Galdino e o quarto escuro


Creative Commons License

Todo o conteúdo deste blog está assegurado por uma licença Criative Commons

Não é, confesso, mas bem que este poderia ser Galdino Cabinda

Não é, confesso, mas bem que este poderia ser Galdino Cabinda

O inferno do escriba é aqui

Parece o céu de uma vida vivida só na flauta, mas escrever – com perdão da palavra – é phoda.

Escrever sobre o que? Me digam. Para quem? Publicar, difundir onde? E como? Deus do céu! Só mesmo sendo como eu que escrevo por vício, na compulsão franco-atiradora de pelos cotovelos sair dizendo as coisas que me vem à telha, com a mais sincera das emoções.

Existem uns macetes que a gente aprende às turras com as páginas em branco, nas surras do dia a dia: O ofício, mesmo aos diletantes, exige alguma dose de pragmatismo sim. Aprendi isto escrevendo umas poucas peças e roteiros para teatro e cinema, linguagens rígidas, cheias de filigranas técnicas e rubricas.

Existiria algo mais virtual e louco do que escrever tão meticulosamente, apenas supondo que alguém, um belo dia, vai dispender tempo e – com de novo o perdão da palavra – saco de ler uma história já toda formatadinha para ser encenada num palco ou filmada por muitas luzes, câmeras e atores, escrita pelo ilustre quase desconhecido que é você? Pura piração, não é não?

Foi por isto que, cansado de ver gavetas e HDs cheios de calhamaços de papéis e bits de histórias formatadas nesta ou naquela linguagem arrumadinha, decidi simplesmente contar histórias como aqueles contadores comuns contam, coloquialmente, como ao pé de uma fogueira quentinha, para todo mundo entender.

Daí – que alívio!- o problema passa a não ser mais meu. Quem quiser achar que a história se parece mesmo com um filme ou com uma peça de teatro que me convença ou que monte ou imagine na sua própria cabeça as imagens que lá bem entender.

Então é assim: É bem isto que este argumento como todo argumento é: Um filme imaginado, sugerido, olhado pelo velho diafragma de uma máquina fotográfica caixote, das antigas, querendo falar das fotos que jamais foram feitas de um – por isto mesmo-  invisível êxodo de escravos da servidão da roça para a rebeldia da Corte do Rio, da tontice mais épica do eito para a esperteza do Ganho na cidade grande (e isto tudo com graça e propriedade) num cenário de manguezais exuberantes, num século 19 em que uma natureza vizinha  e tão conhecida da gente do Rio – a baía da Guanabara, hoje degradada como que – emoldurava uma história de um Brasil escravista que foi o que foi como teima ainda ser.

É tudo mentira, certo? Tramas inventadas, mas se quiserem, simplesmente imaginem que foi assim tim tim por tim tim e se divirtam sem culpa.

Galdino e o quarto escuro

Argumento cinematográfico para um eventual longa metragem

Por Spirito Santo

Rio de Janeiro, entre 17 e 20 de Maio de 1888. Encarcerado, justo quando todos os escravos acabavam de ser libertados pela lei Áurea, sob severo interrogatório na Casa de Detenção da Corte, acusado de ser um rebelde quilombola, o negro ‘de ganho’ Galdino Cabinda, vai desembuchando a história de como, justo ele, tão sabido quanto despachado, apesar de completamente inocente, foi se envolver numa enrascada cabeluda como aquela, cujo desfecho, como saberemos adiante, deu no que deu.

Entre respostas sinceras ou mentirosas (arrancadas sob pancada no interrogatório) e coisas que ele fala simplesmente porque quer falar, iremos nos dando conta da complicada rede de circunstâncias que fizeram de Galdino Cabinda o personagem central desta história.

A história – na qual não há mesmo jeito de se distinguir o que é verdade do que é mentira – pode começar na Europa, mais precisamente em Lille, França, onde num certo dia de Março de 1888, fim de inverno, o jovem “photógrapho paizagista” Jean-Phillippe Brumeux, impressionou-se vivamente com as litografias publicadas num luxuoso livro, baseadas nas imagens do seu  conterrâneo, o grande Victor Frond, que andara produzindo belas fotografias de escravos nas fazendas de café da região do Vale do Paraíba o Sul, na província do Rio de Janeiro.

Estimulado também pelas idéias libertárias de Frond – que fora um fervoroso ativista  republicano – Jean Phillippe viaja para a Corte brasileira, afim de ganhar algum dinheiro fotografando autoridades e figurões do Império e, ao mesmo tempo, documentar a dura vida dos escravos na Corte.

Logo que chega ao Rio, Jean Phillippe procura Louis Jacques Dapaix (uma alusão ao nome de um dos precursores da fotografia, Louis Jacques Daguerre), o dono de um estabelecimento que aluga equipamento fotográfico e teria sido recomendado à Jean Phillippe por um amigo de seu pai.

Influenciado pelas notícias de turbulentos incidentes que ocorrem na província vizinha á Corte nesta ocasião, ele decide mudar radicalmente seus planos, deixando o negócio de retratos para mais tarde, a fim de partir direto para o interior, ao encontro das turbas de escravos que,  segundo aquelas mesmas notícias, se encaminhavam em êxodo para á Corte.

Necessitando de um escravo para alugar, Jean Phillippe conhece numa bodega da Corte o bem falante (e já nosso conhecido) ‘negro de ganho’ Galdino Cabinda que aceita a função de guia e  carregador.

