o Sapoti, o Gibi e o Guri


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0 pai José Cyrylo do Espírito Santo, mãe Geny Justino do Espírito Santo e eu, Spirito santo, o guri

0 pai José Cyrylo do Espírito Santo, mãe Geny Justino do Espírito Santo e eu, o guri

Na foto o pai, a mãe e eu guri

Seriam as lembranças da infância um caderno de matérias tatuadas em nossa mente, coloridas e nunca mais esquecidas ou seriam, por outro lado, um frio cárcere de memórias-cicatrizes, tão desprezíveis que, por mais que se tente, não se conseguirá apagar jamais? O meu primeiro fragmento de lembrança deste tempo, pelo menos de início, até que é doce e bom:

Um sapoti caído do pé numa quente madrugada.

As frutas caíam no chão de terra do pátio do colégio interno, ainda úmidas de orvalho. Eram o prêmio para os mais cedo despertos – e lépidos- primeiros a pular do beliche e correr para fora do alojamento.

Não sei quantas vezes fui o premiado. Do que sei bem é o que ficou em mim daquele amarelo manchado da casca do sapoti, em sua evocação de uma memória-delícia, sinônimo de vitória alcançada, marcada por uma única mácula: Os dentes do morcego que mordiscara a fruta, antes de mim, derrubando-a do pé.

A marca do morcego passou a ser o signo das lembranças mais amargas, de tudo que me lembro de ruim naquele tempo.

Do dia em que entrei no colégio interno pela primeira vez, por exemplo, não lembro quase nada. O morcego mordeu este pedaço. Existe um apagão irremediável nesta parte da história.

Tenho deste dia apenas uma vaga e desagradável sensação de ansiedade, que logo virou terror, assim que regressei ao colégio, depois de ter ido, pela primeira vez, visitar a família em casa. Ânsias de vômito, náuseas. Esta é a parte mais doída das lembranças.

A primeira memória nítida que me vem, logo de saída, é a do ponto de bonde onde saltávamos, eu e Geny minha mãe, na Rua Hadock Lobo, na Tijuca, bem ao lado de um importante colégio de ricos e remediados da época: o Instituto Lafaiette.

O prédio do antigo instituto está lá, até hoje, demarcando a geografia de minhas lembranças. Passo sempre pelo local, mas, não consigo encontrar nenhum vestígio do Colégio Vera Cruz (nome oficial da Escola-Prisão) que me parece, ficava mesmo ao lado deste imponente Instituto.

A primeira imagem fugidia, vaga ainda, do que seria uma escola, lugar onde se aprende coisas, foi até mais agradável ainda que o sapoti. O nome já dizia tudo: Jardim de Infância.

Havíamos mudado da casinha velha do bairro de Marechal Hermes que, simples e bela naquela sua arquitetura artesanal, pode ser rememorada pela foto que o soldado José Cyrillo, meu pai, tirou dela, com a máquina Kodak caixote que trouxera da Itália.

Minha tia-irmã Corina, minha irmã Virgínia e eu, feliz da vida, pouco antes da escola-prisão

Minha tia-irmã Corina, minha irmã Virgínia e eu, feliz da vida, pouco antes da escola-prisão

 O novo bairro foi Campo Grande, na antiga zona rural da capital federal. Foi lá o curto, porém intensamente bem vivido, tempo do Jardim de Infância.

Lembro do cheiro do pano do avental novinho em folha, com as minhas iniciais bordadas a ponto de cruz. Lembro de um chapeuzinho de palha com uma fita (azul ou vermelha?), xadrez, enlaçada no cocoruto. Lembro da folha de um livro de colorir com um pintinho impresso, vazado e sem cor que eu, maravilhado, pintei com o lápis amarelo (soube, imediatamente, ali, no momento em que inseri as virtuais peninhas amarelas naquele pintinho que, de algum modo, ‘desenharia’ coisas pelo resto da vida).

Tomado de paixão pela caixa de lápis de cor, levei para a sala de aula, no dia seguinte, um postal que meu pai trouxera da Itália e copiei, pela primeira vez, algo que saindo dos meus olhos, fixava-se no papel, como mágica.

Incrível descoberta: Aprendi ali que a rabiscada proa, linda e imponente, de uma gôndola veneziana, poderia me dar o poder de contar para os outros, algo sobre a vida do principal herói da ‘minha’ guerra mundial pessoal.

Pena ter sido tão breve a minha estada naquele jardim de prematuras e indeléveis felicidades, minha derradeira escola convencional.

Logo, tudo escureceu quando em 1951, sequelas do alcoolismo, proveniente talvez do que se chamava na época ‘neurose de guerra’, me levaram o pai e, de roldão, o meu mundinho de criança feliz.

