Salada Mista


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Foto Tadeu Brunelli
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Elogio á Mestiçagem, Democracia Racial e outros picantes ingredientes

“ O Neguinho gostou da filha da ‘madame’
Que nós tratamos de Sinhá.
Senhorita também gostou do Neguinho
Mas o Neguinho não tem dinheiro pra gastar
A ‘madame’ tem preconceito de cor
Não pode aceitar este amor.
Senhorita foi morar lá na ‘Colina’
Com o Neguinho
Que hoje é compositor.”

(Samba de Noel Rosa de Oliveira, e Abelardo da Silva, anos 60)

Existem várias analogias culinárias que podem ser feitas quando se fala das diferenças sócio culturais existentes na composição da população de um país e suas diversas possibilidades de mistura, amálgama, (no Brasil uma questão tornada particularmente complexa por conta de nossa peculiar estratificação sócio racial). Já foram tentadas várias receitas para tão ansiada refeição mas, até agora, nenhuma realmente apeteceu à clientela.

A primeira – e mais óbvia- analogia que me ocorre é a do Omelete, aquela que diz que para fazer um é preciso ‘quebrar os ovos’ . É a mais radical e cruel porque cria um problema terrível para a galinha, mãe eventual dos pobres pintinhos que nasceriam. A outra, mais ‘light’ é a da Vitamina, na qual um liquidificador mistura tudo numa pasta uniforme, fazendo os ingredientes originais, geralmente frutas ou legumes da estação, perderem inteiramente a, digamos assim, identidade.

Para mim, a mais pertinente é mesmo esta que uso agora, principalmente por causa da certa dose de ironia que ela contém: A Salada Mista. Nela os ingredientes se misturam, partilham algum tempero comum, mas mantêm-se íntegros, apesar de estarem picados em muitos pedacinhos. Acho a Salada Mista uma boa analogia para Diversidade Cultural.

Esta questão, a nosso ver, mãe de quase todas as contradições e conflitos brasileiros, está na discussão sobre as influências exercidas pelas culturas ditas ‘hegemônicas’ sobre culturas ditas mais frágeis (ingrediente principal da xenofobia). Neste ‘conversê’ sem fim sobre preservar ou não preservar a nossa ‘cultura popular’, ainda chamada por alguns de ‘Folclore (esta palavrinha tão vã que mais esconde do que explica o que quer mesmo dizer ‘Cultura do povo’).

Está na violência urbana, na contagem de corpos e nas balas perdidas que animam nossos debates cotidianos (afinal, quem morre mais, o favelado trabalhador quiçá traficante ou a classe média trabalhadora quiçá consumidora de drogas?). Está até nas conversas sobre o futuro de nossas crianças (afinal, um negão de 13 anos, com um metro e oitenta de altura merece ou não ser tratado como uma criança?). Está, em suma, contaminando todos os espaços do nosso cada vez mais tenso dia a dia.

O tema, passeando cada vez mais pelas entrelinhas deste nosso site, talvez seja hoje a mais importante questão brasileira: Entender, timtim-por-timtim, a maneira como, dividindo o Brasil em castas raciais se construiu (e se mantêm até hoje) uma das sociedades mais desiguais do planeta e, de como agora, extremamente divididos, porém, perdidos no mesmo ‘mato sem cachorro’, vamos nos livrar da arapuca social na qual, por pura babaquice e egoísmo nos metemos.

A conversa passeia também – e principalmente até- pelas centenas de subterfúgios e ‘panos quentes’ que boa parte de nossa elite bem pensante, a nossa indefectível Academia (ou ‘inteligentsia’, para usar, na falta de outro melhor, um termo já bem arcaico) e mesmo a nossa sociedade como um todo, se utilizam para desconversar, tergiversar e manter as coisas exatamente como estão.

Como estamos falando de gente, de cultura humana, a esta altura deve caber bem a pergunta: Qual receita seria a mais recomendada para conseguirmos (em se tratando de Brasil, é claro), uma sociedade sem conflitos sócio culturais tão violentos? (O garçom mais próximo pode fazer a pergunta : )

_ ‘Omelete, Vitamina ou a Salada Mista, freguês?’

A VITAMINA
Descrevendo as receitas

…”Ao que parece o termo (Democracia racial) foi usado pela primeira vez por Arthur Ramos (1943), em 1941, durante um seminário de discussão sobre a democracia no mundo pós-fascista (Campos 2002). Roger Bastide, num artigo publicado no Diário de S. Paulo em 31 de março de 1944, no qual se reporta a uma visita feita a Gilberto Freyre, em Apipucos, Recife, também usa a expressão, o que indica que apenas nos 1940 ela começa a ser utilizada pelos intelectuais. Teriam Ramos ou Bastide cunhado a expressão ou a ouvido de Freyre? Provavelmente, trata-se de uma tradução livre das idéias de Freyre sobre a democracia brasileira. Este, como é sabido, desde o meados dos 1930, já falava em “democracia social” com o exato sentido que Ramos e Bastide emprestavam à “democracia racial”; ainda que, nos seus escritos, Gilberto utilize a expressão sinônima “democracia étnica” apenas a partir de suas conferências na Universidade da Bahia, em 1943.

(Texto-tese de Antonio Sérgio Alfredo Guimarães -Departamento de Sociologia /Universidade de São Paulo)

Dos anos mais efervescentes do movimento abolicionista no Brasil à década de 30 do século seguinte, uma nova iguaria apeteceu a certa bem apessoada rapaziada: Elegantes em seus librés (logo depois envergando vistosos fraques em conferências internacionais), estes jovens rapazes gritariam em coro para o garçom:

_ ‘A vitamina, senhor! Vitamina para todos!’

É que preconizavam com um empenho falsamente cívico o que de melhor se poderia fazer com os escravos: desaparecer com aquela ‘mancha negra’ transformando os africanos, progressivamente (num processo de cem anos, diziam os mais cartesianos), em seres mistos, nem brancos nem pretos, mestiços (as teorias não explicam se no preparo da receita desapareceriam também os brancos).

A história da tese que ficou conhecida como ‘elogio á mestiçagem’, irmã dileta desta outra tese controversa, a ‘Democracia Racial’ é antiga. Ela esteve muito em voga até os anos 30 do século passado (na verdade ainda hoje é defendida por alguns seguidores). Seus principais formuladores, de uma ponta á outra, foram intelectuais como Silvio Romero, Graça Aranha, Joaquim Nabuco e, já no século 20 também entre outros, o sociólogo oficial do Brasil Gilberto Freyre.

Como se sabe, estas paradigmáticas teorias nasceram, pelo menos como conceito, como uma proposta que resolveria o problema gerado por aquela massa enorme de seres humanos negros que o sistema de trabalho escravo arrancou da África e espalhou pelo mundo, uma massa humana liberta por injunções muito mais econômicas do que humanitárias e, portanto a boca pequena considerada ainda pouco mais que escória.
Lentz, um dos personagens centrais do livro Canaã de Graça Aranha afirma a certa altura:

_”O homem brasileiro não é um factor do progresso: é um híbrido. E a civilização não se fará jamais nas raças inferiores” (…) “Não acredito que da fusão com espécies radicalmente incapazes resulte uma raça sobre que se possa desenvolver a civilização. Será sempre uma cultura inferior, civilização de mulatos, eternos escravos em revoltas e quedas. Enquanto não se eliminar a raça que é o produto de tal fusão, a civilização será sempre um mistério, o artificio (…) Até agora, não vejo probalidade da raça negra atingir a civilização dos brancos”.

Ao que Milkau, o personagem antagonista contrapunha, fazendo o seu ‘elogio da mestiçagem’:

_”O tempo da África chegará. As raças civilizam-se pela fusão; é no encontro das raças adiantadas com as raças selvagens, que está o repouso conservador, o milagre do rejuvenescimento da civilização “(…) Eu tenho para mim que o progresso se fará num evolução constante e indefinida”

O mito do homem mestiço: Eis aqui o que parece ser enfim a chave de tudo para esta corrente de pensamento. A quem interessaria tamanha utopia? A inexistência total de diferenças biotipicas ou (‘estético-raciais’) seria cientificamente possível? A simples padronização ‘racial’ das pessoas removeria, num passe de mágica, as diferenças sociais? Se não, para que serviria então?

É preciso, contudo, situar a questão em seu devido contexto histórico porque, se no campo da precária biologia do século 19, se considerava cabal a existência de superioridade racial entre seres humanos (que justificaria a assimilação – ou a diluição – de uma raça pela outra), hoje até o próprio conceito absoluto sobre a existência de raças humanas está superado. Assim, propor ou sugerir a ‘mestiçagem’ como solução para tão candente problema social, não era naquela época, uma idéia tão absurda assim. Menos mal.

É nesse contexto que devem ser considerados, por exemplo, certos aspectos bem sucedidos da sociologia de Gilberto Freyre (o que não deve redimir, de forma alguma, a perniciosidade e os equívocos clássicos de sua ideologia)

O OMELETE
(Pobres dos pintinhos)

Assim, ali por volta de 1930, 40, alguns europeus de bigodinhos, reunidos numa mesa ao fundo, ao serem inquiridos pelo garçom responderiam excitados:

_’Omeletes, senhor!’ De sobremesa, Vitaminas!’

É que para uns não havia jeito melhor de melhorar a raça humana do que separar os espécimes ‘superiores’, os ‘puro sangue’, os de ‘pedigree’ e desaparecer com o resto, inclusive os ‘vira-latas’, transformando a ralé em torrada, num forno crematório qualquer.

Para outros, contudo, o desaparecimento dos ‘inferiores’ deveria se dar por meio de métodos mais científicos ou ‘humanitários’: Um liquidificador genético resolveria o problema. Um projeto que, como veremos a seguir, não tinha mesmo nada de científico (e muito menos de humanitário).

(Aqui, antes de tudo, uma necessária afirmação de firme e ampla discordância diante dos partidários da Vitamina ou da Mestiçagem. É preciso – me permitam – fazer uso da ênfase nesta hora, á este ponto de uma questão que é por razões óbvias, crucial).

Frisemos que o contexto onde atuaram Gobineau, Lombroso, Chamberlain, Nina Rodrigues e, porque não dizer, Gilberto Freyre, foi o mesmo que gerou as teorias nazistas na década de 30. Não foram idéias apenas simplificadoras’ ou ‘evolucionistas’. Foram idéias profunda e claramente interessadas em criar um novo paradigma de civilização, um método ‘científico’ para a classificação e a sujeição de pessoas, num novo ambiente geopolítico denominado Colonialismo.

Apenas para exemplificar o alto grau de assumida perniciosidade destas idéias, basta citar o trabalho militante do próprio Gilberto Freyre, no final da década de 30 do século 20, a serviço do governo ditatorial de Antonio de Oliveira Salazar, como um dos ideólogos que contribuiram para a criação e a implantação de um sistema institucional de controle e subjugação das populações das colônias de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau e Príncipe denominado ‘Lei do Indigenato’, código similar aquele engendrado pelos africâners, na África do Sul, que dispensa comentários: o insidioso ‘Apartheid’.

O antropólogo angolano José Maianga, em texto publicado pela Revista afro-lusitana África, a este respeito nos esclarece cabalmente o seguinte:

“O indigenato, institucionalizado pelo regime salazarista (‘Estatuto dos Indígenas Portugueses das Províncias da Guiné, Angola e Moçambique’) era um diploma aplicado apenas às situações jurídicas dos indígenas africanos num país que, constitucionalmente, se dizia subordinado ‘à moral ao direito e às garantias e liberdades individuais’.

Este diploma traduzia, sem dúvida, a sujeição plena dos africanos ao colonizador e a uma prática assimiliacionista que se afundava no mar de contradições por onde navegava…”

As afirmações não são de forma alguma novas. Alguns estudiosos estão no momento fazendo uma ampla revisão da obra de Freyre neste mesmo sentido. As idéias originais dele, no entanto, impregnadas em quase tudo que se escreveu sobre o negro – e os pobres- do Brasil -, estão infelizmente, ainda em voga por aí e, o que é pior, defendidas por novas teorias e embasamentos que tentam afirmar Freyre como uma espécie de gênio mal lido e incompreendido.

Não é possível, portanto, entender os processos de evolução da cultura brasileira, por exemplo, dissociando-os deste contexto sombrio que o cineasta Ingmar Bergmam, muito apropriadamente chamou num filme clássico de “O Ovo da Serpente”

No Haiti não existem ‘brancos’. Lá, a classe média ‘mulâtre’ oprime os ‘mais’ negros. O nazismo separava pessoas absolutamente brancas e as mandava á morte, baseando-se em diferenças físicas cosméticas: um nariz mais adunco, olhos pretos, etc. Claro que racismo não tem nenhum fundamento ‘científico’ ou ‘biológico’. Se baseia em pretextos, desculpas esfarrapadas.’Mitos’ em suma. Um cuidado que deve ser observado por todos que se dedicam a este assunto.

Ingênuas, marcadas talvez por certa dose de crueldade e frieza sim, mas, de modo algum absurdas para a época, as propostas que animaram os sociólogos da primeira metade do século perderam a força exatamente quando se soube o que de fato elas representavam: Grosseiros equívocos. É isto que torna mais surpreendente o fato de existirem ainda hoje correntes de pensamento defendendo propostas semelhantes no Brasil, em pleno século 21, quando a panela de pressão da nossa conturbada sociedade já apita o sinal óbvio que diz:

_‘Cuidado! Abra a válvula que estamos prestes a explodir’.

A SALADA MISTA
e a sabedoria dos gibis

Há também, pode-se observar embutida na argumentação, uma forçada e esdrúxula associação entre ‘nacionalismo retrógrado’ (de novo a xenofobia) e a ‘admissão de que há racismo no Brasil’. Admitir ou sugerir com um pouco mais de ênfase a existência de racismo no Brasil seria um comportamento ‘ultrapassado’, ‘de modè, expediente muito usado como uma – muito eficiente inclusive- tática para se desqualificar discursos antagônicos.

Esta questão, aliás, traz á luz o que parece ser o segundo eixo da questão: Afinal, porque será que em certos setores de nossa ‘inteligentsia’, se nega tanto e de forma tão estranhamente peremptória (com argumentos tão mal fundamentados), a existência de racismo no Brasil? Existiriam intenções nessa negativa tão insistente?

Negar a existência do monstro, todo mundo sabe, não vai jamais matar o bicho.

É preciso aprofundar também outros aspectos cruciais do racismo brasileiro (na verdade de todos os racismos). O fato de cientificamente não existirem raças não significa que não exista racismo. Não é um argumento pertinente nem mesmo aceitável. Vamos combinar, francamente: Racismo é um estúpido instrumento de dominação social, uma praga da humanidade.

A sociedade brasileira é altamente excludente, certo? Não é preciso ser uma sumidade acadêmica para identificar qual é o instrumento de exclusão mais eficiente utilizado por aqui. Bingo para quem disser Racismo.

