaptar o conceito à nossa época, sem desconsiderar (ou ‘ressignificar’ aleatoriamente) aspectos definidores – como a cultura ‘tradicional’ destes segmentos, por exemplo. Afinal, o dispositivo determina ou não determina a defesa de manifestações culturais… específicas?

Ao que nos parece, da forma como está proposta no dispositivo – que se pretende um instrumento legal – a medida acaba não tendo aplicabilidade jurídica especial alguma, sendo facilmente desqualificada por qualquer boa banca de advogados inimigos da causa, já que nele, no dispositivo, poderiam estar abrigados todos outros segmentos… ‘étnicos’ (o que, aliás, o próprio dispositivo admite em seu texto ser um critério vago), não conferindo à medida força alguma para fazer valer os direitos deste ou de qualquer grupo…’étnico’ em particular.

Nas barras frias de um tribunal em suma, baseado apenas em semelhantes argumentos tão pouco jurisprudenciais, um grupo ‘majoritariamente’ formado por quilombolas remanescentes, não teria, realmente chance alguma.

_”Terra para negros ex-quilombolas!” _ Será preciso dizer, com todas as letras, de forma cabal, com palavras passíveis de serem compreendidas, comprovadas e transformadas em lei.

Ora, é claro que esta conversinha de ‘ressemantizar’, ‘ressignificar’ tudo – por mais bem intencionada que seja – só podia dar no que deu.

Quem dá nome aos bois?

“Quem pariu mateus que o embalance”

É fácil falar, criticar, cobrar assim em cima deste muro de lamentações. Eu sei também que é preciso ir devagar com este andor. As intenções da maioria dos envolvidos são boas e as suscetibilidades são frágeis demais diante de críticas mais ácidas. Todo mundo quer ser o santo padroeiro desta história.

Sabem vocês, contudo, tanto quanto eu, que das melhores intenções está lotado inferno.

Porque esta questão não anda? Será que está planejada para não andar mesmo? Culpa desta desmobilização impressionante do outrora combativo Movimento Negro do Brasil, que teria emprestado para o Movimento Social como um todo, tornando genérica, esta bandeira que lhe era tão cara e exclusiva?

Seria culpa dos advogados, juízes e legisladores em geral que não conseguem entender a necessidade de se associar Justiça Social com Diversidade étnica? Ou seria culpa dos técnicos, antropólogos e historiadores, envolvidos em bizantinas questões acadêmico-conceituais que os levam a ideologizar, questionar  e ‘ressignificar’ o conceito de tudo nem sempre com as mais claras intenções?

Como nos diz um entendido sobre o tema:

“_ …esse assunto é o maior tabu entre os antropólogos. Existe digamos um código secreto, um espírito corporativo, uma pretensão de reserva de mercado para aqueles que lidam com a tal antropologia aplicada…

Ih! sai de baixo! Mais caroço à vista.

…Bem, mas isto é assunto para outras mangas num post que faremos logo a seguir (leia aqui o POST #02). Enquanto isto vão pensando aí que a pobre da bezerra ainda não morreu.

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(Em tempo: A palavra angu também vem de algum modo do Kimbundo, sabiam? Penso que vem de ‘iangu’ que quer dizer capim – ou couve picadinha – aquela que, além do caroço, engrossava o dito cujo na cuia do escravo. O engraçado é que a palavra não vem diretamente de ‘fubá’ não, embora ‘fubá’ também venha do kimbundo ‘fuba’, farinha de milho.

Recomendo contudo muito cuidado com os dicionários. Kalombo, por exemplo quer dizer hoje em Angola, literalmente, ‘mulher infecunda‘. A língua é a mãe de tudo, ou seja: Tem gente aí que precisa rever, totalmente os seus conceitos etimológicos… e ideológicos com urgencia. )

Ressignificar-se, diria.

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Depois o papo segue – e esquenta mais – Achei por bem linkar aqui a matéria fedida da revista ‘Veja já que os leitores mais ligados ao tema vão estrilar e com razão.

Calma rapaziada. Uma coisa a gente precisa reconhecer: para um oportunista agir é necessário que alguém crie a oportunidade, certo?

Ajoelhou? Tem que rezar.

