Salada Mista


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Foto Tadeu Brunelli
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Elogio á Mestiçagem, Democracia Racial e outros picantes ingredientes

“ O Neguinho gostou da filha da ‘madame’
Que nós tratamos de Sinhá.
Senhorita também gostou do Neguinho
Mas o Neguinho não tem dinheiro pra gastar
A ‘madame’ tem preconceito de cor
Não pode aceitar este amor.
Senhorita foi morar lá na ‘Colina’
Com o Neguinho
Que hoje é compositor.”

(Samba de Noel Rosa de Oliveira, e Abelardo da Silva, anos 60)

Existem várias analogias culinárias que podem ser feitas quando se fala das diferenças sócio culturais existentes na composição da população de um país e suas diversas possibilidades de mistura, amálgama, (no Brasil uma questão tornada particularmente complexa por conta de nossa peculiar estratificação sócio racial). Já foram tentadas várias receitas para tão ansiada refeição mas, até agora, nenhuma realmente apeteceu à clientela.

A primeira – e mais óbvia- analogia que me ocorre é a do Omelete, aquela que diz que para fazer um é preciso ‘quebrar os ovos’ . É a mais radical e cruel porque cria um problema terrível para a galinha, mãe eventual dos pobres pintinhos que nasceriam. A outra, mais ‘light’ é a da Vitamina, na qual um liquidificador mistura tudo numa pasta uniforme, fazendo os ingredientes originais, geralmente frutas ou legumes da estação, perderem inteiramente a, digamos assim, identidade.

Para mim, a mais pertinente é mesmo esta que uso agora, principalmente por causa da certa dose de ironia que ela contém: A Salada Mista. Nela os ingredientes se misturam, partilham algum tempero comum, mas mantêm-se íntegros, apesar de estarem picados em muitos pedacinhos. Acho a Salada Mista uma boa analogia para Diversidade Cultural.

Esta questão, a nosso ver, mãe de quase todas as contradições e conflitos brasileiros, está na discussão sobre as influências exercidas pelas culturas ditas ‘hegemônicas’ sobre culturas ditas mais frágeis (ingrediente principal da xenofobia). Neste ‘conversê’ sem fim sobre preservar ou não preservar a nossa ‘cultura popular’, ainda chamada por alguns de ‘Folclore (esta palavrinha tão vã que mais esconde do que explica o que quer mesmo dizer ‘Cultura do povo’).

Está na violência urbana, na contagem de corpos e nas balas perdidas que animam nossos debates cotidianos (afinal, quem morre mais, o favelado trabalhador quiçá traficante ou a classe média trabalhadora quiçá consumidora de drogas?). Está até nas conversas sobre o futuro de nossas crianças (afinal, um negão de 13 anos, com um metro e oitenta de altura merece ou não ser tratado como uma criança?). Está, em suma, contaminando todos os espaços do nosso cada vez mais tenso dia a dia.

O tema, passeando cada vez mais pelas entrelinhas deste nosso site, talvez seja hoje a mais importante questão brasileira: Entender, timtim-por-timtim, a maneira como, dividindo o Brasil em castas raciais se construiu (e se mantêm até hoje) uma das sociedades mais desiguais do planeta e, de como agora, extremamente divididos, porém, perdidos no mesmo ‘mato sem cachorro’, vamos nos livrar da arapuca social na qual, por pura babaquice e egoísmo nos metemos.

A conversa passeia também – e principalmente até- pelas centenas de subterfúgios e ‘panos quentes’ que boa parte de nossa elite bem pensante, a nossa indefectível Academia (ou ‘inteligentsia’, para usar, na falta de outro melhor, um termo já bem arcaico) e mesmo a nossa sociedade como um todo, se utilizam para desconversar, tergiversar e manter as coisas exatamente como estão.

Como estamos falando de gente, de cultura humana, a esta altura deve caber bem a pergunta: Qual receita seria a mais recomendada para conseguirmos (em se tratando de Brasil, é claro), uma sociedade sem conflitos sócio culturais tão violentos? (O garçom mais próximo pode fazer a pergunta : )

_ ‘Omelete, Vitamina ou a Salada Mista, freguês?’

A VITAMINA
Descrevendo as receitas

…”Ao que parece o termo (Democracia racial) foi usado pela primeira vez por Arthur Ramos (1943), em 1941, durante um seminário de discussão sobre a democracia no mundo pós-fascista (Campos 2002). Roger Bastide, num artigo publicado no Diário de S. Paulo em 31 de março de 1944, no qual se reporta a uma visita feita a Gilberto Freyre, em Apipucos, Recife, também usa a expressão, o que indica que apenas nos 1940 ela começa a ser utilizada pelos intelectuais. Teriam Ramos ou Bastide cunhado a expressão ou a ouvido de Freyre? Provavelmente, trata-se de uma tradução livre das idéias de Freyre sobre a democracia brasileira. Este, como é sabido, desde o meados dos 1930, já falava em “democracia social” com o exato sentido que Ramos e Bastide emprestavam à “democracia racial”; ainda que, nos seus escritos, Gilberto utilize a expressão sinônima “democracia étnica” apenas a partir de suas conferências na Universidade da Bahia, em 1943.

(Texto-tese de Antonio Sérgio Alfredo Guimarães -Departamento de Sociologia /Universidade de São Paulo)

Dos anos mais efervescentes do movimento abolicionista no Brasil à década de 30 do século seguinte, uma nova iguaria apeteceu a certa bem apessoada rapaziada: Elegantes em seus librés (logo depois envergando vistosos fraques em conferências internacionais), estes jovens rapazes gritariam em coro para o garçom:

_ ‘A vitamina, senhor! Vitamina para todos!’

É que preconizavam com um empenho falsamente cívico o que de melhor se poderia fazer com os escravos: desaparecer com aquela ‘mancha negra’ transformando os africanos, progressivamente (num processo de cem anos, diziam os mais cartesianos), em seres mistos, nem brancos nem pretos, mestiços (as teorias não explicam se no preparo da receita desapareceriam também os brancos).

A história da tese que ficou conhecida como ‘elogio á mestiçagem’, irmã dileta desta outra tese controversa, a ‘Democracia Racial’ é antiga. Ela esteve muito em voga até os anos 30 do século passado (na verdade ainda hoje é defendida por alguns seguidores). Seus principais formuladores, de uma ponta á outra, foram intelectuais como Silvio Romero, Graça Aranha, Joaquim Nabuco e, já no século 20 também entre outros, o sociólogo oficial do Brasil Gilberto Freyre.

Como se sabe, estas paradigmáticas teorias nasceram, pelo menos como conceito, como uma proposta que resolveria o problema gerado por aquela massa enorme de seres humanos negros que o sistema de trabalho escravo arrancou da África e espalhou pelo mundo, uma massa humana liberta por injunções muito mais econômicas do que humanitárias e, portanto a boca pequena considerada ainda pouco mais que escória.
Lentz, um dos personagens centrais do livro Canaã de Graça Aranha afirma a certa altura:

_”O homem brasileiro não é um factor do progresso: é um híbrido. E a civilização não se fará jamais nas raças inferiores” (…) “Não acredito que da fusão com espécies radicalmente incapazes resulte uma raça sobre que se possa desenvolver a civilização. Será sempre uma cultura inferior, civilização de mulatos, eternos escravos em revoltas e quedas. Enquanto não se eliminar a raça que é o produto de tal fusão, a civilização será sempre um mistério, o artificio (…) Até agora, não vejo probalidade da raça negra atingir a civilização dos brancos”.

Ao que Milkau, o personagem antagonista contrapunha, fazendo o seu ‘elogio da mestiçagem’:

_”O tempo da África chegará. As raças civilizam-se pela fusão; é no encontro das raças adiantadas com as raças selvagens, que está o repouso conservador, o milagre do rejuvenescimento da civilização “(…) Eu tenho para mim que o progresso se fará num evolução constante e indefinida”

O mito do homem mestiço: Eis aqui o que parece ser enfim a chave de tudo para esta corrente de pensamento. A quem interessaria tamanha utopia? A inexistência total de diferenças biotipicas ou (‘estético-raciais’) seria cientificamente possível? A simples padronização ‘racial’ das pessoas removeria, num passe de mágica, as diferenças sociais? Se não, para que serviria então?

É preciso, contudo, situar a questão em seu devido contexto histórico porque, se no campo da precária biologia do século 19, se considerava cabal a existência de superioridade racial entre seres humanos (que justificaria a assimilação – ou a diluição – de uma raça pela outra), hoje até o próprio conceito absoluto sobre a existência de raças humanas está superado. Assim, propor ou sugerir a ‘mestiçagem’ como solução para tão candente problema social, não era naquela época, uma idéia tão absurda assim. Menos mal.

É nesse contexto que devem ser considerados, por exemplo, certos aspectos bem sucedidos da sociologia de Gilberto Freyre (o que não deve redimir, de forma alguma, a perniciosidade e os equívocos clássicos de sua ideologia)

O OMELETE
(Pobres dos pintinhos)

Assim, ali por volta de 1930, 40, alguns europeus de bigodinhos, reunidos numa mesa ao fundo, ao serem inquiridos pelo garçom responderiam excitados:

_’Omeletes, senhor!’ De sobremesa, Vitaminas!’

É que para uns não havia jeito melhor de melhorar a raça humana do que separar os espécimes ‘superiores’, os ‘puro sangue’, os de ‘pedigree’ e desaparecer com o resto, inclusive os ‘vira-latas’, transformando a ralé em torrada, num forno crematório qualquer.

Para outros, contudo, o desaparecimento dos ‘inferiores’ deveria se dar por meio de métodos mais científicos ou ‘humanitários’: Um liquidificador genético resolveria o problema. Um projeto que, como veremos a seguir, não tinha mesmo nada de científico (e muito menos de humanitário).

(Aqui, antes de tudo, uma necessária afirmação de firme e ampla discordância diante dos partidários da Vitamina ou da Mestiçagem. É preciso – me permitam – fazer uso da ênfase nesta hora, á este ponto de uma questão que é por razões óbvias, crucial).

Frisemos que o contexto onde atuaram Gobineau, Lombroso, Chamberlain, Nina Rodrigues e, porque não dizer, Gilberto Freyre, foi o mesmo que gerou as teorias nazistas na década de 30. Não foram idéias apenas simplificadoras’ ou ‘evolucionistas’. Foram idéias profunda e claramente interessadas em criar um novo paradigma de civilização, um método ‘científico’ para a classificação e a sujeição de pessoas, num novo ambiente geopolítico denominado Colonialismo.

Apenas para exemplificar o alto grau de assumida perniciosidade destas idéias, basta citar o trabalho militante do próprio Gilberto Freyre, no final da década de 30 do século 20, a serviço do governo ditatorial de Antonio de Oliveira Salazar, como um dos ideólogos que contribuiram para a criação e a implantação de um sistema institucional de controle e subjugação das populações das colônias de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau e Príncipe denominado ‘Lei do Indigenato’, código similar aquele engendrado pelos africâners, na África do Sul, que dispensa comentários: o insidioso ‘Apartheid’.