… ‘Criança feliz, feliz a cantar
Alegre a embalar, seu sonho infantil

Ó meu bom Jesus, que a todos conduz
Olhai as crianças do nosso Brasil…’

Não sei porque, nunca mais soube se foi um sonho ou uma miragem a lembrança que marca o começo de tudo na história da primeira escola, depois do Jardim de Infância. Datada, a lembrança que marca o momento preciso de minha ida para a Escola-Prisão, ali por volta dos meus cinco anos de idade, é uma canção insistentemente repetida no rádio.

Desta imagem, fantástica, eu me lembro, como se fosse hoje: Estava gravada no céu azul que encobria o pátio do colégio e foi, certamente, criada em minha cabeça pela visão fortuita da página de jornal de algum inspetor e pelo rádio, que tocava aquela música que para mim ficou, para sempre, associada à uma idéia de tristeza e melancolia.

..’.Crianças com alegria
Qual um bando de andorinhas

Viram Jesus que dizia:
– Vinde a mim as criancinhas…’

Entre um flash e outro da trágica notícia, entremeada com a majestosa voz do falecido cantando, eu ia compreendendo que um tal de Francisco Alves, uma celebridade da época, autor e intérprete daquela canção, havia morrido num acidente automobilístico.

O ano marca por isto, certamente, o início da minha jornada de habitante daquele estranho mundo, engolfado que fui, pelo que soube ser bem mais tarde, uma unidade conveniada do sistema SAM, Serviço de Assistência ao Menor, famigerada instituição criada no segundo governo de Getúlio Vargas para abrigar meninos pobres e órfãos, entre os quais os considerados infratores ou delinqüentes, eram encaminhados para a principal unidade do sistema: A Escola XV (cujo imponente prédio reformado, abriga hoje uma razoável escola pública, no bairro de Quintino, no Rio de Janeiro).

O fato é que, ingenuamente solidário diante das dificuldades de minha mãe viúva, além de influenciado pela foto de uma freira cuidando de um feliz menino – vestindo um paletozinho tweed – no Anuário as Senhoras de 1951, ingressei, pois, em 1952 no Colégio que, logo pude perceber, era uma reles Escola-Prisão, sempre temeroso de, caso cometesse alguma falta – como vi alguns cometerem – ser transferido, para Escola XV, o Presídio-Escola de todos os meus pesadelos.

Esta era – como ainda hoje é, ou muito pior – a lógica crua do sistema de ‘assistência’ às crianças pobres do Brasil.

Fosse a minha infância um tenro sapoti, o SAM seria, com certeza, o mais infame dos morcegos.

O traço do Gibi

Não sei o que deu nela, na minha mãe, naquela ocasião. O que de bom teria ocorrido naquela época? Será que ganhou a milhar no jogo do bicho? O que mais poderia ocorrer na vida de uma modesta costureira suburbana?

Talvez ela tivesse conseguido aquele seu primeiro emprego de costureira profissional, num ‘atelier’ de uma daquelas ‘mademoiselles’ com falso sobrenome francês que, motivadas pela abertura na cidade de elegantes magazines de roupas ‘prontas’, encheram de fabriquetas (confecções) o centro da cidade, criando uma enorme demanda por costureiras, bordadeiras, chuleadeiras, overloquistas, etc.

O que sei é que, na visita daquele dia ela não me levara apenas o modesto farnelzinho, com três ou quatro peras embrulhadas, delicadamente, num papel roxo e o saco da adorável rosquinha de coco marca ‘Seara’.

Ela me apareceu desta vez, com uma enorme mala de papelão novinha em folha, forrada internamente, guarnecida com belas cantoneiras pintadas de marrom brilhante, cheia de tudo que ela imaginou que me extasiaria de felicidade.

E quem não se extasiaria com duas latas de leite condensado, muitos sacos de biscoitos sortidos – entre os quais os saborosos Seara’ – peras (e também maçãs) embrulhadas no papel roxinho de sempre, e tantas outras iguarias?

E as muitas revistas de histórias em quadrinhos? E os livros que, apesar de amarelados de tanto terem sido usados, eu – já a esta altura, razoavelmente, alfabetizado – muito apreciava (principalmente, quando eram novelas policiais do Arsène Lupin ou romances, como o inesquecível Robinson Crusoè do Daniel Defoe) livros que eu acho, ela garimpava em sebos do centro da cidade.

Caixa de Pandora que era, aquela mala, quando aberta, revelou-se um portal de mil e um encantamentos, glória absoluta para um menino que necessitava, ardentemente, de uma saída qualquer para um mundo fantástico, um portal através do qual ele pudesse escapar daquela vidinha humilhante de órfão na Escola-Prisão.

Foi como se um mundo inteiro de cores e delícias, encaixotadas naquela mala, explodisse, igualzinho como explode um feliz boneco-palhaço de mola, nos levando do susto à gargalhada, pulando da caixa presenteada, exatamente, para nos fazer sorrir alguma felicidade fortuita.

Finda a visita, levei correndo a mala para o pátio. Onde a guardaria? Não tínhamos ali armários ou qualquer coisa parecida com privacidade, além do colchão imundo e da colcha encardida de nosso beliche.