Galdino sugere a Jean que rumem para a cidade de Nossa Senhora do Pilar, onde ele conhece a portuguesa Maria da Luz Müller, 40 anos, mais conhecida como Maria ‘Mula’, uma ex prostituta mulher do comerciante cego Rui do Serro D’Alferes, seus antigos senhores, que poderiam  hospedá-los.

A cidade fica na baixada que separa a Corte do interior da província, próxima a fazenda do  Barão de Iguaçu e as terras dos monges beneditinos, onde existe, num vasto manguezal coberto de pântanos e uma intrincada malha de rios e córregos, o até então invencível Quilombo do Bomba, conhecido também como Quilombo de Iguaçu.

É, pois Galdino, quem narrará em flashbacks distribuídos ao longo do filme, a história toda, de Jean Phillippe a Rui D’Alferes, de Maria Mula e até de si mesmo, a partir dos dados á seguir:

Rui Amancio do Serro D’Alferes, comerciante brasileiro, cego, 55 anos, havia sido um grande distribuidor de cachaça e fumo de rolo em Ouro Preto e veio para a Corte tentado a implantar o mesmo negócio por aqui. Se esbordoou por conta da concorrência com uns padres  capuchinhos, que monopolizavam este comércio na Corte.

Foi por isto que resolveu entrar para o negócio da lenha, se mudando para as bandas do Nossa senhora do Pilar nas vizinhanças do Rio Sarapuí. Não foi muito bem, a princípio mas, com o aumento das fugas de escravos e o crescimento dos quilombos na região, não conseguindo competir com os contrabandistas de lenha, decidiu mancomunar-se com eles, atividade na qual Galdino foi muito útil, como intermediário.

Assim foi que, apesar de o ser vias tortas, Rui D’Alferes ficou rico. O grande azar do cego eram os ardis pensados e perpetrados por sua esposa Maria Da Luz ‘Mula’, mas disso ele nada soube até morrer, atropelado por um tílburi, na porta do seu armazém.

Maria Da Luz ‘Mula’ conheceu Rui Amancio ainda na Corte. Ele, muito prestativo, sempre se oferecia para levar a meretriz até o sobrado onde ela vivia, perto do Campo, tarde da noite, quando terminava a ‘viração’. Ela, uma teuto-portuguesinha faceira, neta de um suíço cristão novo, que fugira de Lisboa no tempo da inquisição (o Mula vinha de Müller, sobrenome suíço dela, mas o povo maldoso dizia que vinha mesmo era do fato de haver sempre alguém  montado em cima dela).

Tão prestativo Rui era que Maria ‘Mula’ acabou largando a vida ‘fácil’ para encarar a vida mais fácil ainda, de se casar com ele. Passou a ajudá-lo no armazém, controlando cada vintém que entrava dizendo que com o espírito regrado dela, o casal ficaria mais rico ainda. Só não controlava mesmo as recaídas de ‘mulher da vida’ que tinha, sempre que algum garanhão conhecido ou mais audacioso, se aproveitando que o ceguinho não percebia nada, passava a mão nela ou a atentava com olhares libidinosos. Foi numa dessas que conheceu Galdino o  negro de ganho que, alugado por Rui para ser caixeiro, acabou mesmo foi se encaixando nas graças dela, que parou de vez com as escapulidas com qualquer um, para ser só dele, do  Galdino (e do ceguinho, é claro).

Assim foram também fazendo filhos, que se juntaram aos filhos do ceguinho (os dois que saíram com o cabelo duro de Galdino, viviam com as cabeças raspadas). Cercavam o mais velho dos filhos do ceguinho de cuidados para ele não chamar a atenção do pai. Tinham medo dele perguntar em voz alta que história era aquela de haverem dois irmãos pretos e dois brancos na família, se Rui e Maria eram brancos de dar pena. Neste suspense, não viam a hora de fugir logo dali.

Galdino, partilhando com Maria ‘Mula’ a cama e a mesa, não demorou muito a descobrir que ela desviava dinheiro do marido. Ela não teve mesmo outra saída senão se acumpliciar com ele, para poder continuar a roubar o ceguinho em paz, de grão em grão.

O ceguinho no entanto, um belo dia, descobriu o sumiço do dinheiro pondo tudo a perder para os amantes. O único jeito foi Galdino fugir para não ser preso, assumindo sozinho a culpa pelo furto.

—————

Ao sugerir ao francês o destino de Pilar, Galdino pretendia aproveitar a viagem para se   reconciliar com Maria ‘Mula’ que, agora viúva, poderia recebê-lo, desta vez até como uma  espécie de marido de fato, franqueando-lhe, evidentemente, a parte que lhe cabia do furto já que ele, por conta da abolição eminente, em breve não seria mais um escravo fugido.

Mas antes disso tudo ser revelado, em viagem interior á dentro, junto com Galdino, Jean  Phillippe consegue recolher, principalmente no trecho entre Inhaúma, (quase na Corte) e Irajá e Pavuna (no limite com a região da baixada), uma série de flagrantes do êxodo de escravos para a Corte e do desmoronamento do sistema de trabalho escravo. Entre outros fatos – todos  inteiramente inventados – os seguintes podem ser inseridos no roteiro:

Uma família desgarrada (homem e esposa com filhos pequenos procurando outros dois filhos adolescentes) tenta se reestruturar no êxodo. Vão se encontrando durante o trajeto do filme.