O antropólogo angolano José Maianga, em texto publicado pela Revista afro-lusitana África, a este respeito nos esclarece cabalmente o seguinte:

“O indigenato, institucionalizado pelo regime salazarista (‘Estatuto dos Indígenas Portugueses das Províncias da Guiné, Angola e Moçambique’) era um diploma aplicado apenas às situações jurídicas dos indígenas africanos num país que, constitucionalmente, se dizia subordinado ‘à moral ao direito e às garantias e liberdades individuais’.

Este diploma traduzia, sem dúvida, a sujeição plena dos africanos ao colonizador e a uma prática assimiliacionista que se afundava no mar de contradições por onde navegava…”

As afirmações não são de forma alguma novas. Alguns estudiosos estão no momento fazendo uma ampla revisão da obra de Freyre neste mesmo sentido. As idéias originais dele, no entanto, impregnadas em quase tudo que se escreveu sobre o negro – e os pobres- do Brasil -, estão infelizmente, ainda em voga por aí e, o que é pior, defendidas por novas teorias e embasamentos que tentam afirmar Freyre como uma espécie de gênio mal lido e incompreendido.

Não é possível, portanto, entender os processos de evolução da cultura brasileira, por exemplo, dissociando-os deste contexto sombrio que o cineasta Ingmar Bergmam, muito apropriadamente chamou num filme clássico de “O Ovo da Serpente”

No Haiti não existem ‘brancos’. Lá, a classe média ‘mulâtre’ oprime os ‘mais’ negros. O nazismo separava pessoas absolutamente brancas e as mandava á morte, baseando-se em diferenças físicas cosméticas: um nariz mais adunco, olhos pretos, etc. Claro que racismo não tem nenhum fundamento ‘científico’ ou ‘biológico’. Se baseia em pretextos, desculpas esfarrapadas.’Mitos’ em suma. Um cuidado que deve ser observado por todos que se dedicam a este assunto.

Ingênuas, marcadas talvez por certa dose de crueldade e frieza sim, mas, de modo algum absurdas para a época, as propostas que animaram os sociólogos da primeira metade do século perderam a força exatamente quando se soube o que de fato elas representavam: Grosseiros equívocos. É isto que torna mais surpreendente o fato de existirem ainda hoje correntes de pensamento defendendo propostas semelhantes no Brasil, em pleno século 21, quando a panela de pressão da nossa conturbada sociedade já apita o sinal óbvio que diz:

_‘Cuidado! Abra a válvula que estamos prestes a explodir’.

A SALADA MISTA
e a sabedoria dos gibis

Há também, pode-se observar embutida na argumentação, uma forçada e esdrúxula associação entre ‘nacionalismo retrógrado’ (de novo a xenofobia) e a ‘admissão de que há racismo no Brasil’. Admitir ou sugerir com um pouco mais de ênfase a existência de racismo no Brasil seria um comportamento ‘ultrapassado’, ‘de modè, expediente muito usado como uma – muito eficiente inclusive- tática para se desqualificar discursos antagônicos.

Esta questão, aliás, traz á luz o que parece ser o segundo eixo da questão: Afinal, porque será que em certos setores de nossa ‘inteligentsia’, se nega tanto e de forma tão estranhamente peremptória (com argumentos tão mal fundamentados), a existência de racismo no Brasil? Existiriam intenções nessa negativa tão insistente?

Negar a existência do monstro, todo mundo sabe, não vai jamais matar o bicho.

É preciso aprofundar também outros aspectos cruciais do racismo brasileiro (na verdade de todos os racismos). O fato de cientificamente não existirem raças não significa que não exista racismo. Não é um argumento pertinente nem mesmo aceitável. Vamos combinar, francamente: Racismo é um estúpido instrumento de dominação social, uma praga da humanidade.

A sociedade brasileira é altamente excludente, certo? Não é preciso ser uma sumidade acadêmica para identificar qual é o instrumento de exclusão mais eficiente utilizado por aqui. Bingo para quem disser Racismo.

E vamos acabar também com esta falsa dicotomia: Problema Racial e Problema Social não são conceitos opostos ou divergentes. Um é a carne, o outro é a unha. Um não poderia, de modo algum, existir sem o outro.

Para qualquer um que sofre racismo ‘na pele’ fica evidente que o racista usa apenas um pretexto covarde, para discriminar: É fácil: Basta destacar uma diferença biológica qualquer e subestimá-la, demonizá-la, impondo uma marca, um estigma para identificar os portadores daquela suposta ‘deficiência’. O fisicamente diferente é declarado inferior e pronto.

Do ponto de vista de quem quer discriminar, dependendo de seu interesse, ‘negros’ serão portanto, todos aqueles que, visivelmente, não se parecerem com ‘brancos’. No exercício da discriminação não existem ‘mulatos’, ‘mestiços’, ‘pardos’, todos são’ marrons’, inferiores, não por terem este ou aquele tom de pele, mas porque ‘não são brancos’. Ponto

Quando em minoria, no entanto, diante de algum interesse, alguma vantagem a ser obtida junto aos ‘marrons’, a hierarquização das ‘cores’ passa a ser muito proveitosa para a ‘raça’ hegemônica (a que está no poder). Pura política.

A história humana está cheia de estratagemas como estes, nos quais com a finalidade de obter vantagens junto a um grupo estranho, nos associamos a um amigo ‘nativo’. É uma prática recorrente demais para não ser notada. Até mesmo nos saudosos gibis da infância de alguns de nós o arquetípico estratagema aparece.

Quem não sacou isto na função dramática do índio ‘Tonto’, amigão do Zorro norte americano ou na fidelidade á toda prova do gigante ’Lotar’, guarda costas do Mandrake. Quem não notou esta solidariedade esperta, interessada, no olhar do Fantasma, ‘Espirito- Que- Anda’ para o pigmeu Guran, seu fiel aliado, do alto do seu trono na caverna da caveira?

Descontando a paranóia nacionalista de alguns, no âmbito de nossa cultura contemporânea isto pode estar ocorrendo também com alguma frequência. Você louva, aprende, assimila e pratica a cultura que um dia foi exclusiva (não que o pobre coitado quisesse se isolar) do negro ou do índio, do nordestino – tanto faz- mas não se importa muito que ele permaneça ad infinitun socialmente excluído, lá ‘no morro’, na selva ou no sertão.

No processo você aprende a fazer Samba, Maracatu, a tomar chá do Santo Daime e a ficar doidão sem culpa. É bom. É politicamente correto. Dá a você certo charme democrático, uma espécie de certificado de ‘responsabilidade social’ mas, e daí?

 O problema é que ‘Ele’, o ‘Outro’, continua lá no seu canto, estressado de carências, fazendo o seu Funk pesadão. Cria-se assim (colocando os não brancos todos no mesmo saco) uma espécie de ‘Cultura negra sem negros’ e a gente não sabe muito bem no que isto vai dar. Se o cara não ficar rico fazendo Hip Hop, pode um belo dia dar um tiro em você.

Se for mesmo, como julgamos, além de uma mistificação cultural, uma impossibilidade genética em termos (não existem raças humanas, lembram-se?), A Mestiçagem, como conceito democratizador não passa mesmo é de um cruel sofisma. E esta tem sido a lógica do Sistema de castas ‘raciais’ no Brasil.

Todas as receitas de democracia racial (com ou sem eufemismo) em voga atualmente contêm um mesmo e azedo ingrediente, um mal crônico que lhes tira todo o sabor: Redistribuem valores culturais, garantindo a certo grupo certas vantagens deles advindas, sem mudar as pessoas de lugar na pirâmide. Os que possuem quase tudo passam a possuir mais ainda. É a lógica fria de nossa elite predadora. A lei do mais forte. Qual é a novidade nisto aí?

(Agora, sem maniqueísmos, por favor)

Todo mundo sabe que este comportamento não é uma coisa assim percebida, exercida individualmente, mas, é um procedimento, praticado pela grande maioria dos ‘brancos’ do Brasil, diariamente, muitas vezes até de forma ingênua, um comportamento padrão, arraigado, especializado por séculos de prática.

E saibam também que não é uma coisa fácil de extirpar não. É exatamente este o conteúdo subreptício, a essência de conceitos como a chamada ‘democracia racial’ e seus sucedâneos: dar sustentação, argumentos, justificativa teórica para esta deslavada contradição.

(Cabe aqui inclusive duas perguntinhas pra lá de capciosas: Ao propor a miscigenação geral como panacéia para os males do Brasil, da mesma forma que o ‘negro’, o ‘branco’ também desapareceria? Propor assim, de forma tão efetiva o desaparecimento de uma ou de outra ‘raça’ não é, classicamente, o mesmo que exercer racismo?)

Teorias… Um perigo latente para qualquer democracia, ainda mais a nossa que está patinando em sua reconstrução.

Como sempre – e pra finalizar- o melhor é dizer isto tudo com um Samba.

“Todo mundo era bom
todo mundo era legal
lá só dava gente bem
madame e fulano de tal
quando no meio da festa
reclamei com o Samuel:
Você diz que esta gente é honesta?
Já roubaram meu chapéu!

Não fico mais
em sua casa ô Samuel
aqui só tem eu de preto
mas não faço este papel
Não fico mais
em sua casa ô Samuel.
Você vai pagar meu chapéu”.

(Samba muito popular nos anos 70)

Spírito Santo

Abril,  2007

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A Síndrome do Gueto


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Foto: Escravidão século 19 – Biblioteca do Congresso dos EUA

Movimentos ‘Brancos’ ou Movimentos ‘Negros’? Teorizando sobre mazelas sociais indizíveis

Sei lá porque (acho que é um trauma do colégio interno ou da prisão), maior baixo astral, mas o fato é que sempre penso nisto e senti agora mesmo um impulso incontrolável de falar com alguém sobre o assunto.

O Gheto de Varsóvia é a referencia mais vívida e emblemática: Na circunscrição daquele espaço cercado pela polícia nazista, um microcosmos social transbordando de psicopatias e neuroses sobre as quais, até hoje, ninguém quer falar.

O clima é de urgência. Cada dia é um dia. Sabiam, mas agora ninguém sabe mais, exatamente como é ‘lá fora’, o que ocorre ‘lá fora’, a dimensão e a natureza terrível do que está por vir.

Os colaboracionistas com tarjas identificativas nos braços; uns servindo de polícia, controlando os próprios vizinhos, outros se ocupando do tráfego de carroças e pessoas, da distribuição de comida, todos pensando que vão conseguir se safar, salvar a si e a família pelo menos da fome e por isto fazem jogo das tropas de ocupação.

Políticos espertos (até alguns líderes religiosos) na pele de agentes comunitários ‘um-sete-uns’ criam ou dirigem instituições – muito parecidas com as ONGs modernas – que intermediam informações trocadas por indignas migalhas ou mesmo pela honra, pela moral, por valores que deveriam ser inegociáveis, enfim.

No fundo não passam de atenuadores de conflitos que cumprem apenas o papel de cobrir com ‘panos quentes’ a indignação e a ânsia de revolta que grassa o pensamento das pessoas.

O Gheto é isto: De um lado a submissão conformada da maioria e do outro a resistência louca de um punhado de insanos suicidas que pega em armas por alguma razão.