E vamos acabar também com esta falsa dicotomia: Problema Racial e Problema Social não são conceitos opostos ou divergentes. Um é a carne, o outro é a unha. Um não poderia, de modo algum, existir sem o outro.

Para qualquer um que sofre racismo ‘na pele’ fica evidente que o racista usa apenas um pretexto covarde, para discriminar: É fácil: Basta destacar uma diferença biológica qualquer e subestimá-la, demonizá-la, impondo uma marca, um estigma para identificar os portadores daquela suposta ‘deficiência’. O fisicamente diferente é declarado inferior e pronto.

Do ponto de vista de quem quer discriminar, dependendo de seu interesse, ‘negros’ serão portanto, todos aqueles que, visivelmente, não se parecerem com ‘brancos’. No exercício da discriminação não existem ‘mulatos’, ‘mestiços’, ‘pardos’, todos são’ marrons’, inferiores, não por terem este ou aquele tom de pele, mas porque ‘não são brancos’. Ponto

Quando em minoria, no entanto, diante de algum interesse, alguma vantagem a ser obtida junto aos ‘marrons’, a hierarquização das ‘cores’ passa a ser muito proveitosa para a ‘raça’ hegemônica (a que está no poder). Pura política.

A história humana está cheia de estratagemas como estes, nos quais com a finalidade de obter vantagens junto a um grupo estranho, nos associamos a um amigo ‘nativo’. É uma prática recorrente demais para não ser notada. Até mesmo nos saudosos gibis da infância de alguns de nós o arquetípico estratagema aparece.

Quem não sacou isto na função dramática do índio ‘Tonto’, amigão do Zorro norte americano ou na fidelidade á toda prova do gigante ’Lotar’, guarda costas do Mandrake. Quem não notou esta solidariedade esperta, interessada, no olhar do Fantasma, ‘Espirito- Que- Anda’ para o pigmeu Guran, seu fiel aliado, do alto do seu trono na caverna da caveira?

Descontando a paranóia nacionalista de alguns, no âmbito de nossa cultura contemporânea isto pode estar ocorrendo também com alguma frequência. Você louva, aprende, assimila e pratica a cultura que um dia foi exclusiva (não que o pobre coitado quisesse se isolar) do negro ou do índio, do nordestino – tanto faz- mas não se importa muito que ele permaneça ad infinitun socialmente excluído, lá ‘no morro’, na selva ou no sertão.

No processo você aprende a fazer Samba, Maracatu, a tomar chá do Santo Daime e a ficar doidão sem culpa. É bom. É politicamente correto. Dá a você certo charme democrático, uma espécie de certificado de ‘responsabilidade social’ mas, e daí?

 O problema é que ‘Ele’, o ‘Outro’, continua lá no seu canto, estressado de carências, fazendo o seu Funk pesadão. Cria-se assim (colocando os não brancos todos no mesmo saco) uma espécie de ‘Cultura negra sem negros’ e a gente não sabe muito bem no que isto vai dar. Se o cara não ficar rico fazendo Hip Hop, pode um belo dia dar um tiro em você.

Se for mesmo, como julgamos, além de uma mistificação cultural, uma impossibilidade genética em termos (não existem raças humanas, lembram-se?), A Mestiçagem, como conceito democratizador não passa mesmo é de um cruel sofisma. E esta tem sido a lógica do Sistema de castas ‘raciais’ no Brasil.

Todas as receitas de democracia racial (com ou sem eufemismo) em voga atualmente contêm um mesmo e azedo ingrediente, um mal crônico que lhes tira todo o sabor: Redistribuem valores culturais, garantindo a certo grupo certas vantagens deles advindas, sem mudar as pessoas de lugar na pirâmide. Os que possuem quase tudo passam a possuir mais ainda. É a lógica fria de nossa elite predadora. A lei do mais forte. Qual é a novidade nisto aí?

(Agora, sem maniqueísmos, por favor)

Todo mundo sabe que este comportamento não é uma coisa assim percebida, exercida individualmente, mas, é um procedimento, praticado pela grande maioria dos ‘brancos’ do Brasil, diariamente, muitas vezes até de forma ingênua, um comportamento padrão, arraigado, especializado por séculos de prática.

E saibam também que não é uma coisa fácil de extirpar não. É exatamente este o conteúdo subreptício, a essência de conceitos como a chamada ‘democracia racial’ e seus sucedâneos: dar sustentação, argumentos, justificativa teórica para esta deslavada contradição.

(Cabe aqui inclusive duas perguntinhas pra lá de capciosas: Ao propor a miscigenação geral como panacéia para os males do Brasil, da mesma forma que o ‘negro’, o ‘branco’ também desapareceria? Propor assim, de forma tão efetiva o desaparecimento de uma ou de outra ‘raça’ não é, classicamente, o mesmo que exercer racismo?)

Teorias… Um perigo latente para qualquer democracia, ainda mais a nossa que está patinando em sua reconstrução.

Como sempre – e pra finalizar- o melhor é dizer isto tudo com um Samba.

“Todo mundo era bom
todo mundo era legal
lá só dava gente bem
madame e fulano de tal
quando no meio da festa
reclamei com o Samuel:
Você diz que esta gente é honesta?
Já roubaram meu chapéu!

Não fico mais
em sua casa ô Samuel
aqui só tem eu de preto
mas não faço este papel
Não fico mais
em sua casa ô Samuel.
Você vai pagar meu chapéu”.

(Samba muito popular nos anos 70)

Spírito Santo

Abril,  2007

http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/2.5/br/

O Kilombo, o angu e seus caroços


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Charge alemã de 1897. A legenda diz: "Uma tarde de domingo na África Ocidental" mostrando um mundo surreal nas colónias na África no qual os escravos são senhores. No anúncio: "Hoje:Grande banquete! 'Senhores como comida'!

Charge alemã de 1897. A legenda diz: "Uma tarde de domingo na África Ocidental" mostrando um mundo surreal nas colônias na África no qual os os negros são livres. No anúncio: "Hoje:Grande banquete! 'Senhores' (brancos) como comida'!

Remanescente de quilombo? Ih! É melhor esperar sentado!

Começo logo com uma paulada:

Com vocês Andressa Caldas e Luciana Garcia que em alentado texto no site Global.org fazem a introdução do nosso papo:

“… A Constituição Federal e a titulação das terras quilombolas

Como parte da própria reflexão sobre o Centenário da Abolição da Escravidão no Brasil, algumas reivindicações de organizações de movimentos negros e setores progressistas, levadas à Assembléia Constituinte de 1988, resultaram na aprovação de dispositivos constitucionais concebidos como formas de compensação e/ou reparação à opressão histórica sofrida.”

(Tá certo. Isto foi só uma ameaça. Agora é que vem a paulada):

Em 2001 Abdias do Nascimento, histórico e incansável líder do movimento negro do Brasil deu ao site da Rets (Rede Eletrônica do Terceiro Setor) a seguinte entrevista:

“Rets :

_Em 1980 o senhor apresentou sua tese sobre o quilombismo. O senhor ainda vê a forma de organização dos quilombos como um bom modelo de desenvolvimento para o país?

Abdias:

_Ainda vejo. Mas acho que eu apresentei o quilombismo de forma um pouco antecipada. A sociedade precisa ter um pouco mais de experiência para poder perceber a significação do quilombo e a prática do quilombismo. Muitas pessoas interessadas no assunto concordaram com as minhas teses, mas nenhuma delas procurou implementar uma organização como a que propus com o quilombismo.”

A tese de Abdias não é o foco de nossas elucubrações. Ela é polêmica e, de certo modo, datada, pois, estava visceralmente ancorada ainda na realidade política do negro brasileiro vista de forma bem ampla e pela ótica da luta contra os resquícios da Ditadura, já que era uma realidade – a do negro e a do racismo – que a anistia promulgada em 1979, na verdade só de leve se interessou em tocar.

O fato é que a conversa que vamos levar aqui com vocês, embora diga respeito à demandas pontuais criadas pela nova Constituição do Brasil (1988) para este assunto, apesar de toda a festa com que se costuma ‘enfeitar o pavão’ de nossa democratização, não sugere ainda um grande avanço na discussão desta questão, que já se arrasta desde 1888: A reparação dos malefícios e constrangimentos aos quais os escravos africanos sequestrados para o Brasil e  seus milhões de descendentes foram – e continuam sendo –  submetidos há quase quatro séculos.

Sabem como é, certo? O Brasil elitista é um racista aplicado e muito, mas muito renitente mesmo. Pentacampeão em exclusão social.

Entre todos os reparos que com certeza poderemos fazer numa inevitável comparação entre os dois momentos históricos – o do lançamento da quase comunista tese ‘Quilombismo de Abdias e o nosso hoje em dia cheio de remanescencias– uma triste constatação: Reduziu-se de forma drástica o protagonismo e a combatividade das lideranças do Movimento Negro no Brasil, aquelas que poderiam estar na vanguarda das reivindicações atuais. O lado constrangedor deste protagonismo esvaziado e subalterno, infelizmente está visível na cooptação de muitos, na corrupção de alguns e no baixo nível político-ideológico da maioria.

Talvez seja esta conjuntura constrangedora – franqueza dói mas não mata – a principal razão para que uma causa tão importante e particular como a luta pela posse da terra por parte de comunidades remanescentes de quilombos, esteja tão diluída em pendengas paralisantes, envolta nesta rede de ambiguidades e incongruências tão flagrantes, sendo muitas vezes desvirtuada, atrelada a causas e interesses outros, como um filho de pai desconhecido.

(E filho ‘feio’, como todo mundo sabe, não tem pai).

Dito isto, podemos relaxar um pouco. O papo agora pode ser mais ameno sim, já que o mundo não foi feito num só dia.

Ki-lombo= Kilombo= Quilombo = “Fortaleza

(literalmente em Kimbundo, uma das línguas principais faladas em Angola)

O termo – todo mundo por aqui acha – viria do nome dado ao complexo de comunidades de escravos rebelados conhecido como Quilombo de Palmares, nas imediações de Pernambuco nos primórdios de nossa colonização. Zumbi de Palmares lembram?

(Mas, ‘achismo’ como se vê, não é exatamente cultura.)

Pois neste caso então, saiba quem ainda não souber que a palavra vem de um contexto histórico bem mais distante e complexo, bem menos chegado ao ‘chavão’ (e estas sutis filigranas historiográficas podem mudar tudo em nossa maneira de entender o conceito). Mais do que se pensa, pelo menos.

Kilombo na verdade, com o estrito sentido de ‘fortaleza rebelde’ tudo indica, é uma palavra transposta para a realidade colonial brasileira, depois de ser adotada como jargão militar pelo exército português durante sua guerra suja contra os nacionalistas angolanos comandados pela rainha Nzinga Mbandi e outros sobas, reis ou mandatários locais ali por volta de 1630/40.

O que isto tem a ver? Tudo. E com muita coisa que nos diz respeito. É que existe uma questão muito cabeluda rolando no Brasil atual envolvendo o conceito ‘Quilombo’, no âmbito da regulamentação de leis que embasarão políticas públicas inspiradas na constituição de 1988, visando garantir a posse da terra, por meio de títulos de propriedade ao que se convencionou chamar de ‘comunidades remanescentes de quilombos’.

(… Mas espera aí… _ “que lombo!”_ não se refere à bela bunda de uma mulata bem gostosa?)

Ui!…Calma, calma. Ignorância racista também tem limite (embora não seja nada mal que haja ignorância para que a modesta sabedoria de alguns possa dar o ar de sua graça).

Mas ok, ok. Ninguém nasce sabendo. Sou paciente e dou outro exemplo para os mais leigos que eu:

Quilombo para iniciantes: Princípios ativos e componentes lógicos

(Leia e entenda bem a bula antes de usar)

Quando levamos uma paulada na cabeça, qual é o nome que damos àquele caroço doído que nos cresce na testa? (Não. Chifre não. Sem sacanagem que estou falando sério)

Anh? Calombo? Isto! Ka-lombo (olha…Esta foi uma sacação ‘newtoniana’, não foi não?). Racionem comigo então: Como ‘Ka’ em kimbundo é diminutivo, Lombo pode significar então… ‘protuberancia, correto? Pequena protuberância (se traduzirmos bunda como ‘lombo’ a dita significaria uma bela e média …tá, vocês já entenderam.)

Kilombo, Kalombo, Lombo e Bunda: Um contexto semântico bem afinado com o mais puro vernáculo angolano.

Daí Kilombo (Ki, assim como Ka é prefixo em kimbundo) pode ficar sendo, no dizer de um colonialista lusitano pelo menos, ‘fortaleza de pretos construída num lugar alto’.

(Deve ser, logicamente por isto que os quilombos no Brasil, pelo menos os mais perenes, eram feitos em serras bem altas. Reminiscências culturais, inteligência estratégica, guerreira trazida de lá dos cafundós de Angola.)

Viram só como são as coisas? Uma palavra não é apenas um som qualquer, um amontoado de fonemas. As palavras carregam muita história, sentidos. Saber valer-se do que elas tem para nos contar sobre o passado e o presente, costuma ajudar muito a gente a construir um bom futuro.

_E olha a Etimologia aí, gente!

Logo se vê, portanto, que não é nada desimportante se bater na tecla da semântica neste caso, não é não?  Matando a semântica original se mata o sentido, a alma da palavra que passa a significar… nada. Afinal de contas, nunca é demais repetir: Jesus não é Genésio. Berimbau não é gaita.

(E você é tão bobinho a ponto de acreditar mesmo que seja possível transformar em lei conceitos vagos e desprovidos de sentido?)

Então vamos lá! Todos juntos, comigo:

_”Ressemantizar é o cacete! Viva a cultura negra nacional!”

Pois não é isto que parece estar acontecendo neste caso? Todo mundo se acha careca de saber que ‘Quilombo‘ de algum modo hoje em dia é isto aí: Um território (um lote de terra que seja) ocupado por descendentes de escravos que, por conta de históricas necessidades de reparação em vias (?) de serem reconhecidas (a escravidão foi um regime juridicamente condenável, certo?), reivindicam, diretamente ou com o auxílio de intermediários, a posse das terras que ocupam.

O resto é o resto. Deveria ser motivo para outras reivindicações.

Mas é aquela história que todo mundo também já  sabe: Enquanto o douto elabora conceitos o leigo palpita, especula, mas ambos, ao fim de todas as contas não vão poder mesmo falar mais do que… ‘em tese’.

Vamos então abordar este assunto assim-assim, valeu? Sem delírios sabichões,  na base do mais modesto feijão com arroz, pisando em ovos alheios, se necessário, mas com todo carinho, sentindo na pele o drama da questão. Sem ser louco a ponto de me achar um Deus da verdade é, pois, em tese, em tese, que vos digo:

Histórico das mumunhas jurídicas sobre o tema Quilombo hoje

(Colocando alguns  pingos nos ‘ís’ )

E são ainda Andressa Caldas e Luciana Garcia que se referem,  claramente ao que para nós se transformou no caroço (ou… calombo? Êpa!De novo? ) crucial deste angu:

“…Introdução

“…No Brasil, existem mais de 2.200 comunidades afro-descendentes quilombolas, totalizando cerca de 2.5 milhões de pessoas… No que concerne à titulação dos territórios quilombolas, recente relatório independente da Comissão Pró-Índio de São Paulo (CPISP),”Ações Judiciais e Terras de Quilombo”, revela que até agosto de 2006 havia “310 processos de regularização de terras de quilombo perante o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária.

