Garça Parda


(Foto Spírito Santo)
garca_parda
Conto

Curioso. Já havia passado por ali mil vezes e nunca havia visto aquela estátua.

Túnica verde escura, azinhavrada pelo tempo, rígida – de bronze que era – leve e diáfana porém, como se uma brisa fosse,  a qualquer momento revelar totalmente, o frêmito arrepiado das pernas lisas da outrora ninfa, hoje mulher grega amadurecida, de tanto com o cântaro ir à fonte.

Feia sim, mas se via lá alguma graça naquele jeito só seu de ser miss de maratona em desfile no Parthenon.

É. Linda ela não era, que as gregas destas estátuas geralmente nunca o são. Nariz adunco, pescoço curvo, tudo a fazê-la muito mais harpia do que garça, naquela sem-gracice toda do feminismo lívido, às avessas, que dizem ser o das mulheres de Atenas, aquelas dos maridos ausentes, sem um Ricardão que seja para lhes encher de enlevo os dias, quiçá as noites de solidão.

Beleza mesmo só naquelas sandalinhas de tiras finas que usava, de um couro que mesmo sendo fundido no bronze, alguma coisa de delicado tinha; como também eram delicadas as solinhas rasteiras, de mínima espessura, quase a lhes deixar o calor do chão queimar a planta dos pezinhos de fada-mulher. Quem não há de os querer ver e admirar? Quem?

E não é por isto mesmo que ela está ali, submissa estátua de jardim?

————–

Pois foi assim mesmo, saída do enlevo desta visão súbita e sensual de uma ex-ninfa de bronze no jardim, que aquela, a outra, me apareceu – sei lá de onde nem quem era, pois nem havia lhe visto rosto ainda – num susto, me pedindo, não me lembro bem o que.

Estava sobre os saltos toscos e imensos de um sandalhão cravejado de pregos dourados, como se calçar aquelas plataformas elevatórias a fizesse magnífica, rainha entronizada de poderes inquestionáveis, impregnada de uma belezura qualquer, destas de magazines fashionistas. Pois sim.

Sem levantar os olhos ainda, as sandálias dela o que me lembravam mesmo, eram aquelas espécies de próteses que as acometidas pela poliemielite de antigamente usavam, uma perna curta outra comprida, um solado bem grossão (como o da aparição magrela), e o outro fino fininho (como a solinha da ex-ninfa estátua), a compensar o andar “deixa-que-e-chuto” delas.

Como, sem os solões, as coitadas das aleijadinhas rebolariam? Como arranjariam maridos? Sem aquela correção de status, de nível, o caminhar delas ficava como uma destrambelhada dança de braço de roda de locomotiva, “chaca …chuco”, “chaca …chuco”, ou como aqueles toc sim, toc não, soando na calçada, no fim da madrugada, fazendo a gente, meio que dormindo ainda, pensar:

“_Ai!..Lá vai a coitada da solteirona aleijadinha comprar pão!”

————-

E ela ali, com as mãos nas cadeiras, quase mesmo – ou pouco mais do que – uma aleijadinha compensada, pude perceber, quando levantei os olhos para a sua aparição esquálida e ainda estranha demais, me sorrindo um sorriso meio sem sentido, já que não havia em mim – ou no lusco-fusco cinzento daquele dia – nada que tivesse tanta graça, algo a mais, de fazer alguém sorrir, insinuante, como gatinha filhote a se imaginar pantera, felinamente, miando assim, à toa.

No banco da praça atônito estava, atônito fiquei, ainda sem compreender inteiras as nuances daquela visão embaçada, ouvindo ela falar coisas que eu não ouvia. Com o que ela se parecia? Cobra não. Harpia não, já que não grasnara ainda ofensa alguma, talvez até por não compreender ainda o que o fel cruel das maledicências são.

Onça? Não, que nada. Algum bicho pernalta talvez, pensei confuso; garça esfaimada sim, a precisar, como todas, fisgar no lago algum cardume de gerinos, engulir algum peixinho dourado mais desavisado, uma rãzinha nervosa, sei lá, alguma dessas coisas que as garças, por costume ou por necessidade, engolem quase sem comer.

Mas, não. Misteriosa demais, a garça era suja e pardacenta como estava o dia, e uma das coisas que sei nesta vida, é que pardacentas e sujas – as garças definitivamente, não são.

_”Quer tio? Quer tio? Eu faço!”

Não havia mão alguma estendida, pedindo um trocadinho, um real, um salgadinho. Apenas a altivez desastrada de uma criança de sandalhão, como aqueles malabaristas magricelas de sinal de trânsito, um em cima do outro, pirâmide desumana quase a se desconjuntar, desmoronar, por uns trocados. Saltimbancos maltrapilhos a trançar lançados limões murchos para o ar.

Por nada.

Isto: A altivez do sandalhão era altivez de coisa nenhuma, de estima alguma pelo que vai acontecer no outro dia, no amanhã que Deus, por certo, ao que todos os indícios anunciam, não dará.

A única diferença era mesmo esta: a magrela garça parda era uma meninazinha de rua.

De nada.

Tinha um sorriso maroto manchado de um barato baton carmim-melado; saiotinho também de nada, apenas encobrindo o ainda nenhum quadril. Os cambitos de coxas-gravetos marcados de lanhos, escoriações generalizadas, porém, marcas indolores de antigas quedas e rusgas, nas meio que brincadeiras meio que brigas de pique-esconde, queimada; as canelas finas, mais afinadas ainda pelos remelexos da dança do Créu.

E – Deus meu! – constrangedoramente, tremelicava a língua para mim, em meio ao tlec tlec de um chiclete gosmento que mascava (de fome mesmo talvez), macaqueando micro sinuosidades de minhoca querendo ser mulherzinha-serpente, a se pensar prety baby, ninfeta femme fatale de filme noir classe C da TV.