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Fui mas volto já.

Spírito Santo
Maio 2010

A ciência da porta na cara


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Svante Pääbo, à direita, e equipe. Os sequenciadores do genoma do homem de neandertal – foto: cortesia Instituto Max-Planck (com brincadeirinha do autor)

A peleja do jornalista – quase ruivo – contra o aposentado negão

Uma tragédia do ‘racismo à brasileira’

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(Eu, na porta do banco, atrasadão)

_ Não. Não tenho nada de metálico aqui na bolsa não, porque, não pode?)

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O papo é seguinte:

“…O sequenciamento do genoma do homem de Neandertal anunciado nesta quinta-feira por uma equipe internacional de cientistas revelou cruzamentos com o humano moderno e traz uma nova luz sobre as características genéticas humanas únicas na evolução..”.

Agora leia – ou veja – a maliciosa matéria do jornal hoje da TV Globo (dirigido pelo neo- racista Ali Kamel) Se você não for um racista enrustido e não tiver sangue de barata, garanto que se sentirá tão revoltado quanto eu.

(E não precisa nem ser barrado na porta do banco onde mantém a sua conta)

Siga-me então. Vamos analisar friamente a notícia real, sem o enfoque tendencioso de Kamel & Cia:

“…A proporção de material genético herdado dos neandertals é de cerca de 1 a 4 por cento. É uma proporção pequena, mas muito real de ancestralidade nos não africanos (grifos meus) hoje”, disse a jornalistas por telefone David Reich, da Escola de Medicina de Harvard, em Boston, que participou do estudo.”

Deixa eu ver se entendi (e atenção para as entrelinhas abaixo, pois nelas é que está o cerne das intenções desta nova tese algo geneticista ou… eugenista, sei lá):

A tese original diz: O homem (ou a mulher, no caso) de Neandertal teve relações sexuais com o homo sapiens. Isto gerou uma carga de 1% a 4 % do DNA do Neandertal no genoma do homem moderno. Sacaram? Então podemos seguir no debate, ok?

(E eu ainda na porta do banco, duro, puto e constrangido

_Não sacaneia!Será que aliança de casado faz a porta apitar? Moedas?Tem um clips no meu bolso. Será que isto apita?)

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Ora, se o neandertal é um ‘homem’ estamos falando então do cruzamento entre duas espécies de seres humanos, certo? Um supostamente originado na África outro supostamente originado na Europa. E daí? Até aí morreu Neves.

No entanto, dita assim, bombasticamente a tese passa a ter um forte sintoma de ser dissimuladamente racista (ou está sendo deliberadamente distorcida na imprensa – como é o caso flagrante da TV Globo de Ali Kamel – para este fim), ou seja, parece que para alguns insanos racistas (como os deste link) a notícia serve para desmontar na cabeça dos mais desavisados, a tese científica que provou originalidade do genoma africano na raça humana. Sugiro que a notícia seja vista então com certas ressalvas, só por conta deste viés escorregadio.

Ressalvemos pois:

Para início de conversa não é preciso ser cientista para se saber que esta possibilidade (a do entre curso sexual entre mulheres ou homens oriundos da África com seres algo semelhantes oriundos da Europa) é perfeitamente factível. Aliás, estudos muito recorrentes e pertinentes já aludiram antes a possibilidade cientificamente provável do homem de Neandertal, o Homo Erectus e o homo Sapiens terem tido um período de certa convivência, uma certa contemporaneidade com evidente entre curso sexual entre uns e outros.

(Vale dizer para não perder o ensejo da graça que a transa sempre foi livre entre seres da mesma –ou quase- espécie – humana, certo? – porque esta é a lei mais básica da natureza. Vamos combinar inclusive que chega até a ser estranho que só tenham descoberto isto agora logo, também aí nenhuma novidade).

(E eu lá. Barrado , morto de vergonha. Uma fila enorme atrás de mim)

_ Abre esta porta, porra! Que trava automática é o cacete!Tô vendo que é o guarda ali que está travando!

