Butim:O derradeiro boletim da guerra


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Correspondente pede pra sair e sai batido, enquanto há tempo.

Já deu. Qualquer um com um pingo de lucidez que seja vai me dar razão.

A antena parabólica de minh’alma continua arguta – e atabalhoada como sempre – perscrutando tudo obsessivamente, mas convenhamos que não vale mais a pena – ou o risco – testemunhar. Para que? De que nos vale ser um ‘são tomé das letras’ na descrição desta guerra sem batalhas, se nem soldado – tampouco civil algum – está afim de crer no que está bem diante do nariz.

_”Pare o bonde! Quero desembarcar!”

Falo sério. A mim bastaria citar de passagem o que a antena perscrutou ontem mesmo – ou anteontem – no lapso de uma manhã apenas, para justificar o enfático pedido ao motorneiro:

_” Pare o bonde! Quero desembarcar!”

Na TV a repórter brasileira descreve a dramática situação do povo de Port Au Prince, Haiti: depois do terremoto, o cólera. Uma criança morta pela doença, entre os mais de mil mortos na conta da nação mais miserável do planeta, jaz numa pequena plataforma destas de depositar sacos de lixo, à beira da rua. Orientada por um soldado brasileiro a repórter veste o colete à prova de balas e o capacete azul das tropas da força de paz da ONU. Eles vão dar uma volta por Citè Soleil, a afamada e violenta favela haitiana.

Assim que desembarca do blindado a repórter é cercada por populares revoltados que cercam a mãe da criança morta, solidários. Um jovem em bom português aprendido com soldados brasileiros, explica que a mãe da menina morta tentou salvá-la, desperadamente, mas o posto de saúde da ONU há apenas 1 km dali, fora abandonado pelos médicos, amedrontados com os protestos da parte mais impaciente da população.

A câmera resolve fazer uma panorâmica da favela e a gente vê, logo de cara,  a enorme galeria de concreto da qual escorre uma cascata de esgoto infecto. Bastou olhar a galeria e juntar a imagem com aquela negrada toda que compõem a população do Haiti para concluir, como numa aturdida constatação deja vù:

_ “Ué!! Mas isto aí não é o Complexo do Alemão, gente? Esta não é aquela boca de esgoto por onde fugiu a bandidagem do CV?”

Não era não. O Haiti, todo mundo sabe, não é aqui.

Abandono a TV contrariado e decido folhear o jornal do dia. Fujo, é claro, das obviedades da guerra do Alemão, mas, não consigo. Os milhares de tabletes de drogas e armas apreendidas são esfregados na minha cara, mas não me convencem. São tomé teimoso e renitente que sou, chego a imaginar as várias e recorrentes maneiras que a polícia corrupta que nos serve teria de nos enganar (pura viagem de rebelde sem causa, concordo). E nem vou contar as tantas falcatruas oficiais que me ocorreram.

Mas compreendam, por favor, que para um velho e cascudo observador das coisas deste mundo, acreditar naquele ufanismo todo das imagens do pós-guerra do Alemão, de uma hora para outra, é dose cavalar, overdose, seria de uma ingenuidade pra lá de infantil.

Criancinhas aboletadas em tanques de guerra, arrancando lágrimas de crocodilo de repórteres dondocas (os coletes à prova de balas cada vez mais fashion – Dior, Vuiton, DasLu ? – sei lá) ávidas pelas mais miseráveis – e contraditoriamente otimistas – crônicas da favela ‘libertada’, desfiando assim rosários de loas à eficácia policial derepentemente surgida, assim do nada?

Ah!Vamos combinar: Ninguém em sã consciência acredita nesta história mal roteirizada. Todo mundo apenas anseia, almeja, quer acreditar e aí defende, aplaude, mas não acredita não. Finge acreditar.

Uma desconfiada sensação de insegurança é o que de mais sensato se devia sentir em meio a este turbilhão de notícias disparatadas e improváveis, gritadas por repórteres sensacionalistas, advogados de porta de xadrez tornados comentaristas, todos comprometidos com a audiência de suas redes de TV. Políticos clientelistas, comandantes de tropas nacionais de elite – raro trigo no joio – governantes oportunistas, pastores atrás de dízimos e fama, todos se assumindo ‘um-sete-uns’ da hora, com promessas e charlatanices de camelôs de tudo.

Tal e qual no terremoto do Haiti o mundo inteiro desembarcado no Morro do Alemão gritando para bandidos que ninguém mais vê:

_ “Perdeu! Perdeu! Pede pra sair!”

A banalização dos armamentos de guerra de ultima geração desmoralizada pela quase ausência de sangue e de inimigos numa guerra estranhamente desmesurada. A compungida fé das criancinhas miseráveis pinçadas pelas reportagens piegas nesta paz militarizada – muito mais do que esperança – me dá é frio na espinha (além de frias também, embora pálidas, premonições).

A reação ensandecida de amigos – e inimigos – nas redes sociais diante da minha – segundo eles – amalucada insistência em não me animar com as vitórias da guerra já me davam uma dica da anti-socialidade destas redes de laços de ternura tão fake e mal amarrados.Ô Raça!

Não foram poucos entre estes amigos os que, de um modo ou de outro, me deram conselhos cifrados, interessados em entender porque diabos eu me mantinha assim tão incrédulo e ‘do contra’ diante de tão ‘esplendorosa’ vitória das ‘forças da Paz’

Teria sido eu torturado nos tempos da ditadura – chegou especular uma amiga – e guardado o trauma do ódio cego às autoridades constituídas para sempre? Uma senhora infame e desconhecida, (oculta por um avatar sem rosto) via facebook estrapolou e chegou mesmo a me mandar a nada sutil mensagem:

_”Filho da Puta!”

Doeu. Tirando fascistas e oportunistas desconhecidos, teve gente até que, honestamente preocupada com a minha lucidez, me admoestou por telefone até, aludindo o risco terrível que eu corria de perder ‘toda a minha credibilidade na rede’ (como se redes virtuais fossem mesmo críveis) se insistisse em remar, de novo, contra esta formidável maré da unanimidade nacional.

