Salada Mista


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Foto Tadeu Brunelli
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Elogio á Mestiçagem, Democracia Racial e outros picantes ingredientes

“ O Neguinho gostou da filha da ‘madame’
Que nós tratamos de Sinhá.
Senhorita também gostou do Neguinho
Mas o Neguinho não tem dinheiro pra gastar
A ‘madame’ tem preconceito de cor
Não pode aceitar este amor.
Senhorita foi morar lá na ‘Colina’
Com o Neguinho
Que hoje é compositor.”

(Samba de Noel Rosa de Oliveira, e Abelardo da Silva, anos 60)

Existem várias analogias culinárias que podem ser feitas quando se fala das diferenças sócio culturais existentes na composição da população de um país e suas diversas possibilidades de mistura, amálgama, (no Brasil uma questão tornada particularmente complexa por conta de nossa peculiar estratificação sócio racial). Já foram tentadas várias receitas para tão ansiada refeição mas, até agora, nenhuma realmente apeteceu à clientela.

A primeira – e mais óbvia- analogia que me ocorre é a do Omelete, aquela que diz que para fazer um é preciso ‘quebrar os ovos’ . É a mais radical e cruel porque cria um problema terrível para a galinha, mãe eventual dos pobres pintinhos que nasceriam. A outra, mais ‘light’ é a da Vitamina, na qual um liquidificador mistura tudo numa pasta uniforme, fazendo os ingredientes originais, geralmente frutas ou legumes da estação, perderem inteiramente a, digamos assim, identidade.

Para mim, a mais pertinente é mesmo esta que uso agora, principalmente por causa da certa dose de ironia que ela contém: A Salada Mista. Nela os ingredientes se misturam, partilham algum tempero comum, mas mantêm-se íntegros, apesar de estarem picados em muitos pedacinhos. Acho a Salada Mista uma boa analogia para Diversidade Cultural.

Esta questão, a nosso ver, mãe de quase todas as contradições e conflitos brasileiros, está na discussão sobre as influências exercidas pelas culturas ditas ‘hegemônicas’ sobre culturas ditas mais frágeis (ingrediente principal da xenofobia). Neste ‘conversê’ sem fim sobre preservar ou não preservar a nossa ‘cultura popular’, ainda chamada por alguns de ‘Folclore (esta palavrinha tão vã que mais esconde do que explica o que quer mesmo dizer ‘Cultura do povo’).

Está na violência urbana, na contagem de corpos e nas balas perdidas que animam nossos debates cotidianos (afinal, quem morre mais, o favelado trabalhador quiçá traficante ou a classe média trabalhadora quiçá consumidora de drogas?). Está até nas conversas sobre o futuro de nossas crianças (afinal, um negão de 13 anos, com um metro e oitenta de altura merece ou não ser tratado como uma criança?). Está, em suma, contaminando todos os espaços do nosso cada vez mais tenso dia a dia.

O tema, passeando cada vez mais pelas entrelinhas deste nosso site, talvez seja hoje a mais importante questão brasileira: Entender, timtim-por-timtim, a maneira como, dividindo o Brasil em castas raciais se construiu (e se mantêm até hoje) uma das sociedades mais desiguais do planeta e, de como agora, extremamente divididos, porém, perdidos no mesmo ‘mato sem cachorro’, vamos nos livrar da arapuca social na qual, por pura babaquice e egoísmo nos metemos.

A conversa passeia também – e principalmente até- pelas centenas de subterfúgios e ‘panos quentes’ que boa parte de nossa elite bem pensante, a nossa indefectível Academia (ou ‘inteligentsia’, para usar, na falta de outro melhor, um termo já bem arcaico) e mesmo a nossa sociedade como um todo, se utilizam para desconversar, tergiversar e manter as coisas exatamente como estão.

Como estamos falando de gente, de cultura humana, a esta altura deve caber bem a pergunta: Qual receita seria a mais recomendada para conseguirmos (em se tratando de Brasil, é claro), uma sociedade sem conflitos sócio culturais tão violentos? (O garçom mais próximo pode fazer a pergunta : )

_ ‘Omelete, Vitamina ou a Salada Mista, freguês?’

A VITAMINA
Descrevendo as receitas

…”Ao que parece o termo (Democracia racial) foi usado pela primeira vez por Arthur Ramos (1943), em 1941, durante um seminário de discussão sobre a democracia no mundo pós-fascista (Campos 2002). Roger Bastide, num artigo publicado no Diário de S. Paulo em 31 de março de 1944, no qual se reporta a uma visita feita a Gilberto Freyre, em Apipucos, Recife, também usa a expressão, o que indica que apenas nos 1940 ela começa a ser utilizada pelos intelectuais. Teriam Ramos ou Bastide cunhado a expressão ou a ouvido de Freyre? Provavelmente, trata-se de uma tradução livre das idéias de Freyre sobre a democracia brasileira. Este, como é sabido, desde o meados dos 1930, já falava em “democracia social” com o exato sentido que Ramos e Bastide emprestavam à “democracia racial”; ainda que, nos seus escritos, Gilberto utilize a expressão sinônima “democracia étnica” apenas a partir de suas conferências na Universidade da Bahia, em 1943.

(Texto-tese de Antonio Sérgio Alfredo Guimarães -Departamento de Sociologia /Universidade de São Paulo)

Dos anos mais efervescentes do movimento abolicionista no Brasil à década de 30 do século seguinte, uma nova iguaria apeteceu a certa bem apessoada rapaziada: Elegantes em seus librés (logo depois envergando vistosos fraques em conferências internacionais), estes jovens rapazes gritariam em coro para o garçom:

_ ‘A vitamina, senhor! Vitamina para todos!’

É que preconizavam com um empenho falsamente cívico o que de melhor se poderia fazer com os escravos: desaparecer com aquela ‘mancha negra’ transformando os africanos, progressivamente (num processo de cem anos, diziam os mais cartesianos), em seres mistos, nem brancos nem pretos, mestiços (as teorias não explicam se no preparo da receita desapareceriam também os brancos).

A história da tese que ficou conhecida como ‘elogio á mestiçagem’, irmã dileta desta outra tese controversa, a ‘Democracia Racial’ é antiga. Ela esteve muito em voga até os anos 30 do século passado (na verdade ainda hoje é defendida por alguns seguidores). Seus principais formuladores, de uma ponta á outra, foram intelectuais como Silvio Romero, Graça Aranha, Joaquim Nabuco e, já no século 20 também entre outros, o sociólogo oficial do Brasil Gilberto Freyre.

Como se sabe, estas paradigmáticas teorias nasceram, pelo menos como conceito, como uma proposta que resolveria o problema gerado por aquela massa enorme de seres humanos negros que o sistema de trabalho escravo arrancou da África e espalhou pelo mundo, uma massa humana liberta por injunções muito mais econômicas do que humanitárias e, portanto a boca pequena considerada ainda pouco mais que escória.
Lentz, um dos personagens centrais do livro Canaã de Graça Aranha afirma a certa altura:

_”O homem brasileiro não é um factor do progresso: é um híbrido. E a civilização não se fará jamais nas raças inferiores” (…) “Não acredito que da fusão com espécies radicalmente incapazes resulte uma raça sobre que se possa desenvolver a civilização. Será sempre uma cultura inferior, civilização de mulatos, eternos escravos em revoltas e quedas. Enquanto não se eliminar a raça que é o produto de tal fusão, a civilização será sempre um mistério, o artificio (…) Até agora, não vejo probalidade da raça negra atingir a civilização dos brancos”.

Ao que Milkau, o personagem antagonista contrapunha, fazendo o seu ‘elogio da mestiçagem’:

_”O tempo da África chegará. As raças civilizam-se pela fusão; é no encontro das raças adiantadas com as raças selvagens, que está o repouso conservador, o milagre do rejuvenescimento da civilização “(…) Eu tenho para mim que o progresso se fará num evolução constante e indefinida”

O mito do homem mestiço: Eis aqui o que parece ser enfim a chave de tudo para esta corrente de pensamento. A quem interessaria tamanha utopia? A inexistência total de diferenças biotipicas ou (‘estético-raciais’) seria cientificamente possível? A simples padronização ‘racial’ das pessoas removeria, num passe de mágica, as diferenças sociais? Se não, para que serviria então?

É preciso, contudo, situar a questão em seu devido contexto histórico porque, se no campo da precária biologia do século 19, se considerava cabal a existência de superioridade racial entre seres humanos (que justificaria a assimilação – ou a diluição – de uma raça pela outra), hoje até o próprio conceito absoluto sobre a existência de raças humanas está superado. Assim, propor ou sugerir a ‘mestiçagem’ como solução para tão candente problema social, não era naquela época, uma idéia tão absurda assim. Menos mal.

É nesse contexto que devem ser considerados, por exemplo, certos aspectos bem sucedidos da sociologia de Gilberto Freyre (o que não deve redimir, de forma alguma, a perniciosidade e os equívocos clássicos de sua ideologia)

O OMELETE
(Pobres dos pintinhos)

Assim, ali por volta de 1930, 40, alguns europeus de bigodinhos, reunidos numa mesa ao fundo, ao serem inquiridos pelo garçom responderiam excitados:

_’Omeletes, senhor!’ De sobremesa, Vitaminas!’

É que para uns não havia jeito melhor de melhorar a raça humana do que separar os espécimes ‘superiores’, os ‘puro sangue’, os de ‘pedigree’ e desaparecer com o resto, inclusive os ‘vira-latas’, transformando a ralé em torrada, num forno crematório qualquer.

Para outros, contudo, o desaparecimento dos ‘inferiores’ deveria se dar por meio de métodos mais científicos ou ‘humanitários’: Um liquidificador genético resolveria o problema. Um projeto que, como veremos a seguir, não tinha mesmo nada de científico (e muito menos de humanitário).

(Aqui, antes de tudo, uma necessária afirmação de firme e ampla discordância diante dos partidários da Vitamina ou da Mestiçagem. É preciso – me permitam – fazer uso da ênfase nesta hora, á este ponto de uma questão que é por razões óbvias, crucial).

Frisemos que o contexto onde atuaram Gobineau, Lombroso, Chamberlain, Nina Rodrigues e, porque não dizer, Gilberto Freyre, foi o mesmo que gerou as teorias nazistas na década de 30. Não foram idéias apenas simplificadoras’ ou ‘evolucionistas’. Foram idéias profunda e claramente interessadas em criar um novo paradigma de civilização, um método ‘científico’ para a classificação e a sujeição de pessoas, num novo ambiente geopolítico denominado Colonialismo.

Apenas para exemplificar o alto grau de assumida perniciosidade destas idéias, basta citar o trabalho militante do próprio Gilberto Freyre, no final da década de 30 do século 20, a serviço do governo ditatorial de Antonio de Oliveira Salazar, como um dos ideólogos que contribuiram para a criação e a implantação de um sistema institucional de controle e subjugação das populações das colônias de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau e Príncipe denominado ‘Lei do Indigenato’, código similar aquele engendrado pelos africâners, na África do Sul, que dispensa comentários: o insidioso ‘Apartheid’.

O antropólogo angolano José Maianga, em texto publicado pela Revista afro-lusitana África, a este respeito nos esclarece cabalmente o seguinte:

“O indigenato, institucionalizado pelo regime salazarista (‘Estatuto dos Indígenas Portugueses das Províncias da Guiné, Angola e Moçambique’) era um diploma aplicado apenas às situações jurídicas dos indígenas africanos num país que, constitucionalmente, se dizia subordinado ‘à moral ao direito e às garantias e liberdades individuais’.

Este diploma traduzia, sem dúvida, a sujeição plena dos africanos ao colonizador e a uma prática assimiliacionista que se afundava no mar de contradições por onde navegava…”

As afirmações não são de forma alguma novas. Alguns estudiosos estão no momento fazendo uma ampla revisão da obra de Freyre neste mesmo sentido. As idéias originais dele, no entanto, impregnadas em quase tudo que se escreveu sobre o negro – e os pobres- do Brasil -, estão infelizmente, ainda em voga por aí e, o que é pior, defendidas por novas teorias e embasamentos que tentam afirmar Freyre como uma espécie de gênio mal lido e incompreendido.

Não é possível, portanto, entender os processos de evolução da cultura brasileira, por exemplo, dissociando-os deste contexto sombrio que o cineasta Ingmar Bergmam, muito apropriadamente chamou num filme clássico de “O Ovo da Serpente”

No Haiti não existem ‘brancos’. Lá, a classe média ‘mulâtre’ oprime os ‘mais’ negros. O nazismo separava pessoas absolutamente brancas e as mandava á morte, baseando-se em diferenças físicas cosméticas: um nariz mais adunco, olhos pretos, etc. Claro que racismo não tem nenhum fundamento ‘científico’ ou ‘biológico’. Se baseia em pretextos, desculpas esfarrapadas.’Mitos’ em suma. Um cuidado que deve ser observado por todos que se dedicam a este assunto.

Ingênuas, marcadas talvez por certa dose de crueldade e frieza sim, mas, de modo algum absurdas para a época, as propostas que animaram os sociólogos da primeira metade do século perderam a força exatamente quando se soube o que de fato elas representavam: Grosseiros equívocos. É isto que torna mais surpreendente o fato de existirem ainda hoje correntes de pensamento defendendo propostas semelhantes no Brasil, em pleno século 21, quando a panela de pressão da nossa conturbada sociedade já apita o sinal óbvio que diz:

_‘Cuidado! Abra a válvula que estamos prestes a explodir’.

A SALADA MISTA
e a sabedoria dos gibis

Há também, pode-se observar embutida na argumentação, uma forçada e esdrúxula associação entre ‘nacionalismo retrógrado’ (de novo a xenofobia) e a ‘admissão de que há racismo no Brasil’. Admitir ou sugerir com um pouco mais de ênfase a existência de racismo no Brasil seria um comportamento ‘ultrapassado’, ‘de modè, expediente muito usado como uma – muito eficiente inclusive- tática para se desqualificar discursos antagônicos.

Esta questão, aliás, traz á luz o que parece ser o segundo eixo da questão: Afinal, porque será que em certos setores de nossa ‘inteligentsia’, se nega tanto e de forma tão estranhamente peremptória (com argumentos tão mal fundamentados), a existência de racismo no Brasil? Existiriam intenções nessa negativa tão insistente?

Negar a existência do monstro, todo mundo sabe, não vai jamais matar o bicho.

É preciso aprofundar também outros aspectos cruciais do racismo brasileiro (na verdade de todos os racismos). O fato de cientificamente não existirem raças não significa que não exista racismo. Não é um argumento pertinente nem mesmo aceitável. Vamos combinar, francamente: Racismo é um estúpido instrumento de dominação social, uma praga da humanidade.

A sociedade brasileira é altamente excludente, certo? Não é preciso ser uma sumidade acadêmica para identificar qual é o instrumento de exclusão mais eficiente utilizado por aqui. Bingo para quem disser Racismo.

E vamos acabar também com esta falsa dicotomia: Problema Racial e Problema Social não são conceitos opostos ou divergentes. Um é a carne, o outro é a unha. Um não poderia, de modo algum, existir sem o outro.

Para qualquer um que sofre racismo ‘na pele’ fica evidente que o racista usa apenas um pretexto covarde, para discriminar: É fácil: Basta destacar uma diferença biológica qualquer e subestimá-la, demonizá-la, impondo uma marca, um estigma para identificar os portadores daquela suposta ‘deficiência’. O fisicamente diferente é declarado inferior e pronto.

Do ponto de vista de quem quer discriminar, dependendo de seu interesse, ‘negros’ serão portanto, todos aqueles que, visivelmente, não se parecerem com ‘brancos’. No exercício da discriminação não existem ‘mulatos’, ‘mestiços’, ‘pardos’, todos são’ marrons’, inferiores, não por terem este ou aquele tom de pele, mas porque ‘não são brancos’. Ponto

Quando em minoria, no entanto, diante de algum interesse, alguma vantagem a ser obtida junto aos ‘marrons’, a hierarquização das ‘cores’ passa a ser muito proveitosa para a ‘raça’ hegemônica (a que está no poder). Pura política.

A história humana está cheia de estratagemas como estes, nos quais com a finalidade de obter vantagens junto a um grupo estranho, nos associamos a um amigo ‘nativo’. É uma prática recorrente demais para não ser notada. Até mesmo nos saudosos gibis da infância de alguns de nós o arquetípico estratagema aparece.

Quem não sacou isto na função dramática do índio ‘Tonto’, amigão do Zorro norte americano ou na fidelidade á toda prova do gigante ’Lotar’, guarda costas do Mandrake. Quem não notou esta solidariedade esperta, interessada, no olhar do Fantasma, ‘Espirito- Que- Anda’ para o pigmeu Guran, seu fiel aliado, do alto do seu trono na caverna da caveira?

Descontando a paranóia nacionalista de alguns, no âmbito de nossa cultura contemporânea isto pode estar ocorrendo também com alguma frequência. Você louva, aprende, assimila e pratica a cultura que um dia foi exclusiva (não que o pobre coitado quisesse se isolar) do negro ou do índio, do nordestino – tanto faz- mas não se importa muito que ele permaneça ad infinitun socialmente excluído, lá ‘no morro’, na selva ou no sertão.

No processo você aprende a fazer Samba, Maracatu, a tomar chá do Santo Daime e a ficar doidão sem culpa. É bom. É politicamente correto. Dá a você certo charme democrático, uma espécie de certificado de ‘responsabilidade social’ mas, e daí?

 O problema é que ‘Ele’, o ‘Outro’, continua lá no seu canto, estressado de carências, fazendo o seu Funk pesadão. Cria-se assim (colocando os não brancos todos no mesmo saco) uma espécie de ‘Cultura negra sem negros’ e a gente não sabe muito bem no que isto vai dar. Se o cara não ficar rico fazendo Hip Hop, pode um belo dia dar um tiro em você.

Se for mesmo, como julgamos, além de uma mistificação cultural, uma impossibilidade genética em termos (não existem raças humanas, lembram-se?), A Mestiçagem, como conceito democratizador não passa mesmo é de um cruel sofisma. E esta tem sido a lógica do Sistema de castas ‘raciais’ no Brasil.

Todas as receitas de democracia racial (com ou sem eufemismo) em voga atualmente contêm um mesmo e azedo ingrediente, um mal crônico que lhes tira todo o sabor: Redistribuem valores culturais, garantindo a certo grupo certas vantagens deles advindas, sem mudar as pessoas de lugar na pirâmide. Os que possuem quase tudo passam a possuir mais ainda. É a lógica fria de nossa elite predadora. A lei do mais forte. Qual é a novidade nisto aí?

(Agora, sem maniqueísmos, por favor)

Todo mundo sabe que este comportamento não é uma coisa assim percebida, exercida individualmente, mas, é um procedimento, praticado pela grande maioria dos ‘brancos’ do Brasil, diariamente, muitas vezes até de forma ingênua, um comportamento padrão, arraigado, especializado por séculos de prática.

E saibam também que não é uma coisa fácil de extirpar não. É exatamente este o conteúdo subreptício, a essência de conceitos como a chamada ‘democracia racial’ e seus sucedâneos: dar sustentação, argumentos, justificativa teórica para esta deslavada contradição.

(Cabe aqui inclusive duas perguntinhas pra lá de capciosas: Ao propor a miscigenação geral como panacéia para os males do Brasil, da mesma forma que o ‘negro’, o ‘branco’ também desapareceria? Propor assim, de forma tão efetiva o desaparecimento de uma ou de outra ‘raça’ não é, classicamente, o mesmo que exercer racismo?)

Teorias… Um perigo latente para qualquer democracia, ainda mais a nossa que está patinando em sua reconstrução.

Como sempre – e pra finalizar- o melhor é dizer isto tudo com um Samba.

“Todo mundo era bom
todo mundo era legal
lá só dava gente bem
madame e fulano de tal
quando no meio da festa
reclamei com o Samuel:
Você diz que esta gente é honesta?
Já roubaram meu chapéu!

Não fico mais
em sua casa ô Samuel
aqui só tem eu de preto
mas não faço este papel
Não fico mais
em sua casa ô Samuel.
Você vai pagar meu chapéu”.

(Samba muito popular nos anos 70)

Spírito Santo

Abril,  2007

http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/2.5/br/

Brasil Afro #03 – Ainda Palmares e um necessário parentese africano


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Clique na foto e a amplie. Fique chapadão como eu. Na gravura do pintor holandês Olferd Dapper, uma vista panoramica da incrível – e enorme – capital do ‘reino’ do Loango no século 17. O Loango era um sobado suserano (um reino menor e subalterno) do grande Reino do Kongo que, pode-se ver agora, devia ser muito maior do que imaginávamos.

(Leia os sensacionais posts #01, #o2 e desta série)

Se liga galera: Negros não nascem de pés de repolho

Eu sei. Promessa é dívida. Fiquei de desvendar um segredo crucial desta saga angolana no Brasil: O mito do menino Zumbi sequestrado.

Vou cumpri-lo, claro, mas me dei conta agora mesmo de que vocês estão – como eu estava –boiando totalmente nesta história, na História maiúscula desta gente preta que deu no que somos hoje todos nós.

Incrível, mas vocês não sabem de nada. Cegos em tiroteio. Também não é para menos: Ninguém se deu ao trabalho de colocar esta parte da nossa história num livro didático. Numa ou noutra tese de doutores ela está, mas quem lê teses de doutores? O certo é que – sabe-se lá quem – falsearam, forjaram e omitiram totalmente de nós alguns detalhes.

Negros não nasceram de pés de repolho, não é mesmo? Estamos aqui porque nossos parentes vieram de algum lugar.

Daí ficarmos assim, achando que nosso jeito africano de ser surgiu – sem desmerecer os silvícolas ameríndios que também somos – da improvisação, do atavismo de um bando de selvagens de tanga, arco e flecha, envolvidos em ritos bárbaros e trazidos à força para um ‘civilizado’ Brasil.

Mentira deslavada, sabe-se lá por quem lançada. E nem nos interessa mais saber por quê. Cuidemos de, cabalmente desmenti-las e pronto. Vocês verão que o segredo impressionante que estou guardando sobre a farsa do menino Zumbi sequestrado – o tcham tcham tcham tcham desta série – fará muito mais sentido depois deste mergulho na mais remota história de nós mesmos, negros e brancos do Brasil.

Não precisa nem dizer: Eu sei que você, brasileiro (ou angolano), estudou bastante história portuguesa no ginásio. Dom Sebastião, o venturoso, batalha de Alcacerkibir, sei lá, estas coisas aí bem ‘trás-os-montes’. É hora de perguntar então (pelo menos os brasileiros): Porque não nos ensinaram a história de Angola?

A hora é esta então: Em vez da história da nobreza portuguesa, coloquemos  em foco, aqui e agora, a história gloriosa de nossa própria e preta nobreza de descendentes de lá dos ‘trás-os-oceanos’.

