Kwame Opoku: A consciencia do homem é negra


Foto de Fernando Rabelo - Folha Press

Brasil e consciência negra.

(Para a africana Lucia Kudielela)

Há muitos anos atrás quando eu vivia em Viena Áustria, Kwame Opoku do Ghana, um grande e bom amigo que fiz por lá (na Europa, bem entendido), resolveu confessar toda a sua contrariedade com a insistência com que eu justificava coisas que não conseguira realizar no Brasil, alegando como impedimento incontornável o racismo.

Advogado na sede da ONU em Viena, velho adepto das grandes causas africanas de nosso tempo, tive a honra de admirar na casa dele, fotos suas com Amílcar Cabral, Nelson Mandela, Sam Nujoma e tantas outras enormes e memoráveis figuras do renascimento africano  as quais, de algum modo meu amigo esteve ligado por dever de ofício ou militância. Estar perto de uma pessoa associada tão diretamente à história moderna do negro africano me fazia ficar exultante. Sentia-me assim também muito próximo daqueles gigantes lutadores pela liberdade dos homens, orgulhos da raça humana, heróis da minha geração.

Mas demorei muito a assimilar a contrariedade de Kwame. Ela me constrangia e envergonhava bastante. Sentia-me enquanto negro brasileiro um pouco diminuído, num sentimento de inferioridade estranho para uma pessoa como eu que sempre se vangloriou de sua combatividade, seu engajamento político, de sua militância enfim.

Mesmo orgulhoso de, inusitadamente ser o professor de marimba africana de um africano real – Pasmem, mas é isto mesmo! Bem antes de ser meu amigo, o já velho Kwame (desconfio eu um membro destacado de alguma casta da nobreza ashanti, segundo pude testemunhar numa festa de reverentes conterrâneos seus) fora educado num liceu de Accra, onde havia tocado piano. Um africano refinado como europeu, digamos assim, mais, sobretudo um africano com um recôndito desejo de aprender a tocar um instrumento musical de sua cultura ancestral.

Kwame comprou o instrumento que – imaginem!- eu mesmo havia fabricado no Brasil e  levado para Viena. Um ano depois  Kwame acabou se tornando meu aluno, numa inusitada relação cultural invertida entre um brasileiro afro-descendente e um africano ‘legítimo’.
Isto me animava e redimia um pouco, mas devo reconhecer que demorei algum tempo mais para compreender de onde vinha aquele sentimento de quase desprezo de Kwame pelas minhas lamúrias de negro brasileiro revoltado.

_” Há racismo lá no Brasil? E vocês, sendo tantos como são, aceitam?”_

Era esta a admoestação mais recorrente que ele me fazia, querendo dizer com isto que talvez nós estivéssemos sendo condescendentes demais, omissos demais diante das afrontas e impedimentos que o racismo nos impunha. Jamais consegui convencê-lo da força insuperável das amarras que nos tolhiam.

Jamais me recuperei daquela sensação de fera afrontada. Fiquei até hoje achando que talvez falte mesmo em nós, brasileiros – e isto estava explícito no sentimento honesto de Kwame, o africano – a  consciência do que significa ser mesmo um afro-descendente, um negro-africano desgarrado, além da vívida sensação que temos do estigma, da pecha de ignorantes, despreparados e submissos que carregamos nas costas.

Reconheçamos que só os nossos antepassados africanos, trazidos para o Brasil como escravos, manietados e subjugados pela força bruta, é que tiveram o direito de incorporar, de assimilar, de se curvar diante da opressão (mesmo fingidamente que fosse, saltando para trás como os capoeiristas negaceando o golpe) por necessidades de sobrevivência física.

Reconheçamos, sobretudo que, mesmo assim, mesmo podendo se acovardar diante da força bruta e da morte, muitos de nossos antepassados ainda assim, insubmissos morreram, lutando, apenas para nos legar as lições e o sangue de sua descendência.

Sei que são palavras amargas no dia em se deveria apenas  exaltar nosso orgulho, mas me ocorreu dizer agora mesmo que falta-nos talvez e ainda – a consciência negra plena e profunda – o traquejo para manejar ferramentas válidas da insubordinação e da revolta, a consciência ampla dos nossos direitos – não de negros tão somente, mas de homens – direitos básicos humanos enfim, ainda hoje quase que apenas concedidos por brancos ‘bons’, ‘solidários’ ou ‘piedosos’ – e muitos o são honestamente, coitados – e quase nunca conquistados pelo esforço organizado de nós mesmos, a reboque de nossas geralmente pífias lideranças, oportunisticamente aboletadas nos poleiros do poder.

Talvez falte a nós, negros brasileiros, o instinto africano de romper enfim, de uma vez por todas, com a escravidão emocional que ainda está entranhada em nós. A consciência de que, haja o que houver, façam o que fizerem para nos submeter, somos e seremos livres sempre sim.

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Depois desta estada em Viena – ironicamentea pátria de Adolf Hitler – trocando lições de negritude com Kwame Opoku, o africano, passei sempre a observar melhor a diferença sutil que existe entre ter consciência negra e ter a consciência de ser negro.

A primeira consciência (a de ter) reside na profunda e refletida compreensão dos valores morais, éticos, sociais, culturais enfim contidos na herança africana de irmãos na diáspora, a busca incessante pela essência de ter a África simbólica dentro de nós, de ter humanidade enfim, onde quer que se esteja neste vasto mundo. A consciência de si per si, de sermos nós mesmos os reis, cada qual com mais um rei seu na barriga.

A segunda consciência (a de ser) seria manter a alma inquebrantável, a consciência ideológica limpa, adquirida na convivência com a exclusão social reiterada e o racismo num país que tem negros, mas que também tem – fazer o que? – brancos, na busca de saídas para fazer a ‘coisa certa’ junto com a maioria – e não no oco de uma minoria ‘negra’ de ocasião, no convescote de uma casta sórdida – para romper as barreiras mentais de nossa submissão, daquela escravidão emocional que nos aniquila e avilta a todos.

A consciência sócio racial de jamais ficar trancado no gueto escuro de nós mesmos, na síndrome da dicotomia que, separando maquiavelicamente negros de brancos, perpetua  e legitima a desigualdade, assim justificada pelas alegadas diferenças de um – a branca elite – supostamente sempre superior aos demais – todos aqueles que não sendo brancos, passam a ser negros, simplesmente por exclusão.

A consciência plena de saber se colocar acima deste mundo de iniquidades que o racismo introjetou nas cabeças de nós todos, negros e ‘brancos’ do Brasil.

A consciência enfim de que, para todos os efeitos, o Brasil é essencialmente um país com negros, que só atingirá o ansiado sucesso de seu processo  civilizatório (como dizia o saudoso Darcy Ribeiro) no dia em que tiver consciência de sua natureza pan-africana, super humana  de ser, quando tiver, definitivamente se assumido  como Brasil brasileiro de todos nós.

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Nunca mais vi Kwame Opoku, o africano. Dele tenho notícias esparsas, sei, por exemplo, que se aposentou do trabalho na ONU. Depois que deixei de vê-lo muita coisa mudou. Mandela foi libertado, por exemplo.  A África do Sul virou uma grande nação. Angola caminha para isto, a África sofrida ainda em certos bolsões renitentes de ditadura e pobreza também e sobretudo, anda.

Desejaria nos Dias da Consciência Negra no Brasil que nós, os negros e os brancos deste nosso país de sonhos perfeitamente realizáveis e angústias passageiras, fizéssemos um exame de consciência e partíssemos para a luta às nossas próprias custas e riscos, certos de que assim –  e só assim – a vitória será certa.

Spírito Santo
Novembro 2010

Galdino e o quarto escuro


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Não é, confesso, mas bem que este poderia ser Galdino Cabinda

Não é, confesso, mas bem que este poderia ser Galdino Cabinda

O inferno do escriba é aqui

Parece o céu de uma vida vivida só na flauta, mas escrever – com perdão da palavra – é phoda.

Escrever sobre o que? Me digam. Para quem? Publicar, difundir onde? E como? Deus do céu! Só mesmo sendo como eu que escrevo por vício, na compulsão franco-atiradora de pelos cotovelos sair dizendo as coisas que me vem à telha, com a mais sincera das emoções.

Existem uns macetes que a gente aprende às turras com as páginas em branco, nas surras do dia a dia: O ofício, mesmo aos diletantes, exige alguma dose de pragmatismo sim. Aprendi isto escrevendo umas poucas peças e roteiros para teatro e cinema, linguagens rígidas, cheias de filigranas técnicas e rubricas.

Existiria algo mais virtual e louco do que escrever tão meticulosamente, apenas supondo que alguém, um belo dia, vai dispender tempo e – com de novo o perdão da palavra – saco de ler uma história já toda formatadinha para ser encenada num palco ou filmada por muitas luzes, câmeras e atores, escrita pelo ilustre quase desconhecido que é você? Pura piração, não é não?

Foi por isto que, cansado de ver gavetas e HDs cheios de calhamaços de papéis e bits de histórias formatadas nesta ou naquela linguagem arrumadinha, decidi simplesmente contar histórias como aqueles contadores comuns contam, coloquialmente, como ao pé de uma fogueira quentinha, para todo mundo entender.

Daí – que alívio!- o problema passa a não ser mais meu. Quem quiser achar que a história se parece mesmo com um filme ou com uma peça de teatro que me convença ou que monte ou imagine na sua própria cabeça as imagens que lá bem entender.

Então é assim: É bem isto que este argumento como todo argumento é: Um filme imaginado, sugerido, olhado pelo velho diafragma de uma máquina fotográfica caixote, das antigas, querendo falar das fotos que jamais foram feitas de um – por isto mesmo-  invisível êxodo de escravos da servidão da roça para a rebeldia da Corte do Rio, da tontice mais épica do eito para a esperteza do Ganho na cidade grande (e isto tudo com graça e propriedade) num cenário de manguezais exuberantes, num século 19 em que uma natureza vizinha  e tão conhecida da gente do Rio – a baía da Guanabara, hoje degradada como que – emoldurava uma história de um Brasil escravista que foi o que foi como teima ainda ser.

É tudo mentira, certo? Tramas inventadas, mas se quiserem, simplesmente imaginem que foi assim tim tim por tim tim e se divirtam sem culpa.

Galdino e o quarto escuro

Argumento cinematográfico para um eventual longa metragem

Por Spirito Santo

Rio de Janeiro, entre 17 e 20 de Maio de 1888. Encarcerado, justo quando todos os escravos acabavam de ser libertados pela lei Áurea, sob severo interrogatório na Casa de Detenção da Corte, acusado de ser um rebelde quilombola, o negro ‘de ganho’ Galdino Cabinda, vai desembuchando a história de como, justo ele, tão sabido quanto despachado, apesar de completamente inocente, foi se envolver numa enrascada cabeluda como aquela, cujo desfecho, como saberemos adiante, deu no que deu.

Entre respostas sinceras ou mentirosas (arrancadas sob pancada no interrogatório) e coisas que ele fala simplesmente porque quer falar, iremos nos dando conta da complicada rede de circunstâncias que fizeram de Galdino Cabinda o personagem central desta história.

A história – na qual não há mesmo jeito de se distinguir o que é verdade do que é mentira – pode começar na Europa, mais precisamente em Lille, França, onde num certo dia de Março de 1888, fim de inverno, o jovem “photógrapho paizagista” Jean-Phillippe Brumeux, impressionou-se vivamente com as litografias publicadas num luxuoso livro, baseadas nas imagens do seu  conterrâneo, o grande Victor Frond, que andara produzindo belas fotografias de escravos nas fazendas de café da região do Vale do Paraíba o Sul, na província do Rio de Janeiro.

Estimulado também pelas idéias libertárias de Frond – que fora um fervoroso ativista  republicano – Jean Phillippe viaja para a Corte brasileira, afim de ganhar algum dinheiro fotografando autoridades e figurões do Império e, ao mesmo tempo, documentar a dura vida dos escravos na Corte.

Logo que chega ao Rio, Jean Phillippe procura Louis Jacques Dapaix (uma alusão ao nome de um dos precursores da fotografia, Louis Jacques Daguerre), o dono de um estabelecimento que aluga equipamento fotográfico e teria sido recomendado à Jean Phillippe por um amigo de seu pai.

Influenciado pelas notícias de turbulentos incidentes que ocorrem na província vizinha á Corte nesta ocasião, ele decide mudar radicalmente seus planos, deixando o negócio de retratos para mais tarde, a fim de partir direto para o interior, ao encontro das turbas de escravos que,  segundo aquelas mesmas notícias, se encaminhavam em êxodo para á Corte.

Necessitando de um escravo para alugar, Jean Phillippe conhece numa bodega da Corte o bem falante (e já nosso conhecido) ‘negro de ganho’ Galdino Cabinda que aceita a função de guia e  carregador.

Galdino sugere a Jean que rumem para a cidade de Nossa Senhora do Pilar, onde ele conhece a portuguesa Maria da Luz Müller, 40 anos, mais conhecida como Maria ‘Mula’, uma ex prostituta mulher do comerciante cego Rui do Serro D’Alferes, seus antigos senhores, que poderiam  hospedá-los.