Um dos filhos desgarrados integra a tropa de quilombolas que se verá no filme. Ao ser fotografado por Jean, o rapaz conta que fugiu e ingressou no quilombo depois que o filho do senhor o esbofeteou na frente da mãe que, ao defendê-lo, foi esbofeteada também. Ao ver a foto da família, mostrada por Galdino, o menino pousa a espingarda no chão e surpreso, chora.

Um soldado mulato, quase branco, integrante da tropa que patrulha a estrada em busca de quilombolas e bandoleiros, pergunta, discretamente, aos passantes vindos do Pilar, se  conhecem uma escrava chamada Altamira, que lhe disseram ser sua mãe e que seria escrava de uma das fazendas das redondezas.

Vez por outra grupo de soldados a cavalo persegue e subjuga um escravo entre os que seguem no êxodo, que acusam ser um quilombola. No trajeto do êxodo, escravos maltrapilhos,  perseguidos são vistos escondidos em grotões da estrada.

Grupo de escravos que carrega numa carroça legumes, aves e hortaliças, para uma fazenda próxima da estrada, é atacado por mulheres e crianças da turba faminta. O escravo que conduz a carroça espanta o cavalo com a carroça para os lados da fazenda. Cavalo desembestado tropeça e cai, carroça cai sobre ele que estrebucha e morre. Turba saqueia os legumes, as aves e as hortaliças.

Quase noite, grupo de escravos famintos destrincha o cavalo morto na estrada. Num acampamento noturno, com a carne do cavalo sendo assada, escravos dançam e cantam em roda em torno de uma fogueira.

Um escravo, excitado, conta para todos da roda, em detalhes e de modo engraçado, como perseguiu por semanas e, por fim, matou o capataz que o atormentara anos á fio.

Escravos que carregavam a carga saqueada choram, temendo ser castigados pelo senhor que dizem ser muito severo, por causa da perda dos víveres e a suposta fuga. Galdino e Jean Phillippe, sensibilizados, se comprometem então em seguir com os escravos até a fazenda para, como era prática na época, ‘apadrinhá-los’ (testemunhar a seu favor).

—————

Seguindo o grupo de escravos, Jean-Phillippe e Galdino chegam ás terras do fazendeiro  Merenciano D’Alencastro e Manso, o barão de Massarambá, um ferrenho escravista que  desconfia que os estranhos são ligados aos abolicionistas. Galdino o convencerá de que o francês trabalha na verdade para ’O Redemptor da Nação’ um jornal pró-escravista da Corte, envolvido numa campanha de apoio a fazendeiros que como Merenciano estão prestes a falir com a abolição.

Assim, Jean Phillippe conseguirá registrar o dia á dia da fazenda. Muitas fotos do fazendeiro, de sua família e de seus escravos serão produzidas nesta ocasião. Durante as longas seções de fotos, com imagens narradas em off, Merenciano contará para Jean Phillippe as melhores partes de seu passado, a partir de, entre outros, os dados seguintes que são, como os anteriores, inteiramente inventados:

Hoje já velho e acabado, o senhor de escravos, Merenciano Augusto D’Alencastro e Manso,  Português de 65 anos se tornou barão de Massarambá porque certa feita, há uns 20 anos atrás, mandou servir água fresca, bolo de milho, refresco de lima, café, pudim e outras iguarias, para a comitiva do Imperador que, por acaso, para descansar do sol inclemente, estacionou num caramanchão de suas terras, longe da casa grande (o imperador não quis ir até a casa, apesar da insistência de Merenciano). Na ocasião D. Pedro II foi recepcionado por um grupo de lindas mucamas, mandadas pelo fazendeiro num carro de boi enfeitado com folhas de palmeira, com um convite escrito num bilhete além de vistosas bandejas onde as escravas levavam os acepipes.

—————

Nos dias que se sucedem á chegada de Jean Phillippe e Galdino, engrossa o fluxo de escravos retirantes que passa pelas terras de Merenciano. Engrossam também os grupos de quilombolas, com a adesão de muitos escravos que não tem para onde ir. O clima da fazenda vai ficando, por isto, cada vez mais tenso. Os escravos de Merenciano se dividem entre os que querem ficar na fazenda e os que querem fugir para a Corte ou mesmo se juntar aos quilombolas.

Um grupo de Quilombolas, mancomunados com escravos aliados, invade e saqueia a fazenda de Merenciano, levando consigo tudo que julgam ser de valor, inclusive o equipamento e o   material fotográfico de Jean-Phillippe. A caixa com as chapas que registram esta parte da viagem vão junto no botim. A polícia só chegou no dia seguinte.

Jean-Phillippe e Galdino não tem outra alternativa senão seguir para a área onde os Quilombolas se homiziam, para negociar o resgate do material. Valem-se da experiência de Galdino que,  como todo ‘escravo de ganho’ que atuou na região, conhece as trilhas e os córregos que levam aos esconderijos dos quilombolas. São interceptados no caminho por sentinelas e levados  presos para a sede do quilombo, numa ilhota remota e quase inacessível, no centro do  manguezal.

Remexendo na bagagem de Jean-Phillippe os quilombolas já haviam encontrado as chapas  fotográficas. Fascinados com as imagens, já as haviam levado para Manelão Kakumbe, o líder do quilombo que, mais fascinado ainda, logo que fica sabendo que o branco de fala enrolada era o autor das imagens, exige como condição para libertá-los, que Jean-Phillippe continue com eles para registrar a vida do Quilombo.