E cheirava um cheiro de tinta fresca, embora estivesse suja. Ratazana ou gata de rua? Comida de si mesma? Os olhos, engazeados por alguma inebriante coisa ruim qualquer, assustados com não sei o que, não combinavam mesmo, nada nada, com aquele sorriso de menininha meretriz de 11 anos, balbuciando no tremelico de língua, já impaciente:

_”Quer tio? Quer tio? Eu faço!”

Foi quando meus olhos compreenderam naquele retrato de lolita imunda, o mundo-cão que emergia ali, daninho, matando toda a grama nova do jardim. No fundo, bem no fundo dos olhos dela, dava para se ver um determinismo de morte, ali mesmo, no interior da sua ainda minúscula imagem, eu via uma fumacinha branca de crack saindo e uma borra de sangue hiv positivo manchando a blusa, por todas as mazelas contaminada, sabe-se lá por que venenos picada: Bauretes? Boquetes? Croquetes?

Porco corredor curto da morte, a fumaça na chaminé de barro sem apito de fábrica de tecidos. Como naquelas imagens judias de campo de concentração – Jardim ou Campo? Arbeit macht frei, parecia estar escrito agora na grade de ferro do portão do jardim.

Jardim conspurcado, o ar a nossa volta foi tomado então pelo cheiro insuportável do thinner que ela cheirara e tive náuseas; uma sensação estranha de vergonha e remorso, no meio de uma vontade enorme de fugir logo dali, o mais depressa que pudesse.

_”Quer tio? Quer tio? Eu faço!”

————-

E fugi.

Passarei mais mil vezes por ali sim, pelo jardim, mas, agora com outros olhos, paixão irresistível – e escapista – que passei a sentir pelas estátuas de mulheres gregas, agora sim, para sempre lindas de morrer.

Platônicas. Bem longe daqui e de mim que as adoro helenas serenas, daquelas que antes ninfas meninas, tiveram tempo de crescer e se fazerem mulheres maravilhas; sem dolo, sem desconsolo; sem pressa e sem secura no canto da boca; nenhum abandono que não seja aquele de se deixar ficar, tolamente imóveis, tal e qual estátuas de Parthenon sem dono e sem mecenas, esperando num jardim qualquer os seus não menos tolos, como descritos, efêmeros e desenganados maridos…

…e ainda assim sem morrer de desamor.

Spirito Santo
Maio 2008

Mar de Barbados


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mar-de-barbadosFoto: Spirito Santo

Mar de Barbados
Conto

Nervosa, demais da conta. Atormentada por capetas íntimos e desconexos, ela precisava mesmo espairecer. Foi por isto que lhe fiz o favor.

Desanuviador de mentes conturbadas que me fiz ali, naquela época, peguei meu fusca velho de guerra e fui, levei a pobre para conhecer a estrada da vida e se fazer mais calma. Gosto de uma boa conversa com ela. Amigos íntimos que éramos, ela também gostava, além da conversa, de chão e de estrada.

Gasolina cara (pelo menos para mim, que andava duro feito casco de cabra, naquele tempo), rodamos não mais do que um tanque até que o carro – ou a vida – parou, ali mesmo, entre um pedágio e uma reta margeada por uma verdejante imensidão. Havia chovido, bem fininho, e o verde era limpo, brilhante. Olhar aquilo espremia a alma de tão bom. Fazer o que?

Achamos bom sim. Os dois. Vida parada sempre foi igual à história dando partida e seguindo célere, ao rumo imprevisível que as histórias transcorrendo têm.

“Mar de Barbados”

Estava escrito num cartaz destes de turismo, velho e amarelado, pregado num canto escondido do restaurante, ao lado do pedágio. O cartaz acabou sendo o fio da meada da história que resolvi contar ali, algo assim, exagerado, parecendo verdade, como documentário do Discovery Chanel. Disse a ela que ia lhe contar um caso acontecido – não comigo, frisei, para dar veracidade a prosa – com alguém, meu conhecido.

Daí, depois que comecei não dava mais para parar. De início, mentindo, fui contando como se o fato narrado dissesse a mim mesmo respeito. Quando bem me dei conta da fantástica credibilidade que conseguira incutir nela e nos expectadores (sim, porque, a esta altura, todo mundo no restaurante estava ligado, grudado na história, como insetos inocentes num papel de pegar moscas)

Fui, assim, perdendo inteiramente o juízo do que era verdade ou mentira. Pronto, sem saídas, também pego pelo pega-moscas das inverdades verossímeis, fui enveredando, me enredando, eu mesmo, naquela história toda, cabeluda, descabelada mesmo que só vendo.

Mar de Barbados?

O que poderia significar isto? – Pensei eu. Uma imensa multidão de homens barbudos? Um mar tormentoso, encapelado? Ou uma misteriosa história de amor transbordado de algum mar simbólico destes, esparramado por aí?

De raiva pela longa espera, enfiei na história algumas mulheres ruins que conheço (entre as quais não está ela de modo algum), no papel das bandidas, das vilãs, algozes de alguém. Nem fui eu, a vítima, fui logo dizendo, para lavar, e deixar bem limpinha, alguma dúvida. Qualquer coincidência será, portanto, mera semelhança.

Vocês vão sentir, no transcorrer da história, uma dificuldade imensa em reconhecer as insanas e cruéis criaturas, instigadoras de despeitos, líquidos e certos, como profecias. Elas, as bruxas malvadas, personagens indelevelmente feitos, exatamente, como praga de mãe.

Podia dizer aqui que elas, de tão poucas, nunca existiram, mas, não digo. Existiram sim. É que quero purgar a raiva que tenho delas, aqui, impunemente.

O mais não afirmo ser verdade. Nem que sim nem que não. Deixo fluir.

O fato é que, verdade ou mentira, tempo de história flue mesmo, tão rápido que nem se vê. Quando é mentira, melhor ainda porque a mufa que o contador queima para dar consistência e conteúdo às mentiras mais deslavadas que conta, anima a história de fogos e chispas maravilhosas, mais ou menos como quando riscamos curvas sinuosas com um tição em brasa, formando aquela cobra de fogo que inscrita no ar, se move louca, apesar de nem existir.