“Só sendo cego ou doido” – berravam eles – para não enxergar a inegável euforia da população do Alemão e das demais favelas hoje controladas pelas ‘paradigmáticas’ forças de ocupação das UPPs como sendo um sinal de novos tempos de paz.

_ É a febre da guerra _ fui obrigado a concluir conformado, embora com a orelha a arder aquela urticária dos cri-cris renitentes.

Mas era aí, neste desassossego que eu ficava pensando, mais assustado ainda: Deus do céu! Como é que podiam, justo eles tão apopléticos, histéricos e ensandecidos que estavam (alguns pregaram, abertamente, como nazistas de Auschwitz, o fuzilamento sumário dos bandidos), me chamar de maluco?

Ah! E os jornalistas? Estes sim, vivandeiras de corte medieval! Eram eles sim, sem dúvida os destiladores do veneno que não parava de nos mobilizar a todos, de nos apavorar.

Uma carta atribuída ao Fernandinho Beira Mar, por exemplo, insinuava um namoro entre ele (e o seu CV) e os capi de tutti capi das milícias da cidade.

Na carta, num texto surpreendentemente bem articulado Fernandinho – o nosso inimigo número 1 – sugere ou ordena, sei lá, o seqüestro de autoridades para breve, com o propósito de libertar presos, entre eles o famigerado ‘general’ miliciano Batmam, braço direito dos irmãos Natalino e Jerominho, encarcerados na Penitenciária a Federal de Campo Grande (MS) junto com Beira Mar.

_” Não pensem que estou maluco. Estou ‘perpetuado’. Tenho que fazer alguma coisa.”_ Justificava-se Beira Mar.

Meiga e tranqüilizadora notícia, não é não? Sendo assim, não teríamos mais Comando Vermelho ‘puro’, como diziam os facínoras a nos aterrorizar. Agora seria o advento da era da ‘Milícia Vermelha’, as duas bandas podres da sociedade virando uma maçã envenenada só. A Big Aple do crime.  Uma promessa de evolução do caos.

Ai Deus do céu! E as notícias pinçadas aqui e ali, embaralhadas como cartas não paravam de anunciar um jogo de perdedores anunciados: Nós. Até as pequenas manchetes avisavam o pior: bananas de dinamite são achadas agora com freqüência inusitada, aqui e ali. Fala-se no roubo de um carregamento delas de uma pedreira de nossa região.

Um proeminente coordenador geral de uma super-mega-ong do Rio de Janeiro, voltada para a ‘inclusão social de jovens’, profundamente envolvida em parcerias com a Secretaria de Segurança do Estado, fez uma incursão nos meandros mais recônditos do Morro do Alemão, em pleno cerco, para tentar convencer os bandidos acuados a se renderem.

Soube pela TV que os especialistas chamam isto de ‘mediação de conflitos. Seria uma nova profissão? Mas já repararam que até nos filmes da TV esta função é desempenhada por funcionários do Estado, negociadores da polícia, gente credenciada? Viram que esquisito? Tá, mas deixa isto pra lá.

Os bandidos – que segundo este ‘mediador’ seriam mesmo 600, como a cifra oficial indicava – como já se sabe, não se renderam. Preferiram se escafeder. Tudo o mais é difuso nesta história. A narrativa da ação é um tanto holywoodiana, os dados contradizem as notícias dos jornais que sugerem que a maioria dos bandidos já havia desaparecido do Alemão muito antes do cerco. Quantos seriam? Onde estariam?

Mas o coordenador da super-mega-ong é enfático e incisivo. Em suas diversas entrevistas na TV ele afirma que, no momento de sua ação estaria inclusive ameaçado de morte, por algum dos proeminentes chefes daquela famigerada facção do tráfico (Comando Vermelho), segundo ele por ‘estar tirando gente do tráfico e provocando com isto muitas delações e informações sobre ações estratégicas da facção’. _” Foi a primeira mediação que fiz sendo, ao mesmo tempo, alvo”_ disse ele à imprensa, como um herói da guerra do Afeganistão.

(Ei, Padilha! Seria ele um candidato a personagem de um provável filme ‘Tropa de Elite 3’?).

Pulgas nas orelhas pensei intrigado: Será? Existiria nesta guerra suja a possibilidade de alguém manter contatos ‘limpos’ e tão estreitos com Deus e o Diabo? Um mediador de conflitos que tem parcerias com os órgãos oficiais de segurança poderia ter, ao mesmo tempo, o respeito e a confiança dos chefes de uma facção de bandidos desesperados?

Melhor deixar quieto, refleti. Por muito menos já me ficharam como maluco. Fiquemos por aqui então, olhando de longe, à margem das notícias embaralhadas, encerrando este derradeiro boletim de guerra com os sinais da alma assustadora das ruas, os vagos e prosaicos indícios que a nossa intuição, agora silenciosa, vai capturando aqui e ali.

————–

Circulo, por dever de ofício nos territórios de duas bandas emblemáticas desta guerra. Uma é a área de traficantes. A outra é a área de milícias. Faces da mesma moeda, ora pois. No complexo de comunidades sob o ‘jugo’ do tráfico onde freqüento ‘dia sim’, fotografei anteontem a meninada (faço musicalização com a garotada) posando com instrumentos musicais alternativos, feitos com materiais precários, catados no lixo, único material a que eles têm acesso: latas velhas de ‘nescau’ então viram alaúdes, tubos de PVC e garrafas pets viram clarinetes, por aí.

Na hora de editar a foto a surpresa: Um dos garotos, com um olhar irônico e um sorriso sarcástico traçado no rosto, havia posado com o clarinete em riste, simulando um fuzil Ar15 ou uma máquina mortífera destas aí do Alemão.

Corte rápido.