(E aqui o olhar servil e malvado do camponês denunciando o esconderijo de Che Guevara na selva da Bolívia é a lembrança mais pungente)

É que nestes casos denunciar os rebeldes vira uma mercadoria valiosa. Vale um queijo, um pouco de presunto, uma garrafa de vinho. Como condenar, censurar os que se submetem a isto, os que se aviltam para tentar sobreviver? Uns mais ardilosos e canalhas até que se dão bem. Chegam até a enriquecer um pouco – isto se considerarmos o pouco que é necessário para se sentir rico num ambiente miserável como este.

No fundo a maioria compactua, abaixa a cabeça e se submete. Nem se dá conta da eventual imoralidade de seus atos, da iniquidade de sua traição àqueles semelhantes que se rebelaram e que por isto irão, com toda certeza morrer.

Na verdade, a esta maioria, se lhe fosse dada a chance de escapar, não saberia nem mesmo para onde ir, porque ir, tão envolvida que está pela propaganda viva, pulsante nas coisas descritas pelo momento, pelo dia a dia.

_‘As coisas que são o que são e está acabado’_ É o que toda maioria diz.

Adaptada às circunstâncias, aprisionada em si mesma, a maioria presa fácil da Síndrome do Gueto.

Não lhe parece familiar este filme?

…Não. Não falo deste filme colorido de Hollywood. Falo daquele nosso filme íntimo real e brasileiro que está em cartaz num cinema bem perto de você.

(Pronto. Se já não sabia, você agora sabe muito bem do que estou falando. Podemos enveredar então pela outra ponta do assunto).

Enunciado completo da questão:
Entranhas da estranheza. Sintomatologia

Síndrome: Distúrbio ou doença – individual ou social – contingência irrecorrível, estado de coisas anormal, conjuntura aguda, quase inescapável, a qual um indivíduo ou um grupo social está acometido, caracterizada pela conjunção de um número determinado de fatores, especialmente articulados que, condenam o indivíduo e/ou o seu grupo a um destino indesejado e quase sempre inexorável. Exemplos:

  • Distúrbios ou doenças individuais: Aids (Síndrome da Deficiência Imunológica Adquirida), Síndrome do pânico, distúrbios psicológicos ou neuro-químicos em geral, esquizofrenias, psicopatias diversas (Síndrome de Estocolmo, aquela do sequestrado tomado de admiração pelo sequestrador).
  • Distúrbios ou doenças sociais: Analfabetismo, carência alimentar (subnutrição), alienação cultural aguda (aculturação)… Racismo, etc.

Gueto: Espaço restrito, físico ou simbólico, para o qual foi alijado ou no qual, deliberadamente foi confinado um grupo social, que por este intermédio passou a ficar isolado, de um lado de seu meio social e/ou cultural original e, de outro lado, isolado também do convívio com a sociedade em geral, vista de forma ampla.

Esta subjugação do grupo confinado neste gueto, neste espaço de exclusão, se dá por força de dispositivos do mesmo modo físicos, concretos (tal como muros ou cercas de contenção, repressão policial, etc.) ou simbólicos, mentais (tais como campanhas sistemáticas de difamação, privação de acesso à educação formal, procedimentos segregacionistas abertos ou dissimuladas, racismo, etc.).

Muito eficientes ao longo do tempo, estes dispositivos, geralmente impostos por um grupo social hegemônico por força de forte pressão psicológica e expedientes culturais subliminares os mais diversos, muitas vezes acabam sendo até mesmo tolerados, aceitos – ou passam despercebidos – por aqueles que, expostos a eles durante muito tempo, acabam subjugados por muitas gerações.

Síndrome do Gueto: Estado mental ou comportamental manifestado por indivíduos submetidos às condições gerais e especiais acima citadas, principalmente no campo de suas relações psico-sociais e culturais, marcadas indelevelmente pelas consequências nefastas do prolongado isolamento ao qual o grupo está ou esteve submetido.

Espécie de circulo vicioso, este estado de coisas impede ou dificulta aos indivíduos destes grupos (e até mesmo às associações de indivíduos criadas para defender seus interesses) a compreensão da natureza complexa de seus problemas, a ponto de dificultar o encontro de soluções eficientes que possam efetivamente romper o estado de coisas estabelecido, tornando estes indivíduos ou grupos, presas fáceis, quase cúmplices da manutenção ininterrupta de seu estado de subjugação.

Tratando-se de um estado de coisas de natureza social, embora anômalo, ou seja, do ponto de vista das regras básicas do conceito Humanidade, um estado de coisas injusto, a Síndrome do Gueto pode ser vista como sendo uma nítida política de exclusão social, deliberada, perpetrada por certos grupos ou classes sociais contra os outros, com o intuito de subjugá-los, justificando, plenamente o ensejo e o direito dos grupos prejudicados, por meio do estudo meticuloso de sua condição de excluídos, de buscar estratégias (que são a princípio políticas já que, em casos mais agudos, até mesmo estratégias para-militares ou violentas podem ser necessárias) para quebrar o jugo dos hegemonistas.

Exemplos emblemáticos de grupos sociais afetados pela Síndrome do Gueto ao longo da história:

  • Hebreus ou Judeus subjugados por egípcios no tempo dos faraós
  • Indigenas norte-americanos – e sul americanos – e africanos de diversas etnias subjugados pelos colonizadores brancos nas Américas e na África nos século 18 e 19, confinados em reservas ou territórios militarmente controlados
  • Fazendas de escravos nas Américas (como as de algodão nos EUA ou as do ciclo do café brasileiro)
  • Judeus aprisionados em guetos de criados pelos nazistas na segunda guerra mundial (como o Gueto de Varsóvia)
  • Emigrantes contidos em bairros de deserdados (como o velho Harlen de Nova York), etc.
  • Populações aprisionadas em Guetos e ‘bantustões’ implantados pelo governo racista da África do Sul durante o regime do Apartheid (como Soweto)
  • Palestinos subjugados pelo estado israelense na faixa de Gaza
  • Euro-muçulmanos subjugados – e massacrados- por sérvios e croatas na partilha nacionalista da ex-Iuguslávia.
  • Negros e nordestinos alijados para morar em ‘Morros’, ‘Favelas’, ‘Comunidades’e ‘Complexos’ de pobres no Rio de Janeiro, Brasil

O conceito, portanto está lançado. Este é, pois o tema proposto: a análise meticulosa da natureza desta síndrome em todas as suas nuances e melindres, afim de que se escape da armadilha estratégica que o combate ao racismo no Brasil parece estar confinado.

A luta contra o renitente racismo à brasileira estaria de algum modo, comprometida, travada por esta síndrome? Toco no assunto só de relance abaixo.

Anos de chumbo. A clausura impregnada em nós

Nos tão bem lembrados – e em certa medida saudosos – anos 70, a questão só assumiu contornos de emergência revolucionária para uns poucos. Lutar contra a ditadura era uma necessidade indiscutível e inadiável sim, prioridade absoluta para aquela parcela bem pensante de nossa sociedade, mas lutar contra o racismo não.

Tabu embutido no discurso da esquerda brasileira o tema foi, ora discretamente omitido, ora desestimulado com veemência, tratado como uma questão menor, ‘reacionária’ até, que só serviria mesmo para… ‘atrasar’ a luta.

Refletindo já a visão distorcida – que, aliás, predomina sobre o assunto até hoje – sendo a maior parte desta camada ‘bem pensante’ composta por pessoas auto declaradas ‘brancas’ (ninguém parava para pensar – ou fingia não saber – porque diabos a sociedade brasileira estava dividida assim).

O fato é que a discussão sobre o racismo era considerada, francamente secundária, ‘superestrutural’ como se dizia, quase um estorvo diante das grandes e sagradas questões nacionais.

(Não devia ser assim, mas pimenta nos olhos dos outros sempre foi refresco).

Como estaria se dando em Cuba e em outras mais longínquas plagas, o socialismo tão ansiado, assim que implantado por aqui, naturalmente se incumbiria de anular as eventuais e prosaicas (residuais para muitos) divergências raciais.

Justiça social total e automática. Esta era a utopia que parecia a verdade mais líquida e certa deste mundo. Dá até angústia pensar hoje em dia na solidão dos minguados velhos militantes negros da ocasião, calejados de exemplos frustrados desde a mal ajambrada abolição da escravatura.

Melancólicas lembranças daquele malhar em ferro frio do pessoal do Teatro Experimental do Negro nos anos 40/50, dos vetustos senhores da Frente Negra Brasileira dos anos 30, ingênuos quase comunistas, quase integralistas, vendo uma após outra as gerações de negros, filhos, netos, passarem a juventude inteira sem referências ideológicas válidas, curtindo a incômoda sensação de que, para vencer a barreira quase invisível do racismo o jeito mesmo era buscar uma saída individual, sem tocar publicamente no problema, sublimando-o na subserviente crença de que, estudando o negro chegaria ‘’.

_’Lá onde?’_ Pensavam e esbravejavam minguados rebeldes como Solano Trindade, Abdias do Nascimento, Olímpio Marques dos Santos e uns poucos outros mais.

Eu mesmo, jovem militante subalterno de algumas poucas lutas puramente sociais, tomado por esta mesma negação do problema racial que não via ou não queria ver, me ressentia calado da subestimação com que as lideranças tratavam do problema que eu, mesmo sem assumir frontalmente, percebia estar grudado em nós como craca em casco de navio, enrustido em todas as relações que se estabeleciam entre as pessoas no Brasil, independentemente delas serem da ‘esquerda’ ou da ‘direita’.

Líamos o mesmo Karl Marx, mas, entendíamos marxismos diferentes. Como nas teses originais do alemão, inspiradas que foram na realidade européia, a questão do racismo não aparecia claramente expressa, os mais brancos de nós interpretavam o racismo como sendo uma espécie de problema cultural apenas subjacente, estritamente brasileiro, passível de fácil remédio com programas sócio educacionais pontuais.

Nós, os mínimos – embora mal letrados – quase marxistas negros do pedaço, não nos arvoraríamos jamais de, aquela altura dos acontecimentos, corrigir semelhantes filigranas nas teses do ‘mestre’ do materialismo dialético.

A chapa estava quente demais. As pessoas morriam de verdade, envolvidas naquela aventura. Amargavam as dores todas da cadeia, da tortura. Perdida de antemão, sabemos agora, contudo que aquilo era luta mesmo, luta à vera, gritariam para nós nas assembléias, se ousássemos levantar a voz para propor qualquer aprofundamento da questão.

Contudo, o exemplo mais candente da relevância deste ressentimento era facilmente perceptível na condição subalterna a que eram relegados os gatos pingados negros da ‘organização’.

Para ‘Uns‘ tarefas subalternas, posições subalternas até num simples ‘comício relâmpago’, práticas nas quais os ‘Outros‘ (às vezes – pasmem! – vestindo ternos de ‘tweed’ em pleno verão carioca) nas portas das fábricas faziam os prolixos discursos incitando greves contra os ‘patrões exploradores da mais valia operária’ enquanto que os  ‘Uns‘, disfarçados de mendigos, operários ou camelôs, entravam mudos e saiam calados, fazendo a ‘segurança da ação’, prontos a, se fosse o caso, segurar o trem pesado da repressão.