A cidade fica na baixada que separa a Corte do interior da província, próxima a fazenda do  Barão de Iguaçu e as terras dos monges beneditinos, onde existe, num vasto manguezal coberto de pântanos e uma intrincada malha de rios e córregos, o até então invencível Quilombo do Bomba, conhecido também como Quilombo de Iguaçu.

É, pois Galdino, quem narrará em flashbacks distribuídos ao longo do filme, a história toda, de Jean Phillippe a Rui D’Alferes, de Maria Mula e até de si mesmo, a partir dos dados á seguir:

Rui Amancio do Serro D’Alferes, comerciante brasileiro, cego, 55 anos, havia sido um grande distribuidor de cachaça e fumo de rolo em Ouro Preto e veio para a Corte tentado a implantar o mesmo negócio por aqui. Se esbordoou por conta da concorrência com uns padres  capuchinhos, que monopolizavam este comércio na Corte.

Foi por isto que resolveu entrar para o negócio da lenha, se mudando para as bandas do Nossa senhora do Pilar nas vizinhanças do Rio Sarapuí. Não foi muito bem, a princípio mas, com o aumento das fugas de escravos e o crescimento dos quilombos na região, não conseguindo competir com os contrabandistas de lenha, decidiu mancomunar-se com eles, atividade na qual Galdino foi muito útil, como intermediário.

Assim foi que, apesar de o ser vias tortas, Rui D’Alferes ficou rico. O grande azar do cego eram os ardis pensados e perpetrados por sua esposa Maria Da Luz ‘Mula’, mas disso ele nada soube até morrer, atropelado por um tílburi, na porta do seu armazém.

Maria Da Luz ‘Mula’ conheceu Rui Amancio ainda na Corte. Ele, muito prestativo, sempre se oferecia para levar a meretriz até o sobrado onde ela vivia, perto do Campo, tarde da noite, quando terminava a ‘viração’. Ela, uma teuto-portuguesinha faceira, neta de um suíço cristão novo, que fugira de Lisboa no tempo da inquisição (o Mula vinha de Müller, sobrenome suíço dela, mas o povo maldoso dizia que vinha mesmo era do fato de haver sempre alguém  montado em cima dela).

Tão prestativo Rui era que Maria ‘Mula’ acabou largando a vida ‘fácil’ para encarar a vida mais fácil ainda, de se casar com ele. Passou a ajudá-lo no armazém, controlando cada vintém que entrava dizendo que com o espírito regrado dela, o casal ficaria mais rico ainda. Só não controlava mesmo as recaídas de ‘mulher da vida’ que tinha, sempre que algum garanhão conhecido ou mais audacioso, se aproveitando que o ceguinho não percebia nada, passava a mão nela ou a atentava com olhares libidinosos. Foi numa dessas que conheceu Galdino o  negro de ganho que, alugado por Rui para ser caixeiro, acabou mesmo foi se encaixando nas graças dela, que parou de vez com as escapulidas com qualquer um, para ser só dele, do  Galdino (e do ceguinho, é claro).

Assim foram também fazendo filhos, que se juntaram aos filhos do ceguinho (os dois que saíram com o cabelo duro de Galdino, viviam com as cabeças raspadas). Cercavam o mais velho dos filhos do ceguinho de cuidados para ele não chamar a atenção do pai. Tinham medo dele perguntar em voz alta que história era aquela de haverem dois irmãos pretos e dois brancos na família, se Rui e Maria eram brancos de dar pena. Neste suspense, não viam a hora de fugir logo dali.

Galdino, partilhando com Maria ‘Mula’ a cama e a mesa, não demorou muito a descobrir que ela desviava dinheiro do marido. Ela não teve mesmo outra saída senão se acumpliciar com ele, para poder continuar a roubar o ceguinho em paz, de grão em grão.

O ceguinho no entanto, um belo dia, descobriu o sumiço do dinheiro pondo tudo a perder para os amantes. O único jeito foi Galdino fugir para não ser preso, assumindo sozinho a culpa pelo furto.

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Ao sugerir ao francês o destino de Pilar, Galdino pretendia aproveitar a viagem para se   reconciliar com Maria ‘Mula’ que, agora viúva, poderia recebê-lo, desta vez até como uma  espécie de marido de fato, franqueando-lhe, evidentemente, a parte que lhe cabia do furto já que ele, por conta da abolição eminente, em breve não seria mais um escravo fugido.

Mas antes disso tudo ser revelado, em viagem interior á dentro, junto com Galdino, Jean  Phillippe consegue recolher, principalmente no trecho entre Inhaúma, (quase na Corte) e Irajá e Pavuna (no limite com a região da baixada), uma série de flagrantes do êxodo de escravos para a Corte e do desmoronamento do sistema de trabalho escravo. Entre outros fatos – todos  inteiramente inventados – os seguintes podem ser inseridos no roteiro:

Uma família desgarrada (homem e esposa com filhos pequenos procurando outros dois filhos adolescentes) tenta se reestruturar no êxodo. Vão se encontrando durante o trajeto do filme.

Um dos filhos desgarrados integra a tropa de quilombolas que se verá no filme. Ao ser fotografado por Jean, o rapaz conta que fugiu e ingressou no quilombo depois que o filho do senhor o esbofeteou na frente da mãe que, ao defendê-lo, foi esbofeteada também. Ao ver a foto da família, mostrada por Galdino, o menino pousa a espingarda no chão e surpreso, chora.

Um soldado mulato, quase branco, integrante da tropa que patrulha a estrada em busca de quilombolas e bandoleiros, pergunta, discretamente, aos passantes vindos do Pilar, se  conhecem uma escrava chamada Altamira, que lhe disseram ser sua mãe e que seria escrava de uma das fazendas das redondezas.

Vez por outra grupo de soldados a cavalo persegue e subjuga um escravo entre os que seguem no êxodo, que acusam ser um quilombola. No trajeto do êxodo, escravos maltrapilhos,  perseguidos são vistos escondidos em grotões da estrada.

Grupo de escravos que carrega numa carroça legumes, aves e hortaliças, para uma fazenda próxima da estrada, é atacado por mulheres e crianças da turba faminta. O escravo que conduz a carroça espanta o cavalo com a carroça para os lados da fazenda. Cavalo desembestado tropeça e cai, carroça cai sobre ele que estrebucha e morre. Turba saqueia os legumes, as aves e as hortaliças.

Quase noite, grupo de escravos famintos destrincha o cavalo morto na estrada. Num acampamento noturno, com a carne do cavalo sendo assada, escravos dançam e cantam em roda em torno de uma fogueira.

Um escravo, excitado, conta para todos da roda, em detalhes e de modo engraçado, como perseguiu por semanas e, por fim, matou o capataz que o atormentara anos á fio.

Escravos que carregavam a carga saqueada choram, temendo ser castigados pelo senhor que dizem ser muito severo, por causa da perda dos víveres e a suposta fuga. Galdino e Jean Phillippe, sensibilizados, se comprometem então em seguir com os escravos até a fazenda para, como era prática na época, ‘apadrinhá-los’ (testemunhar a seu favor).

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Seguindo o grupo de escravos, Jean-Phillippe e Galdino chegam ás terras do fazendeiro  Merenciano D’Alencastro e Manso, o barão de Massarambá, um ferrenho escravista que  desconfia que os estranhos são ligados aos abolicionistas. Galdino o convencerá de que o francês trabalha na verdade para ’O Redemptor da Nação’ um jornal pró-escravista da Corte, envolvido numa campanha de apoio a fazendeiros que como Merenciano estão prestes a falir com a abolição.

Assim, Jean Phillippe conseguirá registrar o dia á dia da fazenda. Muitas fotos do fazendeiro, de sua família e de seus escravos serão produzidas nesta ocasião. Durante as longas seções de fotos, com imagens narradas em off, Merenciano contará para Jean Phillippe as melhores partes de seu passado, a partir de, entre outros, os dados seguintes que são, como os anteriores, inteiramente inventados:

Hoje já velho e acabado, o senhor de escravos, Merenciano Augusto D’Alencastro e Manso,  Português de 65 anos se tornou barão de Massarambá porque certa feita, há uns 20 anos atrás, mandou servir água fresca, bolo de milho, refresco de lima, café, pudim e outras iguarias, para a comitiva do Imperador que, por acaso, para descansar do sol inclemente, estacionou num caramanchão de suas terras, longe da casa grande (o imperador não quis ir até a casa, apesar da insistência de Merenciano). Na ocasião D. Pedro II foi recepcionado por um grupo de lindas mucamas, mandadas pelo fazendeiro num carro de boi enfeitado com folhas de palmeira, com um convite escrito num bilhete além de vistosas bandejas onde as escravas levavam os acepipes.

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Nos dias que se sucedem á chegada de Jean Phillippe e Galdino, engrossa o fluxo de escravos retirantes que passa pelas terras de Merenciano. Engrossam também os grupos de quilombolas, com a adesão de muitos escravos que não tem para onde ir. O clima da fazenda vai ficando, por isto, cada vez mais tenso. Os escravos de Merenciano se dividem entre os que querem ficar na fazenda e os que querem fugir para a Corte ou mesmo se juntar aos quilombolas.

Um grupo de Quilombolas, mancomunados com escravos aliados, invade e saqueia a fazenda de Merenciano, levando consigo tudo que julgam ser de valor, inclusive o equipamento e o   material fotográfico de Jean-Phillippe. A caixa com as chapas que registram esta parte da viagem vão junto no botim. A polícia só chegou no dia seguinte.

Jean-Phillippe e Galdino não tem outra alternativa senão seguir para a área onde os Quilombolas se homiziam, para negociar o resgate do material. Valem-se da experiência de Galdino que,  como todo ‘escravo de ganho’ que atuou na região, conhece as trilhas e os córregos que levam aos esconderijos dos quilombolas. São interceptados no caminho por sentinelas e levados  presos para a sede do quilombo, numa ilhota remota e quase inacessível, no centro do  manguezal.

Remexendo na bagagem de Jean-Phillippe os quilombolas já haviam encontrado as chapas  fotográficas. Fascinados com as imagens, já as haviam levado para Manelão Kakumbe, o líder do quilombo que, mais fascinado ainda, logo que fica sabendo que o branco de fala enrolada era o autor das imagens, exige como condição para libertá-los, que Jean-Phillippe continue com eles para registrar a vida do Quilombo.

Manelão Kakumbe e Galdino se reconhecem de antigas transações e acabam se tornando bons amigos. A história do chefe quilombola, vista também em imagens de flashback, será contada por ele mesmo em conversas com Galdino:

Manelão Kacumbe escravo fugido da fazenda vizinha a de Merenciano, era assim apelidado porque dançava muito bem nos cacumbis que rolavam na fazenda, no tempo em que era escravo.

Ferreiro muito experiente, Manelão chegou com 15 anos no Brasil, vindo de Angola. Filho de um outro ferreiro, lá na África, já chegou aqui sabendo um pouco do ofício, o que fez com que ele conseguisse, rapidamente uma boa ocupação na fazenda, gozando de relativa liberdade, indo e vindo entre a fazenda da qual era escravo e a outra, vizinha, pertencente ao Barão Merenciano, para o qual, sempre que seu senhor autorizava, também prestava serviços.

Foi num desses serviços para Merenciano que Manelão se feriu na mão. Na hora de testar a peça de ferro que consertara, um dos burros da parelha que puxaria o monjolo, aferroado por um marimbondo, assustado desembestou, fazendo a engrenagem do monjolo esmagar parte da mão de Manelão (que, para esconder a mão mutilada, usa uma espécie de luva feita de couro de lagarto).

O capataz Felisberto Munhambano, havia percebido que o marimbondo poderia picar o cavalo. Foi ele quem estalou o chicote para espantar o animal e livrá-lo da ferroada. Manelão, cego de dor com a picada, julgou que o capataz (com o qual já tinha uma rixa antiga) havia assustado o cavalo de propósito, para feri-lo.

Penou muito se restabelecendo. Amargou a perda do serviço especializado que fazia para encarar pilonagem de café e roçado, até conseguir fugir da fazenda.

A rixa de Manelão com Felisberto é por causa de Mariinha Crioula, que fora sua, por algum tempo, mas que, assediada por Felisberto com a promessa de ajudar a alforriá-la, acabou trocando Manelão pelo capataz.

Mariinha Crioula, 25 anos, mulata, é exímia bordadeira que vive dentro da casa grande como escrava doméstica, desde que nasceu. Muitos na fazenda afirmam, a boca miúda, que ela é filha do Barão Merenciano, porque, de outra maneira, ficaria difícil explicar como ela, tão voluntariosa e impertinente que é, consegue manter tantas regalias. A história dela com Manelão dá bem a medida de seu caráter:

Assim que ela se fez crescidinha, ali pelos 15 anos, se muito, dos homens da fazenda, o mais vistoso para ela foi logo sendo Manelão que, a esta altura, já tinha lá os seus 25. Além de vistoso, sendo o melhor ferreiro das redondezas, Manelão era o mais bem colocado escravo da fazenda. Pois foi justo por isso que ela deu seus olhares mais oferecidos, até fisgar o bruto.