Eletricidade pura sem eletricidade ser. Energia cheia de nada que não seja beleza inexplicável. Lindeza primitiva como cinema de homem das cavernas de Cro-Magnon.

Foi assim que então, enfim, era uma vez:

Mar de Barbados

Teria existido mesmo aquela minha tia esquizofrênica que, falando pelos cotovelos, me contou aquela história doida? Teria sido ela uma rendeira de mão cheia, lá em Ribamar das Farinhas, uma cidade sem homens, no litoral do Maranhão?

Teria ela se amasiado mesmo, com um gordo pescador, nascido nos mares do Caribe e, sabe-se lá porque, aparecido justo ali no Maranhão, o qual – bela coincidência que os unia – tecia lindas tramas em redes de pesca como ninguém mais por ali?

Caribe? Maranhão? Ora direis: Dizeis mentiras. Mas não. Caribe e Maranhão, posso jurar: Tudo a ver.

Encontraram-se por conta de um acidente marítimo. Deu até no jornal de São Luiz do Maranhão de 25 de maio de 1983. Podem ver, conferir, recortar, se quiserem. Ele retirado, desfalecido, encharcado, depois de caído de uma traineira naufragada, veio arrastado pelas correntes até, sem mais nem menos, dar nas praia do Maranhão.

Foi o que se deu.

(E o fusca velho lá, paradão)

Minha amiga e os espectadores do bar, já neste comecinho da história, se entreolhando curiosos com a dúvida atroz que os atormentava: Longe, muito longe dali, mar à dentro, se o homem da história não engasgou com os filhotes de sardinha, dos diversos cardumes que o atropelaram, num daqueles glub glubs do seu afogamento; se também não boiou, porque não tinha consciência para o querer; se afundou, de pronto; se gordo como era, nem se o espetassem com um arpão como uma baleia jubarte, emergeria daquele afundamento; se condenado estava a ficar lá em baixo, como uma âncora ou uma coluna do colosso de Rhodes, desmoronada no fundo do oceano, ou mesmo um galeão espanhol pesadão, apesar de não conter tesouro algum; como foi que se salvou do mar?

Calma. Vamos chegar lá. Nem tudo é bem o que parece.

Foi assim: Algo o despertou do desmaio profundo e o impeliu à tona, segundos antes da morte definitiva. Tambores na água, graves e profundos, ecoando na cabeça, a cada vez que afundava e emergia para sorver algum ar. Sem sonhos com sereias, o que perseguia mesmo, a cada flash de olhar por sobre a lâmina cambiante e louca das ondas, era uma tábua, algum destroço qualquer em que se agarrar, como aquela lasca de convés a qual, por fim, se agarrou até chegar á praia.

‘Barbados island ’ estava escrito na esfarrapada camiseta dele. Passou algum tempo para que a professora Maria José da Conceição Duarte, a boa moça mestre-escola da vila, chegasse e dissesse que o pobre, talvez viesse de Barbados, uma ilha paradisíaca, localizada mar à fora, um pouco longe dali.

Com efeito, o homem, embora se falasse inglês em sua ilha, espanholava, atabalhoadamente, as palavras como se bêbado de água do mar estivesse. Gordo como barril de rum parecia confundir no transe, os últimos momentos do naufrágio com a beleza que vira logo, assim de relance, no verde dos olhos dela, aquela que o acudira, antes de todas, a primeira que ele viu quando acordou na praia. Ela sim, a minha tia Almerinda.

_ “Oh, Oxalá! Iemonjá!”

Balbuciou ele, o marujo naufragado, confundindo-a com estas amazing beatifull ladies, de longos cabelos negros, que os crentes no culto dos yoruba – ou os angolanos com suas Kiandas – pensam que são sereias encantadas; ou os céticos vendo meras baleias magras; tubarões fêmeas famintos para os apavorados; peixes voadores para os destrambelhados, avoados, ou mesmo, como em nosso caso, uma mulher linda de lindos olhos, para aqueles que, embriagados pelas águas marinhas (como o nosso naufragado), pensam que morreram afogados e que, sem contabilizar sequer um dos pecados, já se sentem de antemão aceitos, compulsoriamente, nas camas do paraíso.

Minha tia pegou a mão do gordo com toda a vontade de revivê-lo. Se para si ou se para o mundo, não se podia saber ainda. As outras pessoas que chegaram, todas elas mulheres, já passadas nos anos, do mesmo modo afoitas e curiosas, viram o afã de minha tia, porém, pensaram que, certamente, ela só o queria salvar para o mundo.

Tia Almerinda, sestrosa como sempre fora, bonita mesmo, embora passada pelo tempo, não iria, de modo algum, se apaixonar assim, à primeira vista, por um estranho qualquer, um reles marinheiro gordo e esfarrapado. Foi o que as amigas rendeiras, no fundo no fundo, pensaram, entre os cochichos.

Mas foi. Apaixonou-se, perdidamente. Não se sabe se por algo que ele lhe falou ao ouvido, ali, na hora do transe, na quase morte. Não se sabe se alguma bendição trazida pelo vento, pela maresia, o certo é que daí em diante, minha tia só teve olhos para o gordo barbadiano esfarrapado.

E foi, de fato, aquele calor do tato dela a força que o salvou. O calor dela, afogueada de paixão. O tênue calor dela, subindo pelos punhos enregelados dele, pelos braços, pelos ombros e avançando, já como fogo puro, pelo pescoço dele, fazendo seus olhos se abrirem, hirtos, para aquela visão dos olhos verdes dela, que eram, aquela altura, apesar das finas rugas que ele ainda não via, a mais pura aparição de uma virgem africana do céu: Yemonja! Kianda! Sim, foi isto que o salvou.

E minha tia até remoçou, ali mesmo. Ruborizada, se viu fazendo, de novo, quinze anos.