(Desnecessário se dizer no caso quem eram ‘uns’ e quem eram os ‘outros’).

Para cada tempo um fundo sentimento
Ser negro naqueles anos de chumbo

Fortes, intrínsecas e renitentes as premissas básicas do Racismo à brasileira já apareciam ali, claríssimas, só os cegos (os que não queriam ver) não viam. O símbolo mais evidente do caráter doentio desta renitência podia ser simbolizado por aqueles militantes ‘revolucionários’ que, sabia-se à boca pequena, quando ainda não ingressos na clandestinidade, mantinham empregadas domésticas em suas próprias casas.

Dizem até que alguns contratavam discretas arrumadeiras diaristas para limpar os ‘aparelhos’, limitando-se apenas a tratá-las como ‘iguais’, vez por outra as brindando com pequenos regalos e exortações à conscientização de seu papel de escravas dos ‘outros’ (por suposto, nunca ‘deles’).

Talvez tenha sido por isto que aquele renovado Movimento Negro dos anos 70, aparentava já na sua origem, aquela forte vocação ‘Black is beatifull’, curtindo mais Lhuter King do que Malcom X, tendendo mais para o fashion ‘Black Power’ do que para o enfático ‘O Negro no Poder’.

Subestimando por julgar arcaica e ‘out‘ cultura dos nossos avós sambistas, alguns de nós ignoravam ou repudiavam do mesmo modo, o caráter francamente racista da ‘juventude branca’ de esquerda, que de forma vanguardista propunha uma revolução social rumo a uma sociedade sem classes.

‘Renegar o velho‘, ‘renegar o branco‘, estas eram as palavras de ordem subentendidas em algumas de nossas falas. E daí como consequência o efeito terrível: Aculturados, misturamos assim alhos com bugalhos.

Foi incrível, mas cega pela aversão ao racismo renitente e enrustido dos ‘movimentos brancos‘, esta parte mais proeminente da militância negra parece que foi perdendo também o sentido de sua luta, o foco de seus próprios interesses sociais mais evidentes, ao negar – como uma pequeno-burguesia destas bem egoístas e chinfrim– o eterno sonho da revolução social, mesmo quando ela já estava sendo feita, exatamente por exemplares sociedades negras contemporâneas, aquelas mesmas antepassadas diretas dos negros do Brasil (Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau).

(Aliás, quem por aqui se importava com Nelson Mandela na década de 70?)

Zumbi por certo, nestas horas, se revolvia no túmulo ultrajado por ter seu revolucionário nome evocado em vão (isto sem se falar no mesmo revolver do corpo do Oswaldão do Araguaia).

As ideias de libertação sócio racial, na luta de todos para todos (do vitorioso ideário do ANC de Mandela), acabaram assim trocadas pelas contidas ideias de ascensão social individual, segundo um modelo de luta calcado no que havia de mais aparente no comportamento de uma minoria negra, que reivindicava direitos civis nos EUA.

A mal disfarçada tentativa de criar aqui uma classe média negra, uma elite negra, uma casta de intermediários entre os milhões de negros pobres e a hegemonia branca – como se pode ver ainda hoje – claramente era (como o é ainda) totalmente improvável no contexto de uma população afro-descendente tão numerosa quanto tão meticulosamente segregada como a nossa.

Assim como uma maioria equivocadamente se julgando minoria, pensando como minoria (como se dava, por razões bem menos prosaicas em Varsóvia), esta minúscula liderança negra foi facilmente inviabilizada e corrompida, cooptada enfim como qualquer ‘panelinha’ social oportunista.

Pois foi assim que a Síndrome do Gueto, se apossando sorrateiramente daquelas nossas mentes mais vadias e românticas, que sonhavam em sozinhas chegar ‘lá’, nos levou a este deu no que deu.

O isolamento político de uma geração inteira de hoje maduros líderes negros que, animados naquela época pelas emocionantes palavras de ordem dasMarchas para Zumbi, se empenharam no vão intento de ser a antítese perfeita e acabada da esquerda ‘branca’, acabando mesmo como tributários subalternos das plataformas pretensamente esquerdistas do PT (e de outros partidos menores, também supostamente de esquerda) tendo que amargar hoje as lamúrias tardias de um ou outro líder-orixá caído na lama, dentre os poucos que…chegaram ‘‘.

Como, ao que supomos, ficou provado, não bastava mesmo ser negro e favelado.  Seja lá qual fosse a revolução de cada um, o dístico rebelde nunca poderia ser apagado:

_ ‘hay siempre que endurecerse sin perder a ternura – e a ética, a vergonha na cara – jamás.’

(Melancólicas e tardias constatações, reconheço. E é por isto que peço tempo. Depois o papo segue de onde parou, num outro post ou até onde esta penosa conversa nos levar.)

Spírito Santo
Abril 2010

(Hoje, 2019, infelizmente não consegui mudar uma vírgula)

Kwame Opoku: A consciencia do homem é negra


Foto de Fernando Rabelo - Folha Press

Brasil e consciência negra.

(Para a africana Lucia Kudielela)

Há muitos anos atrás quando eu vivia em Viena Áustria, Kwame Opoku do Ghana, um grande e bom amigo que fiz por lá (na Europa, bem entendido), resolveu confessar toda a sua contrariedade com a insistência com que eu justificava coisas que não conseguira realizar no Brasil, alegando como impedimento incontornável o racismo.

Advogado na sede da ONU em Viena, velho adepto das grandes causas africanas de nosso tempo, tive a honra de admirar na casa dele, fotos suas com Amílcar Cabral, Nelson Mandela, Sam Nujoma e tantas outras enormes e memoráveis figuras do renascimento africano  as quais, de algum modo meu amigo esteve ligado por dever de ofício ou militância. Estar perto de uma pessoa associada tão diretamente à história moderna do negro africano me fazia ficar exultante. Sentia-me assim também muito próximo daqueles gigantes lutadores pela liberdade dos homens, orgulhos da raça humana, heróis da minha geração.

Mas demorei muito a assimilar a contrariedade de Kwame. Ela me constrangia e envergonhava bastante. Sentia-me enquanto negro brasileiro um pouco diminuído, num sentimento de inferioridade estranho para uma pessoa como eu que sempre se vangloriou de sua combatividade, seu engajamento político, de sua militância enfim.

Mesmo orgulhoso de, inusitadamente ser o professor de marimba africana de um africano real – Pasmem, mas é isto mesmo! Bem antes de ser meu amigo, o já velho Kwame (desconfio eu um membro destacado de alguma casta da nobreza ashanti, segundo pude testemunhar numa festa de reverentes conterrâneos seus) fora educado num liceu de Accra, onde havia tocado piano. Um africano refinado como europeu, digamos assim, mais, sobretudo um africano com um recôndito desejo de aprender a tocar um instrumento musical de sua cultura ancestral.

Kwame comprou o instrumento que – imaginem!- eu mesmo havia fabricado no Brasil e  levado para Viena. Um ano depois  Kwame acabou se tornando meu aluno, numa inusitada relação cultural invertida entre um brasileiro afro-descendente e um africano ‘legítimo’.
Isto me animava e redimia um pouco, mas devo reconhecer que demorei algum tempo mais para compreender de onde vinha aquele sentimento de quase desprezo de Kwame pelas minhas lamúrias de negro brasileiro revoltado.

_” Há racismo lá no Brasil? E vocês, sendo tantos como são, aceitam?”_

Era esta a admoestação mais recorrente que ele me fazia, querendo dizer com isto que talvez nós estivéssemos sendo condescendentes demais, omissos demais diante das afrontas e impedimentos que o racismo nos impunha. Jamais consegui convencê-lo da força insuperável das amarras que nos tolhiam.

Jamais me recuperei daquela sensação de fera afrontada. Fiquei até hoje achando que talvez falte mesmo em nós, brasileiros – e isto estava explícito no sentimento honesto de Kwame, o africano – a  consciência do que significa ser mesmo um afro-descendente, um negro-africano desgarrado, além da vívida sensação que temos do estigma, da pecha de ignorantes, despreparados e submissos que carregamos nas costas.

Reconheçamos que só os nossos antepassados africanos, trazidos para o Brasil como escravos, manietados e subjugados pela força bruta, é que tiveram o direito de incorporar, de assimilar, de se curvar diante da opressão (mesmo fingidamente que fosse, saltando para trás como os capoeiristas negaceando o golpe) por necessidades de sobrevivência física.

Reconheçamos, sobretudo que, mesmo assim, mesmo podendo se acovardar diante da força bruta e da morte, muitos de nossos antepassados ainda assim, insubmissos morreram, lutando, apenas para nos legar as lições e o sangue de sua descendência.

Sei que são palavras amargas no dia em se deveria apenas  exaltar nosso orgulho, mas me ocorreu dizer agora mesmo que falta-nos talvez e ainda – a consciência negra plena e profunda – o traquejo para manejar ferramentas válidas da insubordinação e da revolta, a consciência ampla dos nossos direitos – não de negros tão somente, mas de homens – direitos básicos humanos enfim, ainda hoje quase que apenas concedidos por brancos ‘bons’, ‘solidários’ ou ‘piedosos’ – e muitos o são honestamente, coitados – e quase nunca conquistados pelo esforço organizado de nós mesmos, a reboque de nossas geralmente pífias lideranças, oportunisticamente aboletadas nos poleiros do poder.

Talvez falte a nós, negros brasileiros, o instinto africano de romper enfim, de uma vez por todas, com a escravidão emocional que ainda está entranhada em nós. A consciência de que, haja o que houver, façam o que fizerem para nos submeter, somos e seremos livres sempre sim.

————-

Depois desta estada em Viena – ironicamentea pátria de Adolf Hitler – trocando lições de negritude com Kwame Opoku, o africano, passei sempre a observar melhor a diferença sutil que existe entre ter consciência negra e ter a consciência de ser negro.

A primeira consciência (a de ter) reside na profunda e refletida compreensão dos valores morais, éticos, sociais, culturais enfim contidos na herança africana de irmãos na diáspora, a busca incessante pela essência de ter a África simbólica dentro de nós, de ter humanidade enfim, onde quer que se esteja neste vasto mundo. A consciência de si per si, de sermos nós mesmos os reis, cada qual com mais um rei seu na barriga.

A segunda consciência (a de ser) seria manter a alma inquebrantável, a consciência ideológica limpa, adquirida na convivência com a exclusão social reiterada e o racismo num país que tem negros, mas que também tem – fazer o que? – brancos, na busca de saídas para fazer a ‘coisa certa’ junto com a maioria – e não no oco de uma minoria ‘negra’ de ocasião, no convescote de uma casta sórdida – para romper as barreiras mentais de nossa submissão, daquela escravidão emocional que nos aniquila e avilta a todos.

A consciência sócio racial de jamais ficar trancado no gueto escuro de nós mesmos, na síndrome da dicotomia que, separando maquiavelicamente negros de brancos, perpetua  e legitima a desigualdade, assim justificada pelas alegadas diferenças de um – a branca elite – supostamente sempre superior aos demais – todos aqueles que não sendo brancos, passam a ser negros, simplesmente por exclusão.

