Butim:O derradeiro boletim da guerra


Creative Commons License

Todo o conteúdo original deste blog está assegurado sob uma Licença Creative Commons.

Correspondente pede pra sair e sai batido, enquanto há tempo.

Já deu. Qualquer um com um pingo de lucidez que seja vai me dar razão.

A antena parabólica de minh’alma continua arguta – e atabalhoada como sempre – perscrutando tudo obsessivamente, mas convenhamos que não vale mais a pena – ou o risco – testemunhar. Para que? De que nos vale ser um ‘são tomé das letras’ na descrição desta guerra sem batalhas, se nem soldado – tampouco civil algum – está afim de crer no que está bem diante do nariz.

_”Pare o bonde! Quero desembarcar!”

Falo sério. A mim bastaria citar de passagem o que a antena perscrutou ontem mesmo – ou anteontem – no lapso de uma manhã apenas, para justificar o enfático pedido ao motorneiro:

_” Pare o bonde! Quero desembarcar!”

Na TV a repórter brasileira descreve a dramática situação do povo de Port Au Prince, Haiti: depois do terremoto, o cólera. Uma criança morta pela doença, entre os mais de mil mortos na conta da nação mais miserável do planeta, jaz numa pequena plataforma destas de depositar sacos de lixo, à beira da rua. Orientada por um soldado brasileiro a repórter veste o colete à prova de balas e o capacete azul das tropas da força de paz da ONU. Eles vão dar uma volta por Citè Soleil, a afamada e violenta favela haitiana.

Assim que desembarca do blindado a repórter é cercada por populares revoltados que cercam a mãe da criança morta, solidários. Um jovem em bom português aprendido com soldados brasileiros, explica que a mãe da menina morta tentou salvá-la, desperadamente, mas o posto de saúde da ONU há apenas 1 km dali, fora abandonado pelos médicos, amedrontados com os protestos da parte mais impaciente da população.

A câmera resolve fazer uma panorâmica da favela e a gente vê, logo de cara,  a enorme galeria de concreto da qual escorre uma cascata de esgoto infecto. Bastou olhar a galeria e juntar a imagem com aquela negrada toda que compõem a população do Haiti para concluir, como numa aturdida constatação deja vù:

_ “Ué!! Mas isto aí não é o Complexo do Alemão, gente? Esta não é aquela boca de esgoto por onde fugiu a bandidagem do CV?”

Não era não. O Haiti, todo mundo sabe, não é aqui.

Abandono a TV contrariado e decido folhear o jornal do dia. Fujo, é claro, das obviedades da guerra do Alemão, mas, não consigo. Os milhares de tabletes de drogas e armas apreendidas são esfregados na minha cara, mas não me convencem. São tomé teimoso e renitente que sou, chego a imaginar as várias e recorrentes maneiras que a polícia corrupta que nos serve teria de nos enganar (pura viagem de rebelde sem causa, concordo). E nem vou contar as tantas falcatruas oficiais que me ocorreram.

Mas compreendam, por favor, que para um velho e cascudo observador das coisas deste mundo, acreditar naquele ufanismo todo das imagens do pós-guerra do Alemão, de uma hora para outra, é dose cavalar, overdose, seria de uma ingenuidade pra lá de infantil.

Criancinhas aboletadas em tanques de guerra, arrancando lágrimas de crocodilo de repórteres dondocas (os coletes à prova de balas cada vez mais fashion – Dior, Vuiton, DasLu ? – sei lá) ávidas pelas mais miseráveis – e contraditoriamente otimistas – crônicas da favela ‘libertada’, desfiando assim rosários de loas à eficácia policial derepentemente surgida, assim do nada?

Ah!Vamos combinar: Ninguém em sã consciência acredita nesta história mal roteirizada. Todo mundo apenas anseia, almeja, quer acreditar e aí defende, aplaude, mas não acredita não. Finge acreditar.

Uma desconfiada sensação de insegurança é o que de mais sensato se devia sentir em meio a este turbilhão de notícias disparatadas e improváveis, gritadas por repórteres sensacionalistas, advogados de porta de xadrez tornados comentaristas, todos comprometidos com a audiência de suas redes de TV. Políticos clientelistas, comandantes de tropas nacionais de elite – raro trigo no joio – governantes oportunistas, pastores atrás de dízimos e fama, todos se assumindo ‘um-sete-uns’ da hora, com promessas e charlatanices de camelôs de tudo.