E o fuscão velho lá…

Lá, no tempo. Visto através da vidraça do restaurante, emoldurado pelo lancinante verde da paisagem. Parado, tenso, sedento no seu vício de gasolina a ser saciado sabe-se lá quando e por que meios.

O dia passava, isto sim. Entretidos na história que eu ia entabulando aos poucos, nem víamos o sol se pondo, nem pensávamos na noite que vinha escurecer o verde daquela já chata paisagem.

De que jeito sairíamos dali, retornando a modorrenta vidinha de sempre que levávamos? Antes tristes como quaisquer solitários oriundos de uma cidade grande como a nossa, sem ninguém de interessante para rever, não tínhamos mesmo razão alguma para voltar. Para que?

Ali, enovelados na embriagante trama de minha tia louca, sem nos confessarmos ainda entediados, não nos interessava mesmo mais nada, senão ficar por ali, viajando naquela surrealidade boa e pagã, ainda sem final algum previsto.

——————

John Winfred era o nome dele, do barbadiano, pelo que se conseguiu entender. John Marshal Winfred II, para ser mais exato, como estava escrito no documento que caiu do seu bolso, salvo do esfarrapado de suas roupas imprestáveis. Magro, negro e bonitão no retrato que, talvez, quem sabe, tenha tido lá suas implicações sobre o bem querer dela.

Pudica e comedida, ela relutou um pouco, quando as amigas sugeriram que o levassem para casa dela. Por que logo para lá? Pensou. Única casa quente e acolhedora disponível, pensaram todas. Viúva sim, há tantos anos. Sem filhos, pelo menos que do paradeiro tivesse conhecimento, mas, o que faria com um homem em casa, depois de quinze anos sem ninguém? O que diriam as outras, as carolas da vila, as não rendeiras, solteironas, inimigas das mulheres que, pelo menos um dia na vida, tiveram maridos?

Mas logo decidiu que mandaria tudo aos quintos dos infernos. Pescara o homem. Gordo, estranho, barbadiano, mas, um homem quente e bom, como estava escrito nos olhos dele.

Sem se fazerem de rogadas, as carolas chegaram à praia, logo depois, justo quando o grupo de rendeiras levava o náufrago numa rede, para a casa dela. Na confusão, suspeitosas e rancorosas que eram, pegaram, sem ninguém amigo ver, a carteira do homem, que levaram para alguma eventualidade maldosa qualquer.

…E o pobre fusca lá, coitado, curtindo no sereno

Que se danassem as vidas e os passos passados. Arranjaríamos uma hora dessas alguma gasolina emprestada, alguma carona num ônibus daqueles que chegavam e partiam, hora sim hora não, escritos no para brisa a giz, qualquer horário para qualquer itinerário: ‘Rio-para-Não-sei-adonde’, ‘Não-sei-adonde-para-Rio‘, ponto a ponto, mais hora menos alguns minutos, assim que a história se esgotasse e nos retirasse daquela felicidade dos quartos e quintos do céu.

Disse quartos? Ah, sim, foi ato falho, claro. Disse-o sem pensar. De amigos íntimos que éramos, nisto, de sexo, nem pensávamos (pelo menos assim, de demonstrar, abertamente), O que admitíamos e que nos apetecia mesmo, era aquele ventinho morno que se seguia a cada pancada de chuva de verão e o milagre que achávamos ver no capim ficando verdinho, ali, na nossa cara, instantaneamente, como uma safada mágica de Deus (pensando bem, cá entre nós, até que isto era como sexo sim. Dava gozo de ver).

Não sabíamos também – e isto, devo confessar, nos excitava – o quanto de mentiras ou verdades a história começada ainda poderia ter. Queríamos sim, desejávamos até, secretamente, é que a história se prolongasse o tempo que fosse, e nos permitisse – pelo menos isto – partilhar no fim da noite, o calorzinho do balcão do restaurante da estrada, os salgadinhos folheados, o misto quente… ah, os nescaus quentinhos das paradas de ônibus de madrugada, quem poderia a eles resistir.

———————–

Minha tia ardentemente devota de seu achado, recuperou-o da febre, dos lanhos da tábua de salvação, dos beliscões dos peixes e das queimaduras de água viva. Com ele ainda dormindo, reparou na pele de um dos braços, uma perfuração estranha, parecendo de bala de revólver. Não se importou, nem comentou sobre aquilo com ninguém.

_”Tank you, honey! Jamás te olvidarè, querida.!”

Era o pouco que entendia do que ele dizia, sempre inglesando, espanholadamente, como um Nat King Cole solfejando boleros.

Com ele curado de tudo, mais gordo ainda, amasiaram-se. Ele, safado como que. Minha tia, remoçada, rápida nos bilros, tecendo as toalhas de mesa e as colchas mais brancas e delicadas deste mundo. Ele, braço enfaixado ainda, sorriso branco e largo, tecia as tramas mais precisas, das redes mais perfeitas de todos os estranhos mares em que vivera, os de lá e os daqui. Estranho pescador que era, contudo, não pescava nunca. Enjoara, mareara, diziam as amigas rendeiras solidárias.

O certo é que viveram felizes, enquanto deu

Até o dia em que as carolas apontaram lá na ponta da praia, com o sol a pino, os pés descalços guinchando na areia como ratos briguentos, seguidas por cinco homens. Homens ali? Só podiam ser da polícia. E eram: Polícia Federal, disseram.

_ ‘O Sr se chama John Marshal Winfred? ‘– Disse o que parecia ser o chefe dos policiais.

O gordo fechou o sorriso e fez que sim com a cabeça, dizendo ok, conformado. Pelo que ela entendeu, a Capitania dos Portos de São Luiz, de posse da carteira dele, levada pelas carolas, passou um rádio para a polícia de Barbados, que identificou John Marshal como sendo o único homem que escapara de um ataque de uma lancha da Drugs Esforcement Agency, o DEA norte americano, a um barco de traficantes, que partira de da ilha de Barbados com meia tonelada de cocaína.

