A Iconografia da Barbárie


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BARBÁRIE TAMBÉM É CULTURA

Estamos apresentando hoje um tema que apesar de, enquanto peça de humor, não ter a menor graça, nos ajudará sem dúvida nenhuma a compreender, definitivamente, porque talvez devêssemos começar a nos livrar logo (além da hipocrisia, do cinismo e de outras manias sub-urbanas) de algumas expressões outrora tão jocosas e pitorescas  – ó jocosidade brasileira hoje tão efêmera!-  tais como, por exemplo, ‘Bárbaro!’ (quando nos referíamos a uma coisa tão boa, que chegava a ser fantástica) ou a gauchíssima “Barbaridade!” (com um sentido mais ou menos igual, só que exagerando mais ainda), ou mesmo “Sinistro!” (algo assim como ‘Incrível!’, ‘Pra lá de bom’!), ou mesmo “Terror”, ‘Horror‘, ‘Alucinante‘ e outras palavrinhas;

É que que, ditas assim, no calor de uma conversa sadia e sem compromisso, estas palavras podem agora assustar alguns desavisados, estressados, como estamos ficando nós todos hoje em dia -principalmente os cariocas – que de hilários piadistas de plantão, antes cuca-frescas profissionais, nos tornamos pilhas de nervos, literalmente perdidos como cegos em tiroteio, ouvindo a briga de foice no escuro, abaixando aqui e ali a cada zás das foices (vai que uma delas é a daquela ‘velha dama‘ que nos quer a todos, um belo dia, em sua fria companhia?).

Coisa de louco!

Vamos nessa então sem fazer muito estardalhaço, enquanto vivos estamos (o episódio de hoje aliás, passa ao largo destas palavras que não se deve mais sequer ousar falar).

Escrito no já distante 4 de Janeiro de 2004 e publicado em 2005 (nesta versão de 2010 há uma brevíssima atualização), num jornal on line chamado ‘Observatório da Imprensa‘, leiam o candente tema da escuridão jornalística, do ‘apagão‘ imagético, do ‘branco‘ da nossa antes tão corajosa e impoluta mídia, enfim sobre a ausência de imagens que a barbaridade real (até demais) destes nossos dias vai nos legar para o futuro (que, se recuarmos à 2004, nada mais é do que este inquietante presente). Com vocês então:

A Iconografia da Barbárie
Mídia e imagem popular no Brasil

Como um filme mal editado, a Mídia no Brasil começa a sofrer, em muitos aspectos as consequências da ausência de imagens que reflitam o que realmente acontece nas entranhas de nossas grandes cidades, principalmente no interior dos enormes bolsões de exclusão e miséria ainda hoje chamadas, com certo descaso semântico, de ‘comunidades carentes‘.

Que efeitos estas circunstancias produzirão num futuro mais imediato, sobre o acervo de imagens da vida contemporânea de nossas grandes cidades, principalmente Rio e São Paulo; sobre a iconografia de nossa alma urbana em suma?

Que falta estas imagens farão á compreensão de nossa realidade, aquela compreensão tão necessária á formulação de políticas que estimulem nosso desenvolvimento?

Para início de conversa, pode-se supor talvez que, entre outras razões, a circunstância desta nossa carência de imagens reais do cotidiano, foi recentemente instalada pela violenta e absoluta rejeição que os traficantes de drogas – e as diversas outras modalidades de bandidos que hoje infestam o nosso Brasil — passaram a sentir pela imprensa em geral, principalmente por aqueles setores voltados para o registro de imagens, em coberturas jornalísticas que, por força do enorme aguçamento da violência urbana, passaram rapidamente a assumir a condição de cobertura de guerra.

Havia já na moderna iconografia jornalística do Brasil (na filmografia inclusive), por conta dos renitentes (embora sutis) mecanismos de afirmação do nosso elitismo, um certo manto de invisibilidade que encobria, por exemplo, a trágica vida nas favelas, invisibilidade esta encoberta pela criação de uma imagem, idílica, romântica, do favelado cordial, pitoresco e submisso, dominado por meia dúzia de contraventores fuleiros e desorganizados, imagem que talvez nada mais fosse do que uma espécie de projeção de como os intelectuais de nossa iníqua classe média, gostariam que os favelados efetivamente fossem:

Seres miseráveis porém, conformados, bem humorados, e inofensivos.

Foi justamente quando este manto de hipocrisia jornalística parecia se dissipar, que a síndrome Tim Lopes se abateu, de forma definitiva sobre esta arriscada forma de se fazer imprensa no Brasil.

Produzindo sub-repticiamente o registro, flagrando os delitos, o modus operandi da bandidagem, num contexto que já poderia ser descrito, sem nenhum exagero, como um típico estado de guerra, com dois lados empenhados em verdadeiras batalhas de morte; auxiliando (ou sendo utilizada) na produção de certo tipo de retratos do submundo que, por sua contundência, acabavam por se transformar em provas e atos de denúncia direta contra indivíduos de alta periculosidade, nossa imprensa talvez só tenha se dado conta dos enormes riscos – jornalísticos e humanos- contidos nesta sua temerária estratégia, quando Tim Lopes foi barbaramente trucidado por Elias Maluco.

O fato é que, no afã de cumprir – talvez açodadamente – sua função de caçadora de notícias, a imprensa de nossas grandes cidades, passou a divulgar, de maneira muito sistemática, certos segredos estratégicos cruciais para a estabilidade do crime organizado esquecendo-se de que estava envolvida na cobertura de uma guerra e que, neste caso, não poderia autorizar jamais, que seus correspondentes penetrassem, sem apoio policial ou militar, nas linhas inimigas.

Na Teletela de Orwell

Esta ojeriza pela utilização judicial ou comercial de imagens de seu cotidiano, foi crescendo lentamente no meio dos traficantes, ao mesmo tempo em que ia se formando no Brasil, a exemplo do que já ocorria no resto deste nosso globalizado mundo, uma espécie de sociedade “Big Brother”, com a privacidade de cada cidadão (sempre em nome da segurança de todos), sendo controlada por milhares de câmeras e microfones ocultos, gerando em todas as pessoas de bem, uma sensação de contraditória insegurança.

Perdendo o controle da situação e abandonado a imparcialidade (condição difícil, mas essencial à imprensa também em situações de guerra) os jornalistas (fotógrafos, principalmente) passaram a ser vistos como ‘chisnoves‘, espiões em potencial, se transformando, na ótica dos traficantes, em bolas da vez, vítimas preferenciais de mortes exemplares, assassinatos emblemáticos, quase culturais, como efetivamente aconteceu com o hoje mítico Tim Lopes.

É por esta, entre outras razões, que hoje existem apenas lendas, relatos orais do que acontece realmente no interior de um complexo de favelas.

Circula também, a bem da verdade, certo tipo de imagem bem próxima do real (talvez um tanto glamurizada demais) que anda sendo expressa por aí em bons filmes e telefilmes como Cidade de Deus e Cidade dos Homens.

Desde que o controle violento dos traficantes sobre os espaços mais carentes da cidade se agudizou no entanto, rigorosamente nenhuma imagem real – principalmente noturna – pôde ser gerada ou trazida para fora do contexto onde foi produzida (neste ponto um novo preâmbulo com uma pergunta que não quer calar: Haverá uma iconografia autorizada pelas ‘milícias’?).

Outro aspecto importante é que, ao mesmo tempo em que a enorme popularização de máquinas, meios e equipamentos para o registro de imagens virava um fenômeno de consumo no Brasil, o crescente interesse das, agora escaldadas, empresas jornalísticas (principalmente emissoras de TV) pela aquisição das impactantes imagens desta guerra, passou a ser orientado no sentido de racionalizar, ou mesmo anular, todos custos operacionais e humanos diretos, comprando imagens geralmente produzidas por outro interessante personagem de nossas selvagens cidades: O bravo e indefectível “cinegrafista amador”.

É, com efeito, esta conjuntura que acaba por estimular, se não o surgimento, pelo menos a afirmação deste tipo de ‘profissional’ de imprensa, safo, ágil, clandestino, biscateiro especializado na documentação de solenidades comunitárias, batizados, festas de casamento, bailes Funk, etc. indivíduos que, transformados numa espécie de paparazzi de mazelas e tragédias urbanas, logo se transformaram em incansáveis caçadores de qualquer imagem inusitada que tenha interesse jornalístico especial (e o conseqüente valor comercial) – exceto é claro aquelas cuja obtenção signifique o risco da vida ou a certeza da morte.

Ninguém sabe…ninguém viu.

Está se criando por conta disso tudo, uma extensa área de sombra na iconografia de nossas grandes cidades, um apagão provocado pela falta de registros gráficos (fotografia, cinema, TV) retratando o dia á dia, o bem e o mau viver dessa gente, ou até mesmo o que acontece nos espaços públicos onde vivem ou circulam estes milhões de pessoas que o Brasil rico e remediado, hoje já meio apavorado, teima em esconder.

Infelizmente este vazio, muito provavelmente, só poderá ser preenchido um dia, pela pesquisa ou coleta de imagens privadas, registradas por aqueles mesmos cinegrafistas amadores em festas comunitárias, casamentos, álbuns de família, etc. imagens aleatórias, cifradas, censuradas por severíssimas leis ‘do silêncio’, geradas que serão pelas mais vagas motivações e fortuitos interesses , sobre as quais não podemos ainda sequer prever a estética e os conteúdos que conterão porque, serão reflexo da visão estreita, da visão possível, obtida através de um ângulo bem fechado, de dentro destas comunidades, que se tornaram trágicas cidadelas da invisibilidade.

Parece óbvio, pelo menos nos aspectos abordados até aqui, que esta situação só poderá provocar a curto prazo, a confrontação na mídia brasileira de duas iconografias contraditórias mas não excludentes:

Uma hegemônica, que voltará a ser imaginada ou idealizada pelos habituais profissionais criadores de imagens (fotógrafos e cineastas principalmente), segundo sua exclusiva visão estética e ideológica, alimentada por seu interesse comercial evidente e aquela outra, produzida pelos próprios habitantes das tais comunidades carentes (inclusive os traficantes e integrantes de ‘milícias’), anárquica, espécie de iconografia autofágica, movida por códigos de linguagem e conteúdos absolutamente imprevisíveis mas de valor sociológico muito maior.

Não é difícil se concluir portanto que na falta de outras, estas imagens quase endoscópicas ou tomográficas de nossa sociedade, serão essenciais à compreensão de nossas doenças sociais mais graves, pistas vagas porém, quiçá únicas, para almejarmos talvez alguma cura no futuro.

Extrair e compreender as imagens retidas no interior destas nossas cidadelas de invisibilidade será uma tarefa jornalística urgente daqui para a frente. Sem elas não haverá antropologia possível no futuro. Quem sobreviver verá. O melhor cego é aquele que quer ver.

Spírito Santo

Rio, 4 de Janeiro de 2004
(publicado em Observatório da Imprensa em 2005)

Brasil Afro #03 – Ainda Palmares e um necessário parentese africano


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Clique na foto e a amplie. Fique chapadão como eu. Na gravura do pintor holandês Olferd Dapper, uma vista panoramica da incrível – e enorme – capital do ‘reino’ do Loango no século 17. O Loango era um sobado suserano (um reino menor e subalterno) do grande Reino do Kongo que, pode-se ver agora, devia ser muito maior do que imaginávamos.

(Leia os sensacionais posts #01, #o2 e desta série)

Se liga galera: Negros não nascem de pés de repolho

Eu sei. Promessa é dívida. Fiquei de desvendar um segredo crucial desta saga angolana no Brasil: O mito do menino Zumbi sequestrado.

Vou cumpri-lo, claro, mas me dei conta agora mesmo de que vocês estão – como eu estava –boiando totalmente nesta história, na História maiúscula desta gente preta que deu no que somos hoje todos nós.

Incrível, mas vocês não sabem de nada. Cegos em tiroteio. Também não é para menos: Ninguém se deu ao trabalho de colocar esta parte da nossa história num livro didático. Numa ou noutra tese de doutores ela está, mas quem lê teses de doutores? O certo é que – sabe-se lá quem – falsearam, forjaram e omitiram totalmente de nós alguns detalhes.

Negros não nasceram de pés de repolho, não é mesmo? Estamos aqui porque nossos parentes vieram de algum lugar.

Daí ficarmos assim, achando que nosso jeito africano de ser surgiu – sem desmerecer os silvícolas ameríndios que também somos – da improvisação, do atavismo de um bando de selvagens de tanga, arco e flecha, envolvidos em ritos bárbaros e trazidos à força para um ‘civilizado’ Brasil.

Mentira deslavada, sabe-se lá por quem lançada. E nem nos interessa mais saber por quê. Cuidemos de, cabalmente desmenti-las e pronto. Vocês verão que o segredo impressionante que estou guardando sobre a farsa do menino Zumbi sequestrado – o tcham tcham tcham tcham desta série – fará muito mais sentido depois deste mergulho na mais remota história de nós mesmos, negros e brancos do Brasil.

Não precisa nem dizer: Eu sei que você, brasileiro (ou angolano), estudou bastante história portuguesa no ginásio. Dom Sebastião, o venturoso, batalha de Alcacerkibir, sei lá, estas coisas aí bem ‘trás-os-montes’. É hora de perguntar então (pelo menos os brasileiros): Porque não nos ensinaram a história de Angola?

A hora é esta então: Em vez da história da nobreza portuguesa, coloquemos  em foco, aqui e agora, a história gloriosa de nossa própria e preta nobreza de descendentes de lá dos ‘trás-os-oceanos’.

Sim por que, no século 17 – época na qual o Kilombo de Palmares cresceu e prosperou – Angola e Brasil eram praticamente uma colônia só. Tudo nos unia, até mesmo as guerras. A maioria esmagadora dos negros de Palmares veio dos reinos do Kongo e de Angola.

Ué?! Não te contaram isto não?

Há um lençol pudico, uma névoa de censura envergonhada cobrindo o nosso espelho étnico neste em em muitos outros aspectos – e este é o tema central desta série de posts – nossa imagem africana real precisa ser revelada. Vamos pensar mais nisto então, enquanto corremos atrás do que nos diz respeito?

África. Século 12, 13, por aí:

Ndongo, reinos do Kongo e de Angola

Tendo Lukenyi Lua Nzama como mãe e Nimi a Nzima como pai, Nimi a Lukenyi, tido como o patriarca do povo Kimbundo, pelo que se conta, era um moço caçador que vindo dos lados do rio Kwangu se estabelecera com sua gente em Lemba, localidade perto do Matadi, bem próximo ao estuário do Rio Kongo. As migrações africanas que geraram o que seria mais tarde o império do Kongo, com um dos clãs chefiados por este Nimi a Lukenyi foram contemporâneas ás invasões bárbaras na Europa no século 14, mais ou menos na mesma época de Joana D’arc, na França.

Em Janeiro de 1482 D. João II, já entronizado como rei, ordena que o navegador Diogo Cão parta em viagem de prospecção e “descobrimento” da costa de África. Em 1483 ele chega à foz do Rio Zaire. Volta uns meses depois e se depara com muitos nativos com os quais não consegue estabelecer muita conversa, exceto sugerir que voltará daí a pouco tempo e que gostaria de conhecer o rei de todo aquele país. Deixa por lá desta vez quatro padres franciscanos com a incumbência de irem até onde reside o rei do lugar.

Em Abril de 1484 Cão sai de Lisboa para a segunda expedição a África. Nesta sua volta ao Kongo, aguarda por muito tempo pela chegada de padres que havia deixado na viagem anterior. Não há sinal dos franciscanos. Gente totalmente desconhecida para os habitantes da terra os padres haviam sido levados á presença do soberano local no interior da selva e de lá não puderam se afastar, segundo disseram mais tarde, por causa da enorme curiosidade dos nativos pelo que eles contaram acerca dos estranhos hábitos dos brancos, além da curiosidade que eles mesmos tiveram acerca dos hábitos dos nativos.

Deduzindo talvez (os textos são ambíguos quanto a isto) que os padres poderiam ter sido capturados ou mortos, Diogo decide levar como reféns em seu retorno para Portugal, um grupo de naturais da terra que, também por mera curiosidade, haviam entrado no navio. Os documentos afirmam que entre estes curiosos visitantes do navio, naturalmente uma expedição com o intuito de investigar quem eram aqueles homens ‘albinos’, estava Kassuta, o filho do atual soberano local, Nzinga Nkuwu.

Levados á Lisboa, direto para a presença do rei e, por conta do longo tempo da viagem, já falando alguma coisa de português, Kassuta, filho de Nzinga Nkuwu e seu séquito ficam em Portugal por cerca de dois anos, segundo os relatos portugueses sendo muito bem tratados na Corte de Lisboa. Bem vestidos á moda local e convertidos ao cristianismo, este embaixadores involuntários teriam sido encorajadas á servirem de intérpretes dos portugueses que os devolvem ao Kongo em 1487.

Desta vez Digo Cão é realmente levado á Mbanza Kongo (‘Mbanza’ significa ‘capital’ na língua local, o kimbundo) do que passou a ser conhecido como o Reino do Kongo. Recebido com uma grande festa, os portugueses reencontram sãos e salvos os quatro padres franciscanos. O rei do Kongo reencontra com muita alegria os seus compatriotas e seu filho que, embora vestidos de forma tão espalhafatosa, depois de encantados com a influencia dos costumes de Portugal, parecem estar muito bem.

Inicia-se assim, com pompa e circunstância, o que o historiador inglês Basil Davidson chamou de os ‘anos de provação‘ para o sudoeste da África. Em 19 de Dezembro 1490, o sucessor de Diogo Cão, Gonçalo de Sousa, sai de Lisboa para mais uma viagem à costa africana, mas morre a meio caminho sendo o comando entregue a Rui de Sousa.

A cronologia dos ‘anos de provação’ 1

A história africana desta época, no que diz respeito á nós, brasileiros, começa portanto em 1482 com o MweneKongo Nzinga a Nkuwu 2 (pai de Kassuta), reinando sobre a vasta região denominada Kongo no tempo em que o primeiro navegador português Diogo Cão, chegou ao Matadi. A era de Nzinga Nkuwu, batizado de D. João da Silva (D. João ‘Da Selva’), em homenagem a D.João II, rei de Portugal (o D.João ‘da Cidade’), como não poderia deixar de ser, foi marcada por muitos conflitos e divergências ligados a sua sucessão, demasiadamente influenciada pelo seu interesse pelas coisas de Portugal, fortemente defendidos por seu filho Kassuta.

É provavelmente este príncipe Kassuta que, voltando para o Kongo educado sob os moldes cristãos, maravilhado com a cultura portuguesa aprendida em Lisboa durante a interesseira hospitalidade do rei D. João II, quem mais tarde coroado como o rei MweneKongo Nzinga a Mbemba (D.Afonso I), transfere a capital (Mbanza) e inicia o sangrento processo de certa sujeição do Kongo aos interesses de Portugal. No ano de 1512 D.Afonso I, escreve ao Papa Júlio II, submetendo-se ao cristianismo e apresentando seu filho D. Henrique como seu representante.