Sim por que, no século 17 – época na qual o Kilombo de Palmares cresceu e prosperou – Angola e Brasil eram praticamente uma colônia só. Tudo nos unia, até mesmo as guerras. A maioria esmagadora dos negros de Palmares veio dos reinos do Kongo e de Angola.

Ué?! Não te contaram isto não?

Há um lençol pudico, uma névoa de censura envergonhada cobrindo o nosso espelho étnico neste em em muitos outros aspectos – e este é o tema central desta série de posts – nossa imagem africana real precisa ser revelada. Vamos pensar mais nisto então, enquanto corremos atrás do que nos diz respeito?

África. Século 12, 13, por aí:

Ndongo, reinos do Kongo e de Angola

Tendo Lukenyi Lua Nzama como mãe e Nimi a Nzima como pai, Nimi a Lukenyi, tido como o patriarca do povo Kimbundo, pelo que se conta, era um moço caçador que vindo dos lados do rio Kwangu se estabelecera com sua gente em Lemba, localidade perto do Matadi, bem próximo ao estuário do Rio Kongo. As migrações africanas que geraram o que seria mais tarde o império do Kongo, com um dos clãs chefiados por este Nimi a Lukenyi foram contemporâneas ás invasões bárbaras na Europa no século 14, mais ou menos na mesma época de Joana D’arc, na França.

Em Janeiro de 1482 D. João II, já entronizado como rei, ordena que o navegador Diogo Cão parta em viagem de prospecção e “descobrimento” da costa de África. Em 1483 ele chega à foz do Rio Zaire. Volta uns meses depois e se depara com muitos nativos com os quais não consegue estabelecer muita conversa, exceto sugerir que voltará daí a pouco tempo e que gostaria de conhecer o rei de todo aquele país. Deixa por lá desta vez quatro padres franciscanos com a incumbência de irem até onde reside o rei do lugar.

Em Abril de 1484 Cão sai de Lisboa para a segunda expedição a África. Nesta sua volta ao Kongo, aguarda por muito tempo pela chegada de padres que havia deixado na viagem anterior. Não há sinal dos franciscanos. Gente totalmente desconhecida para os habitantes da terra os padres haviam sido levados á presença do soberano local no interior da selva e de lá não puderam se afastar, segundo disseram mais tarde, por causa da enorme curiosidade dos nativos pelo que eles contaram acerca dos estranhos hábitos dos brancos, além da curiosidade que eles mesmos tiveram acerca dos hábitos dos nativos.

Deduzindo talvez (os textos são ambíguos quanto a isto) que os padres poderiam ter sido capturados ou mortos, Diogo decide levar como reféns em seu retorno para Portugal, um grupo de naturais da terra que, também por mera curiosidade, haviam entrado no navio. Os documentos afirmam que entre estes curiosos visitantes do navio, naturalmente uma expedição com o intuito de investigar quem eram aqueles homens ‘albinos’, estava Kassuta, o filho do atual soberano local, Nzinga Nkuwu.

Levados á Lisboa, direto para a presença do rei e, por conta do longo tempo da viagem, já falando alguma coisa de português, Kassuta, filho de Nzinga Nkuwu e seu séquito ficam em Portugal por cerca de dois anos, segundo os relatos portugueses sendo muito bem tratados na Corte de Lisboa. Bem vestidos á moda local e convertidos ao cristianismo, este embaixadores involuntários teriam sido encorajadas á servirem de intérpretes dos portugueses que os devolvem ao Kongo em 1487.

Desta vez Digo Cão é realmente levado á Mbanza Kongo (‘Mbanza’ significa ‘capital’ na língua local, o kimbundo) do que passou a ser conhecido como o Reino do Kongo. Recebido com uma grande festa, os portugueses reencontram sãos e salvos os quatro padres franciscanos. O rei do Kongo reencontra com muita alegria os seus compatriotas e seu filho que, embora vestidos de forma tão espalhafatosa, depois de encantados com a influencia dos costumes de Portugal, parecem estar muito bem.

Inicia-se assim, com pompa e circunstância, o que o historiador inglês Basil Davidson chamou de os ‘anos de provação‘ para o sudoeste da África. Em 19 de Dezembro 1490, o sucessor de Diogo Cão, Gonçalo de Sousa, sai de Lisboa para mais uma viagem à costa africana, mas morre a meio caminho sendo o comando entregue a Rui de Sousa.

A cronologia dos ‘anos de provação’ 1

A história africana desta época, no que diz respeito á nós, brasileiros, começa portanto em 1482 com o MweneKongo Nzinga a Nkuwu 2 (pai de Kassuta), reinando sobre a vasta região denominada Kongo no tempo em que o primeiro navegador português Diogo Cão, chegou ao Matadi. A era de Nzinga Nkuwu, batizado de D. João da Silva (D. João ‘Da Selva’), em homenagem a D.João II, rei de Portugal (o D.João ‘da Cidade’), como não poderia deixar de ser, foi marcada por muitos conflitos e divergências ligados a sua sucessão, demasiadamente influenciada pelo seu interesse pelas coisas de Portugal, fortemente defendidos por seu filho Kassuta.

É provavelmente este príncipe Kassuta que, voltando para o Kongo educado sob os moldes cristãos, maravilhado com a cultura portuguesa aprendida em Lisboa durante a interesseira hospitalidade do rei D. João II, quem mais tarde coroado como o rei MweneKongo Nzinga a Mbemba (D.Afonso I), transfere a capital (Mbanza) e inicia o sangrento processo de certa sujeição do Kongo aos interesses de Portugal. No ano de 1512 D.Afonso I, escreve ao Papa Júlio II, submetendo-se ao cristianismo e apresentando seu filho D. Henrique como seu representante.

As divergências internas suscitadas pela total submissão da nobreza do Kongo aos interesses de Portugal, acabou provocando um cisma de grandes proporções entre os reinos vassalos (comandados por membros da mesma família ou clã) e a população em geral. Duas correntes principais se formaram. A primeira, que era integrada por aqueles que aceitavam a influência estrangeira, queria modificar tudo no Kongo, suas instituições, sua religião, etc. e era comandada por Nzinga a Mbemba (o mais velho, segundo na linha de sucessão). A outra corrente, liderada por Nzinga A Mpanzu (o mais novo, primeiro na linha de sucessão) se esforçava então para combater tudo que fosse estranho aos costumes tradicionais da terra.

Nzinga a Mpanzu que é o herdeiro legítimo á sucessão do pai, assume o seu lugar mas é logo deposto pelo irmão Kassuta, com a ajuda de padres  jesuítas, agentes de Portugal. Nzinga Mpanzu acaba sendo expulso da mbanza (sede) Kongo, tendo que se refugiar no reino vizinho, terras do Muene Nsundi. Nzinga a Mbemba (Kassuta), já cristianizado, recebe então o nome de D.Afonso I e assume o trono ali por volta de 1506.

Nzinga a Mbemba não era simplesmente um rei subserviente, ele era na verdade um tipo ingênuo de visionário, que se julgando grande amigo de D.Manoel I, rei de Portugal – com quem trocava ampla correspondência, sob o tratamento mútuo de “Irmãos Reais” – imaginava poder obter certas vantagens comerciais e tecnológicas dos brancos.

Suas decisões devem ser compreendidas, portanto no âmbito de uma conjuntura política na qual alguns reinos que deviam vassalagem ao Kongo, conspiravam intensamente contra a liderança dele, Nzinga Mbemba, que acabou vendo na aliança com Portugal sua melhor garantia para manter e perpetuar seu poder. É neste contexto que Mbemba, ‘rei do Kongo’ chega a declarar numa carta á D.Manoel o seu desejo de obter a tecnologia para a construção de caravelas, com o fim óbvio de expandir suas fronteiras comerciais e se impor diante de reinos rebeldes e impérios vizinhos.

É assim que, mesmo tendo que enfrentar o agravamento dos conflitos daqueles que, além de questionar sua liderança, não aceitam de modo algum à sujeição da região ao estrangeiro, Nzinga Nkuwu aposta na sua trágica ligação com Portugal.

Diogo Cão volta ao Matadi outras vezes. Numa delas, em 1491, consegue penetrar nas terras do Reino do Nsoyo, vassalo do Kongo, onde convence o Mwene Nsoyo (título do governante local) das vantagens dele se converter também ao cristianismo para gozar da amizade e da gratidão de Portugal. Diogo Cão traz consigo desta vez muitos agentes de sua cruzada de dominação cultural, entre os quais alguns padres e aliados nativos (cristianizados durante o processo de cooptação da família real do Kongo), além de paramentos católicos em profusão. O Mwene Soyio e toda a sua família são então batizados. O Mwene Nsoyo recebe o nome de D. Manoel, cabendo a seu filho o nome de D. Antônio.

Nzinga Mpemba e a gênese do afro catolicismo angolano

A era de Nzinga a Mbemba é marcada também pelo aprofundamento da ligação da cúpula ou nobreza do Kongo com a igreja Católica Apostólica Romana, representada pelos interesses do Cardeal D. Henrique,  importante líder católico, jesuíta e senhor-mor da inquisição em Portugal e que, muito se empenhou junto a Santa Sé em Roma pela sagração de D.Henrique I, filho de Nzinga a Mbemba como bispo de Utica em maio de 1518 aos 23 anos de idade.

A extraordinária missão diplomática que leva o jovem de 18 anos carrega muitos presentes de marfim, peles raras e finos têxteis de ráfia do Congo e é acompanhada por uma comitiva trezentos e vinte cativos selecionados pelos portugueses.

A missão chegou á Lisboa de onde foi enviada, por terra, até a Itália, atravessando os Alpes á pé e chegando sã e salva ao Vaticano em 1513. O Papa Júlio II havia falecido sucedendo-lhe Leão X. que é quem em Maio de 1518, sobre a recomendação de quatro cardeais do Vaticano, consagra o filho do rei do Congo, como Bispo de Utica aos 23 anos de Idade. D.Henrique regressa ao Congo em 1521 do Kongo, morre em 1538.

A bem da verdade, esta política de colonização cultural, era levada a cabo no Kongo, não só pela coroa portuguesa, mas por seu agente principal: a ordem dos jesuítas, cujo objetivo central era montar na África missões semelhantes as criadas nas colônias europeias da América do Sul e tinha como estratégia essencial, fomentar a discórdia e desestabilizar a já combalida unidade entre os povos da região, afim de facilitar a conquista militar e territorial que se seguiria à dominação religiosa e ideológica da elite do Kongo.

Em nome da imposição de uma ordem cultural cristã hegemônica, uma era de cruel repressão ás práticas culturais tradicionais é empreendida pelo rei do Kongo, sob as ordens dos padres da ordem jesuítica dos e portugueses. Grande parte dos sacerdotes e médicos tradicionais (Ngangas e Kimbandas) é exterminada por meio de uma série programada de assassinatos. Uma longa série de conflitos e golpes de estado provocados pela inconciliáveis divergências entre sobas nacionalistas e a incondicional aliança do rei com os portugueses, lança o império do Kongo no caos.

A partir desta época, pelo pouco que se pode apreender a partir da enorme ambiguidade da documentação, o que se conhecia como Reino do Kongo passou a ser apenas uma espécie de protetorado português, com importância reduzida no contexto das lutas pela independência da região, posto que passou a ser ocupado pelo ‘Reino d’Amgola’, assim chamado pelos portugueses por conta do título de seus governantes: ‘Ngolas‘. Os títulos Mwenekongo (Rei do Kongo) e MweneNgola (rei do Ndongo) passaram então a se confundir. Os Portugueses e jesuítas que não se conformaram com esta nova  conjuntura ensaiaram um cruento golpe de estado, tentando devolver o poder a seu preposto rei do Kongo D.Alvaro I.

Ao que parece esta dinastia ligada a Ngola Ndambi (D.Alvaro I) é o clã mais importante da região do Kongo e do Ndongo, pelo menos até a morte de Nzinga Mbandi, a rainha Jinga (neta deste Ngola Ndambi) em 1663 3 . Pelo que se sabe até agora, o clã Nzinga do Ndongo assume o poder (tendo em alguns períodos total ascendência sobre o Kongo) a partir de Ngola Ndambi em 1570. Os documentos são confusos em relação a genealogia dos reinos do Kongo e Ndongo-Matamba (‘Reino d’Amgola’) nesta época. Ao que parece, alguns documentos omitem ou confundem o nome ‘angolano‘ de certos manikongos (que pertenceriam ao clã do Ndongo) com o nome de seus títulos nobiliárquicos na língua local (Kimbundo).

Ao que tudo indica portanto teriam existido dois períodos principais na história da região: Um no qual reis títeres de Portugal governaram o Kongo em crescente litígio com o clã do Ndongo-Matamba, e outro no qual os chamados Ngolas, ora se aliaram ora combateram Portugal, governando (ou tendo parentes governando) o Kongo como Manikongos de fato ou seja, o poder do império a partir de certa época, passou a ser (se já não era) exercido exclusivamente por membros de famílias oriundas do povo da região do Ndongo – Matamba.

O período de predominância desta dinastia relacionada ao Ndongo-Matamba, parece se acentuar quando o representante português Paulo Dias de Novais foi aprisionado e o golpe perpetrado pelos portugueses e jesuítas totalmente rechaçado pela população que, em 1568 numa espécie de guerra civil expulsou o Mwenekongo 4 , D. Álvaro I ,seus aliados e todos os estrangeiros para a ilha de Luanda no Reino de Angola na embocadura do Rio Nzaidi)

Novamente aqui, a grande confusão sobre os nomes de quem, efetivamente, governava o Kongo pode significar que o poder real na região estava sofrendo de muitos questionamentos e conflitos entre clãs e facções, podendo significar que conviviam num mesmo período reis do Ndongo (com algum tipo de ascendência sobre o poder no Kongo) e reis títeres, que tentavam governar o Kongo a serviço de Portugal.

Como o nome português destes eventuais reis títeres (principalmente os da dinastia dos ‘Álvaros‘) aparecem em alguns documentos como contemporâneos – ou mesmo homônimos- de supostos reis Ngolas do clã do Ndongo (o que ocorre notadamente com Ngola Nbambi e seu filho Ngola Ndambi Kiluanji Kia Samba), O mais provável é que tenham sido do clã do Ndongo todos os governantes da região compreendida pelos dois reinos, á partir da época de Paulo Dias e Novais.

Dois anos depois, logo após a tentativa de golpe por parte dos portugueses e dos jesuítas (1570), D.Alvaro I / Ngola Ndambi (ou Mpangu-a-Nimi Lukeni lua Mvemba) pede de ajuda ao rei de Portugal (D.Sebastião e ao seu tutor Cardeal D. Henrique, jesuíta e senhor-mor da inquisição em Portugal) que enviando prontamente 600 soldados comandados por Francisco de Gouvêa o recolocam no poder.

1575. Paulo Dias de Novais (que havia sido libertado) volta a Luanda. Havia assumido o poder o filho de Ngola Ndambi, Ngola Ndambi Kiluanji Kia Samba (ou, como o pai, Mpangu-a-Nimi Lukeni lua Mvemba) conhecido como D. Alvaro II. Ngola Kiluangi, liberta Francisco de Gouvêa, comandante da expedição que socorreu os aliados de Portugal, que estava também preso até então. Kiluangi também muda a Mbanza de Kakulo para o reino vizinho, o Mbaka e, em Junho 1575, manda uma embaixada de boas vindas a Paulo Dias de Novais.

Poucos anos depois, no entanto, pressionado pela grande insatisfação da população com os invasores, ele decide trair estes invasores, promovendo o cerco militar aos portugueses em Anzele em 1579. Em Janeiro 1584 chegam a Massangano os reforços militares e munições solicitados por Paulo Dias de Novais. 20 de Julho 1585 O Rei Ngola Kiluangi retira do seu acampamento de Cabaça. Ngola Kiluanji Kia Samba morre em 1587.

O próximo MweneKongo, filho de Ndambi Kiluanji e seu sucessor é Mpanzu a Lukenyi que assume o posto de MweneKongo sob o nome de D.Álvaro III, a princípio não ratificando nem derrubando os acordos anteriores, do mesmo modo pretendendo consultar a população. Lukenyi acaba  decidindo avisar ao Soba do Reino de Ndongo para tomar muito cuidado com os portugueses, pois eles querem mesmo é tomar o reino do Ndongo (Angola) e todo o império do Kongo para si. Uma guerra de libertação nacional se anuncia.

Reino de ‘Amgola’ e Palmares. Tudo junto e misturado?

Consideremos neste preâmbulo que, enquanto isso, no Brasil de 1597 já se falava no  famigerado Kilombo de Palmares.

O soba do Ndongo é Ngola Ndambi, também filho de Ndambi Kiluanji. Inicia-se assim, com a associação entre os irmãos Mpanzu a Lukenyi do Kongo e Ngola Ndambi do poderoso reino do Ndongo, uma nova era de resistência ao invasor português. No entanto Ngola Ndambi, segundo algumas versões após se ver acometido de problemas mentais, morre assassinado. A maioria dos relatos atribuem seu assassinato à sua irmã Nzinga Mbandi, filha de mãe Jaga (etnia também conhecida como Mbangala) com pai Kimbundo (Kiluanji). Jinga (Nzinga)é soba em Matamba, reino ao lado do Ndongo, que ela, após a morte do irmão, naturalmente anexa ao seu.

Acerca do shakespereano episódio que culmina com a morte de Ngola Mbandi, uma versão diferente da acima citada é defendida por Manoel Pedro Pacavira (escritor angolano e um dos biógrafos de Nzinga Mbandi), que sugere que o envenenamento teria sido instigado por uma concubina de Ngola Ndambi chamada Nda Kaniinii Ka Kiluanji, oriunda de Pamba (no Mbaka), apoiada pelos portugueses (que teriam sido os verdadeiros mentores do complô) com o objetivo de por como soberano dos Kimbundos um Ngola mais obediente aos interesses de Portugal. Auto proclamado Mwenengola, o filho de Nda Kaniinii foi logo deposto por uma rebelião popular que aclamou e entronizou uma mulher, sua irmã: Nzinga Mbandi.

Na verdade, ao que se sabe, o protocolo que regia a sucessão entre os povos da região – baseado em princípios matrilineares – era muito rígido. No caso, o filho da filha mais velha do rei Nzinga Mbandi (Jinga) teria que ser o sucessor natural. Morto este, por causas atribuídas ao irmão de Jinga, interessado em ser ele o sucessor, seria este o incidente cujo trágico desfecho, obrigou a ascensão da impressionante mulher que foi Nzinga Mbandi.

Jinga, contudo já havia aparecido na história um pouco antes como a carismática embaixatriz do reino do Ndongo que, a serviço do irmão (o mesmo a quem teria supostamente assassinado) vai a Luanda conferenciar com o governador português João Correia de Souza. Como era hábito na ocasião (e as circunstancias deste hábito são motivo de muita controvérsia) adota a fé católica e é batizada como Anna de Souza.

Um acordo de paz é firmado com os portugueses, mas não deve ter sido lá muito vantajoso para os do Reino e Angola, porque foi rompido assim que Jinga tomou o lugar do irmão morto. É assim, como soberana geral dos Kimbundos que Nzinga Mbandi comandará a luta contra o invasor português até ser provisoriamente derrotada em 1629.

Isolada no interior de Matamba, Jinga só reaparece em 1641, estrategicamente aliada aos holandeses, que haviam invadido as terras de lá como invadiram as daqui. Nos episódios que ficaram conhecidos como as ‘Guerras d’Angola’ muitos reinos e sobados de região se aliaram á Jinga, entre eles se destacaram, segundo os relatos disponíveis, Cassange, Cafuxe, Quijilo, Sambangombe, Calumbo, Molundo, Acamahoto e depois Quissama, além do próprio Kongo.

Mais ou menos desde 1616, quando Luiz Mendes de Vasconcelos assume, no lugar de João Correia de Souza, o posto de governador geral do ‘Reino d’Amgola’, guerreiros Jagas (Mbangalas) aprisionados nas guerras contra os portugueses, começaram a ser enviados para os canaviais de Pernambuco, no nordeste do Brasil. Sabe-se que foram quarenta os precursores do Kilombo de Palmares.

As pessoas deste grupo precursor que se embrenhou na Serra da Barriga no início do século 17, em algum momento anterior a 1630, muito provavelmente vieram de Angola, numa destas levas de prisioneiros de guerra. O certo é que durante todo o longo hiato entre 1629, quando Jinga se recolhe inativa às montanhas de Matamba e 1641, quando ela retoma decisivamente à guerra, aliada aos holandeses, prisioneiros de guerra jagas e kimbundo continuaram a ser mandados em massa para o Brasil pelos portugueses.

Na verdade todo este período das guerras anticolonialistas em Angola (1630/45) foi marcado, predominantemente, pelo translado para o Brasil de prisioneiros de guerra. Estando toda região em torno de Luanda (além do interior do Kongo) conflagrada pela guerra contra Portugal, empreendida, ao mesmo tempo, por sobas do Kongo e do Ndongo-Matamba (além de sobados aliados) e engrossada, a partir de 1641, pela presença de tropas holandesas, era evidente (não fosse fato histórico comprovado) que o fluxo convencional de escravos, antes preados ou vendidos por sobas locais, estivesse totalmente interrompido.

Desta feita, os escravos trazidos para Pernambuco passaram a ser, portanto de um tipo muito particular de gente: homens e mulheres adultos,  guerreiros experientes (talvez até mesmo alguns membros da elite ou nobreza do reinos daquele contexto territorial, de uma mesma área sociocultural portanto), aprisionados após batalhas e rapidamente recambiados para cá, separados como joio do trigo (deportados), segundo as duras leis previstas pela coroa portuguesa para o caso .

Uma espécie de elite, portanto. Com forte espírito de grupo. Este status de degredados, ‘prisioneiros de guerra’, obviamente muda totalmente a maneira de se encarar a organização social, militar e política o Kilombo de Palmares.

Unidos pelo patriotismo e valores culturais e históricos rigidamente estabelecidos; organizados, disciplinados e motivados pelas lutas nas quais estiveram envolvidos em Angola, consideremos, pois que foram estes escravos, que formaram a população que, por meio das fugas em massa passou a habitar a Serra da Barriga.

Consideremos do mesmo modo que, iniciando-se estas fugas já antes de 1630, estas pessoas tiveram muitas dezenas de anos para se estabelecer na região, criando modos bem articulados de vida, com amplas possibilidades de recriar inclusive, os elementos fundamentais de sua cultura original africana.