Andei com aquela mala para baixo e para cima, pelo pátio durante todo o dia, sentando nela entre uma e outra brincadeira. Dormi com ela, transformando-a num duro travesseiro que não atrapalhou, nem um pouco, os meus irrefreáveis bons sonhos de menino rico por um dia.

Foi logo que acordei que decidi guardar a mala naquele vão meio escondido de um corredor do pátio. Naquela minha estúpida inocência de guri, aquele me pareceu um covil bastante seguro.

Gelei quando ouvi a gritaria vindo exatamente do vão do corredor. Corri para a turba que, ao me ver debandou completamente. No chão, a mala saqueada, em frangalhos. Não chorei. Num colégio interno, mesmo tendo apenas oito anos de idade, um homem não chora.

Minha mãe, a partir dali me trouxe muitas e muitas outras revistas e livros. O trauma da mala no entanto, ainda hoje me acompanha, tremo e tenho sensações de perda irreparável, só de lembrar daquela algazarra ensandecida dos saqueadores.

Os meus sonhos de voar devem ter começado também ali, naquela época da mala. Eram sonhos muito reais. Difícil aceitar que não fossem a mais pura realidade.

Dava um pulo para o alto e levitava um pouco, ainda de pé. Dava outro salto e conseguia me manter flutuando no ar. Subia, alcançava as nuvens e ficava por lá, passeando pelo céu, sentindo o frio gostoso da brisa úmida que transpassava as nuvens. Como continuei a tê-los, por muito tempo, sei que eram claros sonhos-desejo de fuga, sonhos de liberdade.

Assisti a várias fugas reais, mas, nunca tive coragem para fugir. Quando olhava o muro alto tremia de medo e me contentava em ficar imaginando o fugitivo feliz, com a adrenalina a mil, olhando para trás, até o bonde sumir numa esquina. O barulho das rodas do bonde martelando os trilhos ficou sendo para mim, para sempre, o som exato, trilha sonora perfeita daqueles sonhos, quase filmes, sobre Liberdade.

(Memórias e sonhos são mesmo como cinema, alguém já disse)

Assim, como uma lembrança puxa uma outra e, a propósito, me lembrei também do cineminha do colégio, que acontecia, de vez em quando. Os sinais de que haveria filme naqueles dias eram claros: Freiras, peças raras por ali, atravessavam o pátio de tardezinha, rumo ao galpão onde um inspetor montaria mais tarde um velho projetor Bell & Howell 16mm.

E nós ali, com os olhos brilhando como estrelas ou pupilas de gatos na noite.

A roupa do Guri

Era uma roda com todos os meninos nela, eletrizados com algo que olhavam no chão do pátio.

Me enfiando entre os mais pequenininhos que eu, fui vislumbrando a imagem impressionante de um cawboy rabiscado no chão, com dois enormes revólveres apontados para a assistência muda.

O ‘rabisco’, vestido com botas de cano longo, lenço no pescoço, cinturão de fivela, fumava, displicentemente um cigarro, do qual esvaía uma fumaça mágica, porque nada mais era que um risco na terra seca. Não só a fumaça, tudo havia sido riscado com um imundo e reles palitinho de fósforo, que o orgulhoso e emocionado artista achara por ali mesmo, no chão.

Talvez, não me lembro, tenha me vindo à cabeça nesta hora, a imagem do pintinho do jardim de Infância. O certo é que senti, ali, de novo, o inexplicável prazer, inoculado que fui pelo vício da descoberta, de que se pode sim, contar coisas para os outros, conversar com as pessoas por meio de simples imagens, signos, rabiscos, estas coisas.

Se podia escrever tudo que quiséssemos, sobre o mundo, sobre a vida, apenas com rabiscos, foi o que aprendi naquele pátio feito escola. Grande milagre da vida.

Não sei por quanto tempo o tal menino artista ficou no colégio. Me lembro, contudo, de ter visto muitos outros desenhos dele expostos no chão do pátio. Me lembro, aí sim, bem mais claramente que, pouco tempo depois, chegou a hora de desenhar, eu mesmo, a minha própria obra prima admirável:

Um galeão, copiado de uma imagem do gibi do Fantasma-que-anda, foi o que fiz. Exatamente o galeão da primeira história da série, na qual o primeiro Fantasma, chegava na praia próxima à selva de Bengala, quase morto, depois de ter escapado de um navio de sórdidos piratas, que era visto na gravura, ainda ancorado ao largo.

E lá estava eu, me sentindo o rei de todos os mares da imaginação, olhando não menos emocionado que o meu inspirador, o meu próprio rabisco sendo admirado pela intrigada garotada.

O mais belo e incrível de tudo é que, os desenhos que fazíamos, eu e meu inspirado antecessor (como numa disputa de artistas plásticos emergentes), ficavam intactos no pátio por dias e dias, sem uma pisadinha sequer.