Manelão Kakumbe e Galdino se reconhecem de antigas transações e acabam se tornando bons amigos. A história do chefe quilombola, vista também em imagens de flashback, será contada por ele mesmo em conversas com Galdino:

Manelão Kacumbe escravo fugido da fazenda vizinha a de Merenciano, era assim apelidado porque dançava muito bem nos cacumbis que rolavam na fazenda, no tempo em que era escravo.

Ferreiro muito experiente, Manelão chegou com 15 anos no Brasil, vindo de Angola. Filho de um outro ferreiro, lá na África, já chegou aqui sabendo um pouco do ofício, o que fez com que ele conseguisse, rapidamente uma boa ocupação na fazenda, gozando de relativa liberdade, indo e vindo entre a fazenda da qual era escravo e a outra, vizinha, pertencente ao Barão Merenciano, para o qual, sempre que seu senhor autorizava, também prestava serviços.

Foi num desses serviços para Merenciano que Manelão se feriu na mão. Na hora de testar a peça de ferro que consertara, um dos burros da parelha que puxaria o monjolo, aferroado por um marimbondo, assustado desembestou, fazendo a engrenagem do monjolo esmagar parte da mão de Manelão (que, para esconder a mão mutilada, usa uma espécie de luva feita de couro de lagarto).

O capataz Felisberto Munhambano, havia percebido que o marimbondo poderia picar o cavalo. Foi ele quem estalou o chicote para espantar o animal e livrá-lo da ferroada. Manelão, cego de dor com a picada, julgou que o capataz (com o qual já tinha uma rixa antiga) havia assustado o cavalo de propósito, para feri-lo.

Penou muito se restabelecendo. Amargou a perda do serviço especializado que fazia para encarar pilonagem de café e roçado, até conseguir fugir da fazenda.

A rixa de Manelão com Felisberto é por causa de Mariinha Crioula, que fora sua, por algum tempo, mas que, assediada por Felisberto com a promessa de ajudar a alforriá-la, acabou trocando Manelão pelo capataz.

Mariinha Crioula, 25 anos, mulata, é exímia bordadeira que vive dentro da casa grande como escrava doméstica, desde que nasceu. Muitos na fazenda afirmam, a boca miúda, que ela é filha do Barão Merenciano, porque, de outra maneira, ficaria difícil explicar como ela, tão voluntariosa e impertinente que é, consegue manter tantas regalias. A história dela com Manelão dá bem a medida de seu caráter:

Assim que ela se fez crescidinha, ali pelos 15 anos, se muito, dos homens da fazenda, o mais vistoso para ela foi logo sendo Manelão que, a esta altura, já tinha lá os seus 25. Além de vistoso, sendo o melhor ferreiro das redondezas, Manelão era o mais bem colocado escravo da fazenda. Pois foi justo por isso que ela deu seus olhares mais oferecidos, até fisgar o bruto.

Felisberto Munhambano apareceu logo depois, vindo da fazenda do Barão de Iguaçu. Era moreno feito um índio, cabelo liso escorrido, porque vinha da costa de Moçambique, onde existem negros assim, misturados com indianos. Foi comprado por alto preço (cerca de $800.000,00, ela pode ouvir, detrás de uma porta) e logo se viu, pelas botas que ele usava, pelo jeitão arrogante que tinha, que já viera acertado para ser feitor, capataz.

Ninguém sabe dizer ao certo se foi Felisberto que assediou Mariinha ou se foi ela que arrastou as asinhas para ele. O certo é que, logo ela enjoou de Manelão e se bandeou para o capataz, acabando por se amasiar com ele. Manelão não se conformou jamais. Achando que a culpa era mesmo do capataz, tomou uma pinimba sem tamanho dele que, por sua vez, com a autoridade que lhe conferia a função, não perdia tempo para espicaçar o ferreiro, não deixando passar um deslize sequer, se não houvesse deslize, Felisberto inventava, fazendo questão de contar para o Barão tudo de errado que Manelão fizesse, por menor que fosse o erro. Viviam assim, feito gato e rato mas, ainda sem o ódio que só explodiu no dia do acidente.

No dia em que decidiu fugir, Manelão ainda tentou levar Mariinha consigo mas ela não quis, de jeito nenhum. Além do mais, Felisberto atravessou o seu caminho. Antes de desistir dominado pela frustração e pelo ódio Manelão ainda tentou matar o capataz com um ancinho, mas Felisberto, apenas ferido, escapou.

Por tudo isto, o que Manelão Kacumbe mais queria agora era que Maríinha o visse assim, poderoso de novo, chefe quilombola com o baú cheio de ouro e de contos de réis. As placas de retrato de Jean Phillippe se prestavam muito bem pra isso. Pena que a cara dele, do comandante de tudo aquilo ali, não pudesse ser revelada jamais. Pudesse…

De tão feliz, seria até capaz de não matar Felisberto. Capava-o apenas e pronto, se dando por satisfeito.

————–

Precisando de material fotográfico sobressalente, Jean Phillippe consegue que Manelão  Kakumbe autorize a ida de Galdino á Nossa Senhora do Pilar para encomendar o que falta e esperar o material chegar da corte.

Em Pilar, Galdino encontra enfim Maria Mula que, já sem dinheiro algum, lhe implora para seguir para o quilombo com os filhos. Galdino diz que isto não é possível, de jeito nenhum, deixando a mulher injuriada. Jean Phillippe, na volta de Galdino que se mostra um eficiente assistente, faz muitas imagens do grupo de quilombolas, registrando até algumas incursões de guerrilha contra comerciantes inimigos. A amizade entre Galdino e Manelão Kacumbe acaba sendo de muita valia também neste caso.