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O que não está sendo considerado ou dito, contudo – e aí está a capciosidade da notícia tornada sem graça alguma pela pauta boba de Kamel & Cia.- é que o que as teorias que embasam o surgimento do homem na África dizem respeito a fatos de nossa evolução ocorridos milhares de anos antes deste provável entrecurso sexual…‘inter racial’.

(E eu, voltando a dar graça à tese, colocaria até o Homo Erectus nesta história, não exatamente como – se me permitem – numa suruba a três, mas como uma possibilidade não menos remota de que outras espécies poderiam ter também existido e se entrecruzado numa boa. Vamos botar então um pouquinho do DNA do coitado do Erectus também neste nosso genoma, tá certo? Por que não?)

Ou seja (agora sem sacanagem ou brincadeira) uma coisa – a origem remota do homem moderno ser a África – não tem nada a ver com a outra – a existência alegada de que houve entre curso sexual entre homens de diferentes origens planetárias em certo ponto de nossa evolução.

Ponto.

(E aqui, mesmo sendo uma afirmação risível, repetimos a açodada interpretação pautada pelos jornais da Rede Globo de hoje – jornais como sabemos, dirigidos pelo indefectível racista de plantão Ali Kamel – leiam atentos às segundas intenções, por favor):

Cena na TV: Repórter do jornal ‘Hoje’, todo orgulhoso (não sei de que) forçando o tom da notícia numa ênfase totalmente fora de propósito:

_ …”Portanto, só não tem DNA de neandertal quem é africano puro. O resto, segundo os cientistas, é sim parente dessa espécie que ganhou fama de ser meio “cabeça dura”. Os cabelos ruivos, por exemplo, são considerados uma das heranças dos neanderthais…”

Oh! Mas que jóia da manipulação de uma notícia! Em que universidade se ensina este tipo de jornalismo tão dissimulativo, como se dizia antigamente…marron? Na PUC do Rio?

Alguém aí avise, por favor a este pessoal que faz a pauta dos jornais da TV Globo que os homens de neandertais são considerados sim pelos cientistas ‘burros’, ‘ignorantes’, ‘desprovidos de inteligência’  e não, de modo algum, ‘cabeças duras’, que é uma outra coisa, impossível de ser atestada cientificamente, querendo dizer algo como ‘teimosos’, ‘desligados’. Porque esta proteção com os neandertais?

Sim, os antepassados diretos dos europeus modernos são considerados pela ciência menos inteligentes do que seus semelhantes homo sapiens, que viveram, originalmente na África. Mas isto é muito relativo e, mesmo sendo uma fato inquestionável (ao menos por enquanto) não quer dizer, absolutamente que uns sejam inferiores aos outros.

(Ah…este papo da natureza relativa da cultura humana é velho pra caramba, não é não?)

Somos todos tanto Neandertais quanto Erectus e Sapiens, ora bolas! Somos parentes e é por isto que somos da mesma…espécie (cansativo explicar estas baboseiras óbvias, sabiam?)

E daí? Isto dói em vocês (pensando neles, os daquela fila do banco)? A esta altura da história do Brasil vocês ainda se julgam assim tão… europeus? Que doença, gente! Que recalque!Que paranoia estúpida!

(E, cá entre nós, este negócio de ressaltar tão ‘babaovisticamente’ os possíveis ‘cabelos ruivos’ dos caras então…(ui!). Esta doeu no meu fígado)

(Não riam agora. Ainda não)

(E  eu ali, travado, suando bílis. Os brancos lá, disfarçando, olhando para os lados)

Então ta certo. Sair da fila eu não saio. Tiro o cinto, tiro a prótese dentária da boca, tiro cadarço do tênis…

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Traduzindo (se é que é necessário) a distorcida pauta intencional da equipe de Kamel. O que eles querem subliminarmente nos enfiar guela abaixo é o seguinte:

Ninguém (sugerindo que aqui no Brasil também, é claro) poderia reivindicar ascendência ‘puramente’ negra já que não existe esta ‘pureza’ racial desde o tempo das cavernas. A existência de DNA dos caucasianos homens de neandental (subrepticiamente o padrão eugênico do ‘homo arianus’ de Kamel & Cia., a julgar pela euforia com que a notícia foi dada) provaria isto.