O turbilhão e correrias e brincadeiras que fazíamos (entre as quais o violento jogo da ‘Carniça’ predominava) ocorriam ao largo dos desenhos que iam se apagando e esmaecendo apenas com o tempo, lentamente, soprados por alguma leve brisa de fim de tarde ou alguma garoa.

Era como se o pátio fosse o sagrado museu a céu aberto da nossa emocionada – e quase inacreditável – iconografia infantil.

—————

O ansiado dia de visitar a família em casa (sempre num sábado do mês), era um tormento sem tamanho porque, nunca sabíamos que hora a inspetora gritaria o nosso nome, com um embrulho de papel com a nossa roupa ‘civil’ na mão. Ficávamos amontoados em frente ao portão entreaberto, tentando ver se alguém da família aparecia na fresta. É que tínhamos medo, pânico mesmo de, num dia destes acontecer de ninguém da família aparecer.

A roupa ‘de sair’, quando voltávamos no fim do Domingo, era deixada na portaria e levada com a nossa mãe para casa. O pacote de roupa ‘da rua’ era muito ansiado também porque não tínhamos nenhuma roupa sobressalente para usar no colégio.

O macacão de brim azul, ficava imundo em poucos dias de uso. Não teríamos outro por meses a fio. O melhor era cuidar para que ele não ficasse muito puído e rasgasse no joelho (coisa quase impossível de não acontecer). Dormíamos e acordávamos com aquele macacão surrado, nojento, que só tirávamos para tomar banho.

Éramos organizados em bandos de quatro a cinco meninos. Tínhamos, como os presidiários adultos, números por meio dos quais éramos identificados no colégio, até que um apelido mais específico nos fosse aplicado. A eleição de um líder se dava por meio de disputas físicas ou mesmo por intermédio de ações aceitas como demonstração de heroísmo explícito.

O líder de meu grupo era o ‘Leiteiro’ (por ser cor de leite, um dos raros brancos da Escola-Prisão) que foi alçado a função depois de ter prometido (e cumprido) engulir mais de dez botões de roupa no espaço de um mês. Assumiu a chefia de nosso ‘bando’ assim que retornou da enfermaria depois de comer 32 botões!

Cada um de nós tinha uma escova de dentes que era, cuidadosamente afiada em alguma superfície cimentada, para fazer as vezes de arma, de estoque como os dos presos adultos.

Assisti a diversos embates no pátio. Cercávamos os dois brigões numa roda compacta e incitávamos, um contra o outro, doidos para ver o sangue correr. As brigas eram à socos, pontapés e estrangulamentos, violência pura e franca como a de animais em disputa por território ou comida.

Quando um dos dois era atingido gravemente pelo outro, com um golpe mais certeiro e sangrava (geralmente no nariz), gritávamos, ensandecidos, a senha que declarava a luta por encerrada, com a consagração do vencedor:

_’Tirou melado! Tirou melado!’

Outra imagem bem vívida destes primeiros anos, era a da garotada formada no pátio, ao cair da tarde, ao lado do alojamento onde dormíamos. A ‘formatura’ era rígida e marcial, com gritos de ordem unida que hoje soariam ridículos quando consideramos que nós, os internos, não passávamos de uma medíocre tropa de menininhos magricelas, com idade entre os cinco e os quinze anos. Contudo, cumpríamos as ordens, mesmo detestando, nos sentindo compulsórios soldados reais.

_ Pelotão…Sentido!
_ Cobrir!
_Descansar!
-Ordinário…Marche!

Para mim, pensando bem, até que a ‘formatura‘ não era assim tão ridícula porque, logo depois da ordem unida, o clima ficava diferente, agradável mesmo, por causa das músicas que cantávamos.

O repertório era, a princípio, aquele, formalmente, utilizado em todas as escolas da época, hinos cívicos tradicionais,’‘qual-cisne-branco-que-em-noite-de-lua,‘já-podeis-da-pátria-filhos’. Mas, o prazer maior chegava na hora em que, entre contritos e embevecidos, entoávamos aquelas dolentes canções ‘indígenas’ de Heitor Villa Lobos. Dormíamos bem, como anjos, nos dias em que cantávamos Villa Lobos, naquela semi escuridão do pátio ao anoitecer.

Ninguém nunca nos perguntou porque ficávamos tão emocionados, principalmente, com aquela canção, da qual eu me lembro bem até hoje, que falava de um tal de Anhangá que fugiu:

…Ó manhã de sol! Anhangá fugiu!
Anhangá! Hê!Hê !
Ah! Ah! Foi você
quem me fez sonhar…’

————–

Não que tenha esquecido, mas, pouco me lembro de professores. Pelo que recordo, praticamente não os tínhamos. Me recordo vagamente das aulas em que fui alfabetizado, do cheiro de massa de modelar levada, uma única vez, por uma diligente professora e só.

Nossa referência ‘educacional’ eram os chamados ‘inspetores’, figuras musculosas, com as camisas de mangas curtas arregaçadas, para mostrar a nós, esquálidos meninos, a ameaçadora desproporção entre seus bíceps e nossos bracinhos finos como gravetos.