Não se conformando com a recusa de Galdino em levá-la com ele e se aproveitando da comoção causada na cidade pela última incursão dos quilombolas, Maria ‘Mula’ resolve denunciar para a polícia a localização exata do pouso atual dos quilombolas, sobre o qual Galdino, troncho de bêbado da noitada de cama e vinho que tiveram em Pilar, contou e recontou com todos os detalhes.

Manelão Kakumbe e Galdino Cabinda, no alto do morrinho do qual se descortina a baixada  verde, tomada pelo mangue e a malha de córregos, discutem, acaloradamente.

Galdino diz que não. Manelão diz que sim, que vai retirar de dentro daquela caixa preta o registro do seu rosto, feito a sua revelia por Jean Phillippe. É que se a sua foto chega ás mãos da polícia, acaba o seu sossego de andar livre pela região, incógnito.

Manelão sacode a caixa como um louco e é repreendido por Galdino que cuida da tralha do francês como se fosse sua. É quando os tiros, a revoada de pássaros e uma lufada de fumaça subindo das árvores, fazem com que eles larguem a câmera ali mesmo, no chão para correr. Galdino, ciente de suas obrigações volta para pegar o material.

Descem o morro em desabalada carreira para se juntar ao resto do grupo onde já está Jean Phillippe. Entram nos botes escondidos na vegetação do mangue e partem em fuga, se  espalhando pelos córregos, soltando impropérios e respondendo ao fogo com tiros, flechas e lanças.

É que, em vez de o ser somente pela a polícia, o manguezal está sendo atacado, de surpresa, por tropas da Guarda nacional, vindas da Corte. Durante as escaramuças (uma desabalada fuga de botes cruzando córregos e sendo espingardeados), o bote onde estão Jean e Galdino, bate numa raiz do mangue e tomba, fora da vista dos soldados.

Meio mergulhados no limbo, Galdino e Jean conseguem salvar a caixa de fotos e o equipamento e deslizam na água em silêncio, quase sem respirar. Mas o escravo, que é quem carrega a caixa, acaba sendo surpreendido e golpeado na cabeça por um soldado de um grupo que estava emboscado num canto do mangue.

Dos males o pior pois, é aí que o infortúnio acontece: A caixa com todas as chapas fotográficas que registravam a viagem, cai e afunda na lama do fundo do pântano.

A maioria dos rebeldes escapa, desaparecendo rapidamente pelas curvas dos córregos. Misturado aos poucos negros que são capturados, Galdino, acusado de ser quilombola, é

levado para a Casa de Detenção da Corte de onde como sabemos, em depoimentos à polícia, nos dará conta de todos os traços da história.

História transcorrida, vida seguida. Também ferido nas escaramuças Jean-Phillippe só fica  sabendo da sorte de Galdino quando chega na Corte. Tendo que insistir muito com a polícia para testemunhar a favor dele, Jean só consegue libertá-lo alguns dias depois. É que, segundo a polícia, Galdino não estava colaborando muito com as investigações, que visavam descobrir a identidade do bandoleiro que, a depender dele, eles jamais sonhariam que se chamava Manelão Kakumbe.

A volta de Jean-Phillippe para a Corte e o reencontro com Galdino, se dará entre os dias 17 e 20 de maio de 1888 (quando ocorre uma grande festa popular na Corte descrita por Robert Conrad) A idéia é acabar o filme durante esta festa, a alegria das ruas contrastando com a desilusão de Jean-Phillippe (que voltará para a França com as mãos abanando) e Galdino (que ficará por aqui, ao Deus dará).

Maria ‘Mula’ – agora famosa também como alcaguete de quilombolas, com tantos fugitivos á solta pela região – ganhou dinheiro da ‘verba secreta’ da ‘4a seção’ da polícia e escafedeu-se no mundo mais os filhos (um dia, quem sabe, Galdino não encontra os que são dele por aí?)

O disparar de um flash de pólvora revelará o retrato de Galdino, Manelão e Jean Phillippe, tirado por Monsieur Dapaix, última imagem proposta para este filme eventual. Este retrato seria, portanto a única lembrança concreta, material, que ficaria para os personagens da emocionante aventura que teriam vivido e que, para todos os efeitos, pelo sim ou pelo não, termina mesmo por aqui.

E ‘c’est fini’.

EXU CHIBATA – Resenha da peça


Creative Commons License

 

(Na foto João Cândido é conduzido preso por um oficial da polícia – atentem para o sorriso orgulhoso de João diante da atenção dos populares em torno, expressando abertamente a sua admiração para com o ‘Almirante Negro’)

————

Em 2010 se comemorará 100 anos de um dos incidentes mais importantes de nossa história: A Revolta da Chibata, rebelião de marinheiros ocorrida em 1910, liderada, entre outros por João Cândido Felisberto, timoneiro do maior navio de guerra do Brasil na época e conhecido popularmente como o ‘Almirante Negro‘.

É bastante provável que as comemorações deste fato tão empolgante – e tão significativo para a afirmação da nossa democracia –  empolguem o país inteiro, de norte a sul, marcando o reconhecimento definitivo e inquestionável de João Cândido Felisberto como um dos mais importantes heróis da nossa pátria Brasil.

A montagem da peça Teatral resenhada abaixo por seu próprio autor, inspirada neste empolgante acontecimento histórico bem que poderia ser um destes eventos.