Quando viu o último amor de sua vida partindo algemado, de volta para o mar (e por assim se dizer, desnaufragado) foi o coração de minha tia que naufragou e afundou, para sempre. Ela, que já não era muito boa da cabeça, destrambelhou de vez. As tramas de suas rendas passaram a ser, em vez de flores e ondas do mar, aranhas caranguejeiras, tecidas com linha preta, como teias letais. Na mente conturbada dela, como um mar encapelado, a única história que fazia sentido, e que, por isto mesmo, podia ser contada, era esta que eu contei aqui.

Pena que ninguém nunca acreditava nela, coitada.

Sempre achei, só por ter tido a sorte de viver este romance, que minha tia morreu rabugenta, porém, plenamente satisfeita de felicidades.

Tarde demais. O pobre fusca já não podia mais esperar

Acerca do que se contaria, portanto, quem ficou com a última hipótese foi mais feliz: “História de amor transbordado de algum mar simbólico destes, esparramado por aí”, foi esta a idéia que desfiei aqui, para ela, a minha amiga íntima, ainda tensa, atenta ainda aos capetinhas de sua própria alma, mas, já se acalmando, aos poucos. Como minha tia.

Foi para todos, no entanto que contei a história que nunca ninguém contou pra mim, inventada que talvez tenha sido, agora mesmo, entre uma golada e outra de uma cerveja amarga de tanto esperar aquela calma dela que, enfim, veio, escorrendo por entre os seus olhos que, desconfiando do descabelado da trama, pouco a pouco foram sorrindo, soltos, exatamente como eu os queria, límpidos. Lindos olhos incrédulos rindo para mim.

Meio tonto de cerveja, olhei meio de lado para ela e pensei na urgência de um futuro mais real para nós dois. Me espreguicei, me fingindo tranquilo e, tomando coragem, fui.

Pois foi assim também, emocionadamente, pegando afoito e corajoso a mão oferecida dela que, de amigos íntimos que éramos, viramos, desde então, enfim, amantes verdadeiros.

Voltamos para o fusca, abraçados, abastecidos com vários litros de gasolina emprestados pelos outros espectadores da história que, olhos marejados, nos aplaudiam tocados, muito mais pelo nosso mais que inusitado final feliz, do que pela história que teve aquele fim assim assim.

Acho que ela não quis, de modo algum, acabar sozinha, igual à minha tia.

E o velho fusca rangeu, grunhiu, tossiu e partiu.

… Ah, o poder insofismável que as histórias mal contadas têm.

Spírito Santo

Setembro 2007

Salada Mista


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Foto de Tadeu Brunelli

Elogio á Mestiçagem, Democracia Racial e outros picantes ingredientes

“ O Neguinho gostou da filha da ‘madame’
Que nós tratamos de Sinhá.
Senhorita também gostou do Neguinho
Mas o Neguinho não tem dinheiro pra gastar
A ‘madame’ tem preconceito de cor
Não pode aceitar este amor.
Senhorita foi morar lá na ‘Colina’
Com o Neguinho
Que hoje é compositor.”

(Samba de Noel Rosa de Oliveira, e Abelardo da Silva, anos 60)

Existem várias analogias culinárias que podem ser feitas quando se fala das diferenças sócio culturais existentes na composição da população de um país e suas diversas possibilidades de mistura, amálgama, (no Brasil uma questão tornada particularmente complexa por conta de nossa peculiar estratificação sócio racial). Já foram tentadas várias receitas para tão ansiada refeição mas, até agora, nenhuma realmente apeteceu à clientela.

A primeira – e mais óbvia- analogia que me ocorre é a do Omelete, aquela que diz que para fazer um é preciso ‘quebrar os ovos’ . É a mais radical e cruel porque cria um problema terrível para a galinha, mãe eventual dos pobres pintinhos que nasceriam. A outra, mais ‘light’ é a da Vitamina, na qual um liquidificador mistura tudo numa pasta uniforme, fazendo os ingredientes originais, geralmente frutas ou legumes da estação, perderem inteiramente a, digamos assim, identidade.

Para mim, a mais pertinente é mesmo esta que uso agora, principalmente por causa da certa dose de ironia que ela contém: A Salada Mista. Nela os ingredientes se misturam, partilham algum tempero comum, mas mantêm-se íntegros, apesar de estarem picados em muitos pedacinhos. Acho a Salada Mista uma boa analogia para Diversidade Cultural.

Esta questão, a nosso ver, mãe de quase todas as contradições e conflitos brasileiros, está na discussão sobre as influências exercidas pelas culturas ditas ‘hegemônicas’ sobre culturas ditas mais frágeis (ingrediente principal da xenofobia). Neste ‘conversê’ sem fim sobre preservar ou não preservar a nossa ‘cultura popular’, ainda chamada por alguns de ‘Folclore (esta palavrinha tão vã que mais esconde do que explica o que quer mesmo dizer ‘Cultura do povo’). Está na violência urbana, na contagem de corpos e nas balas perdidas que animam nossos debates cotidianos (afinal, quem morre mais, o favelado trabalhador quiçá traficante ou a classe média trabalhadora quiçá consumidora de drogas?). Está até nas conversas sobre o futuro de nossas crianças (afinal, um negão de 13 anos, com um metro e oitenta de altura merece ou não ser tratado como uma criança?). Está, em suma, contaminando todos os espaços do nosso cada vez mais tenso dia a dia.

O tema, passeando cada vez mais pelas entrelinhas deste nosso site, talvez seja hoje a mais importante questão brasileira: Entender, timtim-por-timtim, a maneira como, dividindo o Brasil em castas raciais se construiu (e se mantêm até hoje) uma das sociedades mais desiguais do planeta e, de como agora, extremamente divididos, porém, perdidos no mesmo ‘mato sem cachorro’, vamos nos livrar da arapuca social na qual, por pura babaquice e egoísmo nos metemos.