O levantamento da CPI-SP revela que 59% dos 310 processos abertos recebeu apenas um número de protocolo no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). Ou seja, em 182 processos nenhuma medida administrativa foi tomada no sentido de regularizar o território… “

…” A ressemantização do termo quilombo e sua inserção na Constituição Federal de 1988 vieram a traduzir os princípios de igualdade e cidadania negados aos afrodescendentes correspondendo, a cada um deles, os respectivos dispositivos legais:

i) Quilombo como direito à terra, enquanto suporte de residência e sustentabilidade, há muito almejadas, nas diversas unidades de agregação das famílias e núcleos populacionais compostos majoritariamente, mas não exclusivamente de afrodescendentes – CF/88 Artigo 68 do ADCT – sobre ´remanescentes das comunidades de quilombos; Quilombo como um conjunto de ações em políticas públicas e ampliação de cidadania, entendidas em suas várias dimensões – CF/88 – título I direitos e garantias fundamentais, título II, cap. II – dos direitos sociais;

ii) Quilombo como um conjunto de ações de proteção às manifestações culturais específicas – CF/88 – artigos 214 e 215 sobre patrimônio cultural brasileiro.

(Épa! É isto mesmo? O dispositivo se refere a manifestações culturais… específicas? Bem, vamos ter que cobrar que esta especificidade seja explicitada mais tarde.)

Mas o enunciado do dispositivo, mesmo sem explicitar nada da questão, por ele mesmo proposta, ainda insiste:

“…Assim, o artigo 68 dos Atos das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Federal de 1988 (ADCT) estabeleceu que:

“Art. 68. Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos.”

Ao que comentamos aqui (tentando imitar aquela ‘baba de quiabo’ dos advogados):

Ora, o que se chamou neste caso de ‘ressemantização’ parece com tudo menos uma alteração da semântica do que quer que seja. Fica claro que se tentou, tão somente aplicar o nome genérico de Quilombo (e, portanto banalizando o sentido estrito do conceito) a uma outra figura jurídica, inclusive já existente, qual seja o ‘direito genérico das populações afro descendentes (e não exatamente quilombo-descendentes no sentido lato) à posse da terra.

Convenhamos que este direito à posse da terra é por demais genérico e redundante. Que se danem os regulamentadores! (aqueles que vão ter que dar seu jeito para dar nomes aos bois.)_ Parece nos dizer, curta e grossa, a nossa ‘boazinha’ constituição de 1988, certo?

Em suma, com a nítida finalidade de ampliar o leque dos beneficiários (quem pensou esta estratégia tão ingênua?), não se mudou apenas o nome da coisa, mudou-se a coisa de nome, o que é muito diferente e não significa, de modo algum ‘ressemantização’.

Ressemantizar’ seria adaptar o conceito à nossa época, sem desconsiderar (ou ‘ressignificar’ aleatoriamente) aspectos definidores – como a cultura ‘tradicional’ destes segmentos, por exemplo. Afinal, o dispositivo determina ou não determina a defesa de manifestações culturais… específicas?

Ao que nos parece, da forma como está proposta no dispositivo – que se pretende um instrumento legal – a medida acaba não tendo aplicabilidade jurídica especial alguma, sendo facilmente desqualificada por qualquer boa banca de advogados inimigos da causa, já que nele, no dispositivo, poderiam estar abrigados todos outros segmentos… ‘étnicos’ (o que, aliás, o próprio dispositivo admite em seu texto ser um critério vago), não conferindo à medida força alguma para fazer valer os direitos deste ou de qualquer grupo…’étnico’ em particular.

Nas barras frias de um tribunal em suma, baseado apenas em semelhantes argumentos tão pouco jurisprudenciais, um grupo ‘majoritariamente’ formado por quilombolas remanescentes, não teria, realmente chance alguma.

_”Terra para negros ex-quilombolas!” _ Será preciso dizer, com todas as letras, de forma cabal, com palavras passíveis de serem compreendidas, comprovadas e transformadas em lei.

Ora, é claro que esta conversinha de ‘ressemantizar’, ‘ressignificar’ tudo – por mais bem intencionada que seja – só podia dar no que deu.

Quem dá nome aos bois?

“Quem pariu mateus que o embalance”

É fácil falar, criticar, cobrar assim em cima deste muro de lamentações. Eu sei também que é preciso ir devagar com este andor. As intenções da maioria dos envolvidos são boas e as suscetibilidades são frágeis demais diante de críticas mais ácidas. Todo mundo quer ser o santo padroeiro desta história.

Sabem vocês, contudo, tanto quanto eu, que das melhores intenções está lotado inferno.

Porque esta questão não anda? Será que está planejada para não andar mesmo? Culpa desta desmobilização impressionante do outrora combativo Movimento Negro do Brasil, que teria emprestado para o Movimento Social como um todo, tornando genérica, esta bandeira que lhe era tão cara e exclusiva?

Seria culpa dos advogados, juízes e legisladores em geral que não conseguem entender a necessidade de se associar Justiça Social com Diversidade étnica? Ou seria culpa dos técnicos, antropólogos e historiadores, envolvidos em bizantinas questões acadêmico-conceituais que os levam a ideologizar, questionar  e ‘ressignificar’ o conceito de tudo nem sempre com as mais claras intenções?

Como nos diz um entendido sobre o tema:

“_ …esse assunto é o maior tabu entre os antropólogos. Existe digamos um código secreto, um espírito corporativo, uma pretensão de reserva de mercado para aqueles que lidam com a tal antropologia aplicada…

Ih! sai de baixo! Mais caroço à vista.

…Bem, mas isto é assunto para outras mangas num post que faremos logo a seguir (leia aqui o POST #02). Enquanto isto vão pensando aí que a pobre da bezerra ainda não morreu.

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(Em tempo: A palavra angu também vem de algum modo do Kimbundo, sabiam? Penso que vem de ‘iangu’ que quer dizer capim – ou couve picadinha – aquela que, além do caroço, engrossava o dito cujo na cuia do escravo. O engraçado é que a palavra não vem diretamente de ‘fubá’ não, embora ‘fubá’ também venha do kimbundo ‘fuba’, farinha de milho.

Recomendo contudo muito cuidado com os dicionários. Kalombo, por exemplo quer dizer hoje em Angola, literalmente, ‘mulher infecunda‘. A língua é a mãe de tudo, ou seja: Tem gente aí que precisa rever, totalmente os seus conceitos etimológicos… e ideológicos com urgencia. )

Ressignificar-se, diria.

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Depois o papo segue – e esquenta mais – Achei por bem linkar aqui a matéria fedida da revista ‘Veja já que os leitores mais ligados ao tema vão estrilar e com razão.

Calma rapaziada. Uma coisa a gente precisa reconhecer: para um oportunista agir é necessário que alguém crie a oportunidade, certo?

Ajoelhou? Tem que rezar.

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Fui mas volto já.

Spírito Santo
Maio 2010

A incrível guerra de Hans


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Hans Massaquoi entre colegas de turma em Hamburgo 1939

Hans Massaquoi entre colegas de turma em Hamburgo

A suástica bastarda e outras saias justas nazi-racistas

Você já ouviu falar num cara chamado Hans Jürgen Massaquoi? Nem eu tampouco. Coisa impressionante! Tantos anos cavucando estas coisas de negro e nunca ouvi falar desta história inacreditável. Chego a ela depois de esbarrar, quase sem querer nesta incrível e inusitada foto aí de cima: Um negrinho fofo, impávido e impoluto, aparentemente cheio de orgulho em ser fotografado com uma suástica no peito.

_”Was ist das? GroBe Skandal! Ein Neger Nazi? Was ist los? Nein! Nein! Nein! _Diria o Adolf, apoplético, desmunhecando e batendo os pézinhos.

A história oficial pouco se ateve sobre isto ainda (daí a nossa ignorância a respeito ser santa, certo?). No Brasil então nem se fala. Pelo que me consta, ao que parece estes tão interessantes e  subterrâneos episódios ocorridos durante a segunda guerra mundial nunca estiveram no campo de interesse de nossos moderninhos formadores de opinião. Vai saber porque?

“Negro, negro! Limpador de chaminé!”

(Ofensa racista popular na Alemanha dos anos 30/40)

“Mamãe, eu não sou ariano?” – perguntava Hans a sua mãe, aos oito anos de idade depois de ter sido proibido de brincar com as outras crianças na escola.”

Os fragmentos desta incrível saga de descendentes de africanos vivendo – e o que é mais impressionante – sobrevivendo, num país com leis racistas tão agressivas, às vezes  nos lembram muito (guardadas as devidas proporções, é claro) a mesma saga dos descendentes de africanos no Brasil.

(O que é assaz curioso porque o Brasil, para uns e outros nunca foi um país racista.)

Pois esta é a mais pura e verdadeira história de Hans Jürgen Massaquoi, cujos trechos extraídos de uma resenha de seu livro autobiográficoNeger, neger, schornsteinfeger!” (‘Destined to witness” na versão norte americana) disponibilizamos aqui. Está do mesmo modo disponível na rede trechos da versão do livro para o cinema, num filme realizado na Alemanha por Jörg Grünler em 2006.

Puxando o fio desta meada podemos descortinar um vasto mundo de iniqüidades e injustiças há muito sabidas, quando associadas a população judia na Alemanha nazista, mas que nunca havíamos, nem de longe, imaginado terem sido os mesmos infortúnios sofridos por milhares de pessoas negras engolfadas pela fervura daquele caldeirão de sandices.

Negros na Alemanha nazista? Nem pensar! Num ou noutro filme de um Fassbinder da vida, talvez, mas quase sempre soldados negros americanos, ja no finzinho da guerra, transando com uma loura pálida, de boca carnuda com baton carmim, numa cama amarfanhada na penumbra de algum conjugado de Berlim.

Nada de terror. Só tesão, sexo selvagem e lágrimas de despedida.

Talvez seja até por isto – o inusitado de uma situação tão incomum – que as histórias sobre negros na Alemanha nazista tenham se tornado, estranhamente tão obscuras quanto mal contadas.

Mais são muitas as histórias. Candentes, impressionantes, com ganchos nos levando a associá-las com outras tantas experiências individuais neste vasto contexto trágico da diáspora africana neste nosso mundo muito mais do Cão do que de Deus.

Algumas outras partes desta intrigante meada estamos também disponibilizando abaixo, em rápidas pinceladas, só para instigá-los, afim de que possamos juntos ir futucando e esmiuçando mais e mais (o que de nossa parte, dada a eletrizante e inusitada importância dos fatos aqui revelados,  faremos com toda certeza em posts a seguir.)

É só esperar para ler.

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Os trechos da resenha do livro de Massaquoi e demais informações sobre a vida de negros na Alemanha nazista contidos neste post foram extraídas do jornal El País e do site da Deuscht welle, traduzidos livremente por este vosso criado.

A guerra íntima de Bertha e Hans

Hans Jürgen Massaquoi nasceu em 19 de janeiro de 1926 em Hamburgo, filho de mãe alemã e pai liberiano. Tinha seis anos quando Hitler chegou ao poder. O pai de Hans era filho do cônsul da Libéria na Alemanha. Sua mãe, Bertha Baetz, era uma enfermeira de classe média baixa. O rico filho do diplomata africano interessou-se pela bela jovem ao vê-la em uma festa, e dessa relação nasceu o pequeno Hans.

Seu pai nunca se preocupou muito com ele e nunca lhe deu muita atenção, já que nessa época era um estudante universitário em Dublin. Mas seu refinado avô (o rei Momulu IV rei dos Vai, uma etnia liberiana), o primeiro diplomata africano na Europa, o acolheu em seu palacete de Hamburgo junto a seus tios e primos africanos. O patriarca se orgulhava de ter um neto alemão que falava o idioma local com perfeição.

Bertha com o filho Hans, tendo ao lado a foto do pai

Bertha com o filho Hans, tendo ao lado a foto do pai

“Eu associava a pele negra com superioridade, porque nossos serventes eram brancos” – diz Hans em sua autobiografia.

Seu destino mudou drasticamente quando o Führer assumiu o poder e expulsou os diplomatas africanos da Alemanha. Todo o clã Massaquoi regressou a seu país, Libéria, mas Bertha, a mãe de Hans decidiu ficar em sua pátria, porque o menino era doente e temia que viajando à África ele poderia morrer já que naquela época -e até hoje em dia- a África era um continente assolado pela malária. Praticamente sozinha, Bertha retomou seu trabalho de enfermeira e mudou-se com seu filho para a zona operária de Hamburgo.

Eu, que tinha aprendido a ver vantagens em meus traços raciais, de repente me vi obrigado a considerá-los um inconveniente”.

No início, nem ele nem sua mãe consideraram como uma ameaça à ascensão do nazismo. Era algo que não os preocupava, afinal eles eram alemães.

“Assim como toda criança, eu estava fascinado pela parafernália nazista. Os uniformes, as bandeiras e os desfiles me deixavam encantado. Para mim, para meus colegas, Hitler estava envolvido nessa auréola divina que lhe protegia de qualquer crítica”.

As coisas foram mudando pouco a pouco. Primeiro foram os letreiros afixados nos balanços  de praça proibindo crianças não-arianas de brincar. Depois, um misterioso desaparecimento de seus professores que eram judeus. Depois sua mãe foi despedida de seu trabalho “por ter concebido o filho de um africano”.

“Uma vez que as absurdas leis raciais entraram em vigor, ficou claro que minha vida ia se tornar muito difícil. Mas o amor e a proteção de minha mãe me deram a sustentação necessária”.

Em seu livro autobiográfico, Hans conta com detalhes as tentativas que fez para ser considerado um alemão comum. A cada vez que era recusado reagia negando o evidente, e esta situação o levaria ao absurdo de querer fazer parte das Hitlerjugend, as Juventudes hitleristas, uma mistura de tropa de escoteiros com organização paramilitar.

No dia que descobriu que lhe negaram a entrada exclusivamente por sua cor de pele, Hans abriu os olhos e começou a entender do que se tratava o nazismo. A partir daquele momento abandonou o desejo de ser aceito pelos nazistas e libertou-se da dependência afetiva de Hitler como onipotente figura paternal.

Hans com a mãe e primas

Ao começar a guerra, apesar de ser “indigno de usar o uniforme alemão”, esteve a ponto de se alistar no exército. Só não foi para a frente de batalha por ser considerado uma pessoa sem importância, o que agravou os seus problemas emocionais, já que sendo um homem jovem e sadio se envergonhava de não estar combatendo junto a seus compatriotas.