Com toda certeza contudo, a peça poderá ser vista em Abril no teatro do Centro Cultural Laura Alvin, no ciclo de leituras dramatizadas de teatro ‘Negro Olhar‘ (veja o site do projeto neste link)

No elenco as emblemáticas figuras de Ruth de Souza, Haroldo Costa, Milton Gonçalves além de uma garotada da pesada (atores e atrizes) selecionados especialmente para a ocasião.

Na programação também constarão textos dos dramaturgos Aimè Cesaire (Martinica, Caribe) e Amiri Baraka ( EUA). Não percam!

————–

Exu Chibata é uma peça teatral escrita em 1994 (leia texto integral neste link) que tem como proposta principal o estabelecimento de um diálogo estético e dramatúrgico entre algumas das linguagens e mídias mais em voga na época em que se passa a ação do espetáculo (início do século 20, entre 1904 e 1910) época de grande efervescência cultural e artística contrapontuada por grandes conflitos sociais.

O eixo dramático principal da peça envolve os incidentes ligados a chamada Revolta da Chibata, comandada por João Cândido Felisberto (o ‘Almirante Negro’) contextualizada neste conturbado período no qual, enquanto no Brasil se tentava afirmar a ferro e fogo o regime republicano recém proclamado, o mundo europeu começava a se agitar com as graves divergências que culminariam com a sangrenta primeira guerra mundial.

A epoca é também marcada fortemente pelo doloroso processo de transição das relações sociais na cidade do Rio de Janeiro, na qual uma imensa massa populacional negra, ainda mal refeita da escravidão abolida há apenas uma década, começava já a experimentar as insidiosas restrições do recém inventado racismo.

Os aspectos principais, referentes a proposta estética sugerida para o espetáculo, estão ligados também aos elementos mais aparentes da chamada Belle Époque, do Cinema Mudo, da Mímica e da Pantomima (linguagens que inserem o espetáculo no âmbito de um teatro essencialmente imagético, no qual as falas não são exatamente fundamentais).

Neste mesmo sentido primordialmente imagético, a proposta tenta se associar também a certas formas e maneirismos do Circo convencional e do popularíssimo Circo-teatro (forma implantada no Brasil por atores e palhaços geniais como Benjamim de Oliveira e Eduardo das Neves). São importantes também a utilização de certas soluções cênicas baseadas nas estéticas mais evidentes do carnaval de rua do Rio de Janeiro, nos rituais do Candomblé e na obra do artista plástico e ex-marujo Arthur Bispo do Rosário.

———

EXU CHIBATA –

Qual cisne Branco em noite de lua / Peça Teatral de Spirito Santo Registro Biblioteca Nacional 2349087 / 1994

Rio de Janeiro 1994

——–

Orfeu Negro- Marcel Camus


No tempo em que sambávamos feito passarinhos.

http://m.youtube.com/playlist?list=PL5D95F8EE5E6F26A8&desktop_uri=%2Fplaylist%3Flist%3DPL5D95F8EE5E6F26A

Assisti o filme Orfeu Negro do Marcel Camus ainda criança. Revi agora e chorei feito criança, de novo. Saudosismo sim. Saudade de como éramos crianças felizes naquela pobreza mansa dos anos 50/60, na otimista virada do pós guerra.

Só pelo jeito diferente, leve, livre e solto – quase a voar como passarinhos – como a gente sambava dá pra ver como éramos felizes e não sabíamos.

Se você não se emocionar é porque já embruteceu de vez, neste Brasil estúpido em que nos tornamos, deixando crianças morrerem pelas ruas como pardais doentes.

Crônica Suja



Creative Commons License

Desenho-instalação de Klaus Werner /www.weltnachrichten.org

Kunstprojekt der Favela Morro dos Prazeres – Direitos reservados

Fragmentos quase diários de um incidente infelizmente verídicoInicio da década de 1990. Viajava semanalmente para o interior. O destino era sempre as cercanias de Vassouras, aprazível cidade histórica no sul do estado. Antigas fazendas dos tempos áureos do café, histórias do tempo da escravidão, cultura negra, tradicional, num paraíso de memórias, lendas e histórias, que quase ninguém havia parado para registrar.

Paz de espírito, quase férias no campo.

A vida, no entanto, não andava assim tão mansa. Precisava de mais trabalho. Foi assim que decidi, sem muito sofrimento, aceitar um serviço que me pareceu, a princípio, pra lá de interessante: Estimular a cultura local em duas favelas do Rio, atendidas por um plano de reflorestamento de encostas promovido pelo governo. O contrato, assumido com uma empresa de reflorestamento de outro estado, dizia mais ou menos o seguinte:

“Promover a articulação comunitária, as boas relações entre a obra de reflorestamento, seus engenheiros e a comunidade em geral, ajudando inclusive a arregimentar os operários que, selecionados entre os desempregados das comunidades atendidas pelo programa, roçariam, plantariam e revigorariam a vegetação local, que fazia parte da degradada e outrora exuberante Mata Atlântica.”

A empresa havia tentado reflorestar as áreas alguns meses antes, trazendo camponeses reais de sua sede, no outro estado, mas, a inexperiência ao negociar com os traficantes e as acusações de que os camponeses estariam submetidos a um regime de trabalho escravo, acabou gerando um escândalo na imprensa que obrigou á paralisação das obras e contratação de especialistas locais, daqui do Rio de Janeiro, para intermediar a situação. Era aí que eu entrava, com o pomposo título de Coordenador de Articulação Cultural.

