Salada Mista


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Foto Tadeu Brunelli
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Elogio á Mestiçagem, Democracia Racial e outros picantes ingredientes

“ O Neguinho gostou da filha da ‘madame’
Que nós tratamos de Sinhá.
Senhorita também gostou do Neguinho
Mas o Neguinho não tem dinheiro pra gastar
A ‘madame’ tem preconceito de cor
Não pode aceitar este amor.
Senhorita foi morar lá na ‘Colina’
Com o Neguinho
Que hoje é compositor.”

(Samba de Noel Rosa de Oliveira, e Abelardo da Silva, anos 60)

Existem várias analogias culinárias que podem ser feitas quando se fala das diferenças sócio culturais existentes na composição da população de um país e suas diversas possibilidades de mistura, amálgama, (no Brasil uma questão tornada particularmente complexa por conta de nossa peculiar estratificação sócio racial). Já foram tentadas várias receitas para tão ansiada refeição mas, até agora, nenhuma realmente apeteceu à clientela.

A primeira – e mais óbvia- analogia que me ocorre é a do Omelete, aquela que diz que para fazer um é preciso ‘quebrar os ovos’ . É a mais radical e cruel porque cria um problema terrível para a galinha, mãe eventual dos pobres pintinhos que nasceriam. A outra, mais ‘light’ é a da Vitamina, na qual um liquidificador mistura tudo numa pasta uniforme, fazendo os ingredientes originais, geralmente frutas ou legumes da estação, perderem inteiramente a, digamos assim, identidade.

Para mim, a mais pertinente é mesmo esta que uso agora, principalmente por causa da certa dose de ironia que ela contém: A Salada Mista. Nela os ingredientes se misturam, partilham algum tempero comum, mas mantêm-se íntegros, apesar de estarem picados em muitos pedacinhos. Acho a Salada Mista uma boa analogia para Diversidade Cultural.

Esta questão, a nosso ver, mãe de quase todas as contradições e conflitos brasileiros, está na discussão sobre as influências exercidas pelas culturas ditas ‘hegemônicas’ sobre culturas ditas mais frágeis (ingrediente principal da xenofobia). Neste ‘conversê’ sem fim sobre preservar ou não preservar a nossa ‘cultura popular’, ainda chamada por alguns de ‘Folclore (esta palavrinha tão vã que mais esconde do que explica o que quer mesmo dizer ‘Cultura do povo’).

Está na violência urbana, na contagem de corpos e nas balas perdidas que animam nossos debates cotidianos (afinal, quem morre mais, o favelado trabalhador quiçá traficante ou a classe média trabalhadora quiçá consumidora de drogas?). Está até nas conversas sobre o futuro de nossas crianças (afinal, um negão de 13 anos, com um metro e oitenta de altura merece ou não ser tratado como uma criança?). Está, em suma, contaminando todos os espaços do nosso cada vez mais tenso dia a dia.

O tema, passeando cada vez mais pelas entrelinhas deste nosso site, talvez seja hoje a mais importante questão brasileira: Entender, timtim-por-timtim, a maneira como, dividindo o Brasil em castas raciais se construiu (e se mantêm até hoje) uma das sociedades mais desiguais do planeta e, de como agora, extremamente divididos, porém, perdidos no mesmo ‘mato sem cachorro’, vamos nos livrar da arapuca social na qual, por pura babaquice e egoísmo nos metemos.

A conversa passeia também – e principalmente até- pelas centenas de subterfúgios e ‘panos quentes’ que boa parte de nossa elite bem pensante, a nossa indefectível Academia (ou ‘inteligentsia’, para usar, na falta de outro melhor, um termo já bem arcaico) e mesmo a nossa sociedade como um todo, se utilizam para desconversar, tergiversar e manter as coisas exatamente como estão.

Como estamos falando de gente, de cultura humana, a esta altura deve caber bem a pergunta: Qual receita seria a mais recomendada para conseguirmos (em se tratando de Brasil, é claro), uma sociedade sem conflitos sócio culturais tão violentos? (O garçom mais próximo pode fazer a pergunta : )

_ ‘Omelete, Vitamina ou a Salada Mista, freguês?’

A VITAMINA
Descrevendo as receitas

…”Ao que parece o termo (Democracia racial) foi usado pela primeira vez por Arthur Ramos (1943), em 1941, durante um seminário de discussão sobre a democracia no mundo pós-fascista (Campos 2002). Roger Bastide, num artigo publicado no Diário de S. Paulo em 31 de março de 1944, no qual se reporta a uma visita feita a Gilberto Freyre, em Apipucos, Recife, também usa a expressão, o que indica que apenas nos 1940 ela começa a ser utilizada pelos intelectuais. Teriam Ramos ou Bastide cunhado a expressão ou a ouvido de Freyre? Provavelmente, trata-se de uma tradução livre das idéias de Freyre sobre a democracia brasileira. Este, como é sabido, desde o meados dos 1930, já falava em “democracia social” com o exato sentido que Ramos e Bastide emprestavam à “democracia racial”; ainda que, nos seus escritos, Gilberto utilize a expressão sinônima “democracia étnica” apenas a partir de suas conferências na Universidade da Bahia, em 1943.

(Texto-tese de Antonio Sérgio Alfredo Guimarães -Departamento de Sociologia /Universidade de São Paulo)

Dos anos mais efervescentes do movimento abolicionista no Brasil à década de 30 do século seguinte, uma nova iguaria apeteceu a certa bem apessoada rapaziada: Elegantes em seus librés (logo depois envergando vistosos fraques em conferências internacionais), estes jovens rapazes gritariam em coro para o garçom:

_ ‘A vitamina, senhor! Vitamina para todos!’

É que preconizavam com um empenho falsamente cívico o que de melhor se poderia fazer com os escravos: desaparecer com aquela ‘mancha negra’ transformando os africanos, progressivamente (num processo de cem anos, diziam os mais cartesianos), em seres mistos, nem brancos nem pretos, mestiços (as teorias não explicam se no preparo da receita desapareceriam também os brancos).

A história da tese que ficou conhecida como ‘elogio á mestiçagem’, irmã dileta desta outra tese controversa, a ‘Democracia Racial’ é antiga. Ela esteve muito em voga até os anos 30 do século passado (na verdade ainda hoje é defendida por alguns seguidores). Seus principais formuladores, de uma ponta á outra, foram intelectuais como Silvio Romero, Graça Aranha, Joaquim Nabuco e, já no século 20 também entre outros, o sociólogo oficial do Brasil Gilberto Freyre.