Foi enquanto trabalhava em uma fábrica de munição que Hans pode observar que a máquina de guerra alemã começava ruir. Em 1943, os aliados, com a Operação Gomorra, bombardearam intensamente Hamburgo durante dez dias, até deixar a cidade em escombros, onde morreram mais de 40 mil pessoas.

Hans estava tão deprimido que não fazia diferença morrer nas mãos da Gestapo ou do bombardeio aliado. De toda forma, a presença da Gestapo incomodou-o por muito tempo ainda e teve que conviver sob a constante ameaça de sua presença e interrogatórios. Desprezado por todos, era considerado um cidadão de segunda classe, a tal ponto que um dia uma multidão quis linchá-lo achando que era um piloto aliado.

O fim da guerra com a tomada de Hamburgo pelos britânicos significou também uma nova vida para Hans. Pela primeira vez em sua vida não sentia medo. O medo de ser humilhado, ridiculizado, degradado, a ver-se privado de sua dignidade.

Após a Segunda Guerra Mundial sobreviveu como saxofonista de jazz, depois emigrou a Libéria, o país de seu pai, e por fim ancorou nos Estados Unidos, país que o acolheu como cidadão e onde foi recrutado como pára-quedista e enviado à Guerra da Coréia durante dois anos.

Graças aos benefícios dos veteranos de guerra ingressou na Universidade de Illinois, onde estudou jornalismo, carreira à qual dedicou mais de quatro décadas vindo a se aposentar quando era diretor da famosa revista Ebony.

Ao final e apesar de tudo há de se considerar que o destino foi bastante benevolente com Hans Massaquoi. Olhando para o passado e recordando o horror também sofrido por outras inocentes etnias, ele pelo menos sobreviveu para contar a sua história.”

Hans Mossaquoi, como diretor da revista afro-americana 'Ebony'

Hans Mossaquoi, como diretor da revista afro-americana ‘Ebony’

Veja trailer do filme ‘Neger, neger, schornsteinfeger!” aqui

Spírito Santo
Maio 2010

Mama mia! Será que a velha esquerda pirou?



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Nacional-Estatismo? Como assim?

Juro por Deus que não estou influenciado pela campanha que se inaugurou por estes dias. Se querem mesmo saber detesto política partidária, ainda mais esta que predomina hoje em dia entre nós. Lavo minhas mãos. Não tenho lado algum a defender nesta pendenga, até porque já aprendi com a idade que não se ganha mesmo quase nada com este tipo de torcida. Política, definitivamente não é futebol.

O que eu gostava mesmo e amava de paixão era da utopia da revolução real, a sociedade mudando radicalmente pelo esforço organizado de uma maioria para algo, pelo menos, um pouco melhor para todos, sem distinção.

Mas, utopias à parte, convenhamos: Com esta idade não dá mais para ser enganado e ficar calado, nem por mera desconfiança. É, pois, por via destas dúvidas todas que, ainda pasmo, comento enfaticamente:

Sabe o Daniel Aarão Reis aquele ex-militante da nossa valorosa esquerda revolucionária, ex-preso político e hoje festejado professor de história contemporânea da Universidade Federal Fluminense? Pois não é que lendo um artigo dele hoje (11 de abril 2010) em O’Globo fiquei sabendo que ele defende (meio que timidamente na verdade, na base da  tergiversação, cheio de ‘data vênias’ como um advogado do diabo) uma tese que eu julgava ser indefensável, uma heresia para qualquer intelectual mais sério e comprometido com a evolução do país?

Pois é. A tese é a de um tal de Nacional-estatismo. Vocês sabem o que é isto? (Li por aqui no google que é uma teoria bem manjada por historiadores em geral) Gente de Deus, será que não sei mais ler? Será que existem na tese algumas bem escondidas entrelinhas, algo louvável, considerável que me escapou à compreensão?

Senão vejam vocês mesmos.

…”Depois da restauração democrática, ao longo dos anos 1980 1990, o nacional-estatismo defendido por várias forças de esquerda, resistiria ao vendaval do liberalismo triunfante.

A tese desenvolvida na matéria de O’ Globo se intitula ‘Uma cultura política: O Nacional-estatismo’ (leia a matéria completa neste link) e é defendida de maneira, estranhamente distanciada e escorregadia por Aarão Reis, de modo que só com muita atenção se percebe que ele, na verdade demonstra franca simpatia pela idéia.

“…Sob o conceito vago de populismo, construído por uma certa sociologia paulista todas estas forças tentaram então apresentar o nacional-estatismo como um projeto malsão por natureza, manipulador e corruptor. Virou quase um senso comum a a associação dos líderes populistas ao que de pior existe nos costumes políticos: Demagogia, mistificação, desvio de dinheiros públicos.”

Difícil acreditar, mas pelo que entendi o Daniel endossa, com a luxuosa argumentação de historiador brilhante que é sabe o que? O populismo, gente. Isto mesmo: Um populismo fashion, reciclado, mas no fundo no fundo aquele mesmo populismo escroque que ora nos rodeia:

Sacaram a sutileza? Nacional-estatismo, seria algo assim como o estado assumindo para si algumas funções que deveriam ser, na verdade, da sociedade organizada em nome, naturalmente de uma figura de retórica vulgarmente chamada de povo, no nosso caso uma triste massa miserável e despolitizada que mal tem o que comer.

Chamávamos isto, exatamente – e com franco desdém – de populismo, não lembram não? E de outros nomes até mais feios ainda como clientelismo, assistencialismo, caudilhismo (que era quando um líder carismático e vaidoso liderava com mão de ferro o processo todo, por intermédio de artimanhas personalistas com uma turba de militantes fanáticos fazendo coro e pressão).

Sacam este filme? Pois então. Ao que tudo indica é isto mesmo o que o bem enunciado conceito proposto pelo Daniel encobre, por trás de jargões e panos vermelhos.

Conheço, como vocês, a tendência. Ela tem sido flagrada facilmente no firme apreço do governo Lula por Hugo Chavez, as ropitchas vermelhas que Lula e Dilma desfilam por aí, os casaquinhos bolivianos presenteados por Evo Morales ao hermano do Brasil, os mimos de nosso ministério das relações exteriores ao Armadinejah, símbolos evidentes de uma tendência populista que eu considerava apenas um desvio exclusivo do confuso pragmatismo ideológico da cúpula mal letrada do PT e de nosso presidente.

A grita da oposição também é facilmente compreensível: Como semelhante propósito (este esdrúxulo nacionalismo estatal) não se coaduna com as regras e os preceitos mais comezinhos atualmente vigentes nas democracias modernas, a prática tem sido, veementemente criticada, considerada altamente condenável para muitos setores da sociedade (notadamente os tribunais eleitorais). Daniel tem toda razão, portanto quando pontua que esta prática arcaica, sempre foi, com toda certeza associada pelos sociólogos mais progressistas – e não apenas os paulistas – com o Populismo Clássico mais deplorável.

Me lembro muito bem que esta praga autoritária, tão comum na política latino-americana sempre foi combatida pela esquerda…moderna, inclusive aquela que se reuniu para a criação do PT.

É fácil se saber porque. Se nossa constituição mesmo tão remendada como é não prevê este tipo de governança, afinal, quem daria o aval e a legitimidade para um governo Nacional-estatista se instalar? O povo semi analfabeto e faminto, que vive à mercê de programas assistencialistas?

Por outro lado, quais seriam as áreas e instâncias da administração pública passíveis de serem estatizadas, controladas pelo estado? Quem decidiria sobre isto? Consultas plebiscitárias? O Ibope? E a imprensa? Sofreria algum tipo de controle estatal? E a justiça? haveriam tribunais especiais controlados pelo governo, arbitrando sobre questões consideradas…de estado? Seria justo ou confiável um governo baseado em premissas tão mal amarradas?

Pois bem, para Daniel Aarão Reis este Nacional-Estatismo, só seria populismo mesmo para uns poucos difamadores da ‘elite’. Populismo sim, mas apenas em termos já que, em diversas circunstancias históricas o conceito teria sido adotado com sucesso como política de governo por estados tanto da direita quanto da esquerda, ou seja, uma prática que não devia ter sido tão demonizada assim por ser, dependendo das circunstancias de algum modo válida, útil.

Que papo é este, meu irmão? Que conversa mais fiada.

Ora, não é preciso nenhuma sutileza de raciocínio para se perceber que Aarão, ao citar as tais ‘forças’ opositoras, está se referindo de forma transversa ao PSDB de FHC e Serra, espécie de paladinos de uma suposta ‘santa aliança’ que preconizaria o Neo liberalismo, elite esta formada também por todos os opositores do governo, a vaga oposição ‘golpista‘ que, diga-se de passagem, coincidentemente com muitos pontos de acerto, associam o PT do Lula a todas estas características… populistas.

Mas cá entre nós, quem não sabe ainda que a Demagogia, a mistificação e o desvio de dinheiros públicos, infelizmente tem sido marcas bem visíveis nas práticas dos governos ligados ao PT? Alguém aí já se esqueceu daqueles vexatórios escândalos mal explicados que marcaram os últimos 8 anos da Brasília governista atual, do estado-maior Petista caído em desgraça, enfim?

Quem ainda não percebeu que no discurso destas correntes, pretensamente de esquerda a ética foi feita letra morta, substituída por máximas supostamente pragamático-imperiais do tipo ‘O estado sou eu’ ( l’etàt c’est moi’, lembram? aquela frase ridícula do absolutista Luiz XIV)

Seria o PT das entranhas já em campanha acirrada para se perpetuar no poder? Aquele clandestino partido cujos líderes de fato vivem imersos na penumbra por que tem problemas cabeludos a tratar com a justiça? Seria este PT das sombras propondo – e de forma desastrada ao que parece – um programa de governo parecido com o Estado Novo de Getúlio Vargas. Bem esquisito isto, não é não? Ainda mais vindo de um partido de esquerda… Convenhamos, dirigismo estatal não era coisa de ditaduras?

O Nacional-estatismo na tese escorregadia de Aarão Reis, ao que tudo indica seria o que professam hoje Chavez, Evo Morales, Armadinejah, Raul Castro e… Lula da Silva. Só que Daniel esqueceu de considerar que Mussolini, Franco e Hitler, cada um em seu contexto, também surfaram, exatamente numa praia bem ao lado desta (nacional-socialismo e fascismo) e deu no que deu.

Mas espera aí: a crítica ao populismo que nos avacalhava a moral e os bons costumes, a denuncia do fascismo, da ditadura estatal, do terrorismo de estado, não foram as bandeiras mais tremuladas nas campanhas pela nossa democratização? Não foi pela democracia plena que tanta gente lutou e morreu neste país?

Com efeito, lá para as tantas, em sua defesa ambígua que recicla o populismo velho de guerra, Aarão cita, positivamente pasmem…Ernesto Geisel (usado como argumento de que direita e esquerda, cada uma a seu tempo, a certa altura de seus governos caíram em si para adotar o nacional-estatismo como uma opção válida). E segue em sua tese… ‘revisionista’ o nosso surpreendente Daniel:

“…Esta cultura política suscitou a oposição de forças poderosas e heterogêneas, de direita e de esquerda. As direitas, cosmopolitas e liberais, não podiam senão se opor às propostas nacionalistas e estatais. As esquerdas socialistas e comunistas, embora favoráveis a muitos aspectos do nacional-estatismo, competiam com ele pela liderança dos trabalhadores urbanos e rurais. Diferentes motivações, portanto, formariam uma verdadeira santa aliança contra o inimigo comum a ser abatido”.

Ah, sei…Entendi. É que agora eles estão… revendo os seus conceitos. O populismo agora (‘popululismo‘, no caso) para esta turma não seria mais um mal em si e pode ser considerado bom, positivo e até…moderno.

Será que parte daquele grupo de intelectuais brilhantes, forjado naquelas cruentas lutas contra a ditadura está embarcando em semelhante equívoco por convicção política? Custo a crer, mas não consigo discernir porque. Apenas me embaralho em suposições.

Outro dia vi na TV um destes antigos militantes da jovem esquerda brasileira dos anos 70 tornado ministro do governo Lula, aos prantos e soluços ao recordar de companheiros que enlouqueceram no exílio, sucumbidos ao peso insuportável do doloroso dia a dia, cara à cara com a derrota.

Consternado com a cena, fiquei refletindo no significado afetivo da estada no poder deste pessoal, no peso enorme que deve estar representando em suas vidas enfim esta – vá lá – oportunidade derradeira de transformar o país. Penso também com a mesma compreensão no caso daqueles que, vergonhosamente se corromperam e estão agora diante do não menos doloroso fim de suas chances de se locupletar , impunemente, de enriquecer mais um pouquinho na mamata explícita, tolerada pelos pares, com a desculpa esfarrapada de que desviaram verbas para o bem do partido, para o bem da revolução.

E aqueles que, em ambos os casos sonharam com a chance de estar lá e que, justamente agora na sua vez, se vêem na eminencia de verem frustradas suas chances, na antesala da grande oportunidade de suas vidas, seja lá ela qual for?

Deve ser realmente enlouquecedor para este pessoal estar diante do ensejo de se encerrar aqui – ou mais adiante, que importa – a chance que tiveram de governar o Brasil, a aproximação da hora de encerrar o ciclo no poder, a fase de manda-chuvas do país, um ciclo controverso, marcado por um pragmatismo discutível, caracterizado muito mais pelo fechar os olhos à velhas práticas políticas deploráveis, sem ter conseguido mudar em quase nada aquele velho Brasil que prometeram revolucionar, como nos fizeram acreditar piamente que fariam com aquela pomposa ‘carta aos brasileiros’.

Deve ser enlouquecedor para muitos destes caídos a revisão desta montanha de mal feitos ainda não explicados, supostamente realizados em nome do partido, um monte de mal feitos que, mais dia menos dia, virão à tona e que, sendo ou não sendo realmente ilícitos, passarão a fazer parte indelével da herança (quiçá maldita) que esta geração de governantes de esquerda deixará como o seu legado para a história.

Concluindo a quase convicção: Deve ser por isto tudo então que, para o bem ou para o mal, inventam teorias como esta do Nacional-estatismo. Que outra explicação se teria para tanta contradição senão o desespero de ter tido o poder nas mãos e não ter conseguido fazer a sonhada revolução. Uma inexorável sensação de derrota sim, diante do tanto que poderiam ter feito. Deve ser isto: O convívio com a finitude do poder os enlouqueceu.

Cruzes! Gente de Deus! Me tirem desta angústia . Estes caras piraram, não é não? Ou será foi em que pirei?

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Distraído sim, mas não me chamem de alarmista exagerado. Atirei no que vi. Acertei no que não vi: Saibam vocês que agora mesmo, nos finalmentes deste post achei este interessantíssmo link. Tá lá gente. O Nacional-estatismo É O PROGRAMA DA DILMA. Caraca! estes caras pegam a gente, sempre de calça na mão!

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Spirito Santo
Abril 2010

É a Lama! É a Lama!



