A Síndrome do Gueto


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Foto: Escravidão século 19 – Biblioteca do Congresso dos EUA

Movimentos ‘Brancos’ ou Movimentos ‘Negros’? Teorizando sobre mazelas sociais indizíveis

Sei lá porque (acho que é um trauma do colégio interno ou da prisão), maior baixo astral, mas o fato é que sempre penso nisto e senti agora mesmo um impulso incontrolável de falar com alguém sobre o assunto.

O Gheto de Varsóvia é a referencia mais vívida e emblemática: Na circunscrição daquele espaço cercado pela polícia nazista, um microcosmos social transbordando de psicopatias e neuroses sobre as quais, até hoje, ninguém quer falar.

O clima é de urgência. Cada dia é um dia. Sabiam, mas agora ninguém sabe mais, exatamente como é ‘lá fora’, o que ocorre ‘lá fora’, a dimensão e a natureza terrível do que está por vir.

Os colaboracionistas com tarjas identificativas nos braços; uns servindo de polícia, controlando os próprios vizinhos, outros se ocupando do tráfego de carroças e pessoas, da distribuição de comida, todos pensando que vão conseguir se safar, salvar a si e a família pelo menos da fome e por isto fazem jogo das tropas de ocupação.

Políticos espertos (até alguns líderes religiosos) na pele de agentes comunitários ‘um-sete-uns’ criam ou dirigem instituições – muito parecidas com as ONGs modernas – que intermediam informações trocadas por indignas migalhas ou mesmo pela honra, pela moral, por valores que deveriam ser inegociáveis, enfim.

No fundo não passam de atenuadores de conflitos que cumprem apenas o papel de cobrir com ‘panos quentes’ a indignação e a ânsia de revolta que grassa o pensamento das pessoas.

O Gheto é isto: De um lado a submissão conformada da maioria e do outro a resistência louca de um punhado de insanos suicidas que pega em armas por alguma razão.

(E aqui o olhar servil e malvado do camponês denunciando o esconderijo de Che Guevara na selva da Bolívia é a lembrança mais pungente)

É que nestes casos denunciar os rebeldes vira uma mercadoria valiosa. Vale um queijo, um pouco de presunto, uma garrafa de vinho. Como condenar, censurar os que se submetem a isto, os que se aviltam para tentar sobreviver? Uns mais ardilosos e canalhas até que se dão bem. Chegam até a enriquecer um pouco – isto se considerarmos o pouco que é necessário para se sentir rico num ambiente miserável como este.

No fundo a maioria compactua, abaixa a cabeça e se submete. Nem se dá conta da eventual imoralidade de seus atos, da iniquidade de sua traição àqueles semelhantes que se rebelaram e que por isto irão, com toda certeza morrer.

Na verdade, a esta maioria, se lhe fosse dada a chance de escapar, não saberia nem mesmo para onde ir, porque ir, tão envolvida que está pela propaganda viva, pulsante nas coisas descritas pelo momento, pelo dia a dia.

_‘As coisas que são o que são e está acabado’_ É o que toda maioria diz.

Adaptada às circunstâncias, aprisionada em si mesma, a maioria presa fácil da Síndrome do Gueto.

Não lhe parece familiar este filme?

…Não. Não falo deste filme colorido de Hollywood. Falo daquele nosso filme íntimo real e brasileiro que está em cartaz num cinema bem perto de você.

(Pronto. Se já não sabia, você agora sabe muito bem do que estou falando. Podemos enveredar então pela outra ponta do assunto).