Entre 1641/42 o Mwenekongo Kimpaku (ou Nkanga-a-Lukeni, segundo alguns relatos) tratado de D. Garcia Afonso II (irmão de Jinga, pertencente portanto a mesma família real do Reino de Ndongo) reúne tropas com vários sobas vizinhos, entre os quais Nambua-Kalombe (que é preso é tem a cabeça cortada) para atacar os portugueses. Em 1646 Kimpaku reafirma a aliança natural com a irmã Nzinga Mbandi. Da aliança participa também o soba do reino de Nsoyo, segundo alguns relatos, tio dos dois e portanto, irmão (ou cunhado) de Ndambi Kiluanji.

As relações de parentesco entre estas figuras não são, absolutamente fortuitas. As regras protocolares de sucessão, descritas acima como sendo muito rígidas, determinavam papéis bem determinados para a filha do rei (rainha mãe, na prática, pois o próximo rei deveria ser, obrigatoriamente seu filho e para o irmão do rei cujo filho seria o sucessor na ausência do outro sobrinho do rei.

Estas regras, segundo indícios em documentos antigos, que remontam a fundação dos dois reinos principais da região (Kongo e Angola) foram criadas no passado bem remoto, por volta do século 12 ou 13, quando da unificação de povos que desceram do Camarões com os povos que já habitavam a área.

O que sugerimos, já de forma enfática é que com muita probabilidade, não haveria porque estas regras não serem repetidas no Brasil pelos líderes palmarinos, havendo inclusive fortes indícios de que eles pudessem ser, mais do que meros escravos aleatoriamente rebelados, criadores de formas de organização originais ditadas pelas circunstancias, ao contrário, um grupo cultural e socialmente articulado desde sua origem na África, quem sabe até mesmo (ainda que remotamente) de algum modo parentes entre si e das pessoas que compunham a casta dirigente nos Reinos do Kongo e de Angola.

Os ainda mal contados incidentes ligados a cisão entre os chamados ‘Zumbi’ (o jovem) e ‘Ganga Zumba’ (o velho) envolvendo o irmão deste conhecido como Ganga Zona (tio dos filhos de Ganga Zumba, portanto), sugerem um conflito de sucessão fortemente assemelhado ao que ocorreu com Jinga (mãe do sucessor natural) e seu irmão Ngola Ndambi (o usurpador), inclusive com o incidente do envenenamento, como vimos e a rigor uma prática bastante recorrente na história política dos reinos do Kongo e de Angola.

Instigante demais esta história não é não? Podemos depois de conhecê-la afirmar inclusive que, ao que tudo indica, será virtualmente impossível entender a cultura e a história do negro do Brasil sem mergulhar na história dos reinos do Kongo e de Angola dos séculos 15, 16 e 17.

Spírito Santo

Julho de 2006 (com ligeiras revisões em Novembro 2010)

Leia aqui no link o post final desta série

 

 

O Kilombo, o angu e seus caroços


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Charge alemã de 1897. A legenda diz: "Uma tarde de domingo na África Ocidental" mostrando um mundo surreal nas colónias na África no qual os escravos são senhores. No anúncio: "Hoje:Grande banquete! 'Senhores como comida'!

Charge alemã de 1897. A legenda diz: "Uma tarde de domingo na África Ocidental" mostrando um mundo surreal nas colônias na África no qual os os negros são livres. No anúncio: "Hoje:Grande banquete! 'Senhores' (brancos) como comida'!

Remanescente de quilombo? Ih! É melhor esperar sentado!

Começo logo com uma paulada:

Com vocês Andressa Caldas e Luciana Garcia que em alentado texto no site Global.org fazem a introdução do nosso papo:

“… A Constituição Federal e a titulação das terras quilombolas

Como parte da própria reflexão sobre o Centenário da Abolição da Escravidão no Brasil, algumas reivindicações de organizações de movimentos negros e setores progressistas, levadas à Assembléia Constituinte de 1988, resultaram na aprovação de dispositivos constitucionais concebidos como formas de compensação e/ou reparação à opressão histórica sofrida.”

(Tá certo. Isto foi só uma ameaça. Agora é que vem a paulada):

Em 2001 Abdias do Nascimento, histórico e incansável líder do movimento negro do Brasil deu ao site da Rets (Rede Eletrônica do Terceiro Setor) a seguinte entrevista:

“Rets :

_Em 1980 o senhor apresentou sua tese sobre o quilombismo. O senhor ainda vê a forma de organização dos quilombos como um bom modelo de desenvolvimento para o país?

Abdias:

_Ainda vejo. Mas acho que eu apresentei o quilombismo de forma um pouco antecipada. A sociedade precisa ter um pouco mais de experiência para poder perceber a significação do quilombo e a prática do quilombismo. Muitas pessoas interessadas no assunto concordaram com as minhas teses, mas nenhuma delas procurou implementar uma organização como a que propus com o quilombismo.”

A tese de Abdias não é o foco de nossas elucubrações. Ela é polêmica e, de certo modo, datada, pois, estava visceralmente ancorada ainda na realidade política do negro brasileiro vista de forma bem ampla e pela ótica da luta contra os resquícios da Ditadura, já que era uma realidade – a do negro e a do racismo – que a anistia promulgada em 1979, na verdade só de leve se interessou em tocar.

O fato é que a conversa que vamos levar aqui com vocês, embora diga respeito à demandas pontuais criadas pela nova Constituição do Brasil (1988) para este assunto, apesar de toda a festa com que se costuma ‘enfeitar o pavão’ de nossa democratização, não sugere ainda um grande avanço na discussão desta questão, que já se arrasta desde 1888: A reparação dos malefícios e constrangimentos aos quais os escravos africanos sequestrados para o Brasil e  seus milhões de descendentes foram – e continuam sendo –  submetidos há quase quatro séculos.

Sabem como é, certo? O Brasil elitista é um racista aplicado e muito, mas muito renitente mesmo. Pentacampeão em exclusão social.

Entre todos os reparos que com certeza poderemos fazer numa inevitável comparação entre os dois momentos históricos – o do lançamento da quase comunista tese ‘Quilombismo de Abdias e o nosso hoje em dia cheio de remanescencias– uma triste constatação: Reduziu-se de forma drástica o protagonismo e a combatividade das lideranças do Movimento Negro no Brasil, aquelas que poderiam estar na vanguarda das reivindicações atuais. O lado constrangedor deste protagonismo esvaziado e subalterno, infelizmente está visível na cooptação de muitos, na corrupção de alguns e no baixo nível político-ideológico da maioria.

Talvez seja esta conjuntura constrangedora – franqueza dói mas não mata – a principal razão para que uma causa tão importante e particular como a luta pela posse da terra por parte de comunidades remanescentes de quilombos, esteja tão diluída em pendengas paralisantes, envolta nesta rede de ambiguidades e incongruências tão flagrantes, sendo muitas vezes desvirtuada, atrelada a causas e interesses outros, como um filho de pai desconhecido.

(E filho ‘feio’, como todo mundo sabe, não tem pai).

Dito isto, podemos relaxar um pouco. O papo agora pode ser mais ameno sim, já que o mundo não foi feito num só dia.

Ki-lombo= Kilombo= Quilombo = “Fortaleza

(literalmente em Kimbundo, uma das línguas principais faladas em Angola)

O termo – todo mundo por aqui acha – viria do nome dado ao complexo de comunidades de escravos rebelados conhecido como Quilombo de Palmares, nas imediações de Pernambuco nos primórdios de nossa colonização. Zumbi de Palmares lembram?

(Mas, ‘achismo’ como se vê, não é exatamente cultura.)

Pois neste caso então, saiba quem ainda não souber que a palavra vem de um contexto histórico bem mais distante e complexo, bem menos chegado ao ‘chavão’ (e estas sutis filigranas historiográficas podem mudar tudo em nossa maneira de entender o conceito). Mais do que se pensa, pelo menos.

Kilombo na verdade, com o estrito sentido de ‘fortaleza rebelde’ tudo indica, é uma palavra transposta para a realidade colonial brasileira, depois de ser adotada como jargão militar pelo exército português durante sua guerra suja contra os nacionalistas angolanos comandados pela rainha Nzinga Mbandi e outros sobas, reis ou mandatários locais ali por volta de 1630/40.

O que isto tem a ver? Tudo. E com muita coisa que nos diz respeito. É que existe uma questão muito cabeluda rolando no Brasil atual envolvendo o conceito ‘Quilombo’, no âmbito da regulamentação de leis que embasarão políticas públicas inspiradas na constituição de 1988, visando garantir a posse da terra, por meio de títulos de propriedade ao que se convencionou chamar de ‘comunidades remanescentes de quilombos’.

(… Mas espera aí… _ “que lombo!”_ não se refere à bela bunda de uma mulata bem gostosa?)

Ui!…Calma, calma. Ignorância racista também tem limite (embora não seja nada mal que haja ignorância para que a modesta sabedoria de alguns possa dar o ar de sua graça).

Mas ok, ok. Ninguém nasce sabendo. Sou paciente e dou outro exemplo para os mais leigos que eu:

Quilombo para iniciantes: Princípios ativos e componentes lógicos

(Leia e entenda bem a bula antes de usar)

Quando levamos uma paulada na cabeça, qual é o nome que damos àquele caroço doído que nos cresce na testa? (Não. Chifre não. Sem sacanagem que estou falando sério)

Anh? Calombo? Isto! Ka-lombo (olha…Esta foi uma sacação ‘newtoniana’, não foi não?). Racionem comigo então: Como ‘Ka’ em kimbundo é diminutivo, Lombo pode significar então… ‘protuberancia, correto? Pequena protuberância (se traduzirmos bunda como ‘lombo’ a dita significaria uma bela e média …tá, vocês já entenderam.)

Kilombo, Kalombo, Lombo e Bunda: Um contexto semântico bem afinado com o mais puro vernáculo angolano.

Daí Kilombo (Ki, assim como Ka é prefixo em kimbundo) pode ficar sendo, no dizer de um colonialista lusitano pelo menos, ‘fortaleza de pretos construída num lugar alto’.

(Deve ser, logicamente por isto que os quilombos no Brasil, pelo menos os mais perenes, eram feitos em serras bem altas. Reminiscências culturais, inteligência estratégica, guerreira trazida de lá dos cafundós de Angola.)

Viram só como são as coisas? Uma palavra não é apenas um som qualquer, um amontoado de fonemas. As palavras carregam muita história, sentidos. Saber valer-se do que elas tem para nos contar sobre o passado e o presente, costuma ajudar muito a gente a construir um bom futuro.

_E olha a Etimologia aí, gente!

Logo se vê, portanto, que não é nada desimportante se bater na tecla da semântica neste caso, não é não?  Matando a semântica original se mata o sentido, a alma da palavra que passa a significar… nada. Afinal de contas, nunca é demais repetir: Jesus não é Genésio. Berimbau não é gaita.

(E você é tão bobinho a ponto de acreditar mesmo que seja possível transformar em lei conceitos vagos e desprovidos de sentido?)

Então vamos lá! Todos juntos, comigo:

_”Ressemantizar é o cacete! Viva a cultura negra nacional!”

Pois não é isto que parece estar acontecendo neste caso? Todo mundo se acha careca de saber que ‘Quilombo‘ de algum modo hoje em dia é isto aí: Um território (um lote de terra que seja) ocupado por descendentes de escravos que, por conta de históricas necessidades de reparação em vias (?) de serem reconhecidas (a escravidão foi um regime juridicamente condenável, certo?), reivindicam, diretamente ou com o auxílio de intermediários, a posse das terras que ocupam.

O resto é o resto. Deveria ser motivo para outras reivindicações.

Mas é aquela história que todo mundo também já  sabe: Enquanto o douto elabora conceitos o leigo palpita, especula, mas ambos, ao fim de todas as contas não vão poder mesmo falar mais do que… ‘em tese’.

Vamos então abordar este assunto assim-assim, valeu? Sem delírios sabichões,  na base do mais modesto feijão com arroz, pisando em ovos alheios, se necessário, mas com todo carinho, sentindo na pele o drama da questão. Sem ser louco a ponto de me achar um Deus da verdade é, pois, em tese, em tese, que vos digo:

Histórico das mumunhas jurídicas sobre o tema Quilombo hoje

(Colocando alguns  pingos nos ‘ís’ )

E são ainda Andressa Caldas e Luciana Garcia que se referem,  claramente ao que para nós se transformou no caroço (ou… calombo? Êpa!De novo? ) crucial deste angu:

“…Introdução

“…No Brasil, existem mais de 2.200 comunidades afro-descendentes quilombolas, totalizando cerca de 2.5 milhões de pessoas… No que concerne à titulação dos territórios quilombolas, recente relatório independente da Comissão Pró-Índio de São Paulo (CPISP),”Ações Judiciais e Terras de Quilombo”, revela que até agosto de 2006 havia “310 processos de regularização de terras de quilombo perante o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária.

O levantamento da CPI-SP revela que 59% dos 310 processos abertos recebeu apenas um número de protocolo no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). Ou seja, em 182 processos nenhuma medida administrativa foi tomada no sentido de regularizar o território… “

…” A ressemantização do termo quilombo e sua inserção na Constituição Federal de 1988 vieram a traduzir os princípios de igualdade e cidadania negados aos afrodescendentes correspondendo, a cada um deles, os respectivos dispositivos legais:

i) Quilombo como direito à terra, enquanto suporte de residência e sustentabilidade, há muito almejadas, nas diversas unidades de agregação das famílias e núcleos populacionais compostos majoritariamente, mas não exclusivamente de afrodescendentes – CF/88 Artigo 68 do ADCT – sobre ´remanescentes das comunidades de quilombos; Quilombo como um conjunto de ações em políticas públicas e ampliação de cidadania, entendidas em suas várias dimensões – CF/88 – título I direitos e garantias fundamentais, título II, cap. II – dos direitos sociais;

ii) Quilombo como um conjunto de ações de proteção às manifestações culturais específicas – CF/88 – artigos 214 e 215 sobre patrimônio cultural brasileiro.

(Épa! É isto mesmo? O dispositivo se refere a manifestações culturais… específicas? Bem, vamos ter que cobrar que esta especificidade seja explicitada mais tarde.)

Mas o enunciado do dispositivo, mesmo sem explicitar nada da questão, por ele mesmo proposta, ainda insiste:

“…Assim, o artigo 68 dos Atos das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Federal de 1988 (ADCT) estabeleceu que:

“Art. 68. Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos.”

Ao que comentamos aqui (tentando imitar aquela ‘baba de quiabo’ dos advogados):

Ora, o que se chamou neste caso de ‘ressemantização’ parece com tudo menos uma alteração da semântica do que quer que seja. Fica claro que se tentou, tão somente aplicar o nome genérico de Quilombo (e, portanto banalizando o sentido estrito do conceito) a uma outra figura jurídica, inclusive já existente, qual seja o ‘direito genérico das populações afro descendentes (e não exatamente quilombo-descendentes no sentido lato) à posse da terra.

Convenhamos que este direito à posse da terra é por demais genérico e redundante. Que se danem os regulamentadores! (aqueles que vão ter que dar seu jeito para dar nomes aos bois.)_ Parece nos dizer, curta e grossa, a nossa ‘boazinha’ constituição de 1988, certo?

Em suma, com a nítida finalidade de ampliar o leque dos beneficiários (quem pensou esta estratégia tão ingênua?), não se mudou apenas o nome da coisa, mudou-se a coisa de nome, o que é muito diferente e não significa, de modo algum ‘ressemantização’.

Ressemantizar’ seria adaptar o conceito à nossa época, sem desconsiderar (ou ‘ressignificar’ aleatoriamente) aspectos definidores – como a cultura ‘tradicional’ destes segmentos, por exemplo. Afinal, o dispositivo determina ou não determina a defesa de manifestações culturais… específicas?

Ao que nos parece, da forma como está proposta no dispositivo – que se pretende um instrumento legal – a medida acaba não tendo aplicabilidade jurídica especial alguma, sendo facilmente desqualificada por qualquer boa banca de advogados inimigos da causa, já que nele, no dispositivo, poderiam estar abrigados todos outros segmentos… ‘étnicos’ (o que, aliás, o próprio dispositivo admite em seu texto ser um critério vago), não conferindo à medida força alguma para fazer valer os direitos deste ou de qualquer grupo…’étnico’ em particular.

Nas barras frias de um tribunal em suma, baseado apenas em semelhantes argumentos tão pouco jurisprudenciais, um grupo ‘majoritariamente’ formado por quilombolas remanescentes, não teria, realmente chance alguma.

_”Terra para negros ex-quilombolas!” _ Será preciso dizer, com todas as letras, de forma cabal, com palavras passíveis de serem compreendidas, comprovadas e transformadas em lei.

Ora, é claro que esta conversinha de ‘ressemantizar’, ‘ressignificar’ tudo – por mais bem intencionada que seja – só podia dar no que deu.

Quem dá nome aos bois?

“Quem pariu mateus que o embalance”

É fácil falar, criticar, cobrar assim em cima deste muro de lamentações. Eu sei também que é preciso ir devagar com este andor. As intenções da maioria dos envolvidos são boas e as suscetibilidades são frágeis demais diante de críticas mais ácidas. Todo mundo quer ser o santo padroeiro desta história.

Sabem vocês, contudo, tanto quanto eu, que das melhores intenções está lotado inferno.

Porque esta questão não anda? Será que está planejada para não andar mesmo? Culpa desta desmobilização impressionante do outrora combativo Movimento Negro do Brasil, que teria emprestado para o Movimento Social como um todo, tornando genérica, esta bandeira que lhe era tão cara e exclusiva?

Seria culpa dos advogados, juízes e legisladores em geral que não conseguem entender a necessidade de se associar Justiça Social com Diversidade étnica? Ou seria culpa dos técnicos, antropólogos e historiadores, envolvidos em bizantinas questões acadêmico-conceituais que os levam a ideologizar, questionar  e ‘ressignificar’ o conceito de tudo nem sempre com as mais claras intenções?

Como nos diz um entendido sobre o tema:

“_ …esse assunto é o maior tabu entre os antropólogos. Existe digamos um código secreto, um espírito corporativo, uma pretensão de reserva de mercado para aqueles que lidam com a tal antropologia aplicada…

Ih! sai de baixo! Mais caroço à vista.

…Bem, mas isto é assunto para outras mangas num post que faremos logo a seguir (leia aqui o POST #02). Enquanto isto vão pensando aí que a pobre da bezerra ainda não morreu.

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(Em tempo: A palavra angu também vem de algum modo do Kimbundo, sabiam? Penso que vem de ‘iangu’ que quer dizer capim – ou couve picadinha – aquela que, além do caroço, engrossava o dito cujo na cuia do escravo. O engraçado é que a palavra não vem diretamente de ‘fubá’ não, embora ‘fubá’ também venha do kimbundo ‘fuba’, farinha de milho.

Recomendo contudo muito cuidado com os dicionários. Kalombo, por exemplo quer dizer hoje em Angola, literalmente, ‘mulher infecunda‘. A língua é a mãe de tudo, ou seja: Tem gente aí que precisa rever, totalmente os seus conceitos etimológicos… e ideológicos com urgencia. )

Ressignificar-se, diria.

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Depois o papo segue – e esquenta mais – Achei por bem linkar aqui a matéria fedida da revista ‘Veja já que os leitores mais ligados ao tema vão estrilar e com razão.

Calma rapaziada. Uma coisa a gente precisa reconhecer: para um oportunista agir é necessário que alguém crie a oportunidade, certo?

Ajoelhou? Tem que rezar.

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Fui mas volto já.

Spírito Santo
Maio 2010

A incrível guerra de Hans


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Hans Massaquoi entre colegas de turma em Hamburgo 1939

Hans Massaquoi entre colegas de turma em Hamburgo

A suástica bastarda e outras saias justas nazi-racistas

Você já ouviu falar num cara chamado Hans Jürgen Massaquoi? Nem eu tampouco. Coisa impressionante! Tantos anos cavucando estas coisas de negro e nunca ouvi falar desta história inacreditável. Chego a ela depois de esbarrar, quase sem querer nesta incrível e inusitada foto aí de cima: Um negrinho fofo, impávido e impoluto, aparentemente cheio de orgulho em ser fotografado com uma suástica no peito.

_”Was ist das? GroBe Skandal! Ein Neger Nazi? Was ist los? Nein! Nein! Nein! _Diria o Adolf, apoplético, desmunhecando e batendo os pézinhos.

A história oficial pouco se ateve sobre isto ainda (daí a nossa ignorância a respeito ser santa, certo?). No Brasil então nem se fala. Pelo que me consta, ao que parece estes tão interessantes e  subterrâneos episódios ocorridos durante a segunda guerra mundial nunca estiveram no campo de interesse de nossos moderninhos formadores de opinião. Vai saber porque?

“Negro, negro! Limpador de chaminé!”

(Ofensa racista popular na Alemanha dos anos 30/40)

“Mamãe, eu não sou ariano?” – perguntava Hans a sua mãe, aos oito anos de idade depois de ter sido proibido de brincar com as outras crianças na escola.”

Os fragmentos desta incrível saga de descendentes de africanos vivendo – e o que é mais impressionante – sobrevivendo, num país com leis racistas tão agressivas, às vezes  nos lembram muito (guardadas as devidas proporções, é claro) a mesma saga dos descendentes de africanos no Brasil.

(O que é assaz curioso porque o Brasil, para uns e outros nunca foi um país racista.)

Pois esta é a mais pura e verdadeira história de Hans Jürgen Massaquoi, cujos trechos extraídos de uma resenha de seu livro autobiográficoNeger, neger, schornsteinfeger!” (‘Destined to witness” na versão norte americana) disponibilizamos aqui. Está do mesmo modo disponível na rede trechos da versão do livro para o cinema, num filme realizado na Alemanha por Jörg Grünler em 2006.

Puxando o fio desta meada podemos descortinar um vasto mundo de iniqüidades e injustiças há muito sabidas, quando associadas a população judia na Alemanha nazista, mas que nunca havíamos, nem de longe, imaginado terem sido os mesmos infortúnios sofridos por milhares de pessoas negras engolfadas pela fervura daquele caldeirão de sandices.

Negros na Alemanha nazista? Nem pensar! Num ou noutro filme de um Fassbinder da vida, talvez, mas quase sempre soldados negros americanos, ja no finzinho da guerra, transando com uma loura pálida, de boca carnuda com baton carmim, numa cama amarfanhada na penumbra de algum conjugado de Berlim.

Nada de terror. Só tesão, sexo selvagem e lágrimas de despedida.

Talvez seja até por isto – o inusitado de uma situação tão incomum – que as histórias sobre negros na Alemanha nazista tenham se tornado, estranhamente tão obscuras quanto mal contadas.

Mais são muitas as histórias. Candentes, impressionantes, com ganchos nos levando a associá-las com outras tantas experiências individuais neste vasto contexto trágico da diáspora africana neste nosso mundo muito mais do Cão do que de Deus.