Como se sabe, estas paradigmáticas teorias nasceram, pelo menos como conceito, como uma proposta que resolveria o problema gerado por aquela massa enorme de seres humanos negros que o sistema de trabalho escravo arrancou da África e espalhou pelo mundo, uma massa humana liberta por injunções muito mais econômicas do que humanitárias e, portanto a boca pequena considerada ainda pouco mais que escória.
Lentz, um dos personagens centrais do livro Canaã de Graça Aranha afirma a certa altura:

_”O homem brasileiro não é um factor do progresso: é um híbrido. E a civilização não se fará jamais nas raças inferiores” (…) “Não acredito que da fusão com espécies radicalmente incapazes resulte uma raça sobre que se possa desenvolver a civilização. Será sempre uma cultura inferior, civilização de mulatos, eternos escravos em revoltas e quedas. Enquanto não se eliminar a raça que é o produto de tal fusão, a civilização será sempre um mistério, o artificio (…) Até agora, não vejo probalidade da raça negra atingir a civilização dos brancos”.

Ao que Milkau, o personagem antagonista contrapunha, fazendo o seu ‘elogio da mestiçagem’:

_”O tempo da África chegará. As raças civilizam-se pela fusão; é no encontro das raças adiantadas com as raças selvagens, que está o repouso conservador, o milagre do rejuvenescimento da civilização “(…) Eu tenho para mim que o progresso se fará num evolução constante e indefinida”

O mito do homem mestiço: Eis aqui o que parece ser enfim a chave de tudo para esta corrente de pensamento. A quem interessaria tamanha utopia? A inexistência total de diferenças biotipicas ou (‘estético-raciais’) seria cientificamente possível? A simples padronização ‘racial’ das pessoas removeria, num passe de mágica, as diferenças sociais? Se não, para que serviria então?

É preciso, contudo, situar a questão em seu devido contexto histórico porque, se no campo da precária biologia do século 19, se considerava cabal a existência de superioridade racial entre seres humanos (que justificaria a assimilação – ou a diluição – de uma raça pela outra), hoje até o próprio conceito absoluto sobre a existência de raças humanas está superado. Assim, propor ou sugerir a ‘mestiçagem’ como solução para tão candente problema social, não era naquela época, uma idéia tão absurda assim. Menos mal.

É nesse contexto que devem ser considerados, por exemplo, certos aspectos bem sucedidos da sociologia de Gilberto Freyre (o que não deve redimir, de forma alguma, a perniciosidade e os equívocos clássicos de sua ideologia)

O OMELETE
(Pobres dos pintinhos)

Assim, ali por volta de 1930, 40, alguns europeus de bigodinhos, reunidos numa mesa ao fundo, ao serem inquiridos pelo garçom responderiam excitados:

_’Omeletes, senhor!’ De sobremesa, Vitaminas!’

É que para uns não havia jeito melhor de melhorar a raça humana do que separar os espécimes ‘superiores’, os ‘puro sangue’, os de ‘pedigree’ e desaparecer com o resto, inclusive os ‘vira-latas’, transformando a ralé em torrada, num forno crematório qualquer.

Para outros, contudo, o desaparecimento dos ‘inferiores’ deveria se dar por meio de métodos mais científicos ou ‘humanitários’: Um liquidificador genético resolveria o problema. Um projeto que, como veremos a seguir, não tinha mesmo nada de científico (e muito menos de humanitário).

(Aqui, antes de tudo, uma necessária afirmação de firme e ampla discordância diante dos partidários da Vitamina ou da Mestiçagem. É preciso – me permitam – fazer uso da ênfase nesta hora, á este ponto de uma questão que é por razões óbvias, crucial).

Frisemos que o contexto onde atuaram Gobineau, Lombroso, Chamberlain, Nina Rodrigues e, porque não dizer, Gilberto Freyre, foi o mesmo que gerou as teorias nazistas na década de 30. Não foram idéias apenas simplificadoras’ ou ‘evolucionistas’. Foram idéias profunda e claramente interessadas em criar um novo paradigma de civilização, um método ‘científico’ para a classificação e a sujeição de pessoas, num novo ambiente geopolítico denominado Colonialismo.

Apenas para exemplificar o alto grau de assumida perniciosidade destas idéias, basta citar o trabalho militante do próprio Gilberto Freyre, no final da década de 30 do século 20, a serviço do governo ditatorial de Antonio de Oliveira Salazar, como um dos ideólogos que contribuiram para a criação e a implantação de um sistema institucional de controle e subjugação das populações das colônias de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau e Príncipe denominado ‘Lei do Indigenato’, código similar aquele engendrado pelos africâners, na África do Sul, que dispensa comentários: o insidioso ‘Apartheid’.

O antropólogo angolano José Maianga, em texto publicado pela Revista afro-lusitana África, a este respeito nos esclarece cabalmente o seguinte:

“O indigenato, institucionalizado pelo regime salazarista (‘Estatuto dos Indígenas Portugueses das Províncias da Guiné, Angola e Moçambique’) era um diploma aplicado apenas às situações jurídicas dos indígenas africanos num país que, constitucionalmente, se dizia subordinado ‘à moral ao direito e às garantias e liberdades individuais’.

Este diploma traduzia, sem dúvida, a sujeição plena dos africanos ao colonizador e a uma prática assimiliacionista que se afundava no mar de contradições por onde navegava…”

As afirmações não são de forma alguma novas. Alguns estudiosos estão no momento fazendo uma ampla revisão da obra de Freyre neste mesmo sentido. As idéias originais dele, no entanto, impregnadas em quase tudo que se escreveu sobre o negro – e os pobres- do Brasil -, estão infelizmente, ainda em voga por aí e, o que é pior, defendidas por novas teorias e embasamentos que tentam afirmar Freyre como uma espécie de gênio mal lido e incompreendido.

Não é possível, portanto, entender os processos de evolução da cultura brasileira, por exemplo, dissociando-os deste contexto sombrio que o cineasta Ingmar Bergmam, muito apropriadamente chamou num filme clássico de “O Ovo da Serpente”

No Haiti não existem ‘brancos’. Lá, a classe média ‘mulâtre’ oprime os ‘mais’ negros. O nazismo separava pessoas absolutamente brancas e as mandava á morte, baseando-se em diferenças físicas cosméticas: um nariz mais adunco, olhos pretos, etc. Claro que racismo não tem nenhum fundamento ‘científico’ ou ‘biológico’. Se baseia em pretextos, desculpas esfarrapadas.’Mitos’ em suma. Um cuidado que deve ser observado por todos que se dedicam a este assunto.

Ingênuas, marcadas talvez por certa dose de crueldade e frieza sim, mas, de modo algum absurdas para a época, as propostas que animaram os sociólogos da primeira metade do século perderam a força exatamente quando se soube o que de fato elas representavam: Grosseiros equívocos. É isto que torna mais surpreendente o fato de existirem ainda hoje correntes de pensamento defendendo propostas semelhantes no Brasil, em pleno século 21, quando a panela de pressão da nossa conturbada sociedade já apita o sinal óbvio que diz:

_‘Cuidado! Abra a válvula que estamos prestes a explodir’.

A SALADA MISTA
e a sabedoria dos gibis

Há também, pode-se observar embutida na argumentação, uma forçada e esdrúxula associação entre ‘nacionalismo retrógrado’ (de novo a xenofobia) e a ‘admissão de que há racismo no Brasil’. Admitir ou sugerir com um pouco mais de ênfase a existência de racismo no Brasil seria um comportamento ‘ultrapassado’, ‘de modè, expediente muito usado como uma – muito eficiente inclusive- tática para se desqualificar discursos antagônicos.