A consciência plena de saber se colocar acima deste mundo de iniquidades que o racismo introjetou nas cabeças de nós todos, negros e ‘brancos’ do Brasil.

A consciência enfim de que, para todos os efeitos, o Brasil é essencialmente um país com negros, que só atingirá o ansiado sucesso de seu processo  civilizatório (como dizia o saudoso Darcy Ribeiro) no dia em que tiver consciência de sua natureza pan-africana, super humana  de ser, quando tiver, definitivamente se assumido  como Brasil brasileiro de todos nós.

—————

Nunca mais vi Kwame Opoku, o africano. Dele tenho notícias esparsas, sei, por exemplo, que se aposentou do trabalho na ONU. Depois que deixei de vê-lo muita coisa mudou. Mandela foi libertado, por exemplo.  A África do Sul virou uma grande nação. Angola caminha para isto, a África sofrida ainda em certos bolsões renitentes de ditadura e pobreza também e sobretudo, anda.

Desejaria nos Dias da Consciência Negra no Brasil que nós, os negros e os brancos deste nosso país de sonhos perfeitamente realizáveis e angústias passageiras, fizéssemos um exame de consciência e partíssemos para a luta às nossas próprias custas e riscos, certos de que assim –  e só assim – a vitória será certa.

Spírito Santo
Novembro 2010

Basil Davidson: Morre o filho branco da Mãe Negra


Bristol, 9 de Novembro de 1914 – Londres, 9 de Julho de 2010

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Morre o grande amigo da mãe África

A lembrança está marcada em mim como e tivesse sido a fogo tatuada, nítida como se fosse hoje. Agora mesmo, contando isto para vocês, me vem o cheiro do papel do livro que comprei novinho, estalando, na Livraria Camões, no térreo do Edifício Av Central, no centro do Rio de Janeiro.

“Mãe Negra- Basil Davidson”

O cheiro acre da tinta e  do papel portugueses, o mesmo cheiro que impregnava todo o ambiente da tradicional livraria (até hoje existe) especializada em literatura africana, livros e mais livros, revistas (entre elas a antológica e literária  ‘Revista África’) mapas, tudo que quisesse ler sobre Portugal e suas ainda colônias em franco e acelerado processo de descolonização sim, porém marcado ainda por cruentas lutas de libertação. O cheiro disto tudo, ainda hoje está impregnado em mim, não sei se na pele, nas narinas  ou se apenas na memória, só sei que para sempre.

Egito, Sudão,  Kilwa, Angola, , Guiné Bissau, Nigéria, Benin, Moçambique, Zimbabwe…nenhum sentido haveria na história destas terras que tanta gente nos mandaram como escravos, se não fosse aquele livro fulgurante,  fulminante que comprei naquele dia remoto na década de 1970.

Mãe Negra, de Basil Davidson continha toda a verdade omitida pelos livros de história que havia lido antes em toda a minha vida. Nunca mais abri um livro didático de História do Brasil depois daquele dia. Era óbvio que o Brasil real jamais esteve nos meus livros e cadernos de escola. Fiquei achando que que havia lido apenas lixo e mentiras até então.

Até hoje leio historiadores brasileiros com desconfiança e certo ‘pé atrás’, alguns até com mal disfarçado desprezo, confesso. Porque aceitam omitir e falsear tanto algo tão importante quanto a nossa própria história e suas nuances mais orgulhosas? Porque não foram capazes de ser historiadores de verdade como Basil?

A morte de Basil Davidson no dia 9 de Julho passado deixará uma saudade enorme em mim e em tantos outros como eu que, por intermédio dele, descobrimos a natureza complexa da África que havia latente em nós. Ela, a saudade de Basil,  será mitigada apenas pelo cheiro ocre dos livros da Livraria Camões que guardo comigo como ouro em folhas de papel.

De certo modo, ler aquele livro claro e incisivo dele, aquela historiografia incisiva, precisa, me contando a saga de uma África grandiosa assolada por tão vorazes e covardes predadores europeus, antes  apenas imaginada ou sonhada por nós, militantes por uma negritude brasileira ainda ingênua de propósitos, me libertou completamente e me inspira até hoje. É uma das mais mais vivas brasas entre as minhas mais fogosas lembranças.

É por isto – por causa da saudade de gente como eu –  que o mundo inteiro está lendo agora mesmo a história honrosa de Basil, o amigo da África e este mesmo mundo inteiro esquecerá num lapso, jamais lerá um um pingo de ‘i’ que seja da história dos outros, destes reles historiadores que  tanto tentaram nos enganar com mentiras falsamente cívicas, bajuladores da pátria alheia, desestoriadoriadores, descontadores, engendradores de apagões mentais.

“…Minha mãe
tu me ensinaste a esperar
como esperaste paciente
nas horas difíceis.
Mas em mim
a vida matou esta mística esperança
eu não espero.
Sou aquele por quem se espera
A esperança somos nós, os teus filhos
nascidos para um fé que alimenta a vida…”

(Agostinho Neto)

——————

Basil Davidson: Espião, resistente anti-fascista repórter e historiador de África

Maputo, Quarta-Feira, 18 de Agosto de 2010/Notícias

(Extraído de ‘Moçambique para todos’)

Owei Lakemfa

Basil Risbridge Davidson não foi um santo, tipo o que evoca a figura do herói Ernesto Che Guevara. Não foi um Tarzan, deambulando pelas selvas de África, nem tão-pouco um missionário de uma estranha confissão religiosa que evangelizou o continente à expensa da sua terra, da sua cultura, sangue e riqueza.

Não foi um neo-colonialista, que em nome do FMI ou do Banco Mundial passava a prescrever receitas expiradas para todas as enfermidades africanas. Antes, Davidson foi um intelectual comprometido, que estudou e escreveu honestamente sobre África e os seus povos, sobre a sua história ancestral e contemporânea, sobre os seus ancestrais; sobre lideres africanos convictos tais como Samora Machel e criminosos como Mobutu Sesse Seko.

Não foi um cientista social desinteressado que estudou África à distância, quando os nossos povos vertiam sangue nas guerras de libertação em Moçambique e na Guiné-Bissau, ele esteve fisicamente nos campos de batalha. Dos mais de trinta livros que escreveu não abarcavam apenas uma vertente teórica, mas eram guias práticos para muitos africanos; ajudou a moldar a visão política de muitos jovens africanos na década de 1970 e 1980.  Ele abriu a mente de muitos africanos sobre o rico manancial historial, desde aos tempos pré-coloniais, passando para o período das guerras anti-coloniais aos encarniçados combates para a libertação, envolvendo as forças patrióticas do continente e os fidalgos representantes de Lisboa, Bruxelas, Paris, Londres e Joanesburgo.

Curiosamente, atendendo aos seus antecedentes, Basil Davidson era umas das mais suspeitas e improváveis vozes a levantar-se a favor da consciencialização e libertação em África. Ele era tenente-coronel na reforma do Exército, inglês que combateu na segunda Guerra Mundial, tendo ajudado os movimentos de resistência na Hungria, Jugoslávia e Itália. Chegou a ser espião britânico, trabalhou para M15, especializou-se em sabotagem e foi prisioneiro de guerra, que beneficiou com o processo de troca de presos com a Itália.

Basil Davidson, que trabalhou como repórter para muitos órgãos de imprensa, decidiu, a partir de 1951, documentar o continente africano. O seu interesse inicial foi a Europa do Leste, mas depois inclinou-se para a África e foi neste continente onde deixou um legado a várias gerações. O seu primeiro encontro com África foi no Cairo, Egipto, onde se tinha deslocado ainda como soldado e espião para arranjar logística para a resistência eslava.

O avião em que viajou tinha feito escalas na região de Bathurst (antiga designação da cidade de Lagos) e num local que, para ele, passou a ser “algures no norte da Nigéria, um ponto desconhecido do mapa, tanto quanto eu pude descobrir”. O avião, dizia, “tinha feito um voo, abaixa altitude, sobre em paisagens, planícies e vastas extensões de terra desprovidas de populações”. Basil Davidson disse que tinha saído para um passeio: “À distância, vieram sobre mim imagens da presença de uma barreira estreita e alta, o muro de uma cidade…tinha sido construída de barro, paus e circundava toda a cidade perdida algures em África, que descobri mais tarde ser a cidade de Kano, com mais de 700 anos, senão mais…e que não havia nenhuma história em África, tanto quanto eu sabia”.

Assim foi como a sua curiosidade por África cresceu. Os seus estudos e escritos acerca do continente estavam para absorver os últimos dois terços dos seus 95 anos que marcaram a sua passagem pela terra, que começou no dia 9 de Novembro de 1914 e terminou no dia 9 de Julho de 2010.

Ao procurar provar que África tinha uma rica História pré colonial, Basil Davidson escreveu numerosos livros, que incluíam estudos sobre os antigos reinos do Egipto, de Kush, de Nok, sobre culturas e impérios do Mali, Ghana, Songhai. Tudo isto consta de livros como “A redescoberta da velha África”, “Mãe África”, o “Passado africano e os africanos”.

Davidson escreveu sobre a ruptura dos impérios africanos, forçados a entrar num ciclo de nações-Estados, tendo questionado se “deve a África renovar a proliferação de nações e as disputas nacionalistas…os povos africanos tinham seguido, no passado, o seu próprio caminho, e nada indica que não venham fazê-lo novamente de forma construtiva e criativa”. Mas a África não seguiu o seu velho caminho, antes optou por aquilo que foi ditado pelas as suas antigas potências coloniais. Davidson sentiu-se atormentado com esta perspectiva.

Ao analisar a tragédia do continente, especialmente nos anos de 1970 e 1980, lamentou que “o declínio de valores morais e políticos daqueles que clamavam falar em nome de África era tão rápido quanto generalizado”. Ao mesmo tempo que reconhecia a imensa autoridade moral de líderes como Julius Nyerere, Basil Davidson notou em líderes como Samuel Doe, da Libéria, Ibrahim Babangida, da Nigéria, Idi Amin, do Uganda, Jean Bedel Bokassa, da República Centro-Africana, e Macias Nguema da Guiné-Equatorial o que chegou a caracterizar como “um fenómeno excessivamente patológico que apareceu no período colonial e pós colonial jogado por individualidades que tinham a autoridade e carisma para chegarem ao poder, mas sem a sabedoria para controlá-lo.

Tais figuras agarraram-se ao poder e surgiu a ambição, quer por mais poder, quer pelos seus frutos”.

Um dos seus legados duradoiros foi a forma documentada como retratou a luta de libertação nas colónias portuguesas, as lições para África e o que se pôde aprender com a teoria da guerra popular. Por exemplo, ele tinha descrito uma acção audaciosa desencadeada por combatentes do então movimento PAIGC no aeroporto de Bissau, numa altura em que as autoridades coloniais portuguesas tinham fortificado as áreas circundantes do aeroporto com vedações e campos minados. O movimento conseguiu destruir aviões que se encontravam na placa aeroportuária, nos hangares, sem que tivessem provocado danos humanos. Uma das lições, do audacioso ataque, dizia Davidson, era que a invulnerabilidade estava do lado da guerrilha e não do lado colonial.