As divergências internas suscitadas pela total submissão da nobreza do Kongo aos interesses de Portugal, acabou provocando um cisma de grandes proporções entre os reinos vassalos (comandados por membros da mesma família ou clã) e a população em geral. Duas correntes principais se formaram. A primeira, que era integrada por aqueles que aceitavam a influência estrangeira, queria modificar tudo no Kongo, suas instituições, sua religião, etc. e era comandada por Nzinga a Mbemba (o mais velho, segundo na linha de sucessão). A outra corrente, liderada por Nzinga A Mpanzu (o mais novo, primeiro na linha de sucessão) se esforçava então para combater tudo que fosse estranho aos costumes tradicionais da terra.

Nzinga a Mpanzu que é o herdeiro legítimo á sucessão do pai, assume o seu lugar mas é logo deposto pelo irmão Kassuta, com a ajuda de padres  jesuítas, agentes de Portugal. Nzinga Mpanzu acaba sendo expulso da mbanza (sede) Kongo, tendo que se refugiar no reino vizinho, terras do Muene Nsundi. Nzinga a Mbemba (Kassuta), já cristianizado, recebe então o nome de D.Afonso I e assume o trono ali por volta de 1506.

Nzinga a Mbemba não era simplesmente um rei subserviente, ele era na verdade um tipo ingênuo de visionário, que se julgando grande amigo de D.Manoel I, rei de Portugal – com quem trocava ampla correspondência, sob o tratamento mútuo de “Irmãos Reais” – imaginava poder obter certas vantagens comerciais e tecnológicas dos brancos.

Suas decisões devem ser compreendidas, portanto no âmbito de uma conjuntura política na qual alguns reinos que deviam vassalagem ao Kongo, conspiravam intensamente contra a liderança dele, Nzinga Mbemba, que acabou vendo na aliança com Portugal sua melhor garantia para manter e perpetuar seu poder. É neste contexto que Mbemba, ‘rei do Kongo’ chega a declarar numa carta á D.Manoel o seu desejo de obter a tecnologia para a construção de caravelas, com o fim óbvio de expandir suas fronteiras comerciais e se impor diante de reinos rebeldes e impérios vizinhos.

É assim que, mesmo tendo que enfrentar o agravamento dos conflitos daqueles que, além de questionar sua liderança, não aceitam de modo algum à sujeição da região ao estrangeiro, Nzinga Nkuwu aposta na sua trágica ligação com Portugal.

Diogo Cão volta ao Matadi outras vezes. Numa delas, em 1491, consegue penetrar nas terras do Reino do Nsoyo, vassalo do Kongo, onde convence o Mwene Nsoyo (título do governante local) das vantagens dele se converter também ao cristianismo para gozar da amizade e da gratidão de Portugal. Diogo Cão traz consigo desta vez muitos agentes de sua cruzada de dominação cultural, entre os quais alguns padres e aliados nativos (cristianizados durante o processo de cooptação da família real do Kongo), além de paramentos católicos em profusão. O Mwene Soyio e toda a sua família são então batizados. O Mwene Nsoyo recebe o nome de D. Manoel, cabendo a seu filho o nome de D. Antônio.

Nzinga Mpemba e a gênese do afro catolicismo angolano

A era de Nzinga a Mbemba é marcada também pelo aprofundamento da ligação da cúpula ou nobreza do Kongo com a igreja Católica Apostólica Romana, representada pelos interesses do Cardeal D. Henrique,  importante líder católico, jesuíta e senhor-mor da inquisição em Portugal e que, muito se empenhou junto a Santa Sé em Roma pela sagração de D.Henrique I, filho de Nzinga a Mbemba como bispo de Utica em maio de 1518 aos 23 anos de idade.

A extraordinária missão diplomática que leva o jovem de 18 anos carrega muitos presentes de marfim, peles raras e finos têxteis de ráfia do Congo e é acompanhada por uma comitiva trezentos e vinte cativos selecionados pelos portugueses.

A missão chegou á Lisboa de onde foi enviada, por terra, até a Itália, atravessando os Alpes á pé e chegando sã e salva ao Vaticano em 1513. O Papa Júlio II havia falecido sucedendo-lhe Leão X. que é quem em Maio de 1518, sobre a recomendação de quatro cardeais do Vaticano, consagra o filho do rei do Congo, como Bispo de Utica aos 23 anos de Idade. D.Henrique regressa ao Congo em 1521 do Kongo, morre em 1538.

A bem da verdade, esta política de colonização cultural, era levada a cabo no Kongo, não só pela coroa portuguesa, mas por seu agente principal: a ordem dos jesuítas, cujo objetivo central era montar na África missões semelhantes as criadas nas colônias europeias da América do Sul e tinha como estratégia essencial, fomentar a discórdia e desestabilizar a já combalida unidade entre os povos da região, afim de facilitar a conquista militar e territorial que se seguiria à dominação religiosa e ideológica da elite do Kongo.

Em nome da imposição de uma ordem cultural cristã hegemônica, uma era de cruel repressão ás práticas culturais tradicionais é empreendida pelo rei do Kongo, sob as ordens dos padres da ordem jesuítica dos e portugueses. Grande parte dos sacerdotes e médicos tradicionais (Ngangas e Kimbandas) é exterminada por meio de uma série programada de assassinatos. Uma longa série de conflitos e golpes de estado provocados pela inconciliáveis divergências entre sobas nacionalistas e a incondicional aliança do rei com os portugueses, lança o império do Kongo no caos.

A partir desta época, pelo pouco que se pode apreender a partir da enorme ambiguidade da documentação, o que se conhecia como Reino do Kongo passou a ser apenas uma espécie de protetorado português, com importância reduzida no contexto das lutas pela independência da região, posto que passou a ser ocupado pelo ‘Reino d’Amgola’, assim chamado pelos portugueses por conta do título de seus governantes: ‘Ngolas‘. Os títulos Mwenekongo (Rei do Kongo) e MweneNgola (rei do Ndongo) passaram então a se confundir. Os Portugueses e jesuítas que não se conformaram com esta nova  conjuntura ensaiaram um cruento golpe de estado, tentando devolver o poder a seu preposto rei do Kongo D.Alvaro I.

Ao que parece esta dinastia ligada a Ngola Ndambi (D.Alvaro I) é o clã mais importante da região do Kongo e do Ndongo, pelo menos até a morte de Nzinga Mbandi, a rainha Jinga (neta deste Ngola Ndambi) em 1663 3 . Pelo que se sabe até agora, o clã Nzinga do Ndongo assume o poder (tendo em alguns períodos total ascendência sobre o Kongo) a partir de Ngola Ndambi em 1570. Os documentos são confusos em relação a genealogia dos reinos do Kongo e Ndongo-Matamba (‘Reino d’Amgola’) nesta época. Ao que parece, alguns documentos omitem ou confundem o nome ‘angolano‘ de certos manikongos (que pertenceriam ao clã do Ndongo) com o nome de seus títulos nobiliárquicos na língua local (Kimbundo).

Ao que tudo indica portanto teriam existido dois períodos principais na história da região: Um no qual reis títeres de Portugal governaram o Kongo em crescente litígio com o clã do Ndongo-Matamba, e outro no qual os chamados Ngolas, ora se aliaram ora combateram Portugal, governando (ou tendo parentes governando) o Kongo como Manikongos de fato ou seja, o poder do império a partir de certa época, passou a ser (se já não era) exercido exclusivamente por membros de famílias oriundas do povo da região do Ndongo – Matamba.

O período de predominância desta dinastia relacionada ao Ndongo-Matamba, parece se acentuar quando o representante português Paulo Dias de Novais foi aprisionado e o golpe perpetrado pelos portugueses e jesuítas totalmente rechaçado pela população que, em 1568 numa espécie de guerra civil expulsou o Mwenekongo 4 , D. Álvaro I ,seus aliados e todos os estrangeiros para a ilha de Luanda no Reino de Angola na embocadura do Rio Nzaidi)

Novamente aqui, a grande confusão sobre os nomes de quem, efetivamente, governava o Kongo pode significar que o poder real na região estava sofrendo de muitos questionamentos e conflitos entre clãs e facções, podendo significar que conviviam num mesmo período reis do Ndongo (com algum tipo de ascendência sobre o poder no Kongo) e reis títeres, que tentavam governar o Kongo a serviço de Portugal.

Como o nome português destes eventuais reis títeres (principalmente os da dinastia dos ‘Álvaros‘) aparecem em alguns documentos como contemporâneos – ou mesmo homônimos- de supostos reis Ngolas do clã do Ndongo (o que ocorre notadamente com Ngola Nbambi e seu filho Ngola Ndambi Kiluanji Kia Samba), O mais provável é que tenham sido do clã do Ndongo todos os governantes da região compreendida pelos dois reinos, á partir da época de Paulo Dias e Novais.

Dois anos depois, logo após a tentativa de golpe por parte dos portugueses e dos jesuítas (1570), D.Alvaro I / Ngola Ndambi (ou Mpangu-a-Nimi Lukeni lua Mvemba) pede de ajuda ao rei de Portugal (D.Sebastião e ao seu tutor Cardeal D. Henrique, jesuíta e senhor-mor da inquisição em Portugal) que enviando prontamente 600 soldados comandados por Francisco de Gouvêa o recolocam no poder.

1575. Paulo Dias de Novais (que havia sido libertado) volta a Luanda. Havia assumido o poder o filho de Ngola Ndambi, Ngola Ndambi Kiluanji Kia Samba (ou, como o pai, Mpangu-a-Nimi Lukeni lua Mvemba) conhecido como D. Alvaro II. Ngola Kiluangi, liberta Francisco de Gouvêa, comandante da expedição que socorreu os aliados de Portugal, que estava também preso até então. Kiluangi também muda a Mbanza de Kakulo para o reino vizinho, o Mbaka e, em Junho 1575, manda uma embaixada de boas vindas a Paulo Dias de Novais.

Poucos anos depois, no entanto, pressionado pela grande insatisfação da população com os invasores, ele decide trair estes invasores, promovendo o cerco militar aos portugueses em Anzele em 1579. Em Janeiro 1584 chegam a Massangano os reforços militares e munições solicitados por Paulo Dias de Novais. 20 de Julho 1585 O Rei Ngola Kiluangi retira do seu acampamento de Cabaça. Ngola Kiluanji Kia Samba morre em 1587.

O próximo MweneKongo, filho de Ndambi Kiluanji e seu sucessor é Mpanzu a Lukenyi que assume o posto de MweneKongo sob o nome de D.Álvaro III, a princípio não ratificando nem derrubando os acordos anteriores, do mesmo modo pretendendo consultar a população. Lukenyi acaba  decidindo avisar ao Soba do Reino de Ndongo para tomar muito cuidado com os portugueses, pois eles querem mesmo é tomar o reino do Ndongo (Angola) e todo o império do Kongo para si. Uma guerra de libertação nacional se anuncia.

Reino de ‘Amgola’ e Palmares. Tudo junto e misturado?

Consideremos neste preâmbulo que, enquanto isso, no Brasil de 1597 já se falava no  famigerado Kilombo de Palmares.

O soba do Ndongo é Ngola Ndambi, também filho de Ndambi Kiluanji. Inicia-se assim, com a associação entre os irmãos Mpanzu a Lukenyi do Kongo e Ngola Ndambi do poderoso reino do Ndongo, uma nova era de resistência ao invasor português. No entanto Ngola Ndambi, segundo algumas versões após se ver acometido de problemas mentais, morre assassinado. A maioria dos relatos atribuem seu assassinato à sua irmã Nzinga Mbandi, filha de mãe Jaga (etnia também conhecida como Mbangala) com pai Kimbundo (Kiluanji). Jinga (Nzinga)é soba em Matamba, reino ao lado do Ndongo, que ela, após a morte do irmão, naturalmente anexa ao seu.

Acerca do shakespereano episódio que culmina com a morte de Ngola Mbandi, uma versão diferente da acima citada é defendida por Manoel Pedro Pacavira (escritor angolano e um dos biógrafos de Nzinga Mbandi), que sugere que o envenenamento teria sido instigado por uma concubina de Ngola Ndambi chamada Nda Kaniinii Ka Kiluanji, oriunda de Pamba (no Mbaka), apoiada pelos portugueses (que teriam sido os verdadeiros mentores do complô) com o objetivo de por como soberano dos Kimbundos um Ngola mais obediente aos interesses de Portugal. Auto proclamado Mwenengola, o filho de Nda Kaniinii foi logo deposto por uma rebelião popular que aclamou e entronizou uma mulher, sua irmã: Nzinga Mbandi.

Na verdade, ao que se sabe, o protocolo que regia a sucessão entre os povos da região – baseado em princípios matrilineares – era muito rígido. No caso, o filho da filha mais velha do rei Nzinga Mbandi (Jinga) teria que ser o sucessor natural. Morto este, por causas atribuídas ao irmão de Jinga, interessado em ser ele o sucessor, seria este o incidente cujo trágico desfecho, obrigou a ascensão da impressionante mulher que foi Nzinga Mbandi.

Jinga, contudo já havia aparecido na história um pouco antes como a carismática embaixatriz do reino do Ndongo que, a serviço do irmão (o mesmo a quem teria supostamente assassinado) vai a Luanda conferenciar com o governador português João Correia de Souza. Como era hábito na ocasião (e as circunstancias deste hábito são motivo de muita controvérsia) adota a fé católica e é batizada como Anna de Souza.

Um acordo de paz é firmado com os portugueses, mas não deve ter sido lá muito vantajoso para os do Reino e Angola, porque foi rompido assim que Jinga tomou o lugar do irmão morto. É assim, como soberana geral dos Kimbundos que Nzinga Mbandi comandará a luta contra o invasor português até ser provisoriamente derrotada em 1629.

Isolada no interior de Matamba, Jinga só reaparece em 1641, estrategicamente aliada aos holandeses, que haviam invadido as terras de lá como invadiram as daqui. Nos episódios que ficaram conhecidos como as ‘Guerras d’Angola’ muitos reinos e sobados de região se aliaram á Jinga, entre eles se destacaram, segundo os relatos disponíveis, Cassange, Cafuxe, Quijilo, Sambangombe, Calumbo, Molundo, Acamahoto e depois Quissama, além do próprio Kongo.

Mais ou menos desde 1616, quando Luiz Mendes de Vasconcelos assume, no lugar de João Correia de Souza, o posto de governador geral do ‘Reino d’Amgola’, guerreiros Jagas (Mbangalas) aprisionados nas guerras contra os portugueses, começaram a ser enviados para os canaviais de Pernambuco, no nordeste do Brasil. Sabe-se que foram quarenta os precursores do Kilombo de Palmares.

As pessoas deste grupo precursor que se embrenhou na Serra da Barriga no início do século 17, em algum momento anterior a 1630, muito provavelmente vieram de Angola, numa destas levas de prisioneiros de guerra. O certo é que durante todo o longo hiato entre 1629, quando Jinga se recolhe inativa às montanhas de Matamba e 1641, quando ela retoma decisivamente à guerra, aliada aos holandeses, prisioneiros de guerra jagas e kimbundo continuaram a ser mandados em massa para o Brasil pelos portugueses.

Na verdade todo este período das guerras anticolonialistas em Angola (1630/45) foi marcado, predominantemente, pelo translado para o Brasil de prisioneiros de guerra. Estando toda região em torno de Luanda (além do interior do Kongo) conflagrada pela guerra contra Portugal, empreendida, ao mesmo tempo, por sobas do Kongo e do Ndongo-Matamba (além de sobados aliados) e engrossada, a partir de 1641, pela presença de tropas holandesas, era evidente (não fosse fato histórico comprovado) que o fluxo convencional de escravos, antes preados ou vendidos por sobas locais, estivesse totalmente interrompido.

Desta feita, os escravos trazidos para Pernambuco passaram a ser, portanto de um tipo muito particular de gente: homens e mulheres adultos,  guerreiros experientes (talvez até mesmo alguns membros da elite ou nobreza do reinos daquele contexto territorial, de uma mesma área sociocultural portanto), aprisionados após batalhas e rapidamente recambiados para cá, separados como joio do trigo (deportados), segundo as duras leis previstas pela coroa portuguesa para o caso .

Uma espécie de elite, portanto. Com forte espírito de grupo. Este status de degredados, ‘prisioneiros de guerra’, obviamente muda totalmente a maneira de se encarar a organização social, militar e política o Kilombo de Palmares.

Unidos pelo patriotismo e valores culturais e históricos rigidamente estabelecidos; organizados, disciplinados e motivados pelas lutas nas quais estiveram envolvidos em Angola, consideremos, pois que foram estes escravos, que formaram a população que, por meio das fugas em massa passou a habitar a Serra da Barriga.

Consideremos do mesmo modo que, iniciando-se estas fugas já antes de 1630, estas pessoas tiveram muitas dezenas de anos para se estabelecer na região, criando modos bem articulados de vida, com amplas possibilidades de recriar inclusive, os elementos fundamentais de sua cultura original africana.

Entre 1641/42 o Mwenekongo Kimpaku (ou Nkanga-a-Lukeni, segundo alguns relatos) tratado de D. Garcia Afonso II (irmão de Jinga, pertencente portanto a mesma família real do Reino de Ndongo) reúne tropas com vários sobas vizinhos, entre os quais Nambua-Kalombe (que é preso é tem a cabeça cortada) para atacar os portugueses. Em 1646 Kimpaku reafirma a aliança natural com a irmã Nzinga Mbandi. Da aliança participa também o soba do reino de Nsoyo, segundo alguns relatos, tio dos dois e portanto, irmão (ou cunhado) de Ndambi Kiluanji.

As relações de parentesco entre estas figuras não são, absolutamente fortuitas. As regras protocolares de sucessão, descritas acima como sendo muito rígidas, determinavam papéis bem determinados para a filha do rei (rainha mãe, na prática, pois o próximo rei deveria ser, obrigatoriamente seu filho e para o irmão do rei cujo filho seria o sucessor na ausência do outro sobrinho do rei.

Estas regras, segundo indícios em documentos antigos, que remontam a fundação dos dois reinos principais da região (Kongo e Angola) foram criadas no passado bem remoto, por volta do século 12 ou 13, quando da unificação de povos que desceram do Camarões com os povos que já habitavam a área.

O que sugerimos, já de forma enfática é que com muita probabilidade, não haveria porque estas regras não serem repetidas no Brasil pelos líderes palmarinos, havendo inclusive fortes indícios de que eles pudessem ser, mais do que meros escravos aleatoriamente rebelados, criadores de formas de organização originais ditadas pelas circunstancias, ao contrário, um grupo cultural e socialmente articulado desde sua origem na África, quem sabe até mesmo (ainda que remotamente) de algum modo parentes entre si e das pessoas que compunham a casta dirigente nos Reinos do Kongo e de Angola.

Os ainda mal contados incidentes ligados a cisão entre os chamados ‘Zumbi’ (o jovem) e ‘Ganga Zumba’ (o velho) envolvendo o irmão deste conhecido como Ganga Zona (tio dos filhos de Ganga Zumba, portanto), sugerem um conflito de sucessão fortemente assemelhado ao que ocorreu com Jinga (mãe do sucessor natural) e seu irmão Ngola Ndambi (o usurpador), inclusive com o incidente do envenenamento, como vimos e a rigor uma prática bastante recorrente na história política dos reinos do Kongo e de Angola.

