Jongo, Nongo, Jinongo


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Batuque Angolano com marimbas (Extraído de www.diamang.org)
batuque_angola_com_marimbas

Desamarrando os nós do Caxambu


Você já ouviu, pelo menos por alto, falar em Jongo, certo? Pois este será o longo papo do enredo #02 da série ‘Crioulo doido revisitado’.

A nos motivar o fato de, a começar pelo nome, Jongo ser um tema controverso, misterioso, sobre o qual pairam algumas sombras, um prato cheio, portanto, para os fazedores de mitos, diligentes construtores de engodos e mistificações.

Se você não sabe tudo sobre o assunto vamos ver se eu acerto, pelo menos, o que você, já sabe . Depois a gente vai em frente.

Conceito e Charada

Abrindo a roda do Jongo

Jongo é uma dança de negros, correto?

Certo, mas convenhamos, saber disso não é lá saber muita coisa. Afinal, contam-se às dezenas, talvez centenas, os tipos de dança de ‘negros’ neste país. Jongos, Catupés, Ticumbis, Congadas, Samba de roda, Samba disso, Samba daquilo, Afoxé, Baião, Maculelê, Lundu, Capoeira, mais todos os eteceteras possíveis e imagináveis, para ficar só naquelas danças mais antigas, manjadas.

Isto sem falar que este papo de dança de negros não é lá muito politicamente correto. Danças Afro-brasileiras cairiam bem? Danças ‘afro-descendentes’? Talvez fosse até melhor. Não sabe? Muito menos eu.

(Enigmas são sempre tabus cabeludos. Difícil ser politicamente correto nestas horas).

Ademais, Jongo não é só uma dança. É muito mais…O que?…Ah, claro, claro, você se lembrou agora que sabe um pouco mais sobre Jongo.

Oh, que legal! Quer dizer que, aqui mesmo neste site, você aprendeu que o Jongo não só é uma dança de negros como é praticada no sudeste do Brasil, e cuja principal característica é ser uma dança de umbigada, ou seja, as pessoas, enquanto dançam, chamam umas às outras, para a contradança, com um toque de corpo, geralmente encostando uma a barriga na outra?

Boa esta descrição, mas, ela satisfaz ao que você sabe sobre o assunto? Não? Sabe mais um pouquinho ainda? …Ah, sim! Você até já assistiu a uma apresentação deste tal de Jongo, num palco.

Caraca! Jongo num palco?! É mesmo? Esta eu preciso ver. Descreva você mesmo então. Como? Se quero que conte…‘antropologicamente’? Não… pode ser do seu jeito mesmo:

_ Um grupo racialmente misto, de jovens; as mulheres, invariavelmente, com saiões estampados e homens também jovens, com calças brancas, ‘pelas canelas’ (‘calças de escravos’ como se diz), saracoteando e dando estas umbigadas, ao som de cantigas muito curtas e características, acompanhadas por dois ou três tambores, semelhantes aos de ‘macumba’.

Como um admirador do gênero, você reparou que havia uma estranha diferença, além dos tambores, no ritmo, no modo de dançar e nas roupas dos grupos mais humildes (aqueles mais da roça, que tinham maior número de pessoas velhas e muita gente pobre e preta) e os demais grupos (aqueles nos quais rodopiavam faceiras, as tais meninas de saião e os rapazes de calças ‘pescando siri’).

Com este reparo aliás (longe está você de criticar qualquer coisa), a sua impressão sobre este aspecto do evento, foi até bastante positiva.

Aposto, contudo, que você ficou intrigado com o fato de as jovens moçoilas usarem sempre – que diabo! – aquele mesmo saião estampado, exatamente o mesmo que usam outras jovens moçoilas nos novos grupos de Maracatu, Caixeiras do Divino, Boi Bumbá e tantas outras danças tradicionais ‘urbanizadas’ que pululam hoje em dia nas grandes cidades do Brasil. Não ficou intrigado ?

Mas notou, com certeza, que no grupo dos ‘véios’ não tinha nada disto não. Deve até ter se perguntado, ingenuamente, porque não se usa no Jongo (como acontece com os indefectíveis saiões) aquelas impressionantes alfaias ‘tradicionais’ usadas em todos os outros gêneros deste ‘neo-folklore’. Quer saber o que quer dizer ‘Alfaia’? Tá, eu explico: Se for para ser tradicional mesmo, alfaia não teria mesmo nada a ver com Jongo. Alfaia é de Maracatu, menino. É tambor nordestino, ibérico, árabe, e só nestas ‘praias’ lá ‘de riba’ poderia ser considerado ‘tradicional’.

– Tradicional! Tradicional!Pufff!

Não gosta deste papo de tradicional? Pois quer saber? Honestamente? Nem eu. É por isto que eu fico batendo nesta tecla.

Jongo fashion night

Brincando com o fogo

Uma coisa no entanto, é certa (se é que você ainda está ligado no assunto). Já observou que o MinC atual tem dado muita atenção a esta manifestação (o Jongo) e existiu até um movimento bem sucedido junto ao IPHAN que efetivamente transformou a dança em patrimônio imaterial da humanidade. Até mesmo eu já comentei sobre este assunto aqui neste sítio.

Está claro e sabido para você que, sendo uma dança hoje assim, tão reconhecidamente ligada às nossas raízes africanas (e, providencialmente, agora tão prestigiada por nossos órgãos de defesa e fomento da cultura nacional), o Jongo tende a ser objeto de muitos projetos de preservação e divulgação, tendência esta que, também se pode deduzir facilmente, pode ser o que estimula a existência hoje de tantos grupos de Jongo, organizados até, num enorme coletivo de ‘Jongueiros’ que se reúne todos os anos, num concorrido encontro financiado pela Petrobrás.

Bem, como não poderia deixar de ser, você chegou a notar também que já há uma curiosa ‘mistura social’ vislumbrada na, digamos assim, composição social destes grupos ‘neo-tradicionais’, certo? As tais moças e os tais moços muito jovens, aparentemente são de extrato social bem diverso daquele do qual são oriundas as ‘véias’ e os ‘véios’ jongueiros da roça, negros em sua esmagadora maioria, tipos bem característicos dos grupos de Jongo antigos, jongueiros ‘autênticos’, como dizíamos antes deste boom do Jongo ‘contemporâneo’ dar as suas caras. Seria resultado dos bons ventos da democratização do país?