Tal e qual no terremoto do Haiti o mundo inteiro desembarcado no Morro do Alemão gritando para bandidos que ninguém mais vê:

_ “Perdeu! Perdeu! Pede pra sair!”

A banalização dos armamentos de guerra de ultima geração desmoralizada pela quase ausência de sangue e de inimigos numa guerra estranhamente desmesurada. A compungida fé das criancinhas miseráveis pinçadas pelas reportagens piegas nesta paz militarizada – muito mais do que esperança – me dá é frio na espinha (além de frias também, embora pálidas, premonições).

A reação ensandecida de amigos – e inimigos – nas redes sociais diante da minha – segundo eles – amalucada insistência em não me animar com as vitórias da guerra já me davam uma dica da anti-socialidade destas redes de laços de ternura tão fake e mal amarrados.Ô Raça!

Não foram poucos entre estes amigos os que, de um modo ou de outro, me deram conselhos cifrados, interessados em entender porque diabos eu me mantinha assim tão incrédulo e ‘do contra’ diante de tão ‘esplendorosa’ vitória das ‘forças da Paz’

Teria sido eu torturado nos tempos da ditadura – chegou especular uma amiga – e guardado o trauma do ódio cego às autoridades constituídas para sempre? Uma senhora infame e desconhecida, (oculta por um avatar sem rosto) via facebook estrapolou e chegou mesmo a me mandar a nada sutil mensagem:

_”Filho da Puta!”

Doeu. Tirando fascistas e oportunistas desconhecidos, teve gente até que, honestamente preocupada com a minha lucidez, me admoestou por telefone até, aludindo o risco terrível que eu corria de perder ‘toda a minha credibilidade na rede’ (como se redes virtuais fossem mesmo críveis) se insistisse em remar, de novo, contra esta formidável maré da unanimidade nacional.

“Só sendo cego ou doido” – berravam eles – para não enxergar a inegável euforia da população do Alemão e das demais favelas hoje controladas pelas ‘paradigmáticas’ forças de ocupação das UPPs como sendo um sinal de novos tempos de paz.

_ É a febre da guerra _ fui obrigado a concluir conformado, embora com a orelha a arder aquela urticária dos cri-cris renitentes.

Mas era aí, neste desassossego que eu ficava pensando, mais assustado ainda: Deus do céu! Como é que podiam, justo eles tão apopléticos, histéricos e ensandecidos que estavam (alguns pregaram, abertamente, como nazistas de Auschwitz, o fuzilamento sumário dos bandidos), me chamar de maluco?

Ah! E os jornalistas? Estes sim, vivandeiras de corte medieval! Eram eles sim, sem dúvida os destiladores do veneno que não parava de nos mobilizar a todos, de nos apavorar.

Uma carta atribuída ao Fernandinho Beira Mar, por exemplo, insinuava um namoro entre ele (e o seu CV) e os capi de tutti capi das milícias da cidade.

Na carta, num texto surpreendentemente bem articulado Fernandinho – o nosso inimigo número 1 – sugere ou ordena, sei lá, o seqüestro de autoridades para breve, com o propósito de libertar presos, entre eles o famigerado ‘general’ miliciano Batmam, braço direito dos irmãos Natalino e Jerominho, encarcerados na Penitenciária a Federal de Campo Grande (MS) junto com Beira Mar.

_” Não pensem que estou maluco. Estou ‘perpetuado’. Tenho que fazer alguma coisa.”_ Justificava-se Beira Mar.

Meiga e tranqüilizadora notícia, não é não? Sendo assim, não teríamos mais Comando Vermelho ‘puro’, como diziam os facínoras a nos aterrorizar. Agora seria o advento da era da ‘Milícia Vermelha’, as duas bandas podres da sociedade virando uma maçã envenenada só. A Big Aple do crime.  Uma promessa de evolução do caos.

Ai Deus do céu! E as notícias pinçadas aqui e ali, embaralhadas como cartas não paravam de anunciar um jogo de perdedores anunciados: Nós. Até as pequenas manchetes avisavam o pior: bananas de dinamite são achadas agora com freqüência inusitada, aqui e ali. Fala-se no roubo de um carregamento delas de uma pedreira de nossa região.