Os inspetores homens (haviam entre eles algumas poucas mulheres) eram, pelo aspecto, jovens policiais, praticantes de luta livre e Jiu Jitsu. Lembro de dois deles. Um que usava uma vareta dura de madeira (como uma batuta de maestro) com a qual fustigava as costas e as pernas dos meninos ‘indisciplinados’ e outro que, ironicamente, usava uma grande régua de madeira, com a qual gostava de acertar o vão das orelhas dos rebeldes incorrigíveis.

Verdadeiros ‘desensinadores’ que eram, usavam a régua com truculência ‘educativa’, como método pedagógico’ mesmo. Boçais como a sociedade que os criara. Que Deus os tenha.

É deles, dos carcereiros-inspetores da Escola-Prisão, a penúltima imagem que me ficou na memória, não por acaso, a mais constrangedora:

Numa formatura silenciosa, sem jantar, sem ordem unida, sem música de Villa Lobos, sem hinos cívicos, sem nada, ficamos perfilados noite adentro por cerca de quatro horas, com os braços direitos estendidos, com as mãos espalmadas, pousadas no ombro do colega da frente. Aqueles que, não resistindo à dor, deixavam o braço pender para baixo, recebiam golpes da vara que os inspetores ainda neste tempo, portavam como instrumento de poder e coação.

A intenção deles com a tortura coletiva era clara: Alguém teria que denunciar quem entre nós, havia feito uma das denúncias que haviam vazado para fora do colégio, engrossando o que hoje imagino ter sido uma grave crise no sistema SAM que, ali por volta de 1959, parecia prestes a ruir com novas denúncias sobre bárbaras torturas na Escola XV.

Dos motivos sabíamos alguns poucos detalhes. Havíamos sido, rapidamente, transferidos da Tijuca para um bairro distante do centro (se não me engano, Jacarepaguá). A comida, de resto sempre ruim, estava agora intragável. Dias antes, alguns meninos haviam baixado enfermaria, depois de ingerirem carne estragada. As mães, alarmadas pelas notícias que, ao que parece, já haviam saído na imprensa, passaram a deixar algumas moedas conosco, com as quais comprávamos algo para enganar a fome, bolos, balas, laranjas, através do portão principal.

Na visita seguinte, faminto como todos os outros, decidi confessar a minha mãe que não dava mais para ficar ali.

É esta decisão que deflagra então a nossa última memória que, como se fosse uma volta simbólica ao Jardim de Infância, é a minha lembrança mais querida:

O bonde, a cortininha de lona levantada, o trajeto arborizado por entre as ruas da Tijuca. A música bem ritmada dos trechos de trilhos percorridos, exatamente, a mesma música da fuga dos outros.

Música dura e com faíscas eletrizantes. O ferro da roda do bonde atritando o ferro de memórias que, agora que foram contadas, explodidas para fora da mala, caixa de Pandora aberta que era, não podem mais ser apagadas por ninguém.

Minha honra e meu mérito escolares foram, portanto, muito mais do que ter permanecido lá, ter ali compreendido que a rota de fuga para a liberdade, era a única matéria que realmente merecia ser aprendida.

Escapar íntegro da Escola-Prisão e ter espantado os morcegos da minha vida, entre todos, é o meu único diploma válido, exposto com orgulho na lousa destas minhas remotas memórias, para sempre felizes por serem eternamente infantis.

Spírito Santo
Fevereiro 2008

Boladinho foi à luta


boladinho1
Conto

Trabalho com meninos, muitos, todos os dias. Tanto que, às vezes, até me
confundo e penso que sou menino. Eles também se confundem e, das duas
uma: ou me faltam com o respeito devido, me zoando, como se eu fosse
mesmo mais um entre eles, ou me seguem, cegamente, como se eu fosse o
mais esperto, o líder deles. O cara.

Acho que foi por isto que resolveram me lotar aqui, nesta delegacia, a DPCA.
Este que vocês estão vendo, sentadinho ali, no banco, é um desses da rua,
entre muitos, nem tantos assim eu diria. Está murchinho no seu canto, mas,
não se iludam. Não é flor que se cheire. Ainda ontem, ou anteontem, esbarrei
com ele na Praça XV:

_”Aí, ô tio! Dá uma força aí. Só pra mim comer um negóço.”

Fazer o quê? Paguei uns saquinhos de amendoim pra ele. Do jeito que estava
com thinner e crack até na alma, não ia arrumar nada. Disse isto pra ele, mas, qual o
quê. Só grunhiu meio que dizendo:

_” Qual é, tio? Tô legal. Só tô com fome.”

Quando cheguei, hoje cedo na delegacia ele já estava lá, dormindo no banco.
O pessoal da noite me disse que ele foi pego no Leblon, doidão, no meio de um
assalto num sinal de trânsito. Essas coisas. Tropeçou na fuga, caiu e ficou ali.
Foi fácil pegá-lo. Tiveram que trazê-lo no colo. Chegou dormindo, chupando o dedinho. Só se mexeu de manhãzinha, quando alguém me chamou, gritando:

_” Detetive Ronaldo! Detetive Ronaldo! Telefone!”