Instigante demais esta história não é não? Podemos depois de conhecê-la afirmar inclusive que, ao que tudo indica, será virtualmente impossível entender a cultura e a história do negro do Brasil sem mergulhar na história dos reinos do Kongo e de Angola dos séculos 15, 16 e 17.

Spírito Santo

Julho de 2006 (com ligeiras revisões em Novembro 2010)

Leia aqui no link o post final desta série

 

 

Brasil Afro #2 e o Zumbi fake book


O grande encontro de 'Bois Caiman' onde começou a revolução do Haiti

O grande encontro de ‘Bois Caiman’ onde começou a revolução do Haiti

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Palmares revisitado

(Leia também – e logo – os posts #01 e #03 desta série)

Há poucos anos atrás, numa solenidade festiva em Brasília na sede da Fundação Palmares (como se sabe, uma instituição do governo do Brasil voltada para a cultura dos afro descendentes) resolvi prestar mais atenção numa apresentação gravada que sempre , algo incomodado, ouvia meio assim por alto, nas solenidades da entidade pelo Brasil a fora. Nela, na tal apresentação, um locutor repassava com a voz empolada de civismo o que seria a história oficial do grande líder da nosso maior e mais perene complexo de cidadelas de escravos rebelados: Zumbi de Palmares:

“… Embora tenha nascido livre, (Zumbi) foi capturado quando tinha por volta de sete anos de idade. Entregue a um padre católico, recebeu o batismo e ganhou o nome de Francisco, aprendeu a língua portuguesa e a religião católica, chegando a ajudar o padre na celebração da missa. Porém, aos 15 anos de idade, voltou para viver no quilombo.”

(História oficial de Zumbi de Palmares. Vários autores)

O incômodo um belo dia deu lugar ao susto. O insight chegou como nos chegam todos os ‘eurecas’ desta vida: uma luz imaginária piscando, piscando e logo se acendendo, ardendo os olhos e a cuca, quase queimando a nossa mufa. Caramba! Como não havia me dado conta daquilo antes?

(Na verdade já me dera conta sim, mas ressabiado, precisava juntar ainda alguns cacos, mesmo embaçados que fossem, alguns poucos subsídios teóricos para poder duvidar, questionar com propriedade. Temia que me tomassem por doido varrido ou delirante, como sempre fazem nestas horas os patrulheiros ideológicos de ocasião. Faltava o ‘eureca’ crucial e inquestionável).

Podem dizer então que tudo começou com um surto de rebeldia adolescente ou algo assim bem intempestivo, mas convenhamos que é isto mesmo que agita e move o mundo de lugar. A insubmissão e o questionamento, o arroubo quase infantil de criancinhas ‘pé no saco’:

_ O que, Tio? Por quê, Tio? Pois sim, Tio! Como não, Tio?

Estas coisas surgem de repente, mas amadurecem como qualquer fruto. Afinal foram muitos anos chafurdando livre e empiricamente, neste esmiuçamento ‘cri cri‘ de detetive forense de série de TV, fuçando estas coisas enrustidas da cultura negra do Brasil.

Pulgas atrás das orelhas. Fazer o que?

Uma pesquisa insana, em suma – todo mundo que mexe com isto sabe – porque as perguntas são milhares, mas a maioria das respostas não estão, absolutamente onde deveriam estar, muito menos nos livros de história do Brasil

Ah…Se tudo na velha fosse bonito como o arco dela!

A enormidade da surpresa, esta sim, precisava ser explicada. Ora, o problema era que a versão da história de Zumbi de Palmares – acatada como oficial pela maior e mais referendada entidade de cultura negra do país – tinha todos os elementos de ser totalmente inverossímil, infundada, falsa mesmo, como conversa pra boi dormir ou aquelas histórias do arco da velha.

E vejam só meu dilema: Como embasar um ponto de vista assim tão iconoclasta, propor uma revisão tão paradigmática, diante de uma versão profundamente estabelecida como verdade absoluta, corroborada por livros e mais livros (alguns até mesmo escritos por mui eminentes historiadores negros do Brasil) jamais questionados nestes termos. Como desmontar uma versão mítica, supostamente heróica, incrustada na mente de – quase – todos nós por meio de séculos de incansáveis reiterações?

Difícil, não é não? Mas sério, gente! Juro que posso explicar – provar – cada tim tim mal ajambrado desta história.

E o pior de tudo – e não há de ser nada – é que terei de fazê-lo quase sem nenhum livro brasileiro conhecido em que me basear. Existem sim revisões da história oficial do negro no Brasil, mas são abordagens, do ponto de vista crítico, muito tímidas, a maioria resgatando ainda muito vagamente a importância da cultura bantu. Diretamente sobre o Quilombo de Palmares, contudo, neste foco em que decidi abordar o tema, rigorosamente – e isto foi uma surpresa absoluta para mim – nenhum trabalho com informações realmente novas foi encontrado.

O que me queimava a mufa é compreensível que seja aceito por pessoas comuns, mas de modo algum poderia ter sido corroborado por argutos historiadores. Este ‘plot’, este leit motiv, este cerne do argumento da história nunca lhes pareceu conhecido não?

Um ‘Story Line’ fajuto:

“…Aprendeu (Zumbi) a língua portuguesa e a religião católica, chegando a ajudar o padre na celebração da missa. Porém, aos 15 anos de idade, voltou para viver no quilombo.”

Nossa senhora! Isto é um mito completamente cristão, não é não? E o que é pior: Ela, esta versão oficial da história de Zumbi de Palmares, na verdade ofende e desmerece a memória dos quilombolas (e em conseqüência a memória das lutas e anseios de todos negros do país) sabem por quê? É que em seu argumento central ela sugere, quase afirma que, para que o Quilombo de Palmares alcançasse o sucesso político e estratégico que alcançou, foi necessário que o seu líder máximo – Zumbi – fosse formado, educado como branco (aculturado, melhor que se diga) por um padre europeu.

Nada contra a civilização cristã ocidental, mas vamos e venhamos, aquele pessoal de Palmares descendia de gente com séculos e mais séculos de história original. África, gente! Parem para pensar: O berço da humanidade. Se tocaram agora?

O recorte do herói mítico que, tal qual um Jesus Cristo ‘black power’ ou um Moisés negão eleito por Deus para salvar seu povo é altamente popular, mas convenhamos: carece de sentido naquelas e em quaisquer outras circunstancias em se tratando da história transatlântica de um povo africano, de cultura tão diversa da dos europeus.

As perguntas que me incandesceram mufa foram, portanto as seguintes (perguntem-se vocês também, se de mim duvidarem, mesmo que por um instante):

1- Seria historicamente comprovável a hipótese de um menino, descendente do principal líder do quilombo de Palmares ter sido sequestrado sem que ninguém se desse conta ou comunicasse o fato?

2- Seria possível a criação e a manutenção por quase um século de uma experiência política e estratégica tão exitosa como foi o Quilombo de Palmares, por parte de milhares de negros escravos, sem que estes se baseassem em sólidas referencias anteriores de organização social, comunitária e militar – regras rígidas de sucessão inclusive- ligadas ao seu mais que remoto passado africano?

3- No contexto de uma sociedade com semelhantes características sócio históricas, teria sido possível um menino negro aculturado, com identidade ou origem genética impossível de ser estabelecida, educado por um padre católico, assumir aos 15 anos (ou 20, tanto faz) o comando de um articuladíssimo e eficiente conjunto de cidadelas rebeldes?

Nenhuma destas hipóteses – pasmem – podem ser comprovadas, carecendo, portanto, totalmente de fundamento. Na verdade, se formos nos basear numa pesquisa mais aprofundada (como esta que estou propondo aqui) todas estas hipóteses, com toda certeza terão que ser declaradas mera e rasteira ficção historiográfica.

É o que devíamos fazer. E logo.

Bem, isto tudo é para explicar que este artigo é apenas uma introdução a uma pesquisa independente, talvez solitária e ainda em curso e que vai precisar de outras evidencias para ser considerada inquestionável, mas que já pode ser lançada por aí . Sim, porque é por aí mesmo que a História real avança: aos trancos e barrancos, pelo caminho das pedras.

Só um aspecto a historiografia brasileira terá que aceitar como falha flagrante e indesculpável de sua metodologia: A maioria esmagadora dos títulos a que tive acesso para embasar meus pontos de vista sobre estes incidentes que ligam, indelevelmente à África ao Brasil, apesar de estarem facilmente disponíveis aos especialistas interessados que poderiam ter proposto teses e livros a partir deles, são quase todos absolutamente estrangeiros (europeus e africanos)

Respondendo à perguntas pra lá de cabulosas

As cartas do padre Antonio de Melo

”…O padre não tratava o pretinho como escravo. ’O padre criou o menino, batizando-o como Francisco. Com a educação recebida, aos 10 anos já sabia latim e português e aos 12 era coroinha. Em uma carta, o padre refere-se ao menino como dono de um “engenho jamais imaginado na sua raça” e que bem poucas vezes encontrara em brancos. Certa manhã do ano de 1670, então com 15 anos Zumbi resolve se emancipar e parte em busca de seu destino, viver com os negros de Palmares…”

(História oficial de Zumbi de Palmares. Vários autores)

Nada foi encontrado nos documentos oficiais analisados sobre nosso herói negro mais recorrente, personagem de tantos sambas-enredo, Zumbi de Palmares, que comprovasse a veracidade de dados desta sua suposta biografia, contidos na versão insistentemente aludida pela maioria dos autores que trataram do tema e admitida, até mesmo, como disse acima, pelo movimento negro e todos os órgãos oficiais interessados na superação do racismo no Brasil.

Dos muitos filhos, netos ou prováveis sobrinhos de Ganga Zumba identificados e citados nos documentos portugueses e holandeses da época, existem pelo menos quatro filhos adultos que teriam sido presos ou mortos (Zambi ou Zumbi, Acainene, Acaiuba, Tuculo) há também o líder do mocambo Acotirene, que deve se referir a mais um membro da família de Ganga Zumba, o rei, filho mais velho de Aqualtune, a rainha-mãe.São citados ainda por outros autores Zangui, Maiolo, Engana Colomim, Camoanga, Cabanga, Gone, Gongolo, Quiloange, Quissama, todos líderes de mocambos (e observem nos negritos como é bastante recorrente a semelhança fonética entre a maioria dos nomes e os vocábulos ‘Nkanga’ e ‘Nzambi‘ ).

Observamos também a ocorrencia de nomes comuns em Angola – como Kiluange, por exemplo – que remetem ao nome de um grande chefe angolano – Ndambi Kilwange, ‘manikongo‘ líder da guerras contra Portugal no século 16 e que, segundo algumas fontes era o próprio pai da Rainha Jinga.

A grande questão é que, a julgar pelo cruzamento dos dados extraídos de documentos da época disponíveis, principalmente relatórios de expedições invasoras, nenhuma entre estas quase 20 pessoas pôde ser associada, da forma mais remota que fosse, àquela criança descrita nas supostas cartas do padre Antonio Melo.

…” muitas entradas, de fato, se fizeram aos quilombos a partir de 1654, ano da expulsão dos holandeses, até 1657, mas, cronologicamente, não se sabe a data certa em que elas se realizaram ou por não ter havido diário de operações, ou por terem eles se perdido…”

(Trechos de um relatório de expedição contra Palmares extraídos do livro de Mário Martins de Freitas “ O Reino negro de Palmares”, Biblioteca do Exército Editora, Rio de Janeiro 1988.)

…”Depois vieram as expedições comandadas pelos holandeses Rodolfo Baro (1664) e João Blaer (1645). Em seguida, o governo de Pernambuco passou a tratar Palmares como um “caso de polícia”, adotando medidas mais “enérgicas”, comandadas por militares locais, as expedições ocorridas nesse período foram, segundo o autor, maiores, mas não atingiram os resultados esperados, tendo acontecido, inclusive, um período de “trégua” entre 1667 e 1671”.

(Laura Peraza Mendes – ‘Guerras contra Palmares: um estudo das expedições realizadas entre 1654 e 1695’)

Existe num documento uma alusão a dois filhos de Ganga Zona (irmão de Ganga Zumba) que teriam sido adotados pelo governador da capitania no ato da ratificação do acordo de Cacaú e batizados com o sobrenome do governador Aires de Souza Castro, mas nada indica que fossem adultos ou capazes de, logo a seguir, assumirem a função de Nkanga a Nzumbi, ou qualquer outro posto relevante no quilombo, cuja atribuição, sabe-se hoje, devia obedecer à práticas socioculturais africanas, pelo menos da maneira como supomos, também vigentes na sociedade de Palmares na ocasião.

Como nos dão conta diversos documentos consultados acerca da similaridade óbvia entre os hábitos sociais dos kimbundos do Reino de Angola e do Kongo nos séculos 16 e 17 e os dos quilombolas de Palmares, existiram vários indivíduos que, com nomes ou funções precedidas pelo título Nkanga (a confusão semântica com o vocábulo ‘Nganga’ /’senhor’ é muito recorrente)  como reparamos anteriormente, foram realmente chefes de alguma localidade ou exerciam alguma função importante no complexo de quilombos (Nganga Zumba, Nganga Zona, Nganga Muissa, etc.). Neste sentido, em nossas prospecções a palavra Ganga Zumba parece ser mesmo uma expressão genérica, diretamente originada de…

Nkanga a Nzumbi.

Nkanga (Nganga) = sacerdote, sagrado, Santo

Nzumbi= entidade, fantasma, Espírito =

Espírito Santo.

A tradução literal do termo Nkanga a Nzumbi (termo do kimbundo angolano) vocábulo que pode, mais acertadamente estar relacionado ao personagem Zumbi de Palmares, poderia ser portanto Espírito Santo.

_Como assim, Spírito Santo?_ Dirão vocês.

Calma! Surprendam-se sem pudores. Eu também fiquei surpreso – na verdade ‘chapado’ – com esta estranha conclusão’, mas como naquele aviso de filmes ela não passa de mera coincidência.

O nome (‘Nkanga‘) seria uma espécie de título de origem com toda certeza católica – daí a coincidencia – que supomos estar fortemente relacionada a alguma linhagem de inspiração jesuítica de reis ou sobas – ‘Manikongos’ – cristianizados, iniciada em época remota (que poderia mesmo remontar ao século 16) e que identificaria o ‘rei’ ou chefe com poderes religiosos e militares, francamente utilizado em algumas culturas do Reino do Kongo (e também no Reino de Angola) ainda durante este período.   

Aliás, isto pode ser constatado facilmente analisando a lista dos mandatários dos reinos do Kongo e de Angola do século 16 em diante.  A quantidade de ‘Nkangas‘ na lista é impressiomnte. O fato de se usar a mesma palavra para definir ou ‘sacerdote‘ quando se referindo a ‘padre‘ (católico) é também uma eloquente evidencia a nos encaminha para estas conclusões.

Segundo esta regra protocolar, portanto, todo supremo mandatário poderia ser reconhecido pelo povo como um ser divino, possuidor de poderes – e obrigações – religiosas, conceito africano original, que teria sido mantido vigente (reciclado, sincretizado) mesmo após a cristianização da aristocracia congoleza ou angolana de então (com os termos católicos traduzidos  para o kimbundo local) e, deste modo transplantado para o Brasil de Palmares.

O fato é que se a rigor (como acabamos de constatar acima) não existem informações documentais confiáveis (o menino, futuro Zumbi, supostamente sequestrado teria nascido entre 1655 e 1662) acerca das fracassadas expedições ocorridas contra o Quilombo de Palmares entre 1654 e 1662 .

Logo, se teria havido pouco depois  desta época ‘um período de “trégua” entre 1667 e 1671 (pouco se sabe sobre os anos entre 1663 e 1666) de onde teria, vindo as recorrentes informações que dariam conta de que um filho do rei Ganga Zumba, recém nascido ainda (ou já com 7 anos de idade) teria sido sequestrado nesta ocasião? Ao que parece, tudo se origina mesmo – sem querer desmerecer a renomada fonte – da seguinte enganosa revelação:

“…E por isso teria havido tantos Zumbis. Eu efetivamente entendia que não. Até que um dia, por mero acaso_ e a pesquisa histórica depende muito de sorte também e do acaso , eu encontrei uma consulta do Conselho Ultramarino, órgão de assessoria ao rei, em que se dizia ao rei que todas as certidões que diziam ter sido morto um Zumbi eram falsas, forjadas para que os chefes das expedições recebessem as mercês do rei. Verificou-se que Zumbi continuava vivo. Este foi o ponto de partida para estabelecer a identidade de Zumbi. Até que encontrei as cartas do padre Antonio Melo…”

(Decio Freitas, autor de “Palmares, a guerra dos escravos” em entrevista á ‘Folha on line Brasil 500’.)

A respeito precisamente do heróico personagem a quem as cartas citadas acima se referiam, há que se considerar que diversos relatórios militares da época já haviam sido unânimes em atestar que este ‘Zumbi‘  já estaria ativo em Palmares, em época mesmo anterior ao acordo de Cucaú datado de 1678 (tendo sido inclusive ferido em combate). Havia até um mocambo com o seu nome (Zambi ou Zumbi), o que seria, naquele tempo, o mesmo que dizer: habitado e comandado por ele.

O fato é que não existem fundamentos nem provas documentais para confirmar, em qualquer um de seus aspectos, a fabulosa história do padre Antonio Melo. A sustentá-la apenas o beneplácito dos pesquisadores diante de hipóteses tão infundadas quanto providenciais a certos setores do pensamento acadêmico brasileiro – e talvez resida aí alguma eventual intenção oculta nas supostas cartas- para quem, ainda hoje, faz sentido a pergunta que até hoje não quer calar:

Como o negro escravizado no Brasil, não tendo passado, origem, nem história, poderia constituir e manter durante tanto tempo, uma sociedade tão complexa e, em sua conturbada época, tão estável e perene quanto foi o Quilombo de Palmares?

Tentando explicar o que a ingenuidade etnocentrista, infelizmente julga inexplicável até hoje, um documento chegava a especular:

”…Tal habilidade aparecerá nas paliçadas e fossos, feitas em torno do quilombo, com paus pontiagudos colocados para matar invasores, e aí já estamos 1694. Zumbi, portanto, tudo indica, nasceu livre. Não fica claro se o padre que criou Zumbi conheceu, leu, as grandes utopias (e se informou sobre aquilo a Zumbi) dos grandes escritores do passado, tais como: Platão, com a sua República, antes da era cristã; Thomas Morus (More), com a sua Utopia, 1478 / 1535 ; Tommaso Campanella, com Cidade do Sol, 1568 / 1639 e, finalmente, Francis Bacon, com Nova Atlântida, 1561 / 1626. Saliente-se, aqui, que as obras acima citadas foram sobre maneiras de se organizar um Estado, e nada tinham de inocentes, e lidas no mundo inteiro”

O ‘Segredo’ da Condessa Schönborn

O argumento da história central, aquela que gera todas as outras versões sobre as cartas do padre Antonio de Melo (muitas delas acrescidas de detalhes que não se sabe bem de onde surgiram) parece estar baseado na mera suposição (uma lenda urbana da época, talvez apócrifa), de que certo padre de Porto Calvo teria escrito uma ou duas cartas contando a saga de uma criança negra sequestrada numa expedição contra o quilombo em 1662 (certos autores, sem nenhuma evidencia apresentada – talvez fazendo ‘contas de chegar’ – falam que o fato teria se dado numa expedição em 1662).