Enunciado completo da questão:
Entranhas da estranheza. Sintomatologia

Síndrome: Distúrbio ou doença – individual ou social – contingência irrecorrível, estado de coisas anormal, conjuntura aguda, quase inescapável, a qual um indivíduo ou um grupo social está acometido, caracterizada pela conjunção de um número determinado de fatores, especialmente articulados que, condenam o indivíduo e/ou o seu grupo a um destino indesejado e quase sempre inexorável. Exemplos:

  • Distúrbios ou doenças individuais: Aids (Síndrome da Deficiência Imunológica Adquirida), Síndrome do pânico, distúrbios psicológicos ou neuro-químicos em geral, esquizofrenias, psicopatias diversas (Síndrome de Estocolmo, aquela do sequestrado tomado de admiração pelo sequestrador).
  • Distúrbios ou doenças sociais: Analfabetismo, carência alimentar (subnutrição), alienação cultural aguda (aculturação)… Racismo, etc.

Gueto: Espaço restrito, físico ou simbólico, para o qual foi alijado ou no qual, deliberadamente foi confinado um grupo social, que por este intermédio passou a ficar isolado, de um lado de seu meio social e/ou cultural original e, de outro lado, isolado também do convívio com a sociedade em geral, vista de forma ampla.

Esta subjugação do grupo confinado neste gueto, neste espaço de exclusão, se dá por força de dispositivos do mesmo modo físicos, concretos (tal como muros ou cercas de contenção, repressão policial, etc.) ou simbólicos, mentais (tais como campanhas sistemáticas de difamação, privação de acesso à educação formal, procedimentos segregacionistas abertos ou dissimuladas, racismo, etc.).

Muito eficientes ao longo do tempo, estes dispositivos, geralmente impostos por um grupo social hegemônico por força de forte pressão psicológica e expedientes culturais subliminares os mais diversos, muitas vezes acabam sendo até mesmo tolerados, aceitos – ou passam despercebidos – por aqueles que, expostos a eles durante muito tempo, acabam subjugados por muitas gerações.

Síndrome do Gueto: Estado mental ou comportamental manifestado por indivíduos submetidos às condições gerais e especiais acima citadas, principalmente no campo de suas relações psico-sociais e culturais, marcadas indelevelmente pelas consequências nefastas do prolongado isolamento ao qual o grupo está ou esteve submetido.

Espécie de circulo vicioso, este estado de coisas impede ou dificulta aos indivíduos destes grupos (e até mesmo às associações de indivíduos criadas para defender seus interesses) a compreensão da natureza complexa de seus problemas, a ponto de dificultar o encontro de soluções eficientes que possam efetivamente romper o estado de coisas estabelecido, tornando estes indivíduos ou grupos, presas fáceis, quase cúmplices da manutenção ininterrupta de seu estado de subjugação.

Tratando-se de um estado de coisas de natureza social, embora anômalo, ou seja, do ponto de vista das regras básicas do conceito Humanidade, um estado de coisas injusto, a Síndrome do Gueto pode ser vista como sendo uma nítida política de exclusão social, deliberada, perpetrada por certos grupos ou classes sociais contra os outros, com o intuito de subjugá-los, justificando, plenamente o ensejo e o direito dos grupos prejudicados, por meio do estudo meticuloso de sua condição de excluídos, de buscar estratégias (que são a princípio políticas já que, em casos mais agudos, até mesmo estratégias para-militares ou violentas podem ser necessárias) para quebrar o jugo dos hegemonistas.

Exemplos emblemáticos de grupos sociais afetados pela Síndrome do Gueto ao longo da história:

  • Hebreus ou Judeus subjugados por egípcios no tempo dos faraós
  • Indigenas norte-americanos – e sul americanos – e africanos de diversas etnias subjugados pelos colonizadores brancos nas Américas e na África nos século 18 e 19, confinados em reservas ou territórios militarmente controlados
  • Fazendas de escravos nas Américas (como as de algodão nos EUA ou as do ciclo do café brasileiro)
  • Judeus aprisionados em guetos de criados pelos nazistas na segunda guerra mundial (como o Gueto de Varsóvia)
  • Emigrantes contidos em bairros de deserdados (como o velho Harlen de Nova York), etc.
  • Populações aprisionadas em Guetos e ‘bantustões’ implantados pelo governo racista da África do Sul durante o regime do Apartheid (como Soweto)
  • Palestinos subjugados pelo estado israelense na faixa de Gaza
  • Euro-muçulmanos subjugados – e massacrados- por sérvios e croatas na partilha nacionalista da ex-Iuguslávia.
  • Negros e nordestinos alijados para morar em ‘Morros’, ‘Favelas’, ‘Comunidades’e ‘Complexos’ de pobres no Rio de Janeiro, Brasil