Um proeminente coordenador geral de uma super-mega-ong do Rio de Janeiro, voltada para a ‘inclusão social de jovens’, profundamente envolvida em parcerias com a Secretaria de Segurança do Estado, fez uma incursão nos meandros mais recônditos do Morro do Alemão, em pleno cerco, para tentar convencer os bandidos acuados a se renderem.

Soube pela TV que os especialistas chamam isto de ‘mediação de conflitos. Seria uma nova profissão? Mas já repararam que até nos filmes da TV esta função é desempenhada por funcionários do Estado, negociadores da polícia, gente credenciada? Viram que esquisito? Tá, mas deixa isto pra lá.

Os bandidos – que segundo este ‘mediador’ seriam mesmo 600, como a cifra oficial indicava – como já se sabe, não se renderam. Preferiram se escafeder. Tudo o mais é difuso nesta história. A narrativa da ação é um tanto holywoodiana, os dados contradizem as notícias dos jornais que sugerem que a maioria dos bandidos já havia desaparecido do Alemão muito antes do cerco. Quantos seriam? Onde estariam?

Mas o coordenador da super-mega-ong é enfático e incisivo. Em suas diversas entrevistas na TV ele afirma que, no momento de sua ação estaria inclusive ameaçado de morte, por algum dos proeminentes chefes daquela famigerada facção do tráfico (Comando Vermelho), segundo ele por ‘estar tirando gente do tráfico e provocando com isto muitas delações e informações sobre ações estratégicas da facção’. _” Foi a primeira mediação que fiz sendo, ao mesmo tempo, alvo”_ disse ele à imprensa, como um herói da guerra do Afeganistão.

(Ei, Padilha! Seria ele um candidato a personagem de um provável filme ‘Tropa de Elite 3’?).

Pulgas nas orelhas pensei intrigado: Será? Existiria nesta guerra suja a possibilidade de alguém manter contatos ‘limpos’ e tão estreitos com Deus e o Diabo? Um mediador de conflitos que tem parcerias com os órgãos oficiais de segurança poderia ter, ao mesmo tempo, o respeito e a confiança dos chefes de uma facção de bandidos desesperados?

Melhor deixar quieto, refleti. Por muito menos já me ficharam como maluco. Fiquemos por aqui então, olhando de longe, à margem das notícias embaralhadas, encerrando este derradeiro boletim de guerra com os sinais da alma assustadora das ruas, os vagos e prosaicos indícios que a nossa intuição, agora silenciosa, vai capturando aqui e ali.

————–

Circulo, por dever de ofício nos territórios de duas bandas emblemáticas desta guerra. Uma é a área de traficantes. A outra é a área de milícias. Faces da mesma moeda, ora pois. No complexo de comunidades sob o ‘jugo’ do tráfico onde freqüento ‘dia sim’, fotografei anteontem a meninada (faço musicalização com a garotada) posando com instrumentos musicais alternativos, feitos com materiais precários, catados no lixo, único material a que eles têm acesso: latas velhas de ‘nescau’ então viram alaúdes, tubos de PVC e garrafas pets viram clarinetes, por aí.

Na hora de editar a foto a surpresa: Um dos garotos, com um olhar irônico e um sorriso sarcástico traçado no rosto, havia posado com o clarinete em riste, simulando um fuzil Ar15 ou uma máquina mortífera destas aí do Alemão.

Corte rápido.

No outro dia – o‘dia não’- na área das milícias a sensação trocada: Como que inserido dentro de um filme com a imagem invertida, adentrei o portão da cerca gradeada que isola toda a comunidade, tenso como sempre. Outras crianças, iguais àquelas do outro lado da fronteira, talvez já me aguardassem.

A tensão freqüente me assaltava de novo porque, todo dia quando chego ali, ainda de manhãzinha, invariavelmente as pessoas, geralmente donas de casa, senhores aposentados ou desempregados, só me cumprimentam se eu insisto e mesmo assim sem me encarar.