Felisberto Munhambano apareceu logo depois, vindo da fazenda do Barão de Iguaçu. Era moreno feito um índio, cabelo liso escorrido, porque vinha da costa de Moçambique, onde existem negros assim, misturados com indianos. Foi comprado por alto preço (cerca de $800.000,00, ela pode ouvir, detrás de uma porta) e logo se viu, pelas botas que ele usava, pelo jeitão arrogante que tinha, que já viera acertado para ser feitor, capataz.

Ninguém sabe dizer ao certo se foi Felisberto que assediou Mariinha ou se foi ela que arrastou as asinhas para ele. O certo é que, logo ela enjoou de Manelão e se bandeou para o capataz, acabando por se amasiar com ele. Manelão não se conformou jamais. Achando que a culpa era mesmo do capataz, tomou uma pinimba sem tamanho dele que, por sua vez, com a autoridade que lhe conferia a função, não perdia tempo para espicaçar o ferreiro, não deixando passar um deslize sequer, se não houvesse deslize, Felisberto inventava, fazendo questão de contar para o Barão tudo de errado que Manelão fizesse, por menor que fosse o erro. Viviam assim, feito gato e rato mas, ainda sem o ódio que só explodiu no dia do acidente.

No dia em que decidiu fugir, Manelão ainda tentou levar Mariinha consigo mas ela não quis, de jeito nenhum. Além do mais, Felisberto atravessou o seu caminho. Antes de desistir dominado pela frustração e pelo ódio Manelão ainda tentou matar o capataz com um ancinho, mas Felisberto, apenas ferido, escapou.

Por tudo isto, o que Manelão Kacumbe mais queria agora era que Maríinha o visse assim, poderoso de novo, chefe quilombola com o baú cheio de ouro e de contos de réis. As placas de retrato de Jean Phillippe se prestavam muito bem pra isso. Pena que a cara dele, do comandante de tudo aquilo ali, não pudesse ser revelada jamais. Pudesse…

De tão feliz, seria até capaz de não matar Felisberto. Capava-o apenas e pronto, se dando por satisfeito.

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Precisando de material fotográfico sobressalente, Jean Phillippe consegue que Manelão  Kakumbe autorize a ida de Galdino á Nossa Senhora do Pilar para encomendar o que falta e esperar o material chegar da corte.

Em Pilar, Galdino encontra enfim Maria Mula que, já sem dinheiro algum, lhe implora para seguir para o quilombo com os filhos. Galdino diz que isto não é possível, de jeito nenhum, deixando a mulher injuriada. Jean Phillippe, na volta de Galdino que se mostra um eficiente assistente, faz muitas imagens do grupo de quilombolas, registrando até algumas incursões de guerrilha contra comerciantes inimigos. A amizade entre Galdino e Manelão Kacumbe acaba sendo de muita valia também neste caso.

Não se conformando com a recusa de Galdino em levá-la com ele e se aproveitando da comoção causada na cidade pela última incursão dos quilombolas, Maria ‘Mula’ resolve denunciar para a polícia a localização exata do pouso atual dos quilombolas, sobre o qual Galdino, troncho de bêbado da noitada de cama e vinho que tiveram em Pilar, contou e recontou com todos os detalhes.

Manelão Kakumbe e Galdino Cabinda, no alto do morrinho do qual se descortina a baixada  verde, tomada pelo mangue e a malha de córregos, discutem, acaloradamente.

Galdino diz que não. Manelão diz que sim, que vai retirar de dentro daquela caixa preta o registro do seu rosto, feito a sua revelia por Jean Phillippe. É que se a sua foto chega ás mãos da polícia, acaba o seu sossego de andar livre pela região, incógnito.

Manelão sacode a caixa como um louco e é repreendido por Galdino que cuida da tralha do francês como se fosse sua. É quando os tiros, a revoada de pássaros e uma lufada de fumaça subindo das árvores, fazem com que eles larguem a câmera ali mesmo, no chão para correr. Galdino, ciente de suas obrigações volta para pegar o material.

Descem o morro em desabalada carreira para se juntar ao resto do grupo onde já está Jean Phillippe. Entram nos botes escondidos na vegetação do mangue e partem em fuga, se  espalhando pelos córregos, soltando impropérios e respondendo ao fogo com tiros, flechas e lanças.

É que, em vez de o ser somente pela a polícia, o manguezal está sendo atacado, de surpresa, por tropas da Guarda nacional, vindas da Corte. Durante as escaramuças (uma desabalada fuga de botes cruzando córregos e sendo espingardeados), o bote onde estão Jean e Galdino, bate numa raiz do mangue e tomba, fora da vista dos soldados.

Meio mergulhados no limbo, Galdino e Jean conseguem salvar a caixa de fotos e o equipamento e deslizam na água em silêncio, quase sem respirar. Mas o escravo, que é quem carrega a caixa, acaba sendo surpreendido e golpeado na cabeça por um soldado de um grupo que estava emboscado num canto do mangue.

Dos males o pior pois, é aí que o infortúnio acontece: A caixa com todas as chapas fotográficas que registravam a viagem, cai e afunda na lama do fundo do pântano.

A maioria dos rebeldes escapa, desaparecendo rapidamente pelas curvas dos córregos. Misturado aos poucos negros que são capturados, Galdino, acusado de ser quilombola, é

levado para a Casa de Detenção da Corte de onde como sabemos, em depoimentos à polícia, nos dará conta de todos os traços da história.

História transcorrida, vida seguida. Também ferido nas escaramuças Jean-Phillippe só fica  sabendo da sorte de Galdino quando chega na Corte. Tendo que insistir muito com a polícia para testemunhar a favor dele, Jean só consegue libertá-lo alguns dias depois. É que, segundo a polícia, Galdino não estava colaborando muito com as investigações, que visavam descobrir a identidade do bandoleiro que, a depender dele, eles jamais sonhariam que se chamava Manelão Kakumbe.

A volta de Jean-Phillippe para a Corte e o reencontro com Galdino, se dará entre os dias 17 e 20 de maio de 1888 (quando ocorre uma grande festa popular na Corte descrita por Robert Conrad) A idéia é acabar o filme durante esta festa, a alegria das ruas contrastando com a desilusão de Jean-Phillippe (que voltará para a França com as mãos abanando) e Galdino (que ficará por aqui, ao Deus dará).

Maria ‘Mula’ – agora famosa também como alcaguete de quilombolas, com tantos fugitivos á solta pela região – ganhou dinheiro da ‘verba secreta’ da ‘4a seção’ da polícia e escafedeu-se no mundo mais os filhos (um dia, quem sabe, Galdino não encontra os que são dele por aí?)

O disparar de um flash de pólvora revelará o retrato de Galdino, Manelão e Jean Phillippe, tirado por Monsieur Dapaix, última imagem proposta para este filme eventual. Este retrato seria, portanto a única lembrança concreta, material, que ficaria para os personagens da emocionante aventura que teriam vivido e que, para todos os efeitos, pelo sim ou pelo não, termina mesmo por aqui.

E ‘c’est fini’.

O Kilombo, o angu e seus caroços


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Charge alemã de 1897. A legenda diz: "Uma tarde de domingo na África Ocidental" mostrando um mundo surreal nas colónias na África no qual os escravos são senhores. No anúncio: "Hoje:Grande banquete! 'Senhores como comida'!

Charge alemã de 1897. A legenda diz: "Uma tarde de domingo na África Ocidental" mostrando um mundo surreal nas colônias na África no qual os os negros são livres. No anúncio: "Hoje:Grande banquete! 'Senhores' (brancos) como comida'!

Remanescente de quilombo? Ih! É melhor esperar sentado!

Começo logo com uma paulada:

Com vocês Andressa Caldas e Luciana Garcia que em alentado texto no site Global.org fazem a introdução do nosso papo:

“… A Constituição Federal e a titulação das terras quilombolas

Como parte da própria reflexão sobre o Centenário da Abolição da Escravidão no Brasil, algumas reivindicações de organizações de movimentos negros e setores progressistas, levadas à Assembléia Constituinte de 1988, resultaram na aprovação de dispositivos constitucionais concebidos como formas de compensação e/ou reparação à opressão histórica sofrida.”

(Tá certo. Isto foi só uma ameaça. Agora é que vem a paulada):

Em 2001 Abdias do Nascimento, histórico e incansável líder do movimento negro do Brasil deu ao site da Rets (Rede Eletrônica do Terceiro Setor) a seguinte entrevista:

“Rets :

_Em 1980 o senhor apresentou sua tese sobre o quilombismo. O senhor ainda vê a forma de organização dos quilombos como um bom modelo de desenvolvimento para o país?

Abdias:

_Ainda vejo. Mas acho que eu apresentei o quilombismo de forma um pouco antecipada. A sociedade precisa ter um pouco mais de experiência para poder perceber a significação do quilombo e a prática do quilombismo. Muitas pessoas interessadas no assunto concordaram com as minhas teses, mas nenhuma delas procurou implementar uma organização como a que propus com o quilombismo.”

A tese de Abdias não é o foco de nossas elucubrações. Ela é polêmica e, de certo modo, datada, pois, estava visceralmente ancorada ainda na realidade política do negro brasileiro vista de forma bem ampla e pela ótica da luta contra os resquícios da Ditadura, já que era uma realidade – a do negro e a do racismo – que a anistia promulgada em 1979, na verdade só de leve se interessou em tocar.

O fato é que a conversa que vamos levar aqui com vocês, embora diga respeito à demandas pontuais criadas pela nova Constituição do Brasil (1988) para este assunto, apesar de toda a festa com que se costuma ‘enfeitar o pavão’ de nossa democratização, não sugere ainda um grande avanço na discussão desta questão, que já se arrasta desde 1888: A reparação dos malefícios e constrangimentos aos quais os escravos africanos sequestrados para o Brasil e  seus milhões de descendentes foram – e continuam sendo –  submetidos há quase quatro séculos.

Sabem como é, certo? O Brasil elitista é um racista aplicado e muito, mas muito renitente mesmo. Pentacampeão em exclusão social.

Entre todos os reparos que com certeza poderemos fazer numa inevitável comparação entre os dois momentos históricos – o do lançamento da quase comunista tese ‘Quilombismo de Abdias e o nosso hoje em dia cheio de remanescencias– uma triste constatação: Reduziu-se de forma drástica o protagonismo e a combatividade das lideranças do Movimento Negro no Brasil, aquelas que poderiam estar na vanguarda das reivindicações atuais. O lado constrangedor deste protagonismo esvaziado e subalterno, infelizmente está visível na cooptação de muitos, na corrupção de alguns e no baixo nível político-ideológico da maioria.

Talvez seja esta conjuntura constrangedora – franqueza dói mas não mata – a principal razão para que uma causa tão importante e particular como a luta pela posse da terra por parte de comunidades remanescentes de quilombos, esteja tão diluída em pendengas paralisantes, envolta nesta rede de ambiguidades e incongruências tão flagrantes, sendo muitas vezes desvirtuada, atrelada a causas e interesses outros, como um filho de pai desconhecido.

(E filho ‘feio’, como todo mundo sabe, não tem pai).

Dito isto, podemos relaxar um pouco. O papo agora pode ser mais ameno sim, já que o mundo não foi feito num só dia.

Ki-lombo= Kilombo= Quilombo = “Fortaleza

(literalmente em Kimbundo, uma das línguas principais faladas em Angola)

O termo – todo mundo por aqui acha – viria do nome dado ao complexo de comunidades de escravos rebelados conhecido como Quilombo de Palmares, nas imediações de Pernambuco nos primórdios de nossa colonização. Zumbi de Palmares lembram?

(Mas, ‘achismo’ como se vê, não é exatamente cultura.)

Pois neste caso então, saiba quem ainda não souber que a palavra vem de um contexto histórico bem mais distante e complexo, bem menos chegado ao ‘chavão’ (e estas sutis filigranas historiográficas podem mudar tudo em nossa maneira de entender o conceito). Mais do que se pensa, pelo menos.

Kilombo na verdade, com o estrito sentido de ‘fortaleza rebelde’ tudo indica, é uma palavra transposta para a realidade colonial brasileira, depois de ser adotada como jargão militar pelo exército português durante sua guerra suja contra os nacionalistas angolanos comandados pela rainha Nzinga Mbandi e outros sobas, reis ou mandatários locais ali por volta de 1630/40.

O que isto tem a ver? Tudo. E com muita coisa que nos diz respeito. É que existe uma questão muito cabeluda rolando no Brasil atual envolvendo o conceito ‘Quilombo’, no âmbito da regulamentação de leis que embasarão políticas públicas inspiradas na constituição de 1988, visando garantir a posse da terra, por meio de títulos de propriedade ao que se convencionou chamar de ‘comunidades remanescentes de quilombos’.

(… Mas espera aí… _ “que lombo!”_ não se refere à bela bunda de uma mulata bem gostosa?)

Ui!…Calma, calma. Ignorância racista também tem limite (embora não seja nada mal que haja ignorância para que a modesta sabedoria de alguns possa dar o ar de sua graça).