O conceito, portanto está lançado. Este é, pois o tema proposto: a análise meticulosa da natureza desta síndrome em todas as suas nuances e melindres, afim de que se escape da armadilha estratégica que o combate ao racismo no Brasil parece estar confinado.

A luta contra o renitente racismo à brasileira estaria de algum modo, comprometida, travada por esta síndrome? Toco no assunto só de relance abaixo.

Anos de chumbo. A clausura impregnada em nós

Nos tão bem lembrados – e em certa medida saudosos – anos 70, a questão só assumiu contornos de emergência revolucionária para uns poucos. Lutar contra a ditadura era uma necessidade indiscutível e inadiável sim, prioridade absoluta para aquela parcela bem pensante de nossa sociedade, mas lutar contra o racismo não.

Tabu embutido no discurso da esquerda brasileira o tema foi, ora discretamente omitido, ora desestimulado com veemência, tratado como uma questão menor, ‘reacionária’ até, que só serviria mesmo para… ‘atrasar’ a luta.

Refletindo já a visão distorcida – que, aliás, predomina sobre o assunto até hoje – sendo a maior parte desta camada ‘bem pensante’ composta por pessoas auto declaradas ‘brancas’ (ninguém parava para pensar – ou fingia não saber – porque diabos a sociedade brasileira estava dividida assim).

O fato é que a discussão sobre o racismo era considerada, francamente secundária, ‘superestrutural’ como se dizia, quase um estorvo diante das grandes e sagradas questões nacionais.

(Não devia ser assim, mas pimenta nos olhos dos outros sempre foi refresco).

Como estaria se dando em Cuba e em outras mais longínquas plagas, o socialismo tão ansiado, assim que implantado por aqui, naturalmente se incumbiria de anular as eventuais e prosaicas (residuais para muitos) divergências raciais.

Justiça social total e automática. Esta era a utopia que parecia a verdade mais líquida e certa deste mundo. Dá até angústia pensar hoje em dia na solidão dos minguados velhos militantes negros da ocasião, calejados de exemplos frustrados desde a mal ajambrada abolição da escravatura.

Melancólicas lembranças daquele malhar em ferro frio do pessoal do Teatro Experimental do Negro nos anos 40/50, dos vetustos senhores da Frente Negra Brasileira dos anos 30, ingênuos quase comunistas, quase integralistas, vendo uma após outra as gerações de negros, filhos, netos, passarem a juventude inteira sem referências ideológicas válidas, curtindo a incômoda sensação de que, para vencer a barreira quase invisível do racismo o jeito mesmo era buscar uma saída individual, sem tocar publicamente no problema, sublimando-o na subserviente crença de que, estudando o negro chegaria ‘’.

_’Lá onde?’_ Pensavam e esbravejavam minguados rebeldes como Solano Trindade, Abdias do Nascimento, Olímpio Marques dos Santos e uns poucos outros mais.

Eu mesmo, jovem militante subalterno de algumas poucas lutas puramente sociais, tomado por esta mesma negação do problema racial que não via ou não queria ver, me ressentia calado da subestimação com que as lideranças tratavam do problema que eu, mesmo sem assumir frontalmente, percebia estar grudado em nós como craca em casco de navio, enrustido em todas as relações que se estabeleciam entre as pessoas no Brasil, independentemente delas serem da ‘esquerda’ ou da ‘direita’.

Líamos o mesmo Karl Marx, mas, entendíamos marxismos diferentes. Como nas teses originais do alemão, inspiradas que foram na realidade européia, a questão do racismo não aparecia claramente expressa, os mais brancos de nós interpretavam o racismo como sendo uma espécie de problema cultural apenas subjacente, estritamente brasileiro, passível de fácil remédio com programas sócio educacionais pontuais.