“…Durante uma expedição contra Palmares, comandada por Brás da Rocha, foi raptado ainda recém-nascido e entregue ao padre Antônio Melo, vigário de Porto Calvo, que o criou sob o nome de Francisco.

Na dificuldade de se encontrar uma origem segura para a história , quem buscar notícias sobre o paradeiro das cartas do padre Antonio Melo , terá o dissabor de descobrir apenas uma segunda história, também providencialmente complementar à primeira e, contudo mais implausível ainda:

(Na verdade – tcham, tcham, tcham, tcham – já desvendamos a origem segura da lenda, que é como os leitores verão em breve -num post a seguir – absolutamente surpreendente!)

“Arquivo revela que Zumbi sabia latim!

A condessa de Schönborn, 65, nascida Graziela de Cadaval, é conhecida entre os pesquisadores e ”caçadores” de documentos como a guardiã dos arquivos da casa da marquesa de Cadaval, sua mãe. São cerca de 5.000 livros e conjuntos de documentos reunidos nos últimos seis séculos e guardados em Muge, 80 quilômetros a leste de Lisboa. …Anos atrás, dezenas de documentos foram roubados por um ”pesquisador disfarçado de paralítico em cadeira de rodas”. Desde então, só convidados vigiados pela condessa pesquisam os manuscritos tombados pelo Estado.

Entre esses papéis (roubados) estariam duas cartas preciosas que permitem imaginar Zumbi no seu tempo de menino. Foram escritas pelo padre Antonio de Melo em 1696 e 1698, quando já corria a notícia da morte de Zumbi. As cartas, não localizadas pela condessa, foram copiadas em 1978 a pedido do historiador gaúcho Décio Freitas.

..Na época das cartas, o presidente do Conselho Ultramarino era Nuno Pereira Álvares de Melo, que foi o primeiro duque de Cadaval, e por isso os documentos foram guardados pela família. Ao longo do tempo, parte do arquivo dos Cadavais foi se perdendo. Em fins do século 17, um incêndio destruiu o palácio da família. Depois, com a invasão napoleônica, muitos papéis foram trazidos para o Brasil. Em 1964, as famílias dividiram o que restava do arquivo. Metade ficou com a condessa e o restante foi para o duque de Cadaval. Há notícias de leilões de documentos nos últimos anos…”

(Do enviado a Muge (Portugal) Aureliano Biancarelli para Folha Online – Brasil 500)

O que esta história complementar nos dá conta em suma é que, as famosas cartas deste misterioso e desconhecido padre Antonio Melo talvez não possam ter jamais a sua autenticidade – ou mesmo a sua própria existência – comprovada porque, de uma forma ou de outra, por furto, extravio, por culpa de um incêndio ou um acidente fortuito qualquer, os originais teriam se perdido para sempre.

Como se vê, são bastante controversas as questões suscitadas por abordagens históricas que, deliberadamente ou não, subestimam ou omitem a óbvia ligação da cultura das comunidades quilombolas do século 17 com sua matriz africana mais imediata. A principal destas questões talvez seja a grande insistência com que elas foram sendo inseridas, com foros de verdade histórica absoluta, no contexto dos vários estudos existentes sobre o assunto, a despeito de sua evidente carência de fundamentos.

Entre dezenas de documentos disponíveis, a simples leitura, por exemplo, de uma das cartas do Padre Antônio Vieira (estas sim, autênticas), notório e influente agente dos interesses ultramarinos de Portugal além de importante autoridade eclesiástica, poderia esclarecer muito sobre esta questão. Pode-se destacar em especial dentre estas cartas de Vieira, aquela escrita em julho de 1687, em resposta a uma consulta do rei de Portugal, indeciso quanto a oferta de mais um acordo de paz aos palmarinos, sugerido por certo padre italiano de Recife:

“Muito me admiro… que sem outra informação dos superiores desta província, houvesse por bem a proposta feita por um padre particular de ir á Palmares… este padre é um religioso italiano de não muitos anos, e, posto que de bom espírito e fervoroso, de pouca ou nenhuma experiência nestas matérias. Já outro de maior capacidade teve este pensamento e posto em consulta, julgaram todos ser impossível e inútil por várias razões. Primeira: Porque se isto fosse possível, havia de ser por meio de padres nativos de Angola que, todos, os quais crêem e deles se fiam, e entendem, como sua própria pátria e língua…” .

A propósito, as evidências sobre a existência de certa similaridade entre os hábitos culturais praticados no Brasil pelos líderes palmarinos e os de seus conterrâneos na conturbada Angola do século 17 (hipótese aventada como vimos pelo próprio padre Antônio Vieira) estão se tornando cada dia mais candentes, principalmente se admitirmos a possibilidade de alguns líderes do quilombo da capitania de Pernambuco terem sido prisioneiros de guerra (soldados portanto e não escravos comuns), removidos para os Brasil no contexto da cruenta guerra colonial que sacudia o chamado ‘Reino D’Amgola’ naquela época.

Ao contrário do que ocorreu com as cartas de Vieira, o mais surpreendente é que a existência das outras cartas, supostamente atribuídas ao outro padre Antonio (e seu inusitado conteúdo) tenha sido um fato completamente desconhecido durante 300 anos.

E sobre o total desaparecimento dos originais das referidas cartas, logo que foram enfim descobertas, o que dizer? Por isto mesmo, mais do que com as controvérsias do incidente em si, talvez devêssemos nos preocupar mesmo é com as péssimas conseqüências advindas de sua eventual intenção etnocentrista, tão compreensíveis no contexto de uma colônia européia no século 17, quanto inaceitáveis neste nosso emancipado Brasil do século 21.

Sobrava-nos apenas a palavra solitária do já falecido Decio Freitas, incansável e meticuloso pesquisador que, pelo que sabe até agora, teria sido o único a ter acesso as cartas em poder da condessa o que, em se tratando de fato histórico desta relevância, infelizmente, não deve servir ainda, como prova cabal de coisa alguma.

Aliás, mesmo que tenham realmente existido, por conta do alto grau de improbabilidade dos incidentes por elas descritos, estas cartas não poderiam ter adquirido jamais, a importância que lhes deu a nossa história oficial.

“…A Torre do Tombo, o mais importante acervo do país (Portugal), tem inúmeros catálogos diferentes. O principal, os ”Manuscritos da Livraria”, não traz os documentos por ordem alfabética. Obedece a cronologia de entrada no acervo. Milhares de documentos das antigas casas de nobres ainda não foram catalogados. Não se pode confiar no que já foi informatizado.

Segundo o computador, a carta do rei que dá a patente de mestre de campo a Domingos Jorge Velho deveria estar na folha 426 do códice nove do ”Registro Geral das Mercês”. Foi encontrada pela Folha no verso da folha 246. A maioria dos documentos sobre Palmares pertence ao Arquivo Histórico Ultramarino. Ali estão as cópias dos papéis que seguiam às colônias. Muitos dos originais, destinados às capitanias do Brasil, desapareceram no tempo… Os documentos pouco ou nada contribuíram para traçar o perfil do homem Zumbi.”

(Jair Rattner especial para a Folha On Line, de Lisboa)

O que nos parece inquestionável contudo é que, a morte definitiva do último Nkanga a Nzumbi de Palmares, o sucessor de Ganga Zumbase deu mesmo em 20 de novembro de 1695 quando um de seus ajudantes de ordens (e seu suposto genro) é preso numa escaramuça e aceita traí-lo em troca de perdão. O traidor identificado como o mulato Antonio Soares, viveu em paz em Recife até morrer de velho.

Na hipótese de ser factível, pelo menos em parte, a versão dos fatos aqui apresentada, a dinastia que governou a região do Império do Kongo pelo menos a partir de 1545 (ano de nascimento de Ngola Ndambi, avô da valorosa Nzinga Mbandi, a rainha Jinga), reconstruída no Brasil num formidável fenômeno de transculturação, com a rainha Aqualtune mãe de Ganga Zumba ou com Mateus Ndambi, sogro do rei, teria durado no total mais de 150 anos (dos quais cerca de cem só no Brasil), havendo sobrevivido, após a morte de Jinga, pelo menos até 1695, apogeu e glória de seu último representante conhecido: O Nganga Nzumbi degolado em Recife.

“…ficando só mente (Zumbi) com Vinte negros, dos quais mandou catorse pa. Os postos das emboscadas que esta gente uza no seu modo de guerra, e hindo com seis que lhe restaram a se ocultar no sumidouro, que artefiçiosa mente avia fabricado, achou tomada a paçagem; pelejou valeroza e desesperadamente matando hum homem ferindo alguns e não querendo Renderce nem os companheiros, foy preciso Matallos e só hum se apanhou vivo, enviouçeme a cabeça do zumbi que determinei se puzese num páo no lugar mais público desta praça a satisfazer os ofendidos e justamente queixosoz e atemorisar os negros que supretisiozamente julgavão este immortal… “

(Ds G.a Real pesoa de Vmagde.Como todos desejamos. Pernco.14 de Março de 1696” Caetano de Mello de Castro – Governador da capitania de Pernambuco )

Surpreendentemente – ah! como é bom por água na boca dos curiosos! –  tendo como pista apenas as datas e o nome suposto deste Zumbi fake aculturado – que se chamaria Francisco, lembram-se? – conseguimos em textos angolanos, portugueses e italianos a chave, a prova mais do que cabal – se é que isto é mesmo possível – da gênese real desta farsa absurda – displicente talvez , muito mais do que fraudulenta – do ‘zumbi menino sequestrado’.

Mais isto …tcham, tcham, tcham, tcham!…. como já disse, será o tema do próximo episódio desta série.

Spírito Santo
Rio de Janeiro, Julho de 2006 (com pitacos novos em Novembro de 2010)

Nota: Na foto acima grande encontro em ‘Bois de Caiman’, bosque onde a revolução do Haiti foi deflagrada. Veja neste link o que isto – mesmo remotamente-  pode ter a ver com Palmares e reflita.

Leia post #03 neste link

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Se você curte analisar bibliografias e notas de rodapé, este texto possui uma relação bem completa deste tipo de referencia que você pode ler neste link

Não há nenhum Mal neste Brasil Canibal


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Barbárie também é Cultura

Em época de se discutir a barbárie nossa de cada dia, que tal mudar um pouco o rumo da prosa para um enfoque, digamos assim, menos baixo astral?

O tema que propomos hoje é assaz conhecido de nós todos, brasileiros, desde que os primeiros contadores de histórias europeus estiveram por aqui (os que não foram comidos, é claro): A Antropofagia.

Chamamos a atenção do leitor apenas para um transcendental detalhe: a história mais abaixo narrada – por mais incrível que possa parecer – é rigorosamente verdadeira.

De insofismável conteúdo cultural e, por que não dizer profundamente antropológica (já que não trata apenas de canibalismozinhos, comezinhos e suburbanos), a história fala daquela antropofagia de alto nível, ritual, tradicional, contida nas curiosas e meticulosas maneiras de se destrinchar fibras, carnes e ossos de indigitados inimigos humanos, com intenções altamente simbólicas (logo, de modo algum meramente alimentícias). Antropofagia artística se poderia dizer em suma.

O tema (ainda muito mais relevante se considerarmos os animados dias de hoje, cheios de eletrizantes massacres) pode servir também para muitas elucidativas – e, sobretudo divertidas – reflexões acerca da natureza da alma brasileira, notadamente naqueles pontos que tentam explicar por que vivemos ainda, mais de quatrocentos anos depois da história narrada haver transcorrido, a nos comermos uns aos outros, assim, de forma tão… tão sem cerimônia, tão literalmente e sem pompa ou circunstância.

É com esta meritória – e porque não dizer – dignificante intenção que lançamos aqui mais este capítulo da série…(“tchan, tchan, tchan, tchan” de música Villa Lobos, por favor): ‘Barbárie também é cultura’,

O Motim do Monte Calvário

(Uma história que só poderia ter acontecido no Brasil.)

(Descrita no livreto do padre Carlos Bresciani Sj “A primeira evangelização das aldeias em redor de São Salvador, Bahia 1549-1569” publicado pela Fundação Gregório de Matos da Prefeitura Municipal de Salvador, 2000).

Em suas primeiras cartas em 1549, logo assim que chegou ao Brasil, chefiando uma missão jesuíta composta por quatro frades que desembarcaram com o primeiro governador geral Tomé de Souza, na barra da Bahia de Todos os Santos, o Padre Manoel de Nóbrega revelava sincero otimismo com relação à possibilidade de converter nossos índios à fé cristã:

Hans Staden (o branquelo barbudo ao fundo, rezando contrito e apavorado) assiste a um animadíssimo churrasco ritual.

Hans Staden (o branquelo barbudo ao fundo, rezando contrito e apavorado) assiste a um animadíssimo churrasco ritual.

“_ Todos estes que tenham conosco, dizem que querem ser como nós… se ouvem tanger a missa, já acodem, e quanto nos vêem fazer, tudo fazem; assentam-se de joelhos, batem nos peitos, alevantam as mãos aos céus…”

Contudo, esta missão de catequese do gentio local não era de modo algum desprovida de dificuldades como as cartas dos missionários às vezes demonstravam. Conta-se que certa vez, a despeito da não recomendação do governador geral preocupado com os riscos da empreitada, padre Nóbrega decidiu que se construísse uma casa, ‘a modos de ermida’ dentro de uma aldeia de índios, próxima à Salvador a qual eles, os padres, haviam dado o nome de Aldeia do Monte Calvário.

Escalado para nela morar, um dos missionários, o padre espanhol João Azpilcueta Navarro contou em suas cartas que ali catequizou vários índios, entre os quais muitos, ‘todos os que quiseram’, foram batizados. A ermida foi passada para o substituto do padre Navarro chamado Irmão Vicente Rodrigues, que em carta de maio de 1552 narra a história seguinte.

” Conta-nos que, numa guerra contra índios adversários, a Bastian Teles, filho do principal da Aldeia do Monte Calvário, foi adjudicado, como troféu da vitória, um preso para ser morto e comido numa grande festa. Mas Bastian e o pai, principal da aldeia, eram cristãos e não consentiram. Porém não eram cristãos os parentes da mulher de Bastiam e estes, como muitos outros, insistiram para que se aceitasse o preso e fosse comido em grande festa, segundo seu costume.

Quando chegou o corpo do preso já morto, Bastian se opôs, apesar das ameaças que lhe faziam de lhe tirar a mulher. Diante da fúria dos portadores do corpo, preferiu mudar-se para outra aldeia. Entrementes, foram avisados do caso o Pe. Paiva e o Ir. Vicente, que na ocasião estavam juntos na aldeia. Intervieram repreendendo fortemente, e, com força, conseguiram arrebatar-lhes o corpo, que, de noite, às escondidas, enterraram na horta da própria casa.

Mas os parentes, que viviam em outra aldeia, ao saberem desta desonra sofrida, vieram armados de frechas e arcos, para desenterrar o corpo. Opuseram-se novamente os dois Missionários. “Acudimos – narra Irm. Vicente – e grande coisa foi não nos frecharem; fugiram.

Às duas horas daquela noite, os dois missionários conseguiram sepultá-lo perto da cerca da cidade, à revelia dos índios, que, naquela hora, jaziam todos embriagados pelas bebedeiras da festa.

Ao amanhecer, os índios escavaram todo o terreno em redor da casa dos padres, inutilmente. Ficaram revoltados.O fato se deu entre abril de 1550 e junho de 1551. Os padres, sob estas ameaças, se retiraram a morar dentro da cidade, continuando porém a cuidar da aldeia com freqüentes visitas.

A aldeia continuou por muitos anos. Pe. Luis de Grã, em Dezembro de 1554, nos diz que muitos de seus habitantes se mudaram, até mudou-se a aldeia toda. “Andam pela aldeia muitos que eram cristãos e moravam numa aldeia situada aqui perto da cidade (a do Calvário), na qual, os padres, que estiveram no princípio, tinham casa e ermida, e ali os ensinavam a grandes e pequenos, a homens e mulheres e, como seu costume é mudar-se freqüentemente, por qualquer capricho queimam a sua choupana em que moram; ninguém lhes impede, ainda que queimam toda a aldeia.

Mudaram-se e, finalmente, se mudou toda a aldeia. Para eles eu trabalhava, mas porém seus costumes estão sem nenhum sinal de cristão…esqueceram-se tudo”.

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Sim…” esquecemo-nos de tudo”, poderíamos confirmar hoje mesmo nós outros (com os arcaísmos, por favor!). ‘Caranguejamos’, andamos para trás, poderíamos afirmar também, com toda certeza.

Dizem que nossos silvícolas antepassados (quem sabe não seriam eles- ou nós – os inventores do ‘churrasco’, tal qual o conhecemos?) naqueles banquetes de antanho, assavam as vítimas com ervas aromáticas, quase como finos chefs, mestres cucas meticulosos, artistas da culinária tradicional. A gente chega a imaginar quantos pratos típicos especiais não seriam conhecidos por eles. Tantos que se poderia abastecer um compêndio enorme de receitas deliciosas, as mais inusitadas. ‘Panturilha ao molho de piranha’, ‘Entrecoxa ao molho tártaro’, ‘Pinto ao ponto’ (não o filhinho da galinha, se bem me entendem), ‘Nádegas – ou Lombo- ao forno’… Humm!

Estranharam o que? Pois não é que hoje em dia, nós mesmos- apesar de vivermos arrotando por aí a nossa discutível civilidade,  orgulhosos urbanóides que somos, com freezers e microondas ultramodernos – depois de matar as pessoas, não nos damos nem mais ao trabalho de assá-las.

E isto é o fim da picada, não é não?

É sim. Todo mundo sabe. Para estrangeiros deve parecer um absurdo, mas alguns de nós, mais afobadinhos  (ou… pragamáticos, dependendo do ponto de vista), chegam mesmo a destrinchar os semelhantes caídos na sua antipatia, em pedacinhos – como se faz um ‘frango a passarinho’

Depois disto, não satisfeitos, em vez de comê-los como faziam nossos parentes, dão de comer  aos porcos algumas partes mais específicas ou mesmo… comprometedoras dos desditosos (as que contém aqueles vestígios de humanidade) servindo-os assim mesmo, crus como peixe de sushi, de sashimi (e dizem que os porcos, assim cevados, adoram os pratos servidos de lamber os beiços, regalados).

Estranharam o que? Se esqueceram que, embora o façamos à pururuca, nós também comemos deliciados os pobres dos leitõezinhos?). Eu sei, eu sei que que os leitõezinhos não se comem uns aos outros, mas isto é natural, é apenas um detalhe cultural, certo?

Afinal… barbárie também é cultura.

Ai, ai! Que nos sobrem ao menos alguns poucos guerreiros vivos, para levantarmos, em algum lugar, a nossa nova aldeia. É só o que desejamos.