Mas ok, ok. Ninguém nasce sabendo. Sou paciente e dou outro exemplo para os mais leigos que eu:

Quilombo para iniciantes: Princípios ativos e componentes lógicos

(Leia e entenda bem a bula antes de usar)

Quando levamos uma paulada na cabeça, qual é o nome que damos àquele caroço doído que nos cresce na testa? (Não. Chifre não. Sem sacanagem que estou falando sério)

Anh? Calombo? Isto! Ka-lombo (olha…Esta foi uma sacação ‘newtoniana’, não foi não?). Racionem comigo então: Como ‘Ka’ em kimbundo é diminutivo, Lombo pode significar então… ‘protuberancia, correto? Pequena protuberância (se traduzirmos bunda como ‘lombo’ a dita significaria uma bela e média …tá, vocês já entenderam.)

Kilombo, Kalombo, Lombo e Bunda: Um contexto semântico bem afinado com o mais puro vernáculo angolano.

Daí Kilombo (Ki, assim como Ka é prefixo em kimbundo) pode ficar sendo, no dizer de um colonialista lusitano pelo menos, ‘fortaleza de pretos construída num lugar alto’.

(Deve ser, logicamente por isto que os quilombos no Brasil, pelo menos os mais perenes, eram feitos em serras bem altas. Reminiscências culturais, inteligência estratégica, guerreira trazida de lá dos cafundós de Angola.)

Viram só como são as coisas? Uma palavra não é apenas um som qualquer, um amontoado de fonemas. As palavras carregam muita história, sentidos. Saber valer-se do que elas tem para nos contar sobre o passado e o presente, costuma ajudar muito a gente a construir um bom futuro.

_E olha a Etimologia aí, gente!

Logo se vê, portanto, que não é nada desimportante se bater na tecla da semântica neste caso, não é não?  Matando a semântica original se mata o sentido, a alma da palavra que passa a significar… nada. Afinal de contas, nunca é demais repetir: Jesus não é Genésio. Berimbau não é gaita.

(E você é tão bobinho a ponto de acreditar mesmo que seja possível transformar em lei conceitos vagos e desprovidos de sentido?)

Então vamos lá! Todos juntos, comigo:

_”Ressemantizar é o cacete! Viva a cultura negra nacional!”

Pois não é isto que parece estar acontecendo neste caso? Todo mundo se acha careca de saber que ‘Quilombo‘ de algum modo hoje em dia é isto aí: Um território (um lote de terra que seja) ocupado por descendentes de escravos que, por conta de históricas necessidades de reparação em vias (?) de serem reconhecidas (a escravidão foi um regime juridicamente condenável, certo?), reivindicam, diretamente ou com o auxílio de intermediários, a posse das terras que ocupam.

O resto é o resto. Deveria ser motivo para outras reivindicações.

Mas é aquela história que todo mundo também já  sabe: Enquanto o douto elabora conceitos o leigo palpita, especula, mas ambos, ao fim de todas as contas não vão poder mesmo falar mais do que… ‘em tese’.

Vamos então abordar este assunto assim-assim, valeu? Sem delírios sabichões,  na base do mais modesto feijão com arroz, pisando em ovos alheios, se necessário, mas com todo carinho, sentindo na pele o drama da questão. Sem ser louco a ponto de me achar um Deus da verdade é, pois, em tese, em tese, que vos digo:

Histórico das mumunhas jurídicas sobre o tema Quilombo hoje

(Colocando alguns  pingos nos ‘ís’ )

E são ainda Andressa Caldas e Luciana Garcia que se referem,  claramente ao que para nós se transformou no caroço (ou… calombo? Êpa!De novo? ) crucial deste angu:

“…Introdução

“…No Brasil, existem mais de 2.200 comunidades afro-descendentes quilombolas, totalizando cerca de 2.5 milhões de pessoas… No que concerne à titulação dos territórios quilombolas, recente relatório independente da Comissão Pró-Índio de São Paulo (CPISP),”Ações Judiciais e Terras de Quilombo”, revela que até agosto de 2006 havia “310 processos de regularização de terras de quilombo perante o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária.

O levantamento da CPI-SP revela que 59% dos 310 processos abertos recebeu apenas um número de protocolo no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). Ou seja, em 182 processos nenhuma medida administrativa foi tomada no sentido de regularizar o território… “

…” A ressemantização do termo quilombo e sua inserção na Constituição Federal de 1988 vieram a traduzir os princípios de igualdade e cidadania negados aos afrodescendentes correspondendo, a cada um deles, os respectivos dispositivos legais:

i) Quilombo como direito à terra, enquanto suporte de residência e sustentabilidade, há muito almejadas, nas diversas unidades de agregação das famílias e núcleos populacionais compostos majoritariamente, mas não exclusivamente de afrodescendentes – CF/88 Artigo 68 do ADCT – sobre ´remanescentes das comunidades de quilombos; Quilombo como um conjunto de ações em políticas públicas e ampliação de cidadania, entendidas em suas várias dimensões – CF/88 – título I direitos e garantias fundamentais, título II, cap. II – dos direitos sociais;

ii) Quilombo como um conjunto de ações de proteção às manifestações culturais específicas – CF/88 – artigos 214 e 215 sobre patrimônio cultural brasileiro.

(Épa! É isto mesmo? O dispositivo se refere a manifestações culturais… específicas? Bem, vamos ter que cobrar que esta especificidade seja explicitada mais tarde.)

Mas o enunciado do dispositivo, mesmo sem explicitar nada da questão, por ele mesmo proposta, ainda insiste:

“…Assim, o artigo 68 dos Atos das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Federal de 1988 (ADCT) estabeleceu que:

“Art. 68. Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos.”

Ao que comentamos aqui (tentando imitar aquela ‘baba de quiabo’ dos advogados):

Ora, o que se chamou neste caso de ‘ressemantização’ parece com tudo menos uma alteração da semântica do que quer que seja. Fica claro que se tentou, tão somente aplicar o nome genérico de Quilombo (e, portanto banalizando o sentido estrito do conceito) a uma outra figura jurídica, inclusive já existente, qual seja o ‘direito genérico das populações afro descendentes (e não exatamente quilombo-descendentes no sentido lato) à posse da terra.

Convenhamos que este direito à posse da terra é por demais genérico e redundante. Que se danem os regulamentadores! (aqueles que vão ter que dar seu jeito para dar nomes aos bois.)_ Parece nos dizer, curta e grossa, a nossa ‘boazinha’ constituição de 1988, certo?

Em suma, com a nítida finalidade de ampliar o leque dos beneficiários (quem pensou esta estratégia tão ingênua?), não se mudou apenas o nome da coisa, mudou-se a coisa de nome, o que é muito diferente e não significa, de modo algum ‘ressemantização’.

Ressemantizar’ seria adaptar o conceito à nossa época, sem desconsiderar (ou ‘ressignificar’ aleatoriamente) aspectos definidores – como a cultura ‘tradicional’ destes segmentos, por exemplo. Afinal, o dispositivo determina ou não determina a defesa de manifestações culturais… específicas?

Ao que nos parece, da forma como está proposta no dispositivo – que se pretende um instrumento legal – a medida acaba não tendo aplicabilidade jurídica especial alguma, sendo facilmente desqualificada por qualquer boa banca de advogados inimigos da causa, já que nele, no dispositivo, poderiam estar abrigados todos outros segmentos… ‘étnicos’ (o que, aliás, o próprio dispositivo admite em seu texto ser um critério vago), não conferindo à medida força alguma para fazer valer os direitos deste ou de qualquer grupo…’étnico’ em particular.

Nas barras frias de um tribunal em suma, baseado apenas em semelhantes argumentos tão pouco jurisprudenciais, um grupo ‘majoritariamente’ formado por quilombolas remanescentes, não teria, realmente chance alguma.

_”Terra para negros ex-quilombolas!” _ Será preciso dizer, com todas as letras, de forma cabal, com palavras passíveis de serem compreendidas, comprovadas e transformadas em lei.

Ora, é claro que esta conversinha de ‘ressemantizar’, ‘ressignificar’ tudo – por mais bem intencionada que seja – só podia dar no que deu.

Quem dá nome aos bois?

“Quem pariu mateus que o embalance”

É fácil falar, criticar, cobrar assim em cima deste muro de lamentações. Eu sei também que é preciso ir devagar com este andor. As intenções da maioria dos envolvidos são boas e as suscetibilidades são frágeis demais diante de críticas mais ácidas. Todo mundo quer ser o santo padroeiro desta história.

Sabem vocês, contudo, tanto quanto eu, que das melhores intenções está lotado inferno.

Porque esta questão não anda? Será que está planejada para não andar mesmo? Culpa desta desmobilização impressionante do outrora combativo Movimento Negro do Brasil, que teria emprestado para o Movimento Social como um todo, tornando genérica, esta bandeira que lhe era tão cara e exclusiva?

Seria culpa dos advogados, juízes e legisladores em geral que não conseguem entender a necessidade de se associar Justiça Social com Diversidade étnica? Ou seria culpa dos técnicos, antropólogos e historiadores, envolvidos em bizantinas questões acadêmico-conceituais que os levam a ideologizar, questionar  e ‘ressignificar’ o conceito de tudo nem sempre com as mais claras intenções?

Como nos diz um entendido sobre o tema:

“_ …esse assunto é o maior tabu entre os antropólogos. Existe digamos um código secreto, um espírito corporativo, uma pretensão de reserva de mercado para aqueles que lidam com a tal antropologia aplicada…

Ih! sai de baixo! Mais caroço à vista.

…Bem, mas isto é assunto para outras mangas num post que faremos logo a seguir (leia aqui o POST #02). Enquanto isto vão pensando aí que a pobre da bezerra ainda não morreu.

—————–

(Em tempo: A palavra angu também vem de algum modo do Kimbundo, sabiam? Penso que vem de ‘iangu’ que quer dizer capim – ou couve picadinha – aquela que, além do caroço, engrossava o dito cujo na cuia do escravo. O engraçado é que a palavra não vem diretamente de ‘fubá’ não, embora ‘fubá’ também venha do kimbundo ‘fuba’, farinha de milho.

Recomendo contudo muito cuidado com os dicionários. Kalombo, por exemplo quer dizer hoje em Angola, literalmente, ‘mulher infecunda‘. A língua é a mãe de tudo, ou seja: Tem gente aí que precisa rever, totalmente os seus conceitos etimológicos… e ideológicos com urgencia. )

Ressignificar-se, diria.

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Depois o papo segue – e esquenta mais – Achei por bem linkar aqui a matéria fedida da revista ‘Veja já que os leitores mais ligados ao tema vão estrilar e com razão.

Calma rapaziada. Uma coisa a gente precisa reconhecer: para um oportunista agir é necessário que alguém crie a oportunidade, certo?

Ajoelhou? Tem que rezar.

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Fui mas volto já.

Spírito Santo
Maio 2010

Cinema em Branco & Preto -Take 01


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Imagem popular: Visibilidade zero

(Exterior/Noite)

Entre outras e mais dramáticas consequências, a pobreza continuada e generalizada, na qual se permite que viva grande parte de nossa população, criou para a mídia do Brasil uma espécie de perturbadora “impropriedade estética”, causada pela contradição evidente entre a imagem real de povo não-branco, que efetivamente somos, e aquela imagem virtual, manipulada por intermédio de diversos artifícios, que insistimos em propalar para mundo como sendo o nosso look ideal.

Por que nos espaços da mídia (vista aqui como o conjunto de mecanismos de difusão social e cultural independentes) o Brasil aparece sempre assim, mascarado, fantasiado de uma outra coisa que não é ele mesmo?

Acreditem, esta não é uma conversa de filigranas ou irrelevâncias. Visibilidade é um axioma midiático por excelência, já que, a rigor, se um fato ou problema está invisível é porque ele não está acontecendo ou simplesmente jamais existiu.

Envergonhada talvez de nossa imagem real, nossa mídia – expressão mais evidente da maneira peculiar que a gente tem de olhar a nossa própria cara em espelhos simbólicos – tem demonstrado persistente intenção de falsear, justamente, o signo essencial de nossa personalidade: nosso biotipo, a cor de nossa pele, os traços físicos mais marcantes, aquela face original que todo povo que se preza costuma assumir como orgulho nacional e patrimônio estético irretocável.

Racismo é pouco – e vago – para definir esta estranha disposição de nossos meios de difusão cultural para, sub-repticiamente, ir sabotando a nossa autoimagem. Que diabo de paranóia seria esta? Por que ficar durante séculos como uma espécie de “país michael jackson”, tentando esconder debaixo de um tapete pra lá de puído o perfil mulato inzoneiro da maioria de nossos charmosos habitantes? Seríamos uma sociedade acometida por uma espécie de vitiligo moral?

Você viu quantas vezes, nos livros escolares, a cara do João Cândido, o almirante negro da Revolta da Chibata, um herói brasileiro tão ou mais significativo do que aquele tristonho alferes Tiradentes? E a cara do negro Oswaldão, aquele líder militar da guerrilha do Araguaia (se é que você sabe o que foi isto), aquela revolta que deu errado mas que contribuiu para a escalação de alguns de seus sobreviventes (a maioria já caída em desgraças éticas, é verdade) para o primeiro escalão do atual governo do país?