No outro dia – o‘dia não’- na área das milícias a sensação trocada: Como que inserido dentro de um filme com a imagem invertida, adentrei o portão da cerca gradeada que isola toda a comunidade, tenso como sempre. Outras crianças, iguais àquelas do outro lado da fronteira, talvez já me aguardassem.

A tensão freqüente me assaltava de novo porque, todo dia quando chego ali, ainda de manhãzinha, invariavelmente as pessoas, geralmente donas de casa, senhores aposentados ou desempregados, só me cumprimentam se eu insisto e mesmo assim sem me encarar.

Tento me aproximar com um olhar desarmado e simpático, mas não consigo desarmá-los nunca: desviam sempre os olhos dos meus, tensos e amedrontados, como se num simples cruzar dos seus olhos com os meus fossem ser fuzilados por alguma represália fatal. Como podia eu, um cara tão pacífico, parecer um vilão assim tão cruel para eles?

Com o tempo fui percebendo o contexto. A associação de moradores concentra a gestão de, rigorosamente todos os serviços daquela pequena comunidade, gaz, luz, correio, administração dos imóveis (aluguel, compra e venda, etc.) tudo. Um preço determinado é cobrado como taxa pela administração destes serviços. Reina, portanto a mais perfeita paz, o mais completo silêncio nestes lugares.

Presumo que julguem, que um velho negro magro, quase atlético, de boné sob os olhos, transitando impunemente por ali, só pode ser um bombeiro ou um PM destes, aposentados – ou mesmo expulsos da corporação – destes que estão proliferando por aí, a serviço de alguém controlando tudo – óbvio! – eu, funcionário ou assecla de algum outro terrível miliciano destes neo-ditadores que andam, sorrateiramente pela Zona Oeste da cidade.

A Ditadura em nós

De fato, nunca vou saber o real motivo daquele medo surdo dos moradores. Não os recrimino e na verdade – se vocês querem mesmo saber – os compreendo perfeitamente: Deve ser por conta da ditadura a que estão submetidos,uma ditadura seletiva, grande novidade, o must ainda secreto – e cada vez mais recorrente – da segurança pública nacional.

Tampouco saberei jamais de onde nasce a fé inquebrantável daquele menino da outra favela que, apesar de todo o ufanismo histérico e vitorioso dos repórteres de TV ainda assim se mantêm fiel ao heroísmo ambíguo e romântico de bandidos sanguinários, prestes a serem presos ou mortos num cerco ou numa emboscada do exército nacional.

Caixa de Pandora sem tampa, nunca descortina paisagem de Xangrilá. O futuro escapou por uma galeria de esgoto daquelas que ninguém sabe muito bem onde vai dar.

Como num relance de memória, algo daquela matéria que assisti pela manhã na TV sobre a nova tragédia do Haiti pisca pisca na minha cabeça. Nela, nesta imagem já corriqueira hoje em dia, a única diferença significativa entre a miséria do haiti de lá e o haiti daqui, salta aos olhos e faz barulho:

Haiti de lá: Cartazes e orgulho – sabe-se lá se organizado ou apenas desesperado – protestos veementes, faixas e tabuletas com reivindicações raivosas. Um mapa da Ilha Hispaniola (que sempre me intrigou) aparecia na tela, talvez explicando tudo. A ilha é dividia em dois países.

Num lado, a República Dominicana, terra ‘pacificada’ pelos norte americanos (como Puerto Rico) onde quase tudo há. No Haiti, terra de ex-escravos rebeldes e orgulhosos, terra sempre conflagrada e acossada por todos os flagelos deste mundo, nada há e, ao que parece, nunca haverá.

Haiti do Alemão: Conformada e submissa antes, sob o jugo dos bandidos e agora, aparentemente conformada e submissa também – e até feliz – com a ocupação das tropas federais, a população da favela forma uma ordenada e pacífica fila para pegar sacos plásticos com miseráveis sardinhas. Uma carga ilegal que foi apreendida por algum órgão de fiscalização municipal, e foi ‘caridosamente’ distribuida à população como doação das autoridades. Cena humilhante? ‘_Que nada!_’ dirão os ufanistas. _’Feio mesmo é roubar e não poder carregar!’

Ah, é? Então tá!

A moral desta história? Sei lá. Foi só um relance de pensamento que voou, que já esqueci. Não sei também onde fica a saída. Tenho até raiva de quem sabe.

Enfadado, cansado de ser julgado como maluco, o correspondente desta não-guerra eivada de exageros e hipocrisias, não quer mais se apoquentar e se aposenta, passando olimpicamente agora a se abster dos fatos  desta guerra.

Melhor tomar aquele ar fresco dos que não devem nada a ninguém, bêbado daquela merecida cerveja do entardecer, único troféu que realmente interessa aos  lúcidos e inocentes homens de bem.

Medida de segurança. Seguro de vida. Quem pariu Mateus que o embalance, não é o que diz aquele velho ditado?

Spírito Santo

Dezembro 2010

O Bagulho é doido, mas a Favela é que é a Droga/Post #02


Creative Commons LicenseTodo o conteúdo original deste blog está assegurado sob uma Licença Creative Commons."Futebol na favela" - Pintura näif de Helena dos Santos Coelho - 'Talentos da Terceira idade, edição 2009

“Futebol na favela” – Pintura näif de Helena dos Santos Coelho – ‘Talentos da Terceira idade, edição 2009

Ih!!!Bingo!

(Leia aqui o #post 01 )

_”Tava arregado! –Disse o refém-testemunha, descrevendo o que os bandidos diziam no hotel em São Conrado, aos berros, revoltados com os PMs que teriam quebrado o acordo estabelecido com o batalhão para deixar o bonde passar à vontade, toda sexta feira de baile funk, do Vidigal para a Rocinha.

Não sei de nada, não vi nada. Façam de conta que não está mais aqui quem falou.