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1904. Foto de João Martins Torres : Trabalhadores contratados para retirar material da Encosta do Morro do Castelo no Centro do Rio de Janeiro, como parte do Bota Abaixo para a abertura da Avenida Central.

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Do Caos à Lama
O céu caindo sobre nossas cabeças

Não sei se existe um ranking, mas talvez o Rio de janeiro seja a cidade mais excludente do mundo.

Eternamente colonial a cidade parece ter sido planejada para manter sua imensa população pobre segregada de tudo, com uma parte habitando uma periferia da qual só se chega à parte rica – a urbe real – por meio de um sistema de túneis e a outra parte amontoada nos morros e encostas, como bandos de urubus espreitando as migalhas que cairão dos apartamentos e das mansões.

Como os supostos ricos daqui são escravistas renitentes (os habitantes da zona sul do Rio pensam que ainda estão na Corte do Império do Brasil), manteve-se aqui uma relação sórdida com os descendentes de escravos do pós-Abolição, mantendo-os totalmente à margem da sociedade, sem política de inclusão social alguma, nenhum direito de gente normal que não seja o de exercer a condição de eternos escravos domésticos ( ‘negros de ganho‘ como no passado) sem trabalho regular ou formal, sem educação, sem saúde, transformados em prestadores de todo tipo de serviço de baixa especialização (biscateiros, lavadeiras, seguranças, faxineiras, pedreiros, babás, cozinheiras, marceneiros, lixeiros, camelôs, bandidos, etc.)

Para poder trabalhar e comer com os rendimentos tão miseráveis que amealham com seus ‘bicos’, os pagens e serviçais  tiveram que ir se alojando nas áreas próximas que sobraram baldias, os morros e as encostas da cidade, áreas historicamente desprezadas pela elite que, desde de quando D.João VI adotou os seus banhos de mar medicinais nos cafundós do Caju, gosta mesmo é de viver  no bem bom e na curtição da dolce vita à beira mar.

Do mesmo modo que mantinham senzalas ao lado de suas casas grandes patriarcais, os cariocas descendentes daquela pomposa aristocracia cortesã do tempo do império, fecharam os olhos à ocupação desordenada do solo urbano, permitindo que se formassem espécies de guetos-senzalas, comunidades de miseráveis que se aboletaram em barracos construídos com caixotes e folhas de zinco e depois em precárias casas de alvenaria, construídas nas encostas e morros das zonas Sul e Norte, de qualquer jeito, do dia para a noite, no mais completo e épico Deus-dará.

Como não podia deixar de ser, com um fluxo incessante de gente vinda da periferia e até mesmo de outros estados, atraída por enganosas oportunidades que a cidade teria a oferecer, estes morros logo ficaram superpovoados, acabando por  explodir as represadas  mazelas e feridas sociais, as mais pustulentas que ruminavam,  fazendo ferver um caldeirão de violência tão  exacerbada que gangs de traficantes de drogas, no auge insuportável de seu crescimento como instância de poder paralelo, passaram a dominar partes significativas do espaço urbano, como autoridades de fato.

O caos do Rio de Janeiro hoje é quase absoluto. Literalmente nossos problemas pós coloniais estão desmoronando sobre nossas cabeças.  Apavorada, a  elite bacaninha vê a água marron, a lama, o lixo e os dejetos mais absurdos, escorrerem sobre a decantada maravilhosidade que as autoridades constituídas da cidade alardeiam para o exterior.

Fazer o que? Avisar a gente sempre avisa – eu mesmo já cansei de escrever sobre isto – mas sabem como é:  A elite do Rio é estúpida e ignorante como toda elite de qualquer lugar. É gente que acha que estando acima do bem e do mal pode manter a situação indefinidamente sob controle, investindo apenas em polícia para conter à força, a circulação dos serviçais além dos muros invisíveis de seus guetos infectos e fedorentos.

Só agora, com as Olimpíadas e a Copa do Mundo chegando, depois do formidável abate de um helicóptero por snipes bandidos, começaram a refletir um pouco sobre a sinuca de bico em que se encontram. O máximo que conseguiram, no entanto foi tentar repetir a estratégia eugenista doBota Abaixo perpetrada pelo prefeito Pereira Passos no início do século 20, aquela ‘reforma urbana’ que expulsou os pobres do centro da cidade (o entorno da atual Avenida Rio Branco) para…para onde? Para alguns dos mesmos morros que desmoronam hoje, por obra das irrecorríveis leis da natureza.

E vejam só o que mais:

Entre outras mazelas, esta relação doentia criou também uma dependência total entre  ‘ricos’ e ‘pobres’, uma relação promíscua cujo símbolo maior é  o mercado das drogas.

Sejamos francos. A elite carioca – mais ainda talvez que a elite das outras grandes cidades do Brasil – além de ter ojeriza pelo trabalho braçal por conta de uma inapetência histórica, adquirida no tempo da escravidão – é hedonista e permissiva por natureza.

Moderna como se julga ser, esta pretensa elite acabou ficando viciada nas drogas que passou a consumir (principalmente a cocaína), de forma quase massiva, movimentando uma quantidade imensa de dinheiro escuso que para ser gerido, exigiu a formação de diversos comandos para-militares, que armados até os dentes,  articulam outros comércios paralelos e sucedâneos  como o tráfico de armas, de munição de guerra e os sequestros de pessoas, por exemplo.

(Você sabia que, curiosamente os traficantes chamam o seu negócio de ‘Movimento’?)

Como os pobres estão aí mesmo para todo o serviço (principalmente o sujo) já que foi isto que  lhes restou como alternativa de sobrevivência,  este mercado milionário se caracterizou sob a forma de uma divisão de tarefas onde quem estoca, controla e disponibiliza as mercadorias ilícitas é a negra bandidagem favelada e quem banca o mercado, consumindo a droga é a elite branca bem nascida, protegida e mediada por uma polícia corrupta, numa dicotomia que será em algum prazo explosiva.

Insanos. Querem por que querem esconder o problema debaixo do tapete, gastar o mínimo (para talvez desviar, roubar, o máximo) planejam maquiar, pintar a cidade de verde, amarelo, azul e branco para nesta estratégia cosmética imbecil, expulsar os pobres, de volta para bem longe do futuro, certos de que seu quadro de privilégios jamais será afetado.

Mas como? Como e para onde expulsarão quem já foi expulso no passado e que já é tão desvalido?

Não há mais espaço, nem na periferia, para isto. A cidade inteira está tomada, atravancada de problemas estruturais com gente saindo pelo ‘ladrão’. As favelas com suas precárias fronteiras já encostando umas nas outras se transformaram em ‘complexos’,  sub-cidades clandestinas, subterrâneas,  algumas com população tão numerosa quanto a de cidades de porte médio do resto do país. O lixo social que eles, os da elite, lançaram de suas janelas virou uma montanha preta imensa e nauseabunda, quase sem tamanho.

Excluir mais ainda os favelados do Rio seria, pois, um plano digno de sadomasoquistas, seres desumanos, com lepstopirose na alma.

E se esta montanha preta de iniquidades desmoronar, como está desmoronando agora nestas avalanches mais que simbólicas ? O  volume assustador de entulho pode afogar a cidade inteira num lodaçal histórico (um castigo bíblico, pois, como todo mundo deve saber, lama caindo do céu não tem preferência social. A lama é santa e democrática, afoga a todos igualmente porque é pública.)

Sim, a merda líquida que transborda dos esgotos do Rio é de todos nós.

Aparvalhada, a cidade é governada por administradores ineptos (no linguajar popular uns ‘merdinhas‘, uns ‘conversinhas‘) políticos carreiristas que preferem muito mais vender os peixes podres que viabilizam  suas eternas candidaturas do que fazer realmente algum bem, mesmo que corriqueiro, para a população que os elegeu.

É, meus amigos: A cidade do Rio de Janeiro pode estar se aproximando perigosamente do seu dilema mais terrível, do seu check mate de metrópole incompetente e inviável por sua própria culpa. A qualquer momento, basta uma fagulha e a situação pode ficar fora de controle. Este  caldo de cultura fedorento um dia entorna num indesejado ‘Viradão Carioca’.

Dê só uma olhada para a cara das vítimas dos atuais desabamentos e reflita. Não é preciso IBGE nenhum nos informar o óbvio. A estatística está aí, visível na TV,  gritando na nossa cara: Quem perdeu e cada vez está perdendo mais, morrendo mais, é a mesma negregada galera do período pré-abolição. É a escravidão aviltante ainda pulsando em nós.

Agora é fácil. Expulsamos os nossos seres-dejetos para bem longe da urbe chic, à custa  sabe-se lá de quantas ocupações ‘pacificadoras’, quantas UPPs.  A bandidagem recua da zona sul e se ajeita na periferia mais remota, montando ali seus arsenais e paiós em novas cidadelas.

Junte a tragédia de morros se dissolvendo com o sonho das ‘otoridades’ – e da elite – de expulsar a população favelada para o mais longe possível das Olimpíadas e da Copa do Mundo. Coloque pitadinhas de UPPs e tropas de elite, junte tudo com o medo pânico agora portado pelas pessoas que moram nestes morros, espantando-as para as partes planas da cidade e me diga o bicho que dá. O bicho é feio ou não é? Dá até medo.

A pergunta então é: E aí? O que faremos quando a Copa e as Olimpíadas acabarem? Gravamos um jingle ‘we are the world’ em ritmo de Samba e disputamos com o Haiti no tapa – ou no ‘cuspe em distancia’ – a grana da ajuda humanitária da ONU?

_”É a lama! É a Lama!_ cantaria um moderninho bloco do Carnaval de Santa Teresa parafraseando Tom Jobim, tentando abafar a voz rouca do Coronel Kurt que existe em cada um de nós (aquele piradão do filme  ‘Apocalipse Now“) , gritando para a avalanche de lama que escorre do cinzento céu desta cidade cada mais vazia de encantos mil:

_” É o Horror! É o Horror!”

Spírito Santo
Abril 2010

Gostou? Se enojou? Então leia também o post irmão deste: FAVELÓPOLE

Achtung! Mais um negão em Viena


“April macht zu viel”
‘Abril faz o que quer‘- ditado popular austríaco (ou alemão não lembro bem)

Não pude resistir à tentação de divulgar isto. Aos que não tiverem a gentil complacência de relevar mais este eventual deslize egocêntrico, justifico enfático:

Corujice também é cultura!

É nestas horas que gostaria de ver a cara de um anti-cotistas destes, estes racistas enrustidos que andam rebolando por aí, afirmando que os excluídos históricos do acesso à educação (negros, índios e afins) precisam esperar caladinhos, na fila, confiando piamente que, um belo dia (quando a galinha criar dentes?) políticas universalistas – ou ‘não racialistas’, no dizer daqueles próceres do jornal O’Globo – vão permitir que os nossos filhos entrem na universidade.

Caladinho é cacete. Digo alto para vocês todos ouvirem: Depois de entrar na UFRJ (e por acaso fora do programa de cotas), meu filhão, negão, acabou de entrar agora na Universidade de Viena, lá na Áustria.

Na base do ‘você sabia’, pra economizar o google de vocês, em verdade em verdade vos digo: Trata-se de uma das mais antigas universidades do mundo, criada em 1365, quando o Brasil, tal como o conhecemos, nem sonhava existir – ou seu ‘descoberto’, como se diz – Os portugueses, por sua vez, nem tinham ainda, a mais vaga idéia de que invadiriam o Kongo um dia e que para cá trariam meus antepassados africanos que de sua parte, séculos e séculos adiante, teriam o meu filhão como descendente ilustre. Dá pra imaginar?

Só pra se ter uma idéia, vaga ao menos, da dimensão da quase ‘façanha’ do ex-pimpolho (nada tão difícil. Foi só ele descobrir que tinha este direito e correr atrás), na lista de celebridades e sumidades mundiais que ali estudaram e se formaram, só encontrei um brasileiro, assim mesmo de ascendência austríaca, o crítico literário e libertário incorrigível Otto Maria Carpeaux (Otto Karpfen antes de fugir dos nazistas para o Brasil ). Veja a lista que fiz assim, só numa zapeada na wikipédia:

Gustav Mahler (músico), Gregor Mendel (músico), Papa Pio III, Otto Preminger (cineasta), Wilhelm Reich (psicanalista), Bruno Kreisky (ex primeiro ministro austríaco), Kurt Waldheim (ex primeiro ministro e secretario da ONU), Stefan Zweig (escritor), Otto Maria Carpeaux (crítico literário naturalizado brasileiro), Jörg Haider (‘moderno’ e célebre político neo nazista austríaco).

Procurar quantos negros brasileiros estudaram ali é a pesquisa mais fácil deste mundo:
Com quase toda certeza nenhum.

Se você considera válido este tipo de parâmetro, raciocina (ou ‘se liga’): A Universität Wien é um dos templos mais bem acabados do que se pode chamar de ‘cultura branca’, cultura européia, saber hegemônico (se é que me entendem) e é lá que, unicamente por conta de seus inalienáveis direitos de cidadão do mundo (e não por conta de nenhuma meritocracia elitista) o meu filhão negão vai estar.

(Aliás, deixei o neo-nazista Jörg Heider como último da lista só pra lembrar que a Áustria é a terra onde nasceu o Adolf Hitler, o anti-cotista mais famoso da história (suas cotas eram as Cotas da Morte) que, como também indigitado Heider, deve estar se revirando no túmulo de saber que tem mais um negão (já há muitos africanos estudando lá, fiquem sabendo) lendo clássicos da literatura universal naquela biblioteca belíssima e gigantesca, como as dos filmes do Harry Potter (desculpe a referencia adolescente, mas foi a mais forte que me ocorreu)

(Se bem que, sofismáticos empedernidos como são, os impagáveis anti-cotistas do Brasil vão tentar descontruir toda esta minha alegria para esbravejarem pomposos – e engulindo em seco – que este meu exemplo é, isto sim, a prova mais cabal do mundo de que cotas raciais e ações afirmativas são ‘inócuas e desnecessárias’:

_ ‘Olha só o caso deste garoto do Spírito. Conseguiu ingressar numa das melhores unicersidades do mundo por seus próprios… méritos”

Mentira. Digo e afirmo na cara de vocês (deles, no caso, os racistas enrustidos que pululam por aí). O programa ao qual o meu filhão se habilitou, está inserido num conceito de intercâmbio entre universidades da União Européia com universidades do antigo Terceiro Mundo, que visa, entre outras coisas, democratizar o acesso à educação e ao conhecimento para jovens oriundos de países subdesenvolvidos ou – vá lá – em vias de desenvolvimento como o Brasil, contexto no qual países africanos (apinhados de negros) e latino americanos (apinhados de negros, de índios e disto e daquilo de quem dizem não serem ‘brancos o suficiente’ para merecer um lugar ao sol) são os maiores beneficiários (países de porte médio da região da União Européia como Portugal, Croácia, Polônia, etc. também entram nesta dança)

Um óbvio e claríssimo sistema de cotas, portanto. Uma prova – aí sim – cabal de nossa vergonhosa e anacrônica, atrasada e estúpida mania de ficar excluindo gente, omitindo gente, matando gente de forma egoísta, na base da ‘farinha pouca, meu pirão primeiro’.