A conversa passeia também – e principalmente até- pelas centenas de subterfúgios e ‘panos quentes’ que boa parte de nossa elite bem pensante, a nossa indefectível Academia (ou ‘inteligentsia’, para usar, na falta de outro melhor, um termo já bem arcaico) e mesmo a nossa sociedade como um todo, se utilizam para desconversar, tergiversar e manter as coisas exatamente como estão.

Como estamos falando de gente, de cultura humana, a esta altura deve caber bem a pergunta: Qual receita seria a mais recomendada para conseguirmos (em se tratando de Brasil, é claro), uma sociedade sem conflitos sócio culturais tão violentos? (O garçom mais próximo pode fazer a pergunta : )

_ ‘Omelete, Vitamina ou a Salada Mista, freguês?’

A VITAMINA
Descrevendo as receitas

...”Ao que parece o termo (Democracia racial) foi usado pela primeira vez por Arthur Ramos (1943), em 1941, durante um seminário de discussão sobre a democracia no mundo pós-fascista (Campos 2002). Roger Bastide, num artigo publicado no Diário de S. Paulo em 31 de março de 1944, no qual se reporta a uma visita feita a Gilberto Freyre, em Apipucos, Recife, também usa a expressão, o que indica que apenas nos 1940 ela começa a ser utilizada pelos intelectuais. Teriam Ramos ou Bastide cunhado a expressão ou a ouvido de Freyre? Provavelmente, trata-se de uma tradução livre das idéias de Freyre sobre a democracia brasileira. Este, como é sabido, desde o meados dos 1930, já falava em “democracia social” com o exato sentido que Ramos e Bastide emprestavam à “democracia racial”; ainda que, nos seus escritos, Gilberto utilize a expressão sinônima “democracia étnica” apenas a partir de suas conferências na Universidade da Bahia, em 1943.

(Texto-tese de Antonio Sérgio Alfredo Guimarães -Departamento de Sociologia /Universidade de São Paulo)

Dos anos mais efervescentes do movimento abolicionista no Brasil á década de 30 do século seguinte, uma nova iguaria apeteceu a certa bem apessoada rapaziada: Elegantes em seus librés (logo depois envergando vistosos fraques em conferências internacionais), estes jovens rapazes gritariam em coro para o garçom:

_ ‘A vitamina, senhor! Vitamina para todos!’

É que preconizavam com um empenho falsamente cívico o que de melhor se poderia fazer com os escravos: desaparecer com aquela ‘mancha negra’ transformando os africanos, progressivamente (num processo de cem anos, diziam os mais cartesianos), em seres mistos, nem brancos nem pretos, mestiços (as teorias não explicam se no preparo da receita desapareceriam também os brancos).

A história da tese que ficou conhecida como ‘elogio á mestiçagem’, irmã dileta desta outra tese controversa, a ‘Democracia Racial’ é antiga. Ela esteve muito em voga até os anos 30 do século passado (na verdade ainda hoje é defendida por alguns seguidores). Seus principais formuladores, de uma ponta á outra, foram intelectuais como Silvio Romero, Graça Aranha, Joaquim Nabuco e, já no século 20 também entre outros, o sociólogo oficial do Brasil Gilberto Freyre. Como se sabe, estas paradigmáticas teorias nasceram, pelo menos como conceito, como uma proposta que resolveria o problema gerado por aquela massa enorme de seres humanos negros que o sistema de trabalho escravo arrancou da África e espalhou pelo mundo, uma massa humana liberta por injunções muito mais econômicas do que humanitárias e, portanto a boca pequena considerada ainda pouco mais que escória.

Lentz, um dos personagens centrais do livro Canaã de Graça Aranha afirma a certa altura:

_”O homem brasileiro não é um factor do progresso: é um híbrido. E a civilização não se fará jamais nas raças inferiores” (…) “Não acredito que da fusão com espécies radicalmente incapazes resulte uma raça sobre que se possa desenvolver a civilização. Será sempre uma cultura inferior, civilização de mulatos, eternos escravos em revoltas e quedas. Enquanto não se eliminar a raça que é o produto de tal fusão, a civilização será sempre um mistério, o artificio (…) Até agora, não vejo probalidade da raça negra atingir a civilização dos brancos”.

Ao Milkau, o personagem antagonista contrapunha, fazendo o seu ‘elogio da mestiçagem’:

_”O tempo da África chegará. As raças civilizam-se pela fusão; é no encontro das raças adiantadas com as raças selvagens, que está o repouso conservador, o milagre do rejuvenescimento da civilização “(…) Eu tenho para mim que o progresso se fará num evolução constante e indefinida”

O mito do homem mestiço: Eis aqui o que parece ser enfim a chave de tudo para esta corrente de pensamento. A quem interessaria tamanha utopia? A inexistência total de diferenças biotipicas ou (‘estético-raciais’) seria cientificamente possível? A simples padronização ‘racial’ das pessoas removeria, num passe de mágica, as diferenças sociais? Se não, para que serviria então?

É preciso, contudo, situar a questão em seu devido contexto histórico porque, se no campo da precária biologia do século 19, se considerava cabal a existência de superioridade racial entre seres humanos (que justificaria a assimilação – ou a diluição – de uma raça pela outra), hoje até o próprio conceito absoluto sobre a existência de raças humanas está superado. Assim, propor ou sugerir a ‘mestiçagem’ como solução para tão candente problema social, não era naquela época, uma idéia tão absurda assim. Menos mal.

É nesse contexto que devem ser considerados, por exemplo, certos aspectos bem sucedidos da sociologia de Gilberto Freyre (o que não deve redimir, de forma alguma, a perniciosidade e os equívocos clássicos de sua ideologia)

O OMELETE
(Pobres dos pintinhos)

Assim, ali por volta de 1930, 40, alguns europeus de bigodinhos, reunidos numa mesa ao fundo, ao serem inquiridos pelo garçom responderiam excitados:

_’Omeletes, senhor!’ De sobremesa, Vitaminas!’