Esta questão, aliás, traz á luz o que parece ser o segundo eixo da questão: Afinal, porque será que em certos setores de nossa ‘inteligentsia’, se nega tanto e de forma tão estranhamente peremptória (com argumentos tão mal fundamentados), a existência de racismo no Brasil? Existiriam intenções nessa negativa tão insistente?

Negar a existência do monstro, todo mundo sabe, não vai jamais matar o bicho.

É preciso aprofundar também outros aspectos cruciais do racismo brasileiro (na verdade de todos os racismos). O fato de cientificamente não existirem raças não significa que não exista racismo. Não é um argumento pertinente nem mesmo aceitável. Vamos combinar, francamente: Racismo é um estúpido instrumento de dominação social, uma praga da humanidade.

A sociedade brasileira é altamente excludente, certo? Não é preciso ser uma sumidade acadêmica para identificar qual é o instrumento de exclusão mais eficiente utilizado por aqui. Bingo para quem disser Racismo.

E vamos acabar também com esta falsa dicotomia: Problema Racial e Problema Social não são conceitos opostos ou divergentes. Um é a carne, o outro é a unha. Um não poderia, de modo algum, existir sem o outro.

Para qualquer um que sofre racismo ‘na pele’ fica evidente que o racista usa apenas um pretexto covarde, para discriminar: É fácil: Basta destacar uma diferença biológica qualquer e subestimá-la, demonizá-la, impondo uma marca, um estigma para identificar os portadores daquela suposta ‘deficiência’. O fisicamente diferente é declarado inferior e pronto.

Do ponto de vista de quem quer discriminar, dependendo de seu interesse, ‘negros’ serão portanto, todos aqueles que, visivelmente, não se parecerem com ‘brancos’. No exercício da discriminação não existem ‘mulatos’, ‘mestiços’, ‘pardos’, todos são’ marrons’, inferiores, não por terem este ou aquele tom de pele, mas porque ‘não são brancos’. Ponto

Quando em minoria, no entanto, diante de algum interesse, alguma vantagem a ser obtida junto aos ‘marrons’, a hierarquização das ‘cores’ passa a ser muito proveitosa para a ‘raça’ hegemônica (a que está no poder). Pura política.

A história humana está cheia de estratagemas como estes, nos quais com a finalidade de obter vantagens junto a um grupo estranho, nos associamos a um amigo ‘nativo’. É uma prática recorrente demais para não ser notada. Até mesmo nos saudosos gibis da infância de alguns de nós o arquetípico estratagema aparece.

Quem não sacou isto na função dramática do índio ‘Tonto’, amigão do Zorro norte americano ou na fidelidade á toda prova do gigante ’Lotar’, guarda costas do Mandrake. Quem não notou esta solidariedade esperta, interessada, no olhar do Fantasma, ‘Espirito- Que- Anda’ para o pigmeu Guran, seu fiel aliado, do alto do seu trono na caverna da caveira?

Descontando a paranóia nacionalista de alguns, no âmbito de nossa cultura contemporânea isto pode estar ocorrendo também com alguma frequência. Você louva, aprende, assimila e pratica a cultura que um dia foi exclusiva (não que o pobre coitado quisesse se isolar) do negro ou do índio, do nordestino – tanto faz- mas não se importa muito que ele permaneça ad infinitun socialmente excluído, lá ‘no morro’, na selva ou no sertão.

No processo você aprende a fazer Samba, Maracatu, a tomar chá do Santo Daime e a ficar doidão sem culpa. É bom. É politicamente correto. Dá a você certo charme democrático, uma espécie de certificado de ‘responsabilidade social’ mas, e daí?

 O problema é que ‘Ele’, o ‘Outro’, continua lá no seu canto, estressado de carências, fazendo o seu Funk pesadão. Cria-se assim (colocando os não brancos todos no mesmo saco) uma espécie de ‘Cultura negra sem negros’ e a gente não sabe muito bem no que isto vai dar. Se o cara não ficar rico fazendo Hip Hop, pode um belo dia dar um tiro em você.

Se for mesmo, como julgamos, além de uma mistificação cultural, uma impossibilidade genética em termos (não existem raças humanas, lembram-se?), A Mestiçagem, como conceito democratizador não passa mesmo é de um cruel sofisma. E esta tem sido a lógica do Sistema de castas ‘raciais’ no Brasil.

Todas as receitas de democracia racial (com ou sem eufemismo) em voga atualmente contêm um mesmo e azedo ingrediente, um mal crônico que lhes tira todo o sabor: Redistribuem valores culturais, garantindo a certo grupo certas vantagens deles advindas, sem mudar as pessoas de lugar na pirâmide. Os que possuem quase tudo passam a possuir mais ainda. É a lógica fria de nossa elite predadora. A lei do mais forte. Qual é a novidade nisto aí?

(Agora, sem maniqueísmos, por favor)

Todo mundo sabe que este comportamento não é uma coisa assim percebida, exercida individualmente, mas, é um procedimento, praticado pela grande maioria dos ‘brancos’ do Brasil, diariamente, muitas vezes até de forma ingênua, um comportamento padrão, arraigado, especializado por séculos de prática.

E saibam também que não é uma coisa fácil de extirpar não. É exatamente este o conteúdo subreptício, a essência de conceitos como a chamada ‘democracia racial’ e seus sucedâneos: dar sustentação, argumentos, justificativa teórica para esta deslavada contradição.

(Cabe aqui inclusive duas perguntinhas pra lá de capciosas: Ao propor a miscigenação geral como panacéia para os males do Brasil, da mesma forma que o ‘negro’, o ‘branco’ também desapareceria? Propor assim, de forma tão efetiva o desaparecimento de uma ou de outra ‘raça’ não é, classicamente, o mesmo que exercer racismo?)

Teorias… Um perigo latente para qualquer democracia, ainda mais a nossa que está patinando em sua reconstrução.

Como sempre – e pra finalizar- o melhor é dizer isto tudo com um Samba.

“Todo mundo era bom
todo mundo era legal
lá só dava gente bem
madame e fulano de tal
quando no meio da festa
reclamei com o Samuel:
Você diz que esta gente é honesta?
Já roubaram meu chapéu!

Não fico mais
em sua casa ô Samuel
aqui só tem eu de preto
mas não faço este papel
Não fico mais
em sua casa ô Samuel.
Você vai pagar meu chapéu”.

(Samba muito popular nos anos 70)

Spírito Santo

Abril,  2007

http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/2.5/br/

Um, Dois, Feijão com Arroz


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Hibridismo Cultural e Mestiçagem

“_O conceito de Hibridismo Cultural converge com a idéia de Mestiçagem que você combate?”…

“_Não. O conceito Hibridismo Cultural não converge, de modo algum, com a idéia de Mestiçagem que eu combato, além do que…”

(Eu, respondendo à alguém que, num dia destes, escreveu a pergunta na borda de uma página do jornal O’ Globo, acerca de duas matérias sobre a questão racial no Brasil)

A resposta – de longa e cabeluda – virou este post.