Vou tomar o depoimento dele agora mesmo, antes que durma de novo, a
praga. Os senhores e as senhoras esperem aqui, por favor. Não demora muito
não porque é sempre a mesma história. Já sei de cor e salteado. Esta aqui é a
famosa DPCA. Anh? Já falei? Pois é isto. Fiquem à vontade. Por favor.

Vou lá acordar o coitadinho. Dou um tapinha no ombro, de leve, só pra ele
ficar esperto e espero. Ele vai me olhar meio assustado, com aquela cara de
criança, que eles só mostram assim, nestes momentos distraídos, entre o sono e a morte. Vai limpar o olho remelento, me olhar com uma cara de enfado,
maior do que o meu. Tédio e tudo o mais. Saco, desdém. E só aí vai se
levantar.

Pronto. Levantou-se enfim. Licença. Vou lá interrogar a peste.

————————-

_” Fala moleque. Conta aí.”

Boladinho fala:

_” Tem madame que desvia de mim que nem diabo desvia da cruz. Acreditam
nessas histórias de que os dimenor carrega caco de vidro, gilete, estilete,
estas coisas todas para cortar as vítima. Vítima? E eu? Sou o que então, assim magrelinho, com os cambitos fininho, andando pela rua sem que nem
porque?Agora então é época. Frio. Os dente batendo igual aos de uma caveira. Os cambito estalando, um no outro, igual a dois graveto balançando no vento.

Tréc, tréc, tréc! Vareta de pipa sem papel, sacumé?

Ah… Não fui eu não! Quer dizer, pode até ter sido, mas, se foi, foi sem querer.
Doidão do jeito que eu tava… De que? De thinner, sacumé? Que é que o
doutor queria que eu fizesse? Cheirado eu faço coisas que até Deus duvida.

Abilolado, berimbolado, Faço qualquer negóço. Até com caneta Bic eu já
roubei, sacumé? As madame acha que eu vou furar a goela delas e pronto.
Ficam gelada, paralisada. Dão bolsa, dão relógio, dão sapato, dão óculos. Se
insistir dão até as calcinha. Madame se assusta fácil. Madame vê muito filme, muita televisão.

A primeira vez que fui para o Padre Severino foi assim. Sorte que eu, sem
querer, agredi a vítima. Cheguei no Severino cheio de moral, sacumé? Escapei de virar mulherzinha de um daqueles, mais velhos. A madame que me perdoe, mas, desta sorte, por conta de ter agredido a pobre, eu escapei.

E chamam aquilo lá sabe de que? De Escola! Vai entender? Lá tem corredor
gradeado, tem cela, tem cama de cimento. Tem guarda com pastor alemão.
Tem fuga e tem rebelião. Escola de que? Fala sério doutor. É igualzinho
adonde meu pai tá guardado, Bangu 1, 2, 3, sei lá quantos Bangu tem.

Agora não. Tomei prumo. Magrinho do jeito que eu tô, com esta fraqueza no
pulmão, no coração, não dá pra ficar tirando muita onda por aí. Uma moça aí outro dia, uma médica, doutora, enfermeira, não sei bem, me disse que se eu continuar nessa de thinner, meu coração vai estourar. Tá. Tô estoporado, mas, e daí? Thinner e crack mata a fome. Se eu não matar ela, é ela quem vai me matar, ora. Sacumé?

Ontem rodei na Lapa, em Copa, no Leblon e sabe o que comi? Um pedaço de
pizza que estava aparecendo na borda da lata de lixo. Dividimos em três.
Ainda tivemos que espantar uns vira lata, que olhavam de olho comprido pra pizza. Sai pra lá, mermão! Vocês são cachorro. Nós é gente, rapá! Sai! Sai!

Tô fraquinho mesmo. De vez em quando falta ar. A cabeça revira. Esta noite
mesmo, lá nos Arcos, tava rindo à toa com a rapaziada, cheiradão e, de
repente caí, tombei, sumi. Desmaiei ou dormi, nem sei.

Quando eu vejo um bichinho assim, que nem eu tô, osso só, com os olhos
fundos, eu fico triste. Dou uns afagos, uns agrados, uns carinhos. Não estes
vira lata de ontem. Isto não. Ali era eles ou nós. Eu digo assim, quando estou numa boa. Eu faço carinho sim. Agora, vê só essas madame. O que elas fazem? Enxotam a gente. Fecham o vidro do carro, só faltam cuspir, jogar pedra. Será que nós é bicho e elas é que são gente?

Pô, doutor! Medo nós também tem, mas, é gato contra rato, sacumé? A gente também tem direito de sobreviver.