Ah, ah, ah, anticotistas, racistas de plantão! A vocês só resta ficar arrotando por aí que se formaram pela PUC, que seus filhos vão estudar na PUC. Que a PUC, que a PUC, que a PUC… E daí? Coisa mixuruca. Quem liga mais para esta hegemonia onipotente, tão colonial?

Perderam! Perderam! Meu filhão negão escapou da sanha excludente de vocês que, agora e mais uma vez, não perdem por esperar. Outros muitos escaparão.

_”Achtung! Nicht verboten! Auf wiedersehen!

Spírito Santo
Abril 2010

Cinema em Branco & Preto -Take 01


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Imagem popular: Visibilidade zero

(Exterior/Noite)

Entre outras e mais dramáticas consequências, a pobreza continuada e generalizada, na qual se permite que viva grande parte de nossa população, criou para a mídia do Brasil uma espécie de perturbadora “impropriedade estética”, causada pela contradição evidente entre a imagem real de povo não-branco, que efetivamente somos, e aquela imagem virtual, manipulada por intermédio de diversos artifícios, que insistimos em propalar para mundo como sendo o nosso look ideal.

Por que nos espaços da mídia (vista aqui como o conjunto de mecanismos de difusão social e cultural independentes) o Brasil aparece sempre assim, mascarado, fantasiado de uma outra coisa que não é ele mesmo?

Acreditem, esta não é uma conversa de filigranas ou irrelevâncias. Visibilidade é um axioma midiático por excelência, já que, a rigor, se um fato ou problema está invisível é porque ele não está acontecendo ou simplesmente jamais existiu.

Envergonhada talvez de nossa imagem real, nossa mídia – expressão mais evidente da maneira peculiar que a gente tem de olhar a nossa própria cara em espelhos simbólicos – tem demonstrado persistente intenção de falsear, justamente, o signo essencial de nossa personalidade: nosso biotipo, a cor de nossa pele, os traços físicos mais marcantes, aquela face original que todo povo que se preza costuma assumir como orgulho nacional e patrimônio estético irretocável.

Racismo é pouco – e vago – para definir esta estranha disposição de nossos meios de difusão cultural para, sub-repticiamente, ir sabotando a nossa autoimagem. Que diabo de paranóia seria esta? Por que ficar durante séculos como uma espécie de “país michael jackson”, tentando esconder debaixo de um tapete pra lá de puído o perfil mulato inzoneiro da maioria de nossos charmosos habitantes? Seríamos uma sociedade acometida por uma espécie de vitiligo moral?

Você viu quantas vezes, nos livros escolares, a cara do João Cândido, o almirante negro da Revolta da Chibata, um herói brasileiro tão ou mais significativo do que aquele tristonho alferes Tiradentes? E a cara do negro Oswaldão, aquele líder militar da guerrilha do Araguaia (se é que você sabe o que foi isto), aquela revolta que deu errado mas que contribuiu para a escalação de alguns de seus sobreviventes (a maioria já caída em desgraças éticas, é verdade) para o primeiro escalão do atual governo do país?

Como se poderá forjar um verdadeiro orgulho nacional, amor à pátria, sem a ampla difusão da imagem destes heróis de nossa nacionalidade, tenham lá a cor que tiverem?

Não se pode negar que, no âmbito de nossa mídia ligeira, aquela voltada para o jornalismo superficial e comezinho do dia a dia, o merchandising rasteiro, o jingle espirituoso, o outdoor de subúrbio, alguns traços, ainda que tímidos, de nosso perfil étnico têm aparecido.

Neste jornalismo ligeiro predomina, infelizmente, uma defensiva e, apesar de justificável, raivosa depreciação do outro. A pauta, como sempre, tem sido aquele rol de personagens não-brancos, atores eternos e subalternos de nossas piores mazelas, da violência urbana, do crime “organizado”, do jovem traficante armado com um fuzil de guerra, bandido assassino, defendido pela jovem favelada de shortinho leg, com o bebê no colo, aquela que jogava pedras no poder público, como uma louca, até o grand finale: a hollywoodiana imagem da carcaça retorcida de um ônibus em chamas (antes de haver o poder SS das milícias, é claro).

Para distensionar os ânimos e os espíritos, no restante desta mídia ligeira, nos anúncios de magazines femininos, nos programas de fofocas televisivas, nos outdoors etc. é concedido mais espaço a aspectos, digamos assim, arejados e mundanos: belas mulatas – geralmente sós –, jovens negros musculosos – acompanhados por falsas louras desinibidas – mulatos, morenos, morenas (muitas morenas), diversas imagens “etnicamente corretas”, no fundo apenas apelativas, porque subliminarmente tendem a associar raça negra e mestiçagem a sexo aberrante, como anúncio de açougue light, animalizando o Outro, do mesmo modo como se fazia no tempo da escravidão. É coisa de gente normal, isso?

Câmera discreta

Estereotipando e generalizando na sua cobertura sobre o dia a dia do Brasil real, os aspectos mais exteriores de nossa dramática questão social – muitas vezes de maneira histérica e sensacionalista –, tornando desta forma totalmente invisíveis todos os outros aspectos positivos, o cotidiano e a cultura das pessoas não-brancas deste país, nossa mídia nada mais faz do que propaganda de guerra, incitando a opinião pública normal contra o outro, o anormal, mais ou menos como o fez a imprensa standard de Bush, justificando bombas e barbaridades na invasão e na ocupação do Iraque.

Seriam cidadãos americanos os nossos brancos normais? Seriam anormais fedayns iraquianos os nossos marginais não-brancos? Claro que não.

Como agravante, naqueles aspectos sociologicamente mais profundos que caracterizam a aceitação de nossa imagem nacional efetiva, não é difícil detectar-se a existência daqueles sutis artifícios usados para identificar e separar as coisas apropriadas para serem mostradas, daquelas que devem ser cuidadosamente maquiadas, editadas ou, simplesmente, escondidas dos olhos das pessoas “de bem”.

Um conjunto de elementos estéticos, que são fashion, style, low profile, positivos em suma ou que, simplesmente, funcionam, isolado de um outro conjunto de coisas que não devem ser mostradas, de jeito nenhum (a não ser em ocasiões socialmente corretas), porque são down, feias, incômodas e que, do ponto de vista comercial são, portanto negativas, não funcionam, sendo impróprias ao consumo – ou não recomendadas – aos olhos daqueles indivíduos considerados normais.

E quem seriam neste contexto tão patologicamente televisivo os normais do Brasil? São aqueles 30% que estão em pleno gozo de seus direitos de renda e cidadania, gente que, até prova em contrário, é predominantemente branca, beneficiária, como vimos, de um sistema de cotas firmemente assentado em mais de 500 anos de exclusão e invisibilização do Outro.

A questão básica portanto passa a ser: por que, no contexto desta separação entre aqueles que têm daqueles que não têm – uma separação que, apesar de odiosa, poderia ter como atenuante o fato de ser naturalmente apenas social – o componente étnico, racial é tão determinante? Será inteligente (para não dizer justo ou correto) insistir numa imagem nacional tão despudoradamente falsa como esta que nossa mídia difunde, uma imagem calcada no perfil étnico dos brancos, tornando virtualmente invisível todos os, digamos, 70% restantes de não-brancos?

Afinal, serve para que a imagem daquele olhar constrangido do crioulinho magrelo, que tenta fazer malabarismo no sinal fechado? O que podemos fazer com esta imagem tão perturbadora senão deletá-la de nosso HD emocional, assim que o sinal se abrir? Não seria porque ela, do jeito como a tratamos, não serve para vender nada, senão a nossa brasileiríssima iniquidade?

Deve ser por isso que, do ponto de vista estritamente imagético, daqueles registros sobre nós mesmos que legaremos à posteridade, a maioria esmagadora dos elementos culturais, por exemplo o teatro, a literatura, as telenovelas etc., continuam a ser, ad infinitum, simbolizados na maior parte das vezes, por personagens e atores do perfil étnico hegemônico.

Na literatura, entre a mais recente exceção à regra – Paulo Lins – e a última já se vão mais de um século. Antes de Cidade de Deus, a última foi aquela que narrava a pungente dicotomia entre a luz e a escuridão, representada pelo simbólico conflito ideológico latente, na obra de dois de nossos maiores escritores, ambos negros: Machado de Assis, aquele que ascendeu na sociedade branca tornando literariamente invisível, de forma brilhante, sua própria negritude, e Lima Barreto, aquele que, ao contrário, morreu louco tentando iluminar, de forma não menos brilhante, a sua (e a nossa) própria condição racial e suburbana, em emocionados romances.

E é nesta angustiante dicotomia, entre a luz e a sombra, que vai vivendo a nossa vacilante, vadia e, por isto mesmo, tão cinematográfica alma brasileira.

(Uma confortável cadeira será necessária para assistir um pouco mais deste drama nos takes 02 e 03 desta história meio ‘film noir’. Desliguem os celulares, por favor)

Leia neste link o post 02 desta série:

Spírito Santo
Dez 2008

(Parcialmente publicado em O Observatório da Imprensa em 14/05/2003 e, posteriormente em www. overmundo.com.br)

O Paradigma do Macaco


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Afinal, quem são os primitivos estúpidos nesta história?

“…O filme traça a trajetória do homem desde, aproximadamente, quatro milhões de anos antes de Cristo, até o ano de 2001, sempre abordando a evolução da espécie, a influência da tecnologia nesse crescimento e os perigos da inteligência artificial.

O final, um dos mais emblemáticos da história do cinema, mostra astronautas travando uma luta mortal contra o computador – a versão moderna do confronto entre criador e criatura, que já inspirara clássicos como Frankenstein.

Um monólito cai na Terra ainda na época da pré-história e, muitos anos depois, em 1999, é descoberto um segundo monólito na Lua.

Aparentemente, são alienígenas que observam os terrestres, então uma missão internacional é enviada a Júpiter com a missão de descobrir o que eles realmente querem”.

O filme, todo mundo sabe é ‘2001, uma odisséia no espaço’ de Stanley Kubrik, baseado na obra genial de Arthr C. Clarke. Nele, no momento da pré-história quando o primeiro monólito negro cai, um orangotango também negro lança um osso para o espaço.

O osso-ferramenta, girando no vazio, se transforma numa nave espacial. O osso transmutando-se em nave, pela força mágica de um inexorável e enigmático paradigma (o monólito) navega solitário entre galáxias.

Osso e nave, macaco e homem, símbolos da relatividade da inteligência humana, inscrita no tempo e no espaço. E nós todos ali, juntos naquela nave útero-de-mãe-solteira, irmanados, aprisionados em nossa odisséia de reles macacos sobreviventes, perdidos no espaço.

Algum conflito? Alguma ameaça? Sim, claro. Sem isto qual seria a graça da história. É por isto mesmo que o filme nos apresenta também o aterrorizante Hal 9000, o computador pirado, criado pela mesma humana estupidez de sempre.

Hal, arrogante e prepotente, pensa que nós todos, os astronautas é que somos estúpidos e ignorantes incorrigíveis, como… macacos.

Hal coloca tudo a perder neste seu delírio, nos levando à morte, à extinção (Ufa! apenas simbólica no filme, pois a terra ainda existe e está lá, bem distante de nosso drama). Pouco importa. O certo é que o filme é mesmo emblemático. Nos dias de hoje mais ainda.

Estupidez humana. Hajam monólitos e paradigmas para quebrá-la.

Macaco é a mãe!
Cena 01

A piada mais sem graça que ouvi na vida, quando ainda era bem criança – não entendi bem porque na época – era aquela que desqualificava, grosseiramente, a notória qualidade da oratória de José do Patrocínio, o nosso grande jornalista e abolicionista.

Na piada, Patrocínio discursava empolgado quando lá no fundo da platéia alguém gritava algo como:

– “Cala a boca preto!”

Ao que Patrocínio, impassível, mesmo diante das gargalhadas nervosas da platéia de políticos, brancos em sua maioria, emendava:

– “… Preto como o feijão, que abastece as nossas mesas saciando a nossa fome!”

Mas a voz ao fundo insistia:

– “Cala a boca crioulo!”

E Patrocínio respondia de pronto, sem pestanejar:

_ “Crioulo sim, como o jacarandá, madeira nobre com a qual construímos os móveis que embelezam os nossos salões!”

Era quando então, acossada pela dificuldade de desmontar a firme convicção do orador a voz apelava:

_” Cala a boca, macaco!”

Patrocínio, ainda no mesmo tom, respondia:

_”Macaco como… macaco como…(mas, logo a seguir,estressado, perdia a linha,)…Macaco é a puta que te pariu!”

Aí, sim, o clímax, a catarse. Patrocínio desqualificado, caído de sua pose e rebaixado à condição de reles crioulo normal.

As pessoas da audiência que ouvia a piada, indiferentes ao desconforto que eu denotava com o meu risinho amarelo e constrangido, desatavam a rir gargalhadas irrefreáveis, estúpidas para mim, porém, tão normais para elas, que só me restava ficar ali, alheio, quase invisível, pensando de onde tiravam graça daquela comparação de um homem negro com um macaco.

Porque faziam aquilo, pensava eu, na época ainda bem criança? O que haveria de errado, de tão estigmatizante com os crioulos e os macacos para incomodar tanto aquela gente? Não seriam também elas, estas pessoas, descendentes dos mesmos macacos?

———–

Lembrei desta piada vivamente outro dia mesmo quando a também, majoritariamente, branca (pelo menos em padrões brasileiros) platéia de Interlagos, São Paulo, na decisão da corrida de fórmula 1 de 2008, inconformada com perda do campeonato pelo brasileiro Felipe Massa, xingou o inglês Lewis Hamilton, o virtual campeão, primeiro negro a conquistar o título:

_”Crioulo, Macaco! Devia estar correndo era da polícia!”

Soube que não houve a entrega do prêmio de campeão da temporada naquele dia. O pai de Hamilton, por conta de outras agressões racistas ocorridas no decorrer da temporada, chegou mesmo a pensar em sugerir ao filho abandonar o esporte. Disse, com outras palavras, é claro, que achava aquele ambiente sórdido demais para a sua família.

Na verdade, a expressão ‘macaco’ me evocou lembranças bem mais particulares e doídas, me fazendo reconhecer agora mesmo – e vocês, os que nunca passaram por tão vexatório desconforto, haverão de me perdoar – que preciso expurgar de mim estes sujos traumas a que fui exposto, única e exclusivamente, pelo fato de ter nascido negro num país racista.

Desabafo pessoal? Não, não, de modo algum. Este é um legítimo protesto coletivo. Milhões de brasileiros tiveram como eu, a memória destas ofensas avivadas neste momento diante da TV e, mais uma vez se indignaram com elas e vão, com certeza, buscar, cada dia mais ardentemente, um jeito de desagravá-las.