Algumas outras partes desta intrigante meada estamos também disponibilizando abaixo, em rápidas pinceladas, só para instigá-los, afim de que possamos juntos ir futucando e esmiuçando mais e mais (o que de nossa parte, dada a eletrizante e inusitada importância dos fatos aqui revelados,  faremos com toda certeza em posts a seguir.)

É só esperar para ler.

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Os trechos da resenha do livro de Massaquoi e demais informações sobre a vida de negros na Alemanha nazista contidos neste post foram extraídas do jornal El País e do site da Deuscht welle, traduzidos livremente por este vosso criado.

A guerra íntima de Bertha e Hans

Hans Jürgen Massaquoi nasceu em 19 de janeiro de 1926 em Hamburgo, filho de mãe alemã e pai liberiano. Tinha seis anos quando Hitler chegou ao poder. O pai de Hans era filho do cônsul da Libéria na Alemanha. Sua mãe, Bertha Baetz, era uma enfermeira de classe média baixa. O rico filho do diplomata africano interessou-se pela bela jovem ao vê-la em uma festa, e dessa relação nasceu o pequeno Hans.

Seu pai nunca se preocupou muito com ele e nunca lhe deu muita atenção, já que nessa época era um estudante universitário em Dublin. Mas seu refinado avô (o rei Momulu IV rei dos Vai, uma etnia liberiana), o primeiro diplomata africano na Europa, o acolheu em seu palacete de Hamburgo junto a seus tios e primos africanos. O patriarca se orgulhava de ter um neto alemão que falava o idioma local com perfeição.

Bertha com o filho Hans, tendo ao lado a foto do pai

Bertha com o filho Hans, tendo ao lado a foto do pai

“Eu associava a pele negra com superioridade, porque nossos serventes eram brancos” – diz Hans em sua autobiografia.

Seu destino mudou drasticamente quando o Führer assumiu o poder e expulsou os diplomatas africanos da Alemanha. Todo o clã Massaquoi regressou a seu país, Libéria, mas Bertha, a mãe de Hans decidiu ficar em sua pátria, porque o menino era doente e temia que viajando à África ele poderia morrer já que naquela época -e até hoje em dia- a África era um continente assolado pela malária. Praticamente sozinha, Bertha retomou seu trabalho de enfermeira e mudou-se com seu filho para a zona operária de Hamburgo.

Eu, que tinha aprendido a ver vantagens em meus traços raciais, de repente me vi obrigado a considerá-los um inconveniente”.

No início, nem ele nem sua mãe consideraram como uma ameaça à ascensão do nazismo. Era algo que não os preocupava, afinal eles eram alemães.

“Assim como toda criança, eu estava fascinado pela parafernália nazista. Os uniformes, as bandeiras e os desfiles me deixavam encantado. Para mim, para meus colegas, Hitler estava envolvido nessa auréola divina que lhe protegia de qualquer crítica”.

As coisas foram mudando pouco a pouco. Primeiro foram os letreiros afixados nos balanços  de praça proibindo crianças não-arianas de brincar. Depois, um misterioso desaparecimento de seus professores que eram judeus. Depois sua mãe foi despedida de seu trabalho “por ter concebido o filho de um africano”.

“Uma vez que as absurdas leis raciais entraram em vigor, ficou claro que minha vida ia se tornar muito difícil. Mas o amor e a proteção de minha mãe me deram a sustentação necessária”.

Em seu livro autobiográfico, Hans conta com detalhes as tentativas que fez para ser considerado um alemão comum. A cada vez que era recusado reagia negando o evidente, e esta situação o levaria ao absurdo de querer fazer parte das Hitlerjugend, as Juventudes hitleristas, uma mistura de tropa de escoteiros com organização paramilitar.

No dia que descobriu que lhe negaram a entrada exclusivamente por sua cor de pele, Hans abriu os olhos e começou a entender do que se tratava o nazismo. A partir daquele momento abandonou o desejo de ser aceito pelos nazistas e libertou-se da dependência afetiva de Hitler como onipotente figura paternal.

Hans com a mãe e primas

Ao começar a guerra, apesar de ser “indigno de usar o uniforme alemão”, esteve a ponto de se alistar no exército. Só não foi para a frente de batalha por ser considerado uma pessoa sem importância, o que agravou os seus problemas emocionais, já que sendo um homem jovem e sadio se envergonhava de não estar combatendo junto a seus compatriotas.

Foi enquanto trabalhava em uma fábrica de munição que Hans pode observar que a máquina de guerra alemã começava ruir. Em 1943, os aliados, com a Operação Gomorra, bombardearam intensamente Hamburgo durante dez dias, até deixar a cidade em escombros, onde morreram mais de 40 mil pessoas.

Hans estava tão deprimido que não fazia diferença morrer nas mãos da Gestapo ou do bombardeio aliado. De toda forma, a presença da Gestapo incomodou-o por muito tempo ainda e teve que conviver sob a constante ameaça de sua presença e interrogatórios. Desprezado por todos, era considerado um cidadão de segunda classe, a tal ponto que um dia uma multidão quis linchá-lo achando que era um piloto aliado.

O fim da guerra com a tomada de Hamburgo pelos britânicos significou também uma nova vida para Hans. Pela primeira vez em sua vida não sentia medo. O medo de ser humilhado, ridiculizado, degradado, a ver-se privado de sua dignidade.

Após a Segunda Guerra Mundial sobreviveu como saxofonista de jazz, depois emigrou a Libéria, o país de seu pai, e por fim ancorou nos Estados Unidos, país que o acolheu como cidadão e onde foi recrutado como pára-quedista e enviado à Guerra da Coréia durante dois anos.

Graças aos benefícios dos veteranos de guerra ingressou na Universidade de Illinois, onde estudou jornalismo, carreira à qual dedicou mais de quatro décadas vindo a se aposentar quando era diretor da famosa revista Ebony.

Ao final e apesar de tudo há de se considerar que o destino foi bastante benevolente com Hans Massaquoi. Olhando para o passado e recordando o horror também sofrido por outras inocentes etnias, ele pelo menos sobreviveu para contar a sua história.”

Hans Mossaquoi, como diretor da revista afro-americana 'Ebony'

Hans Mossaquoi, como diretor da revista afro-americana ‘Ebony’

Veja trailer do filme ‘Neger, neger, schornsteinfeger!” aqui

Spírito Santo
Maio 2010

CINEMA EM BRANCO & PRETO / take 3


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(Leia também os takes 01 e 02 )

Negativo revelado

”Um historiador chamou o período silencioso no cinema no Brasil (introduzido em 1898 pelo italiano Affonso Segretto) de “a bela época do cinema brasileiro”, dada a quantidade e diversidade da produção. …mas do ponto de vista do negro brasileiro, isso conta muito pouco. O cinema mudo coincide exatamente com o período áureo das teorias racistas, quando as religiões afro-brasileiras eram perseguidas pela polícia, e os mulatos claros usavam pan-cake para parecer brancos. Houve portanto poucos registros de negros em documentários.

Apesar da patente invisibilidade do negro nos documentários de nosso período silencioso, aludida e lamentada aqui por João Carlos Rodrigues, talvez já se tenha dito, anteriormente, que a rigor não pode ser considerada, de modo algum, incipiente- ou mesmo insuficiente – a presença da imagem do negro no cinema brasileiro de ficção.

Já nas imagens inaugurais desta nossa cinematografia ‘posada’, o negro estava lá, de alguma forma impresso. A lista de filmes é extensa, a ponto de podermos afirmar, com razoável convicção que, do ponto de vista essencialmente imagético, nunca houve, exatamente, racismo no cinema brasileiro.

Não conheço ninguém que tenha assistido, sequer a um fotograma do documentário (um docudrama talvez) “A vida de João Cândido, o marinheiro“, realizado segundo as poucas fontes disponíveis em 1912, com direção de Carlos Lambertini e, sabe-se lá talvez, inspirado no O encouraçado Potenkim’ filme clássico de 1906, realizado pelo russo Sergei Einsenstein.

Por conta da insuficiência de fontes aliás, o filme sobre João Cândido, acabou se confundindo com o documentário ‘A revolta da Esquadra’ também identificado como sendo de 1912, sensacional furo jornalístico do cinegrafista Alberto Mâncio Botelho (único fotógrafo a conseguir entrar no encouraçado Minas Gerais, nau capitânia da Revolta) que conseguiu entrevistar João Cândido líder dos amotinados da Marinha de Guerra, contra os castigos corporais.

É lícito se supor inclusive, que a maioria – senão todas – as imagens disponíveis hoje deste grande momento da história do Brasil, tenham sido registrados pelas câmeras deste grande precursor do documentarismo brasileiro que foi Alberto Mâncio Botelho.

Pois saibam que “A vida de João Cândido, o marinheiro” foi o primeiro filme censurado e proibido no Brasil por motivos políticos (certamente junto com o ‘Revolta da Esquadra’ de Botelho). A engrandecê-lo mais ainda, o fato de ter sido também o primeiro filme de ficção, no qual o negro apareceu como protagonista de sua própria história (não se tem a informação se os atores eram brancos pintados. Vamos acreditar que não).

…”Os atores (no tempo do cinema mudo no Brasil) ainda eram brancos pintados, como os minstrels americanos. Esse costume persistiu até bem mais tarde. No cinema, o verismo exige negros verdadeiros, e assim surgiram os primeiros atores profissionais, vindos dos palcos : Grande Otelo, Pérola Negra, Chocolate – os pseudônimos já ostentam a etnia, informando antes mesmo da própria imagem do intérprete. Mas seus personagens não cresceram de importância.”

Caras imagens esparsas de filmes invisíveis.

Além do imperdível ‘Encouraçado Potenkim’, alguns de nós já assistiram, contudo a pelo menos algumas das impactantes imagens de ‘O Nascimento de uma nação’ (The Birth of a nation ou, originalmente, The Clansman) de David Llewelyn Wark Griffith (D. W. Griffith), talvez a mais veemente propaganda racista já exibida pelo cinema, lançando as bases para a recriação da organização terrorista Ku Klux Klan, grupos de brancos que promoveram muitos linchamentos e enforcamentos de afro-americanos nos Estados Unidos.

Embora o filme de Griffith tenha sido um divisor de águas, lançando revolucionárias técnicas para a linguagem cinematográfica do futuro, surpreendentemente, no plano ideológico, estas imagens, ao que tudo indica, não tiveram relação direta alguma com o tema da invisibilidade do negro na mídia brasileira (no cinema inclusive).

As controversas ideias levantadas pelo filme, lançado no já distante ano de 1915, parecem ter somente entre nós – guardadas as devidas proporções – alguns tardios adeptos, veementes opositores das políticas de cotas e ações afirmativas no Brasil, cujo pensamento, ainda que de forma simbólica, pode ser alinhado com este emblemático trecho da sinopse do filme de Griffith publicada pela Wikipédia:

…”A controvérsia que o filme causou gira em torno da premissa de que a primeira Ku Klux Klan restauraria a ordem no sul do pós-guerra, que estaria “ameaçado” por afro-americanos “incontroláveis” e seus aliados: abolicionistas, mulatos e republicanos do norte.”

O fato é que, navegando num mar encapelado de preconceitos estéticos ligados ao biotipo de nossa população, não sabemos ainda a que atribuir esta hospitaleira ilha de diversidade cultural, este inesperado apego, quase fraterno, sempre existente em nosso cinema de ficção pela imagem do povo e do negro, em particular.

Atraído pela imagem de negros e despossuídos, tanto quanto pela pitoresca e dura vida de nossa população ‘carente’ em geral (cujos temas estão sempre presentes nos roteiros, desde os primórdios), este cinema foi sempre bastante popular (ou popularesco), desde a escolha de seus story lines, baseados desde o início em rumorosos casos que eletrizaram a maioria da população, sendo protagonizados por pessoas comuns, até a franca adoção de um conceito de ‘casting’ sem preconceitos biotípicos ou raciais aparentes.

Talvez a pista mais importante desta solidariedade do Cinema para com a imagem do negro do Brasil, a despeito do deslavado racismo das outras mídias, deva ser buscada em outras plagas, bem mais próximas de nós: A colônias italianas do Rio de Janeiro e São Paulo.

Com efeito, ao nos debruçarmos sobre a bases que formaram o nosso cinema, esbarraremos, fatalmente, numa lista enorme de ‘carcamanos’ emigrantes, gente simples, humilde e empreendedora que, construiu aqui praticamente tudo que precisávamos para ter cinema brasileiro.

De Paschoal, Gaetano, Alfonso e João Segreto, passando por Paulo Benedetti até Rogério Sganzerla, são centenas os nomes de italianos e ítalo-brasileiros envolvidos na arte de fazer filmes no Brasil, inventando equipamentos, processos fílmicos, dirigindo, cinegrafando ou atuando, a importância destes europeus na fundação de nosso cinema foi decisiva.

Empreendedorismo, pitadas de Anarquismo, de Comunismo, Socialismo e, logo mais adiante, Neo realismo, eis o que seriam as lentes abertas para a negritude em nossa cinematografia.

“ Fita apreendida

No dia 27 de junho de 1926 o jornal O Estado de S. Paulo publica uma matéria intitulada Exploração ignóbil. Um filme deprimente para o Brasil preparado pela companhia Dramática da Atriz Italia Almirante. A longa reportagem relata a apreensão de um rolo de filme com cerca de 150 metros cenas de batuque que foram feitas no Jardim da Aclimação, supostamente passadas numa senzala de uma fazenda de um nababo português.

“Em certo ponto, um artista não se contem e, por pilhéria, arrebata uma pretinha e sai com ela, dançando. Os dançadores se alvoroçam e o chefe do batuque separa o par, com ar feroz. Mas isso não o satisfaz e para vingar-se vai ao grupo de artistas, tira uma atriz e sai com ela, a dançar. Embalde os colegas tentam arrancá-la daqueles braços, da sanha daquela multidão andrajosa, suada, de catadura hedionda. Estabelece-se a luta.

E, aos gritos de toda a gente, aparece o fazendeiro, de botas, chapéu largo de cowboy, um tipo anacrônico, que arrebata a moça das mãos do preto, atira por terra o agressor e corta-o de rebenque, surdo às imprecações feitas de joelho. Enquanto o companheiro apanha os pretos fazem esgares de pavor”.

         (Em ‘Italianos no cinema brasileiro’ artigo de Márcio Galdino)

Positivo velado

Amir Labaki escreve:…”Numa conversa com Vinícius de Moraes, que o guiava para conhecer uma favela no Rio de Janeiro, Orson Welles fez um comentário sobre o que via, direto e profético:

_ “É um Frankenstein. É um monstro que vai se voltar contra vocês.”

Havendo sido criado por volta de 1940, pelo governo brasileiro o Dia da Raça, no qual se criava o conceito algo eugenista da fusão harmônica de ‘três raças tristes’ (brancos, negros e índios, nesta ordem), havia uma intenção oficial de difundir a imagem de que o país era habitado, principalmente, por brancos, com uma taxa mínima de negros e mestiços (intenção a rigor, válida até os nossos dias, notadamente, entre racistas enrustidos)

Foi este, sem dúvida, um dos principais fatores que contribui para a ditadura Vargas acionar o Departamento de Estado Americano e provocar a interrupção do documentário It’s all true, que o festejado cineasta Orson Welles realizava no Brasil em 1942, descrevendo, principalmente, a saga de um grupo de jangadeiros liderados por um homem chamado ‘Jacaré’, do Ceará ao Rio de Janeiro, para denunciar ao governo brasileiro suas péssimas condições de vida.

Segundo o Departamento de propaganda do governo, Welles enfocava, demasiadamente, em seu filme, os negros e a cultura afro-brasileira (no caso, nordestinos – cafuzos para alguns – com a pele queimada de sol e favelados negros do Rio de Janeiro).

É ainda Labaki quem comenta:

…”Em 19 de maio de 1942, já filmando nas praias cearenses, advém a tragédia. A mesma jangada original da ida ao Rio foi virada por uma onda forte num dia de mar bravo. Os quatro homens caíram na água. Jacaré submergiu, voltou à tona, pediu socorro, nadou desorientado mar a dentro e desapareceu. Seu corpo jamais foi resgatado. “Jangadeiro deve morrer no mar” foi a manchete caimmyana de um jornal, atribuindo a citação ao próprio Jacaré.”

…Pressionado por todos os lados, com produtores descontentes com a extensão das filmagens, e políticos de cá e de lá furiosos com a ênfase na pobreza e na negritude do episódio sobre o Carnaval, Orson Welles terminou o que viera fazer e deixou o Brasil para nunca mais voltar.

Jamais concederam-lhe a oportunidade de finalizar “It`s All True”, editado parcialmente sete anos depois de sua morte.”

Banido, tornado quase invisível, durante muitos anos, os negativos do filme foram recuperados, mostrando imagens épicas fantásticas do nordeste brasileiro, com o movimento impressionista das velas e das ondas do mar do Ceará e da então capital federal, com fortes e trágicos contrastes e nuances de preto & branco.

Visto hoje, com distanciamento, ‘It’s all true’ nos aparece como um legítimo filme brasileiro, tão grande a influência que, sabe se lá por que mágicos meios, imprimiu em nossa filmografia posterior, notadamente no cinema de Glauber Rocha. Talvez fosse mesmo uma tendência, um fenômeno cinematográfico amplo e recorrente, num mundo que, bafejado pelos ventos abrasivos da guerra, impulsionava o cinema, inapelavelmente, para a reflexão em imagens, de valores universais essenciais, tais como a solidariedade humana, a diversidade cultural e a luta contra o racismo, a intolerância e a miséria, seja onde estivessem.

Ventos que, geraram em suma, o movimento denominado Neo-Realismo‘ italiano, famoso movimento cultural surgido no pós guerra cujas maiores expressões foram (olha a Itália de novo aí, gente!) Rosselini e De Sica.

Mesmo com o advento do Cinema Novo (segundo se diz, criado por Humberto Mauro) o cinema brasileiro segue tributário dos italianos.

Se algum pai houve não se sabe ao certo, mas, talvez ‘la Mamma’ de nosso cinema moderno tenha sido mesmo esta avassaladora influência neo-realista de De Sica e Rosselini, em seu amor desmedido pela imagem idílica do povo da itália, escurecido pelo sol do Mediterrâneo e entidade vítima de algozes muito cruéis (o nazi-fascismo que morria e o imperialismo capitalista que surgia voraz), num contexto de caos social impactante. Talvez tenha navegado por estas ondas portanto, a relativa aceitação de uma certa negritude em nosso cinema.

Mas, é bom se frisar que este Neo Realismo brasileiro, se impõe mesmo é com o lançamento de Rio 40 graus de Nelson Pereira dos Santos e, logo após, com Rio Zona Norte, do mesmo autor, seguidos pela série Cinco Vezes favela‘, filme produzido pelo vanguardista CPC da UNE (no embalo lançando os cineastas Leon Hirszman, Cacá Diegues  e até o Eduardo Coutinho – cujo filme ‘Cabra marcado para morrer’, da mesma época, por conta do golpe militar ficou inconcluso).

Reveja o cinema de Glauber Rocha e observe nos formidáveis planos-sequências, aquela visão de um povo heróico e retumbante, esturricado de sol e sede, enfrentando, estoicamente, as agruras da natureza e do cruel capitalismo anglo-saxão.

Isto tudo exposto, podemos dizer que sempre houve uma substancial presença de negros nas telas de cinema do Brasil sim, mas, não nos furtemos em perguntar:

_Como assim?

Vejam talvez que esta, talvez seja uma história boa demais para ser verdade. No cinema, como no Brasil, ‘nem tudo é verdade’.

Alma no olho

João Carlos Rodrigues, em seu livro aqui citado O negro brasileiro e o cinema – enumerou 12 arquétipos (ou estereótipos) invariavelmente, disponíveis para atores e atrizes negros no Brasil. Os mais importantes são os seguintes:

O Preto Velho, o Mártir da escravidão, o Nobre Selvagem, o Negro Revoltado, o Negro da Alma Branca (trágico elo entre oprimidos e opressores ), o Crioulo Doido (equivalente assexuado e cômico do Arlequim da Commedia dell’Arte ), a Musa Negra. Há dois com uma nítida conotação sexual exacerbada :O ameaçador Macho Negro ( Negão ) que povoa os sonhos racistas com estupros e violências ; a Mulata Sedutora ( Uma espécie de mulher-objeto cor de chocolate, desejada por todas as raças).

Na obra de João Carlos, todos os personagens negros e mulatos da ficção brasileira se enquadram em uma dessas categorias.

Assisti, por acaso, um dia destes, ao excelente e bem realizado ‘Também Somos Irmãos’, drama de José Carlos Burle com Grande Otelo, Aguinaldo Camargo, Agnaldo Rayol, Ruth de Souza e Jorge Dória, produzido pela valorosa companhia de cinema Atlântida em 1949. Embora velados, muitos dos estereótipos enumerados estavam lá.

Já foram de algum modo citados também outros filmes emblemáticos – com ou sobre negros – aqui mesmo nesta série. Entre eles Assalto ao Trem Pagador de Roberto Farias, Ganga Zumba (1964) de Carlos Diegues, Compasso de espera, direção de Antunes Filho (que conta o drama de um intelectual negro representado por Zózimo Bulbull, na megalópolis São Paulo, tentando integrar-se na sociedade branca). Podemos citar também Bahia de todos os santos (1960), de Trigueirinho Neto, Sinhá Moça (1953), direção de Tom Payne e Osvaldo Sampaio, O amuleto de Ogum (1974) e A tenda dos milagres (1977) ambos dirigidos por Nelson Pereira dos Santos, além de Xica da Silva (1976) e Quilombo de 1984 (o mito de Ganga Zumba de novo, também com a direção de Carlos Diegues, desta vez como super produção neo-tropicalista) e o digno Chico Rei (1985), de Walter Lima Junior – do qual este autor que vos fala, orgulhosamente participou, escrevendo a trilha sonora com seu grupo Vissungo (Wagner Tiso escreveria a trilha ‘branca‘, europeia) e coordenando grupos de congada na cena final.

Nesta vasta filmografia, dois fatos saltam aos olhos: Diretamente ligados à história, aos dramas, e ao modo de ser dos negros do Brasil, nenhum destes filmes foi dirigido por um diretor negro. Segundo: talvez por esta prosaica razão, em todos eles, de algum modo, os personagens negros são esquemáticos, estereotipados ou idealizados, quase sem nenhuma diferença do quadro de ‘arquétipos’ enumerado por João Carlos Rodrigues acima.