Basil Davidson defendia que “todas as guerras eram perversas”, mas que “uma bem dirigida guerra de auto-defesa” – distinta de qualquer acto terrorista – pode resultar em ganhos, mesmo em circunstâncias mais adversas”.

O historiador britânico advogava que uma ideologia de libertação não pode ser desenvolvida sem “a potencialidade da consciencialização de um povo, num específico tempo e determinado lugar”. Basil Davidson, com as suas obras “O fardo do homem negro”, a “Causa do povo: uma história de guerrilhas em África”, “As cidades perdidas de África”, “África Ocidental antes da era colonial: uma história até 1850”, “África” (que veio a ser adaptada em série televisiva) e “África na História”, plantou o seu legado no solo africano e no mundo intelectual.

Owei Lakemfa

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O Kilombo, o angu e seus caroços


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Charge alemã de 1897. A legenda diz: "Uma tarde de domingo na África Ocidental" mostrando um mundo surreal nas colónias na África no qual os escravos são senhores. No anúncio: "Hoje:Grande banquete! 'Senhores como comida'!

Charge alemã de 1897. A legenda diz: "Uma tarde de domingo na África Ocidental" mostrando um mundo surreal nas colônias na África no qual os os negros são livres. No anúncio: "Hoje:Grande banquete! 'Senhores' (brancos) como comida'!

Remanescente de quilombo? Ih! É melhor esperar sentado!

Começo logo com uma paulada:

Com vocês Andressa Caldas e Luciana Garcia que em alentado texto no site Global.org fazem a introdução do nosso papo:

“… A Constituição Federal e a titulação das terras quilombolas

Como parte da própria reflexão sobre o Centenário da Abolição da Escravidão no Brasil, algumas reivindicações de organizações de movimentos negros e setores progressistas, levadas à Assembléia Constituinte de 1988, resultaram na aprovação de dispositivos constitucionais concebidos como formas de compensação e/ou reparação à opressão histórica sofrida.”

(Tá certo. Isto foi só uma ameaça. Agora é que vem a paulada):

Em 2001 Abdias do Nascimento, histórico e incansável líder do movimento negro do Brasil deu ao site da Rets (Rede Eletrônica do Terceiro Setor) a seguinte entrevista:

“Rets :

_Em 1980 o senhor apresentou sua tese sobre o quilombismo. O senhor ainda vê a forma de organização dos quilombos como um bom modelo de desenvolvimento para o país?

Abdias:

_Ainda vejo. Mas acho que eu apresentei o quilombismo de forma um pouco antecipada. A sociedade precisa ter um pouco mais de experiência para poder perceber a significação do quilombo e a prática do quilombismo. Muitas pessoas interessadas no assunto concordaram com as minhas teses, mas nenhuma delas procurou implementar uma organização como a que propus com o quilombismo.”

A tese de Abdias não é o foco de nossas elucubrações. Ela é polêmica e, de certo modo, datada, pois, estava visceralmente ancorada ainda na realidade política do negro brasileiro vista de forma bem ampla e pela ótica da luta contra os resquícios da Ditadura, já que era uma realidade – a do negro e a do racismo – que a anistia promulgada em 1979, na verdade só de leve se interessou em tocar.

O fato é que a conversa que vamos levar aqui com vocês, embora diga respeito à demandas pontuais criadas pela nova Constituição do Brasil (1988) para este assunto, apesar de toda a festa com que se costuma ‘enfeitar o pavão’ de nossa democratização, não sugere ainda um grande avanço na discussão desta questão, que já se arrasta desde 1888: A reparação dos malefícios e constrangimentos aos quais os escravos africanos sequestrados para o Brasil e  seus milhões de descendentes foram – e continuam sendo –  submetidos há quase quatro séculos.

Sabem como é, certo? O Brasil elitista é um racista aplicado e muito, mas muito renitente mesmo. Pentacampeão em exclusão social.

Entre todos os reparos que com certeza poderemos fazer numa inevitável comparação entre os dois momentos históricos – o do lançamento da quase comunista tese ‘Quilombismo de Abdias e o nosso hoje em dia cheio de remanescencias– uma triste constatação: Reduziu-se de forma drástica o protagonismo e a combatividade das lideranças do Movimento Negro no Brasil, aquelas que poderiam estar na vanguarda das reivindicações atuais. O lado constrangedor deste protagonismo esvaziado e subalterno, infelizmente está visível na cooptação de muitos, na corrupção de alguns e no baixo nível político-ideológico da maioria.

Talvez seja esta conjuntura constrangedora – franqueza dói mas não mata – a principal razão para que uma causa tão importante e particular como a luta pela posse da terra por parte de comunidades remanescentes de quilombos, esteja tão diluída em pendengas paralisantes, envolta nesta rede de ambiguidades e incongruências tão flagrantes, sendo muitas vezes desvirtuada, atrelada a causas e interesses outros, como um filho de pai desconhecido.

(E filho ‘feio’, como todo mundo sabe, não tem pai).

Dito isto, podemos relaxar um pouco. O papo agora pode ser mais ameno sim, já que o mundo não foi feito num só dia.

Ki-lombo= Kilombo= Quilombo = “Fortaleza

(literalmente em Kimbundo, uma das línguas principais faladas em Angola)

O termo – todo mundo por aqui acha – viria do nome dado ao complexo de comunidades de escravos rebelados conhecido como Quilombo de Palmares, nas imediações de Pernambuco nos primórdios de nossa colonização. Zumbi de Palmares lembram?

(Mas, ‘achismo’ como se vê, não é exatamente cultura.)

Pois neste caso então, saiba quem ainda não souber que a palavra vem de um contexto histórico bem mais distante e complexo, bem menos chegado ao ‘chavão’ (e estas sutis filigranas historiográficas podem mudar tudo em nossa maneira de entender o conceito). Mais do que se pensa, pelo menos.

Kilombo na verdade, com o estrito sentido de ‘fortaleza rebelde’ tudo indica, é uma palavra transposta para a realidade colonial brasileira, depois de ser adotada como jargão militar pelo exército português durante sua guerra suja contra os nacionalistas angolanos comandados pela rainha Nzinga Mbandi e outros sobas, reis ou mandatários locais ali por volta de 1630/40.

O que isto tem a ver? Tudo. E com muita coisa que nos diz respeito. É que existe uma questão muito cabeluda rolando no Brasil atual envolvendo o conceito ‘Quilombo’, no âmbito da regulamentação de leis que embasarão políticas públicas inspiradas na constituição de 1988, visando garantir a posse da terra, por meio de títulos de propriedade ao que se convencionou chamar de ‘comunidades remanescentes de quilombos’.

(… Mas espera aí… _ “que lombo!”_ não se refere à bela bunda de uma mulata bem gostosa?)

Ui!…Calma, calma. Ignorância racista também tem limite (embora não seja nada mal que haja ignorância para que a modesta sabedoria de alguns possa dar o ar de sua graça).

Mas ok, ok. Ninguém nasce sabendo. Sou paciente e dou outro exemplo para os mais leigos que eu:

Quilombo para iniciantes: Princípios ativos e componentes lógicos

(Leia e entenda bem a bula antes de usar)

Quando levamos uma paulada na cabeça, qual é o nome que damos àquele caroço doído que nos cresce na testa? (Não. Chifre não. Sem sacanagem que estou falando sério)

Anh? Calombo? Isto! Ka-lombo (olha…Esta foi uma sacação ‘newtoniana’, não foi não?). Racionem comigo então: Como ‘Ka’ em kimbundo é diminutivo, Lombo pode significar então… ‘protuberancia, correto? Pequena protuberância (se traduzirmos bunda como ‘lombo’ a dita significaria uma bela e média …tá, vocês já entenderam.)

Kilombo, Kalombo, Lombo e Bunda: Um contexto semântico bem afinado com o mais puro vernáculo angolano.

Daí Kilombo (Ki, assim como Ka é prefixo em kimbundo) pode ficar sendo, no dizer de um colonialista lusitano pelo menos, ‘fortaleza de pretos construída num lugar alto’.

(Deve ser, logicamente por isto que os quilombos no Brasil, pelo menos os mais perenes, eram feitos em serras bem altas. Reminiscências culturais, inteligência estratégica, guerreira trazida de lá dos cafundós de Angola.)

Viram só como são as coisas? Uma palavra não é apenas um som qualquer, um amontoado de fonemas. As palavras carregam muita história, sentidos. Saber valer-se do que elas tem para nos contar sobre o passado e o presente, costuma ajudar muito a gente a construir um bom futuro.

_E olha a Etimologia aí, gente!

Logo se vê, portanto, que não é nada desimportante se bater na tecla da semântica neste caso, não é não?  Matando a semântica original se mata o sentido, a alma da palavra que passa a significar… nada. Afinal de contas, nunca é demais repetir: Jesus não é Genésio. Berimbau não é gaita.

(E você é tão bobinho a ponto de acreditar mesmo que seja possível transformar em lei conceitos vagos e desprovidos de sentido?)

Então vamos lá! Todos juntos, comigo:

_”Ressemantizar é o cacete! Viva a cultura negra nacional!”

Pois não é isto que parece estar acontecendo neste caso? Todo mundo se acha careca de saber que ‘Quilombo‘ de algum modo hoje em dia é isto aí: Um território (um lote de terra que seja) ocupado por descendentes de escravos que, por conta de históricas necessidades de reparação em vias (?) de serem reconhecidas (a escravidão foi um regime juridicamente condenável, certo?), reivindicam, diretamente ou com o auxílio de intermediários, a posse das terras que ocupam.

O resto é o resto. Deveria ser motivo para outras reivindicações.

Mas é aquela história que todo mundo também já  sabe: Enquanto o douto elabora conceitos o leigo palpita, especula, mas ambos, ao fim de todas as contas não vão poder mesmo falar mais do que… ‘em tese’.

Vamos então abordar este assunto assim-assim, valeu? Sem delírios sabichões,  na base do mais modesto feijão com arroz, pisando em ovos alheios, se necessário, mas com todo carinho, sentindo na pele o drama da questão. Sem ser louco a ponto de me achar um Deus da verdade é, pois, em tese, em tese, que vos digo:

Histórico das mumunhas jurídicas sobre o tema Quilombo hoje

(Colocando alguns  pingos nos ‘ís’ )

E são ainda Andressa Caldas e Luciana Garcia que se referem,  claramente ao que para nós se transformou no caroço (ou… calombo? Êpa!De novo? ) crucial deste angu:

“…Introdução

“…No Brasil, existem mais de 2.200 comunidades afro-descendentes quilombolas, totalizando cerca de 2.5 milhões de pessoas… No que concerne à titulação dos territórios quilombolas, recente relatório independente da Comissão Pró-Índio de São Paulo (CPISP),”Ações Judiciais e Terras de Quilombo”, revela que até agosto de 2006 havia “310 processos de regularização de terras de quilombo perante o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária.