Nós, os mínimos – embora mal letrados – quase marxistas negros do pedaço, não nos arvoraríamos jamais de, aquela altura dos acontecimentos, corrigir semelhantes filigranas nas teses do ‘mestre’ do materialismo dialético.

A chapa estava quente demais. As pessoas morriam de verdade, envolvidas naquela aventura. Amargavam as dores todas da cadeia, da tortura. Perdida de antemão, sabemos agora, contudo que aquilo era luta mesmo, luta à vera, gritariam para nós nas assembléias, se ousássemos levantar a voz para propor qualquer aprofundamento da questão.

Contudo, o exemplo mais candente da relevância deste ressentimento era facilmente perceptível na condição subalterna a que eram relegados os gatos pingados negros da ‘organização’.

Para ‘Uns‘ tarefas subalternas, posições subalternas até num simples ‘comício relâmpago’, práticas nas quais os ‘Outros‘ (às vezes – pasmem! – vestindo ternos de ‘tweed’ em pleno verão carioca) nas portas das fábricas faziam os prolixos discursos incitando greves contra os ‘patrões exploradores da mais valia operária’ enquanto que os  ‘Uns‘, disfarçados de mendigos, operários ou camelôs, entravam mudos e saiam calados, fazendo a ‘segurança da ação’, prontos a, se fosse o caso, segurar o trem pesado da repressão.

(Desnecessário se dizer no caso quem eram ‘uns’ e quem eram os ‘outros’).

Para cada tempo um fundo sentimento
Ser negro naqueles anos de chumbo

Fortes, intrínsecas e renitentes as premissas básicas do Racismo à brasileira já apareciam ali, claríssimas, só os cegos (os que não queriam ver) não viam. O símbolo mais evidente do caráter doentio desta renitência podia ser simbolizado por aqueles militantes ‘revolucionários’ que, sabia-se à boca pequena, quando ainda não ingressos na clandestinidade, mantinham empregadas domésticas em suas próprias casas.

Dizem até que alguns contratavam discretas arrumadeiras diaristas para limpar os ‘aparelhos’, limitando-se apenas a tratá-las como ‘iguais’, vez por outra as brindando com pequenos regalos e exortações à conscientização de seu papel de escravas dos ‘outros’ (por suposto, nunca ‘deles’).

Talvez tenha sido por isto que aquele renovado Movimento Negro dos anos 70, aparentava já na sua origem, aquela forte vocação ‘Black is beatifull’, curtindo mais Lhuter King do que Malcom X, tendendo mais para o fashion ‘Black Power’ do que para o enfático ‘O Negro no Poder’.

Subestimando por julgar arcaica e ‘out‘ cultura dos nossos avós sambistas, alguns de nós ignoravam ou repudiavam do mesmo modo, o caráter francamente racista da ‘juventude branca’ de esquerda, que de forma vanguardista propunha uma revolução social rumo a uma sociedade sem classes.

‘Renegar o velho‘, ‘renegar o branco‘, estas eram as palavras de ordem subentendidas em algumas de nossas falas. E daí como consequência o efeito terrível: Aculturados, misturamos assim alhos com bugalhos.

Foi incrível, mas cega pela aversão ao racismo renitente e enrustido dos ‘movimentos brancos‘, esta parte mais proeminente da militância negra parece que foi perdendo também o sentido de sua luta, o foco de seus próprios interesses sociais mais evidentes, ao negar – como uma pequeno-burguesia destas bem egoístas e chinfrim– o eterno sonho da revolução social, mesmo quando ela já estava sendo feita, exatamente por exemplares sociedades negras contemporâneas, aquelas mesmas antepassadas diretas dos negros do Brasil (Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau).

(Aliás, quem por aqui se importava com Nelson Mandela na década de 70?)