É fato também, portanto que o negro brasileiro está no cinema apenas com o corpo. Não está presente a sua alma. Seus olhos não se reconhecem nestes corpos travestidos por estereótipos os mais diversos, uns frutos do preconceito ou da ignorância, outros fruto da arrogância elitista de certa classe cinematográfica voltada excessivamente para uma visão estreita de nossa sociedade, contaminada por nossos vícios racistas mais recorrentes e sempre, renitentemente, presentes. Uma alma, senão branca, desvirtuada pela visão esquemática do filtro torto, com o qual a maioria de nossos cineastas enxerga a alma do negro (e, por extensão, dos pobres do Brasil).

As exceções a esta enigmática invisibilidade da alma do negro, dirigindo-se a si mesmo, em nossas telas, são poucas, entre elas, Cajado Filho (1912 – 1966), cenógrafo e roteirista de dezenas de filmes de sucesso, que dirigiu cinco longas metragens entre 1949 e 1958, todos infelizmente desaparecidos. Foi quase certamente o primeiro diretor negro do cinema brasileiro segundo João Carlos Rodrigues.

Com um hiato de muitos anos, temos também ‘As Aventuras amorosas de um padeiro’ de Waldir Onofre (cineasta que narra a alma suburbana da zona Oeste do Rio) ,’Alma no Olho’, de Zózimo Bulbull (Jorge da Silva), além de títulos esparsos por aí, a maioria de cineastas negros iniciantes, unidos, recentemente pelo Centro Afro Carioca de Cinema, criado por Zózimo Bulbull e Biza Vianna que, a partir de referências seminais do cinema africano, do senegalês Ousmane Sémbene, do nigeriano Ola Balogun (que filmou no Brasil nos anos 80 A Deusa Negra) e de Zezé Gamboa (prêmio do júri no Sundance Film Festival, em 2005), entre outros, todos reunidos num concorrido festival realizado no Cine Odeon (entre outros espaços), no Rio de Janeiro em novembro de 2007 e 2008, almejam quebrar o paradigma da ausência da alma negra no cinema do Brasil.

Dogmática feijoada

Na crônica das incongruências que este grupo de cineastas negros almeja superar, no intuito de provar que as idiossincrasias da alma popular brasileira (vale dizer a alma dos ‘não brancos’ do Brasil) não tem sido bem descrita pelos filtros do nosso cinema tradicional, existem casos clássicos, muito discutidos por seu caráter assaz constrangedor, como por exemplo, a salada antropológica, de cunho, grotescamente, tropicalista e gosto duvidoso (até como cinema) com que o sempre festejado Cacá Diegues tratou o Quilombo de Palmares, emblema de um episódio caro a alma libertária de todos os brasileiros (travessura estética repetida em 1999 no – vá lá – ‘pós modernista’ Orfeu com Toni Garrido).

E nem precisávamos falar também da, certamente bem preparada e articulada mulher que foi Xica da Silva, transformada em mera ‘mulata’ lasciva, quase prostituta, por – de novo ele – Cacá Diegues, o renitente cineasta que filmara também, alguns anos atrás, a imagem risível no filme Ganga Zumba de uma escrava africana usando hennè nos cabelos (Luiza Maranhão, grande atriz de tantos filmes emblemáticos como o já citado Assalto ao Trem Pagador).

Mas, quem se importava com estas continuístas filigranas de foco e enquadramento àquela altura dos acontecimentos, tomados que estávamos pelo sonho ufanista de termos com a Embrafilme, enfim, uma indústria cinematográfica de peso? Definitivamente, não pegava bem naquela época, falar mal do cinema nacional.

Felizmente, panorama cinematográfico brasileiro neste aspecto tão vexatório, neste cipoal de impropriedades estilísticas, pode estar prestes a mudar com a mais recente e incisiva – pelo menos como atitude – incursão representada pelas ações afirmativas tocadas, à própria conta e risco, por um grupo de cineastas e estudantes de cinema de São Paulo: O Dogma Feijoada.

Liderada pelos, relativamente, jovens cineastas paulistas Jeferson De e Noel de Carvalho, O Dogma Feijoada é uma ação que reúne cerca de 13 cineastas negros paulistas, a maioria representantes de uma inédita geração de alunos de cursos regulares de cinema, animada a quebrar os tabus conceituais e ideológicos mais recorrentes neste assunto, com muita disposição, embora ainda se baseando em ideias – apesar de, saudavelmente provocativas – em sua maioria, um tanto ou quanto insuficientes (redundantes até) – segundo se pode avaliar pelas sete ‘dogmáticas ‘ cláusulas que expomos a seguir:

‘Cinema Negro Brasileiro ou Dogma Feijoada

1- O filme tem de ser dirigido por um realizador negro brasileiro;
2- O protagonista deve ser negro;
3- A temática do filme tem de estar relacionada com a cultura negra brasileira;
4 -O filme tem de ter um cronograma exeqüível. Filmes-urgentes;
5- Personagens estereotipados (negros ou não) estão proibidos;
6- O roteiro deverá privilegiar o negro comum brasileiro;
7 – Super-heróis ou bandidos deverão ser evitados. ’

Mesmo considerando que – nem mesmo como ironia ou brincadeirinha com dinamarqueses- não se quebram paradigmas com dogmas (dogmática mesmo é a prática dos que estão do outro lado ) só nos resta desejar que, a partir desta entusiasmada galera do Dogma, a moviola simbólica deste nosso ainda inacabado filme noir (que por aqui, sem o menor suspense, parece sempre rodar para trás) avance mesmo, rumo a um cinema brasileiro completo em gentes e nuances; rico, com heróis e vilões sem máscaras ou pankaques; um cinema colorido, diversificado em temáticas e arquétipos, feito por todos e Paratodos (como o nome daqueles cine ‘poeiras’ de interior).

Enfim, sem mais delongas vulgares ou ‘The ends’ bregas e, sobretudo, sem ‘_ Óticas do povo, morou?’, só me resta gritar à guisa de corte final:

_Luzes, Câmeras e…ação!

Spírito Santo

Dez 2008

(Leia também os takes 01 e 02 )

CINEMA EM BRANCO & PRETO / Take 2


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Cinema para quem precisa

Interior/Dia

Voltando a nossa boa conversa do Take 01 desta série, o fato é que, para sermos justos, foi nas dimensões hospitaleiras do veículo cinema, da tela grande, que se asilaram e se tornaram visíveis muitos atores não-brancos fabulosos deste Brasil.

Neste âmbito de dramas empolgantes, tivemos Eliezer Gomes, o Tião Medonho (do clássico Assalto ao trem pagador de Roberto Farias), que foi também o caseiro psicopata de Anjo da Noite, de Walter Hugo Khouri, e o escravo-cavalo de Jeane Moreau (em Joana, a francesa de Cacá Diegues). Um ator autodidata, de ‘dimensões shakesperianas’, segundo disse um crítico na época, mas, quem se lembra? Pelo visto, poucos.

Belo e bravo cinema do Brasil. Bucólicas ou violentas imagens, suburbanas ou rurais, às vezes sagas grandiosas, nas quais os não-brancos apareceram sempre com a alma de certo modo inteira.

Generoso e ainda efêmero cinema nacional. Sempre tão precário como indústria.

De Bulbul à la Diniz

Se de vez em quando um mea-culpa doloroso é carpido pelos cerca de 30% de incluídos, geralmente isto se dá nas telas do cinema. É neste momento – como num rápido trailer – que a imagem dos 70% mais ‘feios’ aparece gloriosamente colorida, incômoda e corrosiva, tanto aplacando talvez culpas internas (como autoflagelação de mentirinha), quanto desmascarando, internacionalmente, nos Hollywoods e Berlins da vida, a cegueira extrema daquele Brasil ‘branco’, sarado e siliconado, que não cansa de olhar o outro Brasil pelo retrovisor.

O pior é que, ao que tudo indica, o grande e perturbador aspecto do problema não é ainda este. A coisa é ainda um pouco pior. Pasmem se ainda puderem mas, pelo que se vê exposto nesta mídia, é quase que, totalmente, ‘branca’ também a maioria das pessoas comuns visíveis, os transeuntes flagrados por câmaras fotográficas ou de TV, dando opiniões e entrevistas, frequentando praças de alimentação de shopping centers.

São também, majoritariamente, ‘brancos’, do mesmo modo, os frequentadores de bibliotecas, de cibercafés (lan houses de favela não contam, é claro), de bares genéricos ou temáticos, de centros culturais, assim como o são os professores universitários, os aposentados com dignidade, os funcionários públicos acima do último escalão, as socialites autênticas ou emergentes, as recepcionistas de lanchonete ou de butique, os modelos e manequins, os praticantes de cooper na orla, os ciclistas e motoristas de fim de semana, até os mortos nos acidentes de trânsito o são.

É sempre incrível para os estrangeiros que nos visitam, mas também é ‘branca’ a maior parte dos espectadores de cinema e teatro, os atletas de esportes radicais, assim como também são brancos a maioria das prostitutas do calçadão, os jogadores de frescobol, de voleibol, de basquetebol. Cá entre nós, já notaram que são cada vez menos negras também, até as empregadas das telenovelas?

Milton Santos, o brasileiro que chegou a ser considerado o maior geógrafo do mundo (ele mesmo, um dos muitos invisíveis gênios negros deste país), costumava perguntar onde estaríamos escondendo os nossos milhões de não-brancos. Em guetos infectos como na antiga África do Sul? Seriam mesmo guetos infectos as nossas milhares de favelas? Ou não?

A relativa invisibilidade de não-brancos em nossa televisão, aliás, é um episódio digno de várias novelas. Desde o tempo do dramalhão A cabana do pai Tomás, no qual ator Sérgio Cardoso apareceu pintado de preto, passando pelo beijo – até hoje escandaloso – do crioulo Zózimo Bulbul na ‘loura’ Leila Diniz, pouca coisa mudou.

Corte / Tela escura / Silêncio

O impressionante Aguinaldo Camargo, o nunca demasiadamente citado ícone Grande Otelo, Milton Gonçalves, Antônio Pompeu, os saudosos Marcos Vinícius, Norton Nascimento e Paulão Barbosa; Cosme dos Santos, Luiz Antônio Pilar, Maurício Gonçalves, Roque Pitanga, Lui Mendes, entre outros, são parte de uma dinastia de duas ou três gerações que, com raras exceções, sempre representou eternos estereótipos do bandido, do policial, do porteiro, do traficante, do motorista e, quase sempre, do indefectível escravo doméstico, assim meio Uncle Thomas, meio Pai João (escravo rebelde de novela, sempre morre sozinho, abandonado pelos irmãos de cor e de infortúnio).

Também para duas gerações de atrizes a mesma galeria de tipos chapados, estereotipados. Ruth de Souza, Léa Garcia, Chica Xavier, Zezé Mota, Neuza Borges, Zezeh Barboza, Iléa Ferraz, Mariah da Penha, Isabel Fillardis, Thaís Araújo, Maria Ceiça, Cida Moreno e – vá lá – Camila Pitanga, entre tantas outras, revezam-se em papéis similares, geralmente jovens mucamas oferecidas, velhas escravas resignadas (ou alegres e prestativas domésticas). Às vezes, para variar, desbocadas prostitutas.

A não ser quando representando escravos de alguma senzala de padrão global, os atores negros de nossa teledramaturgia quase nunca são ocupados assim, em grupo, em núcleos (como ocorreu aliás uma vez, quando uma família negra de classe média exibiu seus um tanto descoloridos conflitos na TV).

Geralmente as telenovelas, quando existem papéis específicos “para negros”, costumam ocupar de cada vez, apenas um ou dois atores ou atrizes negras “de plantão”. Este plantão envolve sempre a mesma galeria de personagens estereotipados citados, o que faz com que a carreira de ator ou atriz para negros no Brasil seja uma atividade de pouco ou nenhum futuro, atraente apenas para os loucos mais abnegados.

A natureza e a dinâmica dos mecanismos que acionam esta invisibilidade a que estão relegados os não-brancos em nossa teledramaturgia são dois grandes mistérios de nossa sociologia.

Tudo nasceria de um acordo tácito entre teledramaturgos? Seriam mecanismos regidos por secretos memorandos internos trocados entre a alta cúpula das emissoras? Estariam baseados em estratégias de comercialização, em pesquisas de mercado nas quais o consumidor não-branco apareceria como um segmento desinteressante ao mercado? Ou seria culpa da desmobilização política da classe, do conjunto de artistas negros, da opinião pública não-branca deste país?

Talvez seja esta a faceta mais cruel do racismo à brasileira: seu caráter de omertá, a lei do silêncio, instituição fantasmagórica, mas, onipresente, rígida e complexa apesar de não estar escrita; tácita; sórdida porém tolerável; seguida à risca por uma multidão de cúmplices, beneficiários de uma injustiça impossível de ser inteiramente identificada e compreendida pelas vítimas, porque não pode ser atribuída diretamente a ninguém, já que todos os indivíduos que a praticam aprendem, desde de criancinhas, a repetir o surrado discurso que diz:

“Se há racismo, os racistas são os outros”.

Plano Americano

Corte

De todo jeito, se todos nós sabemos que um rostinho levemente europeu definitivamente não corresponde ao perfil étnico da maioria de nossa população, o que estaria havendo então? Algum tipo de loucura, de neurose coletiva? Estaríamos vivendo todos um problema tão grave de autoestima que, mergulhados numa profunda crise de identidade, acabamos por nos atolar na paranoica negação de nossa própria imagem? Ou seria uma cínica e esperta “ação afirmativa” às avessas, algum corporativismo racista do tipo “primeiro o meu, depois o do judeu”?

Seja lá o que for, é bom que deixemos logo de ser brancos para sermos francos. Já não é possível encontrar inocentes neste roteiro de sutis omissões e comodismo interesseiro.

Se não nos surpreendemos mais com isto, indignemo-nos, pois!Dizem que um dia destes (bem antes da Obamania surgir, claro) um apatetado George W. Bush perguntou ao presidente do Brasil que o visitava:

_”É verdade que vocês tem mesmo negros por lá?”O ‘branco’ Lula, dizem, ficou vermelho e depois sorriu amarelo.Indignemo-nos pois, antes que, sem nenhuma imagem que represente a verdadeira cara do nosso Brasil cor de anil, em resposta a um destes Bushs da vida, só nos reste, dizer:

_ “Tivemos negros sim, mas, com o tempo, eles foram sumindo, sumindo…”

As conclusões mais enfáticas deste artigo, no plano de nossa vida cotidiana, no dia a dia, começam a carecer já de alguma revisão, no bom sentido. Tudo ainda muito incipiente, quase imperceptível. Contudo, seria este um reflexo das políticas de ação afirmativa, tão combatidas quanto ignoradas por nossa renitente mídia ligeira, sempre inerte e omissa como aquele cego que teima em não querer ver?

Deixando de lado este quase interminável rol de invisibilidades de nosso ‘apagão imagético’, siga então em frente e leia também os posts takes 01 e 03 deste eletrizante argumento.

Spírito Santo

Dezembro 2008

O Paradigma do Macaco


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Afinal, quem são os primitivos estúpidos nesta história?

“…O filme traça a trajetória do homem desde, aproximadamente, quatro milhões de anos antes de Cristo, até o ano de 2001, sempre abordando a evolução da espécie, a influência da tecnologia nesse crescimento e os perigos da inteligência artificial.

O final, um dos mais emblemáticos da história do cinema, mostra astronautas travando uma luta mortal contra o computador – a versão moderna do confronto entre criador e criatura, que já inspirara clássicos como Frankenstein.

Um monólito cai na Terra ainda na época da pré-história e, muitos anos depois, em 1999, é descoberto um segundo monólito na Lua.

Aparentemente, são alienígenas que observam os terrestres, então uma missão internacional é enviada a Júpiter com a missão de descobrir o que eles realmente querem”.

O filme, todo mundo sabe é ‘2001, uma odisséia no espaço’ de Stanley Kubrik, baseado na obra genial de Arthr C. Clarke. Nele, no momento da pré-história quando o primeiro monólito negro cai, um orangotango também negro lança um osso para o espaço.

O osso-ferramenta, girando no vazio, se transforma numa nave espacial. O osso transmutando-se em nave, pela força mágica de um inexorável e enigmático paradigma (o monólito) navega solitário entre galáxias.

Osso e nave, macaco e homem, símbolos da relatividade da inteligência humana, inscrita no tempo e no espaço. E nós todos ali, juntos naquela nave útero-de-mãe-solteira, irmanados, aprisionados em nossa odisséia de reles macacos sobreviventes, perdidos no espaço.

Algum conflito? Alguma ameaça? Sim, claro. Sem isto qual seria a graça da história. É por isto mesmo que o filme nos apresenta também o aterrorizante Hal 9000, o computador pirado, criado pela mesma humana estupidez de sempre.

Hal, arrogante e prepotente, pensa que nós todos, os astronautas é que somos estúpidos e ignorantes incorrigíveis, como… macacos.

Hal coloca tudo a perder neste seu delírio, nos levando à morte, à extinção (Ufa! apenas simbólica no filme, pois a terra ainda existe e está lá, bem distante de nosso drama). Pouco importa. O certo é que o filme é mesmo emblemático. Nos dias de hoje mais ainda.

Estupidez humana. Hajam monólitos e paradigmas para quebrá-la.

Macaco é a mãe!
Cena 01

A piada mais sem graça que ouvi na vida, quando ainda era bem criança – não entendi bem porque na época – era aquela que desqualificava, grosseiramente, a notória qualidade da oratória de José do Patrocínio, o nosso grande jornalista e abolicionista.

Na piada, Patrocínio discursava empolgado quando lá no fundo da platéia alguém gritava algo como:

– “Cala a boca preto!”

Ao que Patrocínio, impassível, mesmo diante das gargalhadas nervosas da platéia de políticos, brancos em sua maioria, emendava:

– “… Preto como o feijão, que abastece as nossas mesas saciando a nossa fome!”

Mas a voz ao fundo insistia:

– “Cala a boca crioulo!”

E Patrocínio respondia de pronto, sem pestanejar:

_ “Crioulo sim, como o jacarandá, madeira nobre com a qual construímos os móveis que embelezam os nossos salões!”

Era quando então, acossada pela dificuldade de desmontar a firme convicção do orador a voz apelava:

_” Cala a boca, macaco!”

Patrocínio, ainda no mesmo tom, respondia:

_”Macaco como… macaco como…(mas, logo a seguir,estressado, perdia a linha,)…Macaco é a puta que te pariu!”

Aí, sim, o clímax, a catarse. Patrocínio desqualificado, caído de sua pose e rebaixado à condição de reles crioulo normal.

As pessoas da audiência que ouvia a piada, indiferentes ao desconforto que eu denotava com o meu risinho amarelo e constrangido, desatavam a rir gargalhadas irrefreáveis, estúpidas para mim, porém, tão normais para elas, que só me restava ficar ali, alheio, quase invisível, pensando de onde tiravam graça daquela comparação de um homem negro com um macaco.

Porque faziam aquilo, pensava eu, na época ainda bem criança? O que haveria de errado, de tão estigmatizante com os crioulos e os macacos para incomodar tanto aquela gente? Não seriam também elas, estas pessoas, descendentes dos mesmos macacos?

———–

Lembrei desta piada vivamente outro dia mesmo quando a também, majoritariamente, branca (pelo menos em padrões brasileiros) platéia de Interlagos, São Paulo, na decisão da corrida de fórmula 1 de 2008, inconformada com perda do campeonato pelo brasileiro Felipe Massa, xingou o inglês Lewis Hamilton, o virtual campeão, primeiro negro a conquistar o título:

_”Crioulo, Macaco! Devia estar correndo era da polícia!”

Soube que não houve a entrega do prêmio de campeão da temporada naquele dia. O pai de Hamilton, por conta de outras agressões racistas ocorridas no decorrer da temporada, chegou mesmo a pensar em sugerir ao filho abandonar o esporte. Disse, com outras palavras, é claro, que achava aquele ambiente sórdido demais para a sua família.

Na verdade, a expressão ‘macaco’ me evocou lembranças bem mais particulares e doídas, me fazendo reconhecer agora mesmo – e vocês, os que nunca passaram por tão vexatório desconforto, haverão de me perdoar – que preciso expurgar de mim estes sujos traumas a que fui exposto, única e exclusivamente, pelo fato de ter nascido negro num país racista.

Desabafo pessoal? Não, não, de modo algum. Este é um legítimo protesto coletivo. Milhões de brasileiros tiveram como eu, a memória destas ofensas avivadas neste momento diante da TV e, mais uma vez se indignaram com elas e vão, com certeza, buscar, cada dia mais ardentemente, um jeito de desagravá-las.

Queremos desmontar o Hal 9000 que habita – e comanda – esta nave espacial chamada Brasil, antes que esta piração sem graça e sem sentido do racismo que nos atordoa e cega, nos leve a todos para o buraco.

Macacos do mundo, uni-vos!

Macaco é a mãe!
Cena 02

18 anos, por aí. Bairro suburbano. Pelas ruas, casas e apartamentos, pobres e remediados, funcionários públicos, operários, gente humilde enfim. Nós, adolescentes heróicos, hormônios à flor da pele, debandávamos de casa aos sábados, ultra perfumados à ‘Patchuli‘ ou ‘Lancaster’, rumo à praça central do bairro com a adrenalina à mil.

Eram poucos, pouquíssimos os brancos no bairro, me recordo agora. Esta história de diferenças raciais, de modo algum, passavam pelas nossas cabeças de negros naquela época. Nem parávamos para pensar o que queria dizer ser isto ou aquilo, em termos raciais.

Anti-racialistas ingênuos, éramos a esmagadora maioria no bairro, mas, isto nos parecia uma condição, perfeitamente, natural. A vida seria assim e pronto.

Vivíamos – só fui intuir muito tempo depois – num gueto isolado, excluídos pelos mesmos parâmetros que justificam hoje o confinamento de pessoas em favelas e ‘comunidades’ carentes, mas, para nós, o mundo inteiro era assim, pobre como nós.

Ignorávamos, completamente, esta sociologia torta e perversa, visivelmente, predominante hoje, sem serventia alguma para nossas vidinhas de rapazes e moças felizes naquela remota virada da década de 1960. Misturávamos cachaça com coca-cola (dava ‘Samba’) na dureza e rum com coca-cola (dava ‘Cuba-Libre’) . Tanto fazia. O objetivo, era mesmo ficar doidão.

Por isto, por esta santa ignorância (ou inconsciência, sei lá) do que vinha a ser racismo, convivíamos, tranquilamente com os gatos pingados brancos de nossa vizinhança. Eu mesmo tinha um grande amigo que era, desbragadamente, branco, louro até.

A pracinha do bairro era um circo curioso (havia nela, inclusive, um parquinho de diversões). Pensando naquela pracinha hoje, o que me ocorre é um barulhento ritual num pátio de acasalamento.

Em pares, às vezes em grupos eufóricos de, no máximo, quatro jovens, ficávamos rodando pela praça, dando voltas renitentes, como num rally à pé. Rapazes, mãos nos bolsos, tensas, num sentido, moças de braços dados, não menos tensos, no sentido inverso.