Se você se enquadra no perfil do meu imaginário interlocutor, prepare-se para se surpreender com o que saberá a seguir. Se souber um pouco mais que eu, não se avexe não, contribua com a evolução da brasilidade latente de nossa galera e não nos esconda nada.

Por enquanto, sobre Jongo (como diria o Caetano Veloso, enquanto era vaiado naquele festival dos anos 60) vamos fingir que…:

__ Vocês não sabem de nada!

O Jongo e o mito na Wikipédia

Na Wikipédia? Oh God! Mon Dieu!

Conheço, não exatamente por acaso, o autor do verbete da Wikipédia para ‘Jongo’ (que poucas alterações recebeu até hoje, quando lá fui para reler e conferir ).

Como ainda não é crime revelar o autor de uma colaboração voluntária em uma enciclopédia da internet (além de ser tachado de cabotino, é claro) confesso: Fui mesmo o autor da maior parte do verbete, ora vigente na Wikipédia sobre “Jongo”. Porque confesso? É que acabo de descobrir, algo indignado, que o tema de nossa conversa desta série de posts – Mitos e mistificações no estudo da Cultura negra do Brasil – está sendo perpetrado, imaginem só, agora mesmo lá, naquela internacional, glamourizada e globalizada ‘enciclopédia’ on line, bem nas nossas barbas.

(Havia um outro verbete sobre Jongo lá, antes do meu, mas achei ele tão equivocado e desprovido de consistência e, aparentemente, tão atrelado aos interesses de um certo grupo de neo-jongueiros, que, me animei em ir lá escrever o que escrevi.)

Dureza. Missão quase impossível.

Saibam que a maioria dos administradores ‘especialistas’ da Wikipédia lusófona (gente boa, que aceita debater francamente), aparentemente, se encaixa no seguinte perfil: Jovens de Lisboa (desconfio que acadêmicos, recém graduados em Coimbra ou no Porto) com pouco ou nenhum conhecimento sobre cultura brasileira (o que é natural), porém, em relação a nós, brasileiros, cada um se achando mais saramago que o outro.

O problema poderia ser facilmente solucionado, pelo menos em parte, com o apoio dos poucos coordenadores ‘especialistas’ brasileiros que por lá existem (eu sei, não seria lá estas coisas, mas, vá lá que seja), havia, no caso do verbete do Jongo, contudo, um problema bem mais especializado e complicado: Além de se tratar de cultura negra (um problema para intelectuais tupiniquins em geral, como se está concluindo aqui) tratava-se de – oh deus! – cultura angolana no Brasil.

Ora, Angola, além do trauma da escravidão, é um problema quase psicopatológico para lusitanos mais nacionalistas. Para eles Angola é uma terra de perdas de dimensões marítimas, camonianas, diante da qual, por razões compreensíveis até, os portugueses têm ressentimentos profundos, por conta de graves seqüelas sentimentais deixadas pela derrota do exército dos ‘Putos’, dos ‘Tugas’ naquela sangrenta guerra colonial terminada na recente década de 1970.

Como já dizia o bardo deles: ‘Navegar – e esquecer – é, cada vez mais, preciso’.

Acossado portanto por este tipo de ‘especialista’ ressentido, arrogante e presunçoso, tive que duelar semanas à fio (em embates intelectuais homéricos, às vezes) para conseguir implantar, ás custas de muita verve, argumentos ‘irrefutáveis’ e caudalosas referências bibliográficas, os meus modestos verbetes de negão (um dos quais – este sobre o Jongo – é o objeto deste nosso post)

Nestes casos, sobra, naturalmente, a alternativa de voltar a encarar as turras homéricas com os ‘especialistas’ luso-brasileiros e corrigir o verbete, mas, isto, convenhamos, é coisa de quem não o tem mais que fazer. Parei com eles por causa disso.

Vamos fazer então aqui e agora a autópsia do verbete enxovalhado. Teórico de conspirações que, assumidamente, sou, me arrisco a supor que o conteúdo do verbete foi adulterado para atender a interesses ligados a desqualificação do fator tradicionalidade da manifestação (do Jongo, no caso) aqueles elementos e evidências que, se constassem do laudo do IPHAN, desautorizariam certos grupos ‘neo-tradicionais’ de se auto-intitularem representantes legítimos do Jongo… tradicional.

(Tradição sendo, neste caso, igual a requisito para o tombamento de um bem cultural da humanidade classificado como imaterial. Bem tombado sendo igual à habilitação para reivindicar recursos de patrocínio público e privado. Sacaram a malandragem?)

Vejam vocês – e deduzam por si mesmos – as entranhas de uma mistificação sendo urdida agora mesmo. E que Nzambi, Alá, Jeovah e os outros deuses todos me lancem no limbo mais escuro se eu não tiver razão.

(Os conceitos contidos no verbete, servirão para embasar o nosso debate, exceto as tais intervenções marotas que algum misterioso colaborador inseriu ali, com as intenções que apenas insinuo aqui, as quais, obviamente, estarão abaixo, devidamente, assinaladas em negrito):

Jongo (in Wikipédia)

O contexto

(atenção para as armadilhas conceituais em negrito que, por pura ‘maldade’, inseri no texto do verbete originalmente publicado)

“Jongo é uma manifestação cultural essencialmente rural diretamente associada à cultura africana no Brasil e que influiu poderosamente na formação do Samba carioca, em especial, e da cultura popular brasileira como um todo.

Inserindo-se no âmbito das chamadas ‘danças de umbigada’ (sendo portanto aparentada com o ‘Semba’ ou ‘Masemba’ de Angola), o Jongo foi trazido para o Brasil por negros bantu, seqüestrados nos antigos reinos de Angola e do Congo, na região compreendida hoje por boa parte do território da República de Angola.