O contexto era simples de entender: A ocupação desordenada das encostas por parte das favelas, um problema crônico do Rio de Janeiro (que talvez tenha começado já no século 19, bem antes da Abolição da Escravatura), destruiu quase que completamente a vegetação que cobria a cadeia de serras e morros que circundam a cidade. A água de chuvas torrenciais, muito habituais na região, sem nada que as retivesse, com o desgaste do tempo, passou a descambar morro abaixo, inundando praças e ruas. Rios de esgoto, lixo, ratos mortos, dejetos de toda espécie, além de um fedor insuportável, escorriam junto, como se o saco de mazelas sociais (aqui estranhamente empurradas para o alto), geradas pelo descaso de mais de um século, estourasse, deixando à mostra as suas incômodas entranhas.

Mergulhar numa aventura sociológica infecta, porém, bem remunerada, não seria nada mau àquela altura. A aventura no entanto pouco durou. Acabou de forma estúpida, abrupta poucos meses depois.

Ontem por acaso, bisbilhotando velhos papéis do tempo em que nem tinha ainda um computador, encontrei rascunhos esparsos do que seria o meu último e mais franco relatório, o que não tive coragem de concluir (quanto mais de entregar). Os rascunhos são fragmentos de alguns incidentes esparsos, os mais importantes entre os que ocorriam diariamente, a maioria presenciada in loco, os quais, por razões óbvias, relato cuidadosamente a vocês, ainda hoje sem poder me aprofundar muito em certos detalhes.

Vistos agora, distanciados no tempo, estes fragmentos talvez possam ajudar a lançar alguma luz sobre a atual situação da violência urbana no Rio de Janeiro, e de como ela evoluiu para o insuportável ponto no qual se encontra.

Entre os envolvidos (a maioria morta nos poucos meses em que a história durou) apenas o autor poderá ser identificado. São personagens anônimos, mesquinhos, miseráveis as vezes, outras vezes cobertos de uma inusitada aura de dignidade, quase humanidade, vislumbrada de relance em alguns poucos gestos nobres.

Nesta crônica sem nenhum charme ou poesia, não há nenhum herói presente ou ausente, é só sangue inutilmente derramado sem nenhuma bravura, sem nenhuma comenda merecida.

Uma crônica suja.

Fragmento #1
Um Morro sem Prazeres

Na chegada, havia ainda um pouco de honrosa adrenalina animando a missão que se iniciava mas, a nossa entrada no campo de batalha até que não foi lá muito apoteótica.

A do pessoal da véspera foi. Até demais. Como num verdadeiro ‘desembarque na Normandia’ eles foram recebidos com um enorme foguetório e uma comitiva de recepção furiosa que, assomando de sopetão num barranco, apontou dezenas de revólveres e fuzis de última geração, como se a favela fosse um braço de praia (ou um Iraque) invadido.

É que os engenheiros que faziam o papel de precursores do contato com os líderes comunitários do local, presunçosos como sempre, haviam decidido na última hora, sem que nem por que, trocar o Fiat verde escuro, combinado como senha com os traficantes, por um Fiat branco. Faltou muito pouco para serem metralhados, estropiados por uma saraivada de balas. Quase viraram esta estrepitosa notícia de jornal:

” ENGENHEIROS DO GOVERNO ESTADUAL ASSASSINADOS POR TRAFICANTES EM EMBOSCADA!”

Desta escaparam.

Não vi a cena, mas, me contaram que o sujeito que comandava o grupo de traficantes, desceu correndo do barranco com uma automática prateada levantada e passou uma constrangedora descompostura no engenheiro, que se dizia chefe dos precursores, todos funcionários de um órgão do governo estadual.

_ “Você quer morrer, seu filho da puta? Tá pensando que nós é o que, Mané? Tem respeito não, é? Da próxima vez já sabe…Passamo o cerol!”

Ficou muito claro naquele momento quem é que realmente era o chefe de alguma coisa por ali.

Conosco não foi assim. Graças a Deus. Equipe mínima: apenas eu, o motorista e uma engenheira florestal. As regras do protocolo foram seguidas á risca, até a hora da chegada foi cronometrada: 10 hs., em ponto, o Fiat verde estacionou no local combinado, o pátio em frente a associação de moradores. Desembarcamos um pouco tensos, suando frio, com as mãos, exageradamente, à vista, longe da cintura, quase para o alto.

Não demorou muito para que um menino descalço voltasse acompanhado por um mulato baixinho e bem falante, de cerca de trinta anos de idade, que se apresentou oferecendo a mão esquerda e escondendo discretamente a direita que, podemos perceber, era meio atrofiada.

_’Bom dia! Sou o presidente da associação. De dia sou o José Antônio da Silva, de noite eu sou o Zu!”

Zu? Nome sinistro, não? O que ele queria dizer com isto? Um nome de dia outro de noite? Dava para intuir, certo? Zu acumulava funções: De dia o abnegado líder comunitário. De noite, o implacável chefão do tráfico local.

A mão oferecida era mole, gelada. Aperto de mão não era definitivamente uma especialidade dele. Não lhe apetecia. Gentil, em poucos minutos contou tudo que achou que nos interessava e nos levou para mostrar o que lhe interessava: As instalações da associação, um prédio de dois andares imundo, a quadra de esportes em frente, a creche em construção.