É que para uns não havia jeito melhor de melhorar a raça humana do que separar os espécimes ‘superiores’, os ‘puro sangue’, os de ‘pedigree’ e desaparecer com o resto, inclusive os ‘vira-latas’, transformando a ralé em torrada, num forno crematório qualquer.

Para outros contudo, o desaparecimento dos ‘inferiores’ deveria se dar por meio de métodos mais científicos ou ‘humanitários’: Um liquidificador genético resolveria o problema. Um projeto que, como veremos a seguir, não tinha mesmo nada de científico (e muito menos de humanitário).

(Aqui, antes de tudo, uma necessária afirmação de firme e ampla discordância diante dos partidários da Vitamina ou da Mestiçagem. É preciso – me permitam – fazer uso da ênfase nesta hora, á este ponto de uma questão que é por razões óbvias, crucial).

Frisemos que o contexto onde atuaram Gobineau, Lombroso, Chamberlain, Nina Rodrigues e, porque não dizer, Gilberto Freyre, foi o mesmo que gerou as teorias nazistas na década de 30. Não foram idéias apenas ‘simplificadoras’ ou ‘evolucionistas’. Foram idéias profunda e claramente interessadas em criar um novo paradigma de civilização, um método ‘científico’ para a classificação e a sujeição de pessoas, num novo ambiente geopolítico denominado Colonialismo.

Apenas para exemplificar o alto grau de assumida perniciosidade destas idéias, basta citar o trabalho militante do próprio Gilberto Freyre, no final da década de 30 do século 20, a serviço do governo ditatorial de Antonio de Oliveira Salazar, como um dos ideólogos que contribuiu para a criação e a implantação de um sistema institucional de controle e subjugação das populações das colônias de Angola, Moçambique e Guiné Bissau e Príncipe denominado ‘Lei do Indigenato’, código similar aquele engendrado pelos africâners, na África do Sul, que dispensa comentários: o insidioso ‘Apartheid’.

O antropólogo angolano José Maianga, em texto publicado pela Revista afro-lusitana África, a este respeito nos esclarece cabalmente o seguinte:

“O indigenato, institucionalizado pelo regime salazarista (‘Estatuto dos Indígenas Portugueses das Províncias da Guiné, Angola e Moçambique’) era um diploma aplicado apenas às situações jurídicas dos indígenas africanos num país que, constitucionalmente, se dizia subordinado ‘à moral ao direito e às garantias e liberdades individuais’. Este diploma traduzia, sem dúvida, a sujeição plena dos africanos ao colonizador e a uma prática assimiliacionista que se afundava no mar de contradições por onde navegava…”

…” repudiada a prática assimilacionista, Portugal engendrou, então, uma nova fórmula, o integracionismo, teoria baseada no luso-tropicalismo do sociólogo brasileiro Gilberto Freyre e que, não era mais do que a forma capciosa que o regime colonial usava para esconder o verdadeiro assimilacionismo.”

As afirmações não são de forma alguma novas. Alguns estudiosos estão no momento fazendo uma ampla revisão da obra de Freyre neste mesmo sentido. As idéias originais dele no entanto, impregnadas em quase tudo que se escreveu sobre o negro – e os pobres- do Brasil -, estão infelizmente, ainda em voga por aí e, o que é pior, defendidas por novas teorias e embasamentos que tentam afirmar Freyre como uma espécie de gênio mal lido e incompreendido.

Não é possível portanto, entender os processos de evolução da cultura brasileira, por exemplo, dissociando-os deste contexto sombrio que o cineasta Ingmar Bergmam, muito apropriadamente chamou num filme clássico de “O Ovo da Serpente

No Haiti não existem ‘brancos’. Lá, a classe média ‘mulâtre’ oprime os ‘mais’ negros. O nazismo separava pessoas absolutamente brancas e as mandava á morte, baseando-se em diferenças físicas cosméticas: um nariz mais adunco, olhos pretos, etc. Claro que racismo não tem nenhum fundamento ‘científico’ ou ‘biológico’. Se baseia em pretextos, desculpas esfarrapadas.’Mitos’ em suma. Um cuidado que deve ser observado por todos que se dedicam a este assunto.

Ingênuas, marcadas talvez por certa dose de crueldade e frieza sim mas, de modo algum absurdas para a época, as propostas que animaram os sociólogos da primeira metade do século perderam a força exatamente quando se soube o que de fato elas representavam: Grosseiros equívocos. É isto que torna mais surpreendente o fato de existirem ainda hoje correntes de pensamento defendendo propostas semelhantes no Brasil, em pleno século 21, quando a panela de pressão da nossa conturbada sociedade já apita o sinal óbvio que diz:

_‘Cuidado! Abra a válvula que estamos prestes a explodir’.

A SALADA MISTA
e a sabedoria dos gibis

Há também, pode se observar embutida na argumentação, uma forçada e esdrúxula associação entre ‘nacionalismo retrógrado’ (de novo a xenofobia) e a ‘admissão de que há racismo no Brasil’. Admitir ou sugerir com um pouco mais de ênfase a existência de racismo no Brasil seria um comportamento ‘ultrapassado’, ‘de modè, expediente muito usado como uma – muito eficiente inclusive- tática para se desqualificar discursos antagônicos.

Esta questão, aliás, traz á luz o que parece ser o segundo eixo da questão: Afinal, porque será que em certos setores de nossa ‘inteligentsia’, se nega tanto e de forma tão estranhamente peremptória (com argumentos tão mal fundamentados), a existência de racismo no Brasil? Existiriam intenções nessa negativa tão insistente?

Negar a existência do monstro, todo mundo sabe, não vai jamais matar o bicho.