…” Dançado e cantado outrora com o acompanhamento de urucungo (arco musical bantu, que originou o atual berimbau), viola e pandeiro, além de três tambores consagrados, utilizados até os nossos dias, chamados de Tambu ou ‘Caxambu’, o maior – que dá nome a manifestação em algumas regiões – ‘Candongueiro’, o menor e o tambor de fricção ‘Ngoma-puíta’ (uma espécie de cuíca muito grande), o Jongo é ainda hoje bastante praticado em diversas cidades de sua região original: o Vale do Paraíba na Região Sudeste do Brasil, ao sul do estado do Rio de Janeiro e ao norte do estado de São Paulo”….

Jongo (in Wikipédia)

O Conceito

…”Composto por música e dança características, animadas por poetas (inserção de algum colaborador misterioso e mais’ lúdico ’- menos lúcido, talvez – do que eu que, no original, havia grafado ‘cantadores’) que se desafiam por meio da improvisação, ali, no momento, com cantigas ou pontos enigmáticos (‘amarrados’) , o Jongo tem, provavelmente, como uma de suas origens mais remotas (pelo menos no que diz respeito á estrutura dos pontos cantados) o tradicional jogo de adivinhas angolano, denominado Jinongonongo

…”Este fator relaciona-se a normas éticas e sociais bastante comuns em diversas outras sociedades tradicionais – como as indígenas americanas – baseadas no respeito e obediência a um conselho de indivíduos ‘mais velhos’ e no ‘culto aos ancestrais‘.

Pesquisas históricas indicam que o Jongo possui, na sua origem, relações com o hábito recorrente das culturas africanas de expressão bantu, durante o período colonial, de criar diversas comunidades, semelhantes a sociedades secretas e seitas político-religiosas especializadas, dentre as quais podemos citar até mesmo irmandades católicas, como a Congada. Estas fraternidades tiveram importante papel na resistência à escravidão, como modo de comunicação e organização, e até mesmo comprando e alforriando escravos”…

(Esta tese do Jinongonongo, que eu tirei de Ladislau Batalha, aguarda debatedores para ser ou não legitimada. Veja mais abaixo parte da minha argumentação: )

Jongo (in Wikipédia)

O Conceito fraudado

Aqui, no seguimento do verbete logo abaixo – muita atenção leitores! – no longo trecho em negrito, há uma curiosa inserção, proposta – e aceita pela Wikipédia – por algum misterioso colaborador que, ao que parece distorce, intencionalmente, um conceito fundamental da manifestação (Jongo) que é o caráter seletivo dos participantes logo abaixo, pela minha proposta, explicitado.

Se liguem nos detalhes (as inserções espúrias), em negrito portanto:

” Uma característica essencial da linguagem do Jongo é a utilização de símbolos que, além de manter o sentido cifrado, possuem função supostamente (sic) mágica, provocando, supostamente (sic), fenômenos paranormais. Dentre os mais evidentes pode-se citar o fogo (?), com o qual são afinados os instrumentos; os tambores, que são consagrados e considerados como ancestrais da comunidade (?); a dança em círculos com um casal ao centro, que remete à fertilidade(?); sem esquecer, é claro, as ricas metáforas utilizadas pelos jongueiros para compor seus “pontos” e cujo sentido é inacessível para os não-iniciados..(!)”.

…”Hoje em dia podem participar do Jongo homens e mulheres mas esta participação, em sua forma original era rigorosamente restrita aos iniciados ou mais experientes da comunidade…”

(Um primor de incongruência esta oposição criada pelos adulteradores do verbete entre ‘homens e mulheres’ e ‘iniciados/‘mais experientes’, querendo significar é claro, embora canhestramente, que hoje já não seria mais necessário ser ‘iniciado’ ou ‘mais experiente’ para participar do Jongo, abolindo um aspecto crucial à tradicionalidade da manifestação: a condição de participante dos grupos efetivamente tradicionais.

Vejam no original:

...” Da manifestação do Jongo podem participar homens e mulheres, mas esta participação, em sua forma original, sempre esteve, rigorosamente, restrita aos iniciados ou mais experientes da comunidade…”

Ao que tudo indica, desprovidas de fundamento que são, as distorções, claramente, visam autorizar a inclusão de certos grupos ‘neo-tradicionais’ dentro do conceito de ‘tradicionalidade’ que antes, no verbete original era afirmado como sendo restrito e determinado, ou seja:

Do Jongo tradicional, não deveriam participar indivíduos não iniciados. Jongo seria uma manifestação de ‘mais-velhos’ (um conceito ainda usado em Angola e no Brasil).

Estariam aptos a ser objeto de tombamento, apenas grupos, efetivamente, tradicionais (segundo os critérios de tradicionalidade – Conceito e Contexto – determinados) que, são, exatamente, aqueles grupos descritos como sendo ‘da roça’, integrados pelos ‘véios’ e véias’ (as que não usam aqueles saiões estampados).

São inseridos também no verbete, aleatoriamente, uma lista de símbolos substitutos daqueles, originalmente, descritos no verbete original, símbolos estes, que possuem relação com antecedentes angolanos, entre os quais os mais conhecidos são a bananeira e a fogueira (e não exatamente o fogo) além de outras práticas ancestrais, que remontam ao passado africano da manifestação, plenamente identificáveis por observadores mais especializados no assunto aqui e na África)

Jongo (ainda in Wikipédia)

O Jongo se urbaniza (e agoniza) numa boa

A seguir, o verbete original (em sua parte preservada), relata o surgimento de recriações de Jongo, posteriormente, realizadas, por descendentes de escravos do Vale do Paraíba do Sul, que migraram para o Rio de Janeiro após a abolição, frisando de modo enfático, o surgimento desta linha que seria o final de um caminho evolutivo que, do modo como foi descrita a manifestação no contexto de suas finalidades históricas e sociais mais importantes, representaria o ponto de extinção (naquele novo contexto) daquela vertente.

…”A cidade do Rio de Janeiro, na região compreendida pelos bairros de Madureira e Oswaldo Cruz, já nos anos imediatamente posteriores à abolição da escravatura, centralizou durante muito tempo a prática desta manifestação na zona rural da antiga Corte Imperial, atraindo um grande número de migrantes ex-escravos, oriundos das fazendas de café.