Como se poderá forjar um verdadeiro orgulho nacional, amor à pátria, sem a ampla difusão da imagem destes heróis de nossa nacionalidade, tenham lá a cor que tiverem?

Não se pode negar que, no âmbito de nossa mídia ligeira, aquela voltada para o jornalismo superficial e comezinho do dia a dia, o merchandising rasteiro, o jingle espirituoso, o outdoor de subúrbio, alguns traços, ainda que tímidos, de nosso perfil étnico têm aparecido.

Neste jornalismo ligeiro predomina, infelizmente, uma defensiva e, apesar de justificável, raivosa depreciação do outro. A pauta, como sempre, tem sido aquele rol de personagens não-brancos, atores eternos e subalternos de nossas piores mazelas, da violência urbana, do crime “organizado”, do jovem traficante armado com um fuzil de guerra, bandido assassino, defendido pela jovem favelada de shortinho leg, com o bebê no colo, aquela que jogava pedras no poder público, como uma louca, até o grand finale: a hollywoodiana imagem da carcaça retorcida de um ônibus em chamas (antes de haver o poder SS das milícias, é claro).

Para distensionar os ânimos e os espíritos, no restante desta mídia ligeira, nos anúncios de magazines femininos, nos programas de fofocas televisivas, nos outdoors etc. é concedido mais espaço a aspectos, digamos assim, arejados e mundanos: belas mulatas – geralmente sós –, jovens negros musculosos – acompanhados por falsas louras desinibidas – mulatos, morenos, morenas (muitas morenas), diversas imagens “etnicamente corretas”, no fundo apenas apelativas, porque subliminarmente tendem a associar raça negra e mestiçagem a sexo aberrante, como anúncio de açougue light, animalizando o Outro, do mesmo modo como se fazia no tempo da escravidão. É coisa de gente normal, isso?

Câmera discreta

Estereotipando e generalizando na sua cobertura sobre o dia a dia do Brasil real, os aspectos mais exteriores de nossa dramática questão social – muitas vezes de maneira histérica e sensacionalista –, tornando desta forma totalmente invisíveis todos os outros aspectos positivos, o cotidiano e a cultura das pessoas não-brancas deste país, nossa mídia nada mais faz do que propaganda de guerra, incitando a opinião pública normal contra o outro, o anormal, mais ou menos como o fez a imprensa standard de Bush, justificando bombas e barbaridades na invasão e na ocupação do Iraque.

Seriam cidadãos americanos os nossos brancos normais? Seriam anormais fedayns iraquianos os nossos marginais não-brancos? Claro que não.

Como agravante, naqueles aspectos sociologicamente mais profundos que caracterizam a aceitação de nossa imagem nacional efetiva, não é difícil detectar-se a existência daqueles sutis artifícios usados para identificar e separar as coisas apropriadas para serem mostradas, daquelas que devem ser cuidadosamente maquiadas, editadas ou, simplesmente, escondidas dos olhos das pessoas “de bem”.

Um conjunto de elementos estéticos, que são fashion, style, low profile, positivos em suma ou que, simplesmente, funcionam, isolado de um outro conjunto de coisas que não devem ser mostradas, de jeito nenhum (a não ser em ocasiões socialmente corretas), porque são down, feias, incômodas e que, do ponto de vista comercial são, portanto negativas, não funcionam, sendo impróprias ao consumo – ou não recomendadas – aos olhos daqueles indivíduos considerados normais.

E quem seriam neste contexto tão patologicamente televisivo os normais do Brasil? São aqueles 30% que estão em pleno gozo de seus direitos de renda e cidadania, gente que, até prova em contrário, é predominantemente branca, beneficiária, como vimos, de um sistema de cotas firmemente assentado em mais de 500 anos de exclusão e invisibilização do Outro.

A questão básica portanto passa a ser: por que, no contexto desta separação entre aqueles que têm daqueles que não têm – uma separação que, apesar de odiosa, poderia ter como atenuante o fato de ser naturalmente apenas social – o componente étnico, racial é tão determinante? Será inteligente (para não dizer justo ou correto) insistir numa imagem nacional tão despudoradamente falsa como esta que nossa mídia difunde, uma imagem calcada no perfil étnico dos brancos, tornando virtualmente invisível todos os, digamos, 70% restantes de não-brancos?

Afinal, serve para que a imagem daquele olhar constrangido do crioulinho magrelo, que tenta fazer malabarismo no sinal fechado? O que podemos fazer com esta imagem tão perturbadora senão deletá-la de nosso HD emocional, assim que o sinal se abrir? Não seria porque ela, do jeito como a tratamos, não serve para vender nada, senão a nossa brasileiríssima iniquidade?

Deve ser por isso que, do ponto de vista estritamente imagético, daqueles registros sobre nós mesmos que legaremos à posteridade, a maioria esmagadora dos elementos culturais, por exemplo o teatro, a literatura, as telenovelas etc., continuam a ser, ad infinitum, simbolizados na maior parte das vezes, por personagens e atores do perfil étnico hegemônico.

Na literatura, entre a mais recente exceção à regra – Paulo Lins – e a última já se vão mais de um século. Antes de Cidade de Deus, a última foi aquela que narrava a pungente dicotomia entre a luz e a escuridão, representada pelo simbólico conflito ideológico latente, na obra de dois de nossos maiores escritores, ambos negros: Machado de Assis, aquele que ascendeu na sociedade branca tornando literariamente invisível, de forma brilhante, sua própria negritude, e Lima Barreto, aquele que, ao contrário, morreu louco tentando iluminar, de forma não menos brilhante, a sua (e a nossa) própria condição racial e suburbana, em emocionados romances.

E é nesta angustiante dicotomia, entre a luz e a sombra, que vai vivendo a nossa vacilante, vadia e, por isto mesmo, tão cinematográfica alma brasileira.

(Uma confortável cadeira será necessária para assistir um pouco mais deste drama nos takes 02 e 03 desta história meio ‘film noir’. Desliguem os celulares, por favor)

Leia neste link o post 02 desta série:

Spírito Santo
Dez 2008

(Parcialmente publicado em O Observatório da Imprensa em 14/05/2003 e, posteriormente em www. overmundo.com.br)

CINEMA EM BRANCO & PRETO / take 3


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(Leia também os takes 01 e 02 )

Negativo revelado

”Um historiador chamou o período silencioso no cinema no Brasil (introduzido em 1898 pelo italiano Affonso Segretto) de “a bela época do cinema brasileiro”, dada a quantidade e diversidade da produção. …mas do ponto de vista do negro brasileiro, isso conta muito pouco. O cinema mudo coincide exatamente com o período áureo das teorias racistas, quando as religiões afro-brasileiras eram perseguidas pela polícia, e os mulatos claros usavam pan-cake para parecer brancos. Houve portanto poucos registros de negros em documentários.

Apesar da patente invisibilidade do negro nos documentários de nosso período silencioso, aludida e lamentada aqui por João Carlos Rodrigues, talvez já se tenha dito, anteriormente, que a rigor não pode ser considerada, de modo algum, incipiente- ou mesmo insuficiente – a presença da imagem do negro no cinema brasileiro de ficção.

Já nas imagens inaugurais desta nossa cinematografia ‘posada’, o negro estava lá, de alguma forma impresso. A lista de filmes é extensa, a ponto de podermos afirmar, com razoável convicção que, do ponto de vista essencialmente imagético, nunca houve, exatamente, racismo no cinema brasileiro.

Não conheço ninguém que tenha assistido, sequer a um fotograma do documentário (um docudrama talvez) “A vida de João Cândido, o marinheiro“, realizado segundo as poucas fontes disponíveis em 1912, com direção de Carlos Lambertini e, sabe-se lá talvez, inspirado no O encouraçado Potenkim’ filme clássico de 1906, realizado pelo russo Sergei Einsenstein.

Por conta da insuficiência de fontes aliás, o filme sobre João Cândido, acabou se confundindo com o documentário ‘A revolta da Esquadra’ também identificado como sendo de 1912, sensacional furo jornalístico do cinegrafista Alberto Mâncio Botelho (único fotógrafo a conseguir entrar no encouraçado Minas Gerais, nau capitânia da Revolta) que conseguiu entrevistar João Cândido líder dos amotinados da Marinha de Guerra, contra os castigos corporais.

É lícito se supor inclusive, que a maioria – senão todas – as imagens disponíveis hoje deste grande momento da história do Brasil, tenham sido registrados pelas câmeras deste grande precursor do documentarismo brasileiro que foi Alberto Mâncio Botelho.

Pois saibam que “A vida de João Cândido, o marinheiro” foi o primeiro filme censurado e proibido no Brasil por motivos políticos (certamente junto com o ‘Revolta da Esquadra’ de Botelho). A engrandecê-lo mais ainda, o fato de ter sido também o primeiro filme de ficção, no qual o negro apareceu como protagonista de sua própria história (não se tem a informação se os atores eram brancos pintados. Vamos acreditar que não).

…”Os atores (no tempo do cinema mudo no Brasil) ainda eram brancos pintados, como os minstrels americanos. Esse costume persistiu até bem mais tarde. No cinema, o verismo exige negros verdadeiros, e assim surgiram os primeiros atores profissionais, vindos dos palcos : Grande Otelo, Pérola Negra, Chocolate – os pseudônimos já ostentam a etnia, informando antes mesmo da própria imagem do intérprete. Mas seus personagens não cresceram de importância.”

Caras imagens esparsas de filmes invisíveis.

Além do imperdível ‘Encouraçado Potenkim’, alguns de nós já assistiram, contudo a pelo menos algumas das impactantes imagens de ‘O Nascimento de uma nação’ (The Birth of a nation ou, originalmente, The Clansman) de David Llewelyn Wark Griffith (D. W. Griffith), talvez a mais veemente propaganda racista já exibida pelo cinema, lançando as bases para a recriação da organização terrorista Ku Klux Klan, grupos de brancos que promoveram muitos linchamentos e enforcamentos de afro-americanos nos Estados Unidos.

Embora o filme de Griffith tenha sido um divisor de águas, lançando revolucionárias técnicas para a linguagem cinematográfica do futuro, surpreendentemente, no plano ideológico, estas imagens, ao que tudo indica, não tiveram relação direta alguma com o tema da invisibilidade do negro na mídia brasileira (no cinema inclusive).

As controversas ideias levantadas pelo filme, lançado no já distante ano de 1915, parecem ter somente entre nós – guardadas as devidas proporções – alguns tardios adeptos, veementes opositores das políticas de cotas e ações afirmativas no Brasil, cujo pensamento, ainda que de forma simbólica, pode ser alinhado com este emblemático trecho da sinopse do filme de Griffith publicada pela Wikipédia:

…”A controvérsia que o filme causou gira em torno da premissa de que a primeira Ku Klux Klan restauraria a ordem no sul do pós-guerra, que estaria “ameaçado” por afro-americanos “incontroláveis” e seus aliados: abolicionistas, mulatos e republicanos do norte.”

O fato é que, navegando num mar encapelado de preconceitos estéticos ligados ao biotipo de nossa população, não sabemos ainda a que atribuir esta hospitaleira ilha de diversidade cultural, este inesperado apego, quase fraterno, sempre existente em nosso cinema de ficção pela imagem do povo e do negro, em particular.

Atraído pela imagem de negros e despossuídos, tanto quanto pela pitoresca e dura vida de nossa população ‘carente’ em geral (cujos temas estão sempre presentes nos roteiros, desde os primórdios), este cinema foi sempre bastante popular (ou popularesco), desde a escolha de seus story lines, baseados desde o início em rumorosos casos que eletrizaram a maioria da população, sendo protagonizados por pessoas comuns, até a franca adoção de um conceito de ‘casting’ sem preconceitos biotípicos ou raciais aparentes.

Talvez a pista mais importante desta solidariedade do Cinema para com a imagem do negro do Brasil, a despeito do deslavado racismo das outras mídias, deva ser buscada em outras plagas, bem mais próximas de nós: A colônias italianas do Rio de Janeiro e São Paulo.

Com efeito, ao nos debruçarmos sobre a bases que formaram o nosso cinema, esbarraremos, fatalmente, numa lista enorme de ‘carcamanos’ emigrantes, gente simples, humilde e empreendedora que, construiu aqui praticamente tudo que precisávamos para ter cinema brasileiro.

De Paschoal, Gaetano, Alfonso e João Segreto, passando por Paulo Benedetti até Rogério Sganzerla, são centenas os nomes de italianos e ítalo-brasileiros envolvidos na arte de fazer filmes no Brasil, inventando equipamentos, processos fílmicos, dirigindo, cinegrafando ou atuando, a importância destes europeus na fundação de nosso cinema foi decisiva.

Empreendedorismo, pitadas de Anarquismo, de Comunismo, Socialismo e, logo mais adiante, Neo realismo, eis o que seriam as lentes abertas para a negritude em nossa cinematografia.

“ Fita apreendida

No dia 27 de junho de 1926 o jornal O Estado de S. Paulo publica uma matéria intitulada Exploração ignóbil. Um filme deprimente para o Brasil preparado pela companhia Dramática da Atriz Italia Almirante. A longa reportagem relata a apreensão de um rolo de filme com cerca de 150 metros cenas de batuque que foram feitas no Jardim da Aclimação, supostamente passadas numa senzala de uma fazenda de um nababo português.