(Observem também que a matéria não repete a taxa mínima deste DNA quase residual existente no genoma do neandertal sequenciado. Na verdade a pauta, sutilmente enfatiza exagerando, os 4%  e omitindo, cuidadosamente a faixa mínima e irrisória de 1%, que é perto do nada)

Gracinhas! O que torna mais risível ainda a tendenciosa pauta, contudo é que, se invertermos a ordem dos produtos (da tese no caso) poderíamos afirmar, do mesmo jeito – e sem mentir em uma vírgula sequer – o seguinte:

_ CIENTISTAS DESCOBREM QUE O HOMEM MODERNO TEM  DE 96 A 99 POR CENTO DO GENOMA DO HOMEM SAPIENS (que como se sabe é originário da África)!

_ POR CONSEGUINTE, A MESMA DESCOBERTA DÁ CONTA DE QUE TEMOS… APENAS… DE 1 A 4 POR CENTO DO GENOMA DO HOMEM DE NEANDERTAL (que é originário da Europa)!

Viram? Racismo não tem sentido. Eu já disse: Somos todos negões!

(Pronto. Podem rir agora)

Kamel & Cia. Apelam, é o que se vê, para o mais puro dos sofismas, como sempre fizeram (eles, os de O’ Globo já tentaram desqualificar a negritude evidente de Pelé e de nossa campeã olímpica Daiane dos Santos com este papo, lembram? Elizeu Fagundes de Carvalho, um biólogo da Uerj é o ‘cientista’ de plantão do grupo de Kamel & Cia., responsável pela difusão destas teses ‘científicas’ sofismáticas, eugenistas e estapafúrdias, dignas de um Mengele às avessas).

Invertem, distorcem o sentido da tese dos cientistas europeus e confundem a população, provavelmente no intuito de atrapalhar a presente discussão sobre cotas raciais e ações afirmativas para negros no Brasil. Jornalismo – e ciência – sem ética de gente  (com o perdão da franqueza) totalmente indecente e covarde porque não nos dá nem a chance, o direito de resposta para refutá-los, do alto que estão na cúpula de uma das maiores empresas jornalísticas do país.

O que me espanta na cara de pau deles é que a questão na verdade é por demais óbvia e nada, tem de surpreendente, pois há uma diferença de milhares de anos entre o surgimento efetivo do homem (que teve que se dar, primeiramente em algum lugar, específico, que se provou ser a África) e a sua dispersão pelo resto do mundo o que, muito provavelmente, gerou espécies subsequentes, variantes que se tornaram diferentes entre si por conta de fatores ligados a sucessivas adaptações ao meio ambiente. Qualquer ginasiano devia saber disto.

Darwin, velho de guerra – salvo as revisões dos ‘criacionistas’ e outras que não conheço – provou como isto se deu, de forma bem clara e cabal.

Aliás, causa enorme estranheza esta aparente insistência de certas correntes ideológicas e/ou pseudo cientificas na tentativa de legitimar a negação teórica da origem africana dos seres humanos. Qual é o problema? Porque esta aversão a sermos negros? Nós nem sabemos ainda se estes nossos antepassados foram, realmente negros como os africanos atuais. E se a a ciência um dia descobrir (como descobriram penas em dinossauros)  que eles foram louros, de olhos azuis? Será que Ali Kamel & Cia. iriam mudar, de mala e cuia, sua ascendência da Europa para a África?

Gente esquisita esta, não é não?

Há inclusive dados históricos bastante confiáveis – por serem do mesmo modo óbvios – de que a dispersão do homem rumo ás terras geladas do norte da Europa (o genoma do neandertal agora sequenciado é da região da Croácia) só pôde se realizar após a descoberta do fogo.

Sem o calor do fogo – oh! Que obviedade ! – o homem morreria congelado no inverno.

Logo um longo período de adaptação – com sucessivas migrações sazonais para partes mais quentes do planeta talvez – deve ter sido o processo mais evidente das transformações físicas pelas quais o primitivo homem africano – provavelmente negro sim – se transformou no homem europeu e no homem asiático.

Eu mesmo visitando um museu na Europa (Viena), como um Darwin tardio, me dei conta disto ao ver ao mesmo tempo, um urso preto, um pardo e um branco. A resposta estava ali, na minha cara: Claro que o meio em que passaram a viver, migrando daqui para ali, foi que operou aquelas tão significativas diferenças nos ursos.