Entre os precursores da implantação do Jongo nesta área se destacaram a ex-escrava Maria Teresa Bento da Silva muitos de seus parentes ou aparentados além de diversos vizinhos da comunidade, entre os quais Mano Elói (Eloy Anthero Dias), Sebastião Mulequinho e Tia Eulália, todos eles intimamente ligados a fundação da Escola de Samba Império Serrano”…

…”A partir de meados da década 70, no mesmo Morro da Serrinha, o músico percussionista Darcy Monteiro ‘do Império’ (mais tarde conhecido como Mestre Darcy), a partir dos conhecimentos assimilados com sua mãe, a rezadeira Maria Joana Monteiro (discípula de Vó Teresa), passou a se dedicar á difusão e a recriação da dança em palcos, centros culturais e universidades estimulando por meio de oficinas e workshops, a formação de grupos de admiradores do Jongo que, embora praticando apenas aqueles aspectos mais superficiais da dança, deslocando-a de seu âmbito social e seu contexto tradicional original, dão hoje a ela alguma projeção nacional”…

Pois é, exatamente, desta ‘vertente final’, surgida da mística criada em torno do nome do Morro da Serrinha, que surgem as distorções enumeradas acima.

E o que são estas novas manifestações jongueiras? Jongo requentado, para ‘inglês ‘ver ou Jongo evoluído, modernizado, adaptado ao século 21?

E o tal do Jongo das ‘véias’ e ‘véios’, vivíssimo ainda na Roça, aquele Jongo efetivamente tradicional, que não se adaptando aos ‘novos’ tempos, será atropelado pelos ambígüos laudos do IPHAN, o que será dele? Agüentará o tranco?

Jongo à vera

Fechando a roda por hora

Além do que já se disse, o que viria a ser o Jongo afinal?

A palavra ‘Nongo’ em Kimbundo significa, exatamente, enigma, adivinhação, (Ji-nongonongo = jogo de adivinhas, de charadas) segundo o etnolingüista suíço Hèli Chatelain que escreveu em Angola, ali por volta de 1887, sobre a língua e os costumes angolanos, compatíveis com a época da vinda de escravos desta região para as fazendas de café do vale do Paraíba do Sul (citadas no verbete).

“Nongo (no plural = ji- nongo), nongo-nongo (plural=ji-nongonongo).

Jogo de adivinhas, de caráter talvez sócio-educativo, praticado pelos ‘mais velhos’ (sociedades secretas) de uma comunidade, com finalidades outras, de caráter ainda indefinido, porém, talvez insinuado nos elementos sobreviventes no Jongo do interior (Jongo tradicional).

Ji-Nongo= J’nongo =J’ongo, como dedução lógica.

Logo, sendo Jongo uma manifestação muito antiga, de caráter transnacional, bem mais complexa do que imaginávamos, podemos concluir também que a dança devia ter importância apenas acessória nos eventos (talvez até, meramente eventual) no âmbito de um atividade social, francamente, africana, muito ocorrente no Vale do Rio Paraíba do Sul, de meados do século 19 até hoje.

Muita coisa ainda para se descobrir e estudar sobre o assunto, portanto.

(Esta dança – chamada de Jongo, por extensão ao nome da manifestação – caracterizadamente uma dança de umbigada – um tipo de ‘ma-Semba’ – é um caso a parte que pretendemos abordar no post seguinte.)

Dizem que o Jongo, tendo uma suposta ligação com o Semba angolano, teria sido uma espécie de ancestral direto de nossa dança preferência nacional: o Samba velho de guerra.

Ancestral direto? Seria este um conceito válido em Cultura, esta coisa tão dinâmica?

Semba e Samba. Algo a ver? Sei não. Fique amarrado nesta história.

Spirito Santo

Novembro de 2010

A Roça de Teresa


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Fila de escravos, Vale do paraíba do Sul- Litografia sobre foto de Victor Frond-1859

Fila de escravos, Vale do paraíba do Sul- Litografia sobre foto de Victor Frond-1859

Afirmo que é verdade e dou fé…

Juro, de pés juntos, que é tudo verdade.

Numa noite de 1973, na quadra de uma Escola de Samba entre Cascadura e Engenho de Dentro (“GRES Arranco de Engenho de Dentro“), fiz uma entrevista impressionante. Eu e um grupo de amigos (entre os quais estava o radialista Rubens Confeti, da Rádio nacional aqui do Rio de Janeiro, o poeta Lucio Flávio e o fotógrafo José Ricardo D’Almeida).

O impressionante era que a entrevistada estava prestes a completar 117 anos e…havia sido escrava!Quem já ouviu, ou mesmo viu, uma pessoa de 117 anos? São pessoas raras. Muitos eventos que só conhecemos pelos livros, foram para elas corriqueiros.

A visão clara que elas tem do passado remoto, para nós é tão desconcertante que parece mentira. Mas juro. Não minto e repito: Isto não é ficção. Desta vez, a história é a mais pura realidade. Os incidentes que a entrevistada nos dá conta – como testemunha ocular (!) –  são de 1874, quando ela estava com 15 anos. Aconteceram, numa fazenda de café do Vale do Paraíba do Sul, Rio de Janeiro, chamada Santa Teresa, num município denominado hoje Avellar (que, na época, ainda pertencia à cidade de Paraíba do Sul).

O nome Avellar é emblemático pois o patrão de nossa entrevistada era, ninguém menos, que o Visconde do Paraíba, João Gomes Ribeiro de Avellar.O nome de nossa entrevistada é Maria Teresa Bento da Silva, matriarca de uma espécie de dinastia que, sediada no morro da Serrinha, em Madureira, não só implantou no lugar o Jongo trazido da roça, como ajudou a criar, em 1947 a Escola de Samba Império Serrano (Teresa foi a orgulhosa mãe de Antônio dos Santos, o Mestre Fuleiro, histórico diretor de harmonia desta escola).

O registro foi feito num gravador K7, cuja fita, mídia fantástica que é, sobrevive intacta em meu arquivo (o arquivo do grupo Vissungo), aguardando digitalização (que já rolou!). O documento – que eu tenho um orgulho enorme de ter produzido – é um dos mais impressionantes registros históricos em áudio, que eu conheço sobre o assunto e será, brevemente posto à disposição dos interessados em algum acervo público, dos poucos que o Brasil possui.