Culturas híbridas por natureza
Por falar em Diversidade…

Para começar, Hibridismo cultural poderia ser visto como um conceito apenas proposto, descoberto, porque tudo indica que sempre foi uma lei da natureza, tendo a ver, diretamente e no geral com Diversidade.

(Uma idéia puxa outra que puxa a outra que puxa outra… e por aí vai).

O brilhante antropólogo Néstor Garcia Canclini estaria citado aqui sim, com todos louros àquele que, a partir das pistas salpicadas aqui e ali por seus antecessores, capturou com clareza o sentido de um fenômeno social bastante complexo, sistematizando-o no âmbito de sua inovadora antropologia, sempre na intenção de explicar de modo mais aberto e franco possível, o sentido fugidio da natureza humana neste nosso confuso e admirável Mundo Novo.

É por conta desta lenta, porém, segura evolução do pensamento do homem sobre si mesmo expresso na obra de Canclini, entre outros, que hoje já podemos, pelo menos sugerir que a Cultura humana deve – e a Educação também deveria – significar diferentes maneiras de se abordar ou compreender uma mesma coisa, ou vários modos de se realizar uma mesma tarefa, diversos caminhos para se chegar a um mesmo lugar (que, afinal, é quase sempre uma encruzilhada), ou em algum daqueles muitos caminhos que levam à Roma (mesmo para quem não está nem aí para ver o Papa), nesta nossa eterna busca por um destino mais feliz.

–“O Caos e Acaso são a mola e o dínamo do universo!” – Diria aquele sujeito velho e barbudo que assistiu, de camarote ao Big Bang.

O Hibridismo cultural parece ser mesmo uma atitude humana atávica sim porque, pelo que nos poderiam dizer neurocientistas como o Oliver Sachs , ou linguistas como Noam Chomsky, por exemplo, está relacionado à plasticidade maravilhosa do cérebro humano, nossos sentidos, transformando informações apreendidas aqui e ali, num turbilhão de emoções que, por sua vez, se transformando nos mais variados tipos de sinapses e memórias, multiplicadas aos milhões, se transfiguram em nexos, linguagens e conceitos, dos mais concretos aos mais abstratos ou absurdos.

E assim como são as pessoas, seriam as comunidades, as sociedades.

O conceito pode ser considerado, intrinsecamente, humano também porque Cultura sempre pressupõe feedback, transmissor+receptor interagindo, alternando-se, confundindo-se por vias expressas e inversas (porém, nunca estanques).

Mão e contra mão. O Meio virando a Mensagem (e vice versa). Sinergia, movimento, vida.

Gosto muito, nestes momentos, de citar a Música, uma linguagem onde conceitos como Primitivismo e Modernidade carecem, absolutamente de sentido porque a Música (o Som) é um fenômeno que se dá, concomitantemente ao longo do Tempo e do Espaço, área difusa onde o que é passado pode ser também, do mesmo modo, presente ou, até mesmo, futuro.

O fenômeno do hibridismo cultural é pois assim, como a Lei da Relatividade (que já existia antes de Einstein a descobrir). Atemporal e imponderável. Arte e Ciência. Mágica e lógica, ao mesmo tempo.

Seria inconcebível um mundo feito de energia funcionar de outra forma. Uma coisa sempre conteve um pouco da outra. Sim, tudo na natureza – e na cultura dos homens, por extensão – é como carne e unha.

No Socialismo, no Capitalismo, na pré ou na pós-modernidade sempre foi – e, ao que parece, sempre será – mais ou menos, assim (e que novas tecnologias de inteligência artificial não nos contradigam um dia)

_…” As coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender.”_ Já dizia Paulinho da Viola, naquele samba clássico.

Toda mentira tem perna curta
Mas, nem sempre têm um fundo de verdade

Miscigenação não. Aí já se está falando de um conceito artificial, inventado (ou imposto), um conceito desumano (no sentido espúrio da palavra) porque fere, deliberadamente, os princípios mais elementares de nossa natureza.

Transitando por este mesmo assunto, tentei dizer isto naquela outra matéria chamada ‘Salada Mista’ .

É que a velha fonte destas ‘modernas’ teses sobre miscigenação no Brasil, parece mesmo ser a teoria, genericamente, conhecida como Elogio à mestiçagem que propõe, no fundo – nem tão no fundo assim – a diluição das raças, supondo, diabolicamente, que possa haver algum tipo de ganho ou ‘evolução biológica’ (e, conseqüentemente, social, cultural, enfim), a partir de uma ‘mistura’, uma ‘química’, na qual dois elementos, se fundindo, acabariam por se anular, mutuamente, gerando um terceiro elemento ‘melhorado’ e, portanto, geneticamente ‘superior‘ aos dois outros que o geraram.

(Cavernosa teoria. Que tipo de pessoa seria capaz de ficar arquitetando e mastigando idéias assim tão ácidas e venenosas? Com que interesses ou intenções?)

Observem, atentamente, que o ser resultante desta ‘química’, no caso, o Mestiço (aquele que não é nem uma coisa nem outra) ou o Mulato (literalmente o cruzamento entre uma mula e um cavalo), anunciado como sendo superior, geneticamente, aos elementos que o geraram, é sem dúvida, uma entidade, eminentemente racial.

(Homoracial, poderíamos dizer, já que é o inverso da diversidade genética antes existente).

Uma quimera , um frankeinstein social, para usar uma imagem mais enfática.

Ora, vista sob este prisma, a teoria da Mestiçagem é ou não é, tecnicamente, uma tese racista?

A partir da criação artificial de um biotipo ‘menos negro’ (a abolição física do negro, portanto), sub-repticiamente, de mistura em mistura sobreviveria apenas uma raça. Qual? Bingo! A Branca.

Este aspecto sutil, esta subliminaridade contida nesta proposta de mestiçagem, pode denotar a intenção velada, de se destruir apenas um dos elementos da equação, anulando a alegada diferença entre as duas supostas raças.

Ontem o pretexto era acabar com a nossa inferioridade biotípica nacional. Fracassado o projeto de extinção das diferenças raciais no Brasil (previsto no século 19 para durar 100 anos), hoje, a causa é desqualificar a pertinência da adoção de ações reparadoras dos males e seqüelas sociais resultantes da escravidão e do racismo perpetuado (cuja manutenção foi, aliás, ironicamente justificada por estas mesmas teorias).

Como Meio, a deposição da diversidade, a evolução fraudada. Como Fim, a perpetuação de privilégios coloniais.

Por isto, é bom se ressaltar também que, no campo de debate, digamos assim, mais acadêmico, a confusão estabelecida entre Hibridismo Cultural e Mestiçagem é, pelo menos para mim, completamente artificial e propositalmente criada para confundir mesmo (no que aliás, tem sido bem eficiente, pelo menos com os mais crédulos).

_”‘Uma insanidade digna de tarados”_ Diria alguém mais desprovido de fino trato.