Ao se cruzarem, os pares – ou grupos – faziam gestos dissimulados, lançavam olhares e palavras cifradas, com significados que ensejavam, ou não uma paradinha, palmilhada de risinhos histéricos das moças e pigarros nervosos dos rapazes. Ali, um casal se formava e começava um namoro. Ou não. Uma promessa ao menos, um talvez-quem sabe-um-certo-dia.

Era este o nosso rito de passagem de jovens magrelos, frio na espinha (e espinhas na cara), ansiosos por conhecer o sexo oposto e, quiçá, o maior amor de nossas vidas.

Me lembro, vivamente, da noite em que eu e meu amigo branco, circulando na praça nos fixamos numa dupla de moçoilas. Eram brancas, mas, e daí? Estávamos atraídos pelo risinho disfarçado de uma delas, não conseguimos decifrar se era para ele ou para mim.

–“ Sorriu pra ele, claro” – Pensei inseguro.

Mas eram duas, custava nada tentar. “_Quem não arrisca não petisca” -, pensei, me reanimando.

Não sei ao certo o que eu disse para ela, qual foi o gracejo, deve ter sido algo bem imbecil, imagino. Os gracejos juvenis são sempre chavões idiotas, que a gente decora para quebrar o gelo, domar o pânico, estas coisas. Não foi dita nenhuma grossura, claro. Gracejos juvenis também são sempre marcados por alguma poética ingênua, babaca mesmo, de um romantismo jocoso, o gracejador querendo parecer gentil, espirituoso e, na ânsia de agradar, chegando até a gaguejar às vezes .

Foi por isto que aquela frase dela me atingiu como um soco no estômago:

_” Não se enxerga não, seu macaco!”

Nunca me recuperei daquela ofensa estúpida e gratuita. Jamais entendi direito o que poderia justificar aquilo. Lembrando o incidente, marcado para sempre pelo impacto dele no meu íntimo, percebo que tivesse havido no tom da voz dela, naquele rompante de ódio desmedido, uma reação inconsciente diante do fato de ter recebido um gracejo de mim, o negro, e não do branco.

Talvez fosse este acaso o que a tivesse feito se sentir tão diminuída, rejeitada, desprezada como uma cadela sem cio. Ela se sentira vulgarizada pelo meu gracejo o qual – que ironia -, com toda certeza devia ser algum galanteio, um elogio.

Talvez nem branca ela fosse – pensei depois, ressentido- , apenas parecesse e tivesse uma necessidade neurótica de esconder isto das amigas brancas. Um pai mulato, uma mãe parda? Seria isto? O fato é que não entendi – como não entendo até hoje – o sentido daquilo. Pura neurose, concluí.

Fácil refletir agora, mas, como saber ali, no calor da hora, o que se passava na cabeça de uma pessoa assim. Quem ensina estas coisas às mocinhas brancas? Quem alimenta esta bílis, este veneno na cabeça delas? De onde vêm estas práticas, cinicamente, guardadas em gavetas forradas com papel rosado, que explodem assim, rancorosas, na cara de sujeitos ingênuos como o tolo rapazola que eu era?

Um trauma juvenil foi o que ficou, podem interpretar assim. O que sei é que aprendi que existia racismo ali, naquele momento, a cabeça girando, sentindo uma espécie de náusea inexplicável, querendo afundar no chão da praça e sumir.

(E pensar que existem milhões de rapazes e senhores negros, agora mesmo, remoendo esta mágoa como eu…)

O amigo branco também nem no assunto tocou. Fingiu que não ouviu. Não demonstrou nenhuma solidariedade, nem mesmo fingida. Orgulhoso, me recompus e, disfarçadamente, me juntei a um grupo de rapazes iguais á mim, que estavam no parquinho de diversões ao lado, mandando pelo serviço de auto-falantes mensagens românticas anônimas, para moças também como eles, naquela acomodação social que talvez sempre existisse, sem que eu, tivesse tido ainda a chance de perceber… Até aquela hora.

Aquele “não se enxerga, não?” ressoando na minha cabeça como se tivesse sido gritado pelo auto-falante, era uma mensagem bem clara: Um negro – ou um macaco – devia sempre saber onde era o seu lugar.

O Macaco é a mãe!
Cena 03

Poderia ter sido comigo, mas, é fato também que, como muitos outros, um conhecido meu, do mesmo bairro e na mesma época, passou pelo mesmo revés quando adolescente. Turrão como um cão sem dono, não se emendou, não engoliu a ofensa, não recuou. Decidiu, ali, naquela hora que daria o troco um dia.

Anos depois, surgiu a oportunidade e ele encarou a barra de assumir um casamento inter-racial, por pura rebeldia, concluindo depois (claro, de tão estúpida que era a idéia, ele só se deu conta do erro terrível que cometera anos após).

Você já viu algum estudo sério sobre casamentos inter-raciais no Brasil? As próprias pessoas envolvidas não falam, trancam suas intimidades a sete chaves. Quantos casais inter-raciais você conhece? Aposto que dá para contar nos dedos de uma das mãos.

Você não acha estranho que um país onde, por baixo, metade da população é negra (sem contar os genéricos ‘não-brancos’, índios, nordestinos, etc.), o índice de casamentos inter-raciais seja tão irrisório? Pois bem, este meu amigo teve, amargamente, o dissabor de saber tim tim por tim tim, por que as coisas aqui são assim. Querem saber também? Olha o que ele me contou:

“A pressão da família contra o namoro era enorme. Desprezo absoluto e explícito, nenhuma autorização para as saídas mais prosaicas, nem mesmo um cineminha. Uma situação que, infelizmente, só atiçava os meus brios libertários, envolvido que estava, romanticamente, naquele clima contra cultural dos anos 70…

“Eu vou. Porque não? Porque não? Porque não?”

Confuso naquele afã de ser o rebelde, uma espécie de ‘Che Guevara’ de um politizado e idealizado amor, aquele que desafiaria o sistema de castas raciais que predominava, mesmo naquele remoto bairro suburbano, ele não se tocou, nem mesmo quando sentiu o ar atemorizado da família e dos amigos que avisavam, insistentemente:

_”Olha, rapaz…. você está brincando com fogo”.

Mas, não adiantava avisar. Casaram-se. A princípio, integrando-se no mundo branco dela (à margem da família), começou a perceber que a ele estava reservado o papel incômodo de um personagem conhecido como o ‘negro da patota’, aquele de quem se espera que divirta, distraia a galera com alguma habilidade especial.

_”Ah, que legal! Ele conta piadas! Ele toca violão! Ele samba tão bem!”

(A regra é clara: Um negro no Brasil não freqüenta um ambiente, majoritariamente, branco se não tiver alguma habilidade especial que o destaque. É preciso mostrar a que veio. Já pararam  para observar esta máxima?)

Nunca ser ele mesmo, nunca ser a persona, o indivíduo negão. Sempre o personagem.

Isto sem contar os sapos que ele, o meu amigo, engolia, relevando os olhares preconceituosos das pessoas, as piadinhas pouco de salão e as insinuações salpicadas de maldades ferinas, nos ambientes mais corriqueiros, bares, cinema, etc. Pareciam sempre estar pensando:

_” Que diabo faz aquela branca tão fina casada com aquele crioulo doidão?”

No ambiente inverso, contudo, era ela que não se adaptava, oscilando sempre entre a timidez constrangida e a vontade irresistível de assumir logo o papel de outro personagem, este abominável, inaceitável para as pessoas dali: A sinházinha branca ‘superior’, aquela que estava ali por pura concessão de sua parte, simplesmente, por ser uma branca ‘compreensiva’, ‘gente boa’.

Personagens cínicos, canastronas representações e estereótipos banais, é disto que se nutrem as nossas tensas relações raciais.

O certo é que o pessoal, levando na brincadeira para não ofender o amigo, ironizava a ‘atuação’ dela apelidando-a (não sem algumas pitadas de sarcasmo) de ‘Princesa Isabel, a venturosa’, ‘Viridiana de Bangu’ (lembram do filme do Luis Buñuel?), e outros meigos vulgos e codinomes.

Mas eram os anos 70, ora. O mundo acordara há pouco de um longo torpor político. Panteras negras, Vietnam… Claro que a relação do meu nobre amigo com a branca azedaria e, não demorou muito mesmo a degringolar.

Mundos estanques, inconciliáveis, ele acabou decidindo divorciar-se dela. No ato letigioso da discussão dos termos gerais para a dissolução do casamento, ainda no corredor do fórum ele ouviu dela o vaticínio de que ele seria, ao final das contas, o único e irremediável perdedor.

_”Porque?”_ perguntou, com o restinho de ousadia que lhe restara.

_”Porque você é preto e eu sou branca”

Disse isto com aquele desdém típico das mulheres despeitadas, o veneno escorrendo no canto da boca (ex-esposa, nestes casos, é a pior inimiga, a mais implacável que um ser humano pode ter na vida, diz este meu amigo até hoje e, penso eu, coberto de razão).

Não deu outra. Tiveram vários conflitos ainda, relacionados a graves pendências conjugais. Numa delas, chegou a perder a cabeça e esbofeteá-la em público. Para os amigos que presenciaram a cena, achando que ele errara feio desta vez, ele justificou:

_”Não deu pra segurar não, gente. O sangue me subiu à cabeça quando ela me chamou de… macaco!”

O macaco está certo.
Todos os macacos em um

Você viu: O negro Barack Hussein Obama ganhou as eleições norte americanas. O mundo inteiro festejou eufórico. Fala-se numa mudança de paradigma. Achei as comemorações por aqui, não sei bem porque, bem modestas, contidas, chôchas até.

Das dezenas de amigos brancos que tenho hoje (do mesmo modo que o meu amigo louro do remoto subúrbio) pouquíssimos tocaram no assunto comigo. Fiquei decepcionadíssimo, mesmo sem entender. Uma amiga de ‘esquerda’, retirada por mim de seu mutismo absoluto sobre Obama, com uma pergunta direta, respondendo quase à força, complementou sorrindo amarelo:

“_ É, mas, ele não é negro!”

Incomodado com este estranho e lacônico comentário (olha que já se vão mais de quarenta anos daquele emblemático incidente na pracinha suburbana) naveguei por links e links na internet buscando a compreensão, sempre tão fugidia, deste assunto, de novo tão atual.

Lá, no resto do mundo, a festa. Aqui o quase silêncio, a comoção travada, o comedimento ‘anti-racialista’.

Lá descobri que pouca coisa mudou. Mas, vai mudar. Os ares são, fortemente, de mudança. O que não mudou lá é o ódio travado de alguns. O serviço secreto da casa Branca está preocupado com as muitas questões de segurança que a proteção à vida de Barack Obama demandará.

Só pelo fato de ser negro ele é um alvo potencial de racistas do mundo inteiro. Querem matá-lo pela ousadia de ter sido o primeiro negro eleito na América racista.

_”Matem o macaco!” -Devem estar sussurrando por ai.

Abismado achei estas citações atribuídas ao chefe da Ku klux Kan extraídas do site que a organização nazista, dita ‘supremacista’ mantém na rede:

“Thomas Robb, considerado por ele mesmo como o “Grande Cavaleiro da Ku Klux Klan”, quis opinar momentos após o triunfo do democrata Barack Obama e disse, entre outras insólitas declarações, que “se converteu no primeiro presidente mulato dos EUA”, já que é “metade negro” e não “negro”.

“Para justificar a escolha de Obama, Thomas publicou uma nota em um portal da Ku Klux Klan onde dizia que:

– “Ele não é negro porque foi criado (domesticado) por sua mãe branca”.

Além disso previu uma guerra racial entre negros e brancos e disse que os afro-americanos são “aliens” que querem destruir a cultura cristã”.

————–

_” Obama não é negro!?”- Incrível! É a mesma frase daquela minha amiga ‘de esquerda’.

Sendo assim, pensei, aqui no Brasil já devem estar chamando (entre quatro paredes, é claro) o mais importante líder político do mundo de… Macaco.

Mas não tem jeito. Morto ou vivo Obama, o mito da supremacia branca está, irremediavelmente, quebrado. Ninguém mais xingará abertamente o meu amigo (nem a mim) porque agora, um ‘macaco’, exatamente como nós, comanda o mundo.

Sim. Nós também podemos.

Estamos diante de um paradigma digno de Arthur C.Clarke e Stanley Kubrik. A Odisséia no espaço recomeçou em outra órbita:

É o Paradigma do Macaco.

Spírito Santo

Nov 2008

Um, Dois, Feijão com Arroz


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Hibridismo Cultural e Mestiçagem

“_O conceito de Hibridismo Cultural converge com a idéia de Mestiçagem que você combate?”…

“_Não. O conceito Hibridismo Cultural não converge, de modo algum, com a idéia de Mestiçagem que eu combato, além do que…”

(Eu, respondendo à alguém que, num dia destes, escreveu a pergunta na borda de uma página do jornal O’ Globo, acerca de duas matérias sobre a questão racial no Brasil)

A resposta – de longa e cabeluda – virou este post.

Culturas híbridas por natureza
Por falar em Diversidade…

Para começar, Hibridismo cultural poderia ser visto como um conceito apenas proposto, descoberto, porque tudo indica que sempre foi uma lei da natureza, tendo a ver, diretamente e no geral com Diversidade.

(Uma idéia puxa outra que puxa a outra que puxa outra… e por aí vai).

O brilhante antropólogo Néstor Garcia Canclini estaria citado aqui sim, com todos louros àquele que, a partir das pistas salpicadas aqui e ali por seus antecessores, capturou com clareza o sentido de um fenômeno social bastante complexo, sistematizando-o no âmbito de sua inovadora antropologia, sempre na intenção de explicar de modo mais aberto e franco possível, o sentido fugidio da natureza humana neste nosso confuso e admirável Mundo Novo.

É por conta desta lenta, porém, segura evolução do pensamento do homem sobre si mesmo expresso na obra de Canclini, entre outros, que hoje já podemos, pelo menos sugerir que a Cultura humana deve – e a Educação também deveria – significar diferentes maneiras de se abordar ou compreender uma mesma coisa, ou vários modos de se realizar uma mesma tarefa, diversos caminhos para se chegar a um mesmo lugar (que, afinal, é quase sempre uma encruzilhada), ou em algum daqueles muitos caminhos que levam à Roma (mesmo para quem não está nem aí para ver o Papa), nesta nossa eterna busca por um destino mais feliz.

–“O Caos e Acaso são a mola e o dínamo do universo!” – Diria aquele sujeito velho e barbudo que assistiu, de camarote ao Big Bang.

O Hibridismo cultural parece ser mesmo uma atitude humana atávica sim porque, pelo que nos poderiam dizer neurocientistas como o Oliver Sachs , ou linguistas como Noam Chomsky, por exemplo, está relacionado à plasticidade maravilhosa do cérebro humano, nossos sentidos, transformando informações apreendidas aqui e ali, num turbilhão de emoções que, por sua vez, se transformando nos mais variados tipos de sinapses e memórias, multiplicadas aos milhões, se transfiguram em nexos, linguagens e conceitos, dos mais concretos aos mais abstratos ou absurdos.

E assim como são as pessoas, seriam as comunidades, as sociedades.

O conceito pode ser considerado, intrinsecamente, humano também porque Cultura sempre pressupõe feedback, transmissor+receptor interagindo, alternando-se, confundindo-se por vias expressas e inversas (porém, nunca estanques).

Mão e contra mão. O Meio virando a Mensagem (e vice versa). Sinergia, movimento, vida.

Gosto muito, nestes momentos, de citar a Música, uma linguagem onde conceitos como Primitivismo e Modernidade carecem, absolutamente de sentido porque a Música (o Som) é um fenômeno que se dá, concomitantemente ao longo do Tempo e do Espaço, área difusa onde o que é passado pode ser também, do mesmo modo, presente ou, até mesmo, futuro.

O fenômeno do hibridismo cultural é pois assim, como a Lei da Relatividade (que já existia antes de Einstein a descobrir). Atemporal e imponderável. Arte e Ciência. Mágica e lógica, ao mesmo tempo.

Seria inconcebível um mundo feito de energia funcionar de outra forma. Uma coisa sempre conteve um pouco da outra. Sim, tudo na natureza – e na cultura dos homens, por extensão – é como carne e unha.

No Socialismo, no Capitalismo, na pré ou na pós-modernidade sempre foi – e, ao que parece, sempre será – mais ou menos, assim (e que novas tecnologias de inteligência artificial não nos contradigam um dia)

_…” As coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender.”_ Já dizia Paulinho da Viola, naquele samba clássico.

Toda mentira tem perna curta
Mas, nem sempre têm um fundo de verdade

Miscigenação não. Aí já se está falando de um conceito artificial, inventado (ou imposto), um conceito desumano (no sentido espúrio da palavra) porque fere, deliberadamente, os princípios mais elementares de nossa natureza.

Transitando por este mesmo assunto, tentei dizer isto naquela outra matéria chamada ‘Salada Mista’ .

É que a velha fonte destas ‘modernas’ teses sobre miscigenação no Brasil, parece mesmo ser a teoria, genericamente, conhecida como Elogio à mestiçagem que propõe, no fundo – nem tão no fundo assim – a diluição das raças, supondo, diabolicamente, que possa haver algum tipo de ganho ou ‘evolução biológica’ (e, conseqüentemente, social, cultural, enfim), a partir de uma ‘mistura’, uma ‘química’, na qual dois elementos, se fundindo, acabariam por se anular, mutuamente, gerando um terceiro elemento ‘melhorado’ e, portanto, geneticamente ‘superior‘ aos dois outros que o geraram.

(Cavernosa teoria. Que tipo de pessoa seria capaz de ficar arquitetando e mastigando idéias assim tão ácidas e venenosas? Com que interesses ou intenções?)

Observem, atentamente, que o ser resultante desta ‘química’, no caso, o Mestiço (aquele que não é nem uma coisa nem outra) ou o Mulato (literalmente o cruzamento entre uma mula e um cavalo), anunciado como sendo superior, geneticamente, aos elementos que o geraram, é sem dúvida, uma entidade, eminentemente racial.

(Homoracial, poderíamos dizer, já que é o inverso da diversidade genética antes existente).

Uma quimera , um frankeinstein social, para usar uma imagem mais enfática.

Ora, vista sob este prisma, a teoria da Mestiçagem é ou não é, tecnicamente, uma tese racista?

A partir da criação artificial de um biotipo ‘menos negro’ (a abolição física do negro, portanto), sub-repticiamente, de mistura em mistura sobreviveria apenas uma raça. Qual? Bingo! A Branca.

Este aspecto sutil, esta subliminaridade contida nesta proposta de mestiçagem, pode denotar a intenção velada, de se destruir apenas um dos elementos da equação, anulando a alegada diferença entre as duas supostas raças.

Ontem o pretexto era acabar com a nossa inferioridade biotípica nacional. Fracassado o projeto de extinção das diferenças raciais no Brasil (previsto no século 19 para durar 100 anos), hoje, a causa é desqualificar a pertinência da adoção de ações reparadoras dos males e seqüelas sociais resultantes da escravidão e do racismo perpetuado (cuja manutenção foi, aliás, ironicamente justificada por estas mesmas teorias).

Como Meio, a deposição da diversidade, a evolução fraudada. Como Fim, a perpetuação de privilégios coloniais.

Por isto, é bom se ressaltar também que, no campo de debate, digamos assim, mais acadêmico, a confusão estabelecida entre Hibridismo Cultural e Mestiçagem é, pelo menos para mim, completamente artificial e propositalmente criada para confundir mesmo (no que aliás, tem sido bem eficiente, pelo menos com os mais crédulos).

_”‘Uma insanidade digna de tarados”_ Diria alguém mais desprovido de fino trato.

O Sofisma de Galton
O primo rico e o primo pobre

Pois saibam os que ainda não sabiam – e fiquem de cabelo em pé sem medo de vexame –  que Charles Darwin , gênio da Teoria da Origem e da Evolução das Espécies, apóstolo da Diversidade, tinha um primo (dizem que também cunhado) que era grande admirador da extraordinária obra do parente. Ele (pobre apenas de genialidade já que, na verdade, era tão rico quanto Darwin) se chamava Francis Galton e foi quem criou a teoria da Eugenia ou do ‘depuramento genético’, que aparece como marca indelével na alma destas teorias de miscigenação aqui aludidas.

(Idéia pela qual, como já disse em outra oportunidade, além de figuraças como Chamberlain , Gobineau e Lombroso, militaram também, entre outros brasileiros adeptos de primeira hora, Nina Rodrigues e Gilberto Freire).

Segundo esta estapafúrdia teoria (grosseiramente baseada no trabalho de Darwin, mas, muito calcada nas teses de Gregor Mendel) se poderia ir identificando supostos defeitos genéticos em certos tipos humanos ‘degenerados’ e, gradativamente, ir se criando restrições à procriação destes indivíduos, portadores destes eventuais ‘defeitos de fábrica’, criando obstáculos legais para o casamento entre eles, esterilizando-os, ou mesmo assassinado-os em genocídios programados como mais tarde fizeram os nazistas, a partir destas mesmas idéias….‘científicas’ (e os admiradores de Galton, curiosamente afirmam que ele não teve nada a ver com isto).

(Pesquisando, agora mesmo, algumas imagens sobre o tema, tive que parar a busca por causa da náusea e dos engulhos provocados pela visão de tantas aberrações perpetradas em nome destas teorias)

Desta forma, segundo o outrora respeitadíssimo Galton, se iria depurando a espécie humana (vejam bem, só por aí, a que tipo de armadilha social pôde nos levar a ‘admiração‘ de Galton pela obra do primo).

Darwin, como sabemos, propôs em 1859 – e provou – que a natureza, através de um processo muitíssimo lento e meticuloso, ao longo de milhares, milhões de anos às vezes, iria selecionando o melhor de cada uma das espécies existentes na natureza. Era a evolução flagrada, testemunhada, a partir de uma lógica de um sistema planetário, ecológico, inquestionável.

Galton (não se sabe se por admiração ou para suplantar o primo-cunhado), se propôs a fazer a partir de 1865, exatamente, a mesma coisa, só que, apenas com…gente, e bem rapidinho, substituindo a lógica da natureza pela discricionária vontade de um grupo qualquer (uma elite de cientistas, talvez) que tivesse poder sobre os demais. Uns decidindo quais características biológicas, genéticas (e, portanto‘ raciais’) mereceriam se tornar hegemônicas na humanidade.

Sacaram aí onde se poderia encaixar, facilmente, a teoria da mestiçagem?

(Curiosamente este processo – conhecido, a grosso modo, como Engenharia Genética – é muito utilizado hoje em dia na produção de alimentos na indústria e na agricultura, como no caso dos transgênicos).