Decidi dar a este post, que reproduz a transcrição da entrevista (também extraída, em parte, do meu livro ‘O Samba e o Funk do Jorjão), um jeito menos formal. A ideia foi deixar Teresa falar sem edição, diretamente, para nós, seus leitores. Teresa morreu dois ou três anos depois da entrevista. Tinha, pelas contas que fazia, quase 120 anos.

Ao final deste post, alguns comentários se fizeram necessários, já que a entrevista gerou uma série de questões inéditas, a serem respondidas por uma pesquisa, de veios muito ricos, que, pelo visto não vai acabar tão cedo. Um destes veios é sobre o Jongo, enquanto ingrediente importante do caldo de cultura que é o Samba e que, a partir dos elementos trazidos à luz pela entrevista, ganha contornos muito mais nítidos, no tempo e no espaço.

Contudo e por tudo, mais uma vez afirmo, é Maria Teresa, a ex-escrava quem fala sobre o que viu em 1874. Por mais desconcertante que isto possa parecer, é tudo verdade.

A Roça na voz de Teresa

..“Queria dizer que naquele tempo eles sabia fazer o que agora num vejo ninguém fazer. Faziam! Se você estava com dor de cabeça ou uma dor de barriga, eles passavam a mão assim na tua cabeça e a dor de cabeça ia embora, passavam a mão assim na tua barriga e dor de barriga ia embora. Agora não. Agora eles não faz nada. Eles não sabem é nada. Eu não…Naquele tempo era bom.

Eu não. Não sabia (curar). Só o Jongo. Num podia nada. E, depois…naquele tempo não podia aprender mais nada porque o Sr. num deixava. Nós carregava os filhos deles. Ah!.. Deus me livre se agora fosse como naquele tempo! Nossa Senhora! Se agora fosse como naquele tempo…O Visconde era de Paraíba. De Avellar. Visconde de Avellar.

Num sabe aquela família Avellar?Ainda está lá. O sobradão branco, diz que tá cheio de cobra. Num tem mais nada daquilo. Num tem mais nada daquilo, meu filho. Fui uma vez lá depois que eu vim pra aqui, com alguém. O sobrado tá a mesma confusão mas, o sobrado eu conheço por dentro. Um apartamento, lá no alto. Sobrado grande. Só a fazenda! Só o pessoal que tinha!

O Visconde tinha escravo de pagode! Tinha escravo pra duas forma. Duas forma (cerca de 300 escravos)! O visconde botava duas forma. Visconde de Avellar. Foi senhor do meu pai.…Pra quem viu o cativeiro como eu vi….É triste. Olha…se você não queria dançar,você tinha que levar couro. Se não queria fazer qualquer coisa, tinha que apanhar. Tinha tronco. Tinha tronco de campanha, tinha tronco de botar nos pés, tinha tronco de botar no pescoço, tinha isso tudo.”

A fuga da fazenda

“Meu pai era capataz da fazenda. Meu avô criador de porco, mas era porco mesmo, num era esses porquinho de hoje não. A gente passava bem e passava mal. Mas morreu muita gente e, depois o Dr. Avellar era muito ruim! O pai dele num era ruim como ele não mas ele era. É brincadeira? Botar ‘bacalhau’? Não sabe o que é ‘bacalhau’?! Aqui na cidade tinha que ainda quando eu vim aqui pra cidade eu vi ‘bacalhau’, vi tronco aqui na cidade.

‘Bacalhau é aquilo que é como se diz?…Como aquilo que é couro, enroscado assim…Um relho! Mas não era chicote não. Chicote era trançado e não era trançado não. É. É o que fazia…Dr. Avellar. Ele era filho do Visconde.…Se fugia muita gente? Fugia! Fugia! Chamava Capitão do mato. Procurava eles. O que procurava eles era o Capitão do Mato.

Coitados! Vinha tudo amarrado, algemado assim, tudo algemado, heim!”(perguntada se lá tinha quilombo, não entende a pergunta): “Em Paraíba tinha tudo. Pra onde eles fugia? Era no mato virgem. Era mais na roça. Paraíba, Campo Verde, Boa Vista, Conceição, Santa Teresa. Eu fui criada na fazenda da Santa Teresa. Era do Visconde de Avellar. Ficavam lá no mato, coitados. As vezes eles vinham, roubavam um porco do senhor e iam comer no mato. Fazia fogo no mato pra comer.

Ficava. No mato eles ficava escondido. Quando pegavam eles…meu senhor! Como passavam mal, como eles passavam mal no bacalhau…Olhe! Deus soube o que fez. Deus soube o que fez, meu filho! Eu vi isso tudo, sabe? Esse tempo eu tinha meus 15, 16 anos. Eu vi muita coisa, né? Eu era Ventre Livre, eles queriam me bater, eu disse não! Eu sou forra! Eu sou ventre livre, não sou escrava não! Escravo é minha mãe e meu pai! Queriam me bater? Não. Não me batem não!

Aí eu fugi. Eu fugi e fui encontrar com meu pai, aí meu pai era fugido…Que ele vinha fugindo do serviço, ora! Que vinha fugindo da roça!…Aí meu pai me disse: O que que ocê está fazendo aqui, minha filha?

Eu falei: Eles queriam me bater, eu fugi! Meu pai: Você não pode apanhar, porque você é forra, minha filha. Escravo sou eu, que sou seu pai! Agora você não vai mais pra lá!

Aí eu fui lá pela roça, com meu pai. Ia pra roça com meu pai e minha mãe. Deus faz a verdade, o que eu vi aquele pessoal passar aquele tempo. Dava tapa na cara das criada, dos escravo. Olha!.. Eu tinha raiva de um tal de nome Lulu. Era filho do Dr. Avellar, de que meu pai era escravo.

Eu não sei o que foi que meu pai fez, meu pai ia levar o… ele foi, veio de lá, e mandou um tapa na cara de meu pai. Aí meu pai ficou revoltoso. Ai meu tio disse assim: Vamo embora! E o meu pai, não sei se queria matar ele. Eu num sei. Foi embora. Pra roça. Aí eu tomei raiva dele. Aí ele falou: Ô crioula! Eu falei: Crioula é a sua mãe!

Que ocê deu um tapa na cara do meu pai agora! Se eu fosse meu pai eu te capava a barriga agora!