Voltando ao ramerrão das mui discutíveis UPPs, é básico portanto a gente refletir que o ‘xis’ da questão, também neste caso da batalha de  São Conrado está em descobrir, em minúcias – e encarar de frente- no que consistem e o quanto são profundas estas relações promíscuas que se estabeleceram entre a cidade ‘oficial’ e a cidade ‘clandestina’ no Rio de Janeiro (já que uma está, umbelicalmente ligada à outra) a ponto de nos lançar na situação tão incontrolável como esta em que nos encontramos.

(E vejam bem: não estamos aqui para parafrasear aquele já tão badalado conceito do Zuenir Ventura de ‘Cidade Partida’. Isto, infelizmente já é hoje um conceito inteiramente superado, atropelado que foi pelos fatos. O Rio de Janeiro, ao que tudo indica, perdeu há muito tempo qualquer chance de ter suas duas metades reunidas, ‘pacificadas’ como dizem hoje estes cínicos. A sociedade carioca, esgarçou, exacerbou  demais da conta a sua dicotomia entre riqueza e pobreza.

(Aliás, a propósito, sempre que escuto este papo de ‘paz e amor’ entre os ‘desiguais’ e/ou ‘diferentes’, me vem à cabeça aquela musiquinha terrível do Chico e do Vinícius (e também do ‘Garoto‘, mas ele eu perdôo), piegas e hipócrita mais não poder):

…E aí me dá uma tristeza
No meu peito
Feito um despeito
De eu não ter como lutar

E eu que não creio
Peço a Deus por minha gente
É gente humilde
Que vontade de chorar

Não vai adiantar. Sob qualquer ponto de vista que se analise, a cidade do Rio de Janeiro tem problemas dramáticos e quase insolúveis a médio prazo.  Pegando o aspecto o urbanístico, por exemplo, a gente esbarra com a agudização do verdadeiro apartheid que se estabeleceu por aqui.

O que fazer? Remover, erradicar favelas? Onde colocar as pessoas? Com que recursos realizar todas as obras de infraestrutura necessárias para realojá-las? Reurbanizar as favelas? Como assim? Se é favela, jamais poderá ser bairro. Os conceitos são excludentes entre si. Isto é um sofisma sem tamanho. Pura cascata.

Entre outras características de história da carochinha, a filosofia– na verdade não muito mais que uma tática policial de curto prazo, no sentido militar do termo – o que está por trás das UPPs parece não estar, nem de longe relacionado a esta premissa fundamental que nos aparece como sendo irrecorrível e que nos sugerem muitas perguntas pra lá de capciosas.

Seria possível resolver um problema tão complexo de forma tão simples, reduzindo-o a simples ocupação de partes determinadas do imenso território favelado como numa guerra convencional? O problema poderia mesmo ser reduzido simplesmente ao desalojamento do chamado ‘poder paralelo’ destes nossos quase sempre fuleiros bandos de traficantes?

Vocês eu não sei, mas eu acho terminantemente que não.

Caindo no macro mundão do problema, observemos que estudos bem recentes dão conta de que são cerca de 200 milhões os usuários contumazes de drogas no mundo, a cifra apavorante de cerca de 5% da população mundial, um mercado consumidor gigantesco, do qual o Brasil, evidentemente participa com um número considerável de ‘consumidores’.

Pois bem, onde está concentrada a maior parte destes… ’consumidores’ brasileiros? Posso responder de cara, na lata: Nas ‘áreas nobres’ das nossas grandes cidades. Neste contexto, todo mundo está também careca de saber que a zona sul do Rio de Janeiro talvez seja o nosso maior mercado consumidor (digo ‘talvez’, porque, assustadoramente, a disputa entre nossas grandes capitais, para se saber quem consome mais drogas anda bem acirrada).

E reparem: O perfil destes ‘consumidores‘ vorazes de drogas ilícitas é gente, majoritariamente branca e bem fornida de condições sociais, culturais, financeiras e tudo o mais.

Olhando a questão ainda do ponto de vista macro, portanto – e pedindo perdão por ter que apavorá-los mais ainda – reproduzimos aqui a palavra de um especialista (olhando, bem entendido, apenas para um dos ângulos comerciais da coisa):

“…com intuito mais específico, se pretende explorar quais as relações e até que ponto existe uma simbiose entre as organizações que exploram o comércio de drogas ilícitas, o sistema bancário, que realiza a lavagem de dinheiro, e o sistema financeiro, onde o dinheiro se transforma em capital. Simbiose no sentido de que embora sejam organizações dissimilares convivem numa relação mutuamente benéfica…

Uma abordagem geo-econômica e geo-política talvez permita encaminhar a idéia de que essa simbiose se apóia na contradição, presente na origem e no desenvolvimento do sistema capitalista, entre processos de transnacionalização e formação de mercados mundiais (no nosso caso, dinheiro e drogas) e o estado nacional.”

Sacou? Veja então agora então pelo ângulo das relações fundiárias, ou seja, você acha mesmo que, neste contexto de conflagração de interesses tão poderosos,  a população original das áreas eventualmente… ’pacificadas’ vai conseguir manter seu território e suas propriedades (ou ‘posses‘) intactas?

“…A discussão fundiária, no entanto, tem adquirido vigor sobretudo como consequência da ação do governo de retomar o controle territorial das favelas com as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs).

Por exemplo, o Instituto Atlântico, dirigido pelo economista Paulo Rabello de Castro, propôs ao prefeito Eduardo Paes e ao vice-governador Luiz Fernando Pezão um projeto-piloto no Morro do Cantagalo, em Copacabana.

O plano inclui cadastramento geral dos moradores e o levantamento da topografia detalhada com o objetivo de conceder a titulação plena dos possuidores de lotes e unidades residenciais. São 1.456 domicílios e cerca de 5 mil moradores, 79% dos quais vivem lá há mais de 20 anos, informa o instituto. O argumento é que a ocupação fundiária passa a ser uma exigência da ocupação territorial. O território, antes dominado pelos traficantes, precisa ter dono, ressalta Paulo Rabello de Castro….”