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(Eu, chutando a vidraça:_ Destravem a porta giratória agora, porra!)

_Vou tirar a roupa toda então!Porra! Caralho!

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Portanto, para encerrar esta ‘conversa de macaco’ (na boa gíria, conversa mal intencionada) de Ali Kamel & Cia, leiam vocês mesmos, parte do que os cientistas europeus por meio da revista Science, REALMENTE disseram:

“…De 1% a 4% do genoma humano (2% de seus genes) provêm do homem de Neandertal, que apareceu há cerca de 400.000 anos e se extinguiu há 30.000 anos, precisaram cientistas em um estudo publicado na edição deste 7 de maio da revista americana ‘Science’.

O Neandertal é assim o primo mais próximo dos seres humanos.

…essa transferência genética deve ter ocorrido de 50.000 a 80.000 anos atrás, provavelmente quando os primeiros Homo sapiens saíram da África, berço da humanidade, coincidindo com a presença dos homens de Neandertal no Oriente Médio, antes de se dispersarem na Eurásia.

O fato de os genes do Neandertal aparecerem no genoma de indivíduos de origem europeia e asiática, mas não entre os africanos, sustenta essa hipótese.

Além disso, não foi encontrado nenhum gene de Homo sapiens no genoma Neandertal sequenciado a partir do DNA extraído de três ossos fossilizados provenientes da caverna Vindiglia, na Croácia, e que datam de 38.000 a 44.000 anos. Os ossos pertenciam a três mulheres.

Os cientistas compararam o genoma neandertal com o de cinco humanos modernos procedentes da África Meridional e Ocidental, assim como de França, China e Papua Nova Guiné. Também foi comparado com o genoma do chimpanzé, cujo DNA é 98,8% idêntico ao humano.”

…”Na comparação, o Neandertal mostrou-se geneticamente idêntico ao humano moderno em 99,7%, e ao chimpanzé em 98,8%. O antepassado comum do chimpanzé com o humano moderno e seu primo Neanderthal remonta a 5 ou 6 milhões de anos atrás.
O homem de Neandertal e o humano separaram-se durante um período situado entre 270.000 e 440.000 anos, conclui o estudo, destacando que ambas as espécies eram muito semelhantes. Mas as diferenças são sobretudo interessantes.

…”Segundo Richard Green, “a decodificação do genoma de Neandertal é uma mina de informação sobre a evolução recente da humanidade e será aproveitada nos próximos anos”.

(Eu já sem a roupa. Saindo na porrada com os guardas. Um guarda atirando: Pôu! Pôu!)

A fila de brancos se dispersando rapidamente. Três PMs entram na agência, bufando.)

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Mas o que a tese dos europeus afirma, sem entrelinhas? Vocês sacaram?

Em suma, nada de muito novo na tese dos gringos, exceto que a nossa evolução teve uma história bem menos compartimentada (ou dicotomizada) do que se julgava. Ou seja, somos mais humanos e iguais ainda do que imaginávamos (o que, ironicamente lança mais obscuridade sobre tendências arcaicas e enrustidamente racistas como as de O’ Globo, Kamel, & Cia. Que alegam ser contrárias a existência de diferenças raciais, mas que usam isto com intenções nitidamente racistas, segregacionistas ou protelatórias – para barrar ações afirmativas )

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(Vou saindo. Na maca. O carro da defesa civil com luz vermelha girando e me deixando ainda mais tonto. Um montão de gente me olhando com aquela curiosidade mórbida, quase imbecil. Se querem saber, nesta ficção que fiz nos entreatos deste post eu não morri não. O tiro saiu pela culatra e o banco vai ter que me indenizar nuns…digamos assim… 50 mil paus.

É, mas foram babacas como estes que atiraram na cabeça do negão aposentado -vocês viram? – Ele usava um marca-passo, que é metálico, disseram que a porta travou. Mentira descarada.