Queremos desmontar o Hal 9000 que habita – e comanda – esta nave espacial chamada Brasil, antes que esta piração sem graça e sem sentido do racismo que nos atordoa e cega, nos leve a todos para o buraco.

Macacos do mundo, uni-vos!

Macaco é a mãe!
Cena 02

18 anos, por aí. Bairro suburbano. Pelas ruas, casas e apartamentos, pobres e remediados, funcionários públicos, operários, gente humilde enfim. Nós, adolescentes heróicos, hormônios à flor da pele, debandávamos de casa aos sábados, ultra perfumados à ‘Patchuli‘ ou ‘Lancaster’, rumo à praça central do bairro com a adrenalina à mil.

Eram poucos, pouquíssimos os brancos no bairro, me recordo agora. Esta história de diferenças raciais, de modo algum, passavam pelas nossas cabeças de negros naquela época. Nem parávamos para pensar o que queria dizer ser isto ou aquilo, em termos raciais.

Anti-racialistas ingênuos, éramos a esmagadora maioria no bairro, mas, isto nos parecia uma condição, perfeitamente, natural. A vida seria assim e pronto.

Vivíamos – só fui intuir muito tempo depois – num gueto isolado, excluídos pelos mesmos parâmetros que justificam hoje o confinamento de pessoas em favelas e ‘comunidades’ carentes, mas, para nós, o mundo inteiro era assim, pobre como nós.

Ignorávamos, completamente, esta sociologia torta e perversa, visivelmente, predominante hoje, sem serventia alguma para nossas vidinhas de rapazes e moças felizes naquela remota virada da década de 1960. Misturávamos cachaça com coca-cola (dava ‘Samba’) na dureza e rum com coca-cola (dava ‘Cuba-Libre’) . Tanto fazia. O objetivo, era mesmo ficar doidão.

Por isto, por esta santa ignorância (ou inconsciência, sei lá) do que vinha a ser racismo, convivíamos, tranquilamente com os gatos pingados brancos de nossa vizinhança. Eu mesmo tinha um grande amigo que era, desbragadamente, branco, louro até.

A pracinha do bairro era um circo curioso (havia nela, inclusive, um parquinho de diversões). Pensando naquela pracinha hoje, o que me ocorre é um barulhento ritual num pátio de acasalamento.

Em pares, às vezes em grupos eufóricos de, no máximo, quatro jovens, ficávamos rodando pela praça, dando voltas renitentes, como num rally à pé. Rapazes, mãos nos bolsos, tensas, num sentido, moças de braços dados, não menos tensos, no sentido inverso.

Ao se cruzarem, os pares – ou grupos – faziam gestos dissimulados, lançavam olhares e palavras cifradas, com significados que ensejavam, ou não uma paradinha, palmilhada de risinhos histéricos das moças e pigarros nervosos dos rapazes. Ali, um casal se formava e começava um namoro. Ou não. Uma promessa ao menos, um talvez-quem sabe-um-certo-dia.

Era este o nosso rito de passagem de jovens magrelos, frio na espinha (e espinhas na cara), ansiosos por conhecer o sexo oposto e, quiçá, o maior amor de nossas vidas.

Me lembro, vivamente, da noite em que eu e meu amigo branco, circulando na praça nos fixamos numa dupla de moçoilas. Eram brancas, mas, e daí? Estávamos atraídos pelo risinho disfarçado de uma delas, não conseguimos decifrar se era para ele ou para mim.

–“ Sorriu pra ele, claro” – Pensei inseguro.

Mas eram duas, custava nada tentar. “_Quem não arrisca não petisca” -, pensei, me reanimando.

Não sei ao certo o que eu disse para ela, qual foi o gracejo, deve ter sido algo bem imbecil, imagino. Os gracejos juvenis são sempre chavões idiotas, que a gente decora para quebrar o gelo, domar o pânico, estas coisas. Não foi dita nenhuma grossura, claro. Gracejos juvenis também são sempre marcados por alguma poética ingênua, babaca mesmo, de um romantismo jocoso, o gracejador querendo parecer gentil, espirituoso e, na ânsia de agradar, chegando até a gaguejar às vezes .

Foi por isto que aquela frase dela me atingiu como um soco no estômago:

_” Não se enxerga não, seu macaco!”

Nunca me recuperei daquela ofensa estúpida e gratuita. Jamais entendi direito o que poderia justificar aquilo. Lembrando o incidente, marcado para sempre pelo impacto dele no meu íntimo, percebo que tivesse havido no tom da voz dela, naquele rompante de ódio desmedido, uma reação inconsciente diante do fato de ter recebido um gracejo de mim, o negro, e não do branco.

Talvez fosse este acaso o que a tivesse feito se sentir tão diminuída, rejeitada, desprezada como uma cadela sem cio. Ela se sentira vulgarizada pelo meu gracejo o qual – que ironia -, com toda certeza devia ser algum galanteio, um elogio.

Talvez nem branca ela fosse – pensei depois, ressentido- , apenas parecesse e tivesse uma necessidade neurótica de esconder isto das amigas brancas. Um pai mulato, uma mãe parda? Seria isto? O fato é que não entendi – como não entendo até hoje – o sentido daquilo. Pura neurose, concluí.

Fácil refletir agora, mas, como saber ali, no calor da hora, o que se passava na cabeça de uma pessoa assim. Quem ensina estas coisas às mocinhas brancas? Quem alimenta esta bílis, este veneno na cabeça delas? De onde vêm estas práticas, cinicamente, guardadas em gavetas forradas com papel rosado, que explodem assim, rancorosas, na cara de sujeitos ingênuos como o tolo rapazola que eu era?

Um trauma juvenil foi o que ficou, podem interpretar assim. O que sei é que aprendi que existia racismo ali, naquele momento, a cabeça girando, sentindo uma espécie de náusea inexplicável, querendo afundar no chão da praça e sumir.

(E pensar que existem milhões de rapazes e senhores negros, agora mesmo, remoendo esta mágoa como eu…)

O amigo branco também nem no assunto tocou. Fingiu que não ouviu. Não demonstrou nenhuma solidariedade, nem mesmo fingida. Orgulhoso, me recompus e, disfarçadamente, me juntei a um grupo de rapazes iguais á mim, que estavam no parquinho de diversões ao lado, mandando pelo serviço de auto-falantes mensagens românticas anônimas, para moças também como eles, naquela acomodação social que talvez sempre existisse, sem que eu, tivesse tido ainda a chance de perceber… Até aquela hora.

Aquele “não se enxerga, não?” ressoando na minha cabeça como se tivesse sido gritado pelo auto-falante, era uma mensagem bem clara: Um negro – ou um macaco – devia sempre saber onde era o seu lugar.

O Macaco é a mãe!
Cena 03

Poderia ter sido comigo, mas, é fato também que, como muitos outros, um conhecido meu, do mesmo bairro e na mesma época, passou pelo mesmo revés quando adolescente. Turrão como um cão sem dono, não se emendou, não engoliu a ofensa, não recuou. Decidiu, ali, naquela hora que daria o troco um dia.

Anos depois, surgiu a oportunidade e ele encarou a barra de assumir um casamento inter-racial, por pura rebeldia, concluindo depois (claro, de tão estúpida que era a idéia, ele só se deu conta do erro terrível que cometera anos após).

Você já viu algum estudo sério sobre casamentos inter-raciais no Brasil? As próprias pessoas envolvidas não falam, trancam suas intimidades a sete chaves. Quantos casais inter-raciais você conhece? Aposto que dá para contar nos dedos de uma das mãos.

Você não acha estranho que um país onde, por baixo, metade da população é negra (sem contar os genéricos ‘não-brancos’, índios, nordestinos, etc.), o índice de casamentos inter-raciais seja tão irrisório? Pois bem, este meu amigo teve, amargamente, o dissabor de saber tim tim por tim tim, por que as coisas aqui são assim. Querem saber também? Olha o que ele me contou:

“A pressão da família contra o namoro era enorme. Desprezo absoluto e explícito, nenhuma autorização para as saídas mais prosaicas, nem mesmo um cineminha. Uma situação que, infelizmente, só atiçava os meus brios libertários, envolvido que estava, romanticamente, naquele clima contra cultural dos anos 70…

“Eu vou. Porque não? Porque não? Porque não?”

Confuso naquele afã de ser o rebelde, uma espécie de ‘Che Guevara’ de um politizado e idealizado amor, aquele que desafiaria o sistema de castas raciais que predominava, mesmo naquele remoto bairro suburbano, ele não se tocou, nem mesmo quando sentiu o ar atemorizado da família e dos amigos que avisavam, insistentemente:

_”Olha, rapaz…. você está brincando com fogo”.

Mas, não adiantava avisar. Casaram-se. A princípio, integrando-se no mundo branco dela (à margem da família), começou a perceber que a ele estava reservado o papel incômodo de um personagem conhecido como o ‘negro da patota’, aquele de quem se espera que divirta, distraia a galera com alguma habilidade especial.

_”Ah, que legal! Ele conta piadas! Ele toca violão! Ele samba tão bem!”

(A regra é clara: Um negro no Brasil não freqüenta um ambiente, majoritariamente, branco se não tiver alguma habilidade especial que o destaque. É preciso mostrar a que veio. Já pararam  para observar esta máxima?)

Nunca ser ele mesmo, nunca ser a persona, o indivíduo negão. Sempre o personagem.

Isto sem contar os sapos que ele, o meu amigo, engolia, relevando os olhares preconceituosos das pessoas, as piadinhas pouco de salão e as insinuações salpicadas de maldades ferinas, nos ambientes mais corriqueiros, bares, cinema, etc. Pareciam sempre estar pensando:

_” Que diabo faz aquela branca tão fina casada com aquele crioulo doidão?”

No ambiente inverso, contudo, era ela que não se adaptava, oscilando sempre entre a timidez constrangida e a vontade irresistível de assumir logo o papel de outro personagem, este abominável, inaceitável para as pessoas dali: A sinházinha branca ‘superior’, aquela que estava ali por pura concessão de sua parte, simplesmente, por ser uma branca ‘compreensiva’, ‘gente boa’.

Personagens cínicos, canastronas representações e estereótipos banais, é disto que se nutrem as nossas tensas relações raciais.

O certo é que o pessoal, levando na brincadeira para não ofender o amigo, ironizava a ‘atuação’ dela apelidando-a (não sem algumas pitadas de sarcasmo) de ‘Princesa Isabel, a venturosa’, ‘Viridiana de Bangu’ (lembram do filme do Luis Buñuel?), e outros meigos vulgos e codinomes.

Mas eram os anos 70, ora. O mundo acordara há pouco de um longo torpor político. Panteras negras, Vietnam… Claro que a relação do meu nobre amigo com a branca azedaria e, não demorou muito mesmo a degringolar.

Mundos estanques, inconciliáveis, ele acabou decidindo divorciar-se dela. No ato letigioso da discussão dos termos gerais para a dissolução do casamento, ainda no corredor do fórum ele ouviu dela o vaticínio de que ele seria, ao final das contas, o único e irremediável perdedor.

_”Porque?”_ perguntou, com o restinho de ousadia que lhe restara.

_”Porque você é preto e eu sou branca”

Disse isto com aquele desdém típico das mulheres despeitadas, o veneno escorrendo no canto da boca (ex-esposa, nestes casos, é a pior inimiga, a mais implacável que um ser humano pode ter na vida, diz este meu amigo até hoje e, penso eu, coberto de razão).

Não deu outra. Tiveram vários conflitos ainda, relacionados a graves pendências conjugais. Numa delas, chegou a perder a cabeça e esbofeteá-la em público. Para os amigos que presenciaram a cena, achando que ele errara feio desta vez, ele justificou:

_”Não deu pra segurar não, gente. O sangue me subiu à cabeça quando ela me chamou de… macaco!”

O macaco está certo.
Todos os macacos em um

Você viu: O negro Barack Hussein Obama ganhou as eleições norte americanas. O mundo inteiro festejou eufórico. Fala-se numa mudança de paradigma. Achei as comemorações por aqui, não sei bem porque, bem modestas, contidas, chôchas até.

Das dezenas de amigos brancos que tenho hoje (do mesmo modo que o meu amigo louro do remoto subúrbio) pouquíssimos tocaram no assunto comigo. Fiquei decepcionadíssimo, mesmo sem entender. Uma amiga de ‘esquerda’, retirada por mim de seu mutismo absoluto sobre Obama, com uma pergunta direta, respondendo quase à força, complementou sorrindo amarelo:

“_ É, mas, ele não é negro!”

Incomodado com este estranho e lacônico comentário (olha que já se vão mais de quarenta anos daquele emblemático incidente na pracinha suburbana) naveguei por links e links na internet buscando a compreensão, sempre tão fugidia, deste assunto, de novo tão atual.

Lá, no resto do mundo, a festa. Aqui o quase silêncio, a comoção travada, o comedimento ‘anti-racialista’.

Lá descobri que pouca coisa mudou. Mas, vai mudar. Os ares são, fortemente, de mudança. O que não mudou lá é o ódio travado de alguns. O serviço secreto da casa Branca está preocupado com as muitas questões de segurança que a proteção à vida de Barack Obama demandará.

Só pelo fato de ser negro ele é um alvo potencial de racistas do mundo inteiro. Querem matá-lo pela ousadia de ter sido o primeiro negro eleito na América racista.

_”Matem o macaco!” -Devem estar sussurrando por ai.

Abismado achei estas citações atribuídas ao chefe da Ku klux Kan extraídas do site que a organização nazista, dita ‘supremacista’ mantém na rede:

“Thomas Robb, considerado por ele mesmo como o “Grande Cavaleiro da Ku Klux Klan”, quis opinar momentos após o triunfo do democrata Barack Obama e disse, entre outras insólitas declarações, que “se converteu no primeiro presidente mulato dos EUA”, já que é “metade negro” e não “negro”.

“Para justificar a escolha de Obama, Thomas publicou uma nota em um portal da Ku Klux Klan onde dizia que:

– “Ele não é negro porque foi criado (domesticado) por sua mãe branca”.

Além disso previu uma guerra racial entre negros e brancos e disse que os afro-americanos são “aliens” que querem destruir a cultura cristã”.

————–

_” Obama não é negro!?”- Incrível! É a mesma frase daquela minha amiga ‘de esquerda’.

Sendo assim, pensei, aqui no Brasil já devem estar chamando (entre quatro paredes, é claro) o mais importante líder político do mundo de… Macaco.

Mas não tem jeito. Morto ou vivo Obama, o mito da supremacia branca está, irremediavelmente, quebrado. Ninguém mais xingará abertamente o meu amigo (nem a mim) porque agora, um ‘macaco’, exatamente como nós, comanda o mundo.

Sim. Nós também podemos.

Estamos diante de um paradigma digno de Arthur C.Clarke e Stanley Kubrik. A Odisséia no espaço recomeçou em outra órbita:

É o Paradigma do Macaco.