O Sofisma de Galton
O primo rico e o primo pobre

Pois saibam os que ainda não sabiam – e fiquem de cabelo em pé sem medo de vexame –  que Charles Darwin , gênio da Teoria da Origem e da Evolução das Espécies, apóstolo da Diversidade, tinha um primo (dizem que também cunhado) que era grande admirador da extraordinária obra do parente. Ele (pobre apenas de genialidade já que, na verdade, era tão rico quanto Darwin) se chamava Francis Galton e foi quem criou a teoria da Eugenia ou do ‘depuramento genético’, que aparece como marca indelével na alma destas teorias de miscigenação aqui aludidas.

(Idéia pela qual, como já disse em outra oportunidade, além de figuraças como Chamberlain , Gobineau e Lombroso, militaram também, entre outros brasileiros adeptos de primeira hora, Nina Rodrigues e Gilberto Freire).

Segundo esta estapafúrdia teoria (grosseiramente baseada no trabalho de Darwin, mas, muito calcada nas teses de Gregor Mendel) se poderia ir identificando supostos defeitos genéticos em certos tipos humanos ‘degenerados’ e, gradativamente, ir se criando restrições à procriação destes indivíduos, portadores destes eventuais ‘defeitos de fábrica’, criando obstáculos legais para o casamento entre eles, esterilizando-os, ou mesmo assassinado-os em genocídios programados como mais tarde fizeram os nazistas, a partir destas mesmas idéias….‘científicas’ (e os admiradores de Galton, curiosamente afirmam que ele não teve nada a ver com isto).

(Pesquisando, agora mesmo, algumas imagens sobre o tema, tive que parar a busca por causa da náusea e dos engulhos provocados pela visão de tantas aberrações perpetradas em nome destas teorias)

Desta forma, segundo o outrora respeitadíssimo Galton, se iria depurando a espécie humana (vejam bem, só por aí, a que tipo de armadilha social pôde nos levar a ‘admiração‘ de Galton pela obra do primo).

Darwin, como sabemos, propôs em 1859 – e provou – que a natureza, através de um processo muitíssimo lento e meticuloso, ao longo de milhares, milhões de anos às vezes, iria selecionando o melhor de cada uma das espécies existentes na natureza. Era a evolução flagrada, testemunhada, a partir de uma lógica de um sistema planetário, ecológico, inquestionável.

Galton (não se sabe se por admiração ou para suplantar o primo-cunhado), se propôs a fazer a partir de 1865, exatamente, a mesma coisa, só que, apenas com…gente, e bem rapidinho, substituindo a lógica da natureza pela discricionária vontade de um grupo qualquer (uma elite de cientistas, talvez) que tivesse poder sobre os demais. Uns decidindo quais características biológicas, genéticas (e, portanto‘ raciais’) mereceriam se tornar hegemônicas na humanidade.

Sacaram aí onde se poderia encaixar, facilmente, a teoria da mestiçagem?

(Curiosamente este processo – conhecido, a grosso modo, como Engenharia Genética – é muito utilizado hoje em dia na produção de alimentos na indústria e na agricultura, como no caso dos transgênicos).

O mais surpreendente é que Galton não tenha se dado conta da estupidez flagrante desta sua tal de Eugenia, mesmo depois de ter descoberto – sim, ele mesmo! – a papiloscopia, eficiente e, até hoje, insuperável recurso utilizado na identificação de criminosos, ou mesmo indivíduos em geral, baseado na análise de vestígios conhecidos como impressões digitais, prova cabal de que nós, seres humanos, apesar de semelhantes, somos seres individualizados, realmente únicos, inigualáveis, o que cria obstáculos insuperáveis para que se possa controlar, cientificamente, o resultado de uma mistura de gente assim com gente assado.

A teoria do Galton, logo se viu (pelo menos para nós humanos), era lixo puro. Deveria ter desaparecido com Joseph Mengele, mas, como se vê, ela sempre ressurge como uma hidra reciclada, a nos assombrar com a suas mil cabeças e sentidos maquiavélicos.

Hoje em dia, no calor de discussões sobre a necessidade de se reparar ou não (e de que forma) danos e injustiças evidentes de um sistema social iníquo que, surgido sob as bases do sórdido escravismo colonial, por intermédio da subalternização de pessoas, a partir de então identificadas – e hierarquizadas – pelos traços físicos e evidências de sua maior ou menor ancestralidade africana ou indígena (ou não branca, em suma) como vetustos fantasmas eruditos, as bases mais evidentes daquelas teorias parece que estão sendo ressuscitadas por aí.

Alguns subestimam as evidências, julgando-as mera ‘teoria da conspiração’, mas há que se refletir bastante, acerca das reais intenções de reações e oposições que, se apoiando, de forma muitas vezes capciosa, em sofismas evidentes (além de certas distorções semânticas), podem ser classificadas como causa militante de um articulado grupo que chamo, simplesmente de  Anti-abolicionistas tardios.

Então, recapitulando só para clarear:

1- O conceito Miscigenação ou Mestiçagem (no sentido estrito com que a palavra é utilizada nesta discussão) parece ter relação direta com as teorias racistas que distorceram – com o intuito talvez de embasar, teoricamente, o neo-colonialismo – o conceito Diversidade, inaugurado por Charles Darwin, fundado, como se sabe, no princípio da Evolução Natural das Espécies, modernamente inserido nas discussões sobre a degradação ambiental do planeta, sob o nome de Bio-Diversidade.

2-‘Elogio à mestiçagem’, ‘Evolução artificial’ ou ‘Eugenia positiva’, se parecem com formas, espertamente, abrandadas de se definir aquelas mesmas ideologias racistas, que julgamos, até prova em contrário, varridas da história da humanidade, por culpa de suas perniciosas e notórias consequências, devidamente atestadas no passado.

3- O conceito Hibridismo, entendido aqui como um processo cultural contemporâneo, ligado ou não à modernidade de nossa civilização ora globalizada, não contradiz o princípio Diversidade porque Híbrido em nenhum aspecto NÃO quer dizer, de modo algum, diluído, misturado.

“Híbrido designa um cruzamento genético entre duas espécies vegetais ou animais distintas, que geralmente não podem ter descendência devido aos seus genes incompatíveis. Este fenômeno foi estudado pela primeira vez em plantas por Kölreuter durante o século XVIII, embora existam citações mais antigas sobre esse assunto, tanto em plantas como em animais.

Algumas dessas novas espécies ainda são produzidas até hoje através do cruzamento entre espécies, essencialmente para serem usadas como atrações de shows e locais turísticos. Atualmente, os cientistas estão tentando recriar o mamute, animal pré-histórico, através de inseminação artificial de sêmen destes animais (que foram encontrados congelados em algumas partes do planeta) em fêmeas de elefante, que são seus parentes modernos. Se conseguirem, este animal será um híbrido de elefante com mamute, e provavelmente também será estéril.”

(Confira em wikipédia)

As aparências…

(Fico surpreso mesmo é que exista tão pouca gente debatendo, contrapondo, publicamente, as afirmações equivocadas e perniciosas desta gente aqui no Brasil, principalmente em órgãos da imprensa como o jornal O’ Globo).