O curioso é que, exatamente como no caso do aposentado, na fila de brancos da minha história fictícia ninguém se manifestou, repararam? Nem contra nem a favor. É muito comum isto. Ficam ali omissos, olhando para o relógio, se fingindo de mortos, se alguém puxar o mote são capazes até de aplaudir os guardas assassinos (enquanto isto o negão aposentado estava em coma irreversível).

E nesta Ali Kamel & Cia. Deitam e rolam.

Mas, não adianta. Tem nada não. Vade retro, rapeize do apartheid brasileiro!

O Homo Sapiens é negão, o Mengão é campeão e o Mengele já morreu! Quem manda aqui sou eu.

Spírito Santo
Maio 2010

Atenção: Veja o vídeo aqui e assine o ‘Manifesto Porta na Cara

EXU CHIBATA – Resenha da peça


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(Na foto João Cândido é conduzido preso por um oficial da polícia – atentem para o sorriso orgulhoso de João diante da atenção dos populares em torno, expressando abertamente a sua admiração para com o ‘Almirante Negro’)

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Em 2010 se comemorará 100 anos de um dos incidentes mais importantes de nossa história: A Revolta da Chibata, rebelião de marinheiros ocorrida em 1910, liderada, entre outros por João Cândido Felisberto, timoneiro do maior navio de guerra do Brasil na época e conhecido popularmente como o ‘Almirante Negro‘.

É bastante provável que as comemorações deste fato tão empolgante – e tão significativo para a afirmação da nossa democracia –  empolguem o país inteiro, de norte a sul, marcando o reconhecimento definitivo e inquestionável de João Cândido Felisberto como um dos mais importantes heróis da nossa pátria Brasil.

A montagem da peça Teatral resenhada abaixo por seu próprio autor, inspirada neste empolgante acontecimento histórico bem que poderia ser um destes eventos.

Com toda certeza contudo, a peça poderá ser vista em Abril no teatro do Centro Cultural Laura Alvin, no ciclo de leituras dramatizadas de teatro ‘Negro Olhar‘ (veja o site do projeto neste link)

No elenco as emblemáticas figuras de Ruth de Souza, Haroldo Costa, Milton Gonçalves além de uma garotada da pesada (atores e atrizes) selecionados especialmente para a ocasião.

Na programação também constarão textos dos dramaturgos Aimè Cesaire (Martinica, Caribe) e Amiri Baraka ( EUA). Não percam!

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Exu Chibata é uma peça teatral escrita em 1994 (leia texto integral neste link) que tem como proposta principal o estabelecimento de um diálogo estético e dramatúrgico entre algumas das linguagens e mídias mais em voga na época em que se passa a ação do espetáculo (início do século 20, entre 1904 e 1910) época de grande efervescência cultural e artística contrapontuada por grandes conflitos sociais.

O eixo dramático principal da peça envolve os incidentes ligados a chamada Revolta da Chibata, comandada por João Cândido Felisberto (o ‘Almirante Negro’) contextualizada neste conturbado período no qual, enquanto no Brasil se tentava afirmar a ferro e fogo o regime republicano recém proclamado, o mundo europeu começava a se agitar com as graves divergências que culminariam com a sangrenta primeira guerra mundial.

A epoca é também marcada fortemente pelo doloroso processo de transição das relações sociais na cidade do Rio de Janeiro, na qual uma imensa massa populacional negra, ainda mal refeita da escravidão abolida há apenas uma década, começava já a experimentar as insidiosas restrições do recém inventado racismo.

Os aspectos principais, referentes a proposta estética sugerida para o espetáculo, estão ligados também aos elementos mais aparentes da chamada Belle Époque, do Cinema Mudo, da Mímica e da Pantomima (linguagens que inserem o espetáculo no âmbito de um teatro essencialmente imagético, no qual as falas não são exatamente fundamentais).

Neste mesmo sentido primordialmente imagético, a proposta tenta se associar também a certas formas e maneirismos do Circo convencional e do popularíssimo Circo-teatro (forma implantada no Brasil por atores e palhaços geniais como Benjamim de Oliveira e Eduardo das Neves). São importantes também a utilização de certas soluções cênicas baseadas nas estéticas mais evidentes do carnaval de rua do Rio de Janeiro, nos rituais do Candomblé e na obra do artista plástico e ex-marujo Arthur Bispo do Rosário.