Zumbi por certo, nestas horas, se revolvia no túmulo ultrajado por ter seu revolucionário nome evocado em vão (isto sem se falar no mesmo revolver do corpo do Oswaldão do Araguaia).

As ideias de libertação sócio racial, na luta de todos para todos (do vitorioso ideário do ANC de Mandela), acabaram assim trocadas pelas contidas ideias de ascensão social individual, segundo um modelo de luta calcado no que havia de mais aparente no comportamento de uma minoria negra, que reivindicava direitos civis nos EUA.

A mal disfarçada tentativa de criar aqui uma classe média negra, uma elite negra, uma casta de intermediários entre os milhões de negros pobres e a hegemonia branca – como se pode ver ainda hoje – claramente era (como o é ainda) totalmente improvável no contexto de uma população afro-descendente tão numerosa quanto tão meticulosamente segregada como a nossa.

Assim como uma maioria equivocadamente se julgando minoria, pensando como minoria (como se dava, por razões bem menos prosaicas em Varsóvia), esta minúscula liderança negra foi facilmente inviabilizada e corrompida, cooptada enfim como qualquer ‘panelinha’ social oportunista.

Pois foi assim que a Síndrome do Gueto, se apossando sorrateiramente daquelas nossas mentes mais vadias e românticas, que sonhavam em sozinhas chegar ‘lá’, nos levou a este deu no que deu.

O isolamento político de uma geração inteira de hoje maduros líderes negros que, animados naquela época pelas emocionantes palavras de ordem dasMarchas para Zumbi, se empenharam no vão intento de ser a antítese perfeita e acabada da esquerda ‘branca’, acabando mesmo como tributários subalternos das plataformas pretensamente esquerdistas do PT (e de outros partidos menores, também supostamente de esquerda) tendo que amargar hoje as lamúrias tardias de um ou outro líder-orixá caído na lama, dentre os poucos que…chegaram ‘‘.

Como, ao que supomos, ficou provado, não bastava mesmo ser negro e favelado.  Seja lá qual fosse a revolução de cada um, o dístico rebelde nunca poderia ser apagado:

_ ‘hay siempre que endurecerse sin perder a ternura – e a ética, a vergonha na cara – jamás.’

(Melancólicas e tardias constatações, reconheço. E é por isto que peço tempo. Depois o papo segue de onde parou, num outro post ou até onde esta penosa conversa nos levar.)

Spírito Santo
Abril 2010

(Hoje, 2019, infelizmente não consegui mudar uma vírgula)

Mama mia! Será que a velha esquerda pirou?



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Nacional-Estatismo? Como assim?

Juro por Deus que não estou influenciado pela campanha que se inaugurou por estes dias. Se querem mesmo saber detesto política partidária, ainda mais esta que predomina hoje em dia entre nós. Lavo minhas mãos. Não tenho lado algum a defender nesta pendenga, até porque já aprendi com a idade que não se ganha mesmo quase nada com este tipo de torcida. Política, definitivamente não é futebol.

O que eu gostava mesmo e amava de paixão era da utopia da revolução real, a sociedade mudando radicalmente pelo esforço organizado de uma maioria para algo, pelo menos, um pouco melhor para todos, sem distinção.

Mas, utopias à parte, convenhamos: Com esta idade não dá mais para ser enganado e ficar calado, nem por mera desconfiança. É, pois, por via destas dúvidas todas que, ainda pasmo, comento enfaticamente:

Sabe o Daniel Aarão Reis aquele ex-militante da nossa valorosa esquerda revolucionária, ex-preso político e hoje festejado professor de história contemporânea da Universidade Federal Fluminense? Pois não é que lendo um artigo dele hoje (11 de abril 2010) em O’Globo fiquei sabendo que ele defende (meio que timidamente na verdade, na base da  tergiversação, cheio de ‘data vênias’ como um advogado do diabo) uma tese que eu julgava ser indefensável, uma heresia para qualquer intelectual mais sério e comprometido com a evolução do país?