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O mesmo Charles Darwin, coerentemente, quando esteve no Brasil em 1832, manifestou a sua firme decepção diante da nossa aguda crueldade social (indignado com a escravidão).

Incrível que já se tenham passado bem mais de cento e cinqüenta anos sem que, quase nenhuma alteração em nossas relações sócio-raciais possa ser, claramente, vislumbrada no horizonte.

Nenhum pequeno navio chamado ‘Beagle’ ancorado ao largo. Nenhuma espécie de real evolução à vista.

Spírito Santo

Janeiro 2008

(Êpa! Alto lá! Porque você não leu os links? Saiba que o molho do post está neles)

Ausländer haus, negão!


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(Foto de Angel Gonzales)

Intolerância também é cultura

Em 1992 eu morava em Viena, Áustria. Já estava por lá há três anos, de certo modo cansado de tanta civilização e morrendo de saudades daquela saudável bagunça brasileira, cuja lembrança, nos fazia tão bem, às vezes.Além da overdose de ordem e civilização, mesmo depois de tanto tempo por lá, ainda me surpreendia com a quase total ausência de rejeição da população local, diante de pessoas com o meu perfil e o da minha família: Negros brasileiros, muito parecidos com os cubanos, com os caribenhos, com os norte-americanos, um pouco com os africanos, negros em suma, quase em nada parecidos com eles, os austríacos.

A estranheza vinha, principalmente, do fato de não ser, absolutamente, esta a maneira como éramos tratados no Brasil, sempre que circulávamos por áreas como a Zona sul do Rio de Janeiro, por exemplo, onde a estratificação social é bem determinada, dividida entre ‘Brancos’ (habitantes das ruas elegantes, os ‘patrões’ e as ‘madames’) e ‘Negros’ ou ‘Paraíbas’ (habitantes das favelas e dos subúrbios, os empregados ou serviçais).

Não percebíamos isto, tão claramente, quando estávamos ainda por aqui, é verdade. É que já estávamos acostumados. Foi só em Viena que isto nos chamou mesmo a atenção. Lá só havia, a princípio, a curiosidade e o respeito diante dos estrangeiros que éramos (turistas, talvez pensassem).

Aqui, quase sempre, os olhares de desconfiança ou de desdém (bandidos, desclassificados, seres inferiores, pensavam, com toda certeza). Gosto desta descrição assim, sem nenhuma filigrana ou arroubo sociológico porque ela é bem clara, síntese perfeita do que realmente ocorre, de como a coisa é vista, assim, do lado de cá da cerca.

A estranheza com relação a como éramos tratados lá e aqui era maior ainda porque, como bem sabemos, praticamente não existem brancos no Brasil. Os ‘brancos’ do Brasil, seriam tratados lá como… árabes, talvez. Isto ficava límpido e claro para nós quando cruzávamos com aqueles milhares de seres louros de olhos azuis, grande maioria da população vienense.

Porque seria que aquelas pessoas tão descaradamente brancas, nos tratavam assim tão bem? Sem nenhum receio, às vezes com certa curiosidade até, pedindo licença para passar o dedo na pele dos mais escuros para confirmar se não era pintada? Me recordo de várias vezes, ao necessitar de alguma informação, de ser atendido por duas ou três pessoas, uma disputando com a outra, a chance de nos ser gentil.

Mas havia sim, um leve incômodo na nossa relação com os austríacos: Éramos, invariavelmente, chamados por eles de Africanisches (africanos), seja lá qual fosse a nossa origem ou do tom de nossa pele. Todos os negros que circulassem pelas ruas de Viena, fossem cubanos, norte americanos, para eles seriam africanisches.

O adjetivo ganhava contornos bem desagradáveis quando, espertos, cometíamos algum ato inaceitável para as regras sociais deles, tais como jogar papel e guimbas de cigarro na rua, falar alto, andar no bonde sem pagar, urinar na rua, etc. Aí o termo nos era lançado com todo o rancor de um xingamento, quase uma maldição: Africanisches! Muitas vezes até complementavam a injúria com o que, para eles, eram horríveis palavrões: Mohr! Negger! (que no Brasil corresponderia aos populares Crioulo! Macaco!)

Curiosas analogias pude constatar depois, estudando o assunto.

Africanisches todos nós éramos porque, do ponto de vista deles, descendentes de africanos, africanos são. Mohr viria de Mouro, palavra portadora do extremo ódio que, até hoje, as pessoas daquela região tem pelos árabes que invadiram e dominaram grande parte da Europa, deixando marcas profundas na cultura deles, entre as quais os arabescos e capitéis da curiosa arquitetura do Stephandomme (a Catedral de São Estevão) e a prática do islamismo em certas partes dos bálcãs (notadamente na antiga Iugoslávia), são marcas eloqüentes.

Como mais um dado a ser inserido na conversa, alguns brasileiros me contaram também, que já haviam presenciado senhoras indignadas com algum mal feito de um africanische, sendo multadas por policiais, na rua, porque se excederam na virulência dos xingamentos. Logo, havia intolerância racial na Áustria sim. Haviam inclusive leis contra o racismo. O que não havia por ali era hipocrisia.

A Áustria, como se sabe, é a terra de Adolf Hitler, ali nasceu a semente do Nazismo, o ovo da intolerância. As estúpidas e inconseqüentes razões do racismo fermentaram ali, do mesmo modo que as frágeis idéias de resistência contra a intolerância racial e as injustiças sociais de qualquer ordem também por ali vicejaram.

Ali viveu Sigmund Freud, Beethoven, Schümann, por ali passaram Karl Marx e Frederick Engels, Einstein, Mozart. Não podemos esquecer também de que, em Viena residem, ainda hoje, muitos descendentes, diretos, dos milhares de mortos dos campos de concentração nazista.

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Em Viena morei em quase todos os bairros. Desde o Grinzing, no bezirk (distrito) 15, o bairro nobre (mais ou menos como uma barra da Tijuca com morros e sem praia), até o suburbano Gumpendorfstrasse. No Grinzing reside gente rica ou moderna, artistas e intelectuais. Ali se curte a vida boêmia, a cultura alternativa, a diversidade racial, cultural e tudo que há de bom na Europa.

Em bairros como Gumpendorfstrasse moram os pobres, o povão. Circulando entre um bairro e outro tive uma lição de sociedade e pude compreender melhor como caminha a humanidade e, enfim, saber com quantos paus se faz a canoa que pode nos levar, dependendo apenas de nosso discernimento, para a civilização ou para a barbárie.

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A vida no apartamento que dividíamos com outra família, era bem tensa. Bairro popular, composto por prédios antigos, do tempo da segunda guerra mundial, no Gumpendorfstrasse não era hábito morarem estrangeiros. Quanto mais negros. Encontrávamos os habitantes locais todo dia, na pracinha do bairro, passeando com seus cachorros. Velhos, em sua maioria. Quase nenhum jovem ou criança, pelo menos à vista.