E ele: Ó sua negrinha! Negrinha, não. Não sou negrinha. Tava com 15 anos. Aí eu fui indo pra roça. Aí meu pai: Mas ocê veio pra roça? Falei: Vim que eu não quero mais ficar na fazenda. Que eles botava as crianças, as pequena, as negrinha, pra brincar com os filhos, pra carregar os filhos dela.”

O Munhambano...

“Tinha festa. Eles davam muita festa pros escravos. Muito. Eles davam S.João, Santo Antônio, tudo. Eles davam…Natal. Tudo eles davam festa. No Natal eles davam roupa…Os fazendeiros é que dava. Dava tudo. Graças á Deus! Dava tudo mas…era aquilo. Mas, era ali, ó!

Minha avó era lavadeira dos escravos. Meu avô era tratador de porco. Minha avó era Benta! Benta da Silva e meu avô também era Bento. Antônio Bento da Silva. Ela era Munhambana.

Ele também era. É. Todos dois eram Munhambanos. Ah…Eles num contaro como era de onde eles vinham não. Eles num contaro que a gente era criança naquele tempo…Meu avô num era preto não. Meu avô, o cabelo dele era aqui (mostra abaixo do ombro) Minha avó também. Meu pai era mulato mas casou com a minha mãe que era preta.

E as outras minhas irmãs eram tudo mulata. Eu e meu irmão saiu da cor da minha mãe. Mas, meu avô? Meu avô o cabelo dele parava aqui (mostra de novo o ponto). Nós penteava o cabelo:(imitando avô:)’Ara! Ara eu! Ara eu pega ocê!’ Tudo assim que ele falava. (imita de novo:) ‘Oça o tutra!” Sei lá, colher que ele pedia, a gente não sabia, se era uma coisa que ele pedia e a gente não sabia. (imita de novo:) ‘ Mim dá essa coisa aí o ningrinha!’: Nós pidia a ele.

Aí ele sabia o que era. Meu avô Antônio. Ele não era preto. Era mulato. Se era mulato de cabelo liso? Era mulato de cabelo liso. É. Veio da África. Meu avô, minha avó contava, porque na fazenda tinha muita gente africana, tinha…Angola, isso…D’Angola… isso tudo tinha.

Os português trazia ele pra aí. Tudo era assim.(Se irritando com a desconfiança dos entrevistadores reticentes com a descrição do avô): Meu avô era africano! Meu avô, minha avó, era tudo africano….(de novo irritada com a insistência da pergunta sobre o estranho biotipo de seu avô): É. Africano. Gente africano. Pois ele era africano! Munhambano é África!

É África. meu avô era africano! Quantas vezes quer que eu falo? (mais irritada ainda): Não! É África! Lugar na África (se acalmando:)… Aqui não tem Madureira? É como assim. É África. É mesmo que lugar da África. Aqui não tem cidade? Num tem Paraíba do Sul? Então? É como a África. É assim.

Aquele tempo…A gente morria de medo de fazer filho.

De que jeito que a gente vivia? O filho lá….Um dia chegava, tirava o filho da gente pra vender. Hum! Minha mãe num foi vendida? Minha mãe num era daqui. Minha mãe era lá da Bahia. Foi. Vendero aí pra um vendedor aí, ó! Meu avô num foi vendido? Meu avô era africano e foi vendido. Então? Foi vendido, num é? Foi o Visconde! Minha avó foi vendida. Isso tudo foi vendido. Agora vai vender quem é? Vão vender quem é? Vai vender ocê?…(Solta uma gargalhada) Vão vender quem é?”

Teresa e a República

…”Hoje é tudo diferente, meu filho. Óia…Porque que eles tiraram o Deodoro da Fonseca?

Porque Deodoro sabia governar! Inda outro dia (imitando o questionamento dos filhos)… Aí, oh mãe…Ó mãe, a Sra…(como se a interromper os filhos)…O que?? Deodoro sabia governar!! Assim que acabou o cativeiro, foi Deodoro que tomou conta. Deodoro botava tudo ali, na linha. Agora não. A mulher dele era boa. Ele era muito bom. A gente comia bem, bebia bem. Aquelas coisa que ficava ruim nas venda…ele mandava jogar tudo fora. Aí…Óia a gente panhando na rua!

Que é de que tá assim agora? Que é de? Que é de?.. Peixeiro, que chegava aí, da praia, lá do lado de lá, da praia de Niterói,…Chegava os peixeiros ? Dava tudo pro home. Ah…! Ele botava aqueles peixes tudo fora. A gente panhava aqueles peixes grandes. Ficava bem bom. Óia a gente se espanando nos peixes. Mas, agora?

Trabalhei pra Deodoro da Fonseca! Eu que tô aqui! Não me incomoda. Aqueles soldados (imitando o soldado lhe fazendo a corte:) ..Ih! De adonde ocê é, heim? E eu: Num tem conversa! Subia. Levando a roupa que minha tia lavava, eu ajudava ela a lavar, ajudava a engomar, viu? E tô aí, com a graça de Deus! Eu agora nem sei o que é soldado!? Soldado hoje é porcaria, não vale nada, não vejo nada. Eu ando na rua e num sei quem é soldado! Porque, aquele tempo…era SOLDADO!

Aquele tempo ocê conhecia GENERAL! Hoje em dia num sabe quem é general, não sabe quem é doutor, num sabe nada nesta vida!…Aquela época tinha (imitando marcha:) báu, báu, báu, báu! Aquelas fardas, que a gente passava, as fardas alumiando o sol, assim…ninguém podia. Agora, hoje em dia num se vê nada. Num vê nada. Anda de calça arregaçada. Aquele tempo, ocê via isso aqui do general, dos soldado…

Você dizia: Ih!, fulano, eles vem lá! Hoje em dia ocê até empurra eles assim…Soldado muito bem vestido, a roupa bem engomada. Quando era gala, a roupa branca…a coisa ali, ó! Eu tinha (respeito)! Eu tinha! Tanto que as vezes até tomava benção.