O mais surpreendente é que Galton não tenha se dado conta da estupidez flagrante desta sua tal de Eugenia, mesmo depois de ter descoberto – sim, ele mesmo! – a papiloscopia, eficiente e, até hoje, insuperável recurso utilizado na identificação de criminosos, ou mesmo indivíduos em geral, baseado na análise de vestígios conhecidos como impressões digitais, prova cabal de que nós, seres humanos, apesar de semelhantes, somos seres individualizados, realmente únicos, inigualáveis, o que cria obstáculos insuperáveis para que se possa controlar, cientificamente, o resultado de uma mistura de gente assim com gente assado.

A teoria do Galton, logo se viu (pelo menos para nós humanos), era lixo puro. Deveria ter desaparecido com Joseph Mengele, mas, como se vê, ela sempre ressurge como uma hidra reciclada, a nos assombrar com a suas mil cabeças e sentidos maquiavélicos.

Hoje em dia, no calor de discussões sobre a necessidade de se reparar ou não (e de que forma) danos e injustiças evidentes de um sistema social iníquo que, surgido sob as bases do sórdido escravismo colonial, por intermédio da subalternização de pessoas, a partir de então identificadas – e hierarquizadas – pelos traços físicos e evidências de sua maior ou menor ancestralidade africana ou indígena (ou não branca, em suma) como vetustos fantasmas eruditos, as bases mais evidentes daquelas teorias parece que estão sendo ressuscitadas por aí.

Alguns subestimam as evidências, julgando-as mera ‘teoria da conspiração’, mas há que se refletir bastante, acerca das reais intenções de reações e oposições que, se apoiando, de forma muitas vezes capciosa, em sofismas evidentes (além de certas distorções semânticas), podem ser classificadas como causa militante de um articulado grupo que chamo, simplesmente de  Anti-abolicionistas tardios.

Então, recapitulando só para clarear:

1- O conceito Miscigenação ou Mestiçagem (no sentido estrito com que a palavra é utilizada nesta discussão) parece ter relação direta com as teorias racistas que distorceram – com o intuito talvez de embasar, teoricamente, o neo-colonialismo – o conceito Diversidade, inaugurado por Charles Darwin, fundado, como se sabe, no princípio da Evolução Natural das Espécies, modernamente inserido nas discussões sobre a degradação ambiental do planeta, sob o nome de Bio-Diversidade.

2-‘Elogio à mestiçagem’, ‘Evolução artificial’ ou ‘Eugenia positiva’, se parecem com formas, espertamente, abrandadas de se definir aquelas mesmas ideologias racistas, que julgamos, até prova em contrário, varridas da história da humanidade, por culpa de suas perniciosas e notórias consequências, devidamente atestadas no passado.

3- O conceito Hibridismo, entendido aqui como um processo cultural contemporâneo, ligado ou não à modernidade de nossa civilização ora globalizada, não contradiz o princípio Diversidade porque Híbrido em nenhum aspecto NÃO quer dizer, de modo algum, diluído, misturado.

“Híbrido designa um cruzamento genético entre duas espécies vegetais ou animais distintas, que geralmente não podem ter descendência devido aos seus genes incompatíveis. Este fenômeno foi estudado pela primeira vez em plantas por Kölreuter durante o século XVIII, embora existam citações mais antigas sobre esse assunto, tanto em plantas como em animais.

Algumas dessas novas espécies ainda são produzidas até hoje através do cruzamento entre espécies, essencialmente para serem usadas como atrações de shows e locais turísticos. Atualmente, os cientistas estão tentando recriar o mamute, animal pré-histórico, através de inseminação artificial de sêmen destes animais (que foram encontrados congelados em algumas partes do planeta) em fêmeas de elefante, que são seus parentes modernos. Se conseguirem, este animal será um híbrido de elefante com mamute, e provavelmente também será estéril.”

(Confira em wikipédia)

As aparências…

(Fico surpreso mesmo é que exista tão pouca gente debatendo, contrapondo, publicamente, as afirmações equivocadas e perniciosas desta gente aqui no Brasil, principalmente em órgãos da imprensa como o jornal O’ Globo).

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O mesmo Charles Darwin, coerentemente, quando esteve no Brasil em 1832, manifestou a sua firme decepção diante da nossa aguda crueldade social (indignado com a escravidão).

Incrível que já se tenham passado bem mais de cento e cinqüenta anos sem que, quase nenhuma alteração em nossas relações sócio-raciais possa ser, claramente, vislumbrada no horizonte.

Nenhum pequeno navio chamado ‘Beagle’ ancorado ao largo. Nenhuma espécie de real evolução à vista.

Spírito Santo

Janeiro 2008

(Êpa! Alto lá! Porque você não leu os links? Saiba que o molho do post está neles)

Ausländer haus, negão!


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(Foto de Angel Gonzales)

Intolerância também é cultura

Em 1992 eu morava em Viena, Áustria. Já estava por lá há três anos, de certo modo cansado de tanta civilização e morrendo de saudades daquela saudável bagunça brasileira, cuja lembrança, nos fazia tão bem, às vezes.Além da overdose de ordem e civilização, mesmo depois de tanto tempo por lá, ainda me surpreendia com a quase total ausência de rejeição da população local, diante de pessoas com o meu perfil e o da minha família: Negros brasileiros, muito parecidos com os cubanos, com os caribenhos, com os norte-americanos, um pouco com os africanos, negros em suma, quase em nada parecidos com eles, os austríacos.

A estranheza vinha, principalmente, do fato de não ser, absolutamente, esta a maneira como éramos tratados no Brasil, sempre que circulávamos por áreas como a Zona sul do Rio de Janeiro, por exemplo, onde a estratificação social é bem determinada, dividida entre ‘Brancos’ (habitantes das ruas elegantes, os ‘patrões’ e as ‘madames’) e ‘Negros’ ou ‘Paraíbas’ (habitantes das favelas e dos subúrbios, os empregados ou serviçais).

Não percebíamos isto, tão claramente, quando estávamos ainda por aqui, é verdade. É que já estávamos acostumados. Foi só em Viena que isto nos chamou mesmo a atenção. Lá só havia, a princípio, a curiosidade e o respeito diante dos estrangeiros que éramos (turistas, talvez pensassem).

Aqui, quase sempre, os olhares de desconfiança ou de desdém (bandidos, desclassificados, seres inferiores, pensavam, com toda certeza). Gosto desta descrição assim, sem nenhuma filigrana ou arroubo sociológico porque ela é bem clara, síntese perfeita do que realmente ocorre, de como a coisa é vista, assim, do lado de cá da cerca.

A estranheza com relação a como éramos tratados lá e aqui era maior ainda porque, como bem sabemos, praticamente não existem brancos no Brasil. Os ‘brancos’ do Brasil, seriam tratados lá como… árabes, talvez. Isto ficava límpido e claro para nós quando cruzávamos com aqueles milhares de seres louros de olhos azuis, grande maioria da população vienense.

Porque seria que aquelas pessoas tão descaradamente brancas, nos tratavam assim tão bem? Sem nenhum receio, às vezes com certa curiosidade até, pedindo licença para passar o dedo na pele dos mais escuros para confirmar se não era pintada? Me recordo de várias vezes, ao necessitar de alguma informação, de ser atendido por duas ou três pessoas, uma disputando com a outra, a chance de nos ser gentil.

Mas havia sim, um leve incômodo na nossa relação com os austríacos: Éramos, invariavelmente, chamados por eles de Africanisches (africanos), seja lá qual fosse a nossa origem ou do tom de nossa pele. Todos os negros que circulassem pelas ruas de Viena, fossem cubanos, norte americanos, para eles seriam africanisches.

O adjetivo ganhava contornos bem desagradáveis quando, espertos, cometíamos algum ato inaceitável para as regras sociais deles, tais como jogar papel e guimbas de cigarro na rua, falar alto, andar no bonde sem pagar, urinar na rua, etc. Aí o termo nos era lançado com todo o rancor de um xingamento, quase uma maldição: Africanisches! Muitas vezes até complementavam a injúria com o que, para eles, eram horríveis palavrões: Mohr! Negger! (que no Brasil corresponderia aos populares Crioulo! Macaco!)

Curiosas analogias pude constatar depois, estudando o assunto.

Africanisches todos nós éramos porque, do ponto de vista deles, descendentes de africanos, africanos são. Mohr viria de Mouro, palavra portadora do extremo ódio que, até hoje, as pessoas daquela região tem pelos árabes que invadiram e dominaram grande parte da Europa, deixando marcas profundas na cultura deles, entre as quais os arabescos e capitéis da curiosa arquitetura do Stephandomme (a Catedral de São Estevão) e a prática do islamismo em certas partes dos bálcãs (notadamente na antiga Iugoslávia), são marcas eloqüentes.

Como mais um dado a ser inserido na conversa, alguns brasileiros me contaram também, que já haviam presenciado senhoras indignadas com algum mal feito de um africanische, sendo multadas por policiais, na rua, porque se excederam na virulência dos xingamentos. Logo, havia intolerância racial na Áustria sim. Haviam inclusive leis contra o racismo. O que não havia por ali era hipocrisia.

A Áustria, como se sabe, é a terra de Adolf Hitler, ali nasceu a semente do Nazismo, o ovo da intolerância. As estúpidas e inconseqüentes razões do racismo fermentaram ali, do mesmo modo que as frágeis idéias de resistência contra a intolerância racial e as injustiças sociais de qualquer ordem também por ali vicejaram.

Ali viveu Sigmund Freud, Beethoven, Schümann, por ali passaram Karl Marx e Frederick Engels, Einstein, Mozart. Não podemos esquecer também de que, em Viena residem, ainda hoje, muitos descendentes, diretos, dos milhares de mortos dos campos de concentração nazista.

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Em Viena morei em quase todos os bairros. Desde o Grinzing, no bezirk (distrito) 15, o bairro nobre (mais ou menos como uma barra da Tijuca com morros e sem praia), até o suburbano Gumpendorfstrasse. No Grinzing reside gente rica ou moderna, artistas e intelectuais. Ali se curte a vida boêmia, a cultura alternativa, a diversidade racial, cultural e tudo que há de bom na Europa.

Em bairros como Gumpendorfstrasse moram os pobres, o povão. Circulando entre um bairro e outro tive uma lição de sociedade e pude compreender melhor como caminha a humanidade e, enfim, saber com quantos paus se faz a canoa que pode nos levar, dependendo apenas de nosso discernimento, para a civilização ou para a barbárie.

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A vida no apartamento que dividíamos com outra família, era bem tensa. Bairro popular, composto por prédios antigos, do tempo da segunda guerra mundial, no Gumpendorfstrasse não era hábito morarem estrangeiros. Quanto mais negros. Encontrávamos os habitantes locais todo dia, na pracinha do bairro, passeando com seus cachorros. Velhos, em sua maioria. Quase nenhum jovem ou criança, pelo menos à vista.

Quando cruzavam conosco, olhavam para nós com um misto de curiosidade e um mal disfarçado desprezo, cumprimentando-nos por entre os dentes com um ‘guten Tag!‘ ou um ‘guten abend!‘ formal. Alguns, mais atirados, as vezes nos inquiriam, querendo saber de onde vínhamos e quanto tempo ficaríamos por ali. Nestes momentos de inquirição, sorriam dissimuladamente. Nunca usavam, no entanto, como já disse, aquela sutil hipocrisia daqui do Brasil.

A dissimulação dos sorrisos ficava evidente porque o Strassenbahn (bonde) que nos levava de Gumpendorfstrasse até a estação do metrô, que por sua vez, nos levaria ao centro de Viena, tinha a fórmica dos anteparos dos bancos pichadas à caneta hidrocor, com frases que entendíamos muito bem:

_‘Ausländer haus!’- (‘fora estrangeiros! ‘).

A primeira vez que vi a frase assim, diante de mim, gelei da cabeça aos pés. É que ela estava ilustrada com uma inconfundível suástica vermelha. Os outdoors do caminho também continham a mesma suástica com a mesma palavra de ordem assustadora: ‘Ausländer haus!’ Em algumas destas pichações a frase era complementada com mais ênfase ainda:

‘Ausländer Tod! (Morte aos estrangeiros! ‘)

Quem escrevia aquelas frases? Estava claro que só poderiam ser jovens suburbanos, punks de periferia, neonazistas, filhos daqueles vizinhos francamente inamistosos. A gente via estes jovens, sempre, alguns de roupa preta, circulando pelos vagões do metrô, em bandos. Os africanos e brasileiros, nossos conhecidos, já haviam nos alertado para não ficar perto deles, porque costumavam furar estrangeiros com armas brancas.

Eu era apenas um músico brasileiro em Viena. Cantava e tocava na noite. Estava acostumado a cortar a cidade a pé, cruzando a neve, na alta madrugada, rumo à Gumpendorfstrasse, sempre que a grana não cobria o táxi e não havia mais metrô circulando. Eram mais de duas horas de trajeto. Fumava bem uns quatro cigarros neste caminho, para esquentar os beiços. Numa destas noites, os cigarros acabaram antes do tempo. Pensei comigo:

_”Nenhum problema. Entro naquele gasthaus (bar ‘pé sujo’), pego um bom maço de Hobby na cigarreten machine e pronto. ‘

Mas havia um homem na porta do gasthaus com um cão pastor alemão na coleira. Devia ser o dono do estabelecimento. Achei estranho ele não ter se afastado para a minha passagem. Tentei mais um vez e o cão rosnou, ameaçador. O homem nem me olhou, impassível. Aturdido com a situação, desisti de fumar e segui meu rumo, preocupado com a cena.

A frieza dele foi o que mais me assustou. Ela me lembrou outro incidente, também muito estranho, ocorrido num dia em que eu fui assinar um contrato para um show num bar latino. Eu andava pela calçada distraído. O bairro era tranqüilo, de periferia. Um barulho de freada e minha atenção foi atraída pela seguinte situação:

Um homem gordo, atarracado, com um solidéu na cabeça, árabe, por assim dizer, segurava uma bicicleta minúscula, de seu filho talvez, com o celim alto para que lhe servisse na altura. Engraçada a figura. O sinal havia fechado e um carro conversível vermelho – um Lambourghinni talvez – pilotado por um austríaco jovem e bem vestido, havia esbarrado na bicicleta do árabe, quase o derrubando. O austríaco, com o carro engrenado, não se moveu. Não dispensou sequer um olhar para o árabe, ignorando-o.

Indignado com a indiferença do outro, o árabe se aproximou dele e o recriminou, severamente, ainda com educação. O austríaco não se moveu.

O árabe xingou o homem, de tudo quanto foi , pelo que deduzi, nome feio, na sua língua, é claro, aos berros. O austríaco não se moveu.

Foi então que, quase explodindo de raiva, o árabe, cuspiu no rosto do austríaco que, ainda assim, não se moveu, nem para limpar o rosto. O sinal abriu e o Lambourguinni partiu. O árabe olhou para um lado e para o outro, sem compreender direito o que se passou e seguiu, desolado.

Testemunha ocular da inusitada cena segui pensando do que seria capaz um ser humano, tão frio e arrogante a ponto de não reagir a uma agressão daquelas, só para não pedir desculpas à alguém que, provavelmente ele desprezou apenas porque era um árabe?

Uma coisa, porém, me confortava: Eu estava ali incólume. O discriminado era o outro. Eu podia observar e avaliar a situação sofrida pelo árabe, de camarote.

Aquilo me lembrava também um dia em que, num mercadinho perto de casa, procurei uma fechadura nova para comprar. A marca mais famosa de produtos de segurança em Viena (cadeados, correntes, fechaduras, trancas de automóveis, e outras tralhas do tipo), tinha nas caixas uma curiosa ilustração de um ladrão típico (para o consumidor austríaco):

Ele era um árabe com a barba por fazer, mal encarado, invadindo uma casa na calada da noite, com uma lanterna acesa. Racismo explícito, ora, pois.

Não sou árabe (pelo menos que eu saiba). Como faz a maioria dos ‘brancos’ do Brasil poderia, tranquilamente, pensar: ‘pô, que chato, o que o austríaco fez com o cara, né?’ E seguir meu caminho, assoviando.

E foi, de fato, o que fiz. Neste ponto foi bom. Deu pra ver, friamente, como as coisas funcionavam por ali. Sórdidas, porém, explicáveis.

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A época, início dos anos 90, coincidia com o recrudescimento da imigração de africanos para o centro da Europa, antes dominada, inteiramente, por imigrantes árabes, turcos em sua maioria. Era a faca de dois gumes da economia globalizada mostrando seus maus efeitos e dando o seu troco.

Entre outras regiões do outrora chamado terceiro mundo, com a globalização, a África, deixada à margem do mercado por razões históricas, depauperando-se pela fome, parecia que ia se transformar, rapidamente, numa espécie de favela continental.

Havia também a guerra entre Sérvios e os Croatas na Iugoslávia, os massacres étnicos contra muçulmanos e a vinda maciça de refugiados para a Áustria, antiga sede do império Austro húngaro que é, até hoje, uma espécie de capital da região, que envolve também a Polônia, a Tchecoslováquia e a Hungria, países cujos habitantes fogem da miséria para Viena, exatamente, como os nordestinos aqui no Brasil fogem para as favelas próximas à Barra da Tijuca.

Com verdadeiras hordas de imigrantes pressionando as economias dos países europeus mais ricos, os negros, os africanisches de qualquer origem, passaram então a integrar também, a raça dos estrangeiros indesejáveis. Entre eles estava eu. Haus! Fora! Gritavam os furibundos arautos do neo-nacionalismo, bem na minha cara.

O partido de direita da Áustria havia acabado de escolher seu candidato. Ele era um jovem político do sul do país, chamado Jorg Heider, simpatizante confesso de Adolf Hitler.

Uma amiga alemã a quem eu pretendia visitar em Munique me telefonou assustada, pedindo-me para não ir para a Alemanha, de jeito nenhum. Neonazistas estavam atacando negros da estação ferroviária. Haviam incendiado um alojamento de estudantes do Ghana e dois haviam morrido no ataque.

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Por alguma razão que não me recordo agora (talvez o alto preço do aluguel), tive que mudar de bairro. Fui para mais longe um pouco, um bairro de classe média, quase fora dos limites da cidade. Na pressa, larguei para trás uma caixa de brinquedos do meu filho e tive que voltar ao prédio do Gumpendorfstrasse para buscar. Foi num sábado, de manhãzinha. Um sábado de terror.

As paredes da escada do prédio até a porta do apartamento no qual eu morara, estava toda pichada pelos neonazistas:

-‘Ausländer haus! Fora estrangeiros! Morte aos estrangeiros! Africanisches! Negger! –diziam as inscrições.

Suásticas, muitas, suásticas enormes. Tudo pichado. Peguei a caixa e desci, rapidamente, as escadas. Sentei na pracinha para tomar fôlego, em pânico ainda. Os vizinhos, os mesmos que eu via todos os dias, passaram com seus cachorros. Não me cumprimentavam mais. Dava para ler no olhar deles que sabiam das suásticas, sabiam de tudo.

Com a expressão ausländer haus ecoando na minha cabeça, lembrei de todos aqueles aterrorizantes filmes de nazistas que assisti na vida. Achtung! Gente de Deus! Agora não era filme não. Era eu mesmo quem estava ali, de corpo presente, indefeso estrangeiro, no meio da branca neve dos outros. Os judeus da vez poderíamos ser eu e minha família.

Vade retro Satanás!

Vendi alguns dos instrumentos musicais exóticos que levara, alguns postais e até os originais de gravuras que havia desenhado para uma revista de lá, para completar o orçamento e, juntando mais alguma grana emprestada, comprei as passagens.

Quinze dias depois estava de volta ao Brasil. Me lembro que, ainda no céu, pouco antes de pousar, o avião cruzou com estranhos balões de plástico preto que anunciavam o impeachment de Fernando Collor de Mello, o ex ‘caçador de marajás’.

De volta ao passado, ao velho Brasil de sempre, desembarquei aliviado.

————-

É por isto que hoje, quinze anos depois, quando vejo jornalistas e intelectuais como Ali Kamel (de ascendência árabe, por sinal), Demétrio Mangnoli, Ivonne Maggie e Peter Fry (cidadão inglês, se não me engano), muito bem articulados entre si, espalhando aos quatro ventos e de forma militante, em artigos, teses, manifestos, a sua ojeriza por ações afirmativas e leis de cotas de reparação para os ‘não brancos’ do Brasil, me dá um frio na espinha. Fico lembrando daqueles últimos tempos em Viena.

Tenho minhas razões para não ver esta oposição ferrenha que este grupo faz às ações afirmativas no Brasil, como honestas e simples divergências de princípios. Foi, exatamente, por isto que contei para vocês logo, de antemão, a minha pós graduação na terra do Adolf.

Conheço também de relance, porém, de longa data, as atividades junto ao Movimento Negro da década de 80, de alguns destes intelectuais e acadêmicos, hoje ligados à importantes universidades federais brasileiras. Simpatizantes da luta anti racista de então, convidados pelo Movimento Negro para muitas mesas redondas contra o Racismo, formaram suas sólidas carreiras acadêmicas, defendendo teses que agora, por alguma estranha razão, passaram a combater.

São ainda hoje figuras acadêmicas importantes e poderosas, dirigindo estratégicos departamentos no campo da antropologia e da sociologia, na qualidade de especialistas no assunto raça e sociedade. Seriam estas suas recônditas razões?

Não é cisma, portanto, permitam-me considerar, alguém como eu estranhar a mudança de lado destas figuras, justamente agora, a esta altura dos acontecimentos.

Surpreende-me muito também a fragilidade, quase absoluta, de seus argumentos apoiados, quase que tão somente, pela grande ascendência que possuem junto a certos meios de comunicação, nos quais as vozes que deles discordam não tem tido, praticamente, nenhuma chance de se manifestar.

Observem por favor, que, na intensa campanha que fazem, está embutida também a tentativa de negar, não só, a existência de raças, mas, também a do próprio racismo. Contraditoriamente, portanto, negam agora, o cerne, a essência de sua própria militância intelectual do passado.

Há, com efeito, no bojo de sua campanha (pelo menos na de Ali Kamel, seu principal porta voz), distorções grosseiras e deliberadas de dados estatísticos do IBGE e sobre as recentes – e a rigor pertinentes- descobertas da genética, preconizando a inexistência de diferenças raciais, usando o torto raciocínio de que, se não há raças como poderia haver racismo? Se nunca houve Racismo por que haveria necessidade de reparação?

Anti-abolicionistas tardios, é o que parecem.