———–

“…Para a professora Sonia Rabello, os moradores das favelas costumam ver com desconfiança a regularização fundiária. Primeiro, diz ela, porque isso significa entrar num mundo complexo ao qual não estão habituados, o terreno dos cartórios, dos advogados e da Justiça. Outro fator, segundo a professora, é que o título de propriedade pode, no médio e longo prazos, ser um fator de expulsão dessa população.

Para Sonia Rabello, todas as áreas de favelas só não foram ocupadas pela especulação imobiliária ou porque não tinham título ou porque não tinham lotes suficientes. O que garantiu a ocupação das favelas foi a impossibilidade de ocupação formal. A especialista lembra que, nesses casos, o direito de posse é garantido pelo uso, não por uma eventual titulação.

Enquadrem estes conceitos técnicos especializados no modelo de nossa micro-sociedade e descabelem-se logo, enquanto é tempo. E são mais de mil favelas, lembram-se? Destas, pelo menos 20 são de grande porte. Fizeram a conta?

Transferindo as quadrilhas de traficantes daqui para ali, mediante estes misteriosos acordos, vocês acreditam mesmo que o governo estadual está interessado em ‘pacificar’ e ‘humanizar’ favelas? A Polícia Militar teria efetivos para ‘pacificar’, pelo menos em parte, todo este universo de favelas? Considerem, por exemplo, a Rocinha, com cerca de 150.000 habitantes e várias centenas de becos e vielas.

Recentemente o exército brasileiro recusou propostas de intervenção da Força Nacional de Segurança no problema por causa do alto risco de corrupção da tropa (no entanto, como se sabe, topou a mesma parada na favela de Citè Soleil, no Haiti).

Quando se fala desta mesma ocupação por policiais militares, o que lhe vem à cabeça? Dá para se sentir seguro? Pois o secretário José Mariano Beltrame disse a pouco que seriam necessários, só para ocupar a Rocinha, 1.800 novos PMS.  Favelas sitiadas é o que ele propõe, como se fazia com bairros do Iraque no tempo do Bush? Durante quanto tempo? A que custo?

Fico pasmo. Ou o secretário pirou ou está blefando, certo?

Você já olhou bem para a geografia e as dimensões assustadoras de um mar de construções mal ajambradas como o Jacarezinho, a Mangueira? Você acha possível haver dominação e controle militar em espaços urbanos assim tão caóticos sem haver algum tipo de… ‘Acordo’ entre as partes?

E que boi adormece com esta história?

Se você acredita mesmo que a maioria das favelas do Rio de Janeiro vai virar parque temático, com elevadores panorâmicos e teleféricos metálicos e cintilantes, de onde vamos pode ver felizes crioulinhos indo e vindo para suas felizes escolas high tech, pilotando skates, com as suas felizes mãezinhas, ‘prendas domésticas’ indo e vindo para o aconchego de amplas bibliotecas com internet banda larga, ou mesmo para bem equipadas academias de ginástica, pilotando motinhas Honda, o problema é seu.

Tudo bem. Você deve ser destes que acreditam em Papai Noel, Branca de Neve, Disco Voador, estas coisas (o que, convenhamos, não é nenhum pecado, claro… até porque, em Disco Voador até eu acredito)

Mas se você, como eu, está cansado de ser enganado, raciocine. No âmbito de uma população total de mais ou menos 6.000.000 de habitantes – segundo o último censo – a população favelada do Rio atinge a cifra estúpida de 1,09 milhão de pessoas. Ou seja, no barato, 18,7% da população carioca reside em favelas. Especialistas que estudam o assunto afirmam, contudo que o número pode ser bem maior, podendo ser orçado aí por volta dos 1,5 milhão de pessoas ou seja: mais que 20% da população carioca seria favelada.

A conta, contudo pode aumentar muito se incluirmos neste cômputo outros tantos e tantos milhões de pessoas que residem em bairros muito pobres – quase favelas, como os bairros da Zona Oeste, por exemplo – que engolfados por ‘comunidades provisórias ’circundantes, se favelizarão também em muito breve.

Observem com atenção que as favelas cariocas, nesta sua nova e avassaladora fase de expansão, crescem no entorno de bairros convencionais, como parasitas que se alimentam da pequena rede de serviços pré existentes, escolas, comercio, postos de saúde, sobrecarregando a infra estutura do bairro até sufocá-lo, como uma jibóia. É esta, com certeza a dinâmica da formação dos chamados ‘complexos’ de comunidades faveladas.

Faça, portanto como eu: jogue a propaganda eleitoral – o nome dela já diz tudo: é ‘gratuita’, no sentido de irresponsável e cretina – no lixo onde ela merece estar e pense em profundidade, sem paixão, como gente grande.

Em suma: Se não se desmontou o mercado de drogas que segue impávido, de vento em popa e sem prejuízos visíveis – se não se forneceu, concretamente trabalho decente, residência digna, educação de qualidade, saneamento básico e saúde para a imensa maioria dos habitantes do Rio de Janeiro que hoje – vale sempre lembrar – é favelada e se não há a menor condição estratégica de se ocupar militarmente a maior parte do território de nossa cidade, no que eles querem mesmo que a gente acredite?

E vocês crédulos? Estão mesmo acreditando ou estão se acumpliciando porque acham que vão levar algum tipo de vantagem neste arranjo… quero dizer…Acordo?

Olha minha gente, quem avisa amigo é: Acabada a nossa – tomara que – feliz Copa do Mundo e os – tomara que – felizes Jogos Olímpicos o que será de nossas pobres almas? E se o  bagulho for bem mais doido do que a nossa capacidade de suportá-lo?

Parece papo de viciado prometendo largar o vício, de pé junto, mas não largando nunca não é não? Viciados em favela, será que é o que somos? Se for isto, a luz vermelha está acesa e há sintomas fortes de overdose à vista!