Ocês sabe que general naquele tempo era General. Hoje eu não sei quem é general! General assim, com estrela, (imitando marcha de novo:)…Táu, táu, táu, táu, chega só…só naquele pisar dele eu sentia medo. Soldado que ocê tem aí? As vezes eu fico assim oiando. Lá perto de mim mora um soldado. Eu falo (desalentada:)… Isso é soldado?! Ah…Eu tinha respeito de soldado. Hoje em dia não tenho respeito de soldado. Tinha”.

Jongo em 1874...

“O Jongo é dos africanos. É do meu avô…Meu avô era do cativeiro. Chamava Antônio Munhambano, africano. Eu sou de Paraíba do Sul. Ele primeiro era do Dr. Avellar. Ele era escravo do Dr. Avellar, num sabe? Ele era escravo do Visconde e do Visconde ele foi para o Dr. Avellar. O Visconde era o pai do Dr. Avellar. Não sei Visconde de quê. Só sei que é visconde, seu conde…naquele tempo, num é ? Foi lá em Paraíba do Sul, na fazenda de Avellar, num sabe?

Meu avô era africano. Foi achado. A parte da África eu não lembro. Só sei que ele era africano. Era ‘munhambano’. Era de Munhambá (sic) e quem trouxe ele pra aqui foi o português, né? Foi quem trouxe ele. O meu avô.

Ele tinha raiva de português porque trouxeram ele pra aqui. Diz que abanavam lenço encarnado e eles vinham chegando. Eles não sabiam naquele tempo quem eram e aí, trouxeram ele.…O Jongo representa pra mim a mesma coisa que é: Negócio da gente africana. O Jongo era festa dos cativos. Era Caxambu, viola…Tinha viola. Meu pai era tocador de viola. Antônio Bento da Silva. Tocava viola…e meu avô, tocava urucungo.

Não…cantado mesmo em…O Jongo era a festa dos pretos. Se era dos preto velho? Não. Era festa dos pretos. Pros brancos vê a gente dançar.

Era um terreiro grande, tocava o caxambu e os brancos vinham e a gente cantava pra eles vê a gente cantar e dançar. Era só pra eles vê. Que a gente era escravo, tava na fazenda. O que é que ia fazer? E se não dançasse, ó…!Era sábado e domingo. As vezes fazia na festa de São João. Foi meu avô quem trouxe o Jongo da África e botou na fazenda pra todo mundo.

Até hoje eu danço, canto o Jongo.Os instrumentos? O que eu sei era caxambu…É aquele de bater: caxambu. A viola era de tocar e o pandeiro acompanhava a viola e o meu avô tocava urucungo, sabe o que é não é ? Botava na barriga …O senhor não sabe o que é urucungo?!

Pois então!? É igual a berimbau. Só que naquele tempo não era berimbau. Era urucungo. Botava aqui, ó (mostra a barriga). Botava no umbigo a cuia e batia.

Eu achava o Jongo daquela época mais bonito. Agora eu faço o desse tempo mesmo. Deixa eu lembrar…Um bom…Jongo dele mesmo, do meu avô. Quando ficou forro e a gente cantava. ‘Carolina‘. Cantava assim:”(cantando)

(Áudio e partitura:Arquivo grupo Vissungo, RJ)

Oh, pra que pente carorina?
Num tem cabelo
Pra que pente Carorina?
Sem cabelo
Pra que pente Carorina?

Ê pra que pente Carorina?
Sem cabelo, pra que pente Carorina?
Ê pra que pente Carorina?
Não tem cabelo,
pra que pente Carorina?”

…”Mas era eles que cantavam e a gente respondia…Era língua africana sim, uai?! Assim. A gente até caçoava deles (zombando): Canta assim, num é ? (enfática): Era língua sim! (repete a letra do ponto de Jongo sem explicar)…essa era na língua deles (canta mais) …mas a gente não respondia assim. Respondia depois.”

Jongo 100 anos depois

…”Hoje num tem mais nada. De primeiro, na casa dessa só tinha Jongo (se referindo á Madureira) . Todos os sábados nós dançava mas…o pessoal morreu. Num ficou ninguém. Cada casa tinha Jongo. Cada casa tinha Jongo. Era todo sábado.

Ah…Quem canta o Jongo sou eu…tem essa outra aqui mais…as outra precisa…Pode aprender. Nós aprendemo, num é? Elas pode aprender, vê a gente dançar, cantar e elas aprende também.…Tem. Tem. Em Madureira tem muito. Tem muito, oh!.. A Maria (se referindo á Maria Joana, mãe de Darcy do Império, já falecido e hoje conhecido como Darcy do Jongo) quando deu o Caxambu teve gente lá assim, ó! Na casa dela. Agora eu não. Se ocês for lá vê. Eu nunca mais dei. Eu não. Meu marido morreu, eu fiquei eu com meus filhos, sabe. Graças a Deus.

Fiz Jongo! Óia…Ainda hoje eu soube que lá na minha terra tem Jongo quase todo sábado. Diz que tem Jongo. Naquela casa que ocês….diz que eu vou lá. Ela disse que qualquer tempo ela vai me levar lá. Diz que o Jongo, que o bagúio lá é assim! O Caxambu lá é de arromba. (para Joana):..Ocê tem num vontade de pular no Caxambu de lá não, Maria? O Caxambu lá é de fato.

E a gente sabe cantar aqui? Num sabe cantar. Num tem voz! Essa gente aqui num tem voz pra cantar. Quem vai cantar o Caxambu sou eu…Aquela pequenazinha hoje num sei se vem, é só. E lá não…todo mundo à cantar, todo mundo à dançar! Lá em minha terra. Graças a Deus!

Óia…Todo mundo fala: A Sra., já tá com essa idade e ainda dança? Danço! Inda pulo o meu Caxambu! Graças á Deus!”

——–

Notas finais:

Maria Teresa teria nascido em 1859. Os fatos dos quais nos dá conta são de quando ela estava com cerca de 15 anos. Logo, o Jongo que descreve é, portanto, aquilo que sobre a manifestação poderia saber uma adolescente. São preciosas no entanto as descrições sobre uso no Jongo da época, de instrumentos como o Uruc-hungo (a raiz ‘Hungo” diz respeito a um arco musical tipicamente Bantu, angolano mais precisamente) e a viola.