Pois é. A tese é a de um tal de Nacional-estatismo. Vocês sabem o que é isto? (Li por aqui no google que é uma teoria bem manjada por historiadores em geral) Gente de Deus, será que não sei mais ler? Será que existem na tese algumas bem escondidas entrelinhas, algo louvável, considerável que me escapou à compreensão?

Senão vejam vocês mesmos.

…”Depois da restauração democrática, ao longo dos anos 1980 1990, o nacional-estatismo defendido por várias forças de esquerda, resistiria ao vendaval do liberalismo triunfante.

A tese desenvolvida na matéria de O’ Globo se intitula ‘Uma cultura política: O Nacional-estatismo’ (leia a matéria completa neste link) e é defendida de maneira, estranhamente distanciada e escorregadia por Aarão Reis, de modo que só com muita atenção se percebe que ele, na verdade demonstra franca simpatia pela idéia.

“…Sob o conceito vago de populismo, construído por uma certa sociologia paulista todas estas forças tentaram então apresentar o nacional-estatismo como um projeto malsão por natureza, manipulador e corruptor. Virou quase um senso comum a a associação dos líderes populistas ao que de pior existe nos costumes políticos: Demagogia, mistificação, desvio de dinheiros públicos.”

Difícil acreditar, mas pelo que entendi o Daniel endossa, com a luxuosa argumentação de historiador brilhante que é sabe o que? O populismo, gente. Isto mesmo: Um populismo fashion, reciclado, mas no fundo no fundo aquele mesmo populismo escroque que ora nos rodeia:

Sacaram a sutileza? Nacional-estatismo, seria algo assim como o estado assumindo para si algumas funções que deveriam ser, na verdade, da sociedade organizada em nome, naturalmente de uma figura de retórica vulgarmente chamada de povo, no nosso caso uma triste massa miserável e despolitizada que mal tem o que comer.

Chamávamos isto, exatamente – e com franco desdém – de populismo, não lembram não? E de outros nomes até mais feios ainda como clientelismo, assistencialismo, caudilhismo (que era quando um líder carismático e vaidoso liderava com mão de ferro o processo todo, por intermédio de artimanhas personalistas com uma turba de militantes fanáticos fazendo coro e pressão).

Sacam este filme? Pois então. Ao que tudo indica é isto mesmo o que o bem enunciado conceito proposto pelo Daniel encobre, por trás de jargões e panos vermelhos.

Conheço, como vocês, a tendência. Ela tem sido flagrada facilmente no firme apreço do governo Lula por Hugo Chavez, as ropitchas vermelhas que Lula e Dilma desfilam por aí, os casaquinhos bolivianos presenteados por Evo Morales ao hermano do Brasil, os mimos de nosso ministério das relações exteriores ao Armadinejah, símbolos evidentes de uma tendência populista que eu considerava apenas um desvio exclusivo do confuso pragmatismo ideológico da cúpula mal letrada do PT e de nosso presidente.

A grita da oposição também é facilmente compreensível: Como semelhante propósito (este esdrúxulo nacionalismo estatal) não se coaduna com as regras e os preceitos mais comezinhos atualmente vigentes nas democracias modernas, a prática tem sido, veementemente criticada, considerada altamente condenável para muitos setores da sociedade (notadamente os tribunais eleitorais). Daniel tem toda razão, portanto quando pontua que esta prática arcaica, sempre foi, com toda certeza associada pelos sociólogos mais progressistas – e não apenas os paulistas – com o Populismo Clássico mais deplorável.

Me lembro muito bem que esta praga autoritária, tão comum na política latino-americana sempre foi combatida pela esquerda…moderna, inclusive aquela que se reuniu para a criação do PT.

É fácil se saber porque. Se nossa constituição mesmo tão remendada como é não prevê este tipo de governança, afinal, quem daria o aval e a legitimidade para um governo Nacional-estatista se instalar? O povo semi analfabeto e faminto, que vive à mercê de programas assistencialistas?