Spírito Santo

No ano 453 da deglutição do Bispo Sardinha

O que é que isto tem a ver com os Índios Tabajaras? Bem isto é matéria para outro post, certo?

O Kilombo, o angu e seus caroços


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Charge alemã de 1897. A legenda diz: "Uma tarde de domingo na África Ocidental" mostrando um mundo surreal nas colónias na África no qual os escravos são senhores. No anúncio: "Hoje:Grande banquete! 'Senhores como comida'!

Charge alemã de 1897. A legenda diz: "Uma tarde de domingo na África Ocidental" mostrando um mundo surreal nas colônias na África no qual os os negros são livres. No anúncio: "Hoje:Grande banquete! 'Senhores' (brancos) como comida'!

Remanescente de quilombo? Ih! É melhor esperar sentado!

Começo logo com uma paulada:

Com vocês Andressa Caldas e Luciana Garcia que em alentado texto no site Global.org fazem a introdução do nosso papo:

“… A Constituição Federal e a titulação das terras quilombolas

Como parte da própria reflexão sobre o Centenário da Abolição da Escravidão no Brasil, algumas reivindicações de organizações de movimentos negros e setores progressistas, levadas à Assembléia Constituinte de 1988, resultaram na aprovação de dispositivos constitucionais concebidos como formas de compensação e/ou reparação à opressão histórica sofrida.”

(Tá certo. Isto foi só uma ameaça. Agora é que vem a paulada):

Em 2001 Abdias do Nascimento, histórico e incansável líder do movimento negro do Brasil deu ao site da Rets (Rede Eletrônica do Terceiro Setor) a seguinte entrevista:

“Rets :

_Em 1980 o senhor apresentou sua tese sobre o quilombismo. O senhor ainda vê a forma de organização dos quilombos como um bom modelo de desenvolvimento para o país?

Abdias:

_Ainda vejo. Mas acho que eu apresentei o quilombismo de forma um pouco antecipada. A sociedade precisa ter um pouco mais de experiência para poder perceber a significação do quilombo e a prática do quilombismo. Muitas pessoas interessadas no assunto concordaram com as minhas teses, mas nenhuma delas procurou implementar uma organização como a que propus com o quilombismo.”

A tese de Abdias não é o foco de nossas elucubrações. Ela é polêmica e, de certo modo, datada, pois, estava visceralmente ancorada ainda na realidade política do negro brasileiro vista de forma bem ampla e pela ótica da luta contra os resquícios da Ditadura, já que era uma realidade – a do negro e a do racismo – que a anistia promulgada em 1979, na verdade só de leve se interessou em tocar.

O fato é que a conversa que vamos levar aqui com vocês, embora diga respeito à demandas pontuais criadas pela nova Constituição do Brasil (1988) para este assunto, apesar de toda a festa com que se costuma ‘enfeitar o pavão’ de nossa democratização, não sugere ainda um grande avanço na discussão desta questão, que já se arrasta desde 1888: A reparação dos malefícios e constrangimentos aos quais os escravos africanos sequestrados para o Brasil e  seus milhões de descendentes foram – e continuam sendo –  submetidos há quase quatro séculos.

Sabem como é, certo? O Brasil elitista é um racista aplicado e muito, mas muito renitente mesmo. Pentacampeão em exclusão social.

Entre todos os reparos que com certeza poderemos fazer numa inevitável comparação entre os dois momentos históricos – o do lançamento da quase comunista tese ‘Quilombismo de Abdias e o nosso hoje em dia cheio de remanescencias– uma triste constatação: Reduziu-se de forma drástica o protagonismo e a combatividade das lideranças do Movimento Negro no Brasil, aquelas que poderiam estar na vanguarda das reivindicações atuais. O lado constrangedor deste protagonismo esvaziado e subalterno, infelizmente está visível na cooptação de muitos, na corrupção de alguns e no baixo nível político-ideológico da maioria.

Talvez seja esta conjuntura constrangedora – franqueza dói mas não mata – a principal razão para que uma causa tão importante e particular como a luta pela posse da terra por parte de comunidades remanescentes de quilombos, esteja tão diluída em pendengas paralisantes, envolta nesta rede de ambiguidades e incongruências tão flagrantes, sendo muitas vezes desvirtuada, atrelada a causas e interesses outros, como um filho de pai desconhecido.

(E filho ‘feio’, como todo mundo sabe, não tem pai).

Dito isto, podemos relaxar um pouco. O papo agora pode ser mais ameno sim, já que o mundo não foi feito num só dia.

Ki-lombo= Kilombo= Quilombo = “Fortaleza

(literalmente em Kimbundo, uma das línguas principais faladas em Angola)

O termo – todo mundo por aqui acha – viria do nome dado ao complexo de comunidades de escravos rebelados conhecido como Quilombo de Palmares, nas imediações de Pernambuco nos primórdios de nossa colonização. Zumbi de Palmares lembram?

(Mas, ‘achismo’ como se vê, não é exatamente cultura.)

Pois neste caso então, saiba quem ainda não souber que a palavra vem de um contexto histórico bem mais distante e complexo, bem menos chegado ao ‘chavão’ (e estas sutis filigranas historiográficas podem mudar tudo em nossa maneira de entender o conceito). Mais do que se pensa, pelo menos.

Kilombo na verdade, com o estrito sentido de ‘fortaleza rebelde’ tudo indica, é uma palavra transposta para a realidade colonial brasileira, depois de ser adotada como jargão militar pelo exército português durante sua guerra suja contra os nacionalistas angolanos comandados pela rainha Nzinga Mbandi e outros sobas, reis ou mandatários locais ali por volta de 1630/40.

O que isto tem a ver? Tudo. E com muita coisa que nos diz respeito. É que existe uma questão muito cabeluda rolando no Brasil atual envolvendo o conceito ‘Quilombo’, no âmbito da regulamentação de leis que embasarão políticas públicas inspiradas na constituição de 1988, visando garantir a posse da terra, por meio de títulos de propriedade ao que se convencionou chamar de ‘comunidades remanescentes de quilombos’.

(… Mas espera aí… _ “que lombo!”_ não se refere à bela bunda de uma mulata bem gostosa?)

Ui!…Calma, calma. Ignorância racista também tem limite (embora não seja nada mal que haja ignorância para que a modesta sabedoria de alguns possa dar o ar de sua graça).

Mas ok, ok. Ninguém nasce sabendo. Sou paciente e dou outro exemplo para os mais leigos que eu:

Quilombo para iniciantes: Princípios ativos e componentes lógicos

(Leia e entenda bem a bula antes de usar)

Quando levamos uma paulada na cabeça, qual é o nome que damos àquele caroço doído que nos cresce na testa? (Não. Chifre não. Sem sacanagem que estou falando sério)

Anh? Calombo? Isto! Ka-lombo (olha…Esta foi uma sacação ‘newtoniana’, não foi não?). Racionem comigo então: Como ‘Ka’ em kimbundo é diminutivo, Lombo pode significar então… ‘protuberancia, correto? Pequena protuberância (se traduzirmos bunda como ‘lombo’ a dita significaria uma bela e média …tá, vocês já entenderam.)

Kilombo, Kalombo, Lombo e Bunda: Um contexto semântico bem afinado com o mais puro vernáculo angolano.

Daí Kilombo (Ki, assim como Ka é prefixo em kimbundo) pode ficar sendo, no dizer de um colonialista lusitano pelo menos, ‘fortaleza de pretos construída num lugar alto’.

(Deve ser, logicamente por isto que os quilombos no Brasil, pelo menos os mais perenes, eram feitos em serras bem altas. Reminiscências culturais, inteligência estratégica, guerreira trazida de lá dos cafundós de Angola.)

Viram só como são as coisas? Uma palavra não é apenas um som qualquer, um amontoado de fonemas. As palavras carregam muita história, sentidos. Saber valer-se do que elas tem para nos contar sobre o passado e o presente, costuma ajudar muito a gente a construir um bom futuro.

_E olha a Etimologia aí, gente!

Logo se vê, portanto, que não é nada desimportante se bater na tecla da semântica neste caso, não é não?  Matando a semântica original se mata o sentido, a alma da palavra que passa a significar… nada. Afinal de contas, nunca é demais repetir: Jesus não é Genésio. Berimbau não é gaita.

(E você é tão bobinho a ponto de acreditar mesmo que seja possível transformar em lei conceitos vagos e desprovidos de sentido?)

Então vamos lá! Todos juntos, comigo:

_”Ressemantizar é o cacete! Viva a cultura negra nacional!”

Pois não é isto que parece estar acontecendo neste caso? Todo mundo se acha careca de saber que ‘Quilombo‘ de algum modo hoje em dia é isto aí: Um território (um lote de terra que seja) ocupado por descendentes de escravos que, por conta de históricas necessidades de reparação em vias (?) de serem reconhecidas (a escravidão foi um regime juridicamente condenável, certo?), reivindicam, diretamente ou com o auxílio de intermediários, a posse das terras que ocupam.

O resto é o resto. Deveria ser motivo para outras reivindicações.

Mas é aquela história que todo mundo também já  sabe: Enquanto o douto elabora conceitos o leigo palpita, especula, mas ambos, ao fim de todas as contas não vão poder mesmo falar mais do que… ‘em tese’.

Vamos então abordar este assunto assim-assim, valeu? Sem delírios sabichões,  na base do mais modesto feijão com arroz, pisando em ovos alheios, se necessário, mas com todo carinho, sentindo na pele o drama da questão. Sem ser louco a ponto de me achar um Deus da verdade é, pois, em tese, em tese, que vos digo:

Histórico das mumunhas jurídicas sobre o tema Quilombo hoje

(Colocando alguns  pingos nos ‘ís’ )

E são ainda Andressa Caldas e Luciana Garcia que se referem,  claramente ao que para nós se transformou no caroço (ou… calombo? Êpa!De novo? ) crucial deste angu:

“…Introdução

“…No Brasil, existem mais de 2.200 comunidades afro-descendentes quilombolas, totalizando cerca de 2.5 milhões de pessoas… No que concerne à titulação dos territórios quilombolas, recente relatório independente da Comissão Pró-Índio de São Paulo (CPISP),”Ações Judiciais e Terras de Quilombo”, revela que até agosto de 2006 havia “310 processos de regularização de terras de quilombo perante o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária.

O levantamento da CPI-SP revela que 59% dos 310 processos abertos recebeu apenas um número de protocolo no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). Ou seja, em 182 processos nenhuma medida administrativa foi tomada no sentido de regularizar o território… “

…” A ressemantização do termo quilombo e sua inserção na Constituição Federal de 1988 vieram a traduzir os princípios de igualdade e cidadania negados aos afrodescendentes correspondendo, a cada um deles, os respectivos dispositivos legais:

i) Quilombo como direito à terra, enquanto suporte de residência e sustentabilidade, há muito almejadas, nas diversas unidades de agregação das famílias e núcleos populacionais compostos majoritariamente, mas não exclusivamente de afrodescendentes – CF/88 Artigo 68 do ADCT – sobre ´remanescentes das comunidades de quilombos; Quilombo como um conjunto de ações em políticas públicas e ampliação de cidadania, entendidas em suas várias dimensões – CF/88 – título I direitos e garantias fundamentais, título II, cap. II – dos direitos sociais;

ii) Quilombo como um conjunto de ações de proteção às manifestações culturais específicas – CF/88 – artigos 214 e 215 sobre patrimônio cultural brasileiro.

(Épa! É isto mesmo? O dispositivo se refere a manifestações culturais… específicas? Bem, vamos ter que cobrar que esta especificidade seja explicitada mais tarde.)

Mas o enunciado do dispositivo, mesmo sem explicitar nada da questão, por ele mesmo proposta, ainda insiste:

“…Assim, o artigo 68 dos Atos das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Federal de 1988 (ADCT) estabeleceu que:

“Art. 68. Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos.”

Ao que comentamos aqui (tentando imitar aquela ‘baba de quiabo’ dos advogados):

Ora, o que se chamou neste caso de ‘ressemantização’ parece com tudo menos uma alteração da semântica do que quer que seja. Fica claro que se tentou, tão somente aplicar o nome genérico de Quilombo (e, portanto banalizando o sentido estrito do conceito) a uma outra figura jurídica, inclusive já existente, qual seja o ‘direito genérico das populações afro descendentes (e não exatamente quilombo-descendentes no sentido lato) à posse da terra.

Convenhamos que este direito à posse da terra é por demais genérico e redundante. Que se danem os regulamentadores! (aqueles que vão ter que dar seu jeito para dar nomes aos bois.)_ Parece nos dizer, curta e grossa, a nossa ‘boazinha’ constituição de 1988, certo?

Em suma, com a nítida finalidade de ampliar o leque dos beneficiários (quem pensou esta estratégia tão ingênua?), não se mudou apenas o nome da coisa, mudou-se a coisa de nome, o que é muito diferente e não significa, de modo algum ‘ressemantização’.

Ressemantizar’ seria adaptar o conceito à nossa época, sem desconsiderar (ou ‘ressignificar’ aleatoriamente) aspectos definidores – como a cultura ‘tradicional’ destes segmentos, por exemplo. Afinal, o dispositivo determina ou não determina a defesa de manifestações culturais… específicas?

Ao que nos parece, da forma como está proposta no dispositivo – que se pretende um instrumento legal – a medida acaba não tendo aplicabilidade jurídica especial alguma, sendo facilmente desqualificada por qualquer boa banca de advogados inimigos da causa, já que nele, no dispositivo, poderiam estar abrigados todos outros segmentos… ‘étnicos’ (o que, aliás, o próprio dispositivo admite em seu texto ser um critério vago), não conferindo à medida força alguma para fazer valer os direitos deste ou de qualquer grupo…’étnico’ em particular.

Nas barras frias de um tribunal em suma, baseado apenas em semelhantes argumentos tão pouco jurisprudenciais, um grupo ‘majoritariamente’ formado por quilombolas remanescentes, não teria, realmente chance alguma.

_”Terra para negros ex-quilombolas!” _ Será preciso dizer, com todas as letras, de forma cabal, com palavras passíveis de serem compreendidas, comprovadas e transformadas em lei.

Ora, é claro que esta conversinha de ‘ressemantizar’, ‘ressignificar’ tudo – por mais bem intencionada que seja – só podia dar no que deu.

Quem dá nome aos bois?

“Quem pariu mateus que o embalance”

É fácil falar, criticar, cobrar assim em cima deste muro de lamentações. Eu sei também que é preciso ir devagar com este andor. As intenções da maioria dos envolvidos são boas e as suscetibilidades são frágeis demais diante de críticas mais ácidas. Todo mundo quer ser o santo padroeiro desta história.

Sabem vocês, contudo, tanto quanto eu, que das melhores intenções está lotado inferno.

Porque esta questão não anda? Será que está planejada para não andar mesmo? Culpa desta desmobilização impressionante do outrora combativo Movimento Negro do Brasil, que teria emprestado para o Movimento Social como um todo, tornando genérica, esta bandeira que lhe era tão cara e exclusiva?

Seria culpa dos advogados, juízes e legisladores em geral que não conseguem entender a necessidade de se associar Justiça Social com Diversidade étnica? Ou seria culpa dos técnicos, antropólogos e historiadores, envolvidos em bizantinas questões acadêmico-conceituais que os levam a ideologizar, questionar  e ‘ressignificar’ o conceito de tudo nem sempre com as mais claras intenções?

Como nos diz um entendido sobre o tema:

“_ …esse assunto é o maior tabu entre os antropólogos. Existe digamos um código secreto, um espírito corporativo, uma pretensão de reserva de mercado para aqueles que lidam com a tal antropologia aplicada…

Ih! sai de baixo! Mais caroço à vista.

…Bem, mas isto é assunto para outras mangas num post que faremos logo a seguir (leia aqui o POST #02). Enquanto isto vão pensando aí que a pobre da bezerra ainda não morreu.

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(Em tempo: A palavra angu também vem de algum modo do Kimbundo, sabiam? Penso que vem de ‘iangu’ que quer dizer capim – ou couve picadinha – aquela que, além do caroço, engrossava o dito cujo na cuia do escravo. O engraçado é que a palavra não vem diretamente de ‘fubá’ não, embora ‘fubá’ também venha do kimbundo ‘fuba’, farinha de milho.

Recomendo contudo muito cuidado com os dicionários. Kalombo, por exemplo quer dizer hoje em Angola, literalmente, ‘mulher infecunda‘. A língua é a mãe de tudo, ou seja: Tem gente aí que precisa rever, totalmente os seus conceitos etimológicos… e ideológicos com urgencia. )

Ressignificar-se, diria.

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Depois o papo segue – e esquenta mais – Achei por bem linkar aqui a matéria fedida da revista ‘Veja já que os leitores mais ligados ao tema vão estrilar e com razão.

Calma rapaziada. Uma coisa a gente precisa reconhecer: para um oportunista agir é necessário que alguém crie a oportunidade, certo?

Ajoelhou? Tem que rezar.

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Fui mas volto já.

Spírito Santo
Maio 2010

A ciência da porta na cara


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Svante Pääbo, à direita, e equipe. Os sequenciadores do genoma do homem de neandertal – foto: cortesia Instituto Max-Planck (com brincadeirinha do autor)

A peleja do jornalista – quase ruivo – contra o aposentado negão

Uma tragédia do ‘racismo à brasileira’

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(Eu, na porta do banco, atrasadão)

_ Não. Não tenho nada de metálico aqui na bolsa não, porque, não pode?)

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O papo é seguinte:

“…O sequenciamento do genoma do homem de Neandertal anunciado nesta quinta-feira por uma equipe internacional de cientistas revelou cruzamentos com o humano moderno e traz uma nova luz sobre as características genéticas humanas únicas na evolução..”.

Agora leia – ou veja – a maliciosa matéria do jornal hoje da TV Globo (dirigido pelo neo- racista Ali Kamel) Se você não for um racista enrustido e não tiver sangue de barata, garanto que se sentirá tão revoltado quanto eu.

(E não precisa nem ser barrado na porta do banco onde mantém a sua conta)

Siga-me então. Vamos analisar friamente a notícia real, sem o enfoque tendencioso de Kamel & Cia:

“…A proporção de material genético herdado dos neandertals é de cerca de 1 a 4 por cento. É uma proporção pequena, mas muito real de ancestralidade nos não africanos (grifos meus) hoje”, disse a jornalistas por telefone David Reich, da Escola de Medicina de Harvard, em Boston, que participou do estudo.”

Deixa eu ver se entendi (e atenção para as entrelinhas abaixo, pois nelas é que está o cerne das intenções desta nova tese algo geneticista ou… eugenista, sei lá):

A tese original diz: O homem (ou a mulher, no caso) de Neandertal teve relações sexuais com o homo sapiens. Isto gerou uma carga de 1% a 4 % do DNA do Neandertal no genoma do homem moderno. Sacaram? Então podemos seguir no debate, ok?

(E eu ainda na porta do banco, duro, puto e constrangido

_Não sacaneia!Será que aliança de casado faz a porta apitar? Moedas?Tem um clips no meu bolso. Será que isto apita?)