Quando cruzavam conosco, olhavam para nós com um misto de curiosidade e um mal disfarçado desprezo, cumprimentando-nos por entre os dentes com um ‘guten Tag!‘ ou um ‘guten abend!‘ formal. Alguns, mais atirados, as vezes nos inquiriam, querendo saber de onde vínhamos e quanto tempo ficaríamos por ali. Nestes momentos de inquirição, sorriam dissimuladamente. Nunca usavam, no entanto, como já disse, aquela sutil hipocrisia daqui do Brasil.

A dissimulação dos sorrisos ficava evidente porque o Strassenbahn (bonde) que nos levava de Gumpendorfstrasse até a estação do metrô, que por sua vez, nos levaria ao centro de Viena, tinha a fórmica dos anteparos dos bancos pichadas à caneta hidrocor, com frases que entendíamos muito bem:

_‘Ausländer haus!’- (‘fora estrangeiros! ‘).

A primeira vez que vi a frase assim, diante de mim, gelei da cabeça aos pés. É que ela estava ilustrada com uma inconfundível suástica vermelha. Os outdoors do caminho também continham a mesma suástica com a mesma palavra de ordem assustadora: ‘Ausländer haus!’ Em algumas destas pichações a frase era complementada com mais ênfase ainda:

‘Ausländer Tod! (Morte aos estrangeiros! ‘)

Quem escrevia aquelas frases? Estava claro que só poderiam ser jovens suburbanos, punks de periferia, neonazistas, filhos daqueles vizinhos francamente inamistosos. A gente via estes jovens, sempre, alguns de roupa preta, circulando pelos vagões do metrô, em bandos. Os africanos e brasileiros, nossos conhecidos, já haviam nos alertado para não ficar perto deles, porque costumavam furar estrangeiros com armas brancas.

Eu era apenas um músico brasileiro em Viena. Cantava e tocava na noite. Estava acostumado a cortar a cidade a pé, cruzando a neve, na alta madrugada, rumo à Gumpendorfstrasse, sempre que a grana não cobria o táxi e não havia mais metrô circulando. Eram mais de duas horas de trajeto. Fumava bem uns quatro cigarros neste caminho, para esquentar os beiços. Numa destas noites, os cigarros acabaram antes do tempo. Pensei comigo:

_”Nenhum problema. Entro naquele gasthaus (bar ‘pé sujo’), pego um bom maço de Hobby na cigarreten machine e pronto. ‘

Mas havia um homem na porta do gasthaus com um cão pastor alemão na coleira. Devia ser o dono do estabelecimento. Achei estranho ele não ter se afastado para a minha passagem. Tentei mais um vez e o cão rosnou, ameaçador. O homem nem me olhou, impassível. Aturdido com a situação, desisti de fumar e segui meu rumo, preocupado com a cena.

A frieza dele foi o que mais me assustou. Ela me lembrou outro incidente, também muito estranho, ocorrido num dia em que eu fui assinar um contrato para um show num bar latino. Eu andava pela calçada distraído. O bairro era tranqüilo, de periferia. Um barulho de freada e minha atenção foi atraída pela seguinte situação:

Um homem gordo, atarracado, com um solidéu na cabeça, árabe, por assim dizer, segurava uma bicicleta minúscula, de seu filho talvez, com o celim alto para que lhe servisse na altura. Engraçada a figura. O sinal havia fechado e um carro conversível vermelho – um Lambourghinni talvez – pilotado por um austríaco jovem e bem vestido, havia esbarrado na bicicleta do árabe, quase o derrubando. O austríaco, com o carro engrenado, não se moveu. Não dispensou sequer um olhar para o árabe, ignorando-o.

Indignado com a indiferença do outro, o árabe se aproximou dele e o recriminou, severamente, ainda com educação. O austríaco não se moveu.

O árabe xingou o homem, de tudo quanto foi , pelo que deduzi, nome feio, na sua língua, é claro, aos berros. O austríaco não se moveu.

Foi então que, quase explodindo de raiva, o árabe, cuspiu no rosto do austríaco que, ainda assim, não se moveu, nem para limpar o rosto. O sinal abriu e o Lambourguinni partiu. O árabe olhou para um lado e para o outro, sem compreender direito o que se passou e seguiu, desolado.

Testemunha ocular da inusitada cena segui pensando do que seria capaz um ser humano, tão frio e arrogante a ponto de não reagir a uma agressão daquelas, só para não pedir desculpas à alguém que, provavelmente ele desprezou apenas porque era um árabe?

Uma coisa, porém, me confortava: Eu estava ali incólume. O discriminado era o outro. Eu podia observar e avaliar a situação sofrida pelo árabe, de camarote.

Aquilo me lembrava também um dia em que, num mercadinho perto de casa, procurei uma fechadura nova para comprar. A marca mais famosa de produtos de segurança em Viena (cadeados, correntes, fechaduras, trancas de automóveis, e outras tralhas do tipo), tinha nas caixas uma curiosa ilustração de um ladrão típico (para o consumidor austríaco):

Ele era um árabe com a barba por fazer, mal encarado, invadindo uma casa na calada da noite, com uma lanterna acesa. Racismo explícito, ora, pois.

Não sou árabe (pelo menos que eu saiba). Como faz a maioria dos ‘brancos’ do Brasil poderia, tranquilamente, pensar: ‘pô, que chato, o que o austríaco fez com o cara, né?’ E seguir meu caminho, assoviando.

E foi, de fato, o que fiz. Neste ponto foi bom. Deu pra ver, friamente, como as coisas funcionavam por ali. Sórdidas, porém, explicáveis.

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A época, início dos anos 90, coincidia com o recrudescimento da imigração de africanos para o centro da Europa, antes dominada, inteiramente, por imigrantes árabes, turcos em sua maioria. Era a faca de dois gumes da economia globalizada mostrando seus maus efeitos e dando o seu troco.

Entre outras regiões do outrora chamado terceiro mundo, com a globalização, a África, deixada à margem do mercado por razões históricas, depauperando-se pela fome, parecia que ia se transformar, rapidamente, numa espécie de favela continental.

Havia também a guerra entre Sérvios e os Croatas na Iugoslávia, os massacres étnicos contra muçulmanos e a vinda maciça de refugiados para a Áustria, antiga sede do império Austro húngaro que é, até hoje, uma espécie de capital da região, que envolve também a Polônia, a Tchecoslováquia e a Hungria, países cujos habitantes fogem da miséria para Viena, exatamente, como os nordestinos aqui no Brasil fogem para as favelas próximas à Barra da Tijuca.

Com verdadeiras hordas de imigrantes pressionando as economias dos países europeus mais ricos, os negros, os africanisches de qualquer origem, passaram então a integrar também, a raça dos estrangeiros indesejáveis. Entre eles estava eu. Haus! Fora! Gritavam os furibundos arautos do neo-nacionalismo, bem na minha cara.

O partido de direita da Áustria havia acabado de escolher seu candidato. Ele era um jovem político do sul do país, chamado Jorg Heider, simpatizante confesso de Adolf Hitler.