“Em certo ponto, um artista não se contem e, por pilhéria, arrebata uma pretinha e sai com ela, dançando. Os dançadores se alvoroçam e o chefe do batuque separa o par, com ar feroz. Mas isso não o satisfaz e para vingar-se vai ao grupo de artistas, tira uma atriz e sai com ela, a dançar. Embalde os colegas tentam arrancá-la daqueles braços, da sanha daquela multidão andrajosa, suada, de catadura hedionda. Estabelece-se a luta.

E, aos gritos de toda a gente, aparece o fazendeiro, de botas, chapéu largo de cowboy, um tipo anacrônico, que arrebata a moça das mãos do preto, atira por terra o agressor e corta-o de rebenque, surdo às imprecações feitas de joelho. Enquanto o companheiro apanha os pretos fazem esgares de pavor”.

         (Em ‘Italianos no cinema brasileiro’ artigo de Márcio Galdino)

Positivo velado

Amir Labaki escreve:…”Numa conversa com Vinícius de Moraes, que o guiava para conhecer uma favela no Rio de Janeiro, Orson Welles fez um comentário sobre o que via, direto e profético:

_ “É um Frankenstein. É um monstro que vai se voltar contra vocês.”

Havendo sido criado por volta de 1940, pelo governo brasileiro o Dia da Raça, no qual se criava o conceito algo eugenista da fusão harmônica de ‘três raças tristes’ (brancos, negros e índios, nesta ordem), havia uma intenção oficial de difundir a imagem de que o país era habitado, principalmente, por brancos, com uma taxa mínima de negros e mestiços (intenção a rigor, válida até os nossos dias, notadamente, entre racistas enrustidos)

Foi este, sem dúvida, um dos principais fatores que contribui para a ditadura Vargas acionar o Departamento de Estado Americano e provocar a interrupção do documentário It’s all true, que o festejado cineasta Orson Welles realizava no Brasil em 1942, descrevendo, principalmente, a saga de um grupo de jangadeiros liderados por um homem chamado ‘Jacaré’, do Ceará ao Rio de Janeiro, para denunciar ao governo brasileiro suas péssimas condições de vida.

Segundo o Departamento de propaganda do governo, Welles enfocava, demasiadamente, em seu filme, os negros e a cultura afro-brasileira (no caso, nordestinos – cafuzos para alguns – com a pele queimada de sol e favelados negros do Rio de Janeiro).

É ainda Labaki quem comenta:

…”Em 19 de maio de 1942, já filmando nas praias cearenses, advém a tragédia. A mesma jangada original da ida ao Rio foi virada por uma onda forte num dia de mar bravo. Os quatro homens caíram na água. Jacaré submergiu, voltou à tona, pediu socorro, nadou desorientado mar a dentro e desapareceu. Seu corpo jamais foi resgatado. “Jangadeiro deve morrer no mar” foi a manchete caimmyana de um jornal, atribuindo a citação ao próprio Jacaré.”

…Pressionado por todos os lados, com produtores descontentes com a extensão das filmagens, e políticos de cá e de lá furiosos com a ênfase na pobreza e na negritude do episódio sobre o Carnaval, Orson Welles terminou o que viera fazer e deixou o Brasil para nunca mais voltar.

Jamais concederam-lhe a oportunidade de finalizar “It`s All True”, editado parcialmente sete anos depois de sua morte.”

Banido, tornado quase invisível, durante muitos anos, os negativos do filme foram recuperados, mostrando imagens épicas fantásticas do nordeste brasileiro, com o movimento impressionista das velas e das ondas do mar do Ceará e da então capital federal, com fortes e trágicos contrastes e nuances de preto & branco.

Visto hoje, com distanciamento, ‘It’s all true’ nos aparece como um legítimo filme brasileiro, tão grande a influência que, sabe se lá por que mágicos meios, imprimiu em nossa filmografia posterior, notadamente no cinema de Glauber Rocha. Talvez fosse mesmo uma tendência, um fenômeno cinematográfico amplo e recorrente, num mundo que, bafejado pelos ventos abrasivos da guerra, impulsionava o cinema, inapelavelmente, para a reflexão em imagens, de valores universais essenciais, tais como a solidariedade humana, a diversidade cultural e a luta contra o racismo, a intolerância e a miséria, seja onde estivessem.

Ventos que, geraram em suma, o movimento denominado Neo-Realismo‘ italiano, famoso movimento cultural surgido no pós guerra cujas maiores expressões foram (olha a Itália de novo aí, gente!) Rosselini e De Sica.

Mesmo com o advento do Cinema Novo (segundo se diz, criado por Humberto Mauro) o cinema brasileiro segue tributário dos italianos.

Se algum pai houve não se sabe ao certo, mas, talvez ‘la Mamma’ de nosso cinema moderno tenha sido mesmo esta avassaladora influência neo-realista de De Sica e Rosselini, em seu amor desmedido pela imagem idílica do povo da itália, escurecido pelo sol do Mediterrâneo e entidade vítima de algozes muito cruéis (o nazi-fascismo que morria e o imperialismo capitalista que surgia voraz), num contexto de caos social impactante. Talvez tenha navegado por estas ondas portanto, a relativa aceitação de uma certa negritude em nosso cinema.

Mas, é bom se frisar que este Neo Realismo brasileiro, se impõe mesmo é com o lançamento de Rio 40 graus de Nelson Pereira dos Santos e, logo após, com Rio Zona Norte, do mesmo autor, seguidos pela série Cinco Vezes favela‘, filme produzido pelo vanguardista CPC da UNE (no embalo lançando os cineastas Leon Hirszman, Cacá Diegues  e até o Eduardo Coutinho – cujo filme ‘Cabra marcado para morrer’, da mesma época, por conta do golpe militar ficou inconcluso).

Reveja o cinema de Glauber Rocha e observe nos formidáveis planos-sequências, aquela visão de um povo heróico e retumbante, esturricado de sol e sede, enfrentando, estoicamente, as agruras da natureza e do cruel capitalismo anglo-saxão.

Isto tudo exposto, podemos dizer que sempre houve uma substancial presença de negros nas telas de cinema do Brasil sim, mas, não nos furtemos em perguntar:

_Como assim?

Vejam talvez que esta, talvez seja uma história boa demais para ser verdade. No cinema, como no Brasil, ‘nem tudo é verdade’.

Alma no olho

João Carlos Rodrigues, em seu livro aqui citado O negro brasileiro e o cinema – enumerou 12 arquétipos (ou estereótipos) invariavelmente, disponíveis para atores e atrizes negros no Brasil. Os mais importantes são os seguintes:

O Preto Velho, o Mártir da escravidão, o Nobre Selvagem, o Negro Revoltado, o Negro da Alma Branca (trágico elo entre oprimidos e opressores ), o Crioulo Doido (equivalente assexuado e cômico do Arlequim da Commedia dell’Arte ), a Musa Negra. Há dois com uma nítida conotação sexual exacerbada :O ameaçador Macho Negro ( Negão ) que povoa os sonhos racistas com estupros e violências ; a Mulata Sedutora ( Uma espécie de mulher-objeto cor de chocolate, desejada por todas as raças).

Na obra de João Carlos, todos os personagens negros e mulatos da ficção brasileira se enquadram em uma dessas categorias.

Assisti, por acaso, um dia destes, ao excelente e bem realizado ‘Também Somos Irmãos’, drama de José Carlos Burle com Grande Otelo, Aguinaldo Camargo, Agnaldo Rayol, Ruth de Souza e Jorge Dória, produzido pela valorosa companhia de cinema Atlântida em 1949. Embora velados, muitos dos estereótipos enumerados estavam lá.

Já foram de algum modo citados também outros filmes emblemáticos – com ou sobre negros – aqui mesmo nesta série. Entre eles Assalto ao Trem Pagador de Roberto Farias, Ganga Zumba (1964) de Carlos Diegues, Compasso de espera, direção de Antunes Filho (que conta o drama de um intelectual negro representado por Zózimo Bulbull, na megalópolis São Paulo, tentando integrar-se na sociedade branca). Podemos citar também Bahia de todos os santos (1960), de Trigueirinho Neto, Sinhá Moça (1953), direção de Tom Payne e Osvaldo Sampaio, O amuleto de Ogum (1974) e A tenda dos milagres (1977) ambos dirigidos por Nelson Pereira dos Santos, além de Xica da Silva (1976) e Quilombo de 1984 (o mito de Ganga Zumba de novo, também com a direção de Carlos Diegues, desta vez como super produção neo-tropicalista) e o digno Chico Rei (1985), de Walter Lima Junior – do qual este autor que vos fala, orgulhosamente participou, escrevendo a trilha sonora com seu grupo Vissungo (Wagner Tiso escreveria a trilha ‘branca‘, europeia) e coordenando grupos de congada na cena final.

Nesta vasta filmografia, dois fatos saltam aos olhos: Diretamente ligados à história, aos dramas, e ao modo de ser dos negros do Brasil, nenhum destes filmes foi dirigido por um diretor negro. Segundo: talvez por esta prosaica razão, em todos eles, de algum modo, os personagens negros são esquemáticos, estereotipados ou idealizados, quase sem nenhuma diferença do quadro de ‘arquétipos’ enumerado por João Carlos Rodrigues acima.

É fato também, portanto que o negro brasileiro está no cinema apenas com o corpo. Não está presente a sua alma. Seus olhos não se reconhecem nestes corpos travestidos por estereótipos os mais diversos, uns frutos do preconceito ou da ignorância, outros fruto da arrogância elitista de certa classe cinematográfica voltada excessivamente para uma visão estreita de nossa sociedade, contaminada por nossos vícios racistas mais recorrentes e sempre, renitentemente, presentes. Uma alma, senão branca, desvirtuada pela visão esquemática do filtro torto, com o qual a maioria de nossos cineastas enxerga a alma do negro (e, por extensão, dos pobres do Brasil).

As exceções a esta enigmática invisibilidade da alma do negro, dirigindo-se a si mesmo, em nossas telas, são poucas, entre elas, Cajado Filho (1912 – 1966), cenógrafo e roteirista de dezenas de filmes de sucesso, que dirigiu cinco longas metragens entre 1949 e 1958, todos infelizmente desaparecidos. Foi quase certamente o primeiro diretor negro do cinema brasileiro segundo João Carlos Rodrigues.

Com um hiato de muitos anos, temos também ‘As Aventuras amorosas de um padeiro’ de Waldir Onofre (cineasta que narra a alma suburbana da zona Oeste do Rio) ,’Alma no Olho’, de Zózimo Bulbull (Jorge da Silva), além de títulos esparsos por aí, a maioria de cineastas negros iniciantes, unidos, recentemente pelo Centro Afro Carioca de Cinema, criado por Zózimo Bulbull e Biza Vianna que, a partir de referências seminais do cinema africano, do senegalês Ousmane Sémbene, do nigeriano Ola Balogun (que filmou no Brasil nos anos 80 A Deusa Negra) e de Zezé Gamboa (prêmio do júri no Sundance Film Festival, em 2005), entre outros, todos reunidos num concorrido festival realizado no Cine Odeon (entre outros espaços), no Rio de Janeiro em novembro de 2007 e 2008, almejam quebrar o paradigma da ausência da alma negra no cinema do Brasil.

Dogmática feijoada

Na crônica das incongruências que este grupo de cineastas negros almeja superar, no intuito de provar que as idiossincrasias da alma popular brasileira (vale dizer a alma dos ‘não brancos’ do Brasil) não tem sido bem descrita pelos filtros do nosso cinema tradicional, existem casos clássicos, muito discutidos por seu caráter assaz constrangedor, como por exemplo, a salada antropológica, de cunho, grotescamente, tropicalista e gosto duvidoso (até como cinema) com que o sempre festejado Cacá Diegues tratou o Quilombo de Palmares, emblema de um episódio caro a alma libertária de todos os brasileiros (travessura estética repetida em 1999 no – vá lá – ‘pós modernista’ Orfeu com Toni Garrido).

E nem precisávamos falar também da, certamente bem preparada e articulada mulher que foi Xica da Silva, transformada em mera ‘mulata’ lasciva, quase prostituta, por – de novo ele – Cacá Diegues, o renitente cineasta que filmara também, alguns anos atrás, a imagem risível no filme Ganga Zumba de uma escrava africana usando hennè nos cabelos (Luiza Maranhão, grande atriz de tantos filmes emblemáticos como o já citado Assalto ao Trem Pagador).

Mas, quem se importava com estas continuístas filigranas de foco e enquadramento àquela altura dos acontecimentos, tomados que estávamos pelo sonho ufanista de termos com a Embrafilme, enfim, uma indústria cinematográfica de peso? Definitivamente, não pegava bem naquela época, falar mal do cinema nacional.

Felizmente, panorama cinematográfico brasileiro neste aspecto tão vexatório, neste cipoal de impropriedades estilísticas, pode estar prestes a mudar com a mais recente e incisiva – pelo menos como atitude – incursão representada pelas ações afirmativas tocadas, à própria conta e risco, por um grupo de cineastas e estudantes de cinema de São Paulo: O Dogma Feijoada.