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Ora, se o neandertal é um ‘homem’ estamos falando então do cruzamento entre duas espécies de seres humanos, certo? Um supostamente originado na África outro supostamente originado na Europa. E daí? Até aí morreu Neves.

No entanto, dita assim, bombasticamente a tese passa a ter um forte sintoma de ser dissimuladamente racista (ou está sendo deliberadamente distorcida na imprensa – como é o caso flagrante da TV Globo de Ali Kamel – para este fim), ou seja, parece que para alguns insanos racistas (como os deste link) a notícia serve para desmontar na cabeça dos mais desavisados, a tese científica que provou originalidade do genoma africano na raça humana. Sugiro que a notícia seja vista então com certas ressalvas, só por conta deste viés escorregadio.

Ressalvemos pois:

Para início de conversa não é preciso ser cientista para se saber que esta possibilidade (a do entre curso sexual entre mulheres ou homens oriundos da África com seres algo semelhantes oriundos da Europa) é perfeitamente factível. Aliás, estudos muito recorrentes e pertinentes já aludiram antes a possibilidade cientificamente provável do homem de Neandertal, o Homo Erectus e o homo Sapiens terem tido um período de certa convivência, uma certa contemporaneidade com evidente entre curso sexual entre uns e outros.

(Vale dizer para não perder o ensejo da graça que a transa sempre foi livre entre seres da mesma –ou quase- espécie – humana, certo? – porque esta é a lei mais básica da natureza. Vamos combinar inclusive que chega até a ser estranho que só tenham descoberto isto agora logo, também aí nenhuma novidade).

(E eu lá. Barrado , morto de vergonha. Uma fila enorme atrás de mim)

_ Abre esta porta, porra! Que trava automática é o cacete!Tô vendo que é o guarda ali que está travando!

——————

O que não está sendo considerado ou dito, contudo – e aí está a capciosidade da notícia tornada sem graça alguma pela pauta boba de Kamel & Cia.- é que o que as teorias que embasam o surgimento do homem na África dizem respeito a fatos de nossa evolução ocorridos milhares de anos antes deste provável entrecurso sexual…‘inter racial’.

(E eu, voltando a dar graça à tese, colocaria até o Homo Erectus nesta história, não exatamente como – se me permitem – numa suruba a três, mas como uma possibilidade não menos remota de que outras espécies poderiam ter também existido e se entrecruzado numa boa. Vamos botar então um pouquinho do DNA do coitado do Erectus também neste nosso genoma, tá certo? Por que não?)

Ou seja (agora sem sacanagem ou brincadeira) uma coisa – a origem remota do homem moderno ser a África – não tem nada a ver com a outra – a existência alegada de que houve entre curso sexual entre homens de diferentes origens planetárias em certo ponto de nossa evolução.

Ponto.

(E aqui, mesmo sendo uma afirmação risível, repetimos a açodada interpretação pautada pelos jornais da Rede Globo de hoje – jornais como sabemos, dirigidos pelo indefectível racista de plantão Ali Kamel – leiam atentos às segundas intenções, por favor):

Cena na TV: Repórter do jornal ‘Hoje’, todo orgulhoso (não sei de que) forçando o tom da notícia numa ênfase totalmente fora de propósito:

_ …”Portanto, só não tem DNA de neandertal quem é africano puro. O resto, segundo os cientistas, é sim parente dessa espécie que ganhou fama de ser meio “cabeça dura”. Os cabelos ruivos, por exemplo, são considerados uma das heranças dos neanderthais…”

Oh! Mas que jóia da manipulação de uma notícia! Em que universidade se ensina este tipo de jornalismo tão dissimulativo, como se dizia antigamente…marron? Na PUC do Rio?

Alguém aí avise, por favor a este pessoal que faz a pauta dos jornais da TV Globo que os homens de neandertais são considerados sim pelos cientistas ‘burros’, ‘ignorantes’, ‘desprovidos de inteligência’  e não, de modo algum, ‘cabeças duras’, que é uma outra coisa, impossível de ser atestada cientificamente, querendo dizer algo como ‘teimosos’, ‘desligados’. Porque esta proteção com os neandertais?

Sim, os antepassados diretos dos europeus modernos são considerados pela ciência menos inteligentes do que seus semelhantes homo sapiens, que viveram, originalmente na África. Mas isto é muito relativo e, mesmo sendo uma fato inquestionável (ao menos por enquanto) não quer dizer, absolutamente que uns sejam inferiores aos outros.

(Ah…este papo da natureza relativa da cultura humana é velho pra caramba, não é não?)

Somos todos tanto Neandertais quanto Erectus e Sapiens, ora bolas! Somos parentes e é por isto que somos da mesma…espécie (cansativo explicar estas baboseiras óbvias, sabiam?)

E daí? Isto dói em vocês (pensando neles, os daquela fila do banco)? A esta altura da história do Brasil vocês ainda se julgam assim tão… europeus? Que doença, gente! Que recalque!Que paranoia estúpida!

(E, cá entre nós, este negócio de ressaltar tão ‘babaovisticamente’ os possíveis ‘cabelos ruivos’ dos caras então…(ui!). Esta doeu no meu fígado)

(Não riam agora. Ainda não)

(E  eu ali, travado, suando bílis. Os brancos lá, disfarçando, olhando para os lados)

Então ta certo. Sair da fila eu não saio. Tiro o cinto, tiro a prótese dentária da boca, tiro cadarço do tênis…

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Traduzindo (se é que é necessário) a distorcida pauta intencional da equipe de Kamel. O que eles querem subliminarmente nos enfiar guela abaixo é o seguinte:

Ninguém (sugerindo que aqui no Brasil também, é claro) poderia reivindicar ascendência ‘puramente’ negra já que não existe esta ‘pureza’ racial desde o tempo das cavernas. A existência de DNA dos caucasianos homens de neandental (subrepticiamente o padrão eugênico do ‘homo arianus’ de Kamel & Cia., a julgar pela euforia com que a notícia foi dada) provaria isto.

(Observem também que a matéria não repete a taxa mínima deste DNA quase residual existente no genoma do neandertal sequenciado. Na verdade a pauta, sutilmente enfatiza exagerando, os 4%  e omitindo, cuidadosamente a faixa mínima e irrisória de 1%, que é perto do nada)

Gracinhas! O que torna mais risível ainda a tendenciosa pauta, contudo é que, se invertermos a ordem dos produtos (da tese no caso) poderíamos afirmar, do mesmo jeito – e sem mentir em uma vírgula sequer – o seguinte:

_ CIENTISTAS DESCOBREM QUE O HOMEM MODERNO TEM  DE 96 A 99 POR CENTO DO GENOMA DO HOMEM SAPIENS (que como se sabe é originário da África)!

_ POR CONSEGUINTE, A MESMA DESCOBERTA DÁ CONTA DE QUE TEMOS… APENAS… DE 1 A 4 POR CENTO DO GENOMA DO HOMEM DE NEANDERTAL (que é originário da Europa)!

Viram? Racismo não tem sentido. Eu já disse: Somos todos negões!

(Pronto. Podem rir agora)

Kamel & Cia. Apelam, é o que se vê, para o mais puro dos sofismas, como sempre fizeram (eles, os de O’ Globo já tentaram desqualificar a negritude evidente de Pelé e de nossa campeã olímpica Daiane dos Santos com este papo, lembram? Elizeu Fagundes de Carvalho, um biólogo da Uerj é o ‘cientista’ de plantão do grupo de Kamel & Cia., responsável pela difusão destas teses ‘científicas’ sofismáticas, eugenistas e estapafúrdias, dignas de um Mengele às avessas).

Invertem, distorcem o sentido da tese dos cientistas europeus e confundem a população, provavelmente no intuito de atrapalhar a presente discussão sobre cotas raciais e ações afirmativas para negros no Brasil. Jornalismo – e ciência – sem ética de gente  (com o perdão da franqueza) totalmente indecente e covarde porque não nos dá nem a chance, o direito de resposta para refutá-los, do alto que estão na cúpula de uma das maiores empresas jornalísticas do país.

O que me espanta na cara de pau deles é que a questão na verdade é por demais óbvia e nada, tem de surpreendente, pois há uma diferença de milhares de anos entre o surgimento efetivo do homem (que teve que se dar, primeiramente em algum lugar, específico, que se provou ser a África) e a sua dispersão pelo resto do mundo o que, muito provavelmente, gerou espécies subsequentes, variantes que se tornaram diferentes entre si por conta de fatores ligados a sucessivas adaptações ao meio ambiente. Qualquer ginasiano devia saber disto.

Darwin, velho de guerra – salvo as revisões dos ‘criacionistas’ e outras que não conheço – provou como isto se deu, de forma bem clara e cabal.

Aliás, causa enorme estranheza esta aparente insistência de certas correntes ideológicas e/ou pseudo cientificas na tentativa de legitimar a negação teórica da origem africana dos seres humanos. Qual é o problema? Porque esta aversão a sermos negros? Nós nem sabemos ainda se estes nossos antepassados foram, realmente negros como os africanos atuais. E se a a ciência um dia descobrir (como descobriram penas em dinossauros)  que eles foram louros, de olhos azuis? Será que Ali Kamel & Cia. iriam mudar, de mala e cuia, sua ascendência da Europa para a África?

Gente esquisita esta, não é não?

Há inclusive dados históricos bastante confiáveis – por serem do mesmo modo óbvios – de que a dispersão do homem rumo ás terras geladas do norte da Europa (o genoma do neandertal agora sequenciado é da região da Croácia) só pôde se realizar após a descoberta do fogo.

Sem o calor do fogo – oh! Que obviedade ! – o homem morreria congelado no inverno.

Logo um longo período de adaptação – com sucessivas migrações sazonais para partes mais quentes do planeta talvez – deve ter sido o processo mais evidente das transformações físicas pelas quais o primitivo homem africano – provavelmente negro sim – se transformou no homem europeu e no homem asiático.

Eu mesmo visitando um museu na Europa (Viena), como um Darwin tardio, me dei conta disto ao ver ao mesmo tempo, um urso preto, um pardo e um branco. A resposta estava ali, na minha cara: Claro que o meio em que passaram a viver, migrando daqui para ali, foi que operou aquelas tão significativas diferenças nos ursos.

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(Eu, chutando a vidraça:_ Destravem a porta giratória agora, porra!)

_Vou tirar a roupa toda então!Porra! Caralho!

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Portanto, para encerrar esta ‘conversa de macaco’ (na boa gíria, conversa mal intencionada) de Ali Kamel & Cia, leiam vocês mesmos, parte do que os cientistas europeus por meio da revista Science, REALMENTE disseram:

“…De 1% a 4% do genoma humano (2% de seus genes) provêm do homem de Neandertal, que apareceu há cerca de 400.000 anos e se extinguiu há 30.000 anos, precisaram cientistas em um estudo publicado na edição deste 7 de maio da revista americana ‘Science’.

O Neandertal é assim o primo mais próximo dos seres humanos.

…essa transferência genética deve ter ocorrido de 50.000 a 80.000 anos atrás, provavelmente quando os primeiros Homo sapiens saíram da África, berço da humanidade, coincidindo com a presença dos homens de Neandertal no Oriente Médio, antes de se dispersarem na Eurásia.

O fato de os genes do Neandertal aparecerem no genoma de indivíduos de origem europeia e asiática, mas não entre os africanos, sustenta essa hipótese.

Além disso, não foi encontrado nenhum gene de Homo sapiens no genoma Neandertal sequenciado a partir do DNA extraído de três ossos fossilizados provenientes da caverna Vindiglia, na Croácia, e que datam de 38.000 a 44.000 anos. Os ossos pertenciam a três mulheres.

Os cientistas compararam o genoma neandertal com o de cinco humanos modernos procedentes da África Meridional e Ocidental, assim como de França, China e Papua Nova Guiné. Também foi comparado com o genoma do chimpanzé, cujo DNA é 98,8% idêntico ao humano.”

…”Na comparação, o Neandertal mostrou-se geneticamente idêntico ao humano moderno em 99,7%, e ao chimpanzé em 98,8%. O antepassado comum do chimpanzé com o humano moderno e seu primo Neanderthal remonta a 5 ou 6 milhões de anos atrás.
O homem de Neandertal e o humano separaram-se durante um período situado entre 270.000 e 440.000 anos, conclui o estudo, destacando que ambas as espécies eram muito semelhantes. Mas as diferenças são sobretudo interessantes.

…”Segundo Richard Green, “a decodificação do genoma de Neandertal é uma mina de informação sobre a evolução recente da humanidade e será aproveitada nos próximos anos”.

(Eu já sem a roupa. Saindo na porrada com os guardas. Um guarda atirando: Pôu! Pôu!)

A fila de brancos se dispersando rapidamente. Três PMs entram na agência, bufando.)

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Mas o que a tese dos europeus afirma, sem entrelinhas? Vocês sacaram?

Em suma, nada de muito novo na tese dos gringos, exceto que a nossa evolução teve uma história bem menos compartimentada (ou dicotomizada) do que se julgava. Ou seja, somos mais humanos e iguais ainda do que imaginávamos (o que, ironicamente lança mais obscuridade sobre tendências arcaicas e enrustidamente racistas como as de O’ Globo, Kamel, & Cia. Que alegam ser contrárias a existência de diferenças raciais, mas que usam isto com intenções nitidamente racistas, segregacionistas ou protelatórias – para barrar ações afirmativas )

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(Vou saindo. Na maca. O carro da defesa civil com luz vermelha girando e me deixando ainda mais tonto. Um montão de gente me olhando com aquela curiosidade mórbida, quase imbecil. Se querem saber, nesta ficção que fiz nos entreatos deste post eu não morri não. O tiro saiu pela culatra e o banco vai ter que me indenizar nuns…digamos assim… 50 mil paus.

É, mas foram babacas como estes que atiraram na cabeça do negão aposentado -vocês viram? – Ele usava um marca-passo, que é metálico, disseram que a porta travou. Mentira descarada.

O curioso é que, exatamente como no caso do aposentado, na fila de brancos da minha história fictícia ninguém se manifestou, repararam? Nem contra nem a favor. É muito comum isto. Ficam ali omissos, olhando para o relógio, se fingindo de mortos, se alguém puxar o mote são capazes até de aplaudir os guardas assassinos (enquanto isto o negão aposentado estava em coma irreversível).

E nesta Ali Kamel & Cia. Deitam e rolam.

Mas, não adianta. Tem nada não. Vade retro, rapeize do apartheid brasileiro!

O Homo Sapiens é negão, o Mengão é campeão e o Mengele já morreu! Quem manda aqui sou eu.

Spírito Santo
Maio 2010

Atenção: Veja o vídeo aqui e assine o ‘Manifesto Porta na Cara

Achtung! Mais um negão em Viena


“April macht zu viel”
‘Abril faz o que quer‘- ditado popular austríaco (ou alemão não lembro bem)

Não pude resistir à tentação de divulgar isto. Aos que não tiverem a gentil complacência de relevar mais este eventual deslize egocêntrico, justifico enfático:

Corujice também é cultura!

É nestas horas que gostaria de ver a cara de um anti-cotistas destes, estes racistas enrustidos que andam rebolando por aí, afirmando que os excluídos históricos do acesso à educação (negros, índios e afins) precisam esperar caladinhos, na fila, confiando piamente que, um belo dia (quando a galinha criar dentes?) políticas universalistas – ou ‘não racialistas’, no dizer daqueles próceres do jornal O’Globo – vão permitir que os nossos filhos entrem na universidade.

Caladinho é cacete. Digo alto para vocês todos ouvirem: Depois de entrar na UFRJ (e por acaso fora do programa de cotas), meu filhão, negão, acabou de entrar agora na Universidade de Viena, lá na Áustria.

Na base do ‘você sabia’, pra economizar o google de vocês, em verdade em verdade vos digo: Trata-se de uma das mais antigas universidades do mundo, criada em 1365, quando o Brasil, tal como o conhecemos, nem sonhava existir – ou seu ‘descoberto’, como se diz – Os portugueses, por sua vez, nem tinham ainda, a mais vaga idéia de que invadiriam o Kongo um dia e que para cá trariam meus antepassados africanos que de sua parte, séculos e séculos adiante, teriam o meu filhão como descendente ilustre. Dá pra imaginar?

Só pra se ter uma idéia, vaga ao menos, da dimensão da quase ‘façanha’ do ex-pimpolho (nada tão difícil. Foi só ele descobrir que tinha este direito e correr atrás), na lista de celebridades e sumidades mundiais que ali estudaram e se formaram, só encontrei um brasileiro, assim mesmo de ascendência austríaca, o crítico literário e libertário incorrigível Otto Maria Carpeaux (Otto Karpfen antes de fugir dos nazistas para o Brasil ). Veja a lista que fiz assim, só numa zapeada na wikipédia:

Gustav Mahler (músico), Gregor Mendel (músico), Papa Pio III, Otto Preminger (cineasta), Wilhelm Reich (psicanalista), Bruno Kreisky (ex primeiro ministro austríaco), Kurt Waldheim (ex primeiro ministro e secretario da ONU), Stefan Zweig (escritor), Otto Maria Carpeaux (crítico literário naturalizado brasileiro), Jörg Haider (‘moderno’ e célebre político neo nazista austríaco).

Procurar quantos negros brasileiros estudaram ali é a pesquisa mais fácil deste mundo:
Com quase toda certeza nenhum.

Se você considera válido este tipo de parâmetro, raciocina (ou ‘se liga’): A Universität Wien é um dos templos mais bem acabados do que se pode chamar de ‘cultura branca’, cultura européia, saber hegemônico (se é que me entendem) e é lá que, unicamente por conta de seus inalienáveis direitos de cidadão do mundo (e não por conta de nenhuma meritocracia elitista) o meu filhão negão vai estar.

(Aliás, deixei o neo-nazista Jörg Heider como último da lista só pra lembrar que a Áustria é a terra onde nasceu o Adolf Hitler, o anti-cotista mais famoso da história (suas cotas eram as Cotas da Morte) que, como também indigitado Heider, deve estar se revirando no túmulo de saber que tem mais um negão (já há muitos africanos estudando lá, fiquem sabendo) lendo clássicos da literatura universal naquela biblioteca belíssima e gigantesca, como as dos filmes do Harry Potter (desculpe a referencia adolescente, mas foi a mais forte que me ocorreu)

(Se bem que, sofismáticos empedernidos como são, os impagáveis anti-cotistas do Brasil vão tentar descontruir toda esta minha alegria para esbravejarem pomposos – e engulindo em seco – que este meu exemplo é, isto sim, a prova mais cabal do mundo de que cotas raciais e ações afirmativas são ‘inócuas e desnecessárias’:

_ ‘Olha só o caso deste garoto do Spírito. Conseguiu ingressar numa das melhores unicersidades do mundo por seus próprios… méritos”

Mentira. Digo e afirmo na cara de vocês (deles, no caso, os racistas enrustidos que pululam por aí). O programa ao qual o meu filhão se habilitou, está inserido num conceito de intercâmbio entre universidades da União Européia com universidades do antigo Terceiro Mundo, que visa, entre outras coisas, democratizar o acesso à educação e ao conhecimento para jovens oriundos de países subdesenvolvidos ou – vá lá – em vias de desenvolvimento como o Brasil, contexto no qual países africanos (apinhados de negros) e latino americanos (apinhados de negros, de índios e disto e daquilo de quem dizem não serem ‘brancos o suficiente’ para merecer um lugar ao sol) são os maiores beneficiários (países de porte médio da região da União Européia como Portugal, Croácia, Polônia, etc. também entram nesta dança)

Um óbvio e claríssimo sistema de cotas, portanto. Uma prova – aí sim – cabal de nossa vergonhosa e anacrônica, atrasada e estúpida mania de ficar excluindo gente, omitindo gente, matando gente de forma egoísta, na base da ‘farinha pouca, meu pirão primeiro’.