Por outro lado, quais seriam as áreas e instâncias da administração pública passíveis de serem estatizadas, controladas pelo estado? Quem decidiria sobre isto? Consultas plebiscitárias? O Ibope? E a imprensa? Sofreria algum tipo de controle estatal? E a justiça? haveriam tribunais especiais controlados pelo governo, arbitrando sobre questões consideradas…de estado? Seria justo ou confiável um governo baseado em premissas tão mal amarradas?

Pois bem, para Daniel Aarão Reis este Nacional-Estatismo, só seria populismo mesmo para uns poucos difamadores da ‘elite’. Populismo sim, mas apenas em termos já que, em diversas circunstancias históricas o conceito teria sido adotado com sucesso como política de governo por estados tanto da direita quanto da esquerda, ou seja, uma prática que não devia ter sido tão demonizada assim por ser, dependendo das circunstancias de algum modo válida, útil.

Que papo é este, meu irmão? Que conversa mais fiada.

Ora, não é preciso nenhuma sutileza de raciocínio para se perceber que Aarão, ao citar as tais ‘forças’ opositoras, está se referindo de forma transversa ao PSDB de FHC e Serra, espécie de paladinos de uma suposta ‘santa aliança’ que preconizaria o Neo liberalismo, elite esta formada também por todos os opositores do governo, a vaga oposição ‘golpista‘ que, diga-se de passagem, coincidentemente com muitos pontos de acerto, associam o PT do Lula a todas estas características… populistas.

Mas cá entre nós, quem não sabe ainda que a Demagogia, a mistificação e o desvio de dinheiros públicos, infelizmente tem sido marcas bem visíveis nas práticas dos governos ligados ao PT? Alguém aí já se esqueceu daqueles vexatórios escândalos mal explicados que marcaram os últimos 8 anos da Brasília governista atual, do estado-maior Petista caído em desgraça, enfim?

Quem ainda não percebeu que no discurso destas correntes, pretensamente de esquerda a ética foi feita letra morta, substituída por máximas supostamente pragamático-imperiais do tipo ‘O estado sou eu’ ( l’etàt c’est moi’, lembram? aquela frase ridícula do absolutista Luiz XIV)

Seria o PT das entranhas já em campanha acirrada para se perpetuar no poder? Aquele clandestino partido cujos líderes de fato vivem imersos na penumbra por que tem problemas cabeludos a tratar com a justiça? Seria este PT das sombras propondo – e de forma desastrada ao que parece – um programa de governo parecido com o Estado Novo de Getúlio Vargas. Bem esquisito isto, não é não? Ainda mais vindo de um partido de esquerda… Convenhamos, dirigismo estatal não era coisa de ditaduras?

O Nacional-estatismo na tese escorregadia de Aarão Reis, ao que tudo indica seria o que professam hoje Chavez, Evo Morales, Armadinejah, Raul Castro e… Lula da Silva. Só que Daniel esqueceu de considerar que Mussolini, Franco e Hitler, cada um em seu contexto, também surfaram, exatamente numa praia bem ao lado desta (nacional-socialismo e fascismo) e deu no que deu.

Mas espera aí: a crítica ao populismo que nos avacalhava a moral e os bons costumes, a denuncia do fascismo, da ditadura estatal, do terrorismo de estado, não foram as bandeiras mais tremuladas nas campanhas pela nossa democratização? Não foi pela democracia plena que tanta gente lutou e morreu neste país?

Com efeito, lá para as tantas, em sua defesa ambígua que recicla o populismo velho de guerra, Aarão cita, positivamente pasmem…Ernesto Geisel (usado como argumento de que direita e esquerda, cada uma a seu tempo, a certa altura de seus governos caíram em si para adotar o nacional-estatismo como uma opção válida). E segue em sua tese… ‘revisionista’ o nosso surpreendente Daniel:

“…Esta cultura política suscitou a oposição de forças poderosas e heterogêneas, de direita e de esquerda. As direitas, cosmopolitas e liberais, não podiam senão se opor às propostas nacionalistas e estatais. As esquerdas socialistas e comunistas, embora favoráveis a muitos aspectos do nacional-estatismo, competiam com ele pela liderança dos trabalhadores urbanos e rurais. Diferentes motivações, portanto, formariam uma verdadeira santa aliança contra o inimigo comum a ser abatido”.