Liderada pelos, relativamente, jovens cineastas paulistas Jeferson De e Noel de Carvalho, O Dogma Feijoada é uma ação que reúne cerca de 13 cineastas negros paulistas, a maioria representantes de uma inédita geração de alunos de cursos regulares de cinema, animada a quebrar os tabus conceituais e ideológicos mais recorrentes neste assunto, com muita disposição, embora ainda se baseando em ideias – apesar de, saudavelmente provocativas – em sua maioria, um tanto ou quanto insuficientes (redundantes até) – segundo se pode avaliar pelas sete ‘dogmáticas ‘ cláusulas que expomos a seguir:

‘Cinema Negro Brasileiro ou Dogma Feijoada

1- O filme tem de ser dirigido por um realizador negro brasileiro;
2- O protagonista deve ser negro;
3- A temática do filme tem de estar relacionada com a cultura negra brasileira;
4 -O filme tem de ter um cronograma exeqüível. Filmes-urgentes;
5- Personagens estereotipados (negros ou não) estão proibidos;
6- O roteiro deverá privilegiar o negro comum brasileiro;
7 – Super-heróis ou bandidos deverão ser evitados. ’

Mesmo considerando que – nem mesmo como ironia ou brincadeirinha com dinamarqueses- não se quebram paradigmas com dogmas (dogmática mesmo é a prática dos que estão do outro lado ) só nos resta desejar que, a partir desta entusiasmada galera do Dogma, a moviola simbólica deste nosso ainda inacabado filme noir (que por aqui, sem o menor suspense, parece sempre rodar para trás) avance mesmo, rumo a um cinema brasileiro completo em gentes e nuances; rico, com heróis e vilões sem máscaras ou pankaques; um cinema colorido, diversificado em temáticas e arquétipos, feito por todos e Paratodos (como o nome daqueles cine ‘poeiras’ de interior).

Enfim, sem mais delongas vulgares ou ‘The ends’ bregas e, sobretudo, sem ‘_ Óticas do povo, morou?’, só me resta gritar à guisa de corte final:

_Luzes, Câmeras e…ação!

Spírito Santo

Dez 2008

(Leia também os takes 01 e 02 )

CINEMA EM BRANCO & PRETO / Take 2


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Cinema para quem precisa

Interior/Dia

Voltando a nossa boa conversa do Take 01 desta série, o fato é que, para sermos justos, foi nas dimensões hospitaleiras do veículo cinema, da tela grande, que se asilaram e se tornaram visíveis muitos atores não-brancos fabulosos deste Brasil.

Neste âmbito de dramas empolgantes, tivemos Eliezer Gomes, o Tião Medonho (do clássico Assalto ao trem pagador de Roberto Farias), que foi também o caseiro psicopata de Anjo da Noite, de Walter Hugo Khouri, e o escravo-cavalo de Jeane Moreau (em Joana, a francesa de Cacá Diegues). Um ator autodidata, de ‘dimensões shakesperianas’, segundo disse um crítico na época, mas, quem se lembra? Pelo visto, poucos.

Belo e bravo cinema do Brasil. Bucólicas ou violentas imagens, suburbanas ou rurais, às vezes sagas grandiosas, nas quais os não-brancos apareceram sempre com a alma de certo modo inteira.

Generoso e ainda efêmero cinema nacional. Sempre tão precário como indústria.

De Bulbul à la Diniz

Se de vez em quando um mea-culpa doloroso é carpido pelos cerca de 30% de incluídos, geralmente isto se dá nas telas do cinema. É neste momento – como num rápido trailer – que a imagem dos 70% mais ‘feios’ aparece gloriosamente colorida, incômoda e corrosiva, tanto aplacando talvez culpas internas (como autoflagelação de mentirinha), quanto desmascarando, internacionalmente, nos Hollywoods e Berlins da vida, a cegueira extrema daquele Brasil ‘branco’, sarado e siliconado, que não cansa de olhar o outro Brasil pelo retrovisor.

O pior é que, ao que tudo indica, o grande e perturbador aspecto do problema não é ainda este. A coisa é ainda um pouco pior. Pasmem se ainda puderem mas, pelo que se vê exposto nesta mídia, é quase que, totalmente, ‘branca’ também a maioria das pessoas comuns visíveis, os transeuntes flagrados por câmaras fotográficas ou de TV, dando opiniões e entrevistas, frequentando praças de alimentação de shopping centers.

São também, majoritariamente, ‘brancos’, do mesmo modo, os frequentadores de bibliotecas, de cibercafés (lan houses de favela não contam, é claro), de bares genéricos ou temáticos, de centros culturais, assim como o são os professores universitários, os aposentados com dignidade, os funcionários públicos acima do último escalão, as socialites autênticas ou emergentes, as recepcionistas de lanchonete ou de butique, os modelos e manequins, os praticantes de cooper na orla, os ciclistas e motoristas de fim de semana, até os mortos nos acidentes de trânsito o são.

É sempre incrível para os estrangeiros que nos visitam, mas também é ‘branca’ a maior parte dos espectadores de cinema e teatro, os atletas de esportes radicais, assim como também são brancos a maioria das prostitutas do calçadão, os jogadores de frescobol, de voleibol, de basquetebol. Cá entre nós, já notaram que são cada vez menos negras também, até as empregadas das telenovelas?

Milton Santos, o brasileiro que chegou a ser considerado o maior geógrafo do mundo (ele mesmo, um dos muitos invisíveis gênios negros deste país), costumava perguntar onde estaríamos escondendo os nossos milhões de não-brancos. Em guetos infectos como na antiga África do Sul? Seriam mesmo guetos infectos as nossas milhares de favelas? Ou não?

A relativa invisibilidade de não-brancos em nossa televisão, aliás, é um episódio digno de várias novelas. Desde o tempo do dramalhão A cabana do pai Tomás, no qual ator Sérgio Cardoso apareceu pintado de preto, passando pelo beijo – até hoje escandaloso – do crioulo Zózimo Bulbul na ‘loura’ Leila Diniz, pouca coisa mudou.

Corte / Tela escura / Silêncio

O impressionante Aguinaldo Camargo, o nunca demasiadamente citado ícone Grande Otelo, Milton Gonçalves, Antônio Pompeu, os saudosos Marcos Vinícius, Norton Nascimento e Paulão Barbosa; Cosme dos Santos, Luiz Antônio Pilar, Maurício Gonçalves, Roque Pitanga, Lui Mendes, entre outros, são parte de uma dinastia de duas ou três gerações que, com raras exceções, sempre representou eternos estereótipos do bandido, do policial, do porteiro, do traficante, do motorista e, quase sempre, do indefectível escravo doméstico, assim meio Uncle Thomas, meio Pai João (escravo rebelde de novela, sempre morre sozinho, abandonado pelos irmãos de cor e de infortúnio).

Também para duas gerações de atrizes a mesma galeria de tipos chapados, estereotipados. Ruth de Souza, Léa Garcia, Chica Xavier, Zezé Mota, Neuza Borges, Zezeh Barboza, Iléa Ferraz, Mariah da Penha, Isabel Fillardis, Thaís Araújo, Maria Ceiça, Cida Moreno e – vá lá – Camila Pitanga, entre tantas outras, revezam-se em papéis similares, geralmente jovens mucamas oferecidas, velhas escravas resignadas (ou alegres e prestativas domésticas). Às vezes, para variar, desbocadas prostitutas.

A não ser quando representando escravos de alguma senzala de padrão global, os atores negros de nossa teledramaturgia quase nunca são ocupados assim, em grupo, em núcleos (como ocorreu aliás uma vez, quando uma família negra de classe média exibiu seus um tanto descoloridos conflitos na TV).

Geralmente as telenovelas, quando existem papéis específicos “para negros”, costumam ocupar de cada vez, apenas um ou dois atores ou atrizes negras “de plantão”. Este plantão envolve sempre a mesma galeria de personagens estereotipados citados, o que faz com que a carreira de ator ou atriz para negros no Brasil seja uma atividade de pouco ou nenhum futuro, atraente apenas para os loucos mais abnegados.

A natureza e a dinâmica dos mecanismos que acionam esta invisibilidade a que estão relegados os não-brancos em nossa teledramaturgia são dois grandes mistérios de nossa sociologia.

Tudo nasceria de um acordo tácito entre teledramaturgos? Seriam mecanismos regidos por secretos memorandos internos trocados entre a alta cúpula das emissoras? Estariam baseados em estratégias de comercialização, em pesquisas de mercado nas quais o consumidor não-branco apareceria como um segmento desinteressante ao mercado? Ou seria culpa da desmobilização política da classe, do conjunto de artistas negros, da opinião pública não-branca deste país?

Talvez seja esta a faceta mais cruel do racismo à brasileira: seu caráter de omertá, a lei do silêncio, instituição fantasmagórica, mas, onipresente, rígida e complexa apesar de não estar escrita; tácita; sórdida porém tolerável; seguida à risca por uma multidão de cúmplices, beneficiários de uma injustiça impossível de ser inteiramente identificada e compreendida pelas vítimas, porque não pode ser atribuída diretamente a ninguém, já que todos os indivíduos que a praticam aprendem, desde de criancinhas, a repetir o surrado discurso que diz:

“Se há racismo, os racistas são os outros”.

Plano Americano

Corte

De todo jeito, se todos nós sabemos que um rostinho levemente europeu definitivamente não corresponde ao perfil étnico da maioria de nossa população, o que estaria havendo então? Algum tipo de loucura, de neurose coletiva? Estaríamos vivendo todos um problema tão grave de autoestima que, mergulhados numa profunda crise de identidade, acabamos por nos atolar na paranoica negação de nossa própria imagem? Ou seria uma cínica e esperta “ação afirmativa” às avessas, algum corporativismo racista do tipo “primeiro o meu, depois o do judeu”?

Seja lá o que for, é bom que deixemos logo de ser brancos para sermos francos. Já não é possível encontrar inocentes neste roteiro de sutis omissões e comodismo interesseiro.

Se não nos surpreendemos mais com isto, indignemo-nos, pois!Dizem que um dia destes (bem antes da Obamania surgir, claro) um apatetado George W. Bush perguntou ao presidente do Brasil que o visitava:

_”É verdade que vocês tem mesmo negros por lá?”O ‘branco’ Lula, dizem, ficou vermelho e depois sorriu amarelo.Indignemo-nos pois, antes que, sem nenhuma imagem que represente a verdadeira cara do nosso Brasil cor de anil, em resposta a um destes Bushs da vida, só nos reste, dizer:

_ “Tivemos negros sim, mas, com o tempo, eles foram sumindo, sumindo…”

As conclusões mais enfáticas deste artigo, no plano de nossa vida cotidiana, no dia a dia, começam a carecer já de alguma revisão, no bom sentido. Tudo ainda muito incipiente, quase imperceptível. Contudo, seria este um reflexo das políticas de ação afirmativa, tão combatidas quanto ignoradas por nossa renitente mídia ligeira, sempre inerte e omissa como aquele cego que teima em não querer ver?

Deixando de lado este quase interminável rol de invisibilidades de nosso ‘apagão imagético’, siga então em frente e leia também os posts takes 01 e 03 deste eletrizante argumento.

Spírito Santo

Dezembro 2008

Um, Dois, Feijão com Arroz


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Hibridismo Cultural e Mestiçagem

“_O conceito de Hibridismo Cultural converge com a idéia de Mestiçagem que você combate?”…

“_Não. O conceito Hibridismo Cultural não converge, de modo algum, com a idéia de Mestiçagem que eu combato, além do que…”

(Eu, respondendo à alguém que, num dia destes, escreveu a pergunta na borda de uma página do jornal O’ Globo, acerca de duas matérias sobre a questão racial no Brasil)

A resposta – de longa e cabeluda – virou este post.

Culturas híbridas por natureza
Por falar em Diversidade…

Para começar, Hibridismo cultural poderia ser visto como um conceito apenas proposto, descoberto, porque tudo indica que sempre foi uma lei da natureza, tendo a ver, diretamente e no geral com Diversidade.

(Uma idéia puxa outra que puxa a outra que puxa outra… e por aí vai).

O brilhante antropólogo Néstor Garcia Canclini estaria citado aqui sim, com todos louros àquele que, a partir das pistas salpicadas aqui e ali por seus antecessores, capturou com clareza o sentido de um fenômeno social bastante complexo, sistematizando-o no âmbito de sua inovadora antropologia, sempre na intenção de explicar de modo mais aberto e franco possível, o sentido fugidio da natureza humana neste nosso confuso e admirável Mundo Novo.

É por conta desta lenta, porém, segura evolução do pensamento do homem sobre si mesmo expresso na obra de Canclini, entre outros, que hoje já podemos, pelo menos sugerir que a Cultura humana deve – e a Educação também deveria – significar diferentes maneiras de se abordar ou compreender uma mesma coisa, ou vários modos de se realizar uma mesma tarefa, diversos caminhos para se chegar a um mesmo lugar (que, afinal, é quase sempre uma encruzilhada), ou em algum daqueles muitos caminhos que levam à Roma (mesmo para quem não está nem aí para ver o Papa), nesta nossa eterna busca por um destino mais feliz.