Spírito Santo

Nov 2008

Um, Dois, Feijão com Arroz


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Hibridismo Cultural e Mestiçagem

“_O conceito de Hibridismo Cultural converge com a idéia de Mestiçagem que você combate?”…

“_Não. O conceito Hibridismo Cultural não converge, de modo algum, com a idéia de Mestiçagem que eu combato, além do que…”

(Eu, respondendo à alguém que, num dia destes, escreveu a pergunta na borda de uma página do jornal O’ Globo, acerca de duas matérias sobre a questão racial no Brasil)

A resposta – de longa e cabeluda – virou este post.

Culturas híbridas por natureza
Por falar em Diversidade…

Para começar, Hibridismo cultural poderia ser visto como um conceito apenas proposto, descoberto, porque tudo indica que sempre foi uma lei da natureza, tendo a ver, diretamente e no geral com Diversidade.

(Uma idéia puxa outra que puxa a outra que puxa outra… e por aí vai).

O brilhante antropólogo Néstor Garcia Canclini estaria citado aqui sim, com todos louros àquele que, a partir das pistas salpicadas aqui e ali por seus antecessores, capturou com clareza o sentido de um fenômeno social bastante complexo, sistematizando-o no âmbito de sua inovadora antropologia, sempre na intenção de explicar de modo mais aberto e franco possível, o sentido fugidio da natureza humana neste nosso confuso e admirável Mundo Novo.

É por conta desta lenta, porém, segura evolução do pensamento do homem sobre si mesmo expresso na obra de Canclini, entre outros, que hoje já podemos, pelo menos sugerir que a Cultura humana deve – e a Educação também deveria – significar diferentes maneiras de se abordar ou compreender uma mesma coisa, ou vários modos de se realizar uma mesma tarefa, diversos caminhos para se chegar a um mesmo lugar (que, afinal, é quase sempre uma encruzilhada), ou em algum daqueles muitos caminhos que levam à Roma (mesmo para quem não está nem aí para ver o Papa), nesta nossa eterna busca por um destino mais feliz.

–“O Caos e Acaso são a mola e o dínamo do universo!” – Diria aquele sujeito velho e barbudo que assistiu, de camarote ao Big Bang.

O Hibridismo cultural parece ser mesmo uma atitude humana atávica sim porque, pelo que nos poderiam dizer neurocientistas como o Oliver Sachs , ou linguistas como Noam Chomsky, por exemplo, está relacionado à plasticidade maravilhosa do cérebro humano, nossos sentidos, transformando informações apreendidas aqui e ali, num turbilhão de emoções que, por sua vez, se transformando nos mais variados tipos de sinapses e memórias, multiplicadas aos milhões, se transfiguram em nexos, linguagens e conceitos, dos mais concretos aos mais abstratos ou absurdos.

E assim como são as pessoas, seriam as comunidades, as sociedades.

O conceito pode ser considerado, intrinsecamente, humano também porque Cultura sempre pressupõe feedback, transmissor+receptor interagindo, alternando-se, confundindo-se por vias expressas e inversas (porém, nunca estanques).

Mão e contra mão. O Meio virando a Mensagem (e vice versa). Sinergia, movimento, vida.

Gosto muito, nestes momentos, de citar a Música, uma linguagem onde conceitos como Primitivismo e Modernidade carecem, absolutamente de sentido porque a Música (o Som) é um fenômeno que se dá, concomitantemente ao longo do Tempo e do Espaço, área difusa onde o que é passado pode ser também, do mesmo modo, presente ou, até mesmo, futuro.

O fenômeno do hibridismo cultural é pois assim, como a Lei da Relatividade (que já existia antes de Einstein a descobrir). Atemporal e imponderável. Arte e Ciência. Mágica e lógica, ao mesmo tempo.

Seria inconcebível um mundo feito de energia funcionar de outra forma. Uma coisa sempre conteve um pouco da outra. Sim, tudo na natureza – e na cultura dos homens, por extensão – é como carne e unha.

No Socialismo, no Capitalismo, na pré ou na pós-modernidade sempre foi – e, ao que parece, sempre será – mais ou menos, assim (e que novas tecnologias de inteligência artificial não nos contradigam um dia)

_…” As coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender.”_ Já dizia Paulinho da Viola, naquele samba clássico.

Toda mentira tem perna curta
Mas, nem sempre têm um fundo de verdade

Miscigenação não. Aí já se está falando de um conceito artificial, inventado (ou imposto), um conceito desumano (no sentido espúrio da palavra) porque fere, deliberadamente, os princípios mais elementares de nossa natureza.

Transitando por este mesmo assunto, tentei dizer isto naquela outra matéria chamada ‘Salada Mista’ .

É que a velha fonte destas ‘modernas’ teses sobre miscigenação no Brasil, parece mesmo ser a teoria, genericamente, conhecida como Elogio à mestiçagem que propõe, no fundo – nem tão no fundo assim – a diluição das raças, supondo, diabolicamente, que possa haver algum tipo de ganho ou ‘evolução biológica’ (e, conseqüentemente, social, cultural, enfim), a partir de uma ‘mistura’, uma ‘química’, na qual dois elementos, se fundindo, acabariam por se anular, mutuamente, gerando um terceiro elemento ‘melhorado’ e, portanto, geneticamente ‘superior‘ aos dois outros que o geraram.

(Cavernosa teoria. Que tipo de pessoa seria capaz de ficar arquitetando e mastigando idéias assim tão ácidas e venenosas? Com que interesses ou intenções?)

Observem, atentamente, que o ser resultante desta ‘química’, no caso, o Mestiço (aquele que não é nem uma coisa nem outra) ou o Mulato (literalmente o cruzamento entre uma mula e um cavalo), anunciado como sendo superior, geneticamente, aos elementos que o geraram, é sem dúvida, uma entidade, eminentemente racial.

(Homoracial, poderíamos dizer, já que é o inverso da diversidade genética antes existente).

Uma quimera , um frankeinstein social, para usar uma imagem mais enfática.

Ora, vista sob este prisma, a teoria da Mestiçagem é ou não é, tecnicamente, uma tese racista?

A partir da criação artificial de um biotipo ‘menos negro’ (a abolição física do negro, portanto), sub-repticiamente, de mistura em mistura sobreviveria apenas uma raça. Qual? Bingo! A Branca.

Este aspecto sutil, esta subliminaridade contida nesta proposta de mestiçagem, pode denotar a intenção velada, de se destruir apenas um dos elementos da equação, anulando a alegada diferença entre as duas supostas raças.

Ontem o pretexto era acabar com a nossa inferioridade biotípica nacional. Fracassado o projeto de extinção das diferenças raciais no Brasil (previsto no século 19 para durar 100 anos), hoje, a causa é desqualificar a pertinência da adoção de ações reparadoras dos males e seqüelas sociais resultantes da escravidão e do racismo perpetuado (cuja manutenção foi, aliás, ironicamente justificada por estas mesmas teorias).

Como Meio, a deposição da diversidade, a evolução fraudada. Como Fim, a perpetuação de privilégios coloniais.

Por isto, é bom se ressaltar também que, no campo de debate, digamos assim, mais acadêmico, a confusão estabelecida entre Hibridismo Cultural e Mestiçagem é, pelo menos para mim, completamente artificial e propositalmente criada para confundir mesmo (no que aliás, tem sido bem eficiente, pelo menos com os mais crédulos).

_”‘Uma insanidade digna de tarados”_ Diria alguém mais desprovido de fino trato.

O Sofisma de Galton
O primo rico e o primo pobre

Pois saibam os que ainda não sabiam – e fiquem de cabelo em pé sem medo de vexame –  que Charles Darwin , gênio da Teoria da Origem e da Evolução das Espécies, apóstolo da Diversidade, tinha um primo (dizem que também cunhado) que era grande admirador da extraordinária obra do parente. Ele (pobre apenas de genialidade já que, na verdade, era tão rico quanto Darwin) se chamava Francis Galton e foi quem criou a teoria da Eugenia ou do ‘depuramento genético’, que aparece como marca indelével na alma destas teorias de miscigenação aqui aludidas.

(Idéia pela qual, como já disse em outra oportunidade, além de figuraças como Chamberlain , Gobineau e Lombroso, militaram também, entre outros brasileiros adeptos de primeira hora, Nina Rodrigues e Gilberto Freire).

Segundo esta estapafúrdia teoria (grosseiramente baseada no trabalho de Darwin, mas, muito calcada nas teses de Gregor Mendel) se poderia ir identificando supostos defeitos genéticos em certos tipos humanos ‘degenerados’ e, gradativamente, ir se criando restrições à procriação destes indivíduos, portadores destes eventuais ‘defeitos de fábrica’, criando obstáculos legais para o casamento entre eles, esterilizando-os, ou mesmo assassinado-os em genocídios programados como mais tarde fizeram os nazistas, a partir destas mesmas idéias….‘científicas’ (e os admiradores de Galton, curiosamente afirmam que ele não teve nada a ver com isto).

(Pesquisando, agora mesmo, algumas imagens sobre o tema, tive que parar a busca por causa da náusea e dos engulhos provocados pela visão de tantas aberrações perpetradas em nome destas teorias)

Desta forma, segundo o outrora respeitadíssimo Galton, se iria depurando a espécie humana (vejam bem, só por aí, a que tipo de armadilha social pôde nos levar a ‘admiração‘ de Galton pela obra do primo).

Darwin, como sabemos, propôs em 1859 – e provou – que a natureza, através de um processo muitíssimo lento e meticuloso, ao longo de milhares, milhões de anos às vezes, iria selecionando o melhor de cada uma das espécies existentes na natureza. Era a evolução flagrada, testemunhada, a partir de uma lógica de um sistema planetário, ecológico, inquestionável.

Galton (não se sabe se por admiração ou para suplantar o primo-cunhado), se propôs a fazer a partir de 1865, exatamente, a mesma coisa, só que, apenas com…gente, e bem rapidinho, substituindo a lógica da natureza pela discricionária vontade de um grupo qualquer (uma elite de cientistas, talvez) que tivesse poder sobre os demais. Uns decidindo quais características biológicas, genéticas (e, portanto‘ raciais’) mereceriam se tornar hegemônicas na humanidade.

Sacaram aí onde se poderia encaixar, facilmente, a teoria da mestiçagem?

(Curiosamente este processo – conhecido, a grosso modo, como Engenharia Genética – é muito utilizado hoje em dia na produção de alimentos na indústria e na agricultura, como no caso dos transgênicos).

O mais surpreendente é que Galton não tenha se dado conta da estupidez flagrante desta sua tal de Eugenia, mesmo depois de ter descoberto – sim, ele mesmo! – a papiloscopia, eficiente e, até hoje, insuperável recurso utilizado na identificação de criminosos, ou mesmo indivíduos em geral, baseado na análise de vestígios conhecidos como impressões digitais, prova cabal de que nós, seres humanos, apesar de semelhantes, somos seres individualizados, realmente únicos, inigualáveis, o que cria obstáculos insuperáveis para que se possa controlar, cientificamente, o resultado de uma mistura de gente assim com gente assado.

A teoria do Galton, logo se viu (pelo menos para nós humanos), era lixo puro. Deveria ter desaparecido com Joseph Mengele, mas, como se vê, ela sempre ressurge como uma hidra reciclada, a nos assombrar com a suas mil cabeças e sentidos maquiavélicos.

Hoje em dia, no calor de discussões sobre a necessidade de se reparar ou não (e de que forma) danos e injustiças evidentes de um sistema social iníquo que, surgido sob as bases do sórdido escravismo colonial, por intermédio da subalternização de pessoas, a partir de então identificadas – e hierarquizadas – pelos traços físicos e evidências de sua maior ou menor ancestralidade africana ou indígena (ou não branca, em suma) como vetustos fantasmas eruditos, as bases mais evidentes daquelas teorias parece que estão sendo ressuscitadas por aí.

Alguns subestimam as evidências, julgando-as mera ‘teoria da conspiração’, mas há que se refletir bastante, acerca das reais intenções de reações e oposições que, se apoiando, de forma muitas vezes capciosa, em sofismas evidentes (além de certas distorções semânticas), podem ser classificadas como causa militante de um articulado grupo que chamo, simplesmente de  Anti-abolicionistas tardios.

Então, recapitulando só para clarear:

1- O conceito Miscigenação ou Mestiçagem (no sentido estrito com que a palavra é utilizada nesta discussão) parece ter relação direta com as teorias racistas que distorceram – com o intuito talvez de embasar, teoricamente, o neo-colonialismo – o conceito Diversidade, inaugurado por Charles Darwin, fundado, como se sabe, no princípio da Evolução Natural das Espécies, modernamente inserido nas discussões sobre a degradação ambiental do planeta, sob o nome de Bio-Diversidade.

2-‘Elogio à mestiçagem’, ‘Evolução artificial’ ou ‘Eugenia positiva’, se parecem com formas, espertamente, abrandadas de se definir aquelas mesmas ideologias racistas, que julgamos, até prova em contrário, varridas da história da humanidade, por culpa de suas perniciosas e notórias consequências, devidamente atestadas no passado.

3- O conceito Hibridismo, entendido aqui como um processo cultural contemporâneo, ligado ou não à modernidade de nossa civilização ora globalizada, não contradiz o princípio Diversidade porque Híbrido em nenhum aspecto NÃO quer dizer, de modo algum, diluído, misturado.

“Híbrido designa um cruzamento genético entre duas espécies vegetais ou animais distintas, que geralmente não podem ter descendência devido aos seus genes incompatíveis. Este fenômeno foi estudado pela primeira vez em plantas por Kölreuter durante o século XVIII, embora existam citações mais antigas sobre esse assunto, tanto em plantas como em animais.

Algumas dessas novas espécies ainda são produzidas até hoje através do cruzamento entre espécies, essencialmente para serem usadas como atrações de shows e locais turísticos. Atualmente, os cientistas estão tentando recriar o mamute, animal pré-histórico, através de inseminação artificial de sêmen destes animais (que foram encontrados congelados em algumas partes do planeta) em fêmeas de elefante, que são seus parentes modernos. Se conseguirem, este animal será um híbrido de elefante com mamute, e provavelmente também será estéril.”

(Confira em wikipédia)

As aparências…

(Fico surpreso mesmo é que exista tão pouca gente debatendo, contrapondo, publicamente, as afirmações equivocadas e perniciosas desta gente aqui no Brasil, principalmente em órgãos da imprensa como o jornal O’ Globo).

———–

O mesmo Charles Darwin, coerentemente, quando esteve no Brasil em 1832, manifestou a sua firme decepção diante da nossa aguda crueldade social (indignado com a escravidão).

Incrível que já se tenham passado bem mais de cento e cinqüenta anos sem que, quase nenhuma alteração em nossas relações sócio-raciais possa ser, claramente, vislumbrada no horizonte.

Nenhum pequeno navio chamado ‘Beagle’ ancorado ao largo. Nenhuma espécie de real evolução à vista.

Spírito Santo

Janeiro 2008

(Êpa! Alto lá! Porque você não leu os links? Saiba que o molho do post está neles)