Em 1874, já com o processo de decadência das fazendas da região se aguçando, sabe-se que foi hábito comum entre os ‘Barões do Café‘ demonstrar, ostensivamente, os resquícios de fausto que lhes restavam, forçando seus escravos a se exibir para visitas, vindas, não raro, da Corte.

Foram, certamente, a partir destas viagens, que danças como o Lundu, por exemplo, migraram para a os salões da Corte.São importantíssimas as informações que Teresa presta, no sentido de que seu avô, africano de nação ‘Munhambano‘, foi quem trouxe a prática do Jongo para o local (não o seu avô, pessoalmente, é claro, mas africanos bantu, trazidos para aquela região, de cultura similar a dele). O fato curioso dela falar e insistir que seus avós eram mulatos de cabelo liso, pode ser, definitivamente, explicado pelos dados a seguir.

Num gráfico sobre a demografia escrava na região de Vassouras, RJ, está demonstrada a existência na região de Vassouras e Paraíba do Sul de indivíduos da etnia Inhambane, associação evidente com o ‘Mu-nhambano’ citado por Maria Teresa.

Inhambane é de fato uma vasta região ao norte de Maputo, em Moçambique, no litoral do país cuja população original foi, por conta disso, exposta, durante muito tempo, às influências gerais das históricas relações entre Ásia e África, ocorridas na costa africana do Oceano Índico, relações estas que produziram, entre outros efeitos, alguma mestiçagem de negros com árabes (cujos interesses comerciais penetraram ali antes dos portugueses) e indianos (que marcaram fortemente o perfil étnico da população do Madagascar, por exemplo, ilha muito próxima à costa a Moçambique).

Por esta hipótese, os avós de Maria Teresa foram pegos no território Inhambane e postos num navio que, atravessando o cabo da Boa Esperança, deu no oceano Atlântico, seguindo para o Brasil.

Sendo o kimbundo angolano a língua africana predominante entre os escravos da região, usava-se o prefixo coletivo ‘Mu” antes do local de origem das pessoas, para identificá-las mesmo que esta origem não fosse Angola (‘Mu-brasil’, por exemplo seria…brasileiro).

Por esta hipótese etimológica quase cabal, Mu-inhanbane (ou ‘munhanbano’  como quase vernacularmente falava Teresa) eram pessoas oriundas do Inhambane, Moçambique, região com franca miscigenação entre africanos negros e asiáticos oriundos em tempos mais remotos das ilhas do Oceano Índico e da costa do continente asiático, razão também cabal do fenótipo do avô de Teresa ser ‘mulato de cabelo liso’.

Segundo o gráfico acima citado (de Flávio G. dos Santos), haviam apenas 8 indivíduos de origem Inhambane na região de Vassouras entre 1837 e 1840, seis deles residindo em fazendas nas quais pode ser incluída a Santa Teresa, citada por Maria Teresa. Alguns destes indivíduos são citados nos autos do processo de condenação de Manoel Kongo à forca em 1839. A hipótese de, pelo menos, dois destes seis escravos serem parentes (dois seriam os próprios avós ‘Munhambanos‘) de Maria Teresa é de todo modo, impressionantemente plausível.

Precioso é, do mesmo modo, seu testemunho pessoal – e ocular- de que eram comuns na região as torturas, as fugas e os ‘aquilombamentos‘. Os locais descritos por ela, correspondem a onde está circunscrito hoje parte do Município de Avellar, vizinho de Paraíba do Sul.

Na crônica da insurreição de escravos conhecida comoQuilombo do Manoel Congo‘ (sobre o qual este autor escreveu o espetáculo oAuto do Manoel Kongo que pode ser lido neste link“), ocorrida em 1838 nesta região), tem papel importante nos conflitos a fazenda de Santa Teresa, já pertencente naquela época a João Gomes Ribeiro de Avellar, o Visconde do Paraíba (chamado de Visconde de Avellar por Maria Teresa).

O Barão de São Luiz, Paulo Gomes Ribeiro de Avellar, filho do visconde, (talvez o tal que bateu na cara do pai de Teresa e é chamado por ela de ‘Lulu‘) é citado no processo que condenou Manoel Congo à morte, como dono do escravo citado como sendo o próprio ‘Vice Rei‘ do quilombo, um tal de Epifânio Moçambique, morto na refrega.

Não tendo feito qualquer comentário sobre o retorno de seu pai, de sua mãe ou dela mesma para a fazenda, depois da fuga narrada, fato que, por sua relevância dramática, com certeza teria sido citado na entrevista, pode-se deduzir que Maria Teresa (e toda a sua família), viveu na condição de quilombola a partir de 1874.

A afirmação que faz de que ainda viu instrumentos de tortura na Corte, atesta o fato surpreendente de que ela já estava residindo no Rio de Janeiro, na proclamação da República, havendo ficado livre, portanto, cerca de 14 anos antes da Abolição.

Num ano destes aí – já na década de 2000-  esta entrevista apareceu transcrita, desautorizadamente, sem crédito algum à sua fonte que sou eu, Spirito Santo e o  Grupo Vissungo (grupo musical e de pesquisa que teve a iniciativa de entrevistar Teresa em 1973 – com a participação dos entrevistadores citados, entre eles este que vos escreve) num site do departamento de História de uma importante Universidade aqui do Rio de janeiro.

Advertidos os responsáveis por email, a transcrição foi deletada do site. Informamos aos leitores por  causa deste fortuito, antiético – e algo recorrente – incidente que a transcrição de documentos e fontes orais, do mesmo modo que qualquer documento histórico, precisam ter os créditos dos autores devidamente informados, como aliás adverte a licença Criative Commons que inserimos no topo desta matéria.

Esta eletrizante entrevista é um dos eixos temáticos principais do meu livro ‘Do Samba ao Funk do Jorjão’ que sairá brevemente (Já saiu!) pela Ed.Cultura  (versão papel) e pela Editora on line KBR Digital .

(Nota em 2018: O referido livro se encontra na verdade em segunda edição, produzida pelo SESC Nacional, à venda no site http://rosasespiritos.wixsite/vendas ou na Livraria Folha Seca, Rua do Ouvidor, 37- Centro, Rio)

Spírito Santo

(Atualizado em 2013)