O levantamento da CPI-SP revela que 59% dos 310 processos abertos recebeu apenas um número de protocolo no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). Ou seja, em 182 processos nenhuma medida administrativa foi tomada no sentido de regularizar o território… “

…” A ressemantização do termo quilombo e sua inserção na Constituição Federal de 1988 vieram a traduzir os princípios de igualdade e cidadania negados aos afrodescendentes correspondendo, a cada um deles, os respectivos dispositivos legais:

i) Quilombo como direito à terra, enquanto suporte de residência e sustentabilidade, há muito almejadas, nas diversas unidades de agregação das famílias e núcleos populacionais compostos majoritariamente, mas não exclusivamente de afrodescendentes – CF/88 Artigo 68 do ADCT – sobre ´remanescentes das comunidades de quilombos; Quilombo como um conjunto de ações em políticas públicas e ampliação de cidadania, entendidas em suas várias dimensões – CF/88 – título I direitos e garantias fundamentais, título II, cap. II – dos direitos sociais;

ii) Quilombo como um conjunto de ações de proteção às manifestações culturais específicas – CF/88 – artigos 214 e 215 sobre patrimônio cultural brasileiro.

(Épa! É isto mesmo? O dispositivo se refere a manifestações culturais… específicas? Bem, vamos ter que cobrar que esta especificidade seja explicitada mais tarde.)

Mas o enunciado do dispositivo, mesmo sem explicitar nada da questão, por ele mesmo proposta, ainda insiste:

“…Assim, o artigo 68 dos Atos das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Federal de 1988 (ADCT) estabeleceu que:

“Art. 68. Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos.”

Ao que comentamos aqui (tentando imitar aquela ‘baba de quiabo’ dos advogados):

Ora, o que se chamou neste caso de ‘ressemantização’ parece com tudo menos uma alteração da semântica do que quer que seja. Fica claro que se tentou, tão somente aplicar o nome genérico de Quilombo (e, portanto banalizando o sentido estrito do conceito) a uma outra figura jurídica, inclusive já existente, qual seja o ‘direito genérico das populações afro descendentes (e não exatamente quilombo-descendentes no sentido lato) à posse da terra.

Convenhamos que este direito à posse da terra é por demais genérico e redundante. Que se danem os regulamentadores! (aqueles que vão ter que dar seu jeito para dar nomes aos bois.)_ Parece nos dizer, curta e grossa, a nossa ‘boazinha’ constituição de 1988, certo?

Em suma, com a nítida finalidade de ampliar o leque dos beneficiários (quem pensou esta estratégia tão ingênua?), não se mudou apenas o nome da coisa, mudou-se a coisa de nome, o que é muito diferente e não significa, de modo algum ‘ressemantização’.

Ressemantizar’ seria adaptar o conceito à nossa época, sem desconsiderar (ou ‘ressignificar’ aleatoriamente) aspectos definidores – como a cultura ‘tradicional’ destes segmentos, por exemplo. Afinal, o dispositivo determina ou não determina a defesa de manifestações culturais… específicas?

Ao que nos parece, da forma como está proposta no dispositivo – que se pretende um instrumento legal – a medida acaba não tendo aplicabilidade jurídica especial alguma, sendo facilmente desqualificada por qualquer boa banca de advogados inimigos da causa, já que nele, no dispositivo, poderiam estar abrigados todos outros segmentos… ‘étnicos’ (o que, aliás, o próprio dispositivo admite em seu texto ser um critério vago), não conferindo à medida força alguma para fazer valer os direitos deste ou de qualquer grupo…’étnico’ em particular.

Nas barras frias de um tribunal em suma, baseado apenas em semelhantes argumentos tão pouco jurisprudenciais, um grupo ‘majoritariamente’ formado por quilombolas remanescentes, não teria, realmente chance alguma.

_”Terra para negros ex-quilombolas!” _ Será preciso dizer, com todas as letras, de forma cabal, com palavras passíveis de serem compreendidas, comprovadas e transformadas em lei.

Ora, é claro que esta conversinha de ‘ressemantizar’, ‘ressignificar’ tudo – por mais bem intencionada que seja – só podia dar no que deu.

Quem dá nome aos bois?

“Quem pariu mateus que o embalance”

É fácil falar, criticar, cobrar assim em cima deste muro de lamentações. Eu sei também que é preciso ir devagar com este andor. As intenções da maioria dos envolvidos são boas e as suscetibilidades são frágeis demais diante de críticas mais ácidas. Todo mundo quer ser o santo padroeiro desta história.

Sabem vocês, contudo, tanto quanto eu, que das melhores intenções está lotado inferno.

Porque esta questão não anda? Será que está planejada para não andar mesmo? Culpa desta desmobilização impressionante do outrora combativo Movimento Negro do Brasil, que teria emprestado para o Movimento Social como um todo, tornando genérica, esta bandeira que lhe era tão cara e exclusiva?

Seria culpa dos advogados, juízes e legisladores em geral que não conseguem entender a necessidade de se associar Justiça Social com Diversidade étnica? Ou seria culpa dos técnicos, antropólogos e historiadores, envolvidos em bizantinas questões acadêmico-conceituais que os levam a ideologizar, questionar  e ‘ressignificar’ o conceito de tudo nem sempre com as mais claras intenções?

Como nos diz um entendido sobre o tema:

“_ …esse assunto é o maior tabu entre os antropólogos. Existe digamos um código secreto, um espírito corporativo, uma pretensão de reserva de mercado para aqueles que lidam com a tal antropologia aplicada…

Ih! sai de baixo! Mais caroço à vista.

…Bem, mas isto é assunto para outras mangas num post que faremos logo a seguir (leia aqui o POST #02). Enquanto isto vão pensando aí que a pobre da bezerra ainda não morreu.

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(Em tempo: A palavra angu também vem de algum modo do Kimbundo, sabiam? Penso que vem de ‘iangu’ que quer dizer capim – ou couve picadinha – aquela que, além do caroço, engrossava o dito cujo na cuia do escravo. O engraçado é que a palavra não vem diretamente de ‘fubá’ não, embora ‘fubá’ também venha do kimbundo ‘fuba’, farinha de milho.

Recomendo contudo muito cuidado com os dicionários. Kalombo, por exemplo quer dizer hoje em Angola, literalmente, ‘mulher infecunda‘. A língua é a mãe de tudo, ou seja: Tem gente aí que precisa rever, totalmente os seus conceitos etimológicos… e ideológicos com urgencia. )

Ressignificar-se, diria.

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Depois o papo segue – e esquenta mais – Achei por bem linkar aqui a matéria fedida da revista ‘Veja já que os leitores mais ligados ao tema vão estrilar e com razão.

Calma rapaziada. Uma coisa a gente precisa reconhecer: para um oportunista agir é necessário que alguém crie a oportunidade, certo?

Ajoelhou? Tem que rezar.

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Fui mas volto já.

Spírito Santo
Maio 2010

A incrível guerra de Hans


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Hans Massaquoi entre colegas de turma em Hamburgo 1939

Hans Massaquoi entre colegas de turma em Hamburgo

A suástica bastarda e outras saias justas nazi-racistas

Você já ouviu falar num cara chamado Hans Jürgen Massaquoi? Nem eu tampouco. Coisa impressionante! Tantos anos cavucando estas coisas de negro e nunca ouvi falar desta história inacreditável. Chego a ela depois de esbarrar, quase sem querer nesta incrível e inusitada foto aí de cima: Um negrinho fofo, impávido e impoluto, aparentemente cheio de orgulho em ser fotografado com uma suástica no peito.

_”Was ist das? GroBe Skandal! Ein Neger Nazi? Was ist los? Nein! Nein! Nein! _Diria o Adolf, apoplético, desmunhecando e batendo os pézinhos.

A história oficial pouco se ateve sobre isto ainda (daí a nossa ignorância a respeito ser santa, certo?). No Brasil então nem se fala. Pelo que me consta, ao que parece estes tão interessantes e  subterrâneos episódios ocorridos durante a segunda guerra mundial nunca estiveram no campo de interesse de nossos moderninhos formadores de opinião. Vai saber porque?

“Negro, negro! Limpador de chaminé!”

(Ofensa racista popular na Alemanha dos anos 30/40)

“Mamãe, eu não sou ariano?” – perguntava Hans a sua mãe, aos oito anos de idade depois de ter sido proibido de brincar com as outras crianças na escola.”

Os fragmentos desta incrível saga de descendentes de africanos vivendo – e o que é mais impressionante – sobrevivendo, num país com leis racistas tão agressivas, às vezes  nos lembram muito (guardadas as devidas proporções, é claro) a mesma saga dos descendentes de africanos no Brasil.

(O que é assaz curioso porque o Brasil, para uns e outros nunca foi um país racista.)

Pois esta é a mais pura e verdadeira história de Hans Jürgen Massaquoi, cujos trechos extraídos de uma resenha de seu livro autobiográficoNeger, neger, schornsteinfeger!” (‘Destined to witness” na versão norte americana) disponibilizamos aqui. Está do mesmo modo disponível na rede trechos da versão do livro para o cinema, num filme realizado na Alemanha por Jörg Grünler em 2006.

Puxando o fio desta meada podemos descortinar um vasto mundo de iniqüidades e injustiças há muito sabidas, quando associadas a população judia na Alemanha nazista, mas que nunca havíamos, nem de longe, imaginado terem sido os mesmos infortúnios sofridos por milhares de pessoas negras engolfadas pela fervura daquele caldeirão de sandices.

Negros na Alemanha nazista? Nem pensar! Num ou noutro filme de um Fassbinder da vida, talvez, mas quase sempre soldados negros americanos, ja no finzinho da guerra, transando com uma loura pálida, de boca carnuda com baton carmim, numa cama amarfanhada na penumbra de algum conjugado de Berlim.

Nada de terror. Só tesão, sexo selvagem e lágrimas de despedida.

Talvez seja até por isto – o inusitado de uma situação tão incomum – que as histórias sobre negros na Alemanha nazista tenham se tornado, estranhamente tão obscuras quanto mal contadas.

Mais são muitas as histórias. Candentes, impressionantes, com ganchos nos levando a associá-las com outras tantas experiências individuais neste vasto contexto trágico da diáspora africana neste nosso mundo muito mais do Cão do que de Deus.

Algumas outras partes desta intrigante meada estamos também disponibilizando abaixo, em rápidas pinceladas, só para instigá-los, afim de que possamos juntos ir futucando e esmiuçando mais e mais (o que de nossa parte, dada a eletrizante e inusitada importância dos fatos aqui revelados,  faremos com toda certeza em posts a seguir.)

É só esperar para ler.

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Os trechos da resenha do livro de Massaquoi e demais informações sobre a vida de negros na Alemanha nazista contidos neste post foram extraídas do jornal El País e do site da Deuscht welle, traduzidos livremente por este vosso criado.

A guerra íntima de Bertha e Hans

Hans Jürgen Massaquoi nasceu em 19 de janeiro de 1926 em Hamburgo, filho de mãe alemã e pai liberiano. Tinha seis anos quando Hitler chegou ao poder. O pai de Hans era filho do cônsul da Libéria na Alemanha. Sua mãe, Bertha Baetz, era uma enfermeira de classe média baixa. O rico filho do diplomata africano interessou-se pela bela jovem ao vê-la em uma festa, e dessa relação nasceu o pequeno Hans.