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EXU CHIBATA –

Qual cisne Branco em noite de lua / Peça Teatral de Spirito Santo Registro Biblioteca Nacional 2349087 / 1994

Rio de Janeiro 1994

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Boladinho foi à luta


boladinho1
Conto

Trabalho com meninos, muitos, todos os dias. Tanto que, às vezes, até me
confundo e penso que sou menino. Eles também se confundem e, das duas
uma: ou me faltam com o respeito devido, me zoando, como se eu fosse
mesmo mais um entre eles, ou me seguem, cegamente, como se eu fosse o
mais esperto, o líder deles. O cara.

Acho que foi por isto que resolveram me lotar aqui, nesta delegacia, a DPCA.
Este que vocês estão vendo, sentadinho ali, no banco, é um desses da rua,
entre muitos, nem tantos assim eu diria. Está murchinho no seu canto, mas,
não se iludam. Não é flor que se cheire. Ainda ontem, ou anteontem, esbarrei
com ele na Praça XV:

_”Aí, ô tio! Dá uma força aí. Só pra mim comer um negóço.”

Fazer o quê? Paguei uns saquinhos de amendoim pra ele. Do jeito que estava
com thinner e crack até na alma, não ia arrumar nada. Disse isto pra ele, mas, qual o
quê. Só grunhiu meio que dizendo:

_” Qual é, tio? Tô legal. Só tô com fome.”

Quando cheguei, hoje cedo na delegacia ele já estava lá, dormindo no banco.
O pessoal da noite me disse que ele foi pego no Leblon, doidão, no meio de um
assalto num sinal de trânsito. Essas coisas. Tropeçou na fuga, caiu e ficou ali.
Foi fácil pegá-lo. Tiveram que trazê-lo no colo. Chegou dormindo, chupando o dedinho. Só se mexeu de manhãzinha, quando alguém me chamou, gritando:

_” Detetive Ronaldo! Detetive Ronaldo! Telefone!”

Vou tomar o depoimento dele agora mesmo, antes que durma de novo, a
praga. Os senhores e as senhoras esperem aqui, por favor. Não demora muito
não porque é sempre a mesma história. Já sei de cor e salteado. Esta aqui é a
famosa DPCA. Anh? Já falei? Pois é isto. Fiquem à vontade. Por favor.

Vou lá acordar o coitadinho. Dou um tapinha no ombro, de leve, só pra ele
ficar esperto e espero. Ele vai me olhar meio assustado, com aquela cara de
criança, que eles só mostram assim, nestes momentos distraídos, entre o sono e a morte. Vai limpar o olho remelento, me olhar com uma cara de enfado,
maior do que o meu. Tédio e tudo o mais. Saco, desdém. E só aí vai se
levantar.

Pronto. Levantou-se enfim. Licença. Vou lá interrogar a peste.

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_” Fala moleque. Conta aí.”

Boladinho fala:

_” Tem madame que desvia de mim que nem diabo desvia da cruz. Acreditam
nessas histórias de que os dimenor carrega caco de vidro, gilete, estilete,
estas coisas todas para cortar as vítima. Vítima? E eu? Sou o que então, assim magrelinho, com os cambitos fininho, andando pela rua sem que nem
porque?Agora então é época. Frio. Os dente batendo igual aos de uma caveira. Os cambito estalando, um no outro, igual a dois graveto balançando no vento.

Tréc, tréc, tréc! Vareta de pipa sem papel, sacumé?

Ah… Não fui eu não! Quer dizer, pode até ter sido, mas, se foi, foi sem querer.
Doidão do jeito que eu tava… De que? De thinner, sacumé? Que é que o
doutor queria que eu fizesse? Cheirado eu faço coisas que até Deus duvida.

Abilolado, berimbolado, Faço qualquer negóço. Até com caneta Bic eu já
roubei, sacumé? As madame acha que eu vou furar a goela delas e pronto.
Ficam gelada, paralisada. Dão bolsa, dão relógio, dão sapato, dão óculos. Se
insistir dão até as calcinha. Madame se assusta fácil. Madame vê muito filme, muita televisão.