Ah, ah, ah, anticotistas, racistas de plantão! A vocês só resta ficar arrotando por aí que se formaram pela PUC, que seus filhos vão estudar na PUC. Que a PUC, que a PUC, que a PUC… E daí? Coisa mixuruca. Quem liga mais para esta hegemonia onipotente, tão colonial?

Perderam! Perderam! Meu filhão negão escapou da sanha excludente de vocês que, agora e mais uma vez, não perdem por esperar. Outros muitos escaparão.

_”Achtung! Nicht verboten! Auf wiedersehen!

Spírito Santo
Abril 2010

Nei Lopes: “Consciencia Negra, modo de usar”


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Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

Neo racistas do Brasil! Desuni-vos!

O artifício da ignorancia sabida tem sido a grande trincheira defendida pelos neo racistas brasileiros um grupo bem articulado de pessoas (cujos nomes nem vale mais a pena declinar), com muito transito na grande imprensa e que, no ensejo de combater as relativamente bem sucedidas campanhas por ações afirmativas para a população preta do nosso país – no âmbito desta ainda tão jovem democracia brasileira – enche jornais, revistas e livros de capciosas e requentadas teorias tergiversativas, mal alinhavadas sobre velhuscas idéias de sociologos (como Gilberto Freire, por exemplo), martelando a maquiavélica e improvável tese da inexistencia do racismo no Brasil.

Ignorancia sabida é aquela esperta estratégia do ‘João-sem-braço’ que, assim como quem não quer nada, vai envenenando, minando a resistencia dos mais influenciáveis, como um diabinho que buzinando o ‘Mal’ no nosso ouvido, tenta vender o peixe de que, o que parece ser o ‘Bem‘ não é lá tão bem assim.

Todo jovem excluído, segregado, apartado de seus direitos – e ainda sem saber exatamente porque – está sujeito à influencia nefasta deste tipo de intelectual do atraso, advogado do Diabo no pior dos sentidos.

Acho que foi para este jovem que nosso amigo Nei Lopes escreveu esta bula que reproduzo abaixo por sua aguda pertinencia:

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Consciencia negra, modo de usar
(publicado originalmente em Nei Lopes/Meu lote)

(Fechando a tampa das discussões do mês)

Quando te disserem que você quer dividir o Brasil em “pretos” e “brancos”, mostre que essa divisão sempre existiu. Se insistirem na acusação, mostre que, neste país, 121 anos após a Abolição, em todas as instâncias, o Poder é sempre branco. E que até mesmo como técnicos de futebol ou carnavalescos de escolas de samba, os negros só aparecem como exceção.

Quando, ainda batendo nessa tecla, te disserem que o Brasil é um país mestiço, concorde. Mas ressalve que essa mestiçagem só ocorre, com naturalidade, na base da pirâmide social, e nunca nas altas esferas do Poder. E que o argumento da “mestiçagem brasileira” tem legitimado a expropriação de muitas das criações do povo negro, do samba ao candomblé.

Quando te jogarem na cara a afirmação de que a África também teve escravidão, ensine a eles a diferença entre “servidão” e “cativeiro”. Mostre que a escravidão tradicional africana tinha as mesmas características da constituição em outras partes do mundo, principalmente numa época em que essa era a forma usual de exploração da força de trabalho. Lembre que, no escravismo tradicional africano, que separava os mais poderosos dos que nasciam sem poder, o bom escravo podia casar na família do seu senhor, e até tornar-se herdeiro. E assim, se, por exemplo, no século XVII, Zumbi dos Palmares teve escravos, como parece certo, foi exatamente dentro desse contexto histórico e social.

Diga, mais, a eles que, na África, foram primeiro levantinos e, depois, europeus que transformaram a escravidão em um negócio de altas proporções. Chegando, os europeus, ao ponto de fomentarem guerras para, com isso, fazerem mais cativos e lucrarem com a venda de armas e seres humanos.

Diga, ainda, na cara deles que, embora africanos também tenham vendido africanos como escravos, a África não ganhou nada com o escravismo, muito pelo contrário. Mas a Europa, esta sim, deu o seu grande salto, assumindo o protagonismo mundial, graças ao capital que acumulou com a escravidão africana. Da mesma que forma que a Ásia Menor, com o tráfico pelo Oceano Índico, desde tempos remotos.

Quando te enervarem dizendo que “movimento negro” é imitação de americano, esclareça que já em 1833, no Rio, o negro Francisco de Paula Brito (cujo bicentenário estamos comemorando) liderava a publicação de um jornal chamado O Homem de Cor, veiculando, mesmo com as limitações de sua época, reivindicações do povo negro. Que daí, em diante, a mobilização dos negros em busca de seus direitos, nunca deixou de existir. E isto, na publicação de jornais e revistas, na criação de clubes e associações, nas irmandades católicas, nas casas de candomblé… Etc.etc.etc.

Aí, pergunte a eles se já ouviram falar no clube Floresta Aurora, fundado em 1872 em Porto Alegre e ativo até hoje; se têm idéia do que foi a Frente Negra Brasileira, a partir de 1931, e o Teatro Experimental do Negro, de 1944. Mostre a eles que movimento negro não é um modismo brasileiro. Que a insatisfação contra a exclusão é geral. Desde a fundação do “Partido Independiente de Color”, em Cuba, 1908, passando pelo movimento “Nuestra Tercera Raíz” dos afro-mexicanos, em 1991; pela eleição do afro-venezuelano Aristúbolo Isturiz como prefeito de Caracas, em 1993; pelo esforço de se incluírem conteúdos afro-originados no currículo escolar oficial colombiano no final dos 1990; e chegando à atual mobilização dos afrodescendentes nas províncias argentinas de Corrientes, Entre Rios e Missiones, para só ficar nesses exemplos.

Quando, de dedo em riste, te jogarem na cara que os negros do Brasil não são africanos e, sim, brasileiros; e que muitos brasileiros pretos (como a atleta Fulana de Tal, a atriz Beltrana, e o sambista Sicraninho da Escola Tal) têm em seu DNA mais genes europeus do que africanos, concorde. Mas diga a eles que a Biologia não é uma ciência humana; e, assim, ela não explica o porquê de os afrobrasileiros notórios serem quase que
invariavelmente, e apenas, profissionais da área esportiva e do entretenimento. E depois lembre que a Constituição Brasileira protege os bens imateriais portadores de referência à identidade, à ação e à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira e suas respectivas formas de expressão. E que a Consciência Negra é um desses bens intangíveis.

Consciência Negra – repita bem alto pra eles, parafraseando Leopold Senghor – não é racismo ou complexo de inferioridade e, sim, um anseio legitimo de expansão e crescimento. Não é separatismo, segregacionismo, ressentimento, ódio ou desprezo pelos outros grupos que constituem a Nação brasileira.

Consciência Negra somos nós, em nossa real dimensão de seres humanos, sabendo claramente o que somos, de onde viemos e para onde vamos, interagindo, de igual pra igual, com todos os outros seres humanos, em busca de um futuro de força, paz, estabilidade e desenvolvimento.

Nei Lopes

BEBA ALUÁ!



Creative Commons License
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(publicado, originalmente em
www.overmundo.com.br)

“A palavra almanaque ou Almanach do árabe al-mana_kh). Segundo o historiador Stephanos Demetriou Stephanou Neto, al- manakh (literalmente `lugar em que o camelo se ajoelha`) era o ponto de reunião dos beduínos para conversar e trocar informações sobre o dia- a – dia.

Essa palavra adquiriu no Brasil, o significado de uma obra impressa de conteúdo científico, literário e humanístico. O primeiro e, provavelmente, mais duradouro dos almanaques brasileiros foi o Laemmert, publicado entre 1843 e 1937..”
(Verbete da Wikipédia – e de outra fonte linkada – para ‘Almanaque’)

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Achei o meu exemplar do Almanaque do Aluá número 1 de 1998 por acaso. Remexendo livros (estes sítios-lugares remotos e arcaicos de onde, espanando a poeira, ainda hoje nos saem tantas lembranças, luzes e informação).

Por acaso sim, como quem não quer nada, me deparei com aquilo que era a quase perfeita recriação dos almanaques de minha infância. Lembrei de muitos almanaques. Lembrei até, não sei porque, do Monteiro Lobato e seu espírito essencialmente ‘almanárquico’, contido no seu Sítio do Pica Pau Amarelo, nos informando sobre tudo que havia no mundo por intermédio de suas fantásticas fábulas…ou melhor: sei sim, por que Lobato: foi por causa do Almanaque Biotônico Fontoura (um ‘fortificante’, na verdade um vinhozinho-delícia que eu tomava em colheradas felizes, até quase me embriagar).

Foi este almanaque do grande Monteiro Lobato que lançou o nosso Jeca Tatu, que junto com o Macunaíma, forma a dupla tão indesejada quanto amada, de heróis de nossa raça brasileira, vocês se lembram?

Lembrei vivamente também dos ‘Anuário das Senhoras’, o grosso almanaque de onde minha mãe costureira tirava muitos e muitos modelos de vestidos para suas modestas clientes.

Foi vendo uma foto do ‘Anuário das Senhoras’ de 1953, eu acho, que tomei uma das decisões mais imbecis da minha vida que foi, no ensejo de aliviar a dura vida de minha mãe viúva e seus três filhos (eu o mais velho), pedir e insistir para que ela me colocasse num colégio interno, julgando, infantilmente, que todo colégio interno era igual ao daquela foto do ‘Anuário’: Uma freira costurando carinhosamente um botão caído do casaco de um rosado menino americano (ou europeu, sei lá).

Ledo engano. Nem um pouco europeu e muito menos rosado, amarguei – se bem me lembro durante oito longos anos – a dura vida de menino interno no SAM, desditosa instituição da década de 50, apenas um pouco menos ruim do que aquela famigerada Funabem que a sucedeu, até chegarmos às cada vez piores unidades ‘sócio-educativas’ de hoje em dia, tenebrosos presídios onde se encarceram crianças (odiosa invenção brasileira pela qual pagaremos um preço bem alto algum dia).

Sofri ali calado, sem fugir, o mais que pude, até um dia, já adolescente, tomar coragem e ‘pedir pra sair’.

Teria sido culpa do imaginário maravilhoso criado em nosso espírito pelos almanaques ou teria sido mesmo coisa do meu inexorável destino?

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Na confusão toda que se estabeleceu em mim, com este turbilhão de lembranças, me ocorreu também uma questão que talvez interesse a vocês:

Teria a enrustida alma deste sítio em que nos encontramos – o Overmundo mesmo, é claro- algo a ver com um almanaque? Teria este nosso webSítio, a esta altura dos nossos novos acontecimentos, vocação para ser um almanaque on line? Senão vejamos:

“…Mas desde o século XVIII, mesmo antes, o almanaque é um gênero ao mesmo tempo literário e editorial utilizado para difundir textos de natureza extremamente diferente. Daí o sucesso perpetuado de um livro que pode ser, ao mesmo tempo, útil e prazeroso, didático e de devoção, tradicional e “esclarecido”. Essa diversidade organiza a tipologia das obras, dos simples calendários, que indicam os santos de cada dia e as fases da lua, até os almanaques poéticos ou enciclopédicos. Ela se encontra igualmente no seio de muitos almanaques compostos de textos capazes de responder a todas as demandas, de satisfazer a todas as necessidades. …todos (os almanaques brasileiros, no caso:Nota do autor) foram ou são distribuídos gratuitamente pelos farmacêuticos; todos aceitam cartas, as contribuições de seus leitores, assim transformados em co-autores do livro. Sua importância para a cultura brasileira se mede em suas enormes tiragens de dois ou três milhões de exemplares e sua forte presença nas lembranças de leitura, ou de escuta, dos mais modestos leitores”.

(Extraído de ‘Bibliotecavirtual.clacso.org)

…”Segundo Correia e Guerreiro , o primeiro almanaque editado em Portugal data de 1496 : Almanach Perpetuum de Abrãão Zacuto, impresso em Leiria. Fornecia tábuas astronómicas e indicações para a sua utilização. No século XIX, sobretudo nas sua segunda metade, que os Almanaques se impõem em quantidade, e incontestável importância, se bem que completamente distanciados do avanço científico e técnico. De acordo com os seus públicos, podem ser um pequeno folheto, dirigido à população rural, e dos arredores das cidades, ou, então, aumentar o número de páginas, tornando-se num instrumento de divulgação de conhecimentos quer para um público geral, mais burguês e citadino, quer junto de algumas camadas sociais diferenciadas por ideários políticos, religiosos ou por outros interesses muito específicos…”

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A edição do Almanaque do Aluá/1 é primorosa. Consegui achar o site dos autores do projeto gráfico , onde descobri que só oito anos depois (2006), os responsáveis pela publicação conseguiram colocar na rua o número 2, que talvez possa ser ainda encontrado por aí (ironicamente, já um almanaque quase tão adolescente quanto eu, quando saí do SAM).

A leitura dos almanaques, espécie de revistas de variedades do tempo do ‘Ronca’, devia ser por regra leve e divertida – no que o Aluá é um exemplo perfeito e acabado. A política editorial mais rigorosamente seguida era a da diversidade, ou seja, nada de seções exclusivas, estanques ou limitações de tipo ‘nacionalistas’ ou mesmo regionalistas. Um almanaque brasileiro era, simplesmente, aquele escrito e editado por brasileiros.

Nos almanaques, portanto, a globalização da cultura, das idéias e dos conceitos já estava em voga, desde sempre (o que reitero aqui, é algo que dá o que pensar no caso deste nosso sítio). O Almanaque Aluá 1 aliás, tem como tema central a globalização (da cultura inclusive)

Coordenado e editado pela ong Sapé – Serviços de Apoio à Pesquisa em Educação do Rio de Janeiro (sape@ax.apc.org) e o Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular da FUNARTE, o Aluá tem em seu conselho editorial, entre outras valorosas figuras, o grande Claudius Ceccon, cartunista histórico da luta contra a ditadura, principal diretor do CECIP , instituição que, entre outros inestimáveis serviços, foi uma precursoras das TVs comunitárias no Brasil.

Para mim, o CECIP era, principalmente, a inusitada e heróica TV Maxambomba: Uma Kombi, uma câmera, um monitor e um telão. Filé e Lara, dupla dinâmica e equipe, fazendo sua TV mambembe ao vivo, em alguma praça ou rua da Baixada Fluminense (RJ), debatendo os problemas da população. Quem esqueceria?

Cuidadosa e amorosamente, escaneei algumas páginas desta preciosa publicação para vocês. Apreciem as imagens e leiam. Parece ou não parece um pouquinho com um certo site que vocês conhecem?

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Eu sei. Tem gente careca de saber, mas, tenham paciência e vejam também – com duplo sentido, por favor- este verbete da Wikipédia para a palavra ‘Site’

“Site é um termo inglês derivado de website ou Web site. Além de site, o conjunto de páginas também é chamado de website, Web site, www site ou, em Portugal, de sítio (às vezes websítio, sítio web ou sítio na Internet).

…Quando a World Wide Web foi criada, ela recebeu esse nome de seu criador Tim Berners-Lee. [1] Ele comparou a sua criação com uma teia, “web” em inglês. Cada nó dessa teia é um local onde há hipertextos. Como a palavra inglesa para local é site (também derivada do latim situs: “lugar, local”), quando as pessoas queriam se referir a um local da teia, elas falavam, web site. Assim um novo nome surgiu para designar esse novo conceito de nó onde há um conjunto de hipertextos: Web site….”

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Neste momento em que todos nós estamos meio que procurando uma luz no fim do túnel, envoltos em dúvidas atrozes sobre a morte da bezerra, talvez fosse o caso deste nosso webSítio se espelhar no belo exemplo editorial do Almanaque do Aluá e de seus empoeirados avós: Qualidade, beleza gráfica e máxima diversidade editorial, desde mil oitocentos e lá vai fumaça.

Seria maluquice ou impertinência sonhar que o Overmundo um dia pudesse se transformar, um pouquinho que fosse (até porque já se parece bastante) com uma espécie de novo e high tech Almanaque do Biotônico Fontoura?

(Eu ia dizer num novo Sítio do Pica Pau amarelo, mas, temi que alguns poucos não entendessem o espírito transcendental do trocadilho)

Simbolicamente, beduínos de todas as tribos conversando num lugar em que os seus camelos se ajoelham.

Monteiro Lobato iria adorar esta imagem, não é mesmo?

Spírito Santo

Janeiro 2008

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Em tempo (como nos almanaques)

Você sabia que o Aluá (o nome vem do doce árabe heluon) é uma bebida refrigerante (que alguns julgam ser indígena, mas, não é) trazida para o Brasil pelos portugueses, feita com a fermentação do abacaxi ou do milho moído?

Beba Aluá. Refresca, não engorda e faz crescer.

Notas finais: A capa de Claudius Ceccon é sobre o quadro Árvore da Humanidade de Paulo Sérgio da Silva, reproduzido do catálogo da bienal Näifs do Brasil, realizada pelo SESC em Piracicaba

A distribuição do Almanaque Aluá 1 foi gratuita e controlada

Salada Mista


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Foto de Tadeu Brunelli

Elogio á Mestiçagem, Democracia Racial e outros picantes ingredientes

“ O Neguinho gostou da filha da ‘madame’
Que nós tratamos de Sinhá.
Senhorita também gostou do Neguinho
Mas o Neguinho não tem dinheiro pra gastar
A ‘madame’ tem preconceito de cor
Não pode aceitar este amor.
Senhorita foi morar lá na ‘Colina’
Com o Neguinho
Que hoje é compositor.”

(Samba de Noel Rosa de Oliveira, e Abelardo da Silva, anos 60)

Existem várias analogias culinárias que podem ser feitas quando se fala das diferenças sócio culturais existentes na composição da população de um país e suas diversas possibilidades de mistura, amálgama, (no Brasil uma questão tornada particularmente complexa por conta de nossa peculiar estratificação sócio racial). Já foram tentadas várias receitas para tão ansiada refeição mas, até agora, nenhuma realmente apeteceu à clientela.

A primeira – e mais óbvia- analogia que me ocorre é a do Omelete, aquela que diz que para fazer um é preciso ‘quebrar os ovos’ . É a mais radical e cruel porque cria um problema terrível para a galinha, mãe eventual dos pobres pintinhos que nasceriam. A outra, mais ‘light’ é a da Vitamina, na qual um liquidificador mistura tudo numa pasta uniforme, fazendo os ingredientes originais, geralmente frutas ou legumes da estação, perderem inteiramente a, digamos assim, identidade.