———————–

O pessoal que espera olha para mim, impaciente. São como eu. Não estão
muito interessados em historinhas de menores carentes, infratores,
transgressores, em risco social ou em conflito com a lei. Querem uma solução
das autoridades. Pronto.

Vocês esperem só um instantinho, por favor. Já estou terminando aqui, tá
bom?

Boladinho, o seguinte: Vou te liberar, tá legal? Aqui é a DPCA, meu filho.
Daqui, com a bronca que tu meteu, com a queixa que a madame fez contra tu,
cheia de testemunhas… Vai voltar é pro Padre Severino, meu chapa. Sem
choro nem vela. E lá, sabe Deus o que te espera. Tu não vale nem um picolé.
Não quero este remorso na minha vida. Mas, me faz um favor. Sai da minha
área, tá? Some do meu caminho. Vai à luta!

————————

Pronto, pessoal. Detetive Ronaldo às ordens. Podem falar. Sentem-se, por
favor. É queixa de assalto, não é? Já estou sabendo. Como era o moleque?
Preto? Branco? Como este que saiu daqui agora? Teve agressão? Alguma
vítima ferida? Podem falar. Aqui é a DPCA, Delegacia de Proteção à Criança e
ao Adolescente.

(Boladinho saiu de mansinho. Pegou o cobertor que havia largado no chão, ao
lado do banco e desapareceu. Mas antes, O detetive Ronaldo se lembrou de
uma coisa essencial. Importante demais para o inquérito)

Boladinho! Fala aí moleque! Qual é mesmo a tua idade?

_ “Ah.. Não sei direito. Acho que uns sete pra oito. Já tô velho nesta vida,
Doutor. Tchau, Valeu aí, tá? Vou à luta!

Spírito Santo
Rio, Maio 2007

Garça Parda


(Foto Spírito Santo)
garca_parda
Conto

Curioso. Já havia passado por ali mil vezes e nunca havia visto aquela estátua.

Túnica verde escura, azinhavrada pelo tempo, rígida – de bronze que era – leve e diáfana porém, como se uma brisa fosse,  a qualquer momento revelar totalmente, o frêmito arrepiado das pernas lisas da outrora ninfa, hoje mulher grega amadurecida, de tanto com o cântaro ir à fonte.

Feia sim, mas se via lá alguma graça naquele jeito só seu de ser miss de maratona em desfile no Parthenon.

É. Linda ela não era, que as gregas destas estátuas geralmente nunca o são. Nariz adunco, pescoço curvo, tudo a fazê-la muito mais harpia do que garça, naquela sem-gracice toda do feminismo lívido, às avessas, que dizem ser o das mulheres de Atenas, aquelas dos maridos ausentes, sem um Ricardão que seja para lhes encher de enlevo os dias, quiçá as noites de solidão.

Beleza mesmo só naquelas sandalinhas de tiras finas que usava, de um couro que mesmo sendo fundido no bronze, alguma coisa de delicado tinha; como também eram delicadas as solinhas rasteiras, de mínima espessura, quase a lhes deixar o calor do chão queimar a planta dos pezinhos de fada-mulher. Quem não há de os querer ver e admirar? Quem?

E não é por isto mesmo que ela está ali, submissa estátua de jardim?

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Pois foi assim mesmo, saída do enlevo desta visão súbita e sensual de uma ex-ninfa de bronze no jardim, que aquela, a outra, me apareceu – sei lá de onde nem quem era, pois nem havia lhe visto rosto ainda – num susto, me pedindo, não me lembro bem o que.

Estava sobre os saltos toscos e imensos de um sandalhão cravejado de pregos dourados, como se calçar aquelas plataformas elevatórias a fizesse magnífica, rainha entronizada de poderes inquestionáveis, impregnada de uma belezura qualquer, destas de magazines fashionistas. Pois sim.

Sem levantar os olhos ainda, as sandálias dela o que me lembravam mesmo, eram aquelas espécies de próteses que as acometidas pela poliemielite de antigamente usavam, uma perna curta outra comprida, um solado bem grossão (como o da aparição magrela), e o outro fino fininho (como a solinha da ex-ninfa estátua), a compensar o andar “deixa-que-e-chuto” delas.

Como, sem os solões, as coitadas das aleijadinhas rebolariam? Como arranjariam maridos? Sem aquela correção de status, de nível, o caminhar delas ficava como uma destrambelhada dança de braço de roda de locomotiva, “chaca …chuco”, “chaca …chuco”, ou como aqueles toc sim, toc não, soando na calçada, no fim da madrugada, fazendo a gente, meio que dormindo ainda, pensar:

“_Ai!..Lá vai a coitada da solteirona aleijadinha comprar pão!”

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E ela ali, com as mãos nas cadeiras, quase mesmo – ou pouco mais do que – uma aleijadinha compensada, pude perceber, quando levantei os olhos para a sua aparição esquálida e ainda estranha demais, me sorrindo um sorriso meio sem sentido, já que não havia em mim – ou no lusco-fusco cinzento daquele dia – nada que tivesse tanta graça, algo a mais, de fazer alguém sorrir, insinuante, como gatinha filhote a se imaginar pantera, felinamente, miando assim, à toa.