Uma amiga alemã a quem eu pretendia visitar em Munique me telefonou assustada, pedindo-me para não ir para a Alemanha, de jeito nenhum. Neonazistas estavam atacando negros da estação ferroviária. Haviam incendiado um alojamento de estudantes do Ghana e dois haviam morrido no ataque.

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Por alguma razão que não me recordo agora (talvez o alto preço do aluguel), tive que mudar de bairro. Fui para mais longe um pouco, um bairro de classe média, quase fora dos limites da cidade. Na pressa, larguei para trás uma caixa de brinquedos do meu filho e tive que voltar ao prédio do Gumpendorfstrasse para buscar. Foi num sábado, de manhãzinha. Um sábado de terror.

As paredes da escada do prédio até a porta do apartamento no qual eu morara, estava toda pichada pelos neonazistas:

-‘Ausländer haus! Fora estrangeiros! Morte aos estrangeiros! Africanisches! Negger! –diziam as inscrições.

Suásticas, muitas, suásticas enormes. Tudo pichado. Peguei a caixa e desci, rapidamente, as escadas. Sentei na pracinha para tomar fôlego, em pânico ainda. Os vizinhos, os mesmos que eu via todos os dias, passaram com seus cachorros. Não me cumprimentavam mais. Dava para ler no olhar deles que sabiam das suásticas, sabiam de tudo.

Com a expressão ausländer haus ecoando na minha cabeça, lembrei de todos aqueles aterrorizantes filmes de nazistas que assisti na vida. Achtung! Gente de Deus! Agora não era filme não. Era eu mesmo quem estava ali, de corpo presente, indefeso estrangeiro, no meio da branca neve dos outros. Os judeus da vez poderíamos ser eu e minha família.

Vade retro Satanás!

Vendi alguns dos instrumentos musicais exóticos que levara, alguns postais e até os originais de gravuras que havia desenhado para uma revista de lá, para completar o orçamento e, juntando mais alguma grana emprestada, comprei as passagens.

Quinze dias depois estava de volta ao Brasil. Me lembro que, ainda no céu, pouco antes de pousar, o avião cruzou com estranhos balões de plástico preto que anunciavam o impeachment de Fernando Collor de Mello, o ex ‘caçador de marajás’.

De volta ao passado, ao velho Brasil de sempre, desembarquei aliviado.

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É por isto que hoje, quinze anos depois, quando vejo jornalistas e intelectuais como Ali Kamel (de ascendência árabe, por sinal), Demétrio Mangnoli, Ivonne Maggie e Peter Fry (cidadão inglês, se não me engano), muito bem articulados entre si, espalhando aos quatro ventos e de forma militante, em artigos, teses, manifestos, a sua ojeriza por ações afirmativas e leis de cotas de reparação para os ‘não brancos’ do Brasil, me dá um frio na espinha. Fico lembrando daqueles últimos tempos em Viena.

Tenho minhas razões para não ver esta oposição ferrenha que este grupo faz às ações afirmativas no Brasil, como honestas e simples divergências de princípios. Foi, exatamente, por isto que contei para vocês logo, de antemão, a minha pós graduação na terra do Adolf.

Conheço também de relance, porém, de longa data, as atividades junto ao Movimento Negro da década de 80, de alguns destes intelectuais e acadêmicos, hoje ligados à importantes universidades federais brasileiras. Simpatizantes da luta anti racista de então, convidados pelo Movimento Negro para muitas mesas redondas contra o Racismo, formaram suas sólidas carreiras acadêmicas, defendendo teses que agora, por alguma estranha razão, passaram a combater.

São ainda hoje figuras acadêmicas importantes e poderosas, dirigindo estratégicos departamentos no campo da antropologia e da sociologia, na qualidade de especialistas no assunto raça e sociedade. Seriam estas suas recônditas razões?

Não é cisma, portanto, permitam-me considerar, alguém como eu estranhar a mudança de lado destas figuras, justamente agora, a esta altura dos acontecimentos.

Surpreende-me muito também a fragilidade, quase absoluta, de seus argumentos apoiados, quase que tão somente, pela grande ascendência que possuem junto a certos meios de comunicação, nos quais as vozes que deles discordam não tem tido, praticamente, nenhuma chance de se manifestar.

Observem por favor, que, na intensa campanha que fazem, está embutida também a tentativa de negar, não só, a existência de raças, mas, também a do próprio racismo. Contraditoriamente, portanto, negam agora, o cerne, a essência de sua própria militância intelectual do passado.

Há, com efeito, no bojo de sua campanha (pelo menos na de Ali Kamel, seu principal porta voz), distorções grosseiras e deliberadas de dados estatísticos do IBGE e sobre as recentes – e a rigor pertinentes- descobertas da genética, preconizando a inexistência de diferenças raciais, usando o torto raciocínio de que, se não há raças como poderia haver racismo? Se nunca houve Racismo por que haveria necessidade de reparação?

Anti-abolicionistas tardios, é o que parecem.

Contudo, como qualquer estudante de história do nível médio deve saber, a prova científica da inexistência de diferenças raciais é justamente atribuída ao esforço de cientistas engajados na luta contra o Racismo no mundo. Como também se sabe, no caso do Brasil, estas falsas diferenças foram adotadas pelas próprias elites racistas, logo depois da abolição da escravatura, como argumento para a manutenção da desigualdade e da opressão social, por parte de uma aristocracia, de ascendência européia, contra a maior parte da população ‘não branca’ que, no caso do Brasil, era – e é, como conseqüência do próprio racismo – composta por ex-escravos africanos, índios e seus descendentes.

A afirmação – e a denúncia- de que, efetivamente, há racismo no Brasil, não poderia, portanto, de modo algum, ser negada, por meio, exatamente, do mais eloqüente argumento que prova que, o Racismo tanto existe quanto precisa ser, veementemente, combatido, por todos os meios que se fizerem necessários, entre os quais as ações afirmativas e as políticas de reparação são os mais pertinentes, principalmente por serem democráticos, legais e, principalmente, pacíficos.

Neste quadro, é lamentável portanto que, atribuindo a culpa pelo crime à própria vítima, os ideólogos desta estranha campanha, sem argumentos válidos para justificar o seu reacionarismo, estejam acusando os partidários das políticas de ação afirmativa, de estarem propondo a institucionalização do Racismo no Brasil (que para eles nunca teria existido) o que, também segundo eles, geraria o ódio fratricida entre as raças (o que, a despeito das centenas de mortos na atual Guerra do Rio, não estaria ocorrendo).

Sua proposta rasa, única, curta e grossa é incluir os excluídos na sociedade de cotas e privilégios que ocupam e usufruem, apenas quando… a galinha criar dentes.

Só peço para que, por conta da forma tão aberta e franca quanto me expressei aqui, eles não tentem me expulsar, de vez, de minha própria terra, aos berros:

– ‘Ausländer haus, negão!’

Spírito Santo

Algum dia aí num mês destes de 2007 (ou seria 2006?)