Apresentou também alguns estranhos funcionários: Uma mulher trintona e sestrosa, responsável pela creche e uma figura que, pelo jeito que se expressava, era semi-alfabetizada, mas, que talvez por gostar muito de ler, havia sido incumbida de tomar conta da pobre e poeirenta biblioteca, composta, quase que exclusivamente, por livros didáticos superados, desconjuntados e romances medíocres, fruto de edições encalhadas, refugo de sebos. Quase lixo.

A mulher trintona era sexy, de uma beleza muito insinuante, ainda visível sob o ‘leg’ que lhe apertava as banhas que já se avolumavam. Quando entramos no úmido e escuro salão onde se realizavam os bailes Funk, ela e Zu trocaram afagos de mão e ironias sensuais, fingindo que nos ignoravam. Ele, querendo talvez exibir de antemão o seu status de garanhão do morro, de Galo do pedaço. Ela, pretendendo, com toda certeza, mostrar o seu poder de concubina do rei. Nos dias seguintes muitas mulheres, algumas adolescentes ainda, desfilaram para nós neste ritual de exibição do seu status de cortesãs.

_” Passa lá depois, bem. Você some… Depois vai reclamar. Vem um gavião ai e, ó… Vai ficar chupando dedo. ” Dizia uma.

_” Que chupando o que? Que nada… só se o gavião for maluco …” Respondia Zu seguro de seu poder de galo em seu terreiro, de sultão vingativo.

No harém do sultão Zu só quem não se exibia era a Ném, a verdadeira mulher do cara. Uma figura que parecia não caber naquele contexto. Trancinhas afro, discurso articulado, despachada e empreendedora, Ném embolava completamente a análise que eu fazia do ambiente. Não entendia ela ali. Era sinal trocado, enviesado.

Nem era bem novinha. Ali pelos seus 23, 24 anos. As trancinhas afro não eram um look comum em mulheres de favela naquela época. De jeito nenhum. O look dos 90 das tchutchucas era mais a chapinha, o henné, algo que formasse madeixas lisas como as de Withney Houston. Trancinhas afro era coisa de nega fina, universitária, militante de movimento negro, feminista, estas coisas. E era exatamente este o discurso de Ném que, logo que fomos apresentados, me mostrou, numa folha de papel meio amassada, as linhas programáticas que compunham o seu plano de montar uma Ong para captar fundos para a Associação de moradores do Morro dos Prazeres.

A prioridade era a creche. Me falou do padre italiano que ajudava a comunidade e de um dinheiro que poderia vir de uma congregação católica alemã se a Ong tivesse os papéis em dia.

É claro que achei aquilo tudo com pinta de uma tremenda armação, mas, as trancinhas da Ném não combinavam com armações. Sabe como é? Orgulho racial e armação, num contexto violento como aquele, de regras e protocolos de honra tão rígidos…

O fato é que fui me envolvendo inteiramente na empolgação de Ném. Aceitei o rascunho de um estatuto que ela me deu, pedindo que eu fizesse uma breve tradução em alemão, para ser mostrada ao padre.

Zu olhava de banda mas parecia apoiar aquele esforço da sua concubina preferida. A esposa, como ele dizia. Parecia estar honestamente solidário com ela, por amor, por remorso, por algum resquício de humanidade que sobrara nele. Quem saberá?

Ném me passava seriedade mas e Zu? Traficante com responsabilidade social? Um cara com duas automáticas na cintura, comandando um bando de famigerados bandidos com AR15, AK47 e, como diziam, outros ‘bicos’?

Não. Era melhor não viajar muito nesta maionese de Robin Hood tropical.

Na visita seguinte Zu fez questão de me apresentar o padre. Conversei rapidamente com ele. Era um padre normal, militante, a história da Ong, do estatuto e da verba possível, parecia ser fato.

Subi com Zu para o segundo andar da associação, seu escritório. Ele me ofereceu uma carreira de pó. Recusei gentilmente mas ele ficou constrangido (muito estranho ver um sujeito como Zu, constrangido). Sentiu vontade de me contar particularidades suas, não sei por quê. Não perguntei nada mas ele cismou de dizer:

_” Não gostava de pó não. Comecei aqui, nesta vida. Não tô viciado ainda não. Acho que, quando quiser posso parar. Só não posso é parar com esta vida. Já avancei demais nela. Agora… ”

Havia sido guarda ferroviário. Vinha da Baixada Fluminense. De policial corrupto, expulso da corporação acabou virando miliciano de um grupo de justiceiros da Baixada (um dos embriões das milícias que agora infestam o Rio de Janeiro). Um dia um amigo de fé, ex-policial como ele, já envolvido até o pescoço com o crime organizado, o convidou para integrar a tropa do Terceiro Comando que invadiria o Morro dos Prazeres, que pertencia na ocasião ao Comando Vermelho. Topou.

Fizeram uma bárbara carnificina no local e tomaram a favela. O amigo morreu ou se escafedeu. Zu acabou assumindo com o irmão o comando das ‘bocas’ do local.

Saímos para dar uma volta pelo morro. Pensando que eu era engenheiro, Zu queria me mostrar os postes de luz de vapor de mercúrio que havia instalado na larga rua que, subindo por um lado do morro, passava em frente a um casarão abandonado, perto da associação.

_”Os ‘Cu-de-galinha’ dos alemão (os inimigos da facção rival) podem subir por aqui mas agora, se subirem a gente vê eles e aí é só metralhar… Vão morrer na praia. Que é que tu acha? Tá bacana a gambiarra?”

Disse que sim, que estava maneira. Como dizer que não?