Para mim, a mais pertinente é mesmo esta que uso agora, principalmente por causa da certa dose de ironia que ela contém: A Salada Mista. Nela os ingredientes se misturam, partilham algum tempero comum, mas mantêm-se íntegros, apesar de estarem picados em muitos pedacinhos. Acho a Salada Mista uma boa analogia para Diversidade Cultural.

Esta questão, a nosso ver, mãe de quase todas as contradições e conflitos brasileiros, está na discussão sobre as influências exercidas pelas culturas ditas ‘hegemônicas’ sobre culturas ditas mais frágeis (ingrediente principal da xenofobia). Neste ‘conversê’ sem fim sobre preservar ou não preservar a nossa ‘cultura popular’, ainda chamada por alguns de ‘Folclore (esta palavrinha tão vã que mais esconde do que explica o que quer mesmo dizer ‘Cultura do povo’). Está na violência urbana, na contagem de corpos e nas balas perdidas que animam nossos debates cotidianos (afinal, quem morre mais, o favelado trabalhador quiçá traficante ou a classe média trabalhadora quiçá consumidora de drogas?). Está até nas conversas sobre o futuro de nossas crianças (afinal, um negão de 13 anos, com um metro e oitenta de altura merece ou não ser tratado como uma criança?). Está, em suma, contaminando todos os espaços do nosso cada vez mais tenso dia a dia.

O tema, passeando cada vez mais pelas entrelinhas deste nosso site, talvez seja hoje a mais importante questão brasileira: Entender, timtim-por-timtim, a maneira como, dividindo o Brasil em castas raciais se construiu (e se mantêm até hoje) uma das sociedades mais desiguais do planeta e, de como agora, extremamente divididos, porém, perdidos no mesmo ‘mato sem cachorro’, vamos nos livrar da arapuca social na qual, por pura babaquice e egoísmo nos metemos.

A conversa passeia também – e principalmente até- pelas centenas de subterfúgios e ‘panos quentes’ que boa parte de nossa elite bem pensante, a nossa indefectível Academia (ou ‘inteligentsia’, para usar, na falta de outro melhor, um termo já bem arcaico) e mesmo a nossa sociedade como um todo, se utilizam para desconversar, tergiversar e manter as coisas exatamente como estão.

Como estamos falando de gente, de cultura humana, a esta altura deve caber bem a pergunta: Qual receita seria a mais recomendada para conseguirmos (em se tratando de Brasil, é claro), uma sociedade sem conflitos sócio culturais tão violentos? (O garçom mais próximo pode fazer a pergunta : )

_ ‘Omelete, Vitamina ou a Salada Mista, freguês?’

A VITAMINA
Descrevendo as receitas

...”Ao que parece o termo (Democracia racial) foi usado pela primeira vez por Arthur Ramos (1943), em 1941, durante um seminário de discussão sobre a democracia no mundo pós-fascista (Campos 2002). Roger Bastide, num artigo publicado no Diário de S. Paulo em 31 de março de 1944, no qual se reporta a uma visita feita a Gilberto Freyre, em Apipucos, Recife, também usa a expressão, o que indica que apenas nos 1940 ela começa a ser utilizada pelos intelectuais. Teriam Ramos ou Bastide cunhado a expressão ou a ouvido de Freyre? Provavelmente, trata-se de uma tradução livre das idéias de Freyre sobre a democracia brasileira. Este, como é sabido, desde o meados dos 1930, já falava em “democracia social” com o exato sentido que Ramos e Bastide emprestavam à “democracia racial”; ainda que, nos seus escritos, Gilberto utilize a expressão sinônima “democracia étnica” apenas a partir de suas conferências na Universidade da Bahia, em 1943.

(Texto-tese de Antonio Sérgio Alfredo Guimarães -Departamento de Sociologia /Universidade de São Paulo)

Dos anos mais efervescentes do movimento abolicionista no Brasil á década de 30 do século seguinte, uma nova iguaria apeteceu a certa bem apessoada rapaziada: Elegantes em seus librés (logo depois envergando vistosos fraques em conferências internacionais), estes jovens rapazes gritariam em coro para o garçom:

_ ‘A vitamina, senhor! Vitamina para todos!’

É que preconizavam com um empenho falsamente cívico o que de melhor se poderia fazer com os escravos: desaparecer com aquela ‘mancha negra’ transformando os africanos, progressivamente (num processo de cem anos, diziam os mais cartesianos), em seres mistos, nem brancos nem pretos, mestiços (as teorias não explicam se no preparo da receita desapareceriam também os brancos).

A história da tese que ficou conhecida como ‘elogio á mestiçagem’, irmã dileta desta outra tese controversa, a ‘Democracia Racial’ é antiga. Ela esteve muito em voga até os anos 30 do século passado (na verdade ainda hoje é defendida por alguns seguidores). Seus principais formuladores, de uma ponta á outra, foram intelectuais como Silvio Romero, Graça Aranha, Joaquim Nabuco e, já no século 20 também entre outros, o sociólogo oficial do Brasil Gilberto Freyre. Como se sabe, estas paradigmáticas teorias nasceram, pelo menos como conceito, como uma proposta que resolveria o problema gerado por aquela massa enorme de seres humanos negros que o sistema de trabalho escravo arrancou da África e espalhou pelo mundo, uma massa humana liberta por injunções muito mais econômicas do que humanitárias e, portanto a boca pequena considerada ainda pouco mais que escória.

Lentz, um dos personagens centrais do livro Canaã de Graça Aranha afirma a certa altura:

_”O homem brasileiro não é um factor do progresso: é um híbrido. E a civilização não se fará jamais nas raças inferiores” (…) “Não acredito que da fusão com espécies radicalmente incapazes resulte uma raça sobre que se possa desenvolver a civilização. Será sempre uma cultura inferior, civilização de mulatos, eternos escravos em revoltas e quedas. Enquanto não se eliminar a raça que é o produto de tal fusão, a civilização será sempre um mistério, o artificio (…) Até agora, não vejo probalidade da raça negra atingir a civilização dos brancos”.

Ao Milkau, o personagem antagonista contrapunha, fazendo o seu ‘elogio da mestiçagem’:

_”O tempo da África chegará. As raças civilizam-se pela fusão; é no encontro das raças adiantadas com as raças selvagens, que está o repouso conservador, o milagre do rejuvenescimento da civilização “(…) Eu tenho para mim que o progresso se fará num evolução constante e indefinida”

O mito do homem mestiço: Eis aqui o que parece ser enfim a chave de tudo para esta corrente de pensamento. A quem interessaria tamanha utopia? A inexistência total de diferenças biotipicas ou (‘estético-raciais’) seria cientificamente possível? A simples padronização ‘racial’ das pessoas removeria, num passe de mágica, as diferenças sociais? Se não, para que serviria então?

É preciso, contudo, situar a questão em seu devido contexto histórico porque, se no campo da precária biologia do século 19, se considerava cabal a existência de superioridade racial entre seres humanos (que justificaria a assimilação – ou a diluição – de uma raça pela outra), hoje até o próprio conceito absoluto sobre a existência de raças humanas está superado. Assim, propor ou sugerir a ‘mestiçagem’ como solução para tão candente problema social, não era naquela época, uma idéia tão absurda assim. Menos mal.

É nesse contexto que devem ser considerados, por exemplo, certos aspectos bem sucedidos da sociologia de Gilberto Freyre (o que não deve redimir, de forma alguma, a perniciosidade e os equívocos clássicos de sua ideologia)

O OMELETE
(Pobres dos pintinhos)

Assim, ali por volta de 1930, 40, alguns europeus de bigodinhos, reunidos numa mesa ao fundo, ao serem inquiridos pelo garçom responderiam excitados:

_’Omeletes, senhor!’ De sobremesa, Vitaminas!’

É que para uns não havia jeito melhor de melhorar a raça humana do que separar os espécimes ‘superiores’, os ‘puro sangue’, os de ‘pedigree’ e desaparecer com o resto, inclusive os ‘vira-latas’, transformando a ralé em torrada, num forno crematório qualquer.

Para outros contudo, o desaparecimento dos ‘inferiores’ deveria se dar por meio de métodos mais científicos ou ‘humanitários’: Um liquidificador genético resolveria o problema. Um projeto que, como veremos a seguir, não tinha mesmo nada de científico (e muito menos de humanitário).

(Aqui, antes de tudo, uma necessária afirmação de firme e ampla discordância diante dos partidários da Vitamina ou da Mestiçagem. É preciso – me permitam – fazer uso da ênfase nesta hora, á este ponto de uma questão que é por razões óbvias, crucial).

Frisemos que o contexto onde atuaram Gobineau, Lombroso, Chamberlain, Nina Rodrigues e, porque não dizer, Gilberto Freyre, foi o mesmo que gerou as teorias nazistas na década de 30. Não foram idéias apenas ‘simplificadoras’ ou ‘evolucionistas’. Foram idéias profunda e claramente interessadas em criar um novo paradigma de civilização, um método ‘científico’ para a classificação e a sujeição de pessoas, num novo ambiente geopolítico denominado Colonialismo.

Apenas para exemplificar o alto grau de assumida perniciosidade destas idéias, basta citar o trabalho militante do próprio Gilberto Freyre, no final da década de 30 do século 20, a serviço do governo ditatorial de Antonio de Oliveira Salazar, como um dos ideólogos que contribuiu para a criação e a implantação de um sistema institucional de controle e subjugação das populações das colônias de Angola, Moçambique e Guiné Bissau e Príncipe denominado ‘Lei do Indigenato’, código similar aquele engendrado pelos africâners, na África do Sul, que dispensa comentários: o insidioso ‘Apartheid’.

O antropólogo angolano José Maianga, em texto publicado pela Revista afro-lusitana África, a este respeito nos esclarece cabalmente o seguinte:

“O indigenato, institucionalizado pelo regime salazarista (‘Estatuto dos Indígenas Portugueses das Províncias da Guiné, Angola e Moçambique’) era um diploma aplicado apenas às situações jurídicas dos indígenas africanos num país que, constitucionalmente, se dizia subordinado ‘à moral ao direito e às garantias e liberdades individuais’. Este diploma traduzia, sem dúvida, a sujeição plena dos africanos ao colonizador e a uma prática assimiliacionista que se afundava no mar de contradições por onde navegava…”

…” repudiada a prática assimilacionista, Portugal engendrou, então, uma nova fórmula, o integracionismo, teoria baseada no luso-tropicalismo do sociólogo brasileiro Gilberto Freyre e que, não era mais do que a forma capciosa que o regime colonial usava para esconder o verdadeiro assimilacionismo.”

As afirmações não são de forma alguma novas. Alguns estudiosos estão no momento fazendo uma ampla revisão da obra de Freyre neste mesmo sentido. As idéias originais dele no entanto, impregnadas em quase tudo que se escreveu sobre o negro – e os pobres- do Brasil -, estão infelizmente, ainda em voga por aí e, o que é pior, defendidas por novas teorias e embasamentos que tentam afirmar Freyre como uma espécie de gênio mal lido e incompreendido.

Não é possível portanto, entender os processos de evolução da cultura brasileira, por exemplo, dissociando-os deste contexto sombrio que o cineasta Ingmar Bergmam, muito apropriadamente chamou num filme clássico de “O Ovo da Serpente

No Haiti não existem ‘brancos’. Lá, a classe média ‘mulâtre’ oprime os ‘mais’ negros. O nazismo separava pessoas absolutamente brancas e as mandava á morte, baseando-se em diferenças físicas cosméticas: um nariz mais adunco, olhos pretos, etc. Claro que racismo não tem nenhum fundamento ‘científico’ ou ‘biológico’. Se baseia em pretextos, desculpas esfarrapadas.’Mitos’ em suma. Um cuidado que deve ser observado por todos que se dedicam a este assunto.

Ingênuas, marcadas talvez por certa dose de crueldade e frieza sim mas, de modo algum absurdas para a época, as propostas que animaram os sociólogos da primeira metade do século perderam a força exatamente quando se soube o que de fato elas representavam: Grosseiros equívocos. É isto que torna mais surpreendente o fato de existirem ainda hoje correntes de pensamento defendendo propostas semelhantes no Brasil, em pleno século 21, quando a panela de pressão da nossa conturbada sociedade já apita o sinal óbvio que diz:

_‘Cuidado! Abra a válvula que estamos prestes a explodir’.

A SALADA MISTA
e a sabedoria dos gibis

Há também, pode se observar embutida na argumentação, uma forçada e esdrúxula associação entre ‘nacionalismo retrógrado’ (de novo a xenofobia) e a ‘admissão de que há racismo no Brasil’. Admitir ou sugerir com um pouco mais de ênfase a existência de racismo no Brasil seria um comportamento ‘ultrapassado’, ‘de modè, expediente muito usado como uma – muito eficiente inclusive- tática para se desqualificar discursos antagônicos.

Esta questão, aliás, traz á luz o que parece ser o segundo eixo da questão: Afinal, porque será que em certos setores de nossa ‘inteligentsia’, se nega tanto e de forma tão estranhamente peremptória (com argumentos tão mal fundamentados), a existência de racismo no Brasil? Existiriam intenções nessa negativa tão insistente?

Negar a existência do monstro, todo mundo sabe, não vai jamais matar o bicho.

É preciso aprofundar também outros aspectos cruciais do racismo brasileiro (na verdade de todos os racismos). O fato de cientificamente não existirem raças não significa que não exista racismo. Não é um argumento pertinente nem mesmo aceitável. Vamos combinar, francamente: Racismo é um estúpido instrumento de dominação social, uma praga da humanidade. A sociedade brasileira é altamente excludente, certo? Não é preciso ser uma sumidade acadêmica para identificar qual é o instrumento de exclusão mais eficiente utilizado por aqui. Bingo para quem disser Racismo.

E vamos acabar também com esta falsa dicotomia: Problema Racial e Problema Social não são conceitos opostos ou divergentes. Um é a carne, o outro é a unha. Um não poderia, de modo algum, existir sem o outro.

Para qualquer um que sofre racismo ‘na pele’ fica evidente que o racista usa apenas um pretexto covarde, para discriminar: É fácil: Basta destacar uma diferença biológica qualquer e subestimá-la, demonizá-la, impondo uma marca, um estigma para identificar os portadores daquela suposta ‘deficiência’. O fisicamente diferente é declarado inferior e pronto. Do ponto de vista de quem quer discriminar, dependendo de seu interesse, ‘negros’ serão portanto, todos aqueles que, visivelmente, não se parecerem com ‘brancos’. No exercício da discriminação não existem ‘mulatos’, ‘mestiços’, ‘pardos’, todos são’ marrons’, inferiores, não por terem este ou aquele tom de pele, mas porque ‘não são brancos’. Ponto

Quando em minoria, no entanto, diante de algum interesse, alguma vantagem a ser obtida junto aos ‘marrons’, a hierarquização das ‘cores’ passa a ser muito proveitosa para a ‘raça’ hegemônica (a que está no poder). Pura política. A história humana está cheia de estratagemas como estes, nos quais com a finalidade de obter vantagens junto a um grupo estranho, nos associamos a um amigo ‘nativo’. É uma prática recorrente demais para não ser notada. Até mesmo nos saudosos gibis da infância de alguns de nós o arquetípico estratagema aparece.

Quem não sacou isto na função dramática do índio ‘Tonto’, amigão do Zorro norte americano ou na fidelidade á toda prova do gigante ’Lotar’, guarda costas do Mandrake. Quem não notou esta solidariedade esperta, interessada, no olhar do Fantasma, ‘Espirito- Que- Anda’ para o pigmeu Guran, seu fiel aliado, do alto do seu trono na caverna da caveira?

Descontando a paranóia nacionalista de alguns, no âmbito de nossa cultura contemporânea isto pode estar ocorrendo também com alguma freqüência. Você louva, aprende, assimila e pratica a cultura que um dia foi exclusiva (não que o pobre coitado quisesse se isolar) do negro ou do índio, do nordestino – tanto faz- mas não se importa muito que ele permaneça ad infinitun socialmente excluído, lá ‘no morro’, na selva ou no sertão. No processo você aprende a fazer Samba, Maracatu, a tomar chá do Santo Daime e a ficar doidão sem culpa. É bom. É politicamente correto. Dá a você um certo charme democrático, uma espécie de certificado de ‘responsabilidade social’ mas, e daí?

O problema é que ‘Ele’, o ‘Outro’, continua lá no seu canto, estressado de carências, fazendo o seu Funk pesadão. Cria-se assim (colocando os não brancos todos no mesmo saco) uma espécie de ‘Cultura negra sem negros’ e a gente não sabe muito bem no que isto vai dar. Se o cara não ficar rico fazendo Hip Hop, pode um belo dia dar um tiro em você.

Se for mesmo, como julgamos, além de uma mistificação cultural, uma impossibilidade genética em termos (não existem raças humanas, lembram-se?), A Mestiçagem, como conceito democratizador não passa mesmo é de um cruel sofisma. E esta tem sido a lógica do Sistema de castas ‘raciais’ no Brasil.

Todas as receitas de democracia racial (com ou sem eufemismo) em voga atualmente contêm um mesmo e azedo ingrediente, um mal crônico que lhes tira todo o sabor: Redistribuem valores culturais, garantindo a um certo grupo certas vantagens deles advindas, sem mudar as pessoas de lugar na pirâmide. Os que possuem quase tudo passam a possuir mais ainda. É a lógica fria de nossa elite predadora. A lei do mais forte. Qual é a novidade nisto aí?

(Agora, sem maniqueísmos, por favor)

Todo mundo sabe que este comportamento não é uma coisa assim percebida, exercida individualmente mas, é um procedimento, praticado pela grande maioria dos ‘brancos’ do Brasil, diariamente, muitas vezes até de forma ingênua, um comportamento padrão, arraigado, especializado por séculos de prática.

E saibam também que não é uma coisa fácil de extirpar não. É exatamente este o conteúdo subreptício, a essência de conceitos como a chamada ‘democracia racial’ e seus sucedâneos: dar sustentação, argumentos, justificativa teórica para esta deslavada contradição.

(Cabe aqui inclusive duas perguntinhas pra lá de capciosas: Ao propor a miscigenação geral como panacéia para os males do Brasil, da mesma forma que o ‘negro’, o ‘branco’ também desapareceria? Propor assim, de forma tão efetiva o desaparecimento de uma ou de outra ‘raça’ não é, classicamente, o mesmo que exercer racismo?)

Teorias… Um perigo latente para qualquer democracia, ainda mais a nossa que está patinando em sua reconstrução.

Como sempre – e pra finalizar- o melhor é dizer isto tudo com um Samba.

“Todo mundo era bom
todo mundo era legal
lá só dava gente bem
madame e fulano de tal
quando no meio da festa
reclamei com o Samuel:
Você diz que esta gente é honesta?
Já roubaram meu chapéu!

Não fico mais
em sua casa ô Samuel
aqui só tem eu de preto
mas não faço este papel

Não fico mais
em sua casa ô Samuel.
Você vai pagar meu chapéu”.

(Samba muito popular nos anos 70)

Spírito Santo, 2007

http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/2.5/br/