Seu pai nunca se preocupou muito com ele e nunca lhe deu muita atenção, já que nessa época era um estudante universitário em Dublin. Mas seu refinado avô (o rei Momulu IV rei dos Vai, uma etnia liberiana), o primeiro diplomata africano na Europa, o acolheu em seu palacete de Hamburgo junto a seus tios e primos africanos. O patriarca se orgulhava de ter um neto alemão que falava o idioma local com perfeição.

Bertha com o filho Hans, tendo ao lado a foto do pai

Bertha com o filho Hans, tendo ao lado a foto do pai

“Eu associava a pele negra com superioridade, porque nossos serventes eram brancos” – diz Hans em sua autobiografia.

Seu destino mudou drasticamente quando o Führer assumiu o poder e expulsou os diplomatas africanos da Alemanha. Todo o clã Massaquoi regressou a seu país, Libéria, mas Bertha, a mãe de Hans decidiu ficar em sua pátria, porque o menino era doente e temia que viajando à África ele poderia morrer já que naquela época -e até hoje em dia- a África era um continente assolado pela malária. Praticamente sozinha, Bertha retomou seu trabalho de enfermeira e mudou-se com seu filho para a zona operária de Hamburgo.

Eu, que tinha aprendido a ver vantagens em meus traços raciais, de repente me vi obrigado a considerá-los um inconveniente”.

No início, nem ele nem sua mãe consideraram como uma ameaça à ascensão do nazismo. Era algo que não os preocupava, afinal eles eram alemães.

“Assim como toda criança, eu estava fascinado pela parafernália nazista. Os uniformes, as bandeiras e os desfiles me deixavam encantado. Para mim, para meus colegas, Hitler estava envolvido nessa auréola divina que lhe protegia de qualquer crítica”.

As coisas foram mudando pouco a pouco. Primeiro foram os letreiros afixados nos balanços  de praça proibindo crianças não-arianas de brincar. Depois, um misterioso desaparecimento de seus professores que eram judeus. Depois sua mãe foi despedida de seu trabalho “por ter concebido o filho de um africano”.

“Uma vez que as absurdas leis raciais entraram em vigor, ficou claro que minha vida ia se tornar muito difícil. Mas o amor e a proteção de minha mãe me deram a sustentação necessária”.

Em seu livro autobiográfico, Hans conta com detalhes as tentativas que fez para ser considerado um alemão comum. A cada vez que era recusado reagia negando o evidente, e esta situação o levaria ao absurdo de querer fazer parte das Hitlerjugend, as Juventudes hitleristas, uma mistura de tropa de escoteiros com organização paramilitar.

No dia que descobriu que lhe negaram a entrada exclusivamente por sua cor de pele, Hans abriu os olhos e começou a entender do que se tratava o nazismo. A partir daquele momento abandonou o desejo de ser aceito pelos nazistas e libertou-se da dependência afetiva de Hitler como onipotente figura paternal.

Hans com a mãe e primas

Ao começar a guerra, apesar de ser “indigno de usar o uniforme alemão”, esteve a ponto de se alistar no exército. Só não foi para a frente de batalha por ser considerado uma pessoa sem importância, o que agravou os seus problemas emocionais, já que sendo um homem jovem e sadio se envergonhava de não estar combatendo junto a seus compatriotas.

Foi enquanto trabalhava em uma fábrica de munição que Hans pode observar que a máquina de guerra alemã começava ruir. Em 1943, os aliados, com a Operação Gomorra, bombardearam intensamente Hamburgo durante dez dias, até deixar a cidade em escombros, onde morreram mais de 40 mil pessoas.

Hans estava tão deprimido que não fazia diferença morrer nas mãos da Gestapo ou do bombardeio aliado. De toda forma, a presença da Gestapo incomodou-o por muito tempo ainda e teve que conviver sob a constante ameaça de sua presença e interrogatórios. Desprezado por todos, era considerado um cidadão de segunda classe, a tal ponto que um dia uma multidão quis linchá-lo achando que era um piloto aliado.

O fim da guerra com a tomada de Hamburgo pelos britânicos significou também uma nova vida para Hans. Pela primeira vez em sua vida não sentia medo. O medo de ser humilhado, ridiculizado, degradado, a ver-se privado de sua dignidade.

Após a Segunda Guerra Mundial sobreviveu como saxofonista de jazz, depois emigrou a Libéria, o país de seu pai, e por fim ancorou nos Estados Unidos, país que o acolheu como cidadão e onde foi recrutado como pára-quedista e enviado à Guerra da Coréia durante dois anos.

Graças aos benefícios dos veteranos de guerra ingressou na Universidade de Illinois, onde estudou jornalismo, carreira à qual dedicou mais de quatro décadas vindo a se aposentar quando era diretor da famosa revista Ebony.

Ao final e apesar de tudo há de se considerar que o destino foi bastante benevolente com Hans Massaquoi. Olhando para o passado e recordando o horror também sofrido por outras inocentes etnias, ele pelo menos sobreviveu para contar a sua história.”

Hans Mossaquoi, como diretor da revista afro-americana 'Ebony'

Hans Mossaquoi, como diretor da revista afro-americana ‘Ebony’

Veja trailer do filme ‘Neger, neger, schornsteinfeger!” aqui

Spírito Santo
Maio 2010

Achtung! Mais um negão em Viena


“April macht zu viel”
‘Abril faz o que quer‘- ditado popular austríaco (ou alemão não lembro bem)

Não pude resistir à tentação de divulgar isto. Aos que não tiverem a gentil complacência de relevar mais este eventual deslize egocêntrico, justifico enfático:

Corujice também é cultura!

É nestas horas que gostaria de ver a cara de um anti-cotistas destes, estes racistas enrustidos que andam rebolando por aí, afirmando que os excluídos históricos do acesso à educação (negros, índios e afins) precisam esperar caladinhos, na fila, confiando piamente que, um belo dia (quando a galinha criar dentes?) políticas universalistas – ou ‘não racialistas’, no dizer daqueles próceres do jornal O’Globo – vão permitir que os nossos filhos entrem na universidade.

Caladinho é cacete. Digo alto para vocês todos ouvirem: Depois de entrar na UFRJ (e por acaso fora do programa de cotas), meu filhão, negão, acabou de entrar agora na Universidade de Viena, lá na Áustria.

Na base do ‘você sabia’, pra economizar o google de vocês, em verdade em verdade vos digo: Trata-se de uma das mais antigas universidades do mundo, criada em 1365, quando o Brasil, tal como o conhecemos, nem sonhava existir – ou seu ‘descoberto’, como se diz – Os portugueses, por sua vez, nem tinham ainda, a mais vaga idéia de que invadiriam o Kongo um dia e que para cá trariam meus antepassados africanos que de sua parte, séculos e séculos adiante, teriam o meu filhão como descendente ilustre. Dá pra imaginar?

Só pra se ter uma idéia, vaga ao menos, da dimensão da quase ‘façanha’ do ex-pimpolho (nada tão difícil. Foi só ele descobrir que tinha este direito e correr atrás), na lista de celebridades e sumidades mundiais que ali estudaram e se formaram, só encontrei um brasileiro, assim mesmo de ascendência austríaca, o crítico literário e libertário incorrigível Otto Maria Carpeaux (Otto Karpfen antes de fugir dos nazistas para o Brasil ). Veja a lista que fiz assim, só numa zapeada na wikipédia:

Gustav Mahler (músico), Gregor Mendel (músico), Papa Pio III, Otto Preminger (cineasta), Wilhelm Reich (psicanalista), Bruno Kreisky (ex primeiro ministro austríaco), Kurt Waldheim (ex primeiro ministro e secretario da ONU), Stefan Zweig (escritor), Otto Maria Carpeaux (crítico literário naturalizado brasileiro), Jörg Haider (‘moderno’ e célebre político neo nazista austríaco).

Procurar quantos negros brasileiros estudaram ali é a pesquisa mais fácil deste mundo:
Com quase toda certeza nenhum.

Se você considera válido este tipo de parâmetro, raciocina (ou ‘se liga’): A Universität Wien é um dos templos mais bem acabados do que se pode chamar de ‘cultura branca’, cultura européia, saber hegemônico (se é que me entendem) e é lá que, unicamente por conta de seus inalienáveis direitos de cidadão do mundo (e não por conta de nenhuma meritocracia elitista) o meu filhão negão vai estar.

(Aliás, deixei o neo-nazista Jörg Heider como último da lista só pra lembrar que a Áustria é a terra onde nasceu o Adolf Hitler, o anti-cotista mais famoso da história (suas cotas eram as Cotas da Morte) que, como também indigitado Heider, deve estar se revirando no túmulo de saber que tem mais um negão (já há muitos africanos estudando lá, fiquem sabendo) lendo clássicos da literatura universal naquela biblioteca belíssima e gigantesca, como as dos filmes do Harry Potter (desculpe a referencia adolescente, mas foi a mais forte que me ocorreu)

(Se bem que, sofismáticos empedernidos como são, os impagáveis anti-cotistas do Brasil vão tentar descontruir toda esta minha alegria para esbravejarem pomposos – e engulindo em seco – que este meu exemplo é, isto sim, a prova mais cabal do mundo de que cotas raciais e ações afirmativas são ‘inócuas e desnecessárias’:

_ ‘Olha só o caso deste garoto do Spírito. Conseguiu ingressar numa das melhores unicersidades do mundo por seus próprios… méritos”

Mentira. Digo e afirmo na cara de vocês (deles, no caso, os racistas enrustidos que pululam por aí). O programa ao qual o meu filhão se habilitou, está inserido num conceito de intercâmbio entre universidades da União Européia com universidades do antigo Terceiro Mundo, que visa, entre outras coisas, democratizar o acesso à educação e ao conhecimento para jovens oriundos de países subdesenvolvidos ou – vá lá – em vias de desenvolvimento como o Brasil, contexto no qual países africanos (apinhados de negros) e latino americanos (apinhados de negros, de índios e disto e daquilo de quem dizem não serem ‘brancos o suficiente’ para merecer um lugar ao sol) são os maiores beneficiários (países de porte médio da região da União Européia como Portugal, Croácia, Polônia, etc. também entram nesta dança)

Um óbvio e claríssimo sistema de cotas, portanto. Uma prova – aí sim – cabal de nossa vergonhosa e anacrônica, atrasada e estúpida mania de ficar excluindo gente, omitindo gente, matando gente de forma egoísta, na base da ‘farinha pouca, meu pirão primeiro’.

Ah, ah, ah, anticotistas, racistas de plantão! A vocês só resta ficar arrotando por aí que se formaram pela PUC, que seus filhos vão estudar na PUC. Que a PUC, que a PUC, que a PUC… E daí? Coisa mixuruca. Quem liga mais para esta hegemonia onipotente, tão colonial?

Perderam! Perderam! Meu filhão negão escapou da sanha excludente de vocês que, agora e mais uma vez, não perdem por esperar. Outros muitos escaparão.

_”Achtung! Nicht verboten! Auf wiedersehen!

Spírito Santo
Abril 2010