Contudo, como qualquer estudante de história do nível médio deve saber, a prova científica da inexistência de diferenças raciais é justamente atribuída ao esforço de cientistas engajados na luta contra o Racismo no mundo. Como também se sabe, no caso do Brasil, estas falsas diferenças foram adotadas pelas próprias elites racistas, logo depois da abolição da escravatura, como argumento para a manutenção da desigualdade e da opressão social, por parte de uma aristocracia, de ascendência européia, contra a maior parte da população ‘não branca’ que, no caso do Brasil, era – e é, como conseqüência do próprio racismo – composta por ex-escravos africanos, índios e seus descendentes.

A afirmação – e a denúncia- de que, efetivamente, há racismo no Brasil, não poderia, portanto, de modo algum, ser negada, por meio, exatamente, do mais eloqüente argumento que prova que, o Racismo tanto existe quanto precisa ser, veementemente, combatido, por todos os meios que se fizerem necessários, entre os quais as ações afirmativas e as políticas de reparação são os mais pertinentes, principalmente por serem democráticos, legais e, principalmente, pacíficos.

Neste quadro, é lamentável portanto que, atribuindo a culpa pelo crime à própria vítima, os ideólogos desta estranha campanha, sem argumentos válidos para justificar o seu reacionarismo, estejam acusando os partidários das políticas de ação afirmativa, de estarem propondo a institucionalização do Racismo no Brasil (que para eles nunca teria existido) o que, também segundo eles, geraria o ódio fratricida entre as raças (o que, a despeito das centenas de mortos na atual Guerra do Rio, não estaria ocorrendo).

Sua proposta rasa, única, curta e grossa é incluir os excluídos na sociedade de cotas e privilégios que ocupam e usufruem, apenas quando… a galinha criar dentes.

Só peço para que, por conta da forma tão aberta e franca quanto me expressei aqui, eles não tentem me expulsar, de vez, de minha própria terra, aos berros:

– ‘Ausländer haus, negão!’

Spírito Santo

Algum dia aí num mês destes de 2007 (ou seria 2006?)

Crioulo doido revisitado – ‘Palinhas’ do livro do Titio


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crioulo-doido-mocambique_timbila_8
Timbila (Rito de passagem- puberdade) Moçambique

Enredo #01

(As partes entre aspas e em itálico deste post são enxertos do livro do Titio “Do Samba ao Funk do Jorjão“)

“O ‘Samba do Crioulo doido’, único samba feito aqui pelo neto do Dr. Armindo, colocou Stanislaw nas paradas de sucesso. O Samba conta a história de um crioulo que ficou doido de tanto fazer samba-enredo para a sua escola contando episódios da História do Brasil. O crioulo já estava misturando estação, quando pediram que ele fizesse mais um samba, desta vez usando a atual conjuntura. Aí o crioulo endoidou de vez.

Endoidou e fez um samba que é um amontoado de incongruências sobre episódios históricos. A única verdade está no primeiro verso que diz: ‘Foi em Diamantina, onde nasceu JK”…

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“Sergio Porto, o sarcástico jornalista e cronista autocodenominado de Stanislaw Ponte Preta, crítico mordaz de nossos costumes políticos e institucionais mais controvertidos é quem vos fala acima, ali por volta de 1969 em seu livro ‘Na terra do Crioulo doido’.

Stanislaw criou o clássico ‘Samba do Crioulo doido’ (citado na nota), com a intenção bem medida de, em plena ditadura militar, ironizar nossa incúria intelectual, também de forma inpagável resenhada na série-sigla humorística ‘ FEBEAPÁ’ (FEstival de BEsteiras que Assola o PAís’).

Nas entrelinhas de seu ‘samba-enredo’ pode-se, contudo, enxergar outras nuances e conceitos, também muito populares no Brasil, entre as quais, a controversa – e talvez subliminar – associação entre gente negra e ignorância, criada a partir daí, por certos setores da elite intelectual brasileira, atitude a qual Ponte Preta, um arguto crítico da estupidez flagrante de nossos costumes sociais, certamente, repudiaria…”

Não houve jeito. O mito muito popular, a despeito de ser preconceituoso a mais não poder, surgiu e vicejou como mais um epíteto racista, passando a classificar como ‘samba-do-crioulo-doido’ tudo aquilo que é mal resolvido, confuso, sem pé nem cabeça.

Encurtando então esta conversa, usada apenas como introdução, a questão que este post pretende colocar na roda é se a culpa desta nossa incúria intelectual pode mesmo ser atribuída, ainda que simbolicamente, ao nosso múltiplo e valoroso criouléu.

Ou, simplesmente, não haveria incúria intelectual alguma, não passando tudo de fruto de uma mania de perseguição de uma teoria da conspiração destas,que acomete, vez por outra, o nosso estressado criouléu, passageiro compulsório deste bonde de neuroses que é o Brasil do século 21?”

Eu, modestamente, diria que não. Muito pelo contrário, aliás. E você?

Senão, vejamos:

Kizomba ou Que Zona?

Mitos e mistificações na cultura negra do Brasil

“Penso que a chamada cultura negra do Brasil tem sido estudada, com raríssimas exceções, a partir de premissas, estranhamente, equivocadas. O maior de todos estes curiosos equívocos, seguramente, é a subestimação com que certos círculos acadêmicos mais conservadores (entre outros círculos intelectuais, progressistas até), tratam a questão das origens, dos fundamentos históricos, sociais, antropológicos enfim, da cultura daquele enorme contingente de nossa população descendente de escravos africanos.

Há nestes estudos uma inexplicável e incômoda impropriedade, uma superficialidade tão evidente, uma omissão tão flagrante dos preceitos mais comezinhos da objetividade científica (aqueles que consubstanciam o conceito Ciências Sociais) que nos sentimos motivados a propor aqui, mais uma vez, a sua discussão.

As razões para este evidente ‘descaso acadêmico’ – ou intelectual – são mais ou menos óbvias, sendo atribuídas, geralmente ao que uns, com certo eufemismo e sutileza, costumam chamar de Eurocentrismo (Etnocentrismo para os íntimos) e outros, mais incisivos, insistem em chamar simplesmente, de Racismo. Causa e efeito um do outro, sabe-se lá, entre os dois conceitos, o que é o que (ou quem é quem).

De um modo ou de outro, o fato é que num primeiro momento, este provável ‘descaso acadêmico’ se funda em linhas de pesquisa e estudo, insistentemente, determinadas, embora sejam, sabidamente, linhas já superadas, desde o momento em que os embrionários processos de descolonização da África, iniciados com a aceleração da gradual abolição da escravidão colonial no fim do século 19 (para ficarmos num exemplo que nos diz respeito, diretamente) se instalavam, afim de dar lugar – e passar a justificar – ao que se convencionou chamar, um pouco mais tarde, de neo-colonialismo.

Definindo assim, a grosso modo, qual teria sido o paradigma ideológico que justificava, moralmente, a escravidão? A declaração oficial da organização religiosa (ideológica) hegemônica – o Catolicismo, no caso – de que o negro africano seria desprovido de alma, não estando por conta disto subordinado às leis de Deus ou às regras morais da humanidade.

Bestas, apenas semelhantes à seres humanos – como o são os chimpanzés e os orogotangos – perfeitamente afeitas ao trabalho compulsório, portanto.

Com o neo-colonialismo, o paradigma se alteraria ligeiramente: Embora reconhecido já como portador de uma ‘essência’, uma ‘alma’, promovido que havia sido à condição de membro da espécie humana, o negro africano passaria, contudo, a ser considerado ainda assim, resultado da rasa evolução de civilizações ainda muito ‘primitivas’, propiciadoras de ‘culturas atrasadas’, em estágio evolutivo muito inferior ao das demais civilizações (à frente as européias, é claro), definidas, racialisticamente, como ‘caucasianas’ e superiores, por um determinismo científico muito característico da época (início do século 20).

‘Silvícolas’, ‘indígenas’, ‘bons selvagens’, semelhantes aos demais seres humanos sim, porém, apenas fisiologicamente, já que, mental e intelectualmente seriam inferiores e, por isto mesmo, perfeitamente afeitos ao trabalho compulsório, portanto (ou, no mínimo, sub-remunerado).

Às metrópoles ocidentais neste caso, num gigantesco, desinteressado e ‘meritório’ esforço, caberia a missão de ‘colonizar’ (ocupando, é claro) o território e os ‘espíritos’ daqueles a quem a igreja católica antes chamara de ímpios, alçados agora à categoria de ‘gente inculta’, ‘ingênua’, ‘povos tradicionais’, carentes enfim do verniz brilhante da ‘civilização’

(Curioso se constatar que o que chamamos hoje de antropologia – ou etnologia, mais precisamente – nasceu deste espírito de ‘missão civilizatória’, praticado, a princípio por religiosos e depois por briosos funcionários de agências ‘do Ultramar’, enviados para as colônias em missões ‘científicas’).

Com efeito – e reflexo, é claro – dos modelos de promoção e estratificação social adotados entre nós até hoje, estes processos de desqualificação da cultura africana atingiram no Brasil – muito mais do que nas demais metrópoles coloniais – níveis de quase paroxismo.

A partir de procedimentos metodológicos, expontaneamente, criados talvez (um ‘modus operandis’ social) passou-se a fazer com que, em todas as áreas de estudo nas quais a cultura fosse o elemento catalizador (história, etnologia, antropologia, etnomusicologia, etc) a subestimação de determinados valores desta herança cultural, se transformasse em premissa, criando um arcabouço teórico consistente, porém falso, uma espécie de antítese ou versão ‘chapa branca’, oficial, da cultura negra do Brasil.

Peças bibliográficas contendo esta retórica acadêmica especializada, dedicadas, às vezes militantemente, à desconstrução dos elementos estruturais mais complexos desta cultura ancestral, foram sendo montadas, construindo em seu lugar, um complexo sistema de mitos e mistificações que tem servido, até hoje, para tentar ‘provar’ uma relativa inferioridade cultural da parcela de nossa população chamada hoje – com certa ironia até – de ‘afro-descendente’.

Como se fosse possível a esta vertente da cultura negra do Brasil, se desvincular de sua intrínseca ligação com o seu remoto passado, florescendo do nada ou nascendo – como se diz de filhos de pai ou mãe desconhecidos – de um reles ‘pé de repolho’.

Desqualificando-se a si mesma, isto sim, neste processo patológico de negação do outro, a produção intelectual brasileira neste campo, foi se tornando muito defasada em relação ao que já realizou a produção acadêmica das demais ex-metrópoles coloniais (Inglaterra, França, Portugal, Alemanha, Espanha, etc.). Para se constatar isto, basta tentar achar referências bibliográficas aprofundadas – e confiáveis – sobre cultura negra brasileira, produzidas recentemente aqui no país, numa simples busca na Internet.

Rarefeita será a seara encontrada já que, a maior parte do material, seguramente, dirá respeito ao Candomblé (com uma grande contribuição francesa, representada pelas pesquisas de Roger Bastide, por exemplo) e temas correlatos, variantes sobre o mesmo assunto recorrente: A chamada cultura dos yorubas e Jêjes (Ewe do antigo Dahomey, hoje Benin), descrita ou idealizada, numa série enfadonha de releituras e revisões dos textos clássicos mais famosos, a maioria escrita nas longínquas décadas de 1930, 1940 e 1950.

É a esta tendência, este círculo vicioso da antropologia sobre o negro no Brasil que denominamos ‘Reducionismo Nagô’.

O assunto, como se pode observar facilmente, é vasto e controverso. Havendo interesse expresso dos leitores, pretendo mesmo fazer uma série de posts-debates a partir deste que é apenas, o mito ‘aperitivo’, como se diz.

Vamos então tocar aqui, apenas de leve, na questão – que, como já disse em outra ocasião já foi objeto de um livro deste mesmo autor – iniciando pela exposição do que nos parece ser o mito-gênese de todo esta montanha de mistificações e equívocos, que – falando sério – não podem ser atribuídos, de modo algum, a todo este imenso coletivo de crioulos que, como eu, apesar de quase sempre serem doidos (com toda razão), até que não são tão ignorantes assim.”

Com vocês então, como uma espécie de releitura de mim mesmo:

‘Reducionismo Nagô’

Nina Rodrigues e o seu ‘pézinho na cozinha’

Retornemos ao final do século 19. A escravidão acabou, em termos históricos, há pouquíssimos anos. Nosso maior estudioso do assunto, o mais proeminente intelectual, chama-se Nina Rodrigues, um médico especializado numa ciência muito recente ainda, por esta época: A Medicina Legal. Nina Rodrigues reside então na França, para onde se transferiu, a fim de aperfeiçoar seus estudos.

Frisemos que Nina era um fervoroso seguidor das idéias de Cesare Lombroso, uma figura que é sempre bom descrever em detalhes, porque está no cerne do pensamento antropológico até hoje em voga no Brasil, por conta, exatamente, da enorme influência que exerceu em nossos antropólogos e etnólogos precursores.

…”Cesare Lombroso foi um professor e criminologista italiano, nascido a 6 de novembro de 1835, em Verona. Tornou-se mundialmente famoso por seus estudos no campo da caracterologia, ou a relação entre características físicas e mentais”…

…”A principal idéia de Lombroso foi parcialmente inspirada pelos estudos genéticos e evolutivos no final do século XIX, e propõe que certos criminosos têm evidências físicas de um “atavismo” (reaparição de caracteristicas que foram apresentadas somente em ascendentes distantes) de tipo hereditário, reminiscente de estágios mais primitivos da evolução humana. Estas anomalias, denominadas de estigmas por Lombroso, poderiam ser expressadas em termos de formas anormais ou dimensões do crânio e mandíbula, assimetrias na face, etc, mas também de outras partes do corpo.

Posteriormente, estas associações foram consideradas altamente inconsistentes ou completamente inexistentes, e as teorias baseadas na causa ambiental da criminalidade se tornaram dominantes.

Apesar da natureza inconsistente destas teorias, Lombroso foi muito influente na Europa (e também no Brasil) entre criminologistas e juristas…”

Contextualizemos juntos então:

Lombroso – um gênio em seu tempo – utilizou como um dos principais elementos de seus estudos antropológicos-forenses, a natureza das precárias condições sanitárias e de higiene de comunidades camponesas italianas, bem como as especiais características dos seus modos de ser e de viver. Saúde (doenças mentais, entre elas o ocultismo, o espiritismo e a possessão ‘demoníaca’, etc) e Cultura; Criminalidade e Cultura; estes foram conceitos embrionários, imiscuídos num mesmo campo de estudo, relacionado à nascente Antropologia de então.

Por analogia com a obra do mestre, onde então teria ido Nina Rodrigues, brasileiro e bahiano, desenvolver suas pesquisa de campo? No seio da população negra da Bahia, classe subalterna do Brasil de então, portadora de uma curiosa e, a esta altura, ainda exótica cultura, praticada, inclusive, por muitos ex-escravos, nascidos na África.

Podemos combinar então que a ‘moderna’ antropologia sobre o negro brasileiro, se inicia portanto, inteiramente contaminada por estas novíssimas e controversas idéias de Medicina legal e Antropologia Forense.

A partir daqui atentem, por favor, para as significativas analogias que foram propostas entre certas características biotípicas de indivíduos negróides e a criminalidade – uma adequação ‘tropicalista’ das experiências de Lombroso com camponeses italianos, como se pode deduzir – ‘atestando’ em meticulosas tabelas antropomórficas, uma suposta tendência dos negros para a prática de delitos psicosociais (linha que aparece, claramente, nos estudos de Nina Rodrigues).

Providencialmente, é na mesma época, inclusive – não podemos nos esquecer – que Arthur de Gobineau publica “Desigualdade das raças Humanas”, livro no qual a existência de uma suposta raça “ariana”, superior a todas as outras (com apenas algumas “impurezas” produzidas pela miscigenação com raças inferiores) passa a ser, veementemente, defendida.

Tão eletrizantes para os intelectuais e acadêmicos da Europa da época quanto as lúgrubes idéias de Lombroso, o pensamento de Gobineau influencia, poderosamente, o pensamento de Nina Rodrigues (e vários de seus seguidores no Brasil, como Arthur Ramos, por exemplo.

A antropologia rudimentar de Lombroso e Gobineau, lançando as bases e fundamentos ‘científicos’ do racismo moderno tem, portanto, tudo a ver, com o raciocínio desenvolvido por Nina Rodrigues (que, segundo más línguas, teria um ´pezinho na cozinha’). Pelo menos é este o ideário expresso em seu único e derradeiro livro ‘Os Africanos no Brasil’ de 1906 que, nestes termos, visto por este ângulo, lança portanto as bases ideológicas do racismo à brasileira que, se definindo ali por volta da década de 1940, não sofre reavaliações importantes até hoje.

Você leu algo sobre isto no Brasil? Quase nada? Pois é. Tal é a lógica insana desta nossa sociedade de insuspeitados subterfúgios.

Em linhas gerais e bem elementares (o tema é muito rico e quem quiser pode aprofundar o quanto puder) a linha de pensamento, ou ideologia sugerida pelo pensamento de Nina Rodrigues – a qual estamos, efetivamente, apontando como a base principal para a maioria dos ‘desvios de rota’ ocorridos com a antropologia do negro brasileiro – foi a seguinte:

1- A população escrava oriunda da África do Norte (ou seja, gente vinda do Golfo do Benin e da Nigéria, basicamente) predominante no perímetro urbano da cidade de Salvador, Bahia, cultora do Candomblé (uma mitologia, segundo se diz, “tão bem” estruturada quanto a grega), por ser, supostamente, de ascendência próxima aos Camitas, ligeiramente aparentada com os ‘brancos’, portanto (traços fisionômicos um pouco similares aos de indivíduos caucasianos – nariz afilado, etc.), seria um extrato populacional semi-civilizado – no caso dos malês (islamizados), gente inclusive ‘letrada’-, apta, de modo geral, a serviços domésticos e afeita à educação e a assimilação social, podendo, em certa medida, viver no convívio em associação com os brancos.

2- A população escrava restante –esmagadora maioria -, originária da costa ocidental da África, basicamente o antigo Reino do Congo, que corresponde, mais ou menos, á atual república popular de Angola e adjacências (além, é claro, de Moçambique, na costa oriental da África) de ascendência predominantemente bantu, seria a parte mais baixa da pirâmide social brasileira, a raça inferior portanto, talhada para ser mantida em condições similares a que era mantida durante a escravidão (recentemente abolida à época de Nina). Os traços originais da ascendência africana desta parte da população negra, considerados rudimentares, teriam se diluído no contato com a cultura portuguesa ou com a propalada ‘pujança’ e superioridade da cultura nagô.

Podemos concluir, portanto, que os argumentos que, naquela época e neste contexto, justificaram o pensamento de Nina Rodrigues sobre a suposta superioridade da cultura Jêje-Yoruba (‘nagôs’) e conseqüente inferioridade dos negros Bantu (Angolanos, Moçambicanos, etc.), apesar de poderem ser vistos hoje, como rematadas tolices, por alguma razão prevaleceram.

Observe-se que, no caso específico da Bahia, berço e campo de pesquisa principal destes estudos recorrentes, chegou-se ao cúmulo de ignorar, quase que completamente, (por ser da outra matriz africana), a cultura tradicional de todo o vasto recôncavo (de forte presença angolana), geradora de manifestações emblemáticas para a cultura brasileira, como são a Capoeira e o Samba de Roda.

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O certo é que, a despeito de serem rematadas, estas tolices de modo algum estão mortas, figurando ainda hoje, renitentemente, como fundamentos da antropologia brasileira ‘oficial‘ sobre o assunto.

Você já leu alguma coisa sobre isto no Brasil? Pois eu também não. Encontrei estas informações em textos angolanos, editados em Portugal. Entre as quais os do antropólogo de Luanda José Maianga é, particularmente, importante, por conter uma aguda e abalizada crítica ao ‘Lusotropicalismo’, teoria (já citada aqui antes) engendrada por Gilberto Freyre, adotada pelo Salazarismo como política de dominação e controle populacional em suas colônias, sob o nome de ‘Assimilacionismo’.

O aspecto mais grave e irônico da questão – além do impasse absoluto que significa para a pesquisa acadêmica brasileira atual (em se tratando do passado remoto das culturas desta matriz africana) ter que se basear numa bibliografia tão inconsistente, soterrada sob camadas sucessivas de erros elementares – é que, por injunções históricas, políticas e geográficas, notórias e sabidas, a maioria esmagadora dos escravos que vieram para o Brasil (notadamente em épocas mais próximas ao nosso tempo), é de origem Bantu, angolanos em sua maioria, portadores de uma cultura que, apesar de ser muito mais antiga até que a própria existência do Brasil, é ainda hoje, quase que, completamente, desconhecida, desqualificada e desprezada que tem sido, por culpa das razões acima aludidas.

Desconhecendo neste aspecto, quase que completamente, a nossa origem real, neste patológico intuito de negar a nossa natureza de cultura descendente de uma certa África, efetivamente negra, de uma cultura rica e sábia, tributária de gente oriunda de civilizações tão originais, antigas e relevantes quanto qualquer uma destas Grécias ou Portugais da vida, vamos assim nos aculturando, nos aviltando, a cada século ficando mais incultos, menos crioulos e mais doidos, sambando um Samba ‘atravessado’ e sem raiz.

Os sinais evidentes (etimológicos, toponímicos) desta nossa, senão majoritária, pelo menos bastante relevante descendência, estão todos aqui e ali no além mar angolano, salpicados por este Brasil simbólico a fora, cravejados na literatura oral desta nossa gente, numa espécie de ‘antropologia popular’, uma ‘etnografia possível’, sem prepostos, nós mesmos homens-livros dançando por aí os nossos jongos e ticumbis, cada um página viva de sua própria história, em si – e por si – mesmo escrita: Bichos-bibliotecas que somos, filhos de nossa memória.

Podemos estar vivendo também numa palavra incompreensível qualquer, gritada como interjeição de alegria – ‘Auê!’ -; num fragmento de melodia – ‘Andambi, ukumbi uá ntunda!’ -, no nome de um rio ou de montinho de terra vermelha – ‘Mu-lundu!’ -; no tempero acre de uma comida ou no jeito de carregar uma lata na cabeça; um Atlântico inteiro de luzes e sentidos a espera de nós aqui e ali está, para ser juntado, catado, linkado, buscado e desvendado enfim.

Um mesmo nome de deus gritado – Nzambi!’ – significando um mesmo modo de adorar e atribuir sentido – ou lógica – às coisas, usos e manejos deste mundo. A revelação enfim do nosso íntimo ser – Mu-ntu! Ba-ntu!’ -, de nós mesmos apartado, pela negação do espelho, está no nosso espírito verdadeiro –‘Nzumbi! -, em todos os seus significados transcrito, pela única marca indelével que nos sobrou:

Nossa língua de homens e mulheres que somos, assim como fomos dantes –‘Ki-Mbundu!

Spírito Santo

Abril 2008

Veja aqui o Enredo#02 = Jongo, Nongo, Jinongo