Ah, sei…Entendi. É que agora eles estão… revendo os seus conceitos. O populismo agora (‘popululismo‘, no caso) para esta turma não seria mais um mal em si e pode ser considerado bom, positivo e até…moderno.

Será que parte daquele grupo de intelectuais brilhantes, forjado naquelas cruentas lutas contra a ditadura está embarcando em semelhante equívoco por convicção política? Custo a crer, mas não consigo discernir porque. Apenas me embaralho em suposições.

Outro dia vi na TV um destes antigos militantes da jovem esquerda brasileira dos anos 70 tornado ministro do governo Lula, aos prantos e soluços ao recordar de companheiros que enlouqueceram no exílio, sucumbidos ao peso insuportável do doloroso dia a dia, cara à cara com a derrota.

Consternado com a cena, fiquei refletindo no significado afetivo da estada no poder deste pessoal, no peso enorme que deve estar representando em suas vidas enfim esta – vá lá – oportunidade derradeira de transformar o país. Penso também com a mesma compreensão no caso daqueles que, vergonhosamente se corromperam e estão agora diante do não menos doloroso fim de suas chances de se locupletar , impunemente, de enriquecer mais um pouquinho na mamata explícita, tolerada pelos pares, com a desculpa esfarrapada de que desviaram verbas para o bem do partido, para o bem da revolução.

E aqueles que, em ambos os casos sonharam com a chance de estar lá e que, justamente agora na sua vez, se vêem na eminencia de verem frustradas suas chances, na antesala da grande oportunidade de suas vidas, seja lá ela qual for?

Deve ser realmente enlouquecedor para este pessoal estar diante do ensejo de se encerrar aqui – ou mais adiante, que importa – a chance que tiveram de governar o Brasil, a aproximação da hora de encerrar o ciclo no poder, a fase de manda-chuvas do país, um ciclo controverso, marcado por um pragmatismo discutível, caracterizado muito mais pelo fechar os olhos à velhas práticas políticas deploráveis, sem ter conseguido mudar em quase nada aquele velho Brasil que prometeram revolucionar, como nos fizeram acreditar piamente que fariam com aquela pomposa ‘carta aos brasileiros’.

Deve ser enlouquecedor para muitos destes caídos a revisão desta montanha de mal feitos ainda não explicados, supostamente realizados em nome do partido, um monte de mal feitos que, mais dia menos dia, virão à tona e que, sendo ou não sendo realmente ilícitos, passarão a fazer parte indelével da herança (quiçá maldita) que esta geração de governantes de esquerda deixará como o seu legado para a história.

Concluindo a quase convicção: Deve ser por isto tudo então que, para o bem ou para o mal, inventam teorias como esta do Nacional-estatismo. Que outra explicação se teria para tanta contradição senão o desespero de ter tido o poder nas mãos e não ter conseguido fazer a sonhada revolução. Uma inexorável sensação de derrota sim, diante do tanto que poderiam ter feito. Deve ser isto: O convívio com a finitude do poder os enlouqueceu.

Cruzes! Gente de Deus! Me tirem desta angústia . Estes caras piraram, não é não? Ou será foi em que pirei?

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Distraído sim, mas não me chamem de alarmista exagerado. Atirei no que vi. Acertei no que não vi: Saibam vocês que agora mesmo, nos finalmentes deste post achei este interessantíssmo link. Tá lá gente. O Nacional-estatismo É O PROGRAMA DA DILMA. Caraca! estes caras pegam a gente, sempre de calça na mão!

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Spirito Santo
Abril 2010