–“O Caos e Acaso são a mola e o dínamo do universo!” – Diria aquele sujeito velho e barbudo que assistiu, de camarote ao Big Bang.

O Hibridismo cultural parece ser mesmo uma atitude humana atávica sim porque, pelo que nos poderiam dizer neurocientistas como o Oliver Sachs , ou linguistas como Noam Chomsky, por exemplo, está relacionado à plasticidade maravilhosa do cérebro humano, nossos sentidos, transformando informações apreendidas aqui e ali, num turbilhão de emoções que, por sua vez, se transformando nos mais variados tipos de sinapses e memórias, multiplicadas aos milhões, se transfiguram em nexos, linguagens e conceitos, dos mais concretos aos mais abstratos ou absurdos.

E assim como são as pessoas, seriam as comunidades, as sociedades.

O conceito pode ser considerado, intrinsecamente, humano também porque Cultura sempre pressupõe feedback, transmissor+receptor interagindo, alternando-se, confundindo-se por vias expressas e inversas (porém, nunca estanques).

Mão e contra mão. O Meio virando a Mensagem (e vice versa). Sinergia, movimento, vida.

Gosto muito, nestes momentos, de citar a Música, uma linguagem onde conceitos como Primitivismo e Modernidade carecem, absolutamente de sentido porque a Música (o Som) é um fenômeno que se dá, concomitantemente ao longo do Tempo e do Espaço, área difusa onde o que é passado pode ser também, do mesmo modo, presente ou, até mesmo, futuro.

O fenômeno do hibridismo cultural é pois assim, como a Lei da Relatividade (que já existia antes de Einstein a descobrir). Atemporal e imponderável. Arte e Ciência. Mágica e lógica, ao mesmo tempo.

Seria inconcebível um mundo feito de energia funcionar de outra forma. Uma coisa sempre conteve um pouco da outra. Sim, tudo na natureza – e na cultura dos homens, por extensão – é como carne e unha.

No Socialismo, no Capitalismo, na pré ou na pós-modernidade sempre foi – e, ao que parece, sempre será – mais ou menos, assim (e que novas tecnologias de inteligência artificial não nos contradigam um dia)

_…” As coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender.”_ Já dizia Paulinho da Viola, naquele samba clássico.

Toda mentira tem perna curta
Mas, nem sempre têm um fundo de verdade

Miscigenação não. Aí já se está falando de um conceito artificial, inventado (ou imposto), um conceito desumano (no sentido espúrio da palavra) porque fere, deliberadamente, os princípios mais elementares de nossa natureza.

Transitando por este mesmo assunto, tentei dizer isto naquela outra matéria chamada ‘Salada Mista’ .

É que a velha fonte destas ‘modernas’ teses sobre miscigenação no Brasil, parece mesmo ser a teoria, genericamente, conhecida como Elogio à mestiçagem que propõe, no fundo – nem tão no fundo assim – a diluição das raças, supondo, diabolicamente, que possa haver algum tipo de ganho ou ‘evolução biológica’ (e, conseqüentemente, social, cultural, enfim), a partir de uma ‘mistura’, uma ‘química’, na qual dois elementos, se fundindo, acabariam por se anular, mutuamente, gerando um terceiro elemento ‘melhorado’ e, portanto, geneticamente ‘superior‘ aos dois outros que o geraram.

(Cavernosa teoria. Que tipo de pessoa seria capaz de ficar arquitetando e mastigando idéias assim tão ácidas e venenosas? Com que interesses ou intenções?)

Observem, atentamente, que o ser resultante desta ‘química’, no caso, o Mestiço (aquele que não é nem uma coisa nem outra) ou o Mulato (literalmente o cruzamento entre uma mula e um cavalo), anunciado como sendo superior, geneticamente, aos elementos que o geraram, é sem dúvida, uma entidade, eminentemente racial.

(Homoracial, poderíamos dizer, já que é o inverso da diversidade genética antes existente).

Uma quimera , um frankeinstein social, para usar uma imagem mais enfática.

Ora, vista sob este prisma, a teoria da Mestiçagem é ou não é, tecnicamente, uma tese racista?

A partir da criação artificial de um biotipo ‘menos negro’ (a abolição física do negro, portanto), sub-repticiamente, de mistura em mistura sobreviveria apenas uma raça. Qual? Bingo! A Branca.

Este aspecto sutil, esta subliminaridade contida nesta proposta de mestiçagem, pode denotar a intenção velada, de se destruir apenas um dos elementos da equação, anulando a alegada diferença entre as duas supostas raças.

Ontem o pretexto era acabar com a nossa inferioridade biotípica nacional. Fracassado o projeto de extinção das diferenças raciais no Brasil (previsto no século 19 para durar 100 anos), hoje, a causa é desqualificar a pertinência da adoção de ações reparadoras dos males e seqüelas sociais resultantes da escravidão e do racismo perpetuado (cuja manutenção foi, aliás, ironicamente justificada por estas mesmas teorias).

Como Meio, a deposição da diversidade, a evolução fraudada. Como Fim, a perpetuação de privilégios coloniais.

Por isto, é bom se ressaltar também que, no campo de debate, digamos assim, mais acadêmico, a confusão estabelecida entre Hibridismo Cultural e Mestiçagem é, pelo menos para mim, completamente artificial e propositalmente criada para confundir mesmo (no que aliás, tem sido bem eficiente, pelo menos com os mais crédulos).

_”‘Uma insanidade digna de tarados”_ Diria alguém mais desprovido de fino trato.

O Sofisma de Galton
O primo rico e o primo pobre

Pois saibam os que ainda não sabiam – e fiquem de cabelo em pé sem medo de vexame –  que Charles Darwin , gênio da Teoria da Origem e da Evolução das Espécies, apóstolo da Diversidade, tinha um primo (dizem que também cunhado) que era grande admirador da extraordinária obra do parente. Ele (pobre apenas de genialidade já que, na verdade, era tão rico quanto Darwin) se chamava Francis Galton e foi quem criou a teoria da Eugenia ou do ‘depuramento genético’, que aparece como marca indelével na alma destas teorias de miscigenação aqui aludidas.

(Idéia pela qual, como já disse em outra oportunidade, além de figuraças como Chamberlain , Gobineau e Lombroso, militaram também, entre outros brasileiros adeptos de primeira hora, Nina Rodrigues e Gilberto Freire).

Segundo esta estapafúrdia teoria (grosseiramente baseada no trabalho de Darwin, mas, muito calcada nas teses de Gregor Mendel) se poderia ir identificando supostos defeitos genéticos em certos tipos humanos ‘degenerados’ e, gradativamente, ir se criando restrições à procriação destes indivíduos, portadores destes eventuais ‘defeitos de fábrica’, criando obstáculos legais para o casamento entre eles, esterilizando-os, ou mesmo assassinado-os em genocídios programados como mais tarde fizeram os nazistas, a partir destas mesmas idéias….‘científicas’ (e os admiradores de Galton, curiosamente afirmam que ele não teve nada a ver com isto).

(Pesquisando, agora mesmo, algumas imagens sobre o tema, tive que parar a busca por causa da náusea e dos engulhos provocados pela visão de tantas aberrações perpetradas em nome destas teorias)

Desta forma, segundo o outrora respeitadíssimo Galton, se iria depurando a espécie humana (vejam bem, só por aí, a que tipo de armadilha social pôde nos levar a ‘admiração‘ de Galton pela obra do primo).

Darwin, como sabemos, propôs em 1859 – e provou – que a natureza, através de um processo muitíssimo lento e meticuloso, ao longo de milhares, milhões de anos às vezes, iria selecionando o melhor de cada uma das espécies existentes na natureza. Era a evolução flagrada, testemunhada, a partir de uma lógica de um sistema planetário, ecológico, inquestionável.

Galton (não se sabe se por admiração ou para suplantar o primo-cunhado), se propôs a fazer a partir de 1865, exatamente, a mesma coisa, só que, apenas com…gente, e bem rapidinho, substituindo a lógica da natureza pela discricionária vontade de um grupo qualquer (uma elite de cientistas, talvez) que tivesse poder sobre os demais. Uns decidindo quais características biológicas, genéticas (e, portanto‘ raciais’) mereceriam se tornar hegemônicas na humanidade.

Sacaram aí onde se poderia encaixar, facilmente, a teoria da mestiçagem?

(Curiosamente este processo – conhecido, a grosso modo, como Engenharia Genética – é muito utilizado hoje em dia na produção de alimentos na indústria e na agricultura, como no caso dos transgênicos).

O mais surpreendente é que Galton não tenha se dado conta da estupidez flagrante desta sua tal de Eugenia, mesmo depois de ter descoberto – sim, ele mesmo! – a papiloscopia, eficiente e, até hoje, insuperável recurso utilizado na identificação de criminosos, ou mesmo indivíduos em geral, baseado na análise de vestígios conhecidos como impressões digitais, prova cabal de que nós, seres humanos, apesar de semelhantes, somos seres individualizados, realmente únicos, inigualáveis, o que cria obstáculos insuperáveis para que se possa controlar, cientificamente, o resultado de uma mistura de gente assim com gente assado.

A teoria do Galton, logo se viu (pelo menos para nós humanos), era lixo puro. Deveria ter desaparecido com Joseph Mengele, mas, como se vê, ela sempre ressurge como uma hidra reciclada, a nos assombrar com a suas mil cabeças e sentidos maquiavélicos.

Hoje em dia, no calor de discussões sobre a necessidade de se reparar ou não (e de que forma) danos e injustiças evidentes de um sistema social iníquo que, surgido sob as bases do sórdido escravismo colonial, por intermédio da subalternização de pessoas, a partir de então identificadas – e hierarquizadas – pelos traços físicos e evidências de sua maior ou menor ancestralidade africana ou indígena (ou não branca, em suma) como vetustos fantasmas eruditos, as bases mais evidentes daquelas teorias parece que estão sendo ressuscitadas por aí.

Alguns subestimam as evidências, julgando-as mera ‘teoria da conspiração’, mas há que se refletir bastante, acerca das reais intenções de reações e oposições que, se apoiando, de forma muitas vezes capciosa, em sofismas evidentes (além de certas distorções semânticas), podem ser classificadas como causa militante de um articulado grupo que chamo, simplesmente de  Anti-abolicionistas tardios.

Então, recapitulando só para clarear:

1- O conceito Miscigenação ou Mestiçagem (no sentido estrito com que a palavra é utilizada nesta discussão) parece ter relação direta com as teorias racistas que distorceram – com o intuito talvez de embasar, teoricamente, o neo-colonialismo – o conceito Diversidade, inaugurado por Charles Darwin, fundado, como se sabe, no princípio da Evolução Natural das Espécies, modernamente inserido nas discussões sobre a degradação ambiental do planeta, sob o nome de Bio-Diversidade.

2-‘Elogio à mestiçagem’, ‘Evolução artificial’ ou ‘Eugenia positiva’, se parecem com formas, espertamente, abrandadas de se definir aquelas mesmas ideologias racistas, que julgamos, até prova em contrário, varridas da história da humanidade, por culpa de suas perniciosas e notórias consequências, devidamente atestadas no passado.

3- O conceito Hibridismo, entendido aqui como um processo cultural contemporâneo, ligado ou não à modernidade de nossa civilização ora globalizada, não contradiz o princípio Diversidade porque Híbrido em nenhum aspecto NÃO quer dizer, de modo algum, diluído, misturado.

“Híbrido designa um cruzamento genético entre duas espécies vegetais ou animais distintas, que geralmente não podem ter descendência devido aos seus genes incompatíveis. Este fenômeno foi estudado pela primeira vez em plantas por Kölreuter durante o século XVIII, embora existam citações mais antigas sobre esse assunto, tanto em plantas como em animais.

Algumas dessas novas espécies ainda são produzidas até hoje através do cruzamento entre espécies, essencialmente para serem usadas como atrações de shows e locais turísticos. Atualmente, os cientistas estão tentando recriar o mamute, animal pré-histórico, através de inseminação artificial de sêmen destes animais (que foram encontrados congelados em algumas partes do planeta) em fêmeas de elefante, que são seus parentes modernos. Se conseguirem, este animal será um híbrido de elefante com mamute, e provavelmente também será estéril.”

(Confira em wikipédia)

As aparências…

(Fico surpreso mesmo é que exista tão pouca gente debatendo, contrapondo, publicamente, as afirmações equivocadas e perniciosas desta gente aqui no Brasil, principalmente em órgãos da imprensa como o jornal O’ Globo).

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O mesmo Charles Darwin, coerentemente, quando esteve no Brasil em 1832, manifestou a sua firme decepção diante da nossa aguda crueldade social (indignado com a escravidão).

Incrível que já se tenham passado bem mais de cento e cinqüenta anos sem que, quase nenhuma alteração em nossas relações sócio-raciais possa ser, claramente, vislumbrada no horizonte.

Nenhum pequeno navio chamado ‘Beagle’ ancorado ao largo. Nenhuma espécie de real evolução à vista.

Spírito Santo

Janeiro 2008

(Êpa! Alto lá! Porque você não leu os links? Saiba que o molho do post está neles)