Tento me aproximar com um olhar desarmado e simpático, mas não consigo desarmá-los nunca: desviam sempre os olhos dos meus, tensos e amedrontados, como se num simples cruzar dos seus olhos com os meus fossem ser fuzilados por alguma represália fatal. Como podia eu, um cara tão pacífico, parecer um vilão assim tão cruel para eles?

Com o tempo fui percebendo o contexto. A associação de moradores concentra a gestão de, rigorosamente todos os serviços daquela pequena comunidade, gaz, luz, correio, administração dos imóveis (aluguel, compra e venda, etc.) tudo. Um preço determinado é cobrado como taxa pela administração destes serviços. Reina, portanto a mais perfeita paz, o mais completo silêncio nestes lugares.

Presumo que julguem, que um velho negro magro, quase atlético, de boné sob os olhos, transitando impunemente por ali, só pode ser um bombeiro ou um PM destes, aposentados – ou mesmo expulsos da corporação – destes que estão proliferando por aí, a serviço de alguém controlando tudo – óbvio! – eu, funcionário ou assecla de algum outro terrível miliciano destes neo-ditadores que andam, sorrateiramente pela Zona Oeste da cidade.

A Ditadura em nós

De fato, nunca vou saber o real motivo daquele medo surdo dos moradores. Não os recrimino e na verdade – se vocês querem mesmo saber – os compreendo perfeitamente: Deve ser por conta da ditadura a que estão submetidos,uma ditadura seletiva, grande novidade, o must ainda secreto – e cada vez mais recorrente – da segurança pública nacional.

Tampouco saberei jamais de onde nasce a fé inquebrantável daquele menino da outra favela que, apesar de todo o ufanismo histérico e vitorioso dos repórteres de TV ainda assim se mantêm fiel ao heroísmo ambíguo e romântico de bandidos sanguinários, prestes a serem presos ou mortos num cerco ou numa emboscada do exército nacional.

Caixa de Pandora sem tampa, nunca descortina paisagem de Xangrilá. O futuro escapou por uma galeria de esgoto daquelas que ninguém sabe muito bem onde vai dar.

Como num relance de memória, algo daquela matéria que assisti pela manhã na TV sobre a nova tragédia do Haiti pisca pisca na minha cabeça. Nela, nesta imagem já corriqueira hoje em dia, a única diferença significativa entre a miséria do haiti de lá e o haiti daqui, salta aos olhos e faz barulho:

Haiti de lá: Cartazes e orgulho – sabe-se lá se organizado ou apenas desesperado – protestos veementes, faixas e tabuletas com reivindicações raivosas. Um mapa da Ilha Hispaniola (que sempre me intrigou) aparecia na tela, talvez explicando tudo. A ilha é dividia em dois países.

Num lado, a República Dominicana, terra ‘pacificada’ pelos norte americanos (como Puerto Rico) onde quase tudo há. No Haiti, terra de ex-escravos rebeldes e orgulhosos, terra sempre conflagrada e acossada por todos os flagelos deste mundo, nada há e, ao que parece, nunca haverá.

Haiti do Alemão: Conformada e submissa antes, sob o jugo dos bandidos e agora, aparentemente conformada e submissa também – e até feliz – com a ocupação das tropas federais, a população da favela forma uma ordenada e pacífica fila para pegar sacos plásticos com miseráveis sardinhas. Uma carga ilegal que foi apreendida por algum órgão de fiscalização municipal, e foi ‘caridosamente’ distribuida à população como doação das autoridades. Cena humilhante? ‘_Que nada!_’ dirão os ufanistas. _’Feio mesmo é roubar e não poder carregar!’

Ah, é? Então tá!

A moral desta história? Sei lá. Foi só um relance de pensamento que voou, que já esqueci. Não sei também onde fica a saída. Tenho até raiva de quem sabe.

Enfadado, cansado de ser julgado como maluco, o correspondente desta não-guerra eivada de exageros e hipocrisias, não quer mais se apoquentar e se aposenta, passando olimpicamente agora a se abster dos fatos  desta guerra.

Melhor tomar aquele ar fresco dos que não devem nada a ninguém, bêbado daquela merecida cerveja do entardecer, único troféu que realmente interessa aos  lúcidos e inocentes homens de bem.

Medida de segurança. Seguro de vida. Quem pariu Mateus que o embalance, não é o que diz aquele velho ditado?

Spírito Santo

Dezembro 2010