A primeira vez que fui para o Padre Severino foi assim. Sorte que eu, sem
querer, agredi a vítima. Cheguei no Severino cheio de moral, sacumé? Escapei de virar mulherzinha de um daqueles, mais velhos. A madame que me perdoe, mas, desta sorte, por conta de ter agredido a pobre, eu escapei.

E chamam aquilo lá sabe de que? De Escola! Vai entender? Lá tem corredor
gradeado, tem cela, tem cama de cimento. Tem guarda com pastor alemão.
Tem fuga e tem rebelião. Escola de que? Fala sério doutor. É igualzinho
adonde meu pai tá guardado, Bangu 1, 2, 3, sei lá quantos Bangu tem.

Agora não. Tomei prumo. Magrinho do jeito que eu tô, com esta fraqueza no
pulmão, no coração, não dá pra ficar tirando muita onda por aí. Uma moça aí outro dia, uma médica, doutora, enfermeira, não sei bem, me disse que se eu continuar nessa de thinner, meu coração vai estourar. Tá. Tô estoporado, mas, e daí? Thinner e crack mata a fome. Se eu não matar ela, é ela quem vai me matar, ora. Sacumé?

Ontem rodei na Lapa, em Copa, no Leblon e sabe o que comi? Um pedaço de
pizza que estava aparecendo na borda da lata de lixo. Dividimos em três.
Ainda tivemos que espantar uns vira lata, que olhavam de olho comprido pra pizza. Sai pra lá, mermão! Vocês são cachorro. Nós é gente, rapá! Sai! Sai!

Tô fraquinho mesmo. De vez em quando falta ar. A cabeça revira. Esta noite
mesmo, lá nos Arcos, tava rindo à toa com a rapaziada, cheiradão e, de
repente caí, tombei, sumi. Desmaiei ou dormi, nem sei.

Quando eu vejo um bichinho assim, que nem eu tô, osso só, com os olhos
fundos, eu fico triste. Dou uns afagos, uns agrados, uns carinhos. Não estes
vira lata de ontem. Isto não. Ali era eles ou nós. Eu digo assim, quando estou numa boa. Eu faço carinho sim. Agora, vê só essas madame. O que elas fazem? Enxotam a gente. Fecham o vidro do carro, só faltam cuspir, jogar pedra. Será que nós é bicho e elas é que são gente?

Pô, doutor! Medo nós também tem, mas, é gato contra rato, sacumé? A gente também tem direito de sobreviver.

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O pessoal que espera olha para mim, impaciente. São como eu. Não estão
muito interessados em historinhas de menores carentes, infratores,
transgressores, em risco social ou em conflito com a lei. Querem uma solução
das autoridades. Pronto.

Vocês esperem só um instantinho, por favor. Já estou terminando aqui, tá
bom?

Boladinho, o seguinte: Vou te liberar, tá legal? Aqui é a DPCA, meu filho.
Daqui, com a bronca que tu meteu, com a queixa que a madame fez contra tu,
cheia de testemunhas… Vai voltar é pro Padre Severino, meu chapa. Sem
choro nem vela. E lá, sabe Deus o que te espera. Tu não vale nem um picolé.
Não quero este remorso na minha vida. Mas, me faz um favor. Sai da minha
área, tá? Some do meu caminho. Vai à luta!

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Pronto, pessoal. Detetive Ronaldo às ordens. Podem falar. Sentem-se, por
favor. É queixa de assalto, não é? Já estou sabendo. Como era o moleque?
Preto? Branco? Como este que saiu daqui agora? Teve agressão? Alguma
vítima ferida? Podem falar. Aqui é a DPCA, Delegacia de Proteção à Criança e
ao Adolescente.

(Boladinho saiu de mansinho. Pegou o cobertor que havia largado no chão, ao
lado do banco e desapareceu. Mas antes, O detetive Ronaldo se lembrou de
uma coisa essencial. Importante demais para o inquérito)

Boladinho! Fala aí moleque! Qual é mesmo a tua idade?

_ “Ah.. Não sei direito. Acho que uns sete pra oito. Já tô velho nesta vida,
Doutor. Tchau, Valeu aí, tá? Vou à luta!

Spírito Santo
Rio, Maio 2007