E se problema afetar o coração da cidade? Parada respiratória, cardíaca e…Babau! O Rio de Janeiro irá para um belo de um beleléu. Creiam-me e perdoem-me, de antemão, pois, gostem ou não gostem da conversa, caros amigos: alarmismo também é cultura.

Spírito Santo
Agosto 2010

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(Desculpem voltar, mas…não é que é bingo de novo?):

Pezão, nosso vice-governador, numa entrevista hoje (28/08), em O Globo:

_”…Não é sem droga (se referindo à função das UPPs). Droga existe a nível mundial; ninguém vai conseguir acabar. Mas nós vamos conseguir tirar o fuzil das ruas do Rio de Janeiro”

Ora, ora… Mas não era sobre isto mesmo que eu falava?

Usemos a lógica mais elementar: Se o fuzil está nas ruas porque há tráfico de drogas, uma mercadoria ilícita de altíssimo valor comercial, onde há drogas, portanto terá de haver, necessariamente traficantes armados.

Logo, onde há traficantes há, evidentemente disputa pela posse ou pela repressão da venda da mercadoria refinada e/ou guardada nestes entrepostos. É , pois, da natureza desta disputa pelo mercado da droga haver sempre armas e violencia.

Conclue-se então que, para se deslocar as armas (tirá-las das ruas do Rio, como diz o político) só se for deslocando os entrepostos, intervindo diretamente na distribuição em suma, mas como garantir que isto poderia mesmo ser feito, se o tráfico de drogas é bandido, clandestino?

Cabe, portanto perguntar: Estaria o vice governador sugerindo que o governo do Rio pretende transferir os entrepostos para outros lugares? Quais seriam estes lugares? Seriam os ‘complexos‘ de favelas da periferia ou seria o interior do Estado? Deus do céu!

Loucos de pedra! irresponsáveis!

E a distribuição da droga – o tráfico propriamente dito – para os consumidores daqui da cidade ‘oficial‘, como seria organizada? Quem controlaria este tráfico já que, acabar com ele não é, assumidamente a pretensão do Estado?

Perguntas…muitas perguntas sem respostas, que não sejam mais assustadoras ainda.

Acho que só se topassem discutir e combinar isto tudo com os comandos de traficantes (e os comandos de milícias), num grande seminário, uma cúpula bandida, um…’Acordão‘.

Sugiro de cara – prendendo o riso – o Hotel Intercontinental, em São Conrado.

Spirito Santo

Setembro 2010

O Bagulho é doido, mas a Favela é que é a Droga


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Pegue – ainda andando – o Bonde da Batalha de São Conrado

Todo mundo da Zona Sul, em pânico já falou, escreveu, leu, tremeu enquanto o pau comeu. Pois então parem de tremer, só um pouquinho e vejam de novo a cena aí em baixo, em câmera lenta, comigo.

Calma! Take easy! (Cadê o diazepan, o bromazepan, desta gente? E o lexotan, o psicosedin, o somalium, o tensil, o valium? Ai, ai! Help! Help! I need somebody help!… E eu? Cadê o meu isordil?)

Ué? Mas não estava uma calmaria só com esta história de UPPs pra lá UPPs pra cá? A política de segurança adotada contra a violencia urbana – com a tomada de doril, a sumida zastrás da bandidagem, cedendo pacificamente – esportivamente até – o território para as redentoras UPPs?

Até eu, bruto, grosso que só vendo, com esta minha má vontade proverbial (que os lulistas mais fanáticos dizem ser ‘insana’ e ‘gratuita’) me animando para com as nossas atuais autoridades constituídas, já baixando a bola crítica ao ler as animadoras reportagens propagandísticas sobre UPPs, com dificuldade para discernir, entre o que era trigo da mais pura verdade do que era joio da mais deslavada propaganda eleitoral, nesta história de pacificação das ‘comunidades sitiadas pelo poder paralelo’.

Sim porque, com foros de descoberta da cura do câncer, da decodificação do último caco da pedra da roseta, do fechamento do buraco na camada de ozônio, a violência urbana dava toda a pinta de que desapareceria sim, no lapso de uma mágica com ar de malandragem mandraqueana, como uma paradigmática política, a mais certeira e verdadeira deste mundo.

Daí:Pum! Pá!Pá!Pá!Pá!

Correria, reféns, cena de cinema. Não fossem as armas high tech e as roupas de grife da bandidagem, ia ficar parecendo aqueles reids de cangaceiros de filme da Vera Cruz, que eram por sua vez – quem se lembra?- copiados dos filmes de far west classe ‘C’, com aqueles bandidos mexicanos suados, barbados, invadindo a cidade às gargalhadas, dando tiros a esmo e soltando gritinhos histéricos, como mariachis cantando ‘cucurucucu paloma’.

Pois sim. A não ser os da assistência, quais gritinhos histéricos você ouviu? Zero. Nenhum. Berros, urros matraqueados de fuzis de assalto, AR15, AK47 FAL, isto sim foi que se ouviu. A bandidagem desenvolta gritando os palavrões mais cabeludos deste mundo.

Mas foi mal sim, não foi? Em plena manhã de sábado em pleno ‘Rio-que-mora-no-mar’ aquela bandidada toda, saltando daquelas vans de roupa preta como se fosse assim um bando de ninjas tropicais de cara limpa, saídas de uma locação de favela de um filme do Van Damme, do Will Smith, do Stallone. Vieram de onde aqueles bárbaros vândalos? De um baile funk nas ‘serras de veludo’, do alto lá do ‘Rio que NÃO sorri de tudo’, foi o que a imprensa divulgou.

Bárbaros! Vândalos! Onde é que já se viu? Não sabem mais onde é o seu lugar? Concordo e me solidarizo com a bacanada. Juro por Deus.

Que não foi nada fofo, isto não foi não. Um terror quase médio oriental. Uma chusma de talibans desgovernados, sem nenhum bin laden pra gente chamar de nosso, para colocar a culpa e mandar – como um bode bíblico – para uma montanha remota de um Paquistão destes qualquer, ou um Bangu 1, 2, 3, 4, 5, 6…, para purgar todos os pecados deste nosso abilolado Brasil de quase primeiro mundo.