No banco da praça atônito estava, atônito fiquei, ainda sem compreender inteiras as nuances daquela visão embaçada, ouvindo ela falar coisas que eu não ouvia. Com o que ela se parecia? Cobra não. Harpia não, já que não grasnara ainda ofensa alguma, talvez até por não compreender ainda o que o fel cruel das maledicências são.

Onça? Não, que nada. Algum bicho pernalta talvez, pensei confuso; garça esfaimada sim, a precisar, como todas, fisgar no lago algum cardume de gerinos, engulir algum peixinho dourado mais desavisado, uma rãzinha nervosa, sei lá, alguma dessas coisas que as garças, por costume ou por necessidade, engolem quase sem comer.

Mas, não. Misteriosa demais, a garça era suja e pardacenta como estava o dia, e uma das coisas que sei nesta vida, é que pardacentas e sujas – as garças definitivamente, não são.

_”Quer tio? Quer tio? Eu faço!”

Não havia mão alguma estendida, pedindo um trocadinho, um real, um salgadinho. Apenas a altivez desastrada de uma criança de sandalhão, como aqueles malabaristas magricelas de sinal de trânsito, um em cima do outro, pirâmide desumana quase a se desconjuntar, desmoronar, por uns trocados. Saltimbancos maltrapilhos a trançar lançados limões murchos para o ar.

Por nada.

Isto: A altivez do sandalhão era altivez de coisa nenhuma, de estima alguma pelo que vai acontecer no outro dia, no amanhã que Deus, por certo, ao que todos os indícios anunciam, não dará.

A única diferença era mesmo esta: a magrela garça parda era uma meninazinha de rua.

De nada.

Tinha um sorriso maroto manchado de um barato baton carmim-melado; saiotinho também de nada, apenas encobrindo o ainda nenhum quadril. Os cambitos de coxas-gravetos marcados de lanhos, escoriações generalizadas, porém, marcas indolores de antigas quedas e rusgas, nas meio que brincadeiras meio que brigas de pique-esconde, queimada; as canelas finas, mais afinadas ainda pelos remelexos da dança do Créu.

E – Deus meu! – constrangedoramente, tremelicava a língua para mim, em meio ao tlec tlec de um chiclete gosmento que mascava (de fome mesmo talvez), macaqueando micro sinuosidades de minhoca querendo ser mulherzinha-serpente, a se pensar prety baby, ninfeta femme fatale de filme noir classe C da TV.

E cheirava um cheiro de tinta fresca, embora estivesse suja. Ratazana ou gata de rua? Comida de si mesma? Os olhos, engazeados por alguma inebriante coisa ruim qualquer, assustados com não sei o que, não combinavam mesmo, nada nada, com aquele sorriso de menininha meretriz de 11 anos, balbuciando no tremelico de língua, já impaciente:

_”Quer tio? Quer tio? Eu faço!”

Foi quando meus olhos compreenderam naquele retrato de lolita imunda, o mundo-cão que emergia ali, daninho, matando toda a grama nova do jardim. No fundo, bem no fundo dos olhos dela, dava para se ver um determinismo de morte, ali mesmo, no interior da sua ainda minúscula imagem, eu via uma fumacinha branca de crack saindo e uma borra de sangue hiv positivo manchando a blusa, por todas as mazelas contaminada, sabe-se lá por que venenos picada: Bauretes? Boquetes? Croquetes?

Porco corredor curto da morte, a fumaça na chaminé de barro sem apito de fábrica de tecidos. Como naquelas imagens judias de campo de concentração – Jardim ou Campo? Arbeit macht frei, parecia estar escrito agora na grade de ferro do portão do jardim.

Jardim conspurcado, o ar a nossa volta foi tomado então pelo cheiro insuportável do thinner que ela cheirara e tive náuseas; uma sensação estranha de vergonha e remorso, no meio de uma vontade enorme de fugir logo dali, o mais depressa que pudesse.

_”Quer tio? Quer tio? Eu faço!”

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E fugi.

Passarei mais mil vezes por ali sim, pelo jardim, mas, agora com outros olhos, paixão irresistível – e escapista – que passei a sentir pelas estátuas de mulheres gregas, agora sim, para sempre lindas de morrer.

Platônicas. Bem longe daqui e de mim que as adoro helenas serenas, daquelas que antes ninfas meninas, tiveram tempo de crescer e se fazerem mulheres maravilhas; sem dolo, sem desconsolo; sem pressa e sem secura no canto da boca; nenhum abandono que não seja aquele de se deixar ficar, tolamente imóveis, tal e qual estátuas de Parthenon sem dono e sem mecenas, esperando num jardim qualquer os seus não menos tolos, como descritos, efêmeros e desenganados maridos…

…e ainda assim sem morrer de desamor.

Spirito Santo
Maio 2008