É preciso aprofundar também outros aspectos cruciais do racismo brasileiro (na verdade de todos os racismos). O fato de cientificamente não existirem raças não significa que não exista racismo. Não é um argumento pertinente nem mesmo aceitável. Vamos combinar, francamente: Racismo é um estúpido instrumento de dominação social, uma praga da humanidade. A sociedade brasileira é altamente excludente, certo? Não é preciso ser uma sumidade acadêmica para identificar qual é o instrumento de exclusão mais eficiente utilizado por aqui. Bingo para quem disser Racismo.

E vamos acabar também com esta falsa dicotomia: Problema Racial e Problema Social não são conceitos opostos ou divergentes. Um é a carne, o outro é a unha. Um não poderia, de modo algum, existir sem o outro.

Para qualquer um que sofre racismo ‘na pele’ fica evidente que o racista usa apenas um pretexto covarde, para discriminar: É fácil: Basta destacar uma diferença biológica qualquer e subestimá-la, demonizá-la, impondo uma marca, um estigma para identificar os portadores daquela suposta ‘deficiência’. O fisicamente diferente é declarado inferior e pronto. Do ponto de vista de quem quer discriminar, dependendo de seu interesse, ‘negros’ serão portanto, todos aqueles que, visivelmente, não se parecerem com ‘brancos’. No exercício da discriminação não existem ‘mulatos’, ‘mestiços’, ‘pardos’, todos são’ marrons’, inferiores, não por terem este ou aquele tom de pele, mas porque ‘não são brancos’. Ponto

Quando em minoria, no entanto, diante de algum interesse, alguma vantagem a ser obtida junto aos ‘marrons’, a hierarquização das ‘cores’ passa a ser muito proveitosa para a ‘raça’ hegemônica (a que está no poder). Pura política. A história humana está cheia de estratagemas como estes, nos quais com a finalidade de obter vantagens junto a um grupo estranho, nos associamos a um amigo ‘nativo’. É uma prática recorrente demais para não ser notada. Até mesmo nos saudosos gibis da infância de alguns de nós o arquetípico estratagema aparece.

Quem não sacou isto na função dramática do índio ‘Tonto’, amigão do Zorro norte americano ou na fidelidade á toda prova do gigante ’Lotar’, guarda costas do Mandrake. Quem não notou esta solidariedade esperta, interessada, no olhar do Fantasma, ‘Espirito- Que- Anda’ para o pigmeu Guran, seu fiel aliado, do alto do seu trono na caverna da caveira?

Descontando a paranóia nacionalista de alguns, no âmbito de nossa cultura contemporânea isto pode estar ocorrendo também com alguma freqüência. Você louva, aprende, assimila e pratica a cultura que um dia foi exclusiva (não que o pobre coitado quisesse se isolar) do negro ou do índio, do nordestino – tanto faz- mas não se importa muito que ele permaneça ad infinitun socialmente excluído, lá ‘no morro’, na selva ou no sertão. No processo você aprende a fazer Samba, Maracatu, a tomar chá do Santo Daime e a ficar doidão sem culpa. É bom. É politicamente correto. Dá a você um certo charme democrático, uma espécie de certificado de ‘responsabilidade social’ mas, e daí?

O problema é que ‘Ele’, o ‘Outro’, continua lá no seu canto, estressado de carências, fazendo o seu Funk pesadão. Cria-se assim (colocando os não brancos todos no mesmo saco) uma espécie de ‘Cultura negra sem negros’ e a gente não sabe muito bem no que isto vai dar. Se o cara não ficar rico fazendo Hip Hop, pode um belo dia dar um tiro em você.

Se for mesmo, como julgamos, além de uma mistificação cultural, uma impossibilidade genética em termos (não existem raças humanas, lembram-se?), A Mestiçagem, como conceito democratizador não passa mesmo é de um cruel sofisma. E esta tem sido a lógica do Sistema de castas ‘raciais’ no Brasil.

Todas as receitas de democracia racial (com ou sem eufemismo) em voga atualmente contêm um mesmo e azedo ingrediente, um mal crônico que lhes tira todo o sabor: Redistribuem valores culturais, garantindo a um certo grupo certas vantagens deles advindas, sem mudar as pessoas de lugar na pirâmide. Os que possuem quase tudo passam a possuir mais ainda. É a lógica fria de nossa elite predadora. A lei do mais forte. Qual é a novidade nisto aí?

(Agora, sem maniqueísmos, por favor)

Todo mundo sabe que este comportamento não é uma coisa assim percebida, exercida individualmente mas, é um procedimento, praticado pela grande maioria dos ‘brancos’ do Brasil, diariamente, muitas vezes até de forma ingênua, um comportamento padrão, arraigado, especializado por séculos de prática.

E saibam também que não é uma coisa fácil de extirpar não. É exatamente este o conteúdo subreptício, a essência de conceitos como a chamada ‘democracia racial’ e seus sucedâneos: dar sustentação, argumentos, justificativa teórica para esta deslavada contradição.

(Cabe aqui inclusive duas perguntinhas pra lá de capciosas: Ao propor a miscigenação geral como panacéia para os males do Brasil, da mesma forma que o ‘negro’, o ‘branco’ também desapareceria? Propor assim, de forma tão efetiva o desaparecimento de uma ou de outra ‘raça’ não é, classicamente, o mesmo que exercer racismo?)

Teorias… Um perigo latente para qualquer democracia, ainda mais a nossa que está patinando em sua reconstrução.

Como sempre – e pra finalizar- o melhor é dizer isto tudo com um Samba.

“Todo mundo era bom
todo mundo era legal
lá só dava gente bem
madame e fulano de tal
quando no meio da festa
reclamei com o Samuel:
Você diz que esta gente é honesta?
Já roubaram meu chapéu!

Não fico mais
em sua casa ô Samuel
aqui só tem eu de preto
mas não faço este papel

Não fico mais
em sua casa ô Samuel.
Você vai pagar meu chapéu”.

(Samba muito popular nos anos 70)

Spírito Santo, 2007

http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/2.5/br/