O lado bom – é gente, dependendo do ponto de vista, tudo tem sempre um lado bom – é que a gente pode baixar um pouco a bola sim, sair desta euforia tão dilmista, desta conversa fiada governista de paz e amor sem sacanagem, para tentar fazer uma análise mais realista e franca da situação.

Estão mesmo a fim de cair na real? Acompanhem então no meu modesto e imparcial raciocínio os dados que todo mundo está careca de saber, mas finge esquecer.

O buraco – vou logo avisando – é bem mais embaixo

O Rio de Janeiro tem mais de 1000 favelas, certo? (e para quem duvida a lista está aqui mesmo para ser conferida). É um número tão absurdo, mas tão absurdo para uma cidade com apenas cerca de 1.224,56 km2  que, para caber no espaço que ocupam (sem ferir as leis da física) muitas destas favelas se juntaram umas às outras, como um turbilhão de moléculas, criando células urbanas amorfas e agigantadas, sendo chamadas hoje quase cinicamente de… ‘complexos’ (o que, cá entre nós, assim meio sem querer, acabou virando uma palavra bastante apropriada para o caso – cujas mumunhas mais impressionantes nós mesmos, aliás, já esmiuçamos por aqui)

Indo mais fundo ainda na questão, vamos combinar então que uma favela não passa muito de um amontoado de habitações imprensadas umas nas outras, nas quais reside um aglomerado aparentemente desarticulado de pessoas, as quais, por uma contingência natural de sua condição de seres vivos (nem precisavam ser humanos) se organizaram de uma forma ou de outra até assumiram uma feição de uma micro-cidade.

É uma questão de lógica mesmo, gente. Pessoas demais – aquelas a quem a sociedade nega tudo, inclusive espaço para morar- ocupando espaço de menos. Isto, numa física mais elementar ainda, costuma ser igual à pressão e, em algum prazo (o tempo do pavio) explosão.

Esta ‘sub-cidade’ , esta bomba sempre prestes a fazer ‘Bum!’ – apartada que está da ‘cidade oficial’ – desenvolveu, evidentemente uma economia própria, clandestina, do mesmo modo que criou relações políticas e culturais anárquicas, clandestinas também (e talvez este seja o único aspecto positivo da história) tudo isto estruturado em torno de uma instancia de poder dita ‘paralela’, espontaneamente surgida ou – como ocorre na maioria das vezes – instalada ali por meio da força bruta, de uma invasão armada, militarizada, mas de qualquer modo representando um poder, efetivamente instituído, com um complexo protocolo de interesses e relações – não importa mais se promíscuas ou não – estabelecidas tanto internamente (no seio do que se chama eufemisticamente de ‘comunidade‘) quanto com o mundo exterior (no nosso caso, a aqui chamada cidade ‘oficial’).

Agora deu para entender, não deu? Posso divagar um pouco então.

‘Zu’, comandante ‘bicho solto’ do Kilombo Louco.

Ouvindo o secretario de Segurança do Rio de Janeiro José Mariano Beltrame dizer hoje que sabe muito bem onde mora o ‘Nem‘ da Rocinha (e até mesmo o que existe dentro da casa dele) antes de cair na gargalhada, pensei: E daí? Isto qualquer zé mané pode saber. Não é segredo para ninguém. Isto não é vantagem que se alardeie assim, como uma suprema glória estratégica. Ele devia era ter vergonha de dizer um disparate destes, que não prende ‘Nem‘ para ‘preservar a população’ de constrangimentos e… balas perdidas. Que chantagem! Que cinismo!

Me lembrei no ato que, eu mesmo, trabalhando durante algum tempo na década de 1990 dentro de uma destas cidadelas clandestinas, por dever de ofício, pude ter um contato bem direto, privando da intimidade mesmo, com um destes ‘sobas’ de favela igualzinho ao ‘Nem‘.

A experiência (que já narrei anteriormente no post deste link) me permitiu observar alguns fatores cruciais, fundamentais mesmo para se compreender o quanto é cabeludo o problema.

Zu” (o codinome deste bam bam bam de favela já falecido, barbaramente assassinado) se apresentou a mim anunciando, sem meias palavras, que era o “presidente da associação de moradores de dia e o chefe do tráfico de noite”.

Os demais integrantes da quadrilha – cerca de 15 a 20 homens, no máximo – todos bem jovens ainda os quais, do mesmo modo, conheci bem de perto, tinham aquela ocupação precária como único emprego possível. Um número indeterminado de outros moradores, donos de biroscas, cozinheiras que vendiam quentinhas para o bando, de uma maneira ou de outra, também dependia daquele negócio para sobreviver.

E tinham as ‘tchuchucas’ que pescavam favores, lascas e prendas da negadinha bandida; o pastor que salvava os não bandidos do demônio (e amealhava os dízimos dos coitados); um mundo de gente desamparada, vivendo como mariposas na aba do ‘movimento‘. Fazer o que?

Nunca me esquecerei de uma garotada mal entrada na adolescencia, que vi uma vez sentada num degrau à porta da ‘Boca‘. Trabalhavam na chamada ‘endolação‘, preparando e embalando a cocaína para a distribuição. Haviam manchas estranhas, enormes, de um roxo enegrecido estigmatizando os antebraços e as mãos daqueles garotos esquálidos.

As manchas – soube depois – eram provenientes da manipulação do produto químico que usavam na decomposição da cocaína, algo como amônia, não sei bem.

Os rostos encaveirados daqueles garotos, todos negros, um pouco pelo cansaço, um pouco pelo algo de droga que consumiam, tinham um que de caras de zumbies de filme de terror norte americano. Estavam sentados ali imóveis me olhando, exaustos como num intervalo da filmagem de um thriller no qual Michael Jackson algum conseguiria injetar glamour.

(Estranho como ainda bem antes do advento fúnebre do crack, esta negadinha  já se parecia com os bandos de zumbizinhos craqueados e moribundos de hoje).

Deste mesmo negócio sujo viviam advogados ‘de porta de xadrez’ , alcaguetes de polícia (quase sempre agentes duplos) e um grupo enorme de PMs além, é claro, do próprio comandante do batalhão da área. ‘Zu“, pessoalmente me falou sobre isto em certa feita, apontando de longe um PM numa guarita de uma rua chic, próxima à favela me dizendo:

_’ A’lá! Tá vendo? São tudo uns cú-de-galinha. Sabem quem sou eu, mas não podem fazer nada porque tem o acordo’.

Até mesmo a creche do local, totalmente abandonada pela prefeitura da cidade ‘oficial’ dependia bastante de uma ou outra ajuda do caixa do tráfico, segundo eu mesmo pude constatar realizando ‘inspeções‘ solicitadas pelo próprio ‘Zu‘, cioso e interessado em me provar que tinha mesmo alguma…’responsabilidade social’. E quem ia duvidar ou discordar dele? Eu?

Outra característica curiosa do poder especial do xerife ‘Zu’, a ele delegado pelas… especiais circunstancias (havia participado da invasão armada ao local, desalojando a quadrilha anterior com uma chacina) era o alto grau de sumarismo da justiça local, por ele assumida, a ferro e fogo.

A condição de entreposto de drogas, uma mercadoria de tão alto valor comercial, que precisava ser defendida assim, militarmente, obrigava ‘Zu’ a difundir e a manter ativo um código de leis absolutamente terrorista onde a pena de morte era quase sempre a única pena admitida e aplicável.

Qualquer manifestação de ponderação ou ‘salomonismo’ por parte dele, o ‘líder’ seria sempre encarada como um sintoma de vacilação, deixando-o com a fama de frouxo, incitando a cobiça dos inimigos invejosos, ficando portanto vulnerável aos ataques de quadrilhas integradas por rivais externos ou internos.

A regra mais fundamental do caráter sui generis daquela micro-sociedade clandestina, a base política de sua sobrevivência era, portanto o chamado ‘Acordo’. Espécie de tratado de paz, de acerto diplomático estabelecido com agentes intermediários da autoridade constituída, o poder oficial, ‘exterior‘.

Este ‘Acordo‘ (que no âmbito estrito da Policia Militar do Rio de Janeiro, foi depois tornado público no filme ‘Tropa de Elite’) é que dava garantias a ‘Zu’ de poder contar com total segurança para tocar seus negócios, desde que dentro dos limites de seus domínios territoriais.

O ‘Acordo’ (ah…qual é? Porque será que insisto em falar disto se todo mundo já sabe)  era – como ainda é – baseado no pagamento de um valor periódico (mensal, semanal) uma ‘comissão’ rigidamente estipulada entre as partes. Chamado de ‘PP’ na gíria – ‘pronto pagamento’– a palavra parece ter sido extraída do jargão do Jogo do Bicho , ou seja, era um ‘pro labore’ sem nota ou recibo. O pior da história é que esta prática parece estar indelevelmente arraigada entre nós, como marca histórica mesmo, vigente que é há muito tempo, desde os tempos de D.João Charuto.

Gosto de fazer uma analogia entre nossas favelas com o exemplo dos quilombos de escravos fugidos do Brasil colonial (afinal, o modelito bem que deve ter sido inspirado nisto aí) porque a História do Brasil, mesmo esta ‘chapa branca’, convencional, já constatou que para que estes quilombos pudessem durar tanto tempo (Palmares , por exemplo, o quilombo mais célebre, chegou a durar quase um século), certo nível de promiscuidade nas relações comerciais e ‘políticas’ entre eles e a sociedade ‘oficial’ tinha, necessariamente de existir.

(Cheguei mesmo a chamar numa canção esta comparação entre os quilombos de ontem e o as favelas de hoje de ‘Kilombo Louco’, com as favelas de hoje representando uma exacerbação de nossa psicopatia social, nossa mania – melhor dizendo, nosso  vício –  imoral e renitente de excluir a maioria de nossa gente em benefício de uma reles minoria.)

“…Kilombo louco!
Cada favela um Brasil
Kilombo louco!
Mateus, quem pariu?
Depois da lança e bodoque
a pistola Glock, a metralhadora e o fuzil”

A grande tragédia brasileira – mais trágica ainda porque está sendo agora mesmo, subestimada, irresponsavelmente tolerada por nosso corrompido eleitorado nas eleições atuais – é que esta prática acaba de se tornar – mais ainda do que já era – infelizmente, generalizadamente nacional.

Ela é recorrente tanto no âmbito das relações comezinhas entre a polícia e os bandidos descritas no microcosmo das favelas que acabo de descrever – sua provável gênese – quanto no âmbito das relações entre autoridades constituídas em geral e máfias de contraventores de qualquer ordem ou tipo principalmente – como se pode constatar no episódio dos mensalões de Brasília – no âmbito da política e de todos os níveis da administração pública, da Presidência da República a mais inexpressiva prefeiturinha municipal.

Bem, mas isto a julgar pela direção em os ventos das eleições presidenciais estão soprando, está virando uma carroça pesada demais para os puros de coração que, fatalmente terão que empurrar com a barriga – e nós nas tripas – mais este bonde de mazelas republicanas, por mais alguns anos.

…Isto para os que ainda estiverem neste mundo (ou que tenham ainda alguma barriga com que empurrar alguma coisa).

Ai!

(Pronto. Podem voltar a respirar agora. Podem sair de baixo da cama. O tiroteio por enquanto amainou. Ai que alívio! Meu isordil chegou, a pressão arterial baixou… Ufa! Depois eu volto e sigo o bonde no post #02 deste papo)

Spírito Santo
27 de Agosto 2010 (dia